terça-feira, 31 de maio de 2011

Visitação de Nossa Senhora Visita da Alegria (Lc 1,39-56)

São Lucas conta-nos que poucos dias depois da anunciação a Virgem Maria se pôs a caminho de uma aldeia nas montanhas para visitar a sua prima Isabel. O anjo Gabriel tinha-lhe dito que a sua prima, na sua velhice, se encontrava de esperanças, contrariando dessa forma as leis da esterilidade da natureza e manifestando todo o poder de Deus para fazer as coisas diferentes e impossíveis aos olhos dos homens.
Esta solicitude da Virgem Maria pela sua prima é para nós um exemplo na solicitude que a fé e a caridade nos exigem face aos outros, uma solicitude face às suas necessidades e aos seus problemas. Não podemos ficar fechados no nosso mundo, no nosso egoísmo e tranquilidade de espírito, quando os outros necessitam de uma ajuda, de uma palavra amiga.
O encontro da Virgem Maria com a sua prima Isabel não fica no entanto apenas por essa solicitude que nos devemos, ele é também a manifestação de uma presença do Espírito Santo nesse dom que é a alegria. João exulta no seio de Isabel com a saudação de Maria e Isabel enche-se de alegria por esta exultação. Maria transporta a alegria e exulta também alegremente por tudo aquilo que o Senhor tem feito com ela e nela. Maria é essa tenda da alegria na qual se acolhe o dom de Deus que é levado e apresentado aos outros que se dispõem a recebê-la.
Neste sentido, a nossa solicitude para com o próximo passa ou deveria passar pelo dom da alegria, por sermos capazes de mostrar a alegria que nasce da esperança e da fé em que nos fundamentámos e fiámos. E deveria ser ainda mais intensa, mais presente e contagiante na medida em que somos já herdeiros do dom que Maria e Isabel preconizam, antecipam evangelicamente. A nós foi-nos já dito e prometido que não ficaríamos órfãos, que nos seria enviado esse mesmo Espírito para que nada perturbasse o nosso coração.
E quando vemos a Virgem Maria louvar o Senhor no canto do Magnificat por tudo o que amorosamente tem feito, percebemos como o louvor de Deus nasce e se fortalece no encontro com o outro, na partilha das experiências pessoais de Deus, nesse confronto e reconhecimento de que Deus vai actuando nas vidas de cada um de forma singular e irrepetível. O encontro de Maria e Isabel e as histórias divinas de cada uma levaram a esse hino de louvor pela misericórdia de Deus.
E neste sentido, também nós nos devíamos fortalecer com as histórias de cada um com Deus, pela partilha fraterna devíamos alimentar a nossa fé e confiança, juntar as vozes para louvar a Deus e dar graças por tudo o que tem feito, pelo amor que tem manifestado por cada um de nós nas diversas circunstâncias da vida.
O encontro de Maria e Isabel deixa-nos assim estes diversos convites, que pedimos ao Espírito Santo nos ajude a viver e a tornar presentes em cada dia.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Outra Confissão de Nossa Senhora

Na fotocópia de onde retirei a Confissão de Nossa Senhora a São Domingos, divulgada anteriormente, encontrava-se também esta outra confissão, que deixo apenas para divulgação e comparação. Foi recolhida por Michel Giacometti, José Soares e António Pinto no lugar de Dornes, concelho de Ferreira do Zêzere, Santarém em 1974.


Nossa Senhora se confessou uma manhã ao domingo,
Não era por ter pecados, nem por os ter cometido.
Era para cumprir os preceitos do seu amado Filho.
Passa-se em torno, ela que ajoelhou,
Que tinha do seu ventre todo o mundo alumiou.
O padre, quando isto via, em pensamentos duvidou.
- Padre, em pensamentos não duvides nem tens que duvidar
Que isto são os mistérios da Santíssima Trindade.
… que eu vou caminhando para Belém.
Nasceu o meu amado Filho criador de todo o bem.
Quem esta oração disser, um ano continuamente,
Nossa Senhora lhe aparecerá com o seu Amado Filho de presente,
Lhe dirá: - Ó filho, ó filha, confessa os pecados que tens para confessar,
Que eu sou a Virgem sagrada que te venho alembrar.
Vou pedir a Jesus Cristo, que é meu filho natural,
Que t’os queira perdoar.
Para sempre e mais amén.

Confissão de Nossa Senhora a São Domingos

Quando menos esperamos acontecem algumas surpresas. Foi o caso de hoje e de uma fotocópia velha que me veio ter à mão. Fazia parte do espólio de um dos nossos irmãos falecidos, e é um testemunho de mais uma daquelas coisas que vamos guardando no baú dos nossos papéis por paixão à Ordem a que pertencemos e a São Domingos.
Não tem qualquer referência bibliográfica, pelo que não posso indicar a origem da fotocópia, mas apenas os dados da ficha etnográfica que nela aparece e que diz que esta oração ou conjunto de estrofes foi recolhida por Edite da Silva Neves junto de Etelvina Neves, com 60 anos de idade, do lugar de Penedono no distrito de Viseu e por volta de 1959.
É uma confissão de Nossa Senhora a São Domingos que vale a pena dar a conhecer pelo inusitado, razão porque certamente o nosso irmão a teria também guardado entre os seus papéis.

Ó meu Padre Sã Domingos, confissão me hás-d’ óvir,
Sinto-me agora ocupada, in vésperas de parir.
Assentou-se o confessor, ajoelhou a donzela;
Cum o seu ventre sagrado, resplendor do céu e terra.
O padre qui a óviu alvorou seu pensamento,
- P’ra confessar os pecados, vamos òs mandamentos.
- O primeiro qu’ eu amei, foi a um Deus e Sinhor,
A quem trago no meu ventre, a quem tenho tanto amor.
O sigundo qui é jurar, faço jura de contino:
A 25 de Março, incarnou Verbum devino;
A 25 de Março, tiv’ eu grand’ acupação,
Cum delírios pensamentos, da bela Incarnação.
O quarto qui é honrar nossos Pais mais qui a nós,
Num dezei qui é ofensa chamar a Jesus por Vós.
O quinto qui é matar, eu nunca matei ninguém;
Quando, podendo ser, questumei de fazer bem.
O sexto qu’ eu levantei o céu à minha memória,
Deus me deu pro pureza, e a graça, a sua glória.
O sétimo qui eu sempre fui uma fina roubadoura,
Roubei a Jasus Cristo, Jasus Cristo Salvador.
O oitavo qui eu sempre fui casta e pura donzela,
Filha de Sã Joaquim, resplandor de céu e terra.
Ó meu Padre Sã Domingos. Já ‘stá dit’ à confissão,
Nela me dei penitência, num me deis òservição.
- Levantai-vos, pomba branca, arrelicário devino,
Num tenho de que vo-lo bote, nem de vos convessar sou dino.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mestre Eckhart - Uma Biografia

Apresentar uma biografia do Mestre Eckhart não é uma tarefa fácil, ainda que se encontrem várias por manuais de espiritualidade e dicionários diversos. Há em muitas dessas biografias alguns erros, provocados a maior parte deles por um cabal desconhecimento dos acontecimentos ou por aproximações interpretativas que não são as mais correctas. Por exemplo, apesar de toda a investigação que já se fez e tudo o que já se escreveu, não sabemos a data exacta em que o Mestre Eckhart deixa Estrasburgo para ir viver para Colónia. Facto que é significativo na sua vida.
Neste processo da sua vida, a primeira data certa de que hoje dispomos, a documentada, é a de 1302, ano em que o Mestre Eckhart é “magister”, mestre em Paris. A ela podemos associar a data do início da carreira universitária parisiense, 1293, ano em que entre Setembro e Outubro pronuncia como bacharel a sua conferência inaugural sobre o Livro das Sentenças de Pedro Lombardo. No ano seguinte, 1294, pronuncia ainda em Paris um sermão Pascal.
A partir destas datas pode-se tentar a construção de uma biografia, ainda que para ela se tenham que ter em conta elementos extrínsecos, como seja o tempo necessário à formação religiosa e académica, e que depois podem apresentar alguma discrepância com a realidade histórica.
Tendo presentes estes condicionalismos, podemos dizer que Eckhart nasceu em 1260, numa família da Turíngia, mais precisamente de Hochheim. O nome da localização aparece num sermão sobre Santo Agostinho, sermão esse pronunciado em 28 de Agosto de 1303.
Em 1275 entrou certamente no convento dos dominicanos de Erfurt. O ano corresponde ao seu décimo quinto aniversário e é apresentada porque de acordo com as Constituições Dominicanas não se podia aceitar nenhum candidato a frade sem ter cumprido essa idade. Não poderia portanto ter entrado antes.
Ultrapassado o tempo de prova do noviciado, Eckhart encontra-se certamente em Paris em 1277 para realizar a sua formação no ciclo das Artes, três anos para estudar o “trivium”, a base necessária para o estudo da Filosofia em Colónia, onde se encontra em 1280.
Em 1293 e 1294 encontra-se a comentar as “Sentenças” de Pedro Lombardo em Paris, de onde parte, ainda nesse mesmo ano de 1294, para Erfurt onde é Prior provavelmente até 1298. É habitual que o período de governo de um Prior conventual seja de três anos, pelo que podemos supor que pelo menos Eckhart fez um priorado em Erfurt.
Estando em Erfurt, e preparando-se certamente para um segundo mandato de mais três anos, o Mestre Eckhart foi nomeado Vigário da Turíngia, pelo Prior Provincial da Teutónia, frei Dietrich de Freiberg. Tendo presente que o Capítulo Geral de 1298 tinha ordenado a incompatibilidade dos dois cargos, é plausível pensar que Eckhart tenha prescindido do priorado de Erfurt e se tenha dedicado à função de Vigário, facto que o colocou numa movimentação constante entre conventos.
São desta época os “Reden der Unterweisung”, “As Conferências Espirituais”, apresentados como as “palavras que o Vigário da Turíngia, Prior de Erfurt, irmão Eckhart da Ordem dos Pregadores, dirigiu aos filhos que lhe colocavam numerosas questões aquando da reunião para a Colação da noite”.
Esta apresentação assume os dois cargos, que como vimos são incompatíveis, pelo que podemos afirmar que o redactor faz menção de duas realidades e cargos, que de facto não foram simultâneas, mas que marcaram a vida do Mestre Eckhart e daqueles que sob a sua autoridade viveram.
A função de Vigário da Turíngia é suspensa entre 1302 e 1303, anos em que o Mestre Eckhart volta a estar em Paris e a ensinar. São deste ano de 1302 o Sermão sobre Santo Agostinho, bem como os ecos do seu ensino, que encontramos nas questões Parisienses I e II e nas “Rationes Eckhardi” recolhidas na obra de Gonzalo de Espanha. São questões teológicas que se inserem na animada discussão entre dominicanos e franciscanos sobre o conhecimento e o poder de ensinar.
Em 1303 Eckhart é eleito Prior Provincial de Saxe, Província nascida de uma divisão da Província da Teutónia, para a qual mais tarde também será eleito. Em 1307 e a seguir ao Capítulo de Estrasburgo é nomeado Vigário Geral da Província da Boémia, com uma missão reformadora, que leva a cabo, mas com resistências por parte dos frades seus irmãos. Eckhart encontra-se envolvido nestas questões governativas até 1311, e residindo no seu convento de origem de Erfurt.
Contudo, e apesar das informações institucionais, é um período da vida do Mestre bastante desconhecido, com poucas informações sobre a sua obra e acção. Deste período conhece-se apenas uma carta, datada de 8 de Setembro de 1305 e na qual, dirigindo-se aos Conselheiros da cidade de Gottingen, pede ajuda para o aumento das instalações conventuais. À luz das exigências do oficio governativo a vida do Mestre Eckhart deve ter sido bastante dura neste período, com muito tempo dispendido em deslocações, em discussões de autoridade, enfrentando tanto os perigos da viagem como os dos frades que devia reformar.
A eleição de Mestre Eckhart para Prior Provincial da Teutónia não foi rectificada pelo Capítulo Geral de Nápoles. Assim, não sendo aceite a sua eleição e tendo terminado o mandato de Prior Provincial de Saxe, Eckhart é enviado novamente para Paris, desta feita como “magister actu regens”, um titulo bastante importante e excepcional e que o iguala a um São Tomás de Aquino.
Eckhart está em Paris entre 1311 e 1313 e é neste período que começa a redigir a sua obra tripartida, esse grande conjunto composto de textos de polémica teológicas, de exegese bíblica e de sermões e do qual nos chegou apenas uma pequena parte e graças a Nicolau de Cusa que fez cópia de alguns excertos. Certamente os que lhe interessavam.
O objectivo de Eckhart nesta obra “é demonstrar filosoficamente a verdade das Escrituras para, a partir dessa interpretação, apresentar as Escrituras como a quinta -essência de todo o conhecimento filosófico” (Kurt Flasch, 299)
No final de 1313 ou inícios de 1314, Eckhart é nomeado Vigário Geral da Teutónia e assistente das monjas dominicanas. É com este título e incumbido desta função que ele visita o convento de Unterlinden, juntamente com o Vigário Geral Mateus de Finstingen. Pouco depois, final de 1314, está de partida para Estrasburgo onde vai viver cerca de dez anos e onde compõe grande parte da obra escrita que chegou até nós. É a época de obras importantes, como “Os Sermões”, “O Livro da Consolação Divina, “O Tratado Sermão do Homem Nobre” “O Comentário ao Evangelho de São João”
Estrasburgo representa na vida do Mestre Eckhart um momento muito importante, pois é aí que entra em contacto com toda a espiritualidade feminina que se tinha desenvolvido e estava a desenvolver na região e da qual mulheres como Hadwijch de Anvers ou Mechtilde de Madgebourg são fiéis representantes.
Deste período o tema do “homem nobre” é aquele que mais se destaca e distingue no conjunto. Através desta figura, o homem nobre que é ao mesmo tempo o homem pobre, o homem humilde, Eckhart elabora as grandes linhas da sua antropologia e ontologia. “Escolhendo o homem nobre como eixo de toda a sua pregação em Estrasburgo, Eckhart retoma e desenvolve numa dimensão pastoral a ideia da constituição do ser que está subjacente a toda a sua obra latina e parisiense e cujas raízes mais profundas radicam na Patrística e no seu conceito de “assumptus homo” (Vanier, 100).
Mas este “homem nobre” não é um homem que chegou à perfeição, é um homem que vive inteiramente em Deus, um homem que vive a inabitação divina, ou seja, aquele que chegou ao coração da fé e está unido a Deus.
Os últimos anos da vida do Mestre Eckhart são os mais bem conhecidos, em grande parte devido ao processo de que foi alvo. Contudo, por esse mesmo processo, são também os mais difíceis.
A partir de 1325, depois de ter deixado Estrasburgo para voltar a Colónia, provavelmente em 1324, algumas dúvidas sobre a ortodoxia do Mestre são levantadas. Em Agosto de 1325 Nicolau de Estrasburgo é nomeado visitador Pontifício e é nesse título que visita o convento de Colónia onde alguns frades acusam Eckhart e a sua forma de pregar. Nicolau de Estrasburgo, ainda que simpatizante do Mestre e das suas ideias reformadoras, não pode deixar de cumprir a sua missão e assim ordena um inquérito disciplinar sobre Eckhart. O “Livro da Consolação Divina” é colocado em causa.
Face à benevolência e à falta de poder jurídico de Nicolau de Estrasburgo, dois dominicanos de Colónia, Hermann de Summo e Guilherme de Nidecke acusam o Mestre Eckhart em 1326 à Inquisição. 49 proposições dos seus textos são julgadas condenáveis. Quando Eckhart se defende da acusação o número das proposições aumenta para 59. Face a isto o Arcebispo de Colónia manda instruir o processo. Eckhart depois de interrogado pelo Capítulo da Catedral recorre e apela para o Papa. Estamos no início de 1327, em Janeiro.
Ao recorrer ao Papa Eckhart sublinha a inveja de que era alvo por parte dos acusadores, mas também a história da Ordem a que pertencia. Eckhart recorda que desde o começo da Ordem Dominicana nenhuma acusação de heresia fora imputada a qualquer mestre, ou simples frade dominicano. Eckhart tem razão na sua defesa, porque o que está em causa não é a sua teologia, mas o sucesso da sua palavra junto das gentes, sobretudo das mais humildes.
Eckhart morre no final de 1327 ou princípios de 1328, em Avinhão ou no caminho de regresso, não se sabe, uma vez que a condenação de que foi alvo, e que não chegou a conhecer, lhe retirou o direito a uma sepultura digna da sua obra. As proposições foram condenadas em 1329 pelo Papa João XXII através da Bula “In agro Dominico”.
Este processo do Mestre Eckhart é um testemunho mais da grande oposição que desde o primeiro momento marcou a relação entre os seculares e os regulares, e que esteve na origem de tantos outros processos, como por exemplo o que foi movido contra São Tomás de Aquino. É também o testemunho de um acto mais radical, o da tentativa de corte da influência do Mestre junto do povo fiel.
Mas foi uma tentativa gorada, porque a influência do Mestre Eckhart continuou através de intermediários como Tauler, como os Amigos de Deus, com as diferentes lendas que foram construindo uma imagem única deste dominicano.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Poema do Mestre Eckhart "Grão de Mostarda"

No princípio / além do sentido / lá está o Verbo. Oh tesouro tão rico / onde princípio faz nascer princípio!
Oh coração do Pai / de onde em grande alegria / sem cessar flui o Verbo!
E contudo esse seio lá / em si guarda o Verbo. É verdade.

Dos dois um rio / de Amor o fogo / dos dois o laço / aos dois comum,
Flui o mui suave Espírito / em medida muito igual / inseparável.
Os três são Um.
O quê? Sabe-lo tu?
Não.
Só Ele sabe o que Ele é.

Dos três o anel / é profundo e terrível,
Esse contorno lá / jamais cessa ou cessará:
Lá reina um fundo sem fundo.

Leva vantagem sobre / tempo, forma e lugar!
O anel maravilhoso / é desbordante, / o seu ponto continua imóvel.

Este ponto é a montanha / a ascender sem agir. / Inteligência!
O caminho te conduz / ao maravilhoso deserto,
Ao largo, ao longe, / sem limites se alarga.
O deserto não tem / nem lugar nem tempo / tem o seu próprio modo.

Este deserto é o Bem / que nenhum pé pisou,
O sentido criado / jamais ali chegou:
Aquilo é, mas ninguém sabe o quê.
É aqui e é lá / é longe e é perto / é profundo e é elevado
É portanto o que não é isto nem aquilo.

É luz, é claridade / é a treva / é inominado / é ignorado,
Livre de começo como de fim.
Jaz tranquilamente / todo nu, sem roupa.
Quem conhece a sua casa, que saia dela!
E nos diga a sua forma.

Torna-te tal como uma criança / faz-te surdo e cego!
Todo o teu ser / deve fazer-se nada, passa para além de todo o ser e todo o nada.
Deixa o lugar, deixa o tempo / e as imagens igualmente!
Se tu vais por alguma via / sobre o caminho estreito / tu chegarás até ao sinal do deserto.

Oh minha alma / sai! Deus entra!
Afunda todo o meu ser / em Deus que é não ser, / afunda neste rio sem fundo!
Se eu te fujo / Tu vens até mim
Se eu me perco, Tu, eu Te encontro,
Oh Bem sobre essencial!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Quem me ama guarda a minha Palavra (Jo 14,23)

O mandamento do amor, ao próximo e a Deus, exercita-se nesse grande desafio da fidelidade. Amamos o outro na medida em que nos mantemos fiéis apesar das dificuldades e das atrocidades, dos desencontros que marcam a relação. Amamos a Deus na medida em que guardamos a mesma fidelidade aos seus mandamentos, à sua Palavra.
Mandamentos e Palavra que não podemos deixar de ter presente se dirigem à libertação do homem, que privilegiam a liberdade do homem e a sua vontade. Mandamentos e Palavra que se dirigem à superação do homem enquanto realidade a crescer e a desenvolver-se, a frutificar e a fazer render os seus talentos.
Os mandamentos e a Palavra de Deus não são para nos constringir ou limitar mas para nos apelar e incentivar a um desenvolvimento, a um encontro com o melhor que há de possível em nós próprios e tantas vezes deixamos soterrado na nossa preguiça e nas solicitações do mundo.
A história da salvação é a história desse desafio e assim tanto Abraão é convidado a deixar a sua terra por uma outra mais fértil e uma descendência mais numerosa, como o povo de Israel é incentivado a superar a dura travessia do deserto para herdar uma terra onde mana leite e mel.
Contudo, este desafio, esta superação das limitações e dificuldades, só se realiza na medida do amor, da paixão com que é vivido, porque o amor conduz a vontade e o esforço necessário. E todos sabemos como o amor suaviza as dificuldades e nos faz ultrapassar os obstáculos.
Neste sentido necessitamos um exercício diário de discernimento sobre os amores que regem a nossa vida, porque muitos deles são perfeitamente válidos, honestos e necessários, mas necessitam desse enquadramento divino, do amor divino, para que possam verdadeiramente servir à construção e superação do que somos.
Assim, é normal a paixão e o amor pela profissão que desenvolvemos, que desejemos e lutemos pelo progresso, pelo seu desenvolvimento e aperfeiçoamento, que aspiremos a ser reconhecidos pelo nosso trabalho e o seu valor. Mas não podemos ficar só aí, e devemos ter cuidado para perceber o quanto esse desejo e essa luta estão marcados pelos critérios do mundo, da satisfação da nossa vaidade.
Percebendo esses critérios podemos perceber também o amor de Deus que colocamos no que fazemos, na fidelidade à Palavra que procuramos viver, aí, mesmo nessas realidades que tantas vezes queremos ou procuramos que não tenham nada a haver com os mandamentos e a Palavra de Deus. Como se na nossa fidelidade e na guarda do amor de Deus pudesse haver compartimentos estanques e independentes.
Necessitamos assim discernir em cada momento a presença de Deus e do seu amor, como as nossas palavras e as nossas acções nascem desse amor, se devem manter e alimentar desse amor e como devem estar também marcadas por esse objectivo de conduzir ao amor.
O que não procede do amor de Deus, não cresce nem se desenvolve no amor de Deus, não serve a Deus nem o seu projecto de amor, é portanto uma infidelidade ao mandamento da guarda da Palavra de Deus. Pelo que necessitamos pedir ao Senhor que nos envie o seu Paráclito, o seu Espírito, para nos recordar e ensinar tudo o que é necessário à fidelidade do amor.

domingo, 22 de maio de 2011

Homilia do V Domingo do Tempo Pascal

Não se perturbe o vosso coração é o convite que Jesus faz aos seus discípulos perante o anúncio da sua morte, e nos faz também a nós como seus discípulos e desejosos de o seguir na fidelidade ao projecto do Pai.
É um convite que nos revela a compaixão de Jesus, a sua amizade e carinho por aqueles que lhe são próximos e que ele escolheu para seus discípulos, é um convite que nos revela a face daquele que também foi capaz de chorar pelo seu amigo Lázaro. Jesus preocupa-se com os seus, procura assegurar-lhes a tranquilidade de espírito face às perspectivas do que se avizinha em termos de sofrimento e humilhação.
E ao convidá-los a esta tranquilidade, a esta paz de espírito, Jesus apela à sua fé em Deus, a essa confiança no Deus de Israel, fundamento de toda a história de salvação do povo libertado do Egipto. Tal como o povo de Israel confiou em Moisés e foi capaz de fazer a travessia do deserto, também agora eles são convidados a confiar no novo libertador, no novo Moisés, e a atravessar com ele o deserto da dor e da morte.
A fé do povo de Israel, de que cada discípulo é herdeiro e testemunha deve agora transferir-se para Jesus, para esse Mestre que se lhes apresenta confiante face à travessia dolorosa, pois sabe que regressa à terra prometida a todos os homens, à casa do Pai.
Jesus manifesta-se confiante diante dos seus discípulos, pois sabe que se aproxima a sua meta, o cumprimento da sua missão, mas sabe também que como Moisés segue à frente do povo abrindo o caminho para que todos os possam seguir.
Face a tal perspectiva Tomé, como bom discípulo, como alguém que não se fica pela superficialidade mas deseja viver a fundo todo o seguimento, de forma consciente e critica o que se lhe apresenta, questiona Jesus sobre o caminho, um caminho físico que parece que acaba em Jerusalém, mas que se perspectiva em outras dimensões para além da história e da geografia.
Oportunidade maravilhosa para Jesus se apresentar a Tomé como o Caminho, a Verdade e a Vida, como o meio para aceder ao Pai, e para se apresentar a Filipe como a imagem do Pai, a visão possível da face de Deus. Oportunidade para um momento de revelação e ensino extremamente rico e incontornável para todo aquele que se propõe aproximar de Deus.
Jesus é a imagem do Pai, a visibilidade possível de Deus, porque está unido ao Pai, vive em doce intimidade com o Pai, partilha da sua vida. E se em outros momentos Deus tinha manifestado a sua glória, se tinha revelado próximo, jamais o tinha feito face a face, pois ver a face de Deus equivalia a morrer. Moisés viu a glória de Deus, mas apenas pelas costas, bem como o profeta Elias, que a percebeu na brisa suave da tarde.
Contudo, em Jesus é possível ver a face de Deus, o rosto na medida do rosto humano que assumiu na encarnação. Deus fez-se visível à possibilidade de visão do homem, porque de contrário continuaria invisível ou mortífero, impossível de ver ou aniquilador de todo o que O visse.
Por outro lado, nesta visibilidade, neste rosto, é possível ver o que Deus é enquanto proximidade, enquanto amor, enquanto inquietação pela salvação da sua obra. Jesus manifesta o rosto misericordioso de Deus, que não se isolou na sua divindade deixando o homem à sua mercê, mas veio ao se encontro e para sua salvação, resgatando-o da distância que os separava.
Jesus é desta forma, e como diz, o Caminho, um caminho com dois sentidos, o sentido da graça e da misericórdia do Pai em relação aos homens, o sentido do amor infinito, um sentido descendente; enquanto que por outro lado, e em sentido ascendente, é o sentido do homem em busca de Deus, a humanidade vivida em plenitude e realizadora do projecto inicial de Deus de vida partilhada e intimidade consentida. Como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem Jesus é Caminho e apresenta-se como caminho possível para todos os homens.
Paralelamente Jesus é também a Verdade, a verdade da humanidade no que ela tem de fecundidade de boas obras, de fidelidade ao projecto de Deus e ao seu mandamento do Amor. Jesus como Verdade é também a humanidade como experiência de finitude, de limitação no tempo e no espaço, mas passível de superação na medida em que se vive ou procura viver a Verdade de Deus. Uma verdade de que a ressurreição de Jesus é o maior testemunho e a garantia mais fidedigna de possibilidade, pois como nos diz Jesus em outro momento, nenhum daqueles que lhe pertence, que vive em relação nele e com ele se perderá.
Desta forma, Jesus é naturalmente Vida, a garantia de que nada é em vão, de que a vida humana nas suas condições e limitações é um pálido reflexo da verdadeira vida, uma vida feita de eternidade e para a eternidade. E por isso todo aquele que se insere nessa vida, que a assume como possibilidade, que entra em relação vivencial, não está mais condenado à inexistência nem à finitude. Há uma Vida que habita a vida.
Neste sentido e fazendo eco do convite de Jesus não se deve perturbar o nosso coração, não se deve inquietar face às limitações e fragilidades da nossa vida e da nossa condição humana, mesmo face à finitude a que todos estamos condenados. Na medida em que nos aproximarmos de Jesus, buscando nele a face visível de Deus e a relação que nos é oferecida e possível estabelecer, estaremos a iniciar um caminho, guiados por uma verdade que nos conduzirá à vida, e à vida em plenitude.

sábado, 21 de maio de 2011

Tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei (Jo 14,14)

Poderá haver promessa mais fascinante que esta que Jesus nos deixa ao dizer-nos que tudo o que pedirmos ao Pai em seu nome, ele nos concederá?
E no entanto quantas vezes nos esquecemos desta promessa, quantas vezes nos deixamos levar por pedidos sem nexo e sem força, sem a força de um nome.
Ou será porque pedir em nome de Jesus, pedir alguma coisa, não significa pedir banalidades nem bagatelas, mas ter presente a pessoa que representa o nome?
Pedir a Deus Pai pelo nome de Jesus significa ter presente a pessoa e a vida de Jesus, porque o nome diz a pessoa e diz a vida. E neste caso diz a pessoa que é o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, partilhando da glória celeste do Pai mas também da condição mortal do homem.
Diz também a vida, mistério de encarnação, pobre em Nazaré, trabalhador carpinteiro, emigrante numa terra que não é a sua, proclamado pelas multidões rei de Israel mas também por essa mesmas multidões desprezado como condenado à morte.
Vida feita de caminhos e encontros, outros tantos desencontros, de sede e por vezes de muita sede, de companheiros e amigos que não compreendem as suas palavras, e de outros que procuram nas suas palavras um motivo para o condenarem.
O nome de Jesus diz a sua história e a sua vida, o seu projecto de amor e a morte sofrida por ele, e por isso nos distanciamos, nos esquecemos, porque não é fácil, e não nos queremos arriscar nem envolver no que significa e representa esse nome.
E no entanto foi este nome e a sua força que Pedro ofereceu ao paralítico que à porta do templo lhe pedia esmola. Não tendo ouro nem prata, Pedro oferece o nome de Jesus, interpela o poder de Deus pelo nome do Filho, e o paralítico andou, porque ao nome de Jesus todos os joelhos se dobram no céu e na terra, todas as forças se subjugam.
Como deveria ser suave e frequente em nossos lábios o nome de Jesus, para que o Pai nos atendesse por seu Filho e nosso Salvador nas nossas necessidades.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Senhor não sabemos o caminho (Jo 14,5)

Jesus prepara os seus discípulos para a partida e fala-lhes da morada que lhes vai preparar, uma morada para a qual eles sabem o caminho.
Tomé, o discípulo do espírito crítico, pergunta a Jesus pelo caminho, pois se não sabem sequer para onde vai como podem saber o caminho a tomar. “Senhor não sabemos para onde vais, como poderemos conhecer o caminho?
Não podemos deixar de dizer, com toda a verdade, que Tomé é honesto na sua expressão, pois se durante bastante tempo o objectivo de Jesus era caminhar para Jerusalém, agora não sabem para onde Jesus vai, para onde quer ir, pois já estão na cidade de Jerusalém. Que saída é possível daquele lugar?
Depois, não podemos esquecer que a maior parte das vezes os discípulos, e inclusive Tomé, nunca compreenderam o que Jesus queria, do que Jesus lhes falava. E essa incompreensão e disparidade de critérios e objectivos era agora ainda maior, pois Jesus tinha-se posto a lavar os pés quando devia estar a presidir à mesa. Que esperar afinal daquele Mestre tão incompreensivelmente estranho? Que morada vai preparar?
Para cada um de nós a pergunta de Tomé continua formulada e em formulação, continua como um aguilhão a ferir-nos no caminho possível, no fim conhecido, e nos caminhos e metas que nos iludem e dispersam. Hoje sabemos para onde foi Jesus e qual o caminho que tomou, mas outros caminhos e lugares se nos atravessam com miragens muito mais prazenteiras e satisfatórias.
E para além destes caminhos que se nos atravessam tentadoramente, deparamos também com a neblina preguiçosa e egoísta que não nos deixa ver claramente o caminho, que se interpõe ao horizonte para onde caminhamos, que nos vai atrasando na caminhada distraindo-nos com as paisagens momentâneas.
Sabemos a meta e o caminho para lá chegar, mas como exige esforço, dedicação, empenho, confiança, esperança e amor vamo-nos deixando prender por aquelas metas cujos caminhos não são exigentes, por vezes até não implicam nenhuma exigência. É tudo tão mais fácil!
São João da Cruz diz que “para ir onde não se sabe deve-se passar por onde não se sabe”, ou seja, é necessário arriscar na aventura e no desconhecido, na esperança e na confiança, dando resposta ao convite de Jesus “não se perturbe o vosso coração”, “tende confiança eu venci o mundo”.
Inevitavelmente vamos de noite, tenteando na escuridão da nossa humanidade e em contraluz à revelação amorosa de Deus, mas só dessa forma nos poderemos um dia encontrar com a luz esplendorosa e iluminadora de todos os nossos esforços Jesus Cristo Caminho Verdade e Vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O servo não é mais que o seu Senhor (Jo 13,16)

Jesus mandou-os primeiro preparar a sala e tudo o necessário para a celebração da Páscoa. Depois sentou-se com eles e partilhou da refeição que tinham preparado. E quando nada o fazia suspeitar, levantou-se, retirou o manto e começou a lavar-lhes os pés, como um humilde servo, um escravo.
Nada poderia ser mais chocante, mais desconcertante, porque estavam todos à mesa, estavam em festa, e o que o Mestre fazia, essa tarefa servil, costumava fazer-se antes de se iniciar a refeição. Que despropósito e que loucura!
Contudo a acção de Jesus, surpreendente e recusada por um momento por Pedro, é um ensinamento, uma oportunidade para deixar aos discípulos uma grande palavra sobre tudo o que se passará dentro em breve, e também se deverá passar na vida de cada um dos seus discípulos.
O que acontece não é uma troca de lugares, não é o Mestre que se faz discípulo e servo dos seus discípulos, mas uma acção exemplar que mostra qual deve ser a atitude dos discípulos frente aos outros, serviçal, ministerial, fautora de uma dignificação.
E esta atitude é por demais significativa na medida do paradoxo que a envolve, pois se Jesus insiste em lavar os pés, essa insistência processa-se com aquele que pouco depois vai negar a pertença que esse gesto humilhante do Mestre gera. É a Pedro que Jesus insiste em lavar os pés, a esse que o negará.
Neste sentido, não podemos deixar de ver no gesto de Jesus uma imagem do que foi a sua vida, a sua missão, o seu mistério de incarnação, afinal uma busca amorosa daqueles que apesar do seu amor são capazes de o negar, de dizer que não conhecem.
E por isso, quando mais tarde Jesus se encontra com Pedro nas margens do lago, lhe pergunta se o ama. Não porque duvidasse, mas para que Pedro se libertasse do remorso da negação, da culpa mortal da infidelidade. Uma vez mais Jesus vem servir o homem, vem libertar Pedro e cada um de nós dessa carga brutal que nos esmaga e que se chama culpa.
Perante estes gestos fica-nos o desafio do serviço ao próximo e aos irmãos, mas fica-nos sobretudo o desafio contra toda a certeza e a garantia, fica-nos o serviço amoroso junto daqueles que nos podem trair ou até já nos traíram, fica-nos o desafio da dignificação daqueles que por si ou pelos seus actos provocaram o descrédito e a desconfiança.
Afinal ninguém é mais que o seu Mestre, ninguém é maior que o seu Senhor, mas todos somos convidados a seguir o Mestre e o Senhor no seu exemplo e na sua proposta, a procurar aproximarmo-nos do que nos deixou como mandamento, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Se és o Messias, diz-nos claramente! (Jo 10,24)

Era Inverno e Jesus caminhava sob o pórtico de Salomão quando uns judeus vieram ter com ele e o intimaram a dizer-lhes claramente se era o Messias. Andavam inquietos e sem saber o que pensar, ou melhor, orgulhosamente sem querer pensar no que viam e lhes era revelado.
Perante tal pressão Jesus responde-lhes como era de prever, com a verdade dos seus actos, reveladores da sua pessoa e da sua missão, pois eram eles que podiam dizer quem ele era e o que fazia.
Uma vez mais e ainda no contexto da imagem do bom pastor Jesus faz alusão à voz, ao dizer, com que é interpelado e com que se constrói a resposta. O pedido dos judeus, “diz-nos”, implica inevitavelmente uma voz, uma palavra, que Jesus remete para si mesmo, para os seus gestos no que eles têm de voz, de proclamação e resposta.
Assim, a claridade da messianidade de Jesus diz-se nos seus gestos, no acolhimento dos pecadores, na cura dos doentes, nos milagres que revelam o seu poder e a sua relação com o Pai. E o conhecimento e reconhecimento dessa messianidade passam inevitavelmente pela sua aceitação como revelação, como expressão da identidade e da missão daquele que os produziu.
Há assim, e como também Jesus nos diz, uma necessidade de atenção, uma disposição para a escuta, uma abertura para que a palavra se faça clara por intermédio dos gestos e dos sinais. Realizando esse processo integramos uma relação que não compromete a liberdade mas exige a nossa cooperação e partilha e nos garante uma salvaguarda contra qualquer perigo ou inimigo.
Por essa razão Jesus diz que as ovelhas que escutam a sua voz, que afinal o reconhecem e aceitam como Palavra proferida pelo Pai, palavra misericordiosa, não se perdem nem podem ser arrebatados da sua mão, são pertença sua por essa relação e reconhecimento mútuos.
Peçamos assim ao Senhor que nos abra os ouvidos e o coração para escutarmos a sua Voz e assumirmos a sua Palavra.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Eu conheço as minhas ovelhas (Jo 10,14)

Eu Sou o bom Pastor e conheço as minhas ovelhas é o que Jesus nos diz no Evangelho de São João. Há uma relação entre o pastor e as ovelhas, entre a sua bondade e o conhecimento.
Neste sentido, só numa relação é possível encontrar-se com o Pastor e com a sua bondade, numa relação de intimidade e filiação, porque como Jesus nos diz, assim como o Pai o conhece e ele conhece o Pai também nos conhece a nós, às suas ovelhas, e pode chamar por elas e elas podem reconhecer a sua voz.
Não é de uma forma estranha e impessoal que Jesus se apresenta como Pastor, que é possível reconhecê-lo como Pastor, é no contexto dessa intimidade que vive com o Pai e que nos convida a partilhar e a viver com ele. Necessitamos fazer a mesma experiência de conhecimento íntimo para saborearmos a sua bondade e nos sentirmos suas ovelhas.
O salteador é assim um estranho, alguém sempre estranho, uma vez que não partilha da intimidade e não constrói relação, irrompendo na vida das ovelhas com violência e desprezo pois só procura a sua satisfação. O salteador não se importa com as ovelhas e a sua sorte.
Mas mais que se preocupar com a sorte das ovelhas, o Bom Pastor vai até ao insuspeitável de dar a sua vida pelas ovelhas, pela vida das ovelhas. E é isso que torna possível e permite o total conhecimento, porque só aquele que se entrega é conhecível, é passível de relacionamento.
E como nos diz São Paulo, não foi quando éramos ovelhas limpas e mansas que o Pastor deu a vida por nós, mas quando andávamos desgarradas e perdidas pelos campos; pelo que a entrega de vida, esse dom incomensurável não tem paga possível, e no mínimo exige de nós pelo menos uma tentativa de fidelidade, de uma escuta da voz que nos chama a sair no seu encalço.
Que a voz do Pastor nos cative a segui-lo com bondade e humildade.

domingo, 15 de maio de 2011

Homilia do IV Domingo do Tempo Pascal

Celebramos hoje o domingo do Bom Pastor e o texto dos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura dá-nos o enquadramento para esta celebração, para a meditação desta realidade, pois tudo acontece no âmbito do Pentecostes.
Se até hoje as leituras nos remetiam imediatamente para o mistério da ressurreição e dos encontros com Jesus ressuscitado, as leituras começam agora a colocar-nos em sintonia com o mistério da efusão do Espírito Santo, para o compromisso do fiel e do discípulo com o ressuscitado.
E é neste contexto que se nos apresenta a figura do Bom Pastor, um tema querido à literatura bíblica mas um pouco estranho, nada habitual ao Evangelho de São João que escutámos, e no qual mais que a realidade pastorícia se nos coloca como questão a realidade da voz e da porta. Jesus não se assume objectivamente nesta passagem do Evangelho como pastor, mas como porta e o grande desafio é a atenção à voz, à sua voz e a passagem pela porta.
Quanto ao desafio da voz não podemos esquecer o grande tema do Evangelho de São João, a Palavra, o Logos que desde o prólogo nos ilumina nesta realidade e na necessidade de uma relação. É pela voz que reconhecemos o outro, cada um dos outros em particular e é pela voz de Deus feita Palavra em Jesus Cristo que podemos igualmente reconhecer Deus.
Jesus é assim o campo vocálico de Deus, um convite a uma relação e a uma escuta para que se nos torne audível e compreensível. Pelo que necessitamos frequentar essa onda curta a que chamamos oração, intimidade com Deus, para escutarmos o que a voz nos diz, e também para perceber o ruído de fundo que tantas vezes nos ensurdece a essa mesma voz que chama o nosso nome.
Porque como nos diz Jesus, o pastor conhece os nossos nomes, sabe como chamar-nos por essa realidade dimensional que nos traduz e identifica. Todos temos um nome que nos identifica e que em qualquer voz tem uma sonoridade diferente, ganha um timbre único. Na boca de Deus revela a nossa mais profunda natureza, e nossa mais secreta identidade, tantas vezes desconhecida a nós próprios, mas verdade total aos olhos de Deus. E Deus sabe chamar-nos, como chamar-nos, ou não estivessem os nossos nomes inscritos no seu livro da vida.
E chama-nos para partilhar da sua vida, para realizar essa passagem tão importante pela porta que é Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Somos “homens viator”, homens em trânsito, de passagem, e por isso necessitamos inevitavelmente passar por uma qualquer porta, inquestionavelmente pela porta da morte.
Ora é para esta realidade da passagem que o Senhor nos convida e estimula ao apresentar-se como porta, porta da nossa humanidade e porta para a nossa divindade. O mistério da incarnação, o Filho de Deus feito homem, uma vez mais se nos apresenta como caminho e como processo para esse trânsito, porque é vivendo a nossa humanidade na sua radicalidade, no que ela tem de busca de perfeição e beleza, de bondade e eternidade, que podemos passar para além dos limites dela própria e da sua finitude.
E na transposição dos nossos limites encontramo-nos com a divindade, com essa centelha que habita em nós e nos pode transfigurar a cada passo dado no seu sentido, na sua busca, conduzindo-nos a uma luz que ilumina, que nos ilumina e ilumina os outros que nos cercam e demandam a mesma fonte.
Por isso Jesus nesta parábola da porta nos fala do entrar e do sair, do entrar para partilhar e alimentar-se da sua vida e da sua luz, do entrar para escutar a sua voz no silêncio do nosso coração e da sua intimidade, e do sair para transmitir a luz e a palavra recebida aos outros, para ser testemunho de um caminho que é possível trilhar porque não vamos sós, não estamos sós, Alguém segue à nossa frente e outros ainda seguem a nosso lado.
Neste Domingo do Bom Pastor culminamos a semana de oração pelas vocações consagradas, um chamamento particular a servir o Reino de Deus na escuta mais atenta da Palavra de Deus, a viver o amor de forma mais radical na castidade e na pobreza e a servir a Palavra escutada e apreendida nos ministérios da Igreja e no serviço aos irmãos.
Contudo, ao darmos conta que muitas das nossas crianças, adolescentes e jovens não sabem o que querem ser no futuro, o que querem fazer quando forem adultos e tiverem autonomia e liberdade para tomar decisões, temos a obrigação de rezar pelas vocações particulares, mas antes de tudo temos a obrigação de rezar pela vocação à humanidade de cada um deles.
E mais, temos a necessidade urgente de ajudar os nossos mais jovens, filhos, netos, sobrinhos e educandos a descobrir o projecto de humanidade que Jesus Cristo nos revelou; como ser homens e mulheres de verdade é o projecto de Deus para cada um de nós e o verdadeiro fim da nossa felicidade.
De contrário não escutarão a voz do verdadeiro pastor, daquele que conduz aos prados verdejantes e às fontes refrescantes, mas deixarão enganar-se pelas vozes dos salteadores que mais que tudo estão interessados que andem ao sabor da maré para os cansarem de toda a existência e depois os poderem devorar como presas exangues e sem qualquer outra esperança que a morte rápida.
Necessitamos homens e mulheres em verdade e de verdade, e desses homens e mulheres poderemos esperar vocações e projectos diferentes, vocações consagradas aos outros homens, porque saberão que tudo o que viverem e fizerem, tudo o que tiverem que abdicar em função dessa diferença e consagração não será em vão.
Que o Espírito Santo nos conduza a todos à travessia da porta e à escuta da voz que é Jesus, e que não se cansa de nos dizer que Deus Pai nos ama e que a sua maior glória é a dignificação do homem em todas as suas dimensões de verdade.

Encontro da Família Dominicana em Viana do Castelo

Como é tradição, uma vez mais nos reunimos e encontrámos para festejar esse dom da diversidade de carismas do espectro dominicano. Desta feita no norte de Portugal, mais precisamente em Viana do Castelo e no convento de São Domingos que D. frei Bartolomeu dos Mártires ali fundou em 1560.

Foi um momento de partilha e formação no que diz respeito à história daquela casa e do seu fundador, foi um momento de convívio com alguns e algumas que já não víamos há algum tempo, foi também um momento de oração junto do túmulo do Beato frei Bartolomeu dos Mártires.
Foi também a oportunidade e o momento para alguns de nós, sobretudo para algumas irmãs, em quem estou a pensar em particular, escaparem um pouquinho dos seus ritmos quotidianos e viverem um momento mais distendido e relaxado.
Como já se adivinhava, e para tristeza de todos nós, faltaram representações de algumas comunidades e implantações dominicanas no país, mas a distância e as dificuldades económicas foram as grandes responsáveis, pois certamente não faltaria vontade de estar presentes àqueles que não estiveram.
Não podemos deixar de salientar as numerosas presenças de Lisboa, de Fátima, de Coimbra e do Pinheiro da Bemposta, que com a sua juventude deu um outro colorido ao encontro. Não podemos também deixar de salientar a presença de todos os ramos da Família, frades, irmãs, leigos, jovens e até mesmo simpatizantes.
Nem podemos deixar à margem o padre Armando, o pároco de Nossa Senhora de Monserrate, paróquia responsável da igreja e de alguns espaços do antigo convento e que solicitamente nos acolheu e tudo disponibilizou para que nos sentíssemos em casa, na nossa casa como dizia. A ele o nosso agradecimento fraterno.
Assim, e por tudo o vivido e partilhado neste dia 14 de Maio de 2011, pela alegria e a fraternidade dominicanas, damos graças a Deus e recordamos com as imagens que ilustram esta breve notícia.

São Domingos de Viana, um sonho para um lugar de repouso

Haec requies mea in saeculum saeculi, hic habitabo quoniam elegi eam.
Este será para sempre o meu lugar de repouso, aqui habitarei, porque o escolhi. (Salmo 132, 14)

É com estas palavras que o Arcebispo de Braga D. frei Bartolomeu dos Mártires entra no seu convento de Viana do Castelo no ano de mil quinhentos e oitenta e dois.
Segundo nos conta frei Luís de Sousa na Vida do Arcebispo, andava D. frei Bartolomeu dos Mártires de visita pelas terras de Trás-os-Montes quando no mês de Fevereiro desse ano chegou um correio do seu agente de Roma com a notícia da aceitação do seu pedido de renúncia ao lugar de Arcebispo de Braga.
O pedido tinha sido feito no ano anterior, 1581, mais precisamente no mês de Maio e aquando da celebração das Cortes de Tomar, nas quais tinha estado presente para o juramento de D. Filipe, o primeiro de Portugal, em virtude de ser o mais antigo dos Arcebispos de Portugal à data da celebração das Cortes.
A novidade trazida de Roma foi para D. frei Bartolomeu dos Mártires uma libertação e a possibilidade de retomar a vida religiosa que por obediência tinha abandonado quando quase obrigado aceitou o arcebispado de Braga por ordem e insistências da rainha D. Catarina e do seu Prior Provincial frei Luís de Granada.
Assim, recebida a notícia, D. frei Bartolomeu dos Mártires parte imediatamente para Viana não se preocupando já com a sua cidade e com o governo da diocese. Para isto contribuiu também a notícia da nomeação para Arcebispo de Braga de D. João Afonso de Meneses, proposto pelo rei Filipe I e aceite pelo Papa Gregório XIII em Consistório celebrado a seis de Novembro de mil quinhentos e oitenta e um.
Como nos conta frei Luís de Sousa a viagem foi feita rapidamente, pois D. frei Bartolomeu dos Mártires desejava voltar prontamente à vida que tinha sido a sua antes do governo da Igreja de Braga e ao convento que em Viana tinha mandado construir e para o qual bastante tinha contribuído.

O convento de Viana, sob a invocação de Santa Cruz, tinha sido um sonho ou um projecto nascido das suas viagens pela diocese e das suas preocupações pastorais. É numa dessas viagens, certamente a primeira no conjunto das visitas pastorais realizadas à sua diocese, que D. Frei Bartolomeu dos Mártires se depara com a realidade sócio económica de Viana e a necessidade de um convento de pregadores para aquele pedaço de povo de Deus.
Viana, ainda que vila à data, é um importante porto do país, local de comércio e de intercâmbio de mercadorias, ideias e gentes. Situado no norte no país serve de paragem aos barcos que fazem o comércio com o norte da Europa, Inglaterra, Flandres e Alemanha. A ele chegam também alguns barcos que regressam das grandes viagens ao Oriente e ao Brasil. Por ele são escoados alguns dos produtos que são cultivados no interior da região do Minho e por isso ali se encontram estrangeiros e autóctones, gentes do mar, ainda em número elevado, e famílias da terra.
Este desenvolvimento económico e cosmopolita tem inevitavelmente a outra face da medalha. Antes de mais, e numa Europa divida religiosamente, é a circulação de ideias e gentes com crenças diferentes e consideradas heréticas e que podem colocar em perigo a estabilidade e unidade religiosa do rebanho católico. Por outro lado é todo o conjunto de exploração e vícios que uma cidade portuária e comercial pode desenvolver, como a cobiça, o roubo, a prostituição.
Face a esta realidade, preocupado com a salvação das almas do seu rebanho e com a sua parca instrução e formação na fé, frei Bartolomeu dos Mártires projecta a ideia de uma casa que ensinasse, que admoestasse, que corrigisse, que servisse de exemplo, à semelhança daquelas em que ele mesmo tinha vivido e feito a sua formação. Surge assim o sonho de um convento dominicano em Viana, ainda que no horizonte se perfilem as dificuldades de uma nova fundação, pois a Província tinha já bastantes conventos e não estava muito folgada em termos de rendas para uma nova fundação.

A visita de frei Luís de Granada e de frei Bernardo da Cruz, no verão de 1560, poucos meses após a entrada do novo prelado em Braga, e feita em virtude das críticas que circulavam em Lisboa e na corte sobre o modo e as condições pouco dignas para o cargo de que tinha sido instituído e em que D. frei Bartolomeu dos Mártires vivia, foi a oportunidade para apresentar ao seu antigo Prior Provincial e amigo o projecto que tinha em mente.
Conhecedor das dificuldades económicas da Província, D. frei Bartolomeu dos Mártires apontou os meios de que dispunha e se serviria para, não só dar renda ao futuro convento e ao ministério da pregação, mas também para prover à sua construção e sustento.
A apresentação do projecto e a sua sustentação não foi contudo inquestionável porque face aos encargos que tinha já assumido, nomeadamente a rendas atribuídas a outras obras como o Colégio de São Paulo, as esmolas aos pobres e as lições teológicas do Paço, frei Luís de Granada preocupou-se com os meios que D. frei Bartolomeu dos Mártires dispunha para a prossecução da obra e a manutenção da dignidade que lhe era devida pelo lugar de Arcebispo de Braga. Edificar um convento de raiz exigia um verdadeiro e fundamentado rendimento.
Esta preocupação de frei Luís de Granada sobre os recursos para a obra do convento vai fazer-se real e concreta mais tarde, quando D. frei Bartolomeu dos Mártires, depois de ter renunciado ao arcebispado tiver que lutar pelas rendas que lhe eram devidas.

Aceite o projecto pelo Prior Provincial de Portugal, face às garantias apresentadas pelo Arcebispo, coube apresentar o projecto à própria população e governo da vila de Viana.
Foi frei Henrique de Távora, outro dominicano, que no início de Novembro desse mesmo ano de 1560 se apresentou à Câmara da vila para negociar a fundação do convento e sua localização.
Em reunião da Câmara, na qual estavam presentes todos os nobres da vila e os diversos governantes, aceitou-se a proposta da construção do convento pelo que representava de benefício espiritual e de engrandecimento da população e vila. Em reunião de 12 de Novembro a fundação conventual foi aceite e dela se fez uma escritura que foi assinada pelo frei Henrique de Távora, representante do Arcebispo, e pelos principais representantes do governo da vila como Afonso de Barros Rego, vereador e juiz, António da Rocha, doutor, Francisco da Rocha Barbosa, Teodósio Machado, procurador do concelho e Baltazar de Calheiros, escrivão da Câmara.

Face a estas resoluções e antes de partir para o Concilio de Trento D. frei Bartolomeu assegurou as rendas do novo convento de Viana e assim atribuiu-lhe o rendimento do Mosteiro de São Salvador da Torre, antiga casa beneditina e anexada à Câmara Arcebispal de Braga desde o tempo de D. frei Baltazar Limpo.
A escolha desta renda prende-se não só com o volume do rendimento, que podia importar mil e quinhentos cruzados, mas também face à proximidade ao futuro convento, podendo desse modo servir de espaço de recreação para aqueles que trabalhariam na região.
Foi no final do ano de 1562 que frei Jerónimo Borges, primeiro Vigário do convento de Viana tomou posse de São Salvador da Torre, pois para além de ser necessário desanexar a propriedade da Câmara Eclesiástica foi também necessário obter licença de Roma e da Coroa, uma vez que pertencia ao Padroado Real.
A 28 de Maio de 1758, dois séculos passados sobre a entrega das rendas ao convento de Viana, o Vigário Paroquial de São Salvador da Torre, Lourenço Barbosa Figueiroa, respondendo aos quesitos do inquérito mandado fazer pelo Marquês de Pombal, diz que “não tem a freguesia conventos mas têm os dominicanos uma grande quinta com boas casas e suas pertenças de grande rendimento, cuja quantia certamente não sei; e o pároco desta igreja é vigário apresentado pelos religiosos dominicanos do convento de São Domingos de Viana, os quais comem os frutos dos dízimos que andam arrendados este presente em cinco e quinze mil reis”.
Pouco tempo antes da exclaustração de 1834 ainda os frades do convento de Viana celebravam contratos e prazos sobre as propriedades de São Salvador da Torre, certamente a maior fonte de rendimento do convento.

Esta renda elevada tinha no entanto os seus custos, os seus encargos, pois por meio dela ficavam os religiosos, a partir do momento em que houvesse número suficiente, obrigados a pregar sermão na matriz da vila todos os domingos do ano e festas de Cristo e Nossa Senhora; a dar todos os dias uma lição de Teologia Moral na mesma igreja, excepto no tempo de férias que não podia ultrapassar os quarenta dias, e ainda ficavam obrigados a mandar todos os anos pela Quaresma um pregador ao concelho de Coura a pregar pelas freguesias do concelho que o solicitassem.
É interessante notar que em 1822, quando se pedem informações aos Superiores Maiores sobre os conventos e casas a manter e suprimir no âmbito da reformas das congregações religiosas, a 4 de Dezembro de 1822, o Prior Provincial frei Cristóvão de Santa Catarina de Sena e o Conselho dos Mestres defende a manutenção do convento de Santa Cruz de Viana dizendo que “tem este convento uma aula pública de Teologia moral, os seus religiosos têm a obrigação de ir fazer todos os anos as missões da Matriz de Santa Marinha de Argela e de Santa Maria de Távora e em quatro freguesias do Concelho de Coura, ajudando os párocos no Advento e Quaresma. Para além disso tem cómodos para trinta religiosos”.
No mesmo contexto, e às mesmas questões, o Arcebispo de Braga D. frei Miguel da Madre de Deus, responde a 16 de Dezembro de 1822 que “o convento de Viana deve ser conservado, mas se o governo entender o contrário poderá suprimir-se e ficar servindo de paroquial a igreja do convento que é magnifica e a colegiada ardeu há anos e poucos meios tem de ser concertada”.
Ainda neste processo, o Corregedor da Comarca, Joaquim Vieira Pereira Araújo, informa a 18 de Dezembro desse mesmo ano que “o convento não tem meios para manter uma comunidade regular e que no caso de se suprimir terá compradores cobiçosos da sua fértil cerca. No caso de se manter o convento das Ursulinas que é pobre, mas onde se educam meninas, poderão as rendas de São Domingos ser aplicadas à subsistência do dito convento”.
As rendas atribuídas e os encargos estipulados por D. frei Bartolomeu dos Mártires vão assim manter-se até ao desaparecimento do convento.

Resolvidas todas as questões burocráticas, se assim se pode dizer, deu-se início ao processo de instalação e construção do convento. O primeiro dominicano responsável por esta obra foi frei Estêvão Leitão, encarregado pelo Arcebispo antes de partir para o Concilio de Trento, de diligenciar sitio e primeiras obras. Neste sentido chega a Viana em Maio de 1561 com um alvará da rainha D. Catarina, mulher de D. João III, para escolher local para o convento e proceder às primeiras compras de casas para a fundação.
Demorou-se vários meses nestas diligências, pelo que pôde pregar e ensinar enquanto esteve ali, bem como atender aos pobres e doentes, seguindo dessa forma a pastoral assistencial que o Arcebispo tinha desenvolvido.
No ano seguinte de 1562 é substituído por frei Jerónimo Borges, primeiro Vigário do convento e nomeado no Capitulo Intermédio celebrado na cidade de Santarém, no qual também a fundação foi aceite como uma casa mais da Província. Para esta aceitação contribuíram certamente não só o prestígio de frei Bartolomeu mas também de frei Jerónimo de Azambuja, amigo de frei Bartolomeu e eleito Prior Provincial nesse mesmo Capítulo.
As obras começaram no lugar da Rua da Rosa e tinha-se já aplicado algum dinheiro quando frei Jerónimo Borges entendeu que a obra se devia trasladar para o sítio de Altamira, com melhores vistas e mais saudável face à primeira escolha. Assim, em 1563, no mês de Abril se começaram a lançar os alicerces e a levantar as paredes do pequeno dormitório. Entretanto frei Jerónimo e os poucos companheiros que se lhe tinham agregado iam desenvolvendo a missão apostólica delineada pelo Arcebispo junto da população da vila.

Enquanto a obra avançava D. frei Bartolomeu dos Mártires encontrava-se em Trento para onde tinha partido no mês de Março de 1561 e de onde regressou em Fevereiro de 1564, ano em que o Capítulo Geral celebrado em Bolonha durante o mês de Maio aceitou o convento de São Domingos de Viana.
Em Fevereiro de 1563, estando em Trento, escreve a frei Jerónimo perguntando-lhe pelo andamento das obras e dando algumas recomendações quanto às mesmas, nomeadamente no que concerne à pobreza da edificação. Neste sentido recomenda-lhe que faça um edifício moderado e que não se deixe levar pelo engenho e grandeza de frei Julião Romero, arquitecto de São Gonçalo de Amarante e que por esta carta ficamos a saber ser também o do convento de Viana.
Por esta mesma carta ficamos a saber que por esta data frei Jerónimo Borges tinha como companheiros nomeados para o convento frei António Grego, frei Francisco do Espírito Santo, recém formado no Colégio para ler Casos, o mimoso e espiritual frei João da Cruz, frei Reginaldo de Melo, grande apóstolo de Coura e pelo menos durante alguns períodos frei Julião Romero o arquitecto.

No início de 1566 dirige-se a Viana para estar alguns dias com os seus frades gozando da tranquilidade da vida no convento. Como ainda não se tinha iniciado a obra da igreja, aproveitou-se a presença de D. frei Bartolomeu dos Mártires para o lançamento da primeira pedra, o qual aconteceu a 22 de Janeiro, com uma solene procissão e participação de todo o povo e clero da vila na missa solene que celebrou. Também nesta data e devido à grande devoção que tinha à Santa Cruz foi baptizada a igreja com esta invocação, e beneficiada com uma relíquia do Santo Lenho que possuía e ofereceu à igreja.
A obra de construção durou perto de dez anos, mas em 1571 pôde já ser celebrada a primeira missa, cantada na capela-mor por frei João de Leiria no dia da festa de São Domingos em Agosto. Frei João de Leiria, que veio a falecer em 1575, foi durante várias vezes governador do Arcebispado e um dos grandes benfeitores, para além de frei Bartolomeu dos Mártires, na construção do convento de Viana. Por este motivo e ainda que tenha falecido em Braga foram os frades do convento de Viana buscar os seus restos mortais e sepultaram-no à porta do coro.
Ainda que no fecho do arco do pórtico da entrada se encontre a data de 1576 como da conclusão das obras da igreja, a verdade é que a igreja, sobretudo nas capelas laterais só foi terminada muitas décadas mais tarde. A torre sineira por exemplo é de 1707. Um exemplo dos custos da obra e da sua longevidade é a doação em 1582 por parte de frei Bartolomeu dos Mártires da sua pensão de quatrocentos mil reis para as obras.
Ainda mal tinham terminado as obras e já o convento era ameaçado de destruição, pois alguns engenheiros militares com medo que servisse os inimigos num possível ataque ao castelo propuseram a Filipe I que o mandasse arrasar. Salvou o convento da destruição total o elevado valor em que foi avaliado, trinta e dois contos de reis, o que mostra a grandeza e magnificência da obra. É também durante o período filipino que o convento sofre alguns melhoramentos e assim acresce-lhe um segundo piso, uma espaçosa varanda com vista para a barra, um chafariz e as capelas laterais são terminadas.

Como já vimos, em 1582, depois de aceite a sua renúncia ao governo do Arcebispado, frei Bartolomeu dos Mártires vem viver definitivamente para o seu convento de Viana. É possivelmente dessa data o tríptico que representa o Calvário, São Bartolomeu e São Domingos, pintado por António Maciel e que decorava o altar da cela privada de frei Bartolomeu.
Enquanto viveu em Viana frei Bartolomeu dos Mártires nunca deixou de exercer o ministério da pregação e a caridade para com os pobres, ainda que algumas vezes constrangido pela falta de recursos e de saúde.
A 16 de Julho de 1590, depois de ter feito testamento a favor do convento de todos os seus bens, nomeadamente dos livros que já em 1575 tinha oferecido mas reservado para seu uso enquanto vivesse, D. frei Bartolomeu dos Mártires faleceu na sua cela do convento de Santa Cruz de Viana. No dia seguinte é sepultado no presbitério da igreja do convento, por entre grandes manifestações de pesar dos frades e da população.

É no priorado de frei Bartolomeu Pinto, que chega a Viana em 1605 que se começa a colocar a questão da trasladação de frei Bartolomeu dos Mártires. O Capítulo Provincial de 1608 decide a trasladação para o dia 24 de Maio do ano seguinte, mas de facto a deposição no mausoléu definitivo, mandado fazer por D. Jorge de Ataíde, e que ainda hoje podemos admirar só veio a acontecer a 26, em parte devido aos grandes festejos e manifestações do povo pelo acontecimento. A trasladação de D. frei Bartolomeu dos Mártires trouxe ao convento e muito particularmente à igreja, um acréscimo de importância social e religiosa, e assim vemos que por estes anos várias famílias adquirem capelas na igreja.
Em Dezembro de 1605 é Baltazar Jácome do Lago que contrata a construção da capela de Nossa Senhora das Dores e Jesus Crucificado. O apelido vai posteriormente andar associado a frades do convento de Viana. Em 1608 é feita escritura para uma capela e em 1611 Rui de Sá e Sottomayor contrata a capela do Senhor dos Passos. Em 1615 é fundada a Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios, pelo prior frei Cristóvão de Brito e erecta a confraria de Nossa Senhora do Rosário. Em 1618 é concluída a capela de Nossa Senhora da Soledade. Em 1620 Francisco Martins Viana e a sua esposa compram a capela da Senhora dos Mares, cujo retábulo é concluído em 1622. Ainda no ano de 1620 Manuel Bravo de Távora compra a capela da Piedade.
Estas obras vão ser extremamente importantes e significativas na medida em que permitem o desenvolvimento de um conjunto de talha extremamente importante, e do qual se destaca o retábulo do altar-mor da autoria de Simão Rodrigues, feito em 1605, e um dos exemplares maiores da chamado barroco de estilo nacional. O retábulo de Nossa Senhora do Rosário, do arquitecto André Soares, já do século XVIII, é representativo da variante chamada barroco bracarense.
A exclaustração dos frades trouxe a reutilização dos espaços conventuais e a profanação da capela do fundador em 1834. Contudo, a transferência da paróquia de Nossa Senhora de Monserrate para a igreja do convento a 20 de Abril de 1836, conforme proposta do Arcebispo de Braga, salvaguardou o património que se foi constituindo à sombra do projecto inicial de D. frei Bartolomeu do Mártires e que hoje maravilhosamente podemos ainda admirar. O nosso obrigado àqueles que ainda hoje cuidam dele.







Reposição de Texto sobre Santa Joana

Um problema com os serviços do Blogger nos passados dias impediu-nos não só de colocar os textos e imagens como fez com que desaparecesse o texto colocado no dia 12 de Maio sobre a morte de Santa Joana Princesa, memória dominicana. Desapareceram também os comentários, se os houve, feitos nesses dias.
Como o texto sobre Santa Joana estava arquivado volto a colocá-lo disponivel, mas o mesmo já não posso fazer com os comentários, que nem cheguei a ver. Pelo que peço aos amigos e amigas que comentaram que o voltem a fazer se assim o entenderem e acharem necessário.
Com o pedido de desculpas, deixo os meus fraternos cumprimentos.
Frei José Carlos Almeida, op

A morte de Santa Joana Princesa

Ao celebrarmos a Festa de Santa Joana Princesa, contemplamos os últimos momentos da sua vida segundo o relato do século XVIII do dominicano frei Manuel de Lima.
“Entrou o mês de Maio de 1490 e nele foi assaltada de um acidente tão forte que ficou sem sentidos, e ao parecer de todos, sem vida. Com vários remédios tornou em si, e vendo-se cercada das Religiosas, que com mares de lágrimas testificavam a sua perda, se alegrou intimamente, e agradecendo o cuidado lhes pediu continuassem com as orações e assistências, porque era chegado o tempo em que eram mais necessárias.
No dia da Tina de São João, de quem também era devotíssima, fez a última confissão geral. Levantou-se na cela um altar, ornado de várias imagens de santos, que pediu deixassem estar até à sua morte. Aqui se disse Missa, e comungou com fervoroso espírito e lágrimas, e quis logo o Sacramento da Unção. Antes de o receber pediu com grande humildade perdão à Comunidade, particularmente das inquietações e moléstias que por seu respeito tinham experimentado. Quando recebeu este último Sacramento, a cada uma das formas repetia com grande dor e contrição: Pequei Senhor, perdoai-me, tende misericórdia de mim.
Tinha o corpo tão mirrado e seco que já se não achava nele humor que lançar pelos olhos, e afligindo-se a serva de Deus de lhe faltarem as lágrimas, disse à prioresa com sentimento: Que será de isto, Madre, que não posso chorar as minhas culpas? Receba o Senhor minha vontade porque o meu corpo já não pode mais.
Viveu ainda seis dias, em que o Divino Esposo acabou de purificá-la por meio de cruelíssimas dores, que sofreu alegremente, entendendo que era os últimos correios dos desejados desposórios.
Não temais Senhora, lhe disse uma freira, porque estando crucificada entre tantos tormentos, não podeis ser separada do sumo bem que por nós morreu em uma cruz.
Não temo, respondeu ela, perder já o Senhor em quem creio, porque a sua misericórdia é tanta, que espero me perdoará, como quem deu por mim a vida, sendo a maior de todos os pecadores; mas não se admire, Madre, que eu mostre tanto sentimento nesta hora, porque não vou para casa de nenhum príncipe terreno, aparecer sim em presença de um Rei celestial, e dar-lhe conta de todo o mal que obrei em minha vida e de todo o bem que podia fazer e não fiz.
Choravam todas as religiosas a sua falta e ela consolando-as dizia: Não choreis Irmãs, antes vos alegrai, se é que me amais, pois vedes que vou de uma vida cheia de misérias e de perigos para casa de um bom Senhor, em cuja piedade tenhas firmes esperanças.
Um dia antes do feliz trânsito entraram os médicos a visitá-la e ela os despediu, dizendo que todas aquelas diligências eram tempo perdido. Mandou chamar o seu capelão e encomendou-lhe que dissesse a Missa das Chagas, que era a verdadeira medicina da alma, e o mesmo ordenou que fizessem todos os religiosos e clérigos da vila. Pediu depois à Prioresa que a mandasse sepultar no coro de baixo, às mais religiosas se lembrassem dela e fossem descansar porque na noite seguinte lhe haviam de assistir.
Ficou falando com algumas freiras que não quiseram recolher-se e foi a prática da Glória que no céu gozam os Bem-Aventurados com tanta clareza e gosto como se já estivera de posse dela. Achava-se a este tempo sem forças, porém com todos os sentidos e perfeito juízo. Perguntava a miúdo que horas eram, e quando soube que tinham dado duas, depois da meia-noite, disse que lhe chamassem o confessor. Tanto que este chegou, fez a Confissão em voz alta e clara e pediu-lhe a absolvição e a aplicação de todas as indulgências que os Sumos Pontífices lhe tinham concedido.
Acabada esta diligência pediu uma imagem de Cristo, e apertando-o entre os braços, com os olhos postos nele, disse: Apartai Senhor, a vossa divina face dos meus pecados. E encomendou às religiosas que lhe rezassem algumas orações. Estava a serva do Senhor suando com a agonia da morte. Vendo-a a Prioresa tão desfalecida, lhe perguntou se queria tomar alguma coisa de substância. Não é tempo Madre, respondeu ela, boa substância será ler-me a Paixão do meu Salvador.
Fizeram-no logo as que estavam junto à cama, ouvindo ela com toda a atenção. E quando chegaram ao passo da bofetada que deram a Cristo em casa de Anás, levantou o braço e com toda a força que tinha e pôde, deu em si uma bofetada, dizendo: Oh Senhor, que tanto quisestes padecer pelos pecadores, perdoai-me, e salvai-me, para que seja do número do que vos hão-de amar e louvar por toda a eternidade.
Quando no fim da Paixão se leu como Cristo expirara, disse com um grande suspiro: Eu sempre esperei em vós Senhor, e por isso a vós encomendo a minha alma, que criastes e remistes com o vosso preciosíssimo sangue.
Depois se recomendou à Mãe da Piedade rezando o Hino “Ave Maris Stela”, repetindo com grande afecto e ternura aquela parte: Maria Mãe de Graça, Mãe de Misericórdia, defendei-nos do inimigo e recebei-nos na hora da morte.
Disse o Credo e pedindo a vela benta do Rosário fez sinal à comunidade que começassem o Oficio da Encomendação da alma. Esteve neste tempo com os olhos fechados e quando chegaram às palavras: “Omnes Sancti Innocentes, orate por ea”, ela os abriu com tanto resplendor que causou admiração; e pondo-os no céu, como quem mostrava o caminho ao espírito, o entregou nas mãos de seu Senhor e Esposo, aos 12 de Maio de 1490, tendo de idade 38 anos. Tanto que expirou tornou o corpo a adquirir a antiga beleza.[1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1710, 326-327.



quarta-feira, 11 de maio de 2011

Eu Sou o Pão da Vida (Jo 6,35)

Se havia alguma dúvida sobre a questão tudo ficou esclarecido. Depois da Lei, depois da proximidade circunstanciada na Arca, depois da Palavra dos profetas, agora é o mesmo Senhor que se dá, que se oferece a todo aquele que quiser acreditar nele.
É Ele mesmo que vem até nós, e faz-se de uma forma tão próxima que nos podemos alimentar, que o podemos assimilar interiormente e em toda a totalidade do nosso ser.
Mas como diz Santo Agostinho, de cada vez que comemos o Corpo e o Sangue de Jesus não somos nós que assimilamos o Deus que recebemos, é Deus que nos assimila e assume nessa comunhão; e tal acontece porque o mortal não pode conter o imortal, o finito não pode conter a grandeza do infinito e do eterno, porque o homem que vive de paixões não pode conter o Amor.
Há assim um negócio, uma transmutação que deriva dessa comunhão, desse receber e desejar assimilar, desse comer o pão e o vinho transubstanciados e que consequentemente nos transubstancia também pela força do Espírito Santo.
Por esta razão Jesus nos diz que todo aquele que recebe o seu corpo, que se alimenta de si, não só não se perderá mas ressuscitará para a vida eterna. Não podia ser de outra forma uma vez que o alimento que recebemos é uma vida, uma fonte de vida e de pertença, uma relação assumida por aquele mesmo que se entrega em alimento.
Neste sentido a nossa comunhão do Corpo e Sangue de Cristo devia ser um momento único, transformante da nossa vida e da nossa pessoa, deveria alterar-nos na esperança e na alegria, no amor que pomos nas coisas e com que nos relacionamos com as pessoas, devia afinal transformar-nos em outro alimento para aqueles que à nossa volta ainda passam fome de vida.
Que a nossa fome nos conduza e oriente, porque muitas vezes andamos demasiado distraídos desse Pão de Vida que nos é oferecido. “De noche iremos de noche, que para encontrar la fuente, sólo la sed nos alumbra, sólo la sed nos alumbra”.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma questão de pão? (Jo 6,30-35)

A história que São João nos conta no seu Evangelho sobre a questão do pão, depois de Jesus ter multiplicado os cinco pães para cinco mil pessoas, é desconcertante, paradoxal na visibilidade da falta de fé face aos sinais que se apresentam.
Assim, encontramos uma multidão que foi saciada, que pouco depois procurou nas margens do lago, entre travessias e caminhadas, esse mesmo Jesus que a tinha saciado e quando o encontra pede-lhe um sinal, um milagre ainda mais espectacular do que o que tinha realizado.
Homens de pouca fé? Ou homens fundamentados numa tradição religiosa que inviabiliza a abertura a novas realidades? Porque afinal o milagre de Jesus é comparado e confrontado com um outro facto extraordinário, a alimentação do povo no deserto e durante quarenta anos pelo maná.
Há assim a solicitação de um milagre que perdure no tempo, que supere o acontecimento extraordinário vivido pelo povo no deserto, mas também a manifestação da cegueira de um povo, de uma multidão que não quer ver que o maná descido do céu para a alimentação do povo era um dom de Deus e não do seu fundador patriarcal ou histórico Moisés.
Perante tal demanda Jesus é obrigado a colocar as coisas no devido sítio, a manifestar a preponderância de Deus e do seu dom num e noutro momento, porque o maná do deserto foi dom de Deus assim como o pão multiplicado e partilhado.
Mas mais importante ainda que esse pão e que o maná é a presença do Filho, o dom verdadeiro e total, o dom que se oferece descido do céu para alimentar todos aqueles que quiserem aproximar-se. Um dom de vida que sacia e sedenta.
Contudo, e face a tal dom, e à semelhança da samaritana, revela-se uma vez mais a preguiça do homem, a sua pouca força de vontade. Se a samaritana pede da água viva para não ter que voltar ao poço, esta multidão pede do pão que Jesus promete para não mais ter que o procurar, ter que trabalhar para ele. Tal como no deserto esta multidão espera e deseja que em cada manhã o pão se faça presente sem qualquer esforço ou trabalho.
Mas Jesus exige um esforço, exige um trabalho, que é o da adesão à sua pessoa, a sua busca e a fé em si, pois só dessa forma é possível ser alimentado e saciado pelo verdadeiro pão da vida. Não há alimento sem trabalho, sem essa caminhada e essa procura, sem uma adesão pessoal e incondicional.
Não podemos por isso deixar de pedir ao Senhor que nos alimente, mas sobretudo que nos alimente e fortaleça nessa busca de relação com Ele, nessa adesão pessoal e única que é possível estabelecer pela fé.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Foram à procura de Jesus (Jo 6,24)

Depois da multiplicação dos pães e da travessia do lago de Tiberiades pela barca dos discípulos eis que se gera a confusão, pois a multidão procura Jesus sem saber onde encontrá-lo. De um lado da margem o barco vazio, do outro lado o barco dos discípulos mas no qual Jesus não se encontra. Afinal onde se encontra aquele que os alimentou tão maravilhosamente?
Esta confusão assemelha-se a muitas das nossas buscas, pois também nós buscamos Jesus nas margens da nossa vida, nas barcas da travessia e não o encontramos. Procuramos por um lado e por outro lado e Jesus não está, não se faz presente, mas subitamente, e sem sabermos como, encontramo-lo como a multidão de Tiberiades numa margem, insuspeita, desconhecida ou até rejeitada pelo inóspito da imagem com que se nos afigura.
Perguntamos assim como encontrar Jesus, como potenciar a possibilidade desse encontro que ansiamos, de modo a não andarmos perdidos, a não vaguearmos por um infinito de possibilidades.
E eis que nos surge a resposta nas palavras de Jesus quando se encontrou com a multidão que o buscava. Não o encontravam porque não o buscavam por si mesmo, não era por ele que percorriam as margens e sulcavam as águas do lago, mas por essa fome saciada, essa paz experimentada, por um desejo de o fazerem rei para poderem usufruir de toda essa riqueza e paz sem qualquer esforço.
Sem o saberem, ou sabendo-o, procuravam Jesus por si mesmos, para si mesmos, centrados nas suas necessidades e no seu bem-estar, na satisfação pessoal. Não era pelo outro, por esse outro que era Jesus, que os convidou como nos convida a cada um de nós a procurá-lo por si mesmo, como alimento imperecível.
Assim, o nosso encontro com Jesus acontecerá na medida da nossa fé e da nossa busca dele próprio, nesse desejo de nos satisfazermos com Ele próprio, de partilharmos da sua intimidade e da sua vida, e não por qualquer razão de satisfação de uma ou outra necessidade nossa.
Neste sentido, temos que voltar uma vez mais ao Mestre Eckhart e à sua proposta de nos despojarmos das imagens e do desejo de Deus para que o Deus verdadeiro se faça presente nos nossos corações. Necessitamos buscar e encontrar-nos com Deus em si mesmo e por si próprio.