quinta-feira, 30 de abril de 2009

VISÃO DE SÃO DOMINGOS POR SANTA CATARINA

VISÃO DE SÃO DOMINGOS POR SANTA CATARINA

Ao terminar este mês de Abril dedicado de modo particular a Santa Catarina de Sena, quero apresentar uma visão que Santa Catarina teve e que como dominicano não pode deixar de me impressionar e de colocar algumas questões. Esta visão é relatada na “Legenda” que o Beato Raimundo de Cápua escreveu sobre a vida de Santa Catarina e é da edição francesa do final do século XIX que a retiramos.
“São Domingos chamou-me miraculosamente a entrar na sua Ordem. Reconheço que não era digno, mas seria um filho ingrato se passasse em silêncio a glória do nosso Bem-Aventurado Pai. Devo portanto contar a revelação que Catarina teve sobre ele. O irmão Bartolomeu, que está agora comigo, é que me contou, tal como ela lhe tinha contado a ele.
Catarina assegurava que tinha visto o Pai Todo-Poderoso produzir da sua boca o Filho, que é co-eterno, tal como Ele era quando tomou a natureza humana. E enquanto o contemplava ela viu o Bem-Aventurado Patriarca Domingos sair também do peito do Pai, resplendente de luz. Ouviu então uma voz que dizia: Minha filha, muito amada, gerei estes dois filhos, um por natureza e o outro por uma doce e terna adopção.
Como Catarina se surpreendeu com uma comparação tão elevada, que igualava um santo a Jesus Cristo, Aquele que lhe tinha dito aquelas palavras explicou-lhe: O meu Filho, gerado por natureza desde a eternidade, quando se revestiu da natureza humana obedeceu-me em tudo perfeitamente até à morte. Domingos, o meu filho por adopção, desde o seu nascimento até aos últimos instantes da sua vida, seguiu em todas as coisas a minha vontade. Jamais transgrediu algum dos meus mandamentos, nunca violou a virgindade da sua alma e do seu corpo, sempre conservou a graça do baptismo que o tinha regenerado.
O meu Filho por natureza, que é o Verbo eterno da minha boca, anunciou ao mundo o que lhe tinha encarregado de dizer, e deu testemunho da Verdade, como disse a Pilatos. O meu filho adoptivo, Domingos, pregou também ao mundo a verdade das minhas palavras, ele falou aos heréticos e aos católicos, não só ele mas também por intermédio daqueles que o seguiram. A sua pregação continuou nos seus sucessores, ele prega ainda e pregará sempre.
O meu Filho por natureza enviou os seus discípulos, o meu filho por adopção enviou os seus religiosos, o meu Filho por natureza é o meu Verbo, o meu filho por adopção é o seu arauto, o ministro do meu Verbo. Também eu dei de modo particular a ele e aos seus religiosos a inteligência das minhas palavras e a fidelidade de as seguir.
O meu Filho por natureza tudo fez pelos seus ensinamentos e pelos seus exemplos para procurar a salvação das almas, Domingos meu filho por adopção fez todos os esforços para arrancar as almas dos vícios e do erro. A salvação do próximo foi o seu principal objectivo quando estabeleceu e desenvolveu a sua Ordem.
Também Eu o comparo ao meu Filho por natureza, de quem ele imitou a vida e por isso tu vês que o seu corpo se assemelha ao corpo sagrado do meu divino Filho
”.[1]

Hoje continuamos a ser indignos servos, como se reconhece Raimundo, mas devíamos interrogar-nos sobre o que fizemos com a fidelidade e a inteligência da Palavra.

[1] BEATO RAIMUNDO DE CÁPUA – Vie de Sainte Catherine de Sienne. Paris, Librairie Poussielgue Frères, 1877, 189-190.

SÃO PIO V, PAPA DOMINICANO


SÃO PIO V, PAPA

António Miguel Ghislieri nasceu a 17 de Janeiro de 1504 em Bosco Marengo, Alexandria, Itália. Seus pais Pablo Ghislieri e Dominica Angéria pertenciam à nobreza, mas eram pobres, pois tinham sido desterrados de Bolonha e despojados dos seus bens.
Com 14 anos entrou no convento dominicano de Santa Maria da Piedade de Voghera e mudou o nome para Pio. Estudou em Bolonha e Génova e em 1528 foi ordenado sacerdote. Durante os primeiros anos da sua vida religiosa foi leitor em Bolonha e Pavia, assim como Prior em Vigevano, Alba e Sancino.
Foi também comissário da inquisição romana na Lombardia e enquanto exerceu este cargo mostrou sempre uma grande prudência e ordem na administração e muita caridade, sem contudo deixar de defender os direitos do Papa e da Igreja. Em 1556 foi nomeado bispo por Paulo IV e em 1557 cardeal.
Em 1558 foi nomeado também grande inquisidor da Igreja, cargo que desempenhou com grande zelo, sempre atento aos delitos e por essa razão foi perseguido e sofreu várias tentativas de assassinato.
Em 17 de Janeiro de 1566 foi sagrado pontífice romano, o que foi uma surpresa, pois ninguém esperava que o cardeal Carlos Borromeu, favorito de Paulo IV fizesse convergir os votos para Pio Ghislieri.
Pio manteve o nome e nunca deixou de usar o hábito branco da Ordem durante o resto dos dias da sua vida.
O lema das suas armas era: “Utinam dirigantur viae meae ad custodiendas justificationes tuas”.
Desde o primeiro momento demonstrou querer governar com a maior austeridade e começou dando o exemplo com a sua vida. Levantava-se cedo, guardava o jejum, rezava o ofício completo e o rosário, levava uma vida de grande pobreza e piedade e exercia uma grande caridade para com os pobres, dando esmolas e visitando os doentes e os presos.
Uma das suas actividades como bispo e senhor de Roma está relacionada com as obras públicas e nesse campo acabou o tecto da basílica de São João de Latrão, aumentou os edifícios do Vaticano, construiu o convento de Monte Caballo para trasladar as monjas de São Sixto e construiu um novo aqueduto para trazer água potável para Roma, proibiu a prostituição na cidade, assim como a abertura de tabernas, o que fez de Roma uma cidade mais tranquila e moralizada.
A sua actividade apostólica como pontífice dirigiu-se para a aplicação dos decretos do Concílio de Trento à vida da Igreja, actividade que contou com a ajuda do cardeal Carlos Borromeu que foi o seu braço direito. Pio V começou a reforma na corte papal exigindo uma vida mais austera e assim mandou retirar todas as obras de arte profanas do Vaticano. Procurou também que o colégio cardinalício fosse constituído por prelados dignos que pudessem depois dar à Igreja um futuro pontífice digno e por isso recusou-se a fazer nomeações de pessoas que não tinham idade ou uma vida exemplar.
Executando os decretos do Concílio de Trento ordenou para toda a Igreja normas para uma vida verdadeiramente santa dos sacerdotes, num édito de 1566; normas para a formação teológica, que originou a criação dos seminários diocesanos; a obrigação da residência dos bispos nas suas dioceses e a visita pastoral a toda a diocese; um Catecismo Romano, que foi realizado pelo dominicano português frei Francisco Foreiro, e que garantiria uma uniformidade do ensino doutrinal na Igreja; a edição reformada do Breviário Romano em 1568; e o Missal Romano, publicado em 1570.
Para obter uma edição mais correcta da Vulgata criou uma comissão de cardeais e chamou vários peritos de outros países. Deu também algumas normas para a reforma das ordens religiosas e estabeleceu que os votos não se podiam emitir antes dos 19 anos de idade. Criou a Congregação do Index e ordenou a convocação regular de sínodos de modo a difundirem e a aplicarem os decretos do Concílio.
Numa bula de 11 de Abril de 1567 elevou Santo Tomás a doutor da Igreja com o título de Angélico e propôs o seu estudo para todos os jovens em formação sacerdotal.
Pio V dedicou também muitas energias à defesa da fé católica contra a reforma protestante apoiando, por exemplo, a actividade de Pedro Canísio na Alemanha, o que o fez entrar em conflito com alguns soberanos contemporâneos seus como Filipe II de Espanha, Maximiliano II e Isabel I de Inglaterra, que excomungou em 1570. Muitos destes confrontos tinham a sua origem nos problemas de autoridade temporal, mais que nos problemas teológicos.
O acontecimento político-militar mais significativo do seu pontificado foi a cruzada contra o avanço do Islão na Europa. Os turcos avançavam pela Europa tendo conquistado Chipre e ameaçando a Hungria e as possessões venezianas. Pio V logrou renovar o espírito de cruzada e reunir as frotas de Espanha, Veneza e Estados Pontifícios que unidas venceram os turcos na célebre batalha de Lepanto em 7 de Outubro de 1571. A sua morte livrou-o de ter o desgosto de ver a dissolução da Santa Liga, que para ele era o ponto de apoio para expulsar os turcos da Europa e libertar o Santo Sepulcro.
A vitória de Lepanto de 7 de Outubro foi atribuída à Virgem Maria e ao rosário, uma das devoções particulares de Pio V, que por isso instituiu neste dia a festa de Nossa Senhora da Vitória, que no ano de 1573 era já denominada de festa de Nossa Senhora do Rosário.
Pio V morreu em Roma em 1 de Maio de 1572 e foi sepultado na capela de Santo André em São Pedro. Sixto V fez trasladar os restos mortais à capela do Presépio em Santa Maria Maior e abriu o processo de canonização. Clemente X beatificou-o em 1 de Maio de 1672 e Clemente XI canonizou-o em 22 de Maio de 1712. A sua festa celebra-se a 30 de Abril e o seu corpo venera-se na capela do Santíssimo Sacramento de Santa Maria Maior.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA


FESTA DE SANTA CATARINA DE SENA

A Igreja celebra hoje a festa de Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja e Padroeira da Europa. Para os dominicanos e dominicanas é uma festa de suma importância porque ao celebrarmos Santa Catarina de Sena celebramos o lugar e o papel da mulher nesta grande Ordem religiosa, a sua doutrina e a sua missão na Igreja, mas também o desafio da pregação de que ela é um exemplo.
Quando hoje nos colocamos a questão da pregação, das suas dificuldades, das fronteiras em que nos temos que colocar para ser fiéis ao projecto de São Domingos, Catarina de Sena é para nós um modelo pois soube conciliar duas realidades fundamentais na pregação dominicana, a contemplação e a missão. Foi da sua oração, da sua contemplação, que nasceu a força para enfrentar todos os desafios, para estar à altura de príncipes e cardeais e falar-lhes de mãe para filhos e de filha para pais. Foi da sua vida comum, pois sempre viveu em comunidade, que nasceu o seu sentido de unidade, de incentivo aos outros para que cumprissem a sua missão. Foi do seu estudo, ainda que não soubesse ler nem escrever, mas certamente sabia escutar e ver, que nasceu a preocupação com a unidade da Igreja e com os acontecimentos políticos e sociais em que estava inserida e colocavam em perigo o Corpo de Cristo do qual ela era membro.
Face a isto, para nós hoje, é vital que ao preocuparmo-nos com a pregação, com as missões a que somos chamados, não percamos de vista que sem oração, sem vida comum e sem estudo não há missão que se aguente, e muito menos missão de fronteiras. Poderemos fazer muita coisa, mas certamente faremos coisas sem o sabor do sal das vidas santas que nos precederam e servem de testemunho do caminho a seguir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

MEMÓRIA DE UM TERCEIRO DOMINICANO


SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT

Os dominicanos celebram hoje a memória de São Luís Maria Grignion de Montfort e tal acontece porque este santo, fundador dos Missionários Monfortinos, foi Terceiro Dominicano, ou seja, pertenceu à Ordem Terceira da Penitência de São Domingos, de que também foi membro Santa Catarina de Sena. A sua devoção pelo Rosário coloca-o como um dos mais devotos e maior difusor desta oração tão intrinsecamente dominicana no século XVIII. Não podemos por isso deixar passar a sua memória sem recordar o que foi a sua vida ao serviço da Ordem, da Igreja e de Cristo.

Luís Maria nasceu a 31 de Janeiro de 1673 na Bretanha, em Montfort sur Meu, povoado de que tomou o nome, no seio de uma família pobre e humilde.
Aos vinte anos mudou-se para Paris para prosseguir os estudos eclesiásticos. Devido à sua condição humilde ficou alojado na casa de um sacerdote que recolhia estudantes pobres. Como a pobreza era grande, para obterem alguns rendimentos velavam durante a noite os defuntos na paróquia de Saint Sulpice. Luis Grignion viveu em Paris com grandes dificuldades o que provocou a debilidade física e a consequente doença que o levou ao hospital.
Recuperada a saúde entrou no seminário de Saint Sulpice devido às virtudes e bons costumes. No seminário foi responsável da biblioteca e das cerimónias, das quais era o mestre. A par das horas dedicadas à oração, dedicava também muito tempo a visitar os pobres e os doentes.
No estudo da teologia procurou imitar São Tomás e procurou aprender a teologia de acordo com os clássicos para combater a corrente jansenista que assolava a teologia francesa sua contemporânea.
Após a ordenação presbiteral em 1700 foi para a Bretanha, juntamente com outros sacerdotes, com a missão de ensinar o catecismo aos pobres e aos pecadores.
Devido ao combate e crítica que fazia do jansenismo foi perseguido e expulso de várias dioceses e por esse motivo dirigiu-se a Roma para obter o apoio do papa Clemente XI para se dirigir às missões estrangeiras. O papa não aceitou o seu pedido e nomeou-o missionário apostólico para a França, com a missão de lutar contra a proliferação do jansenismo.
Luis Maria Grignion regressou a França e sobretudo na Bretanha pregou durante o resto dos seus anos imensas missões populares, difundindo a devoção ao rosário, à santa cruz e a consagração a Jesus por meio de Maria.
Para o cabal cumprimento da missão de que tinha sido encarregue fundou em 1703 com Maria Luisa Trichet a Congregação das Filhas da Sabedoria, destinada ao cuidado das crianças e dos pobres; e em 1705 os Missionários da Companhia de Maria, conhecidos por Monfortinos, para que continuassem a sua obra missionária.
No auge das perseguições foi acolhido pelos dominicanos de Nantes em cujo convento em 1710 fez a profissão de Irmão da Terceira Ordem de São Domingos. A partir desse momento Luis Maria Grignion passou a difundir ainda mais o rosário e em todas as paróquias que pregava fundava uma confraria do rosário.
Luis Maria Grignion viveu de maneira heróica a pobreza, a mortificação, a obediência, o amor aos pobres e a paciência e em 28 de Abril de 1716 entregou a sua vida ao Criador. Foi beatificado por Leão XIII em 1888 e canonizado em 1947 por Pio XII que louvou a solidez da sua espiritualidade, a importância da sua mensagem e o seu trabalho apostólico, apontando-o como modelo de missionário.
Luis Maria Grignion de Montfort teve uma grande influência na espiritualidade posterior através dos seus escritos, publicados já depois de falecido. Entre as suas obras destacam-se O Segredo de Maria, e O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, assim como O Amor à Sabedoria Eterna, O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário e a Carta aos Amigos da Cruz.
Os escritos de Luis Maria Grignion de Montfort tiveram uma profunda influência na forma de conceber a devoção à Santíssima Virgem. Ele considera a vida espiritual como uma consagração a Jesus Cristo, sabedoria encarnada, por mediação de Maria e em completa dependência dela, de tal modo que o homem movido por Maria e vivendo nela, com ela e por ela, viva cada vez mais profundamente em Jesus Cristo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

SANTA CATARINA BEBE DA CHAGA DO LADO DE CRISTO


O FRUTO DA VITÓRIA SOBRE SI

O episódio da vida de Santa Catarina de Sena que a seguir vamos relatar parecer-nos-á repugnante, escandaloso, até com uns certos laivos de erotismo ou fetichismo. Contudo, e apesar dessas possíveis leituras, não podemos deixá-lo de lado, não o podemos retirar da Legenda que o Beato Raimundo de Cápua escreveu. E não o podemos fazer porque ele se relaciona com a visão que Santa Catarina teve a seguir e que a imagem anexa ilustra.

Catarina cuidava de uma pobre doente que ninguém queria cuidar, uma doente com um cancro no peito e que apesar de todo o seu cuidado não deixava de piorar.
Um dia em que a pobre serva de Deus descobriu a úlcera para tratar dela, o odor infecto foi tão forte que o seu corpo se revoltou. O estômago ficou cheio de náuseas e o seu coração não deixou de ficar perturbado.
Esta repulsa que sentiu pela doente e a sua ferida foi ainda mais dolorosa na medida em que acontecia num momento da sua vida em que tinha já dado provas de domínio e poder sobre o seu pobre corpo. Sentiu por isso uma santa cólera contra si própria e para não perder o que tinha ganho recolheu numa bacia a água de tratar a chaga viva da doente e bebeu-a de uma só vez, dizendo:
Viva Deus, viva o meu Esposo, amor da minha alma, tu saberás o que faço por tua honra!
Na noite a seguir a esta vitória, e enquanto rezava apareceu-lhe o Salvador dos homens, Jesus Cristo. Mostrando-lhe as cinco chagas recebidas pela salvação disse-lhe:
Minha amada, travastes por mim grandes combates, e com a minha ajuda saístes vitoriosa. Nunca como agora me fostes tão querida e agradável, mas foi hoje que vencestes o meu coração. Não só desprezastes os prazeres sensuais, não só suportastes a opinião contrária dos homens e a sua calúnia, como vencestes a tua natureza bebendo com alegria, por amor de mim, uma bebida horrível. Assim, e porque fizestes isso acima das tuas forças e natureza, quero dar-te um licor superior a qualquer natureza.
Agarrando no pescoço de Catarina aproximou-a da sua chaga do peito e disse-lhe: Bebe minha filha esta bebida que corre do meu lado, ela inebriará a tua alma de doçura e inundará o teu corpo que tu desprezastes por mim.
Catarina colocou a sua boca sobre a chaga e bebeu da fonte da vida, com abundância e avidez, mas sem se saciar e sem satisfazer todo o seu desejo. Quando o Senhor a afastou ela estava saciada mas ao mesmo tempo ávida, porque a fonte da vida apenas sacia aumentando o desejo.
Oh inefável misericórdia do Senhor, vós sois doce para aqueles que vos amam, vós sois delicioso para aqueles que vos provam; mas quando vos dais em abundância a alguém, como deve esse alguém desejar largos momentos de intimidade e deve incorpora-vos na sua substância.
Senhor, eu e os outros que não temos a experiência, não podemos compreender; os cegos não podem julgar a beleza das cores e os surdos o charme da harmonia. Para não sermos ingratos nós contemplamos e admiramos, na medida em que podemos, as grandes graças que concedeis aos vossos santos. E ainda que eles nos ultrapassem nós damos graças à Vossa Majestade na medida das nossas forças.

domingo, 26 de abril de 2009

HOMILIA DO III DOMINGO DO TEMPO PASCAL

Meus irmãos

O Evangelho deste terceiro domingo da Páscoa começa com a referência ao episódio de Emaús, como os discípulos, que se afastavam de Jerusalém, foram capazes de reconhecer Jesus ao partir do pão. Sabemos pelo Evangelho, que imediatamente regressaram a Jerusalém para contar o sucedido aos outros Apóstolos.
Podemos imaginar a surpresa, e até alguma decepção, quando ao chegar e ao contar o que lhes tinha sucedido se deram conta que não tinham sido os únicos privilegiados com a manifestação de Jesus ressuscitado, também a Pedro o Senhor tinha aparecido.
É no momento em que partilham esta alegria dos encontros, da narração do inimaginável, do inaudito e inacreditável que Jesus se faz presente no meio deles. Como lhes tinha prometido, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome eu estarei no meio deles, Jesus manifesta-se-lhes como presente e vivo entre eles.
É um momento de grande alegria, mas também de temor e estupefacção. Alegria por o voltarem a ver, por o terem presente; temor porque ainda não compreendiam toda a dimensão da realidade que se lhes apresentava diante dos olhos, afinal o que era aquilo que eles viam. O facto de terem as portas fechadas e Jesus aparecer no meio deles aumentava ainda mais este temor e o sentimento de estupefacção, pois só os fantasmas têm essa capacidade de atravessar paredes e portas fechadas.
Esta aparição, bem como todas as outras que os Evangelhos nos relatam, face a este clima de temor e incredulidade, manifesta a necessidade que os discípulos tinham de uma formação, de um aprender, do que de facto se estava a passar, quem de facto era aquele que se lhes aparecia e apresentava. As aparições de Jesus durante o tempo pascal, até à Ascensão, com a oferta do seu corpo para tocar, com a comida de que se serve e toma com eles, manifestam essa formação na nova presença real entre os discípulos. Não era já o Jesus que eles tinham conhecido, mas não tinha deixado de ser o Jesus que de facto eles tinham conhecido e acompanhado, pelo qual tinham deixado as suas vidas rotineiras de pescadores e cambistas.
Esta formação que os discípulos tiveram também nós temos necessidade dela, também nós temos necessidade de aprender e apreender que Jesus não é um fantasma, não é uma figura história revolucionária com dois mil anos de seguidores, não, ele não é isso, Jesus é alguém que está e se faz de facto presente entre nós quando nos reunimos para contar e cantar as maravilhas que Deus operou Nele e através Dele em nós.
Contudo, esta presença de Jesus entre nós pode ser bloqueada, pode ser obstaculizada quando não guardamos os seus mandamentos, como nos diz São João. E frequentemente esquecemo-nos que Jesus nos deixou apenas um mandamento, o do amor, e que na sua perspectiva é uma carga leve e um jugo suave. Como é possível então que tenhamos tanta dificuldade em viver o mandamento do amor de Jesus? Como é possível bloquearmos tanto a presença de Jesus entre nós?
Uma das razões para que isso aconteça, porque isso acontece, prende-se com a nossa fragilidade humana, com as nossas limitações, mas também com a nossa falta de fé, que leva a que não sejamos capazes de ter a atitude de São Pedro, como escutámos na leitura dos Actos dos Apóstolos.
Pedro é um dos discípulos que reconhece Jesus como Messias, mas é também o discípulo que o trai, que o nega no momento em que mais era necessário a Jesus ter a ajuda de algum dos seus. Pedro é o discípulo a quem Jesus vai perguntar se O ama, e vai perguntar insistentemente. Depois destas experiências profundamente humanas, das limitações humanas, Pedro vai estar pronto para testemunhar Jesus e para dar a vida por ele.
No discurso dos Actos dos Apóstolos deste domingo Pedro manifesta-se como um grande orador, como um perfeito anunciador de Jesus Cristo, mas também como um homem com uma grande experiência humana da presença de Jesus na sua vida e na vida dos homens. Por essa razão é capaz de reconhecer e mostrar que o crime que os judeus de Jerusalém cometeram foi por ignorância, foi por desconhecimento e falta da experiência pessoal e relacional com esse mesmo Jesus. Eles tinham ouvido falar dele, não o tinham acompanhado, não tinham experimentado a liberdade do seu mandamento do amor.
E é com base neste mandamento do amor que Pedro convida e apela ao arrependimento e à conversão. O discurso que faz não é de culpabilização, de condenação, bem pelo contrário, fundado no mandamento do amor é um convite a uma nova possibilidade de relação, desta feita não já com o homem Jesus, mas com o Cristo ressuscitado.
Também nós, cada um de nós, pela sua experiência pessoal e eclesial de Jesus deveria poder fazer o discurso de Pedro, deveria poder testemunhar como Pedro, mas mais, deveria poder ter uma relação de liberdade com os outros, uma relação que não se funda no preconceito, na condenação, na culpabilização, mas uma relação de fraternidade e compaixão como Pedro foi capaz de ter.
Para isso, para que tal seja possível, temos que ter presente não só o mandamento do amor que nos foi preceituado, a experiência pessoal de relação com Jesus, mas também as palavras da Carta de São João. Nós temos um advogado junto de Deus a interceder por nós. Se alguém pecar deve ter presente esta oferta e benevolência de Deus, porque Deus sabe do que somos feitos, sabe quais são as nossas limitações e fragilidade.
Isto não valida no entanto que possamos fazer tudo o que nos apetece e nos condena ao pecado. Não é isso que nos é dito, o que nos é dito é que temos junto de Deus alguém que nos conhece e sabe das nossas limitações e condição, mas só podemos usufruir e gozar da sua intercessão, da sua experiência da condição humana limitada e frágil, na medida em que o conhecermos e para tal guardarmos os seus mandamentos.
Como ao grupo dos discípulos, encerrados em casa com medo, surpreendidos pelo que cada um estava a experimentar da ressurreição de Jesus, também Jesus se faz presente entre nós. Certamente não o vemos porque ainda não guardamos verdadeiramente o mandamento do amor, porque ainda não somos capazes, das nossas limitações e frustrações, de retirar o poder para o fazer presente e anunciar.
Que neste tempo pascal aprendamos a fazer Jesus presença viva e força anunciadora do seu amor.

SANTA CATARINA DE SENA PREGA AO PAPA


CATARINA PREGA AO PAPA E AOS CARDEAIS

Estava a terminar o verão de 1379 quando Catarina recebeu uma carta de Roma do seu grande amigo e confessor Frei Raimundo de Cápua. O Papa Urbano VI tinha-o incumbido da missão de trazer Catarina para Roma e ele pedia-lhe que viesse.
A resposta de Catarina não foi imediata, não só porque apenas há pouco tempo estava de regresso a casa e aos seus, mas também, e sobretudo, porque havia bastantes vozes críticas relativamente à sua movimentação e viagens. Havia gente que se escandalizava e que comentava que o lugar de uma religiosa era no mosteiro e não nos caminhos e nos negócios dos homens. Catarina vê-se assim confrontada com a necessidade e o pedido de ir para Roma, mas também com o escândalo que isso provocaria naqueles que a conheciam e desejavam junto de si.
Face a esta situação Catarina escreve a Frei Raimundo de Cápua, confessando que sempre viajou por obediência a Deus ou ao seu Vigário e pela salvação das almas. Se agora a razão é a mesma, espera uma ordem escrita do próprio Papa para que possa deslocar-se para Roma, e também para que mais ninguém se escandalize com as suas deslocações. Essa ordem chega dias passados, pois o Urbano VI quer tê-la em Roma e junto de si.
Desta vez Catarina viaja com um grande grupo de acompanhantes entre Irmãs da Penitencia e alguns dos seus filhos espirituais e seguidores. Todos eles preferem mendigar com a Santa o seu comer do que ficar em Siena privados da sua companhia e ensinamentos. Muitos mais a queriam acompanhar, mas ela opôs-se a isso, o grupo já era numeroso.
Quando chegou a Roma no final de Novembro a cidade estava em pé de guerra. Urbano VI por a ver e ter consigo pediu-lhe que dirigisse algumas palavras aos cardeais e à cúria romana que o acompanhavam. Só ela podia mudar alguma coisa no coração daqueles homens.
Catarina, como boa filha de São Domingos, fez uma eloquente pregação na qual, tratando da grave questão que era o cisma, apelou e exortou à constância e força de cada um para o combate da divisão da Igreja. A Providência Divina vigia sobre todos, mas de modo especial sobre aqueles que sofrem com a Igreja e pela Igreja, portanto era necessário continuar a obra de reforma, de combate contra os vícios, confiantes nessa Providência.
Quando Catarina terminou Urbano VI falou assim aos cardeais:
Vede meus irmãos, como somos tímidos, como somos culpáveis diante de Deus, face a esta pequena mulher. Ela que devia ser a tímida, a fraca, mostra-se a forte, a confiante, e encoraja-nos a sermos também fortes e a não vacilar. Quando todo o mundo está contra o Vigário de Cristo que deverá ele temer? Não é Deus Todo-Poderoso mais forte que o mundo? É portanto impossível que Ele abandone a sua Igreja”. Urbano VI encorajava-se assim a ele próprio e aos cardeais que estavam com ele.
Depois deste encontro Catarina continuou em Roma, sempre à disposição do Papa e da luta pela unidade e reforma da Igreja.

sábado, 25 de abril de 2009

FUNDAÇÃO DO MOSTEIRO DE SANTA CATARINA DE SENA DE ÉVORA


Neste mês dedicado a Santa Catarina de Sena, e num blogue dedicado à história dominicana, não podemos deixar passar o dia sem recordar o Mosteiro de Évora que teve esta santa como titular, o Mosteiro de Santa Catarina de Sena. Seguimos a História de São Domingos, de frei Luís de Sousa, para dar notícia da efeméride. A fotografia anexa é o unico documento visual que nos permite ter uma ideia do Mosteiro.

A FUNDAÇÃO DO MOSTEIRO DE SANTA CATARINA DE SENA[1]

Segundo Frei Luís de Sousa, com o crescimento da comunidade, a casa do Recolhimento começou a deixar de ter condições de habitabilidade. A Prioresa Soror Joana de Cristo viu-se assim na necessidade de procurar um novo lugar, com mais largueza, comodidade e espaço para se acolherem e respirar.
Por esta data, D. Francisco de Portugal, Conde de Vimioso, tinha um sítio na cidade com terreno para se poder edificar um bom mosteiro, sítio no qual existia já uma ermida com a invocação de Santa Catarina de Sena. O Conde tinha pensado construir nele, mas por esta altura tudo o que tinha planeado estava parado e indeterminado. Parece poder entender-se que desejava construir um mosteiro.
Aproveitando a passagem por Évora do Provincial, fizeram-lhe as religiosas o pedido para que diligenciasse junto do Conde o negócio do terreno para a construção de um mosteiro para elas. Desta forma encontravam-se os dois desejos, o das religiosas de construírem uma nova casa e o do Conde de ter um mosteiro.
Obtido o assentimento do Conde, a Prioresa Soror Joana de Cristo, para que a construção ficasse com toda a capacidade necessária e boa traça, comprou uma casa grande vizinha pelo valor de mil cruzados.
Como contrapartida do seu consentimento o Conde de Vimioso, D. Francisco de Portugal, apenas exigiu para si e para os seus descendentes a capela-mor e a obrigação das religiosas rezarem um Pai-Nosso, uma Ave-maria e a Oração de Defuntos em comunidade depois da hora de Prima.
Posteriormente, com o convento já edificado, deram as religiosas o padroado à Condessa D. Joana de Vilhena e ao seu filho o Conde D. Afonso, com dois lugares perpétuos para freiras, sem mais dote que uma quarta parte do obrigatório.
A construção do novo mosteiro decorreu com toda a diligência e para isso contribuiu não só o empenho da Prioresa Soror Joana de Cristo, como também a ajuda do Conde de Vimioso e as esmolas dos devotos e benfeitores.
A 24 de Abril de 1547, Domingo do Bom Pastor, estava o edifício em condições de acolher as 24 religiosas que deixaram o Recolhimento de Santa Marta e em procissão solene entraram no Mosteiro de Santa Catarina de Sena.
Como as obras ainda não estavam terminadas e havia urgência em as terminar, para encerrar a clausura e ter as condições necessárias à vida de silêncio, durante a noite as religiosas colaboravam com a edificação transportando os materiais necessários à construção, de modo a que no dia seguinte os trabalhadores já os tivessem junto aos pés.
Desta forma em Agosto estava a obra acabada e puderam as religiosas entrar em procissão nos dormitórios recém terminados de construir. A partir daquele momento puderam dedicar-se em silêncio e clausura à vida contemplativa.
Soror Joana de Cristo conduziu os destinos da comunidade e Mosteiro durante mais vinte anos, ou seja até 1567. Terminou o governo deste mosteiro por ordem do Mestre Geral Justiniano que em 1566 visitou a Província e certamente o mosteiro e a mandou descansar.
Contudo não o pôde fazer porque entretanto foi chamada pelos Superiores para ir fundar o Mosteiro do Bom Pastor em Azeitão. Terminado o ofício de que tinha sido incumbida voltou ao sue Mosteiro de Santa Catarina de Sena em Évora, onde terminou os seus dias em paz.

[1] SOUSA, Frei Luís de – História de São Domingos. Volume II. Porto, Lello Editores, 1977, 228-230.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O ESPONSÓRIO MISTICO DE SANTA CATARINA


O DESPONSÓRIO MISTICO DE SANTA CATARINA

Outro dos episódios importantes na vida de Santa Catarina de Sena para a elaboração da sua iconografia foi o casamento místico com Jesus.
Frei Manuel de Lima no Agiológio Dominico narra-nos o acontecido, tal como aparece na Legenda sobre a santa escrita pelo Beato Raimundo de Cápua.

Chegou o tempo em que os homens barbaramente alucinados costumam preparar-se para entrar na Quaresma com antecipados banquetes e demasias, donde se tem originado tantas dissoluções e desgraças.
E quando o mundo se ocupava nestes divertimentos, se recolheu a santa virgem à sua celazinha e prostrada aos pés de Cristo crucificado começou a dizer: “Oh docíssimo Esposo, resplendor da eterna luz, vós que tende por regalo santificar as mais vis criaturas, atendei às minhas suplicas e sede servido nestes dias em que o inferno doma os seus sequazes confirmar-me a mim nas obras do espírito”.
Apenas acabou esta oração, quando o Senhor lhe apareceu agradecendo-lhe os ardentes desejos e lhe disse: “Porque tu, amada minha, desprezando as vaidades do século puseste todo o amor e delicias em mim que sou o Sumo Bem, quando os mais se entregam a passatempos, é justo que também tenhas a tua festa. Tenho determinado celebrar neste dia contigo um solene desposório, em firmíssima fé como te prometi”.
Apareceu logo com a Rainha das Virgens, o Discípulo Amado, o Apostolo São Paulo, Nosso Pai São Domingos, o Profeta David que com a sua harpa formava uma celestial melodia. Chegou a Virgem Mãe a Catarina e pegando-lhe na mão direita pediu a seu Divino Filho que quisesse recebê-la por esposa e com o tal dar-lhe a sua mão soberana.
Deu o Senhor o consentimento e tirando do dedo um riquíssimo anel, que ornavam quatro pedras preciosas, com um finíssimo diamante o pôs no de Catarina dizendo: “Sabe que Eu teu criador e salvador me desposo contigo na fé, que durará sempre em ti viva até que te seja concedido gozar dos celestiais desposórios e ver-me face a face por toda a eternidade”.
[1]

A fotografia que apresentamos para ilustrar esta representação é uma vez mais dos painéis de azulejos da igreja do antigo convento dominicano de São Paulo de Almada.

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico. Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 167.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A COROA DE ESPINHOS DE SANTA CATARINA DE SENA


AS DUAS COROAS OFERECIDAS

Com tudo o que se dizia sobre Catarina, da calúnia que sobre ela tinha caído, é natural que se sentisse terrivelmente infeliz. O sentimento de ofensa era ainda maior na medida em que ela tinha sido educada numa casa e numa família onde as conversas frívolas e os comportamentos impuros nunca tinham sido tolerados. Os seus pais e demais irmãos sempre tinham preservado o ambiente livre de palavras obscenas, de comentários jocosos ou indecorosos. A esta educação acrescia o seu sentimento de vergonha, de insatisfação por causa dos comentários e histórias que ouvia sobre as vidas pouco honradas e castas que alguns membros da Igreja levavam. Em cada uma dessas histórias era a Igreja, o corpo do seu Esposo, que era atacado e denegrido, e isso não podia deixar Catarina indiferente.
Infeliz por tudo o que se dizia dela e de outros relativamente à pureza de vida e costumes, orou no seu intimo a Deus e com lágrimas pediu-lhe: “Meu Todo-Poderoso Senhor, meu Esposo Amado, vós sabeis quanto delicada é a reputação de uma virgem, e com que cuidados as vossas esposas a devem guardar sem mancha. É por essa razão que confiastes a São José a vossa gloriosa Mãe. Vós conheceis os esforços que faz o pai da mentira para me afastar do que me faz empreender o vosso amor; socorrei-me pois, meu Senhor e meu Deus, uma vez que vós sabeis que sou inocente, e não permitais que a antiga serpente vencida pela vossa Paixão, prevaleça contra mim”.
Estava assim em oração quando teve novamente uma visão, na qual o Salvador do mundo lhe apareceu com uma coroa de jóias na mão direita e uma coroa de espinhos na mão esquerda. Disse-lhe então: “Minha filha bem amada, fica a saber que é necessário que tu tenhas uma a seguir à outra, escolhe portanto a que preferes usar agora. Se escolheres a coroa de espinhos para esta vida, eu guardarei a preciosa para a outra vida; mas se escolheres a coroa preciosa terás de usar a de espinhos depois da morte”.
Respondeu-lhe Catarina: “Meu Senhor, desde há muito tempo que renunciei à minha vontade e prometi seguir unicamente a vossa, por isso não tenho outra escolha a fazer; mas se quereis que responda, digo-vos que nesta vida quero ser conforme à vossa Paixão e que a minha satisfação será de sofrer sempre por vós”.
Enquanto dizia isto, Catarina agarrou avidamente a coroa de espinhos e colocou-a com toda a força sobre a sua cabeça, experimentando a dor dos espinhos na carne. Mesmo depois da visão Catarina continuou a sentir vivamente as feridas provocadas pela coroa de espinhos.
Face a esta atitude disse-lhe o Senhor: “Todas as coisas estão no meu poder e se permiti que este escândalo caísse sobre ti, posso-o fazer acabar num instante. Termina a obra que começastes, não cedas ao demónio que quer impedir-te de fazer o bem. Eu vou dar-te sobre ele uma vitória tão grande que tudo o que ele teceu contra ti se virará contra ele e servirá para a tua glória”.
Face a estas palavras Catarina retomou a sua actividade, o seu serviço, cheia de coragem e vivificada pelas palavras do seu Amado Esposo.

É este acontecimento, esta visão que dá os elementos iconográficos para a identificação de Santa Catarina de Sena, pois a coroa de espinhos com que é representada tem por base esta visão e diálogo com o Deus.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A PERMUTA DO CORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA


A PERMUTA DOS CORAÇÕES

Ao entrarmos em alguma igreja e pararmos diante de um altar dedicado a Santa Catarina de Sena é frequente encontrarmos uma imagem ou representação da santa com o coração na mão, um coração vermelho vivo.
Na iconografia de Santa Catarina de Sena é uma representação que remete para um acontecimento ocorrido no verão de 1370, um acontecimento verdadeiramente significativo como é a troca do seu coração pelo coração de Jesus.
Os seus biógrafos contam-nos que no dia em que meditava as palavras do profeta “Cria em mim Senhor um coração puro”, e rogava a Deus que lhe retirasse o seu coração, no qual se enraizava toda a obstinação, teve uma visão na qual lhe apareceu o Noivo celestial, lhe abriu o peito, lhe retirou o coração e o levou consigo. A impressão e reacção física foram muito intensas, como se já não possuísse coração para viver.
Dois dias mais tarde, depois da Eucaristia em que tinha participado e da qual tinha comungado, estando a rezar na capela della Volte, apareceu-lhe novamente Jesus. Na sua mão trazia um coração humano, vermelho e brilhante de luz. Quando Catarina viu como ele brilhava baixou o rosto e então novamente o Senhor lhe abriu o peito e lhe introduziu o coração, ocupando o lugar deixado pelo outro que lhe tinha retirado dias antes. Disse-lhe então: “Minha querida filha, o outro dia retirei o teu coração; hoje dou-te o meu, para que possas gozar de vida eterna”.
Quando Catarina contou o sucedido a frei Tommaso della Fonte, seu confessor, ele riu-se dela, pois no conjunto dos seus conhecimentos não era possível alguém viver sem coração. Contudo Catarina não deixou de afirmar e reafirmar o sucedido, os seus próprios sentidos e a palavra de Deus não a deixavam duvidar. Os amigos mais íntimos asseguraram também a frei Tommaso que tinham visto com os seus próprios olhos, no lado esquerdo do peito, a cicatriz que testemunhava a permuta de corações, e ele acreditou no sucedido.
A partir desse dia Catarina nunca mais disse “Senhor ofereço-te o meu coração”, mas sempre “Senhor, ofereço-te o teu coração”. E quando comungava o coração batia-lhe com tal violência e alegria que os que estavam ao seu lado o ouviam e ficavam espantados.

SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO


SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO
NO CONVENTO DE SÃO PAULO DE ALMADA

Na igreja do antigo convento dominicano de São Paulo de Almada, hoje Seminário da Diocese de Setúbal, encontra-se um painel de azulejos que ilustra um dos episódios da vida de Santa Inês de Monte Pulciano.
Através do relato hagiográfico que nos faz frei José de Lima no Agiológio Dominico, podemos compreender o painel, e apercebermo-nos da origem de mais um dos elementos iconográficos desta santa dominicana, o fio com a pequena cruz. Eis o que nos diz o texto e que a fotografia anexa ilustra.

Numa noite da Assunção da Rainha do Céu, contemplava ela as festas e alegrias que neste triunfo fez a celestial Jerusalém, e como a Soberana Imperatriz foi coroada da Santíssima Trindade.
E foi tal o desejo que teve de se achar presente que pediu com eficácia à mesma Senhora que ou a conduzisse àquela glória ou, se não era ainda tempo, lhe mostrasse o Divino Infante, que basta para fazer Céu da mesma terra.
Quis a suprema bondade satisfazer os empenhos da sua serva, e permitiu fosse cercada de repentina luz, que excedendo a do sol servia de manto à Mãe de misericórdia, a qual aparecendo-lhe com o amado Filho nos braços encheu de tanta doçura a alma desta santa, que não podendo concentrá-la no peito caiu sem sentidos por terra.
Chegou a ela a benigníssima Rainha e tocando-lhe com a mão lhe infundiu celestial vigor e lhe mandou que se levantasse.
Obedeceu Inês e posta de joelhos diante da soberana Princesa recebeu nos braços o menino. Vendo-se com tão preciosa dádiva a pôs por jóia ao peito, apertou-o com tais extremos e recostou-o sobre o coração com tais afectos que parecia outro Simeão nas súplicas. Fazia contratos com ele que, ou livrando-a das mortais prisões lhe levasse a alma, ou se a queria viva ficasse em sua companhia.
Nestes colóquios amorosos se deteve um bom espaço, porém vendo que era forçoso entregá-lo à mãe, lhe disse: “Ora, Senhor, já que é de vosso agrado ausentar-vos e deixar-me, dai-me ao menos em sinal do vosso amor a prenda que mais vos custou nesta vida mortal, deixai-me a vossa cruz”.
Apenas proferiu estas palavras, quando por piedoso furto lhe roubou uma pequena cruz que o mesmo Menino tinha pendurada ao pescoço em um delicado fio, e depois de a retirar restituiu o fio à Mãe, que sorrindo do devoto roubo mostrou que não lhe desagradava.
Neste tempo desapareceu a celestial visita e Santa Inês caiu de novo com mortal acidente. Acharam-na as religiosas neste estado e com a cruzinha fechada na mão, a qual ainda hoje se mostra no Convento de Monte Puliciano
.”[1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 97.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

HOMILIA 2ª FEIRA DA SEMANA II DO TEMPO PASCAL


HOMILIA do DIA

Depois de terem rezado, tremeu o lugar onde estavam reunidos, todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a anunciar com firmeza a palavra de Deus. (Act 4,31)

É com estas palavras que termina a leitura dos Actos dos Apóstolos que escutámos, palavras que não podem deixar de nos interpelar e ecoar na nossa consciência.
Pelo que ouvimos, e sabemos, é um momento difícil para os Apóstolos, para o grupo daqueles que seguiam Jesus e anunciavam a sua ressurreição. Pedro e João tinham sido presos e interrogados, havia um clima de perseguição e violência com o objectivo muito claro de silenciar a boa nova que eles anunciavam e que colocava os poderes instituídos em causa. É um momento de perigo, certamente de poucas esperanças e de bastante desalento.
Ainda assim, é neste ambiente e com esta realidade presente que os Apóstolos realizam algo que humanamente tem muito pouco de efectivo, de produtivo. Reúnem-se para rezar, para louvar a Deus e pedir a confiança que lhes permita enfrentar os perigos que por todos os lados os espreitam.
Para nós hoje, enquanto Igreja, enquanto comunidade religiosa, enquanto crentes, não pode deixar de ser uma atitude que nos interpele, que nos faça pensar no que estamos a fazer e o que estamos a fazer com a nossa oração.
É verdade assente que a Igreja deve estar no mundo, que não pode nem deve alhear-se das realidades humanas e sociais que a rodeiam. Na oração pelos seus discípulos Jesus pediu ao Pai que protegesse os que eram seus, não queria que os retirasse do mundo, mas que os protegesse. Neste sentido não é possível a um cristão estar fora do mundo, qualquer espiritualidade que o defenda ou proponha é pura alienação.
Contudo, esta constatação não pode nem deve fazer esquecer que estando no mundo, estamos com uma missão, e uma missão que deve ser significativa, interpelante, que deve mostrar que outro mundo é possível. E é aqui que a oração assume um papel importante, como assumiu para os Apóstolos no momento em que a sua vida e missão estava em perigo.
A oração é capaz de dar essa ousadia, essa confiança e coragem que deu aos Apóstolos, é capaz de dar um extra de sentido ao que fazemos, à missão a que nos dedicamos. Num momento cultural e social em que os símbolos e o simbólico estão de regresso, em que os homens e mulheres sentem uma sede de divino, seja ele qual for, a oração pode ajudar-nos a dar essa significativade de que a nossa vida tantas vezes está carenciada e anda falha, pode ajudar-nos a dar uma resposta a estes homens e mulheres que buscam uma resposta para as sua vidas.
Não é uma resposta alienante ou alienada, bem pelo contrário, é uma resposta bastante humana e encarnada, na qual assumimos perante Deus as nossas dificuldades, os nossos problemas, as nossas falhas e fraquezas, bem como o que é dos outros.
Santa Catarina de Sena, como os Apóstolos é para nós um exemplo. Foi uma mulher que se viu envolvida nas grandes questões políticas do seu tempo. Nos últimos anos de vida e segundo o que nos contam escrevia desenfreadamente ao Papa e a reis, pedindo-lhes a paz e a unidade da Igreja. Contudo, e apesar desse ritmo alucinante, que a levou à morte com 33 anos, nunca deixou a sua oração e nela pedia por todos os que conhecia ou lhe pediam. E àqueles que eram os seus filhos espirituais recomendava, como ao Beato Raimundo de Cápua, que por onde andassem nunca abandonassem a sua cela interior. O tempo e o modo de estar presente com Deus.
Mas para tal, para essa cela interior estar aberta, era necessário um cuidado exterior, uma disciplina de oração comunitária e pessoal que não se podia abandonar. Só com ela e com a misericórdia de Deus a cela interior podia ser frequentada. Peçamos a Deus a sua misericórdia e nós apliquemo-nos a exercitar a oração, a não a abandonar.

MEMÓRIA DE SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO


SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO

Se o mês de Abril, para os Dominicanos, pode ser dedicado a Santa Catarina de Sena, uma vez que começa e termina com festas desta santa, não podemos deixar passar nesta data a memória de uma outra santa dominicana e à qual Santa Catarina de Sena chamava de sua mãe gloriosa. É Santa Inês de Monte Pulciano.

Inês nasceu em Gracchiano, na Itália em 1268. Entrou para o mosteiro de Monte Pulciano com nove anos apenas e aos 15 era nomeada Prioresa do Mosteiro de Procena, para onde tinha sido levada por uma religiosa mais velha e sua directora espiritual. Esta nomeação tão precoce deve-se ao indulto do Papa Nicolau IV.
Poucos anos mais tarde regressa a Monte Pulciano, para levar a cabo uma reforma no mosteiro, colocando-o definitivamente sob a autoridade e direcção da Ordem Dominicana.
Inês morreu a 20 de Abril de 1317, no seu mosteiro de Monte Pulciano, depois de uma vida de austeridade e ascese. A sua fama de santidade levou a que em 1435 o seu corpo fosse trasladado para a igreja dominicana de Orvieto. Em 1726, o Papa Bento XIII, um outro dominicano canonizou-a como Santa da Igreja.
Entre os muitos acontecimentos e milagres da sua vida, conta-se um que tem influência na sua iconografia. Assumimos o relato do Agiológio Dominicano do século XVIII.
Tais eram as delícias e espirituais doçuras que neste santo exercício da oração recreavam a alma da Bem Aventurada prioresa (Santa Inês), que embelezado nelas o seu espírito as manifestava exteriormente em forma de doce maná, por lhe não caberem já no interior. Caía-lhe este, ou para melhor dizer, chovia-lhe sobre o manto em forma de puríssimo orvalho, quando orava, e cada gota formava uma estrela que se terminava em cruz.
Eram estas semelhanças misteriosas significações ou de quanto suaves lhe eram as cruzes ou de que as doçuras do céu não se acham nesta vida separadas da cruz.
Particular foi esta deliciosa chuva do maná no dia em que como esposa de Cristo havia de receber o sagrado véu, por mão do bispo, no mosteiro de Procena
”.[1]

[1] LIMA, Fr. Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 97.

domingo, 19 de abril de 2009

HOMILIA II DOMINGO DA PÁSCOA


Meus Irmãos

Antes da reforma litúrgica levada a cabo com o Segundo Concilio do Vaticano o domingo que hoje denominamos como domingo da misericórdia era conhecido e denominado por “domingo in albis”.
Era o domingo a seguir à Pascoa no qual os baptizados na Vigília Pascal retiravam a veste branca que tinha recebido no baptismo. Com este gesto o baptizado ficava a fazer parte de uma forma plena da comunidade dos crentes e baptizados.
Comunidades que vimos apresentada e definida na leitura dos Actos dos Apóstolos, uma comunidade que mais que uma realidade é um projecto, um modelo a edificar e concretizar.
Sabemos pela história, por outros relatos dos próprios Actos dos Apóstolos e pelas cartas de São Paulo que as primeiras comunidades cristãs não eram tão perfeitas como nos é apresentado nesta passagem do livro dos Actos dos Apóstolos. Havia problemas e problemas gravíssimos, o que nos pode fazer interrogar o sentido e a realidade desta comunidade modelo.
Para a compreender temos que ter presente que a comunidade cristã, a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo começou muito antes, no momento em que Jesus chamou os doze para o acompanhar. Temos que ter presente que depois das bodas de Caná houve uma transformação, ou reformulação dessa comunidade e que junto à cruz essa comunidade adquire uma nova dimensão existencial.
Depois das bodas de Caná São João diz-nos que Maria e os discípulos passaram a Cafarnaum e aí viviam em comunidade, uma comunidade que já não assentava nos laços de sangue mas numa relação de fraternidade e discipulado. A comunidade era já algo mais que um grupo de seguidores, ou um grupo de familiares.
Um elemento paradoxal desta comunidade é o próprio Judas, que para além de ter traído o Senhor era também aquele que cuidava da bolsa comum. Por este dado percebemos que havia uma economia comum, para a qual todos contribuíam, inclusive as mulheres que acompanhavam Jesus.
Junto à cruz, com a mãe e o discípulo amado, a comunidade adquire uma dimensão existencial cujo centro é o próprio Jesus, eu deixa de estar presente fisicamente mas continua e passa a estar presente através do cumprimento do mandamento do amor.
Esta é a grande questão da segunda leitura, da leitura da Carta de São João, porque a vida de Jesus, a sua morte e ressurreição, é uma manifestação desse amor de Deus por toda a humanidade e por cada um dos homens. Neste sentido somos todos convidados como discípulos a viver esse mandamento, a fazer Jesus presente, a fazer comunidade como membros desse corpo glorioso que está presente ao mesmo tempo que está ausente.
Esse é o grande sinal que nos é dado pelo Evangelho no qual Tomé duvida da ressurreição do Senhor Jesus. Tomé não estava presente aquando da manifestação de Jesus ressuscitado, um Jesus que se mantinha presente com as marcas da sua paixão, mas que ao mesmo tempo se afastava e tornava presente pela memória do seu amor. A sua dúvida obriga à manifestação e à revelação da nova realidade que Tomé assume de uma forma cabal: “Meu Senhor e meu Deus”.
Com esta afirmação de fé, com este credo, o apóstolo Tomé manifesta a sua confiança, a sua crença num Jesus que viveu e morreu, mas manifesta sobretudo a fé em Jesus que está presente na sua ausência, numa outra dimensão que só é perceptível através dos olhos da alma. É uma presença que extrapola tudo o desejado, tudo o que eles, apóstolos, tinham sonhado e aspirado. Jesus não é o rei, não é o revolucionário, não é o novo governante, é o Senhor e o Deus de cada um que acredita nele e no seu mandamento de amor.
Este facto é para cada um de nós um desafio, na medida em somos colocados perante uma realidade que vemos e desafiados a acreditar em outra realidade que não vemos mas que está presente e existe. Já não é o corpo de Jesus, o corpo que Tomé é convidado a tocar, a comprovar, é o corpo glorioso, o próprio corpo da Igreja, que tantas vezes nos parece como inexistente, como algo inatingível. Perante isto somos convidados a fazer a mesma profissão de fé que fez Tomé, meu Senhor e meu Deus, a acreditar que o corpo de que cada um é membro, está vivo, está presente, e está actuante, ainda que da nossa parte tantas vezes sejamos pouco operacionais e manifestadores dessa existência e dessa acção.
Que o Espírito Santo, que levou Pedro a fazer a sua confissão de fé, e Tomé a fazer a dele, nos ilumine o coração para sermos fiéis e verdadeiramente membros vivos deste corpo que não vemos mas pressentimos.

domingo, 12 de abril de 2009

HINO PASCAL

SEQUÊNCIA PASCAL


À Vítima pascal


ofereçam os cristãos


sacrifícios de louvor.


O Cordeiro resgatou as ovelhas:


Cristo, o Inocente


reconciliou com o Pai os pecadores.


A morte e a vida


travaram um admirável combate:


Depois de morto,


vive e reina o Autor da vida.


Diz-nos Maria: Que vistes no caminho?


Vi o sepulcro de Cristo vivo


e a glória do Ressuscitado.


Vi as testemunhas dos anjos,


vi o sudário e a mortalha.


Ressuscitou Cristo, minha esperança.

sábado, 11 de abril de 2009

Meditação do Silêncio de Sábado Santo


O DIA DO SILÊNCIO

Depois dos gritos dos chefes pedindo a morte, da multidão exaltada e violenta, do choro das mulheres que compreendem a perda de uma vida inocente, dos ferros das armas e dos cascos dos cavalos romanos, do som do martelo sobre o ferro dos cravos, do grito alucinante da expiração, o silêncio, o grande silêncio. Tudo está consumado, tudo foi feito, cumpriu-se tudo o que tinha sido prometido e anunciado.
Aos poucos cada um vai-se retirando, voltando à rotina do comum, à preparação da grande festa que se seguia. Vivemos todos entre a tragédia do sofrimento e da morte e a alegria da festa e do prazer. Uns quantos, encarregues das últimas tarefas, retiram os corpos dos troncos do suplício, os corpos não podiam ficar ali expostos no dia da grande festa.
A família e alguns amigos, uns amigos até então pouco conhecidos, amigos secretos por medo, vieram e recolheram o corpo de Jesus e deram-lhe a sepultura, colocaram-no no lugar do grande silêncio, para o grande silêncio. Depois disso cada um deles voltou ao seu silêncio. Nada havia ainda a dizer, apenas a sua consciência podia falar alguma coisa, podia falar do amor e da traição, da fidelidade e da infidelidade.
Nicodemos recolheu-se a sua casa e durante a noite interrogou-se sobre o nascimento, esse novo nascimento de que Jesus lhe tinha falado uma noite, quando o tinha visitado secretamente. Seria possível nascer de novo? Como se poderá nascer de novo? No fundo o grande desejo de nascer novamente, de nascer para a verdade da vida e da fé naquele homem que agora jaz no silêncio do sepulcro. Em cada momento, e perante a verdade, podemos sempre nascer de novo, aceitando-a e assumindo-a, não vacilando nem fugindo.
João, o jovem João, que tinha assistido a tudo, que se tinha mantido fiel recolheu-se também a casa. O que se tinha passado? Quem era ele agora? Um filho, o substituto do filho. Estava incumbido de uma missão, ser o filho, mas o que significava isso? E como podia ele viver agora, naquele grupo de homens mais velhos, com essa missão e sem a protecção e o amor daquele que os tinha chamado e escolhido para partilharem da sua missão e do seu amor. A memória do amor será a salvação, será a âncora da fidelidade.
Pedro, que chora, que chora dolorosa e desesperadamente, está com ele, partilha o mesmo tecto. Como tinha sido infiel, como tinha traído o Senhor, ele que tanto tinha feito galanteria de o seguir para onde quer que fosse. Quando tudo está bem é tão fácil seguir o Mestre, querer dar a vida por ele, mas quando o perigo aperta como se faz tudo tão mais difícil e a nossa vida muito mais significativa e imprescindível.
E agora, como poderei viver? Porque afinal há em mim um amor por aquele homem, pelo seu projecto que não me deixa tranquilo. Não é o poder pelo qual todos nós sonhámos, no qual acreditámos que viria a ser nosso, não, é essa certeza de ter confessado a sua natureza divina, não por minha capacidade, mas pela força do Espírito. Tu és o Messias! E logo a seguir deixei de ser quem era para passar a ser Pedro, e sobre mim caiu a responsabilidade de animar a confissão dos outros. Como é possível agora, depois de tanta traição, depois de o ter negado não na divindade mas na inocência da sua humanidade?
Maria, ajudada pelas outras mulheres que a tinham acompanhado recolheu também a chorar a dor da perda do filho. Tinha sido demasiado, demasiado ódio, demasiada violência, demasiada humilhação, e o seu filho não merecia isso. Que mal tinha feito ele? Querer o bem dos homens? Que partilhassem a sua liberdade de Filho de Deus? Que mal há nisso para se ser condenado à morte? A dor trespassa o seu coração como uma espada.
Maria Madalena está ali. Depois de terem fechado a pedra do sepulcro continuou ali. Está atónita, sem saber o que fazer, o que pensar, para onde ir. Aquele que a tinha liberto dos seus demónios, que a tinha salvo da sua vida de perdição está também ali, encerado num túmulo escavado na pedra. As palavras que a dignificaram estão agora apenas na memória e no silêncio do desespero da perda. Maria Madalena perdeu o seu Mestre e amigo e nada pode fazer, mas também não pode ausentar-se dali, seria perder o corpo daquele que a amou, que afinal é o pouco que lhe resta.
Maria Madalena permanece no silêncio junto ao túmulo, não à espera da ressurreição pois não sabe ainda o que isso é, virá a saber dentro de pouco, mas permanece para viver a perda, o seu luto. Não pode deixar de o viver.
Do outro lado do silêncio a grande revolução, a batalha final do combate em que a vida vence a morte. È necessário descer até ao mais profundo, ao mais recôndito e escondido, para que a morte seja total, para que nada fique fora da nova vida e criação que se gera.

MEDITAÇÃO DOMINICANA DA PAIXÃO


MEDITAÇÃO DOMINICANA DA PAIXÃO

A representação mais popular e conhecida de São Domingos, pintada pelo Beato Angélico, é simultaneamente a mais desconhecida. Habitualmente chega às nossas mãos apenas o pequeno lado direito, a figura de São Domingos lendo o livro da Sagrada Escritura, ficando toda a demais representação na sombra da beleza da figura juvenil.
Esta selecção e focalização impede-nos de admirar e conhecer aquele que é um dos mais extraordinários frescos do Beato Angélico, aquele que é o mais moderno, quase de um princípio surrealista.
Estamos perante uma representação da Paixão, tema tão caro a São Domingos e certamente também aos irmãos que conviveram com o Beato Angélico, uma vez que encontramos nas diversas celas, que ele pintou a pedido dos irmãos no Convento de São Marcos de Florença, frescos com esta temática.
Podemos dizer que estamos perante uma meditação da Paixão, ainda que uma meditação um pouco desconcertante, até um pouco macabra, uma vez que o Cristo representado está sentado e de olhos vendados, e à sua volta gira como que numa dança um conjunto de mãos e uma cara ofensiva.
São os símbolos do ultraje, da ofensa, os gritos da multidão para que fosse crucificado, as cuspidelas dos soldados romanos, a brutalidade dos socos e do chicote, a coroa de espinhos e a venda para que nada visse do que lhe preparavam. Tudo gira para o magoar, para lhe fazer mal. Em cada ícone representado está um eco dos nossos pecados e daqueles que colocaram Jesus naquela situação. É a traição de Judas e a nossa, é a debandada dos discípulos e o nosso abandono, é a inveja dos poderes religiosos e a nossa própria inveja.
Mas a isto tudo Jesus resiste com uma serenidade tremenda, sentado no seu trono real, vestido com o seu traje branco nupcial. Numa mão o ceptro e na outra a bola do mundo. Ele está a ser julgado, mas ele é que é o juiz, ele está a ser desprezado e humilhado, mas ele é que é o Rei. Há uma tranquilidade tremenda neste Cristo escarnecido, a tranquilidade de quem se sabe entregue à misericórdia do Pai, ao Amor que salva. Nada, nem os instrumentos da Paixão, pode afectar ou extinguir esse Amor, essa misericórdia, e confiança depositada.
Aos pés deste Cristo, São Domingos estuda e lê a Palavra de Deus, fazendo companhia à figura da Mãe de Jesus que no lado oposto parece abandonada. Podíamos dizer que nesta representação temos uma duplicação da entrega da Mãe ao discípulo amado e deste à Mãe de Jesus, como acontece no Evangelho de São João no momento anterior à morte de Jesus.
Depois de celebrarmos a Paixão, a morte de Jesus, fica-nos para o silêncio da contemplação esse fresco e o que ele significa. Cada um está ali representado nas ofensas da sua infidelidade; na filiação e devoção que São Domingos tinha à Mãe de Jesus; na confiança que somos convidados a ter face à integridade e nobreza com que Jesus enfrentou todos os desafios humanos e divinos. Como São Domingos permaneçamos, unidos a Maria, contemplando na Palavra, a face gloriosa oculta de Cristo Salvador.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

ORAÇÃO DE SANTA CATARINA À PAIXÃO


ORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA
À PAIXÃO DE JESUS

Oh doce e eterno Deus, infinitamente sublime! Como nós não podíamos elevar até à tua altura o nosso afecto, que era baixíssimo, nem tão pouco a luz do nosso entendimento, por causa das trevas do pecado, Tu grande Médico deste-nos o Verbo através da comida da humanidade.
Aprisionastes o homem e aprisionastes o demónio, não em virtude da humanidade, mas pela divindade. De esta forma, fazendo-te pequeno, fizestes grande o homem; saturado de opróbrios, encheste-o de bem-aventuranças; passando fome, saciaste-o com o afecto da tua caridade; despojando-te da vida, vestiste-o da graça; coberto de vergonha, devolveste-lhe a honra; sendo denegrido na tua humanidade, devolveste-lhe a luz; ao ser estendido na cruz, abraçaste-o e deste-lhe no teu peito refúgio contra os inimigos.
Neste refúgio pode conhecer a tua caridade, porque com ela demonstras que lhe quisestes dar mais do que podias com uma obra finita. Ali encontrou o banho no qual limpou a lepra do pecado da face da alma.
Oh Amor deleitoso, oh Fogo, oh Abismo de caridade! Oh altura incompreensível! Quanto mais contemplo a tua grandeza na paixão do Verbo, tanto mais se envergonha a minha alma miserável de não te ter conhecido, e isto porque estive viva para o afecto dos sentidos e morta na razão. Que deseje hoje a tua incomensurável caridade iluminar os olhos do meu entendimento e os daqueles que me destes como filhos e os de todas as criaturas racionais.
[1]
[1] Cf. OBRAS DE SANTA CATALINA DE SIENA, Edição preparada por José Salvador y Conde. Madrid, BAC, 2007, 482.

JESUS LAVA OS PÉS AOS DISCÍPULOS


JESUS LAVA OS PÉS AOS DISCÍPULOS

Enquanto celebravam a ceia, Jesus levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. (Jo 13, 4)

Nesta quinta-feira Santa apresentamos um pequeno trecho do comentário de São Tomás a este versículo do Evangelho de São João. É um comentário rico que nos pode ajudar a viver a dimensão do gesto do Senhor na celebração da Última Ceia.

“Relativamente a este primeiro gesto é necessário saber que Cristo, neste gesto de humildade, se mostra servidor, de acordo com a Palavra de São Mateus: O Filho do homem não veio para ser servido mas para servir.
Mas, para ser um bom servidor três coisas são necessárias. Antes de mais que ele esteja atento e veja tudo o que pode faltar no serviço, e ele estará impedido completamente de tal se estiver sentado ou estirado. É esta a razão pela qual é próprio dos servidores estarem de pé. O Evangelista diz assim: Ele se levantou da mesa; e quem é maior, aquele que está à mesa ou aquele que serve?
Em segundo lugar, o servidor deve estar disponível para realizar até ao fim, como convém, as coisas que são necessárias ao serviço. E neste caso, um grande número de vestimentas embaraçam imenso. É por esta razão que o Senhor depôs as suas vestes. Este mesmo facto é significado no livro do Génesis, no qual se diz que Abraão escolheu servidores disponíveis.
Em terceiro lugar, ele deve estar pronto a servir, de maneira que ele tem todas as coisas necessárias para o seu serviço. É dito de Marta, que ela estava absorvida pelas múltiplas necessidades do serviço. E daqui vem que o Senhor, tomando uma toalha se cingiu com ela, estando desta forma pronto não só para lavar os pés mas também para os secar. Por este gesto ele pisa aos pés todo o orgulho, uma vez que aquele que vai para Deus e que saiu de Deus lava os pés.
No sentido místico este gesto pode relacionar-se com dois aspectos, a saber, com a Incarnação de Cristo e com a sua Paixão. Naquilo que se relaciona com a Incarnação podemos receber de Cristo três coisas.
Antes de mais, e com toda a certeza, a sua vontade de socorrer o género humano, simbolizada no facto de se levantar da mesa. Pois Deus, durante todo o tempo que suporta que estejamos em prova, parece estar sentado, mas quando nos liberta da tribulação, vemos como que levantar-se. Levanta-te Senhor e vem em nosso auxílio.
Em seguida, o seu abaixamento; não que Ele deponha a majestade da sua dignidade, mas que a esconda assumindo a nossa pequenez. É por esta razão que é dito: Verdadeiramente tu és um Deus escondido. E isto é significado no facto que ele depôs os seus vestidos, ele abaixou-se por si próprio.
Por fim a assumpção da nossa natureza mortal no facto que tomando uma toalha a atou à cintura, ou seja, tomando a nossa condição de escravo. Mas se isto se relaciona com a Paixão de Cristo, no sentido literal, ele depôs a sua roupa quando os soldados o despojaram e jogaram às sortes a sua roupa, e ele foi envolvido de um lençol no sepulcro. E na sua Paixão ele depôs também a roupa da nossa mortalidade e tomou uma toalha, que significa a brancura da imortalidade, pois Cristo ressuscitando dos mortos não morrerá jamais”
[1].
[1] SÃO TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao Evangelho de São João, Tomo II. Paris, Cerf, 2006, 110.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

HOMENAGEM À MADRE SÃO JOÃO DE BRITO



MADRE SÃO JOÃO DE BRITO

Há pessoas que nos marcam, por aquilo que nos dizem, por aquilo que nos fizeram, ou até por aquilo que deixaram de nos fazer. Há outras pessoas, homens e mulheres que nos marcam apenas pela sua existência, apenas pelo facto de se cruzarem connosco. A sua pessoa entra-nos pelos olhos e mesmo sem querer deixam-nos marcados.
Foi assim com esta mulher, com a Madre São João de Brito, quando a vi pela primeira vez. Entrava na sala com uma leveza, com o que hoje chamamos um “estilo”, que não pode deixar ninguém indiferente. Via-se imediatamente que era alguém diferente, uma mulher com peso, com uma vida cheia e certamente plena.
O hábito branco de Dominicana de Santa Catarina de Sena, o sapato preto e a meia branca. Interrogo-me se algum dia se terá apresentado publicamente sem ser desta forma. À volta do pescoço um cachecol branco, porque a grande casa do Ramalhão, o antigo palácio da rainha Carlota Joaquina, é um lugar frio ainda neste tempo de primavera; e as correntes de ar também abundam. Numa troca de palavras disse-me que o cachecol era o seu distintivo, aquilo que podemos chamar a sua imagem de marca.
Mas não, não podemos dizer que o cachecol é a sua imagem de marca; a sua verdadeira imagem de marca é essa linha de estátua clássica, esse olhar cálido no qual baila um brilho que busca uma resposta, um rosto, alguém com quem partilhar ainda algum sonho. A sua imagem de marca é esse ar de nobreza que lhe é tão natural, essa atenção para com o outro que se lhe apresenta diante, a solicitude mostrada na atenção e preocupação se já temos um café para tomar.
Foi Madre Geral da Congregação, durante doze anos, certamente doze anos difíceis. Hoje, nos seus oitenta e poucos anos não cuida já da Congregação, cuida e acalenta a irmã, irmã mais nova de sangue, com quem partilha os dias e lhe dá algum que fazer. Os problemas de saúde trazem-nos por vezes cruzes que apesar da nossa fortaleza nos custam a levar. A irmã, a Santa Rosa de Viterbo, é essa cruz, que é levada com carinho, com respeito de quem é mais velha e foi superior, mas há momentos em que as forças e a paciência já não dão mais. O peso dos anos e do cuidado vão vergando um pouco a coluna e retirando algum brilho que em outros tempos certamente lhe moldava o rosto.
Considera-se uma conservadora e por essa razão pede desculpa por chegar atrasada ao Oficio Coral. Não acredito que seja por vontade própria, é certamente a responsabilidade do cuidado dos outros. Contudo, este pedido de desculpas afirma uma centralidade, um núcleo essencial, um conjunto de valores que perdemos com a correria do tempo e a forma tão pouco briosa como fazemos as coisas, até as coisas de Deus. Quantas coisas perdemos no caminho, práticas rituais, símbolos, tradições e como é bom revivê-las e por momentos passar-nos pela cabeça a imagem do coro cheio de jovens noviças, de um futuro promissor, futuro que afinal já está no passado e hoje se mostra tão complexo e difícil.
É este mesmo núcleo, esta centralidade que a faz, não digo queixar-se, mas lamentar-se da falta de formação musical, de formação intelectual, da pobreza com que hoje quase todos nós somos formados na vida religiosa dominicana. Já nem sabemos cantar as antífonas ou hinos tão ancestrais como a devoção aos nossos fundadores. É difícil, e ela própria o reconhece, saber quem formar e em que formar. Enquanto foi alguém com poder teve que enfrentar esse dilema e as objecções, em relação a uma outra irmã, daquelas que a deviam aconselhar e apoiar no enriquecimento da congregação.
A formação é fundamental, a todos os níveis, e por isso se interessa ainda tanto por ler, por escutar, mesmo que de um irmão mais novo e a dar os primeiros passos num caminho já largamente trilhado por ela. As páginas do caderno de notas que virava, enquanto proferia as minhas palavras, denunciavam esta necessidade, este desejo. Um dominicano ou dominicana não serve a Ordem nem a Igreja sem formação, e ela quer ainda servir na pobreza da sua idade avançada. Ela que já serviu, como todos nós servimos ou queremos servir, com defeitos e qualidades, com decisões acertadas e outras completamente desastrosas, procura ainda servir com a sua história e a sua experiência.
E quanto temos nós que aprender destas mulheres e destes homens que fizeram a história, a mais remota e a mais recente, das nossas congregações e Ordens. Temos que aprender com os erros, para não os repetir, e temos que aprender com as decisões acertadas, com o que construíram e nos legam, para que as suas vidas não tenham sido em vão e as nossas também não sejam.
A Madre São João de Brito marcou-me neste breve contacto com ela, pela sua extrema dignidade e nobreza, temperadas com a humildade e a caridade. O Apóstolo São Paulo diz que somos embaixadores de Cristo, e como tal não devíamos prescindir na nossa vida desta dignidade e nobreza, moldadas pela humildade e caridade.
Agradeço a Deus esta mulher e a sua vida, o que me ensinou em tão pouco tempo e quase sem dizer palavra. Esta é a minha pequena homenagem a ela e às irmãs que com ela compõem o quadro que tive o privilégio de contemplar e partilhar nestes seis últimos dias. Obrigado meu Deus, obrigado minhas irmãs.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

RETIRO DA COMUNIDADE DO COLÉGIO DO RAMALHÃO



RETIRO ANUAL DA COMUNIDADE RELIGIOSA
DO COLÉGIO DE SÃO JOSÉ DO RAMALHÃO

Ordena o Código de Direito Canónico que os religiosos consagrem durante o ano um período de tempo, de acordo com as suas Constituições, para a realização dos exercícios espirituais, o retiro anual. Este mesmo Código não estipula o tempo necessário, fá-lo apenas para o retiro que os candidatos às Ordens Sacras devem realizar, que é de cinco dias.
As comunidades religiosas adoptaram mais ou menos este período de tempo para a realização dos seus exercícios espirituais, e assim nos últimos cinco dias, e mais um pouco, as irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena do Colégio de São José do Ramalhão, em Sintra, realizaram os seus exercícios anuais, que tive a graça de orientar. E digo graça, porque foi verdadeiramente um momento de graça, de acção de Deus nas nossas vidas.
Para alguém que está fora dos nossos ritmos, que desconhece a nossa vida quotidiana de consagrados, de religiosos e religiosas, pode parecer estranho um retiro anual. Afinal para que serve um retiro, o que é que se faz? Não estão já os consagrados “retirados”, não rezam já, não meditam já na Palavra de Deus, não confrontam já diariamente a sua vida e as suas actividades com a Palavra de Deus e o seu projecto para cada um deles e para a humanidade em geral?
É verdade que sim, ou pelo menos deveria ser assim, porque o que se verifica é que muito frequentemente, e mais do que é desejável, a vida do consagrado e religioso está a transbordar de actividades, de activismo, e sobra muito pouco tempo para aquilo que na essência distingue a vida consagrada dos demais modos de seguimento de Jesus Cristo, a experiência profunda e radical do mistério de Deus.
Neste sentido, e à luz das realidades humanas de cada um e de cada comunidade, é necessário este tempo de retiro, esta pausa na rotina do dia a dia para um encontro mais intenso com Aquele que nos chamou, nos chama cada dia, mas que exige essa relação profunda e intensa para que o dia a dia e o que se faz tenha sentido. Um retiro, este tempo de exercícios espirituais, é assim um tempo para deixar a graça de Deus actuar, em cada um de nós e no grupo ou comunidade a que pertencemos.
As irmãs Dominicanas do Ramalhão apostaram nesta vivência e assim, iluminadas por algumas palavras de reflexão e meditação, abriram os seus corações à graça do Senhor e foram capazes de experimentar e viver um verdadeiro momento revitalizante das suas vidas, do sentido das suas acções e da unidade fraterna que procuram construir.
Um retiro, pelo horário especial que comporta, é sempre um tempo de descentralização, de ruptura, de quebra de esquemas concebidos, que continuam a valer na medida em que são avaliados e avalisados. Depois de um tempo de exercícios espirituais de retiro a vida não pode voltar a ser a mesma, a nossa relação com Deus, com os irmãos e irmãs e com a própria missão a que nos votamos não pode ser a mesma. Algo tem que estar alterado, ter outro, outro lado, o Outro.
Juntamente com as irmãs do Colégio do Ramalhão estiveram outras irmãs, de outras comunidades Dominicanas espalhadas pelo país. Para recordar e manter viva a chama fica a fotografia do grupo, ou de quase todo o grupo, e do orientador.
Que o Senhor nos conceda a graça de nos mantermos fortes na fidelidade ao seu chamamento e à missão a que nos chama.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA


O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA
Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito. Simão Pedro fez-lhe sinal para que perguntasse a quem se referia. Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, perguntou: Senhor, quem é? (Jo 13, 23-25)

O discípulo que Jesus amava é a personagem mais enigmática do Evangelho de São João, ainda que seja uma figura central e considerado como o autor do próprio Evangelho. Na primeira parte do Evangelho está completamente ausente e na segunda parta tanto aparece identificado como o “discípulo que Jesus amava” como o “outro discípulo”. No segundo versículo do capítulo vinte o autor une os dois títulos e portanto é possível perceber que um e outro são a mesma pessoa, o mesmo discípulo.
Ainda que nesta segunda parte do Evangelho o discípulo amado apareça em cinco passagens, situações diferentes, jamais o autor permite a sua identificação com precisão. Parece que o objectivo é exactamente o contrário, ou seja, como que fazer desaparecer o personagem, como que impossibilitar a sua identificação.
À luz destas situações, a primeira evidência e dado passível de identificação é a sua proximidade com Simão Pedro. Os dois discípulos mantêm uma relação única, na qual o discípulo amado funciona sempre como uma espécie de alavanca para Pedro. Este papel de intermediário em favor de Pedro é possível devido à proximidade com Jesus, às relações com o ambiente sacerdotal de Jerusalém e à sua juventude, agilidade e intuição mais viva.
Na narração da última ceia e anúncio da traição de Judas deparamos com esta função intermediária, pois Pedro pede a João que saiba do Senhor quem é aquele que o vai trair. Nesta narração constata-se a proximidade do discípulo amado em relação a Jesus, proximidade que não é apenas física, que não assenta exclusivamente no facto de estar ao seu lado e poder deitar a cabeça sobre o seu peito. A proximidade sublinhada neste momento, e pelo próprio pedido de Pedro, é espiritual e institucional.
Ainda que discípulo como João, e ainda que instituído de uma autoridade particular dada pelo próprio Jesus, Pedro escolhe passar por João para obter do Mestre a informação sobre quem é o traidor. Esta opção de Pedro está carregada de uma premissa que não nos pode passar despercebida. Ao pedir a João que saiba quem é o traidor, Pedro está a colocar João fora dessa possibilidade, desse grupo no qual ele próprio, Pedro, se poderia incluir. João jamais poderá ser o traidor. A proximidade dita enuncia assim uma realidade que está afecta ao próprio nome, o que é amado jamais poderá trair aquele que o ama.
Esta atitude de Pedro pode deixar adivinhar também a possibilidade de uma posição hierárquica de João na comunidade, posição que se prende inevitavelmente com as circunstâncias testamentárias de que se reveste a última ceia. No momento em que Jesus transmite à sua comunidade o que Ele tem de mais precioso, para que ela o recolha e faça vida, colocou junto a si aquele que Ele considera como o herdeiro.
Esta função de herdeiro é evidenciada de modo mais radical no momento da morte, quando junto à cruz estão o discípulo amado, a mãe de Jesus e Maria Madalena. A presença física do discípulo amado sublinha uma fidelidade a toda a prova, uma fidelidade que ninguém pode colocar em causa.
No anúncio feito por Jesus anteriormente, que no momento da sua hora todos os abandonariam e deixariam só, não se inclui o discípulo amado, não se pode incluir porque ele está presente. A proximidade com Jesus, evidenciada no momento da ceia e sobre o seu peito, é confirmada e de uma forma total no momento em que a revelação de Jesus atinge a sua expressão máxima, junto à cruz. Aí Jesus pode proclamar que tudo está cumprido. Mas tudo está cumprido quando Jesus, no momento de deixar abandonada a sua mãe, lhe entrega um outro filho na pessoa do discípulo amado. Este gesto marca também a intimidade existente entre o Mestre e o discípulo. Neste momento é a “família Dei”, uma nova realidade relacional, que nasce da palavra fundadora de Jesus. O núcleo desta nova família é o discípulo amado e a mãe de Jesus, aquela que desde as bodas de Caná da Galileia tinha assumido o papel de mediadora. A mãe de Jesus associada ao discípulo amado representa a comunidade nascente da Igreja naquilo que ela comporta de essencial e de permanente.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

UNÇÃO DE JESUS EM BETÂNIA


JESUS É UNGIDO POR MARIA DE BETÂNIA

Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus.
Então Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume
.
(Jo 12, 1-3)

Este episódio do Evangelho de São João passa-se na intimidade da casa de Lázaro e das suas irmãs, enquanto que fora a multidão e as autoridades procuram Jesus para o prender. É um episódio muito bem enraizado na tradição evangélica e por isso corresponde certamente a um acontecimento histórico. São Marcos e São Mateus contam o sucedido e como São João colocam o acontecimento na última semana de vida de Jesus. As referências temporais situam o acontecimento antes da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. São Lucas narra um episódio semelhante, mas sem precisar o tempo e num outro lugar. Em São Lucas a unção acontece na Galileia e tem como protagonista uma pecadora.
É neste ambiente de festa que Maria traz uma libra de perfume precioso e com ele unge os pés de Jesus. São João salienta a qualidade e quantidade do perfume e o seu preço extraordinário. Uma libra de perfume equivaleria hoje a 330 gramas e o preço dado pelo cálculo de Judas era de trezentos denários.
Se nos recordarmos que no milagre da multiplicação dos pães os apóstolos reclamam a Jesus a exorbitância de duzentos denários de pão para alimentar a multidão de cinco mil homens que se encontravam com eles, podemos imaginar o valor precioso do perfume com que Maria ungiu os pés de Jesus.
Nos Evangelhos de Marcos e Mateus e ao contrário do Evangelho de João a unção é feita na cabeça. Este gesto pode indiciar uma homenagem devida aos convidados de honra, como que uma consagração da amizade, que no caso de Jesus e na casa de Lázaro era de todo merecida face à restituição à vida deste mesmo. No âmbito do Novo Testamento esta unção assumiu um sentido de investidura messiânica.
Mas com Maria a situação é diferente, e sem qualquer paralelo na literatura judaica, facto que lhe dá um carácter extraordinário e portanto de bastante autenticidade histórica. A surpresa provocada em todos os convidados manifesta também essa mesma autenticidade.
O gesto de Maria pode ser um gesto de puro reconhecimento e agradecimento pelo sucedido a seu irmão, pela amizade demonstrada por Jesus relativamente a Lázaro, a ela própria e à sua irmã. Mas a verdade é que Jesus o interpreta no sentido do seu sepultamento e assim a unção de Maria surge como um contraponto ao banquete que se está a desenrolar. A unção opõe-se à festa, uma vez que o perfume alude à morte.
Esta leitura de Jesus e este contraste deixa subjacente que a vida nova, a vida da festa e do banquete do Reino tem como condição a passagem pela Páscoa de Jesus, pela morte. Contudo, a riqueza do perfume, a sua capacidade de encher toda a casa do seu odor manifesta que a vitória sobre a morte é possível. Será possível nele e com ele.
Acolhendo o gesto de Maria, Jesus mostra a sua liberalidade e liberdade generosas e ainda que não agradeça o gesto, nem fale da generosidade de Maria, como acontece no Evangelho de Marcos, Jesus defende o que aquela mulher acabou de fazer em seu beneficio e beneficio próprio.
Jesus defende Maria e elogia-a porque ela pressente a chegada da hora e nesse sentido antecipa a hora da morte de Jesus, antecipa a sua partida eminente. Com este gesto e com o seu amor Maria comungou intuitivamente e antecipadamente com a Páscoa de Jesus.

ELOGIO DA OBEDIÊNCIA


ELOGIO DA OBEDIÊNCIA NOS “DIÁLOGOS”

No livro “Os Diálogos” de Santa Catarina de Sena encontramos um tratado, um conjunto de diálogos, sobre a obediência. É o último conjunto de diálogos do livro. Nesse último diálogo encontramos um elogio da obediência que transcrevemos para meditação.

Elogio da obediência

Oh obediência deleitável, oh obediência agradável, obediência suave, luminosa, porque dissipastes as trevas do amor-próprio. Oh obediência vivificadora, que dás a vida da graça à alma que te elegeu por esposa e se livrou da morte da vontade própria, que dá guerra e morte à alma.
És generosa, fazendo-te submissa a toda a criatura racional, és benigna e piedosa. Com benignidade e mansidão sofres qualquer trabalho, por estares acompanhada da fortaleza e da verdadeira paciência.
Estás coroada com a coroa da perseverança e não diminuis porque o prelado é inoportuno ou porque te impõe sem descrição tarefas pesadas. Tudo suportas à luz da fé.
Estás tão unida à humildade que nenhuma criatura te pode arrancar da mão do santo desejo da alma que te possui.
Que diremos caríssima filha de esta excelentíssima virtude? Que é um bem sem mal algum. Ela permanece escondida na barca de uma forma que nenhum vento a pode danificar; faz navegar a alma nos braços da Ordem e do prelado e não nos seus, porque o verdadeiro obediente não tem que dar conta de si, mas do prelado de quem é súbdito.
Enamora-te queridíssima filha desta gloriosa virtude.

domingo, 5 de abril de 2009

DOMINGO DE RAMOS HOMILIA


DOMINGO DE RAMOS –Ciclo B – Homilia

Quando Samuel estava a terminar os dias da sua vida, os anciãos de Israel foram ter com ele e pediram-lhe um rei. Os filhos que Samuel tinha instituído como juízes do povo tinham-se deixado corromper, tinham-se deixado levar pela avareza e portanto tinham-se tornado indignos da missão que seu pai lhes havia atribuído. Para além disso, o povo queria ser como os outros povos, queria ter um rei como os outros povos, alguém que administrasse a justiça e que caminhasse à frente do povo nos combates das guerras.
Esse pedido dos anciãos do povo, de um rei que os governasse, não agradou a Samuel, e para os tentar mudar de ideias apresentou-lhes os direitos que um futuro rei exigiria, os deveres a que o povo se submeteria. Contudo, tal não foi suficiente para demover os anciãos de quererem um rei e Samuel, por revelação de Deus, acedeu a conceder-lhes o rei solicitado. A história bíblica conta as desilusões que o povo sofreu com os reis demasiado humanos que sucederam a David, o rei que se apresenta como modelo da realeza, apesar de todas as suas infidelidades.
Os contemporâneos de Jesus procuravam também um rei, alguém que correspondesse à promessa do rei Messias e que levantasse o povo contra o jugo do império romano. O milagre da multiplicação dos pães, que São João narra no capítulo sexto do seu Evangelho, foi visto por muitos como a manifestação do rei Messias esperado e por isso após o milagre um grupo procura Jesus para o fazer rei. Perante este desejo e à equivocação daqueles que o procuravam Jesus refugia-se na montanha e escapa à entronização. A fuga de Jesus está relacionada com a divisão que existia entre os judeus sobre o papel exacto desse rei, profeta e Messias. Jesus foge porque ele não é profeta como era esperado pelo povo que fosse, ele foge porque não é rei como a multidão esperava que ele fosse.
A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e que a liturgia comemora neste Domingo de Ramos, torna-se assim de alguma forma enigmática e paradoxal, uma vez que contradiz a atitude geral de Jesus de recusar esse tipo de manifestação, de assumir as expectativas erradas das pessoas.
Para a compreender temos que ter presente que ela acontece após a ressurreição de Lázaro em Betânia, a realização do último sinal revelador da messianidade e realeza de Jesus. Quase que podemos afirmar que o cortejo triunfal começou em Betânia e que é dali que trazem Jesus para Jerusalém para ser coroado rei.
A entrada em Jerusalém é triunfal e os cânticos e gritos da multidão proclamam a realeza de Jesus, realeza que se inscreve na tradição bíblica, pois este rei é já anunciado nos Salmos e é do Salmo 118 que a populaça retira os gritos de louvor. A multidão reserva a Jesus uma recepção que se pode qualificar de três modos, real, aderente e eufórica. É uma recepção real na medida em que pelas suas aclamações se reconhece Jesus como rei de Israel, em virtude de uma missão que Deus lhe conferiu. É uma recepção aderente na medida em que a multidão aceita essa missão real e se submete espontaneamente a ela. É uma recepção eufórica porque é na alegria que é celebrada a chegada do rei, e portanto toda a dor e sofrimento estão banidos e esquecidos.
Entre a multidão delirante e o hóspede, o rei que chega, parece assim estabelecer-se um acordo sobre o papel de cada elemento. Jesus assume-se no papel de rei enquanto que a multidão se assume como o povo de Israel. A realeza que preside ao momento da entrada real continua assim de forma ambígua, mas ao contrário do momento imediatamente a seguir à multiplicação dos pães, Jesus aqui não foge, bem pelo contrário, assume a sua condição real.
Esta mudança no comportamento de Jesus prende-se com o facto de que a entrada em Jerusalém nesta condição é inevitável, a entrada messiânica é um processo obrigatório para o Messias, e portanto Jesus submete-se a esse processo, reservando-se para mais tarde o direito e a possibilidade de esclarecer o tipo de realeza que estava disposto a encarnar e viver. A referência às Escrituras e à incompreensão por parte dos discípulos antes da ressurreição demonstram claramente a distância que existia entre a escolha de Jesus e as expectativas da multidão sobre a forma de ser rei.
A realeza manifestada neste acontecimento compreende-se quando temos presente a referência à profecia de Zacarias e a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumentinho, filho de uma jumenta. Ao entrar desta forma, e ainda que com símbolos de guerra como são as folhas de palmeira desde o tempo dos Macabeus, Jesus apresenta-se como um príncipe da paz. A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é a entrada triunfal do príncipe da paz e neste sentido a entrada triunfal do Messias, do Filho de Deus, ainda que esta acepção e leitura só se possa fazer depois da ressurreição.
Acompanhemos Jesus nesta entrada, não de forma equivocada, com expectativas ou esperanças humanas de poder, mas com o espírito de construtores da paz com que Jesus entrou e se deixou aclamar.