sexta-feira, 29 de abril de 2011

À volta das redes (Jo 21,6)

Ao manifestar-se às mulheres, na manhã da ressurreição, Jesus envia-as a anunciar não só a sua ressurreição aos discípulos, mas também que regressem à Galileia, pois ali se voltarão a encontrar. Não é assim estranho que encontremos no Evangelho de São João os discípulos, alguns discípulos na faina da pesca depois da ressurreição de Jesus. Poderíamos pensar que voltaram ao seu ambiente e aos seus afazeres como lhe foi indicado.
Contudo, a referência aos primeiros discípulos que são chamados, o número de sete que andam nessa pesca, retira-nos desse contexto imediato de regresso à vida corrente e habitual. Há algo mais nesta pesca e neste encontro com Jesus na margem do lago, como uma analepse ao momento da primeira chamada, do primeiro convite ao seguimento.
Seguimento e pesca que podem ser feitas alicerçadas apenas nas nossas forças, na nossa boa vontade e energia. Tal como Pedro também nos podemos lançar na pesca confiantes das nossas forças e da nossa experiência. Pesca que por isso ocorre durante a noite, sem essa luz que raia quando Jesus aparece na margem.
E é perante este Jesus, quase marginal à acção de Pedro, que descobrimos, tal como Pedro descobre, que necessitamos revestir-nos da roupagem da fé na presença de Jesus. Não podemos pescar nem levar a cabo a nossa missão centrados apenas nas nossas capacidades e habilitações, necessitamos da fé na presença de Jesus, no seu esforço ao nosso lado.
João, o discípulo amado, percebe essa presença, em virtude dessa intimidade que mantém com o Senhor, dessa relação que lhe permite vislumbrá-lo nas margens do lago onde somos enviados a pescar. Tantas vezes é nas nossas margens que também descobrimos a presença de Jesus, no insuspeitável da sua presença entre nós e nos irmãos.
E quando fazemos essa descoberta e nos lançamos confiantes nela, sem mecanismos de auto-suficiência ou glorificação, encontramos a possibilidade de uma rede bem cheia, uma boa colheita na messe do Senhor. Bem como essa refeição à nossa espera que o Senhor preparou para nosso fortalecimento e nossa fraternidade, um momento de descanso e encontro com Jesus e com os irmãos.
Necessitamos assim abandonar as nossas redes, os nossos esquemas de prossecução auto-suficiente, para agarrar as redes que o Senhor nos coloca nas mãos e trabalha connosco.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A paz esteja convosco!

As aparições de Jesus aos discípulos depois da ressurreição começam quase sempre com este apelo, este convite à paz. A paz esteja convosco, a paz esteja nos vossos corações.
Na aparição ao conjunto dos discípulos, depois do encontro e manifestação a caminho de Emaús, este convite à paz faz-se mais premente, na medida em que os discípulos reunidos julgam ver um fantasma, um espírito no meio deles. Jesus tinha aparecido no meio deles sem qualquer manifestação extraordinária e também sem ter entrado pela porta.
É por isso necessária a paz e a tranquilidade de coração para perceber que aquele Jesus que está presente entre eles não é um fantasma, é o mesmo Jesus que conheceram. E se Jesus lhes pede um pouco de peixe é para lhes confirmar a realidade da sua presença e da sua pessoa viva entre eles.
Depois de comer, de lhes comprovar fisicamente a sua presença, Jesus começa a ensiná-los, a mostrar-lhes como tudo o que tinha acontecido nos últimos dias tinha sido anunciado pelos profetas e pelos salmos, como toda a sua vida, o que eles tinham visto e partilhado, tinha sido uma preparação para esse momento doloroso que ele tinha passado e eles tinham testemunhado.
Face a tudo isto, à sua presença viva e às razões do acontecido, nenhum deles tinha razão para estar perturbado, para duvidar ou deixar de ter paz no coração. Afinal tudo se tinha cumprido de acordo com a vontade do Pai e o seu amor obediente.
Neste sentido, também a nós é feito o mesmo apelo, o mesmo convite à paz de coração, pois como os discípulos não temos motivos para estar perturbados com Jesus. No mistério da sua incarnação o Filho de Deus fez o caminho dos homens, experimentou as nossas fraquezas e limitações, na sua paixão e morte não só levou ao extremo o seu amor por nós e pela nossa condição de excluídos como por seu intermédio nos resgatou dessa condição, e depois de subir ao céu, de regressar para a glória, intercede junto do Pai por cada um de nós apresentando-lhe a oferta de amor que fez para sempre por todos os homens.
E se tudo isto não bastasse para a nossa confiança e esperança, para a nossa paz de coração, deixou-nos ainda o Espírito Santo, luz e força que clama no nosso coração e nos ilumina na medida dos nossos desejos de fidelidade e obediência à vontade de Deus.
Caminhemos assim em direcção à casa do Pai com essa paz que não se perturba, porque o Senhor é o nosso pastor e nada nos deixará faltar.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A caminho de Emaús

Os acontecimentos de Jerusalém foram constrangedores, de certa forma defraudantes das expectativas criadas ao longo de todo um caminho e um tempo vivido com Jesus. E assim, após a prisão e a morte cada um procurou dar um rumo às suas vidas e à frustração sentida.
É neste contexto que encontramos dois homens a caminho, dois homens que parecem fugir aos acontecimentos, ainda que bem conscientes de tudo o que se tinha passado. Por isso é num tom amargo, desiludido, que confrontam aquele que se junta a eles neste caminho e nesta fuga. Como é possível que vindo também de Jerusalém não soubesse o que se tinha lá passado?
Contudo, aquele caminhante como eles, sabe muito bem o que se lá passou, sabe até bem melhor que eles, e por isso os começa a ensinar, a elucidar sobre a verdadeira dimensão do sucedido e das suas razões. Não foi em vão, não foi um desastre, nem um motivo para desilusão, bem pelo contrário tudo estava anunciado pelos profetas e tudo tinha que se cumprir assim para a salvação dos homens.
E à medida que o esclarecimento se vai fazendo, sem qualquer condenação ou crítica face à atitude de frustração e fuga, os dois caminhantes e discípulos vão sentido no interior do seu coração que algo novo tinha acontecido, algo inusitado, e inexplicável à luz da razão, mas completamente compreensível à luz do amor e da aliança de Deus com o seu povo.
O caminho é longo e por isso necessitam pernoitar ali naquele lugar de Emaús, retemperar as forças para o resto da caminhada. O terceiro caminhante junta-se a eles depois de alguma insistência, como se houvesse uma necessidade de pedir a sua companhia, a sua presença.
E então acontece o insuspeitável, o terceiro caminhante ao partir o pão pronuncia a bênção, tal como tinha feito outras tantas vezes diante dos seus amigos e discípulos, revelando assim aos outros dois a sua pessoa, a presença junto deles desse Jesus que eles pensavam morto.
À surpresa sucede-se a alegria, a certeza que a sua palavra no caminho os tinha deixado bastante confortados e conscientes da real dimensão do sucedido e face a isso a necessidade urgente de avisar os outros, de os colocar ao corrente da presença de Jesus entre eles.
Na nossa caminhada de fé encontramo-nos como estes dois caminhantes, por vezes desiludidos e frustrados com a incompreensão de Deus e a falta de uma resposta aos nossos pedidos. E então, também na nossa história Deus vem ao nosso encontro e caminha connosco.
Antes de mais tal encontro fez-se no mistério da Incarnação, quando o Filho de Deus se fez homem como nós, mas depois vem e continua a vir na medida da nossa relação com ele, na medida em que o colocamos a caminhar connosco, lhe damos atenção na Palavra que nos deixou e o convidamos a ficar connosco, a pernoitar nas nossas fraquezas e cansaços.
E de modo especial encontramo-lo ao partir do pão, nessa celebração e sacramento em que fazemos memória do dom do amor, somos alimentados no seu amor e nos confrontamos com a urgência do amor dos outros, aos quais todo este processo nos deve conduzir.
Emaús é assim um convite ao encontro com a Palavra, à celebração da Eucaristia, ao sentido de caminhada da nossa vida e à partilha com os outros desse caminho que nos conduz ao encontro do Outro que é Deus.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Maria Madalena frente ao sepulcro vazio

Maria Madalena é uma figura apaixonante e na manhã de Páscoa deixa-nos ainda mais apaixonados na persistência da sua espera e da sua busca. Soubéssemos e tivéssemos nós a força dela para permanecer junto ao túmulo.
Porque Maria Madalena, depois de ter avisado o discípulo amado e Pedro que o sepulcro estava vazio, e depois destes o terem confirmado, regressa ao ponto de partida, regressa ao sepulcro vazio e aí fica à espera.
Num gesto de busca e confirmação, do que tanto Pedro como o discípulo amado tinham visto, Maria Madalena debruça-se para o interior do sepulcro, imitando esse gesto intimo e amante do discípulo amado de prosternação, de adoração de uma realidade invisível.
E é nessa busca interior, nesse olhar solicitante, entre lágrimas, que Maria Madalena vislumbra dois anjos brancos, colocados um à cabeceira e outro aos pés do lugar onde o corpo de Jesus tinha sido colocado. Poderiam ser até uma visão, uma visão desses dois querubins que de um lado e de outro guardavam e veneravam a Arca da Aliança, mas a palavra que lhe dirigem denuncia a presença de alguém para além de uma visão.
Por que choras, é a pergunta dos anjos, uma pergunta que testemunha que a novidade da ressurreição chegou já aos membros da corte celeste, é já um facto assumido e festejado por todos. E portanto não vale a pena chorar nem procurar entre os mortos aquele que está vivo, aquele que é o Senhor da vida. Nem sequer há um cadáver para procurar, pelo que é entre os vivos que Maria Madalena deve procurar o seu Senhor, que deve converter o seu olhar para o encontrar.
É face a esta recomendação que Maria Madalena se vira para trás, como numa atitude de conversão, pois já não é necessário buscar no sepulcro vazio mas fora dele o Senhor que ama. E nesta conversão, nesta volta o encontro acontece.
Um encontro ainda tingido de incompreensão, pois Maria Madalena continua procurando o morto, enquanto que diante de si se lhe manifesta o Senhor vivo, que ela não reconhece, mas apenas vê como um estranho, um jardineiro que talvez soubesse do lugar para onde tinha sido levado aquele que ela buscava.
São necessárias assim as palavras de Jesus, e de modo muito particular a nomeação do interlocutor para que Maria Madalena descubra a pessoa que tem diante de si e a relação que se fundamenta nesse nome pronunciado, Maria. É um eu e um tu, uma relação que se desvela diante de Maria e a faz voltar-se novamente, ficando assim de frente para o sepulcro vazio, para essa realidade que é necessário olhar com outros olhos.
E então, onde antes Maria não tinha visto mais que um sepulcro vazio e um corpo desaparecido, percebe agora a presença do ressuscitado vitorioso, desse que é capaz de lhe dizer “Maria” em resposta à sua pergunta “onde o colocastes”. É nela que ele está presente, vivo, é nela que tem que o buscar e encontrar, naquilo que viveram juntos e lhes permite dizer Maria e Mestre.
Também os sepulcros vazios das nossas vidas esperam este olhar, este olhar que nasce de um nome e de uma relação, e então poderemos descobrir como também aí, nas nossas falhas, misérias e infidelidades, o Cristo ressuscitado se faz presente com todo o sofrimento que padeceu por nós e com a vitória da ressurreição pelo amor com que nos amou.
Neste sentido soam as palavras do Apocalipse, “eu estou à porta e bato, se alguém me abrir a porta eu entrarei e cearei com ele, e ficarei com ele e ele comigo”. Acorramos a abrir a porta.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

As mulheres da manhã de Páscoa

Na continuação da manhã de Páscoa o Evangelho de São Mateus apresenta-nos duas histórias, ou duas atitudes face à ressurreição de Jesus. Como que num drama cinematográfico opõe-se a tragédia dos guardas e dos príncipes dos sacerdotes à alegria e beleza das mulheres que se encontram com o Jesus ressuscitado.
Não sabemos o que os guardas contaram aos príncipes dos sacerdotes, os evangelistas não nos informam sobre esse ponto, apenas sabemos que perante a novidade trazida pelos guardas os príncipes dos sacerdotes se reúnem para decidir o que fazer.
Num processo de recusa do que lhes é revelado, perante a verdade da ressurreição, o conselho opta por enveredar pela mentira, pela difamação dos discípulos como ladrões de corpo do morto e pelo suborno dos guardas para que não revelassem a verdade do que tinham presenciado.
O grupo dos príncipes dos sacerdotes não se preocupa em averiguar, em ir ver, em confirmar com os seus olhos o sucedido, apenas preocupado com a sua reputação e a sua credibilidade aos olhos dos outros procura subtrair qualquer possibilidade de conhecimento do acontecido. É a lógica da mentira e da recusa da verdade que prevalece.
Ao contrário, e como que num jogo de luz reveladora da hipócrita atitude dos sacerdotes, as mulheres aparecem encontrando-se com o Jesus que buscam e que se lhes revela ressuscitado. E diante dessa manifestação a adoração devida àquele que não é já só o Mestre que elas conheciam mas o Senhor do Reino dos céus.
Para além de todas estas atitudes, da busca, do encontro e da prosternação para a adoração, surpreende o acolhimento da ressurreição e do ressuscitado, um acolhimento sem qualquer dúvida, sem qualquer hesitação, sem qualquer interrogação. Como se estivessem à espera.
Estas duas atitudes, como que dois eixos, estão também presentes na nossa vida de homens crentes, pois por momentos vivemos o acolhimento e a alegria da ressurreição, mas em outros momentos vivemos também a cegueira da nossa auto justificação infiel.
E no encontro de Jesus com as mulheres fica-nos um desafio, esse regresso à Galileia para nos encontrarmos com Jesus ressuscitado, pois é aí e nesse tempo do quotidiano, da história vivida entre os homens que nos podemos encontrar com o Jesus ressuscitado. É na luz trémula do nosso dia a dia que quer ver despontada a luz da vitória da Páscoa e procurada a possibilidade do encontro com Ele.

domingo, 24 de abril de 2011

Homilia do Domingo da Ressurreição do Senhor

Era o primeiro dia da semana e fazia ainda escuro. É assim que São João nos situa no tempo e nos prepara para o grande mistério da ressurreição de Jesus.
Este primeiro dia da semana pode ser o domingo, mas à luz da nova criação esboçada logo no Prólogo do Evangelho de São João corresponde ao primeiro dia da nova criação, ao primeiro dia da semana da nova obra criadora de Deus.
E por isso é um dia que ainda desponta, pois o sol vencedor ainda não se ergueu na sua totalidade, ainda não subiu ao Pai como dirá àquela que nesta aurora o busca ansiosa e atormentada pela dor da perda.
Maria Madalena nesta sombra que ainda cobre a terra e a cobre a ela faz parte do mundo antigo, da antiga Aliança que espera o seu Senhor. Ela é ainda uma criatura do mundo antigo, velho de esperar, mas que busca uma resposta.
E é nesta busca e na solidão da dor da perda que Maria Madalena se encontra com a pedra do sepulcro retirada. O evangelista não nos diz se entrou ou não no sepulcro, mas apenas que imediatamente correu a avisar Pedro e o discípulo amado do desaparecimento do corpo do Senhor.
Maria Madalena é a primeira anunciadora da ressurreição sem que tenha qualquer consciência do que testemunha. No entanto as palavras que usa deixam entrever uma outra realidade, um conjunto de homens e mulheres que estão representados nela, a humanidade.
Não sabemos, é o plural que Maria Madalena usa para avisar Pedro e pode ser que se queira referir às outras mulheres que também foram ao sepulcro naquela manhã. Contudo, não podemos esquecer que João não fala de outras mulheres e sobretudo que esta expressão é usadas outras vezes no Evangelho e sempre referida a Jesus. Assim não sabemos quem é, não sabemos de onde vem, não sabemos o que quer, não queremos saber do que ensina.
É uma expressão que não pode ser referida às mulheres, mas a todos aqueles que se cruzaram com Jesus e não foram capazes de encontrar uma resposta em Jesus, uma resposta cientifica, comprovada na sua lógica de princípios e fins, uma referência a todos aqueles que nos seus encontros se deram de caras com um desconhecimento sobre Jesus.
Não sabemos, revela também aqui e agora esse desconhecimento do que se passa, do lugar misterioso onde o Senhor se encontra e não é acessível à investigação racional, às tentativas racionais de uma explicação daqueles que viveram com ele.
Mas não é só esta expressão que dá a Maria Madalena uma dimensão particular no testemunho da ressurreição, pois a forma como ela fala de Jesus, do corpo do Senhor e do seu desaparecimento parece indiciar uma vida, o desaparecimento, ou melhor, o rapto do corpo do Senhor. Transparece assim na forma como fala uma ideia de vida que não terminou, que sofreu uma alteração, mas se mantém viva e vivificante.
E é perante este anúncio do desaparecimento do corpo do Senhor que Pedro e o discípulo amado correm rapidamente para o sepulcro, como que incrédulos na palavra de Maria Madalena e desejosos de ver com os próprios olhos.
São João diz-nos que corriam lado a lado, como que de mãos dadas, pois ambos são discípulos e ambos buscam e desejam a mesma experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Contudo, o mais jovem, o discípulo amado consegue chegar primeiro.
É o mais novo e o mais ágil, mas é também aquele que está mais adiantado no conhecimento de Jesus, do Mestre que todos abandonaram mas que ele acompanhou até ao último momento. A sua agilidade é também fruto dessa intimidade partilhada na última ceia, quando repousava sobre o peito do Senhor enquanto este entregava o seu corpo e o seu sangue para remissão dos pecados de todos.
Ainda que chegando primeiro, João aguarda a entrada de Pedro, desse Pedro que necessita ver com os olhos, entrar no túmulo e confirmar com o sudário e o lençol que o corpo não está ali, que de facto desapareceu.
Pedro permanece ainda nas trevas do mundo antigo, nessa escuridão da madrugada que começa a ser trespassada pela luz que desponta no horizonte. E por isso olha, confirma os restos do sepultamento mas não vê mais nada, não vê a presença que se desenha de novo entre eles.
João, de fora e de uma forma reverente, quase que prostrado, adora a ausência do corpo e nessa ausência vê a presença do Senhor, do Senhor ressuscitado, e acredita. João é já um homem do novo mundo, da nova criação, está iluminado na sua madrugada pelo amor de que foi objecto e por isso pode ver a presença amorosa o seu Senhor.
E um abismo se abre entre o discípulo amado e Pedro, porque este vê apenas uma pedra rolada e um corpo que desapareceu, enquanto que o discípulo amado vê a pedra rolada para que todos entremos nessa experiência. Pedro reage racionalizando o que se lhe depara diante dos olhos enquanto que o discípulo amado reverencia, ama e espera.
Também nós, como baptizados, somos convidados a deixar de lado os nossos juízos, as nossas racionalizações do mistério de Jesus e a aventurar-nos como João no amor de um Senhor que parece ausente, mas é mais presença que nunca nessa mesma ausência. Presença total, em todos, para todos e para sempre.

sábado, 23 de abril de 2011

O silêncio do grão de trigo

O grão de trigo foi lançado, à terra.
O corpo entregue sem medida.
Uma pedra sela o túmulo,
o rego da sementeira foi coberto.
Um só e o silêncio.
A noite sem tempo e o dia sem luz.
Apenas o silêncio.
E a solidão do corpo entregue,
a semente lançada.
E a casca como que se rompe,
estala a vida que a habita.
Germina uma força, incontrolável.
Um prolongamento, uma haste
elevar-se e procurar a luz,
porque a escuridão e o calor da terra
já cumpriram a missão.
O ar fresco da manhã, uma folha
um caule e outras folhas.
A flor e o sol
e uma mão cheia de frutos.
Alvos, rubros, dourados,
todos frutos dessa semente entregue
à terra lançada.
Ao cair da tarde, outra semente
outro corpo, nova sementeira.
E o silêncio, outro útero
para nova vida.

Atendei e vede se há dor igual à minha!

Tudo está consumado, tudo terminou, a violência, a dor, o sofrimento e o opróbrio. E ainda uma lança, um golpe final, quando já nada havia de vida, quando o espírito estava já nas mãos do Pai.
Retiraram-se todos, os que gritavam e zombavam pedindo um milagre, os que o tinham condenado ainda antes de o julgarem, os soldados que levaram consigo a túnica e o manto. Apenas dois bárbaros vigiam os corpos já frios dos condenados.
José de Arimateia e Nicodemos apareceram, já sem medo ou não estivesse ali morto aquele que lhes podia alterar as vidas. Vieram com aromas e uns lençóis para sepultar o corpo. Desceram-no da cruz com a ajuda de João, e colocaram-no no seu regaço.
Depois de tantos gritos contidos e das lágrimas que não caíram, pode agora clamar, pode agora estender a mão de revolta e de súplica, e gritar “vós homens que passais, atendei e vede se há dor igual à minha”.
No seu regaço, o corpo frio do filho, o mesmo corpo que ela tinha cuidado envolto em faixas de linho pouco depois de nascer na gruta de Belém. O corpo que ela tinha visto crescer em graça e formosura, que um dia por distracção tinha perdido em Jerusalém.
O seu menino, o seu filho amado, jaz agora ali no seu regaço, sem vida e sem calor, ele que tanta vida tinha dado, que tantos homens e mulheres tinha aquecido com o seu amor e a sua palavra.
Vós que passais vede se há dor igual a esta, a dor da perda de um filho, o filho único e muito amado, o filho que um dia lhe foi anunciado por um anjo que seria o chefe da casa de Israel. E os chefes da casa de Israel entregaram-no à morte.
Ninguém lhe responde, nem uma palavra, pois não há palavras para aliviar a dor da perda de um filho único amado, a dor da sobrevivência àquele que havia de sobreviver.
Nem Maria, nem a outra Maria ou Madalena conseguem encontrar uma palavra, apenas partilham a quase mesma dor materna e amante da perda de um filho. As suas frágeis mãos mal conseguem segurar as pontas do lençol, indigno vestido para um corpo tão puro e tão mal tratado.
Na sua dor e na ausência de resposta humana, um olhar para o alto, para essa promessa sem fim. E uma vez mais um grito “vós que passais vede se há dor igual à minha”. Vós que todos os dias passais pelas nossas vidas vede se há dor que se compare à dor da perda de um filho, do vosso Filho gerado no seio de mulher.
E no silêncio de Deus, no silêncio do corpo do filho morto no regaço, a resposta lancinante que ainda há uma dor maior, uma dor maior que a da perda de um filho, a dor do amor recusado, a dor do amor divino rejeitado pelos homens.
Silêncio, junto à cruz, a mãe com o corpo frio do filho no regaço é apenas um espelho do Pai que acolhe o espírito do Filho rejeitado. Mãe e Pai acolhem conjuntamente o que resta do amor total que não foi aceite, o corpo lacerado e a obediência sem condições.
Vós, homens que passais, atendei e vede se há dor igual à nossa, clama o Pai e clama a Mãe.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Homilia da Celebração da Paixão do Senhor

O Evangelho de São João, que lemos nesta celebração, conta-nos logo no primeiro capítulo que, depois do baptismo de Jesus no rio Jordão, dois discípulos de João Baptista foram ter com Jesus e lhe perguntaram onde morava. A resposta a esta pergunta foi, “vinde e vede”. E eles foram e, como nos diz São João, era a hora décima, a tarde caía e eles ficaram com Jesus.
Nesta celebração da Paixão de Jesus é-nos feito o mesmo convite, vinde e vede. À hora décima na qual Jesus jaz morto na cruz somos convidados a contemplar aquele que se nos apresenta despojado de qualquer poder e dignidade humana, mas nunca tão poderoso e magnifico na sua missão divina de redenção.
Fazendo jus às palavras de Pilatos “eis o homem”, Jesus apresenta-se na cruz na maior aniquilação, no maior abaixamento e despojamento possível. Depois da incarnação, de assumir o homem em toda a sua dimensão, experimenta a última e mais radical de todas as consequências do pecado do homem, a morte.
O Filho de Deus leva até ao extremo, até ao fim a sua experiência radical de humanidade, uma experiência marcada pela solidão total, porque no final das contas todos fazemos a experiência da morte e da finitude sozinhos, entregues a nós próprios, se não acreditarmos que por esta mesma cruz e morte Jesus vem ao encontro da nossa solidão para nos acompanhar.
Foi nesta solidão e no seu grito de angústia que Jesus sentiu a presença e a força do Pai e por isso o mesmo momento de morte e aniquilação pôde ser momento de salvação, o Pai veio ao encontro do seu amor desesperado.
Por outro lado o momento da cruz é também o momento da glorificação, no sentido da experiência total do dom do amor, do dom sem medida. Todos nós damos alguma coisa, por vezes é o tempo, outras vezes é uma palavra, algumas vezes é a nossa compaixão. Os pais dão sempre alguma coisa aos filhos e os amantes dão-se a si mesmos.
Contudo, a doação que Jesus faz na cruz supera todas as entregas e todas as doações, tudo o que podemos ou possamos oferecer uns aos outros, pois a entrega de Jesus é uma entrega total, completa, é uma entrega de vida por aqueles que não mereciam essa mesma vida.
Como nos diz São Paulo na Carta aos Romanos, “quando ainda éramos pecadores é que Deus provou o seu amor por nós entregando a sua vida”, quando não merecíamos qualquer sacrifício em virtude das nossas faltas. Mas Deus arriscou essa doação, esse dom porque não podia negar-se nem recuar na oferta que tinha iniciado com o mistério da incarnação.
E neste sentido vemos como a cruz é o grande momento de poder e magnificência de Deus porque é aí que ele se revela na sua alteridade e na sua diferença, no poder que mais ninguém podia assumir e ter, ou seja, de dar a sua vida pelos que não tinham vida para que a tivessem.
A celebração da Paixão de Jesus remete-nos assim e convida-nos a olhar para estas duas realidades e dimensões e a perceber como nelas estamos todos implicados no sentido do fruto alcançado e a alcançar. A redenção operada por Jesus alcança-nos a todos, faz-nos a todos herdeiros e filhos, mas também nos envolve no sentido da actualização do dom.
Não podemos portanto deixar de vir todos os anos e até mesmo todos os dias a este mistério da cruz, não podemos deixar de o contemplar, porque só dessa forma nos imbuiremos do dom do amor entregue e a pedir entrega.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Celebração da Ceia do Senhor - Quinta-Feira Santa

Damos início ao Tríduo Pascal com a celebração da Ceia do Senhor, um mistério de cuja amplitude São João nos dá uma ideia desde o primeiro momento da leitura do seu Evangelho, “Ele que amara os seus amou-os até ao fim”. E este amor, total, aparece-nos expresso no gesto que Jesus realiza nessa mesma ceia que recordamos e comemoramos, a lavagem dos pés aos discípulos.
Um gesto que, como nos diz São João, não acontece porque os discípulos não tenham cumprido as abluções rituais habituais, de que foram acusados em outras situações semelhantes de refeição pelos fariseus. Não se trata de uma questão de higiene, mas de um gesto carregado de significado, de educação e ensinamento quanto àquele que lava os pés e quanto àqueles aos quais os pés são lavados.
Assim, vemos que Jesus que preside à mesa e à refeição se levanta do seu lugar de chefe, de anfitrião e se prepara para lavar os pés aos discípulos sentados à mesma mesa. Jesus levanta-se do seu lugar e abdica da sua dignidade tal como já tinha feito no momento da encarnação, do seu abaixamento da condição divina à condição humana.
Para reforçar ainda mais este abaixamento, e a aniquilação total que iria sofrer, Jesus retira a sua túnica, coloca-se quase como um escravo nu diante daqueles a quem vai servir. É a sua própria condição humana que vai ser despojada de dignidade, a sua vida que vai ser entregue, despida como aquela roupa.
E com uma toalha à cintura, começou a lavar os pés aos discípulos num gesto humilde e que competia aos escravos realizar. Uma vez mais Jesus assume a condição humilhante do servo, daquele que não é nada para se fazer tudo para todos. E a toalha à cintura é como a justiça que envolve os rins do rei, bem justa mas colocada para ser exercida com uma força que nasce nas próprias entranhas.
Perante tal situação, face a tal humilhação Pedro recusa o gesto de Jesus, não é digno de um Mestre, de alguém que ele reconhece como Senhor. Pedro sabe e conhece, ainda que de modo imperfeito, a dignidade da pessoa que tem diante de si, da pessoa que se despojou da sua roupa e honra para se colocar a exercer aquele gesto humilhante e indigno.
Pedro recusa o caminho de humildade de Jesus, recusa aceitar que o seu Mestre, aquele por quem ele tinha deixado as redes e o barco junto ao lago, se coloque naquela posição, naquela atitude tão indigna. Nada daquilo se enquadra nas suas expectativas, mesmo naquelas que pareciam periclitantes face ao perigo de vida e a tanta incerteza quanto ao futuro.
E é neste sentido que a atitude de Pedro se aproxima de tantas das nossas expectativas, das nossas imagens um tanto ou quanto dispares relativamente à realidade e verdade de Jesus Cristo. Também muitas vezes nós queremos um Jesus de acordo com as nossas necessidades, as nossas pretensões, as nossas expectativas de realização e satisfação e Jesus revela-se diferente, outro, totalmente outro.
E neste confronto de imagens e realidades acabamos também por nos encontrar connosco próprios e as nossas imagens de glorificação, com as imagens que construímos de nós próprios mas se distanciam da verdade real que somos. E por isso nos revoltamos, nos recusamos tantas vezes também a permitir que Jesus nos lave os pés e nos purifique dessa idolatria pessoal.
Mas Jesus não desiste, de lavar os pés a Pedro e de o fazer participar da sua vida e da sua glória, bem como a nós de nos assumirmos num processo de conversão, de alteração das nossas imagens de Deus e de nós próprios.
Então Pedro quer tudo, não só que Jesus lhe lave os pés, mas também todo o corpo, como se necessitasse de um banho completo. Pedro entusiasma-se uma vez mais pelo projecto e pela palavra de Jesus, pela sua promessa de tomar parte, ainda que seja um entusiasmo que necessita ser purificado porque as razões do seu querer não são ainda as mais puras, as que se adequam à realidade de que Jesus está a falar.
Terminada a lavagem dos pés, Jesus retoma o seu lugar e a sua dignidade e uma vez mais a palavra para explicar aos discípulos o sentido de tudo o que lhes tinha feito. E é aqui que percebemos que há verdadeiramente um abismo entre o gesto de Jesus e a possibilidade de também nós o repetirmos.
As nossas lavagens de pés, nas suas mais diversas acepções possíveis, serão sempre uma pálida imagem daquilo que Jesus realizou, porque como Jesus diz é pelo facto de ser Mestre e Senhor que pode e pôde realizar aquele gesto. Ainda que humilhante e indigno da sua pessoa, em nada o diminuiu, em nada o prejudicou, porque não só significa toda a sua vida, mas sobretudo porque significa o amor que lhe presidiu.
É porque Jesus é Senhor e Mestre no amor que a sua humilhação, o seu abaixamento e aniquilação não o atinge, não prejudica nem afecta na sua glória, na sua honra e na sua divindade. Ele tudo fez e faz por amor daqueles que são os amigos que o Pai lhe confiou.
Neste sentido temos que aceitar com humildade que os nossos gestos de serviço e caridade são apenas um reflexo, um pálido reflexo do que Jesus operou, e que não está na nossa mão mudar o mundo. Contudo, e ainda assim, quanto maior for o nosso amor, quanto mais nos entregarmos nos nossos gestos de lavagem de pés, de conforto e dignificação do próximo, mais nos aproximamos do amor de Jesus e mais nos tornamos também participantes da sua parte, do seu reino.
Que o Espírito Santo nos ilumine nos caminhos de conversão que necessitamos realizar bem como nos gestos de fraternidade e entrega.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

É em tua casa (Mt 26,18)

A festa da Páscoa está próxima e o Senhor manda os seus discípulos a casa de alguém dizer que o Senhor quer ali celebrar a Páscoa com eles.
O evangelista não nos diz o nome da pessoa, do dono da casa na qual Jesus quer celebrar a Páscoa, pelo que podemos assumir nessa indefinição que Jesus quer celebrar connosco, com cada um de nós e na nossa casa a Páscoa.
Esta casa que é a nossa vida, a nossa história e a nossa humanidade porque foi para elas que ele veio, por causa delas que ele encarnou e se fez homem.
E celebra a Páscoa no que esta tem de dor e glória, de sofrimento e ressurreição, de sexta-feira santa e manhã esplendorosa de domingo. Não podemos assim subtrair à Páscoa que Jesus quer celebrar connosco nenhum dos seus elementos, nenhuma das suas realidades componentes.
E não podemos subtrair nem esquecer que Jesus nos diz que quer celebrar a Páscoa connosco e na nossa casa com os seus discípulos, ou seja com todo o grupo, todos os irmãos que se aproximam dele e se colocam no seguimento dos seus passos.
Celebrar a Páscoa com Jesus na nossa casa significa celebrar com os outros homens e mulheres, com os irmãos e as irmãs, aqueles que nos estão mais próximos mas também com aqueles que estão mais distantes e até podem não dizer-nos muito. A Páscoa e a sua celebração implicam os outros.
Preparemo-nos assim para receber o Senhor que vem até nós e com ele todo o grupo dos discípulos, todos aqueles que se dizem seus discípulos e esperam e contam com o acolhimento mutuo que nos devemos uns aos outros em Jesus Cristo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Jesus sentiu-se intimamente perturbado (Jo 13,21)

Estando à mesa com os discípulos Jesus sentiu-se intimamente perturbado. Podíamos pensar que estava perturbado face à perspectiva do futuro, à morte que já se anunciava e queria fazer sentir. Mas tal perturbação, ainda que presente, não é a que mais afecta intimamente o coração de Jesus. No coração sabe que o seu futuro e a sua morte estão na vontade do Pai e na sua vontade de obediência e portanto a perturbação é relativa.
O que perturba intimamente o coração de Jesus é o estado dos seus amigos, a perspectiva do amor traído que cai sobre todos eles, ou quase todos eles, porque o mais novo, o que está ao seu lado, como filho das suas entranhas, não o abandonará e estará presente até ao último momento.
A declaração da eminência da traição é feita de forma solene, de modo a que se perceba que não é por uma consciência puramente humana que conhece o futuro e a traição. “Em verdade vos digo” é a manifestação do conhecimento por uma revelação divina, de um conhecimento que radica no amor e na intimidade com o Pai.
É o Pai que revela a proximidade da hora da entrega da vida bem como a indicação daquele que é o traidor, que já deu passos no sentido da entrega do Mestre e do Filho do Homem, que se passou para o bando dos inimigos.
E nesta traição Jesus experimenta uma vez mais a condição humana, faz a experiência da traição de um daqueles que ele tinha escolhido. Na sua aniquilação nem a esta experiência Jesus se quis esquivar, assumindo dessa forma que a traição é uma realidade da natureza humana.
A traição de Judas revela a essência do pecado, a recusa do amor de Deus, o facto que verdadeiramente perturba o coração de Jesus de que nos fala São João. Contudo, e tendo conhecimento do que se passava e o esperava, da traição de Judas e da sua contribuição para o processo da sua morte, Jesus não faz qualquer crítica, não emite qualquer juízo de condenação, bem pelo contrário como o pai da parábola do filho pródigo silencia e redobra a sua atenção, o seu cuidado.
Cuidado expresso no pedaço de pão com molho oferecido, um gesto de predilecção e deferência na cultura judaica e que mostra o acolhimento ainda possível, a porta aberta para o regresso a casa. E Judas hesita por um momento.
Também a nós e na nossa condição pecadora Jesus continua a estender o pedaço de pão embebido no molho do cordeiro, não para nos condenar ou para nos impelir a sair da sala e a fazer o que temos que fazer, mas para nos evidenciar a sua predilecção e o seu convite no sentido de um regresso, de um retomar da relação.
Saibamos nós receber o pedaço de pão e com ele o dom do amor que o Senhor nos faz.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Unção de Betânia (Jo 12,1-11)

Uma semana antes da Páscoa Jesus encontra-se em Betânia, na casa dos seus amigos Lázaro, Marta e Maria. Uma semana antes da Páscoa significa que é sábado, um dia de descanso, o dia do Senhor.
Durante o jantar, oferecido pelos irmãos para festejar a alegria de Lázaro estar de volta à vida e novamente entre os seus, enquanto Marta serve os convidados, Maria toma um frasco de perfume de nardo, de alto preço, e derrama-o sobre os pés de Jesus para o ungir.
Era habitual colocar-se o perfume, e de modo especial os de maior valor, em frascos de alabastro que só depois de partidos podiam ser utilizados. O fraco de alabastro significava o vaso de confiança, pois selado pelo perfumista não tinha nenhuma abertura e necessitava ser quebrado para ser utilizado, todo e de uma só vez. Este frasco de perfume, selado e quebrado por Maria aos pés de Jesus simboliza o dom total, o dom de amor, porque a medida do amor é o amor sem medida.
E ao ungir com o perfume os pés do Mestre, Maria acede à humildade de Jesus e à sua vulnerabilidade, à morte que se avizinha, colocando-a diante dos olhos de todos. É também o momento para Jesus assumir o dom da entrega da sua vida, dom prefigurado nesse dom total do perfume, que inevitavelmente enche toda a casa tal como a graça da ressurreição encherá todo o universo.
Completando o gesto de veneração e amor Maria enxuga os pés de Jesus com os seus cabelos, como uma toalha para recolher o excesso de perfume, participando da humildade e da vulnerabilidade e dessa graça que se expande como o perfume.
Judas, que ao lado observa toda a cena, critica o desperdício, o excesso, dizendo que o dinheiro se podia usar para comprar pão para os pobres. Como nos diz São João não é porque se interessasse muito pelos pobres mas porque a sua ganância e avareza desejavam apossar-se daquele valor.
Ao situar-se de forma crítica perante tal gesto de veneração e amor, Judas exclui-se da lógica do dom, opõe-se à economia do dom, manifestando a oposição das duas lógicas presentes, a lógica da posse e da avareza, e a lógica do dom de si e dom total.
Judas manifesta desta forma as possibilidades que se nos colocam face a Jesus e face aos irmãos, aos outros homens e mulheres, ou seja a possibilidade de os possuirmos, de sermos senhores deles, ou pelo contrário a possibilidade de os servirmos entregando-lhes o melhor de nós próprios ou dos nossos melhores dons.
As vias de possibilidade estão abertas e cabe-nos a cada um de nós fazer a sua opção, tendo presente que a avareza conduz à morte e a oferta à visão gloriosa do ressuscitado na manhã de Páscoa.

domingo, 17 de abril de 2011

Homilia do Domingo de Ramos

Iniciamos hoje a Semana Santa e fazemo-lo com a bênção dos ramos e com a proclamação do Evangelho da Paixão segundo São Mateus.
Neste Evangelho para além de tantos outros mistérios que nos são apresentados ressoa para os discípulos de Jesus e para cada um de nós, e de modo particular nesta Semana Santa, o apelo “vigiai e orai para não cairdes em tentação, pois o espírito é forte mas a carne é fraca”.
É um apelo de Jesus face à perspectiva do que se avizinha, a todo o sofrimento, a todo o escândalo e à morte na cruz. São realidades demasiado fortes, demasiado constrangedoras para poderem ser suportadas e por isso é necessário alimentar e fortalecer o espírito para as viver e superar, porque apenas assentes e enfrentadas na carne são avassaladoras de incompreensão.
Jesus apela assim à nossa oração face à paixão e à sua morte, a uma resposta orante para desse forma podermos partilhar da fidelidade das mulheres que o acompanhavam e que no contexto da violência e do abandono de todos os amigos se mantém fiéis e permanecem até ao último momento.
A oração que Jesus nos pede, a que Jesus nos convida, tem esse objectivo de despertar o nosso desejo de permanecer apesar de todas as contrariedades, de toda a violência e de todas as aparentes perspectivas de fracasso e frustração.
O convite a vigiar e orar é também um convite a partilhar com Jesus os seus momentos de solidão e sofrimento, de modo especial esse paradoxo total que se apresenta na cruz, em que se vive esse desencontro entre o amor de Deus e o amor dos homens, em que se descobre que afinal o amor não é amado, a entrega amorosa de Deus é recusada.
A solidão que Jesus vive, a grande solidão que se inicia no momento em que reza no jardim das oliveiras resulta desta recusa, desta não aceitação por parte dos homens do amor de Deus, e do amor de Deus feito criatura, feito humanidade para estar à nossa mão, à nossa disposição e proximidade.
O abandono dos discípulos no momento de maior necessidade de presença é um sinal dessa recusa, pois ainda que tendo privado da intimidade do Mestre, que conhecendo os segredos dos seus ensinamentos, não foram capazes de aceitar a diferença que Jesus assumira e assumia ao apresentar-se como um Messias servidor, humilde e pobre, sem qualquer mais poder que o seu amor e o mandamento do amor.
A solidão que Jesus vive nestes dias é a consequência da recusa dos homens, é o peso e o preço da recusa dos homens, que não foram ou não são capazes de o aceitar na sua diferença como o Filho de Deus e o Salvador de todos os homens.
E neste sentido, o convite que Jesus faz a orar e vigiar é um convite a descobrir o amor do Pai, esse amor que permitiu que o Filho se fizesse homem, que sempre o acompanhou e fundamentou nas suas decisões e acções, que lhe permite enfrentar o julgamento dos homens e a destruição da morte porque não lhe faltará nem deixará de o recompensar pela obediência amorosa.
O convite de Jesus a vigiar e orar é assim um convite a descobrir e a partilhar do amor do Pai, desse amor do qual ele vive e deseja que todos os homens vivam também.
E o seu aniquilamento, o cumprimento até ao fim da vontade do Pai, desse cálice que se bebe até ao fim por compromisso com o mistério salvador do Pai, é o termo do puro amor, a manifestação de quem se aceita como nada para que o outro possa ser tudo. É dom de vida para que a vida possa ser dada.
A pureza do amor de Jesus manifesta-se também nesta aceitação do abaixamento e da aniquilação, em oposição à sua condição e aos seus direitos, à possibilidade de reivindicação ou rivalidade do estatuto divino que lhe era intrínseco. Ele que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus mas aniquilou-se a si próprio assumindo a condição de servo.
Somos assim convidados, ao iniciar a Semana Santa, a olhar com um pouco mais de atenção a vida e a entrega de Jesus, o seu ministério de redenção da nossa humanidade pecadora, a meditar no sofrimento a que se expõe por nosso amor e à solidão por não aceitarmos esse amor, por nos custar a aceitar tanto amor. E fazemo-lo ou podemos fazê-lo através de uma oração mais intensa, de uma participação mais activa e convicta nas celebrações que a Igreja nos oferece, preparando-nos desse modo para a alegria da vitória da manhã de Páscoa.
Que saibamos acolher todo o tempo e todas as possibilidades que o Senhor nos concede para a vivência deste mistério de amor.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Aquele que me enviou está comigo (Jo 8,29)

Os encontros de Jesus com os fariseus e os escribas nunca foram fáceis e ficamos sempre com a sensação que foram mais desencontros que propriamente encontros. Se por um lado a maior parte deles acontece em função de uma armadilha que querem colocar a Jesus, há sempre uma segunda intenção nas questões que colocam, por outro lado Jesus esbarra sempre nos seus preconceitos e ideias fixas não sendo capaz de os libertar nem de os fazer ver a novidade que ele é.
Neste sentido, quando Jesus lhes diz que vai partir e eles não o poderão acompanhar, imediatamente pensam que ele se vai suicidar, ou seja, vai cometer um acto que segundo a concepção religiosa conduzia a uma perdição total, sem qualquer possibilidade de comunicação ou redenção. Suicidando-se ninguém o poderia acompanhar.
Mas Jesus fala da sua entrega por amor, da sua morte como oferta e pagamento do resgate da humanidade por causa do pecado. Entrega que está marcada não só pela sua vontade e liberdade mas sobretudo por essa relação com o Pai que o enviou, com Aquele que lhe permite também dizer “Eu Sou”.
E é aí, nessa relação e nessa intimidade que os fariseus e os escribas não são capazes de o acompanhar, que nunca o poderão acompanhar, na medida em que se recusam a reconhecer nele o Messias prometido, o filho de Deus feito homem.
É extremamente significativa esta consciência de Jesus da relação e interdependência entre a sua missão, aquilo que vive e faz e a sua intimidade com o Pai, essa consciência e confiança de que Deus está com ele e nunca o abandonou nem abandonará.
E é para nós um desafio, um apelo premente à conversão e a essa mesma confiança, pois de contrário esbarraremos também nos nossos limites, sentir-nos-emos incapazes de enfrentar os combates que se nos apresentam. Não acreditando que Deus está connosco viveremos sempre sós e sujeitos às nossas próprias limitações.
Necessitamos por isso dizer-nos todos os dias, em todas as circunstâncias, fazendo profissão de fé e de confiança “Aquele que me enviou e me ama está comigo” e portanto nele e com ele posso tudo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Jesus começou a escrever no chão (Jo 8,6)

Uma vez mais um grupo de fariseus e escribas vem ter com Jesus. Desta vez, sabendo que ele se encontrava no templo rodeado da multidão expectante, trazem-lhe uma mulher apanhada em flagrante adultério.
É uma armadilha, pois tendo sido a mulher apanhada em flagrante delito era normal que trouxessem também o homem com quem se encontrava para também ser julgado. Mas não, o adúltero desapareceu, não o apanharam ou não o quiseram apanhar, ou então querem-no ainda apanhar nesse Jesus que cativa e seduz as multidões. Esta mulher adúltera é assim mais uma vítima da maquinação, é o isco perfeito para apanhar aquele Jesus numa palavra contra a lei e os preceitos de Moisés.
Como habitualmente Jesus não entra nestas disputas, não se sujeita à armadilha de modo a ser apanhado em flagrante, mas sabendo das intenções subjacentes a cada questão e provocação remete os seus interlocutores à lei de Deus e à incoerência das suas vidas face a essa mesma lei.
Neste caso da mulher adúltera, em que tanto ela como ele estão cercados pelo movimento de ódio e de violência, Jesus, perante a questão que lhe colocam, começa a escrever no chão, a rabiscar qualquer palavra ou sinal no pó do chão do templo. Um sinal, um gesto silencioso que apenas é quebrado face à insistência de uma resposta por parte do interlocutores. E depois continua a escrever.
Diante da interpelação “quem não tiver pecados que atire a primeira pedra” e àquilo que Jesus escreve no chão, os acusadores da mulher vão saindo, a começar pelos mais velhos, deixando a mulher apenas com Jesus.
Que escreveria Jesus no pó do chão para fazer aqueles homens recuar diante da interpelação do pecado? Que mandamento ou conjura profética poderia ter tal efeito? Ou não seria apenas o gesto de escrever o sinal de maior interpelação, a maior acusação face ao crime que cometiam com a mulher e pretendiam cometer com ele?
São João não nos quis revelar o que Jesus escreveu, o que rabiscou no pó, porque certamente era pouco significativo face ao próprio gesto. Ao escrever no chão com o dedo Jesus assume-se como alguém acima da lei com a qual o queriam julgar, assume-se como o autor dessa lei, da lei dada por Moisés mas primeiramente escrita pelo dedo de Deus nas tábuas de pedra que Moisés trouxe do monte Sinai. É o dedo de Deus que uma vez mais escreve os mandamentos.
E é perante tal acto que os homens se vão retirando, pois descobrem que a lei escrita na pedra ou no pó não lhes está escrita no coração como o profeta Ezequiel tinha profetizado, como Deus desejava do seu povo eleito. O gesto de Jesus revela-lhes assim a infidelidade e incoerência face à lei que tanto defendiam e traziam na boca, mas que não eram capazes de viver.
Neste sentido o gesto de Jesus não pode deixar também de nos interpelar, de nos questionar sobre a forma como vamos inscrevendo no nosso coração a lei de Deus e a partir desse registo vamos procurando vivê-la em cada dia e em cada situação.
Jesus escreve no chão também para nós, para nos alertar sobre a nossa fidelidade, mas também para nos dizer que a sua lei, os seus mandamentos, estão escritos no pó da nossa humanidade, da nossa condição humana, e é aí que temos que os procurar conhecer e viver.

domingo, 10 de abril de 2011

Homilia do V Domingo da Quaresma

Os textos da Liturgia da Palavra deste domingo da Quaresma, e de modo especial o relato da ressurreição de Lázaro do Evangelho de São João, colocam diante de nós esse face a face dramático entre a vida e a morte, essa experiência tremenda que Jesus assumiu também viver para que nenhum homem pudesse voltar a morrer sozinho.
O relato da ressurreição de Lázaro encontra-se a meio do Evangelho, servindo mais ou menos de charneira entre a primeira e a segunda parte do Evangelho, fazendo a ponte através deste acontecimento, o sétimo e último sinal daqueles que manifestam a messianidade de Jesus e se iniciam nas bodas de Caná, para o confronto entre a luz e as trevas, cujo ponto culminante é a vitória da luz na manhã da ressurreição.
O relato da ressurreição de Lázaro é também um assumir e uma prefiguração do drama da paixão que Jesus vai sofrer, pois há uma associação intima entre a morte de um e outro e o que se manifesta na ressurreição do primeiro serve para a compreensão da ressurreição do segundo.
Neste sentido e face à noticia da doença de Lázaro, do amigo por quem vai chorar, Jesus assume que ela tem um fim muito próprio, pois vai servir para manifestar a glorificação do Filho e por isso, por muito que lhe apeteça partir para estar junto do amigo e de suas irmãs, é necessário dar tempo para que a hora da manifestação possa chegar, essa hora da glorificação necessária. A expressão queixosa de Marta e Maria, de que se Jesus estivesse presente o irmão não teria morrido, é também manifestação desta necessidade de dar tempo ao tempo para que o projecto de Deus e neste caso a missão de Jesus se possa cumprir.
Perante a incompreensão dos discípulos, uma vez mais não compreendem o que diz, Jesus vê-se obrigado a declarar-lhes que o sono de que tinha falado era apenas uma metáfora, uma imagem da morte que de facto tinha já acontecido, tinha já obtido a sua vitória sobre Lázaro. Jesus sabe perfeitamente que a morte cumpriu a sua obra, tal como tentará cumprir sobre si mesmo.
A dimensão prefigurativa da paixão de Jesus no relato da ressurreição de Lázaro encontra-se também patenteada no diálogo de Jesus com os discípulos sobre os perigos do regresso à Judeia. Eles sabem que a sua vida corre perigo, que está ameaçado de ser morto à pedrada por se ter feito Filho de Deus e por isso tentam dissuadi-lo do regresso a Betânia. Mas Jesus sabe que necessita ir, necessita como diz “ir ter com Lázaro”.
Este encontrar-se com Lázaro não diz respeito a um mero encontro físico, pois Lázaro jaz já sepultado, há quatro dias, mas a um encontro no domínio da morte, nessa mesma experiência da morte. Só descendo à morte de Lázaro, à experiência que Lázaro acaba de sofrer é que poderá triunfar, poderá alcançar a glorificação do Filho do Homem.
Neste sentido, Jesus é perfeita e totalmente solidário com a humanidade e todas as suas experiências e por isso não escamoteia submeter-se à experiência mais radical, à experiência mais consequente com o pecado. Ao dizer que quer ir ter com Lázaro, Jesus assume a entrega da sua vida, manifesta a vontade de passar pela mesma experiência, bem como a necessidade dessa experiência para poder alcançar a glorificação do Filho do homem e de todos os seus irmãos que nele acreditarem e procurarem ter o seu Espírito.
Perante tal decisão, os discípulos, e de modo especial Tomé, prontificam-se a acompanhar Jesus, a dar também a sua vida, “vamos nós também para morrermos com ele”. Mas este ímpeto é apenas fogo de vista e ainda que mais tarde os discípulos venham a dar a vida por Jesus, neste contexto do relato, a disposição de entregar a vida, mais que aos discípulos, deve ser reportada e referida a Jesus, porque ele sim, verdadeiramente, assumiu essa dimensão de partilha da morte.
Ao querer ir ter com Lázaro Jesus manifestou a vontade que querer vir ter com todos nós nesta experiência da morte e portanto, a partir desta palavra, nenhum homem poderá jamais considerar ou temer morrer sozinho, porque Jesus está presente. A sua entrega à experiência da morte significa também morrer connosco, fazer a passagem connosco no momento da nossa passagem.
E não só está presente, experimentando connosco a morte, como ainda nos diz de braços eternamente abertos “vem para fora”, incentivando-nos a não ter medo, incentivando-nos a confiar, a libertarmo-nos das ligaduras e das faixas que nos prendem e nos tolhem e vedam a visão perfeita, porque também ele já fez a experiência confiando no amor do Pai, porque nos ama, e porque assim como por Lazaro também chora por nós e connosco em cada morte.
Pudéssemos nós ter a fé suficientemente forte para acreditar que Jesus está connosco mas sobretudo para não duvidarmos nunca que Ele é a ressurreição e a vida e quem acredita Nele nunca morrerá. Como Marta digamos: “acredito Senhor que tu és o Messias, o Filho de Deus”, mas necessito que fortaleças a minha fé, que faças rolar as pedras que me encerram ainda no túmulo da incredulidade.

sábado, 9 de abril de 2011

Também vos deixastes seduzir? (Jo 7,47)

“Também vós vos deixastes seduzir”, é a pergunta que os príncipes dos sacerdotes e os fariseus fazem aos guardas do templo que não foram capazes de prender de Jesus, que não foram capazes de o trazer até eles.
A resposta dos guardas foi clara e inequívoca, de facto tinham-se deixado seduzir porque nunca ninguém tinha falado como aquele homem. Não ficaram impressionados com qualquer gesto, com qualquer acto extraordinário, um milagre ou uma cura, nem com o porte ou a aparência de Jesus, apenas pela sua palavra.
Não tinham ficado seduzidos, como os príncipes dos sacerdotes e os escribas estavam a pensar com maledicência, como uns ignorantes que se deixam levar por qualquer balela ou história de encantar. Não, eles tinham-se deixado seduzir pelo ensinamento, por aquelas palavras de quem fala com autoridade e sem fingimento.
Não sabemos o que aconteceu a estes guardas, bem pode ser que tenham sido eles mesmos que foram ao jardim das oliveiras guiados por Judas para prender Jesus. Não sabemos, porque deles apenas nos chegou este relato da sedução pela palavra de Jesus.
Contudo, e à luz da mensagem do Evangelho de São João, o importante é que estes homens se deixaram seduzir por Jesus, e pela sua palavra. Sem querer, e sem que saibamos as consequências, estes homens abriram-se à salvação, deixaram-se tocar na sua simplicidade ou na sua força pelas palavras de Jesus naquele momento concreto.
E neste sentido são para nós um desafio, um aguilhão na forma como nos deixamos seduzir pela palavra de Jesus, pelas suas palavras. Também nós nos deixamos seduzir ao ponto de mudarmos a nossa vida, de voltarmos aos nossos príncipes do mundo com as mãos vazias, livres das missões ingratas e injustas que nos possam ter imposto?
Que o Senhor nos continue a falar, para nos deixarmos cada vez mais seduzir por ele e nos irmos libertando das tarefas que nos escravizam.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Se acreditásseis… (Jo 5,47)

A relação de Jesus com os seus contemporâneos, com os discípulos, com os fariseus e os escribas, afinal com o povo judeu não foi fácil, nunca foi fácil. Até mesmo com a família, pelos dados dos Evangelhos, a relação não foi fácil.
As curas em Jerusalém do cego de nascença e do paralítico que se encontrava junto à piscina geraram uma acesa polémica e assim Jesus vê-se impelido a defender a sua acção, uma vez que os seus actos subvertiam os preceitos da lei religiosa e colocavam em causa a própria instituição à sombra da qual vivia a cidade de Jerusalém, o templo.
Jesus não procura provas, justificações para os seus actos, mas apresenta aos judeus os testemunhos que confirmam e aferem da veracidade da sua pessoa e da justeza dos seus actos. Neste sentido refere-se a João Baptista que eles tinham procurado no deserto e tinha dado testemunho de Jesus, refere-se também aos seus milagres e às curas que testemunhavam do seu poder, e por fim refere-se à lei de Moisés, que eles usavam para o acusar e condenar, mas que de facto apenas dava testemunho da sua pessoa e da sua acção.
Contudo isto era tudo relativo, porque o que confirmava e afiançava a sua natureza e o seu poder, a liberdade em relação a tudo, era a sua relação com o Pai, essa intimidade que vivia e da qual tudo o que fazia dava testemunho e era sinal vivo. Portanto, qualquer reconhecimento verdadeiro da sua pessoa e da sua palavra não podia deixar de se fundamentar nesta realidade, nesta sua relação com o Pai.
Acreditar com Jesus e nas palavras de Jesus é assim confiar na sua palavra, nessa manifestação da sua relação com o Pai e que só quem aprofunda na intimidade com ele pode descobrir e partilhar. Não são os sinais exteriores, ainda que ajudem e nos possam servir de indicadores, mas é essa relação vivida íntima e fundamentalmente.
Acreditar em Jesus através desse aprofundamento implica antes de mais a percepção de se saber um outro, uma face de um outro disposta ao diálogo, e também uma grande capacidade de escuta, ou pelo menos uma forte tentativa de escutar o que nos diz a cada momento, perante cada situação da nossa vida.
Nesta caminhada quaresmal coloca-se assim o desafio da fé em Jesus Cristo, uma tentativa de resposta ao seu apelo, que alcançaremos na medida em que mergulharmos cada vez mais na sua intimidade e nos situarmos como interlocutores habilitados e reconhecidos.

Celebrações da Palavra no Externato Marista de Lisboa

Cheguei ao fim do ciclo das Celebrações da Palavra com os alunos do Externato Marista de Lisboa. Com alguma tristeza tenho que dizer que não estive em todas, escaparam-me três do conjunto das trinta e quatro que estavam programadas, pois obrigações inerentes à minha condição de Ecónomo conventual obrigaram-me a estar em Fátima no dia em que celebravam. O frei Filipe substituiu-me generosamente.
Este ciclo foi o meu oitavo ano consecutivo de Celebrações no Externato e ao chegar aqui quero dar graças a Deus por tudo o vivido com estes jovens. Como já tantas vezes lhes disse a eles, dou graças pela alegria e pelo prazer que me fizeram sentir, pelos momentos em que juntos pudemos perceber que afinal Deus estava ali connosco, está nas nossas vidas e nos vai guiando no projecto de felicidade que sonhou para nós.
É uma hora, às vezes um pouco menos, muitas outras vezes bastante mais, pois o tempo passa depressa e não podemos deixar para depois nada do que foi preparado, a alegria de estarmos juntos, nos sabermos a fazer o mesmo percurso ainda que cada um ao seu ritmo e com as diferenças intrínsecas à sua condição humana e à sua história pessoal.
Algumas vezes os pais e os avós estiveram connosco, creio que neste ciclo foram raras as vezes em que não partilharam da celebração, mesmo naquelas turmas mais envergonhadas do Secundário. Nos casos em que não estiveram presentes as ausências foram deliberadas, assumidas por todos, pois havia a necessidade de fazer da Celebração um momento de intimidade, um momento para pedir perdão dos erros cometidos e para afirmar a vontade de em conjunto superar as dificuldades inerentes à vida em comum.
Não é fácil vivermos juntos, mas na Celebração descobrimos que Deus nos oferece esta oportunidade, uma oportunidade única para nos enriquecermos com a experiência e a diferença de cada um, e com elas enfrentarmos os desafios ainda mais arrojados que a vida em outros âmbitos nos coloca. Na celebração descobrimo-nos irmãos e membros responsáveis de um corpo que quer crescer forte e unido.
Graças ao empenho dos jovens e adolescentes e, com toda a certeza, à muita paciência e disponibilidade dos directores de turma, catequistas e professores que previamente ajudam à preparação de cada uma das Celebrações, pude e pudemos viver momentos que são únicos e por isso merecem ser recordados.
Dos muitos que poderia apontar, cada Celebração tem os seus e não terminaria tão prontamente se os quisesse nomear a todos, quero fazer memória da música da turma 1D/2 do 12º Ano, composta de propósito para o final da Celebração e maravilhosamente tocada e cantada. E escolho-a porque antes de mais há momentos em que sem quê nem para quê me vem à memória e trauteio o refrão, e depois pelo que representa de trabalho, de empenho e dedicação, de beleza e bondade, de exemplo de tudo o que de bom a nossa juventude naturalmente tem, mas não transparece nem frutifica porque lhes falta quem os anime e incentive a ter brio nas coisas que fazem.
Já foi há três anos, que nos encontrámos,
Numa viagem embarcámos.
O caminho é longo, não é nada fácil,
Mas não estás sozinho, nesta estrada.
Mais que uma turma, mais que colegas,
Saltámos fronteiras, atingimos metas.
Fomos passo a passo, mudando crescendo,
Sorrisos e lágrimas, colhemos.
Um dia vai, outro vem, e nós,
Voamos de braços abertos sem fim,
Um dia vai, outro vem, e nós
Recordamos momentos a uma só voz
Pois juntos somos um só.
Plantámos os sonhos, para um dia colhermos,
Arriscámos sem reservas, ou medos.
Um futuro nos espera, do que construímos,
Erguemos as mãos, ao destino.
Cada dia passa, com mais confiança
Aprendendo ao sabor, da mudança.
Se caio um dia, levantas-me noutro,
Amigos p’rá vida, são d’ouro.
Um dia vai, outro vem, e nós,
Voamos de braços abertos sem fim,
Um dia vai, outro vem, e nós
Recordamos momentos a uma só voz
Pois juntos somos um só.
PS: A fotografia é da Celebração da turma 3/5 do 12º Ano, um outro exemplo de como as diferenças de interesses e de áreas podem levar-nos longe no enriquecimento mutuo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Pai ama o Filho (Jo 5,20)

Depois da cura do paralítico da piscina de Betsatá, Jesus vê-se confrontado com a perseguição e com a condenação por causa de não guardar o sábado, o descanso preceituado do dia do Senhor.
É neste contexto que Jesus se vê obrigado a fazer uma espécie de apologia, uma defesa das razões que lhe assistem para fazer o que faz. Assim, e antes de mais, começa por dizer que tanto o Pai como Ele nunca deixam de trabalhar, ou seja, não perdem a actividade, não viram nem viraram as costas à humanidade. Deus não descansa assim como o Filho não pode descansar.
E se o dia de descanso existe, um dia dedicado a Deus, não é porque Deus necessite dele, mas porque os homens necessitam dele, necessitam desse dia para se encontrarem consigo próprios, com a sua natureza e condição, com o projecto de felicidade de Deus para cada um e para todos.
Os homens necessitam do dia de descanso para glorificarem a Deus, e glorificarem no sentido do recobro da sua dignidade, da sua dignificação como homens e mulheres, como filhos de Deus, obra divina, porque tudo o mais como os holocaustos e sacrifícios não dignificam Deus nem o glorificam, pois a glória de Deus é o próprio homem.
O dia de descanso para o homem é também a oportunidade e o tempo para fazer a experiência do amor, para tomar consciência dessa realidade que Jesus antes de mais refere a si mesmo, mas que se aplica a todos os homens, o Pai ama o Filho, Deus ama os homens tal como o Filho. O dia de descanso é para nos encontrarmos conscientemente com esse amor.
Realidade extremamente significativa porque no seu amor o Pai enviou o Filho que partilha da sua eternidade para resgatar a humanidade da sua condição de exilada, de deserdada da glória que na criação que lhe tinha sido atribuída e tinha perdido com o primeiro gesto de desobediência. E em cada dia, a cada momento da nossa história, o Pai continua a enviar-nos o seu amor, a ter-nos em atenção, confiando que apesar da distância e das nossas infidelidades, dos nossos processos de autonomia, um dia retomaremos o caminho de casa e dos seus braços abertos à nossa espera.
O Pai ama o Filho e ama-nos a nós, a cada um de nós na sua singularidade como filhos exilados pelos quais foi pago um alto resgate. E quando nos esquecemos do seu amor e da sua solicitude para com cada um de nós, quando o colocamos em causa e questionamos, recorda-nos com as palavras do profeta Isaías que ainda que a mãe que amamenta o seu filho, fruto das suas entranhas, se esqueça dele, Deus nunca se poderá esquecer de nós, porque mais que fruto das suas entranhas somos a paixão da sua existência.
Que o amor de Deus se faça ouvir no nosso coração com toda a intensidade, despertando-nos das nossas infidelidades para a relação filial e de vida que nos foi e é oferecida com Jesus Cristo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

São Vicente Ferrer, Memória Dominicana

Foi no dia cinco de Abril de 1419 que faleceu na cidade de Vannes, em França, o grande pregador dominicano frei Vicente Ferrer. Natural de Valência, Espanha, onde nasceu em 1350, entrou no convento da Ordem dos Pregadores com dezassete anos e depois de terminada a formação dedicou-se ao ensino da filosofia e da teologia no seu convento.
Coube-lhe viver num momento crítico da história da Igreja como foi o do Cisma de Avinhão. Por isso o encontramos envolvido entre 1380 e 1390 não só em missões diplomáticas de D. João I, rei de Aragão, como junto do Cardeal Legado de Pedro de Luna.
Ainda que envolvido nestas questões politicas nunca deixou de exercer a sua principal missão, a da pregação, e por isso o encontramos nestas viagens a pregar nos mosteiros, nas igrejas, junto dos bispos, nos descampados e nas praças das cidades.
A partir de 1393 dedica-se exclusivamente a este ministério e missão, percorrendo como “legado a latere de Cristo” quase todas as regiões da Europa ocidental, numa peregrinação incansável pelos caminhos europeus a favor da unidade e da paz da Igreja, da conversão aos valores do Evangelho.
Em 1454, um ano antes da sua canonização pelo Papa Calisto III, foram iniciados em Vannes, Toulouse e Avinhão na França, e em Nápoles na Itália os processos de averiguação de testemunhas para a sua canonização. É um desses testemunhos, o de D. Berengário Alberti, Bacharel em Decretos e Cónego da igreja de Toulouse, que transcrevemos, mostrando o poder da palavra de São Vicente e a o seu impacto junto daqueles que o puderam conhecer.
Interrogado sobre os frutos da pregação do Mestre Vicente, feita com caridade, disse que lhe tinha ouvido muitos sermões, quase todos os que tinha feito publicamente em Toulouse, com tanta excelência, benignidade e doçura, que todos, fossem de que nação ou língua fossem, de ambos os sexos, e tanto pequenos como adultos, o escutavam com grande silêncio e atenção, e entendiam perfeitamente ainda que falasse no seu idioma vulgar catalão.
E era muito eficaz, as suas palavras suaves e muito salutares, os seus mandatos e ordens se cumpriam. Todos voluntariamente e livres acudiam aos seus sermões. A sua pregação era frutuosíssima, a passos veloz e incendiada de todo o fervor de devoção. Tanto e de tal maneira que todos asseguravam que as suas palavras eram totalmente divinas e nunca tinham sido ouvidas por homens vivos nem pensadas pelos muito letrados, que também as não podiam contradizer.
Ninguém podia dizer ‘eu não obedecerei às suas recomendações’, porque a sua palavra era tão eficaz e a sua pregação tão penetrante e cheia de caridade e devoção que ninguém podia resistir. Todo o povo pensava que era um anjo enviado por Deus, que falava ao seu povo expondo e declarando os mistérios e o escondido, o não pensado e inaudito da Escritura Santa ou mundana, civil ou canónica.” [1]

[1] Processo de Canonización de San Vicente Ferrer, Tradução de Sebastían Fuster Perelló op, Valência, Ajuntament de Valência, 2007, 95.

Junto à piscina de Betsatá (Jo 5,2)

Uma vez mais, aproveitando a oportunidade de uma festa, Jesus sobe à cidade de Jerusalém. E por coincidência, ou não, passa junto da piscina de Betsatá, onde uma multidão de doentes, coxos, paralíticos, cegos, e outros, esperam a agitação das águas para poderem alcançar uma cura. A tradição dizia que o primeiro a entrar nas águas borbulhantes ficaria curado dos seus males.
Uma vez mais Jesus vem ao encontro daqueles que padecem e neste dia em particular de um homem que jaz paralítico sem ter ninguém que o ajude a entrar na piscina em primeiro lugar para poder alcançar a cura. A compaixão de Deus vem ao encontro da possibilidade de manifestação junto da humanidade.
São João não se esquece de descrever a piscina com os seus cinco pórticos, nem de referir os anos em que o homem jaz enfermo, há trinta e oito anos. Não são meros pormenores porque no Evangelho de São João não há pormenores acidentais, há uma verdadeira intenção ao apresentar os pórticos e a idade da doença, uma vez que ajudam a enquadrar o milagre que Jesus realiza e a história da salvação que transparece.
Assim, podemos perceber que os cinco pórticos pelos quais se acede à piscina e à cura são os cinco livros da Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia, considerados com o fundamento intocável de toda a fé e a expressão da aliança de Deus. O homem doente, e que jaz à beira da piscina sem conseguir a cura, é como o povo que durante trinta e oito anos andou errante pelo deserto sem conseguir entrar na terra prometida.
A circunstância deste acontecimento proporciona assim a possibilidade de manifestar a libertação que Jesus vem operar, as novas vias de acesso à cura e à salvação. Os cinco pórticos não eram suficientes para a entrada nas águas da salvação, havia a necessidade de uma outra entrada, de uma outra ajuda, esse alguém que o doente espera para conseguir entrar nas águas borbulhantes.
Neste sentido, não podemos deixar de ter presente toda a carga simbólica da água presente no Evangelho de São João, a água que Jesus pede e oferece à Samaritana, a água que brota do lado aberto, a água das piscinas que não só purificam como curam e são símbolos da água viva onde todos somos mergulhados para alcançar a vida eterna.
Ao curar este paralítico que jaz junto à piscina Jesus manifesta-se como a superação das águas terapêuticas, é a nova possibilidade, o novo pórtico para a salvação, aquele que pode curar o homem definitivamente e superar o tempo de espera de que a antiga Aliança vivia.
À cura segue-se a ordem de carregar com a enxerga, com o catre onde jazia doente, e o regresso a casa num dia de sábado. Uma vez mais num dia de sábado, o que inevitavelmente gera a polémica e o questionamento.
Contudo, este homem que carrega a sua enxerga não está a fazer nenhuma mudança, não está a infringir nenhum preceito do descanso, bem pelo contrário nesse dia dedicado a Deus carrega com o sinal da sua vitória, da libertação de que tinha sido objecto. Aquela enxerga não é já um fardo mas um troféu, um sinal bem visível da vitória do bem sobre o mal, da vitória de Deus sobre a paralisia da humanidade incapacitada por si só de entrar nas águas da salvação.
Também a nós o Senhor nos ordena que carreguemos o nosso catre, a nossa enxerga, depois de curados pela sua graça, esse catre que é o nosso próprio corpo, a nossa própria história com as suas limitações e fragilidades. E ao carregá-lo devemos fazê-lo com esse sentido de troféu, na alegria da vitória que nos foi alcançada, porque só assim manifestaremos verdadeiramente e em toda a sua dimensão a plenitude da salvação de que somos beneficiários.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O homem acreditou nas palavras de Jesus e pôs-se a caminho (Jo 4,50)

É um funcionário real que vem ter com Jesus, um homem que estando ao serviço do rei e dos poderes políticos na cidade de Cafarnaum não seria certamente muito bem visto, uma vez mais um excluído ou alguém muito próximo da rejeição social. E vem ter com Jesus não só porque sabe que ele regressou à cidade, mas sobretudo porque tem o seu filho doente, em perigo de morte.
Conhecedor dos milagres que Jesus operara, do que tinha escutado sobre o acontecido no templo de Jerusalém, este funcionário real vem em busca de auxílio, da salvação para o seu filho moribundo. E nada mais simples que pedir a Jesus que desça até sua casa.
Pedido extremamente marcante no Evangelho de São João, porque descer até à sua casa engloba simbolicamente todo o processo de encarnação, o grande mistério da kenosis do Filho de Deus, que se fez homem e desceu da glória dos céus para habitar entre os homens. O pedido deste homem é afinal o pedido de todos os homens desde Adão, que Deus desça novamente ao encontro de cada um.
E inevitavelmente o confronto de Jesus com a demanda do extraordinário, com a busca de sinais e prodígios, como se Deus não pudesse descer nem aparecer entre os homens senão de forma extraordinária, afinal ao contrário daquela que era a sua realidade como Filho de Deus encarnado Filho de Homem, Palavra eterna feita presença no tempo.
Mas este homem, que insiste no seu pedido, acredita na palavra de Jesus, faz confiança face ao que ouviu dele e nas palavras que Jesus agora lhe dirige de que o seu filho vive e portanto confiante enceta o caminho de regresso a casa. Não necessita de nada de extraordinário, nem necessita mesmo já da presença de Jesus na sua casa, basta-lhe a palavra dada por Jesus, a anuência ao seu pedido de salvação do filho.
Este funcionário real de Cafarnaum manifesta assim uma fé tão suficiente na palavra de Jesus que lhe possibilita a realização do milagre e o posterior prodígio da conversão de toda a sua casa. Não foi necessário nada mais para além dessa confiança total na resposta dada por Jesus para que tudo se alterasse.
Na nossa caminhada de fé este funcionário coloca-nos acutilantemente o desafio da confiança na palavra, o desafio da fé nas palavras de Jesus e na sua resposta, porque à semelhança dos fariseus e dos escribas, contra quem Jesus se indigna, continuamos presos à expectativa de manifestações extraordinárias, de milagres, quando o que nos é pedido, e este homem nos ensina, é que o importante é a fé na palavra, a fé nas palavras de Jesus.
Necessitamos por isso uma conversão das nossas expectativas, um despojamento e libertação do extraordinário, e uma confiança maior na palavra que o Senhor nos deixou e nos profere cada dia, para que no caminho da vida possam acontecer as curas e os milagres que necessitamos e buscamos.

domingo, 3 de abril de 2011

Homilia do IV Domingo da Quaresma

Neste quarto domingo da Quaresma, também conhecido como Domingo Laetare, domingo da alegria, pois chegámos já a meio do caminho para a Páscoa, encontramos na leitura do Evangelho a narração da cura do cego de nascença, uma leitura que se estende a todo o capítulo nono do Evangelho de São João.
É uma narração cheia de peripécias, muito dinâmica, parecendo quase uma representação de teatro na qual os actores entram e saem de cena com uma rapidez quase estonteante, deixando-nos à beira da dúvida sobre o sentido deste texto no Evangelho de São João que habitualmente consideramos muito místico, espiritual, ou teológico.
Mas é esta sua dimensão teológica, a complexidade narrativa e construtiva, a carga histórica que encerra, que permite a presença de textos como este, tão dinâmicos e tão cheios de novidade evangélica. Afinal toda a história e todos os diálogos narrativos servem o objectivo patenteado logo no Prólogo do Evangelho quando nos é dito que “a Luz brilhou nas trevas mas as trevas não a receberam”.
E vemos isso desde o primeiro momento do relato quando o evangelista nos diz que foi Jesus que reparou no cego de nascença. A iniciativa da cura parte assim de Jesus, sem qualquer pedido ou busca por parte daquele que padecia da enfermidade. E tal como acontece com o cego assim acontece com a história da salvação, porque é de Deus que nasce a iniciativa da redenção através do mistério da encarnação.
Face à chamada de atenção de Jesus e ao mal patente, visível, os discípulos procuram uma explicação para a situação, a causa da cegueira, remetendo para o passado e para qualquer acção pecaminosa que o cego ou os seus antepassados tivessem cometido. Era normal, era a forma consentânea de pensar, de encontrar uma explicação, porque tudo tinha uma origem, e à luz da concepção religiosa o bem ou mal eram sempre fruto de uma bênção ou de uma maldição.
Ao contrário dos discípulos Jesus esquece o passado, remete-o para a sua mesma situação e apresenta o presente e o futuro, o dia em que se encontra para dar a luz à humanidade e manifestar o dom da misericórdia de Deus com a entrega do Filho às mãos dos homens. Não é no passado que se encontra a solução daquela cegueira, mas no futuro, nessa nova criação e nova humanidade nascida do lado aberto no corpo preso à cruz.
Antecipando e prefigurando a nova criação, o novo mundo e a nova humanidade, Jesus toca o cego com a lama feita do pó da terra e da sua própria saliva. É uma nova obra, fruto das suas mãos, da sua palavra criadora simbolizada na saliva, também símbolo da encarnação, desse mistério do filho de Deus nascido filho do homem. E para que a nova criação, o milagre possa ter um referente identificável da promessa feita ao povo, o cego é enviado a lavar-se na piscina de Siloé, ou seja na piscina do enviado, daquele que há-de ser enviado. É o banho regenerador nas águas primordiais, nas águas que no dilúvio lavaram a terra de toda a abominação e idolatria, nas águas sobre as quais pairava o Espírito que dá vida.
Acontecido o milagre, a cura do cego que agora todos reconhecem como vendo, gera-se a discussão, a procura de uma explicação para a possibilidade do como, porque não há maneira de negar a cura e o milagre, eles são evidentes, patentes aos olhos de todos, e portanto a necessidade premente é de reduzir a dimensão e o extraordinário do sucedido.
E nada melhor que aproveitar o dia em que tal foi feito, o sábado, o dia do descanso, o dia do Senhor, o dia em que estava proibido realizar um conjunto vasto de tarefas. O desrespeito por tal dia, ainda que para curar, mostrava uma não identificação com o espírito que presidia a esse dia e à sua criação. Esta concepção evidencia no entanto um sequestro da actividade de Deus, uma subjugação do seu poder ao tempo e aos critérios, que Jesus por diversas vezes mostrou que não era possível, não era compatível com a força criadora de Deus. E neste milagre do cego de nascença evidencia que mais que um tempo de paragem ou ausência, de descanso de Deus, o sábado é um tempo, e deve ser um tempo, para a recriação, para o recomeçar, para a possibilidade de um novo mundo.
Nesta discussão sobre a cura deparamo-nos de forma quase trágica com a recusa da realidade, porque mesmo explicando a forma como foi curado, o cego continua a esbarrar na obstinação da não aceitação, e sobretudo na obstinação da recusa do seu testemunho, da sua palavra. Por isso são chamados os pais para testemunhar e depois é solicitado um novo relato, que ele se recusa a dar porque se apercebe da falta de fé daquela gente, da sua obstinação em não ver o que era patente.
Colocando um final no acontecimento e na narração, e conduzindo-a ao seu objectivo, o evangelista João narra o encontro do cego com Jesus e a sua profissão de fé que evolui do reconhecimento do Filho do Homem para a adoração daquele que é o Senhor, o criador da sua nova vida, ao contrário dos fariseus que testemunham o encontro e sabem de toda a história mas são incapazes de abrir os olhos para a luz, pelo que permanecerão cegos à luz presente ainda que vejam tudo o que se passa.
Vemos assim como nesta narração e aproveitando esta cura de cegueira o evangelista constrói historicamente a manifestação da luz divina em Jesus Cristo e como essa manifestação foi recusada, foi liminarmente ignorada para não provocar alterações na situação individual e colectiva.
Vemos também o itinerário de todo o fiel, de todo o discípulo, que se encontra com o Senhor que vem ao seu encontro para o retirar das trevas, que dá testemunho desse encontro e da sua nova identidade e natureza, expondo-se a todos os perigos e inclusive à exclusão, e que à luz dessa experiência reconhece que o Filho do Homem é o seu Senhor e Salvador e portanto se prostra para o adorar. A luz manifestada é acolhida em vez de ser rejeitada.
Como baptizados em Jesus Cristo somos filhos da luz e estamos convocados a levar a sua luz a todos os homens e a todas as circunstâncias que necessitam ser iluminadas, não esquecendo como nos diz São Paulo que os frutos da luz são a bondade, a justiça e a verdade. Sempre que estas realidades se gerarem à nossa volta e por nossa intervenção podemos e devemos acreditar que estamos a ser fiéis, estamos a viver na luz e com a luz. Que o Senhor nos consolide na luz com que nos despertou.