domingo, 26 de junho de 2011

Homilia do XIII Domingo do Tempo Comum

Há um aforismo do mundo da política e das finanças que algumas vezes ouvimos e que diz que “não há jantares de graça”. Ou seja, o que aparentemente parece gratuito e dom tem um preço, tem um retorno, uma compensação.
Olhando sob o prisma desta mesma regra e lógica para o que escutávamos no Evangelho de São Mateus, parece que também a nível do cumprimento dos mandamentos de Deus e sobretudo do preceito da caridade, as coisas funcionam da mesma maneira, ainda que aqui o mecanismo seja bastante claro e não apresente nenhuma ambiguidade.
Ou seja, e tendo em conta as palavras de Jesus, quem recebe um profeta ou um justo por ele ser profeta ou ser justo, recebe a recompensa de profeta e de justo. Quem dá o que tem e quem acolhe o outro, recebe o dom oferecido e a hospitalidade prestada. Há portanto uma reciprocidade e uma justiça no retorno e na compensação daquilo que se faz.
Esta matemática e estes cálculos não traduzem no entanto toda a dimensão daquilo que Jesus nos quer dizer, e por isso, culminando esta formulação sobre o dom e a dádiva, Jesus deixa-nos a promessa de que aqueles que derem um simples copo de água a um dos seus mais pequeninos, por ser seu discípulo, não perderá a recompensa. Há portanto um lucro, um “superavit”, na dádiva feita e no acolhimento prestado tendo em conta a pessoa de Jesus ou de Deus.
E podemos ver como este mecanismo funciona tendo presente a leitura do Segundo Livro dos Reis, quando o profeta Eliseu promete à sunamita que o acolheu em sua casa um filho para daí a um ano. Esta mulher, de comum acordo com o seu marido, prepara para aquele que ela pensa que é um santo homem de Deus um quarto no terraço, um quarto de tijolo, mobilado e iluminado. Prepara um aposento com tudo o que tem de melhor, sem qualquer interesse ou pedido de retribuição, apenas porque vislumbra naquele homem alguma coisa que a faz pensar que é um santo homem de Deus.
Perante esta oferta, este cuidado no acolhimento e na preparação da oferta apresentada, e perante a infelicidade da mulher que não tem filhos, o profeta deixa-lhe a promessa de um filho, de uma posteridade que a colmará de alegria, a si e ao seu marido. Desta forma, e por esta promessa, percebemos que a retribuição do dom, pela parte de Deus, é sempre uma retribuição de fertilidade, de felicidade e de alegria. Deus não se contenta em retribuir na mesma moeda, equitativamente, mas retribui sempre num crescendo, no sentido da possibilidade de uma fertilidade e de outra vida.
À luz deste princípio e desta oferta de Deus percebemos melhor as palavras de Jesus sobre o tomar da cruz e sobre o perder da vida para ganhá-la. De facto, é na entrega e na dádiva do que temos, que somos compensados, e o que julgamos perder acaba afinal por ser um lucro, um ganho, ainda que numa outra dimensão que possivelmente nos escapa devido aos nossos olhos calculistas. Afinal a recompensa de Deus é sempre a vida e a sua fertilidade e tanto uma como a outra não são por vezes imediatamente visíveis.
Mas este mecanismo tem ainda implicações mais radicais e profundas se tivermos em conta as palavras de São Paulo aos Romanos, ou seja, pela fé e pelo baptismo acreditamos que se morremos com Cristo também com Cristo viveremos, a morte já não tem poder sobre nós uma vez que foi vencida por Cristo. Assim, tudo o que na vida se aproxime e assemelhe à morte de Cristo, nessa realidade de entrega de vida e de amor, de dom total e de acolhimento do outro, acaba por se transformar em vida, acaba de alguma forma por ressuscitar em outra vida, outra possibilidade de vida. Neste sentido, todo o dom é sempre um caminho para uma outra vida, um caminho de fertilidade contrário às esterilidades do nosso egoísmo e do nosso desejo de possessão.
Estes princípios enunciados deviam dar-nos uma paz e uma alegria face a tantas perdas que vamos sofrendo na vida e que devíamos procurar transformar em dons, em tantas cruzes que carregamos e que devíamos converter em árvores da vida. Na medida da entrega generosa e livre elas transformar-se-ão em fertilidade de vida.
Peçamos ao Senhor que nos envie o seu Espírito para sabermos dar o que temos de melhor em nós e para aceitarmos o que não podemos ter como processos de fecundidade, portas abertas a uma outra vida.

domingo, 19 de junho de 2011

Homilia da Solenidade da Santíssima Trindade

Hoje celebramos na Igreja a Solenidade da Santíssima Trindade, esse mistério de um Deus que é único mas que se revela em três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Podemos em qualquer momento questionar-nos sobre este mistério e a sua elaboração pela mente e inteligência do homem, num processo de purificação do chamado ópio do povo, mas deparamos com um mistério tão grande e tão único na sua concepção que não podemos acreditar nele senão pela fé, como um dado da revelação divina, uma realidade eterna e transcendente que nos foi sendo revelada ao longo da história de Deus com o homem. É demasiado inusitado para poder ser uma criação da fraqueza e do medo do homem.
E é neste processo de revelação, nesta história de Deus com os homens, que através do Apóstolo São João nos é dito que Deus é amor, este Deus uno e trino é Amor, o que nos conduz a concluir que o Pai é amor, o Filho é amor e o Espírito Santo é amor.
Contudo, nas nossas elaborações mais simples e do dia a dia acabamos por dizer que o amor é o Espírito Santo, esse laço que une o Pai e o Filho numa relação íntima e de profundo conhecimento. Há o Pai, há o Filho, há essa entrega mútua de amor que é o Espírito Santo. Em muitas das nossas orações, e nos textos que redigimos, o Espírito Santo acaba por se afigurar dessa forma, como uma laço, uma relação, uma realidade que se poderia dizer impessoal, despersonalizada.
Ora, esta despersonalização do Espírito Santo é a negação do mesmo Espírito e da sua presença e realidade no mistério da Santíssima Trindade, no qual não é apenas uma relação mas é de facto e de essência uma pessoa, uma pessoa divina. O Deus uno compõe-se de três pessoas distintas.
Neste sentido da personalização, da valorização do Espírito Santo no mistério da Santíssima Trindade não podemos esquecer as palavras de Jesus aos seus discípulos antes da paixão e que ainda há muito pouco tempo escutávamos no tempo pascal. Como dizia Jesus, havia a necessidade de partir, de regressar ao Pai para que os discípulos pudessem receber o Espírito Santo, o defensor, aquele que lhes recordaria todas as palavras ditas e todos os ensinamentos. É uma pessoa, uma realidade pessoal, à qual Jesus se refere e para a qual Jesus pede abertura e acolhimento.
Assim, não se pode pensar a Santíssima Trindade, e as pessoas do Pai e do Filho, sem essa relação com a terceira pessoa que é o Espírito Santo. Não podemos conceber, nem imaginar, a relação do Pai e do Filho como uma simples relação dual, uma entrega mútua da qual o Espírito Santo surge como um produto ou consequência. Bem pelo contrário, é essa terceira pessoa que viabiliza a relação, que impossibilita a aniquilação e possibilita a pessoalidade, como terceiro ângulo de um triângulo que se constrói em unicidade e diferença.
Esta realidade do mistério, inabarcável pela nossa inteligência, é no entanto extremamente importante para o nosso ser de homens e mulheres, para a nossa condição humana e a sua realização, uma vez que também nós, nas nossas relações, necessitamos desse terceiro elemento, dessa terceira pessoa que nos equilibra.
Assim, e neste sentido, é muito claro aquilo que os apóstolos nos dizem, quando nos confrontam com a necessidade do amor aos irmãos para que o nosso amor a Deus seja verdadeiro e concreto. Não podemos amar a Deus verdadeiramente se não amamos os irmãos, ou seja, a relação de fé e de amor para com Deus necessita esse terceiro elemento pessoal que são os outros, que necessitam do nosso amor e da nossa confiança.
Por outro lado, nas nossas relações humanas, de amizade, de amor e matrimónio e até de filiação e paternidade se esquecemos o terceiro elemento que é a presença de Deus, o seu convite de amor, as nossas relações pessoais e bilaterais acabam por naufragar no nosso próprio egoísmo e necessidade de possessão.
No conjunto das nossas relações humanas e sociais necessitamos traduzir a realidade e o mistério da Trindade, com a presença de Deus como fundamento e meta de toda a relação. E na nossa relação com Deus, na nossa fé, não podemos deixar de lado os outros, os nossos irmãos e companheiros, que tornam visível e concreta a relação invisível com Deus.
Desta forma manifestamos o mistério da Santíssima Trindade na sua essência, bem como a presença de Deus entre os homens, o cumprimento desse pedido feito por Moisés de o Senhor caminhar no meio do povo. Ele caminha e está presente, como também nos diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios, quando vivemos na alegria, na paz, e quando nos animamos uns aos outros a trabalhar pela perfeição, a configurar-nos com Deus que é amor no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Orai assim: Pai-Nosso (Mt 6,9)

Faz parte da condição humana, da sua natureza, essa necessidade de se ligar ou re-ligar com uma entidade superior, é o que distingue o homem do animal. Na fé cristã essa ligação é estabelecida com um Deus que na história se revelou próximo, compassivo, preocupado com o homem como manifestação da sua glória.
Qualquer ligação necessita no entanto de ser mantida, de um meio que estabelece a relação e conexão entre o emissor e o receptor, e é neste sentido que Jesus apresenta aos seus discípulos a oração do Pai-Nosso, a possibilidade da verbalização de uma relação intima e próxima com o Deus em que acreditam.
O Pai-Nosso não é assim uma lista de reclamações, e muito menos um documento confessional de um acto de submissão, e ainda muito menos um reconhecimento implícito de uma impotência para prover às necessidades da vida humana na sua totalidade.
Se pedimos o pão, se pedimos a paz e o perdão, se pedimos o Reino de Deus é porque acreditamos que são realidades possíveis, mas que só adquirem a sua verdadeira e total dimensão quando enquadradas na vontade de Deus. Tudo está nas mãos do homem e é possível alcançar, mas sem o toque e a presença de Deus essas realizações ficarão sempre marcadas pela falha do egoísmo e do orgulho, e portanto ainda distantes da sua verdadeira e total realização.
O Pai-Nosso é assim e sempre um conjunto de pedidos, demandas verdadeiras que se fazem a um Deus que reconhecemos como Pai. É aqui e neste reconhecimento que se joga toda a diferença da oração que Jesus ensina, a originalidade do Pai-Nosso.
Porque esta oração, no seu conjunto de pedidos, apenas reitera o primeiro e grande pedido, que Deus seja o nosso pai e que nós sejamos os seus filhos. Rezamos para isso, para aprendermos a ser filhos de um Deus que se nos revela pai; e sendo filhos, que sejamos capazes de transformar todas as realidades do mundo em realidades com a marca divina do amor paterno.
Tudo isto, no entanto, nos escapa das mãos e das nossas capacidades limitadas e finitas. Apenas Deus no seu amor e no seu poder omnipotente poderá realizar esta filiação que solicitamos e a transformação das realidades a que nos lançamos conquistadores.
Peçamos por isso a Deus que nos faça sentir a sua paternidade, a nossa filiação divina, e nos dê a sabedoria e a coragem para partirmos à conquista das realidades do mundo em ordem à sua integração plena no Reino do amor divino.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Pai vê o que está oculto (Mt 6,18)

As palavras de Jesus sobre a mentira do aparente visível e a verdade invisível do oculto não podem deixar de ser enquadradas na Verdade que ele mesmo é e na verdade que deseja para a vida dos seus discípulos.
O povo, as instituições religiosas, a própria lei religiosa que estruturava o povo, a sua organização e as suas relações, estavam demasiado assentes na hipocrisia de uma realidade que não correspondia à verdade. Jesus não quer isso para os seus discípulos.
E é neste sentido, nesta busca de verdade interior, numa aparente perda de importância exterior, que Jesus recomenda um conjunto de gestos e atitudes que devem apenas ser vistos pelo Pai, por Aquele que perscruta os corações e os rins e conhece o intimo de cada homem.
Desta forma os discípulos libertam-se da glória exterior, da vaidade e da possibilidade do orgulho diante dos outros que poderão não ter as condições para realizar essas mesmas obras. Há assim um nivelamento, uma igualdade apenas diferenciada diante Daquele que conhece tudo e sabe do que cada um pode dar.
Mas para além desta libertação, a prática das boas obras no silêncio e na invisibilidade permite o estabelecimento e o reforço da relação com Deus nessa intimidade apenas frequentada por aqueles que verdadeiramente têm direito e razão para a frequentarem, Deus e o próprio.
É um processo longo, doloroso até, em muitas coisas semelhante à frequência do deserto, em que cada um se vê face a face com as suas limitações e fraquezas, com os passos não dados por medo, preguiça ou até por egoísmo de não querer arriscar mais.
No silêncio e na invisibilidade das dádivas e da entrega, da esmola, do jejum e da oração encontramo-nos com um centro que não somos nós próprios, com um Outro que nos identifica e reconhece na mesma medida em que reconhecemos sem ostentação, sem insinuação hipócrita de superioridade e capacidade de ajudar, os outros e as suas necessidades.
E como nos diz São Paulo “quem semeia abundantemente também colherá abundantemente”, pelo que não podemos nem nos devemos coibir de aprofundar esta intimidade com Deus através desse silêncio, dessa invisibilidade, desta gratuidade e descentrar de nós próprios. O que aparentemente perdermos, o receberemos multiplicado.

Dominicanos num painel polaco sobre a dança da morte

A passagem no dia de ontem por Madrid permitiu-se visitar a exposição que está patente no Palácio Real de Madrid sobre os Tesouros e as Colecções da Polónia e que ali se manterá até ao dia 4 de Setembro próximo.
Através de várias dezenas de obras é possível vislumbrar a riqueza artística de um povo e de uma nação que por várias vezes viu o seu território dividido por outros povos, vivendo por diversas circunstâncias na fronteira entre o ocidente e o oriente ou funcionando como tampão às invasões bárbaras do oriente. É possível ainda ver alguns exemplos dos tesouros da arte europeia que os seus príncipes coleccionaram apaixonadamente durante o século dezanove, como a “Dama do Arminho” de Leonardo da Vinci.
Entre os diversos núcleos que compõem a exposição, destaca-se um dedicado à morte e às pompas fúnebres dos grandes senhores. É aí que se pode encontrar um painel intitulado a “Dança da Morte”, uma pintura dos finais do século dezassete com quadras populares em cartelas que identificam as cenas representadas e os diversos personagens.
Se falo dela aqui, e a apresento, não é por ser a mais bela da exposição, neste aspecto deixou-me surpreendido pelo realismo a pintura de Rembrandt “Menina numa moldura”, uma das obras de colecção principesca, mas é porque no conjunto das cenas macabras da morte nos encontramos presentes, os dominicanos.
Do lado direito da pintura, e na cena que se encontra mesmo a meio do quadro, aí nos encontramos representados, sobre a quadra que diz: “Dizem os cónegos que os curas não devem bailar, mas os santos capelães vão em uníssono à dança”.
Tendo como tema a dança da morte, que a todos atinge, os cónegos e os religiosos não ficam de fora, também eles entram na dança apesar dos seus juízos, dos seus cuidados e das proibições. É uma realidade inevitável e por isso, e como diz outra quadra, é melhor que a aceitemos e em cada dia bailemos com ela.
Fica a partilha, pelo curioso da representação e pela referência histórica e iconográfica à presença Dominicana na Polónia.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sermão de Santo António pregado pelo Padre Mestre frei João Franco em 1721 no Porto

Aproveitamos a festa de Santo António de Lisboa para divulgar um excerto de um Sermão que o Padre Mestre frei João Franco pregou na Misericórdia do Porto no ano de 1721 por ocasião da mesma festa.
É o início do Sermão, no qual se apresentava o assunto de que versaria a pregação. Por ele podemos ter uma ideia da retórica que se utilizava e de toda a elaboração redacional barroca, que faziam com que as pregações e os textos fossem tão rebuscados e para os tempos presentes de leitura tão difícil.

"Se os pensamentos, com que Cristo fez em Portugal o seu Império, foram, para que no mundo dessem os portugueses a conhecer o nome de Deus; os pensamentos com que ele fez nos braços de Santo António o seu trono, foram, para que o mesmo Deus se visse engrandecido no mundo. Como neste pensamento temos o assunto, entremos a explicar este pensamento.
E para isso pergunto: pois estes, e não outros, é que foram os pensamentos de Cristo, quando fez este Império, e este trono? Sim, senhores: estes, e não outros, é que foram os seus pensamentos. Ora vejamos primeiro os pensamentos com que Cristo fez este Império, e logo diremos dos pensamentos com que fez aquele trono.
Nasceu este Reino de Portugal nos campos de Ourique, nos braços da Majestade Sereníssima do Senhor Dom Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. E como Cristo queria fazer neste Reino o seu Império, apareceu à Majestade de Afonso, e lhe disse estas palavras, tão honradas para a nação Portuguesa, que por excessivamente honradas, tem excitado no mundo tal inveja, que por inveja as tem o mundo chegado a pôr em dúvida: Volo in te, et in semine tuo Imperium mihi stabelire. Eu quero (dizia Cristo à Majestade de Afonso) eu quero estabelecer em ti, e na tua descendência o meu Império: as Armas Reais, que há-de ter Portugal, hão-de ser as minhas Chagas. Os brasões, e timbres da sua honra, há-de ser a minha Cruz. E esta Cruz, e estas Chagas hão-de ser os sinais das tuas vitórias: In hoc signo vinces. Mas os pensamentos, e o fim, porque faço em Portugal o meu Império, é este: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes. Para que os Portugueses levem às nações estranhas as notícias do meu nome.
De sorte, senhores, que os pensamentos com que Cristo fez a Portugal Império seu, foram estes, e não outros: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes. E como os Portugueses souberam, que estes, e não outros, eram os pensamentos de Cristo; vendo-se autorizados com a honra de seus vassalos, debaixo das bandeiras das Chagas de Cristo, saíram os Portugueses da sua pátria, e levando a luz do Evangelho em uma mão, e a espada na outra mão, fizeram na Europa, América, África, e Ásia respeitado, e temido o nome de Cristo. E enquanto os Portugueses pelejaram desempenhando as obrigações de vassalos de Cristo, e dando à execução os seus sagrados, e consagrados pensamentos, sempre venceram os Portugueses.
Porque haveis de saber, que os Portugueses tiveram até aqui dois nomes. O primeiro herdaram-no de Tubal, neto de Noé, o qual nos deu a nós o nome de Tubales, que quer dizer mundanos, ou homens de todo o mundo. E depois pelo decurso do tempo se chamaram os Portugueses Lusitanos, ou Lusos. Como Lusitanos, ou como Lusos têm os Portugueses no nome a luz: como Tubales, têm os Portugueses no nome o mundo; e como vassalos de Cristo têm os Portugueses tudo, e são tudo. São Tubales, e são Lusitanos: são juntamente luzes, e mundanos, porque os pensamentos com que Cristo fez este Império nos Lusos, foram, para que os Portugueses, ou os Lusos, fossem no mundo luzes, e para que levassem as luzes do seu nome por todo o mundo: Ut deferatur nomen meum in exteras gentes.
Pois se estes foram os pensamentos com que Cristo fez este Império, passemos agora dos pensamentos, com que ele fez o Império, aos pensamentos com que ele fez o trono. Como Cristo depois de fazer em Portugal o seu Império, se seguia por boa consequência, que assentasse o seu trono em Portugal; aonde vos parece a vós, que iria ele fazer o seu trono? Sabeis aonde? Aos braços de Santo António de Lisboa. Lá disse David, que no Sol é que Deus pusera o seu trono: In Sole posuit tabernaculum suum. Mas falou David do trono, que Deus tem lá no Céu, porque depois, que Deus teve Império cá no mundo, Santo António é que é o seu trono neste Império. Lá no Céu tem Deus por trono a um Sol, e cá na terra tem por trono a outro Sol, e vai tanta diferença de um Sol a outro Sol, quanta vai do que tem alma ao que a não tem. Mas quais foram os pensamentos com que Cristo fez o seu trono nos braços de Santo António?
Não foram outros, senão o ver exaltada a sua Pessoa, e o ver engrandecida a sua glória. Pois se estes, e não outros, é que foram os pensamentos de Cristo, em fazer este Império, e este trono; sendo estas as glórias de Portugal, tão invejadas, como gloriosas, que por isso mesmo são mais gloriosas, porque são tão invejadas; será hoje o assunto para glória de Portugal, dizer: Que se os pensamentos com que Cristo fez em Portugal o seu Império, foram, para que no mundo dessem os Portugueses a conhecer o nome de Deus; os pensamentos com que ele fez nos braços de Santo António o seu trono, foram, para que o mesmo Deus se visse engrandecido no mundo. Está proposto o assunto, para o discorrer peçamos graça por mediação da cheia de graça. Ave-Maria.

Homilia da Festa de Santo António de Lisboa

Ben-Sirá diz-nos que o homem que medita na lei do Altíssimo será cheio do Espírito de inteligência, e as suas obras de verdade e de justiça farão com que seja louvado no meio da assembleia, que tenha uma memória que não desaparecerá.
Santo António de Lisboa, que hoje celebramos, é a encarnação mais perfeita destas palavras do sábio bíblico, pois passados quase oitocentos anos sobre a sua morte, ocorrida em 1231, a sua memória mantém-se presente entre os homens e de uma forma extraordinária em quase todos os lugares do mundo. Santo António é dos santos mais populares, se não mesmo o mais popular.
Mas, se esta memória se mantém é porque, como nos diz Ben-Sirá, Santo António viveu uma vida em que a meditação da Palavra de Deus lhe alcançou uma sabedoria e uma inteligência que depois se traduziu nas obras que praticou. Mendicante e pregador não se permitiu instalar-se num local nem num conjunto de conhecimentos intelectuais, mas bem pelo contrário, em razão desse mesmo conhecimento alcançado pela meditação da Palavra, sentiu a urgência e a necessidade de anunciar a todos os homens a bondade de Deus.
Como nos diz o Evangelho de São Mateus, como lâmpada acesa ou cidade situada sobre um monte não se pôde esconder nem deixar de brilhar, mas percorrendo os caminhos dos homens foi brilhando e iluminando aqueles com quem se encontrava, mesmo aqueles que pela força persuasiva da sua palavra muitas vezes se recusavam a escutá-lo.
O caso da pregação aos peixes é aquele que mais rapidamente nos vem à memória, e no qual percebemos como a sua palavra temida e recusada pelos pecadores e hereges foi substituída pela acção, por uma obra um tanto ou quanto descabida, mas por isso mesmo significativa e fecunda de interpelação.
Neste sentido a sua acção, e este exemplo milagroso, apela-nos a uma atenção à palavra com que hoje em dia queremos anunciar aos outros homens a Boa Nova de Jesus Cristo, uma palavra que muitas vezes não ultrapassa as barreiras da desconfiança e do preconceito. Temos assim que procurar uma palavra de verdade, uma palavra alicerçada na experiência humana, na nossa dimensão humana, mas que depois é contrastada e iluminada pela Palavra de Deus.
Não podemos partilhar a Boa Nova de Jesus, anunciá-la, se não tivermos em conta a condição humana, e muito particularmente a condição daquele que será o nosso interlocutor. Jamais podemos esquecer que a Palavra de Deus se incarnou, se fez vida e carne e experiência humana, e só a partir daí foi perceptível clara e distintamente aos ouvidos e aos olhos dos homens.
E, complementando esta incarnação, e tendo presente o gesto extravagante de Santo António se dirigir aos peixes face às barreiras humanas, não podemos também esquecer a dimensão prática, testemunhal da nossa vida e das nossas obras como garante da verdade da palavra de Boa Nova que queremos anunciar. Obras que por vezes podem parecer estranhas, extravagantes, mas se forem alicerçadas na verdade da fé, da esperança e do amor que nos move serão certamente significativas e interpeladoras.
Num mundo cada vez mais sistematizado, cada vez mais uniformizado, em que nos sentimos cada vez mais escravos de uma máquina produtiva sem sentido e sem recompensa, em que parece que desapareceu o encanto e a alegria de viver, em que desapareceu o sonho de construir, somos interpelados por Santo António a provocar e a desconcertar com a alegria de uma esperança, com o sonho de uma bondade que todos nós transportamos mas que ocultamos por medo e por vergonha.
Num mundo cinzento, infecto de abismos de aniquilação, Santo António interpela-nos e convida-nos a uma atitude esperançosa, alegre, vivificante, porque de facto fomos feitos para a vida e não para a morte, somos homens e mulheres de palavra, de relação e comunicação, e não ilhas mudas e abandonadas no profundo oceano da solidão.
Tarefa ingrata esta, e inegavelmente difícil, face à complexidade social, política e económica em que nos encontramos, mas também por isso mais necessária, e até certo ponto exequível na medida em que, como Santo António, adoptamos a pobreza por companheira, por realidade que nos liberta e nos coloca mais disponíveis uns para os outros.
Necessitamos recuperar na nossa dimensão humana e social a consciência de que necessitamos muito pouco para viver, de que a nossa qualidade de vida não depende tanto das coisas que temos mas daquilo que somos e daqueles com quem vivemos e nos relacionamos no sentido da construção de um mundo melhor para todos.
Santo António adoptou a pobreza franciscana para estar mais livre para a pregação e para os irmãos, para brilhar sem peias nem teias; de alguma forma também nós necessitamos adoptá-la para estarmos mais livres uns para os outros e brilharmos com a esperança que nos anima da bondade dos irmãos e do amor de Deus para com todos.

domingo, 12 de junho de 2011

Entre o Coro e o decoro

Um dos frades mais velhos da minha comunidade de Lisboa, que viveu durante alguns anos da sua formação em Espanha, costuma dizer que os espanhóis não têm grandes cânticos litúrgicos, que neste aspecto da liturgia deixam muito a desejar.
Como não tenho formação musical, e alguns dos meus irmãos de comunidade dizem que desafino, nunca anui ao seu comentário nem tão pouco o contrariei, pois nas muitas vezes que tenho passado e estado por Espanha, e por diversos lugares de Espanha, tenho encontrado o que habitualmente também encontro em Portugal, gente que canta, umas vezes melhor outras vezes pior.
No entanto hoje, e depois da experiência das Vésperas em gregoriano da Abadia de Silos do dia de ontem, vivi uma dessas experiências que nos fazem pensar que algumas vezes o silêncio é muito mais rico e animador que aquilo que estamos a ouvir ao coro que quer animar a celebração da Eucaristia.
Era uma celebração de Pentecostes, carregada de significado pela solenidade, mas mais ainda porque reunia um conjunto de aldeias numa romaria que tradicionalmente fazem nesta altura. Pelo que me contaram, desde o século dezassete que devido a uma epidemia de peste e a uma praga de gafanhotos que dizimavam a população e as culturas, que os povos das aldeias vizinhas peregrinam aqui, trazendo os seus pendões e estandartes para implorarem a protecção de São Domingos.
Este ano a celebração, presidida pelo pároco de uma das aldeias vizinhas, era animada pelo coro dessa paróquia, um conjunto de simpáticas senhoras, que acredito se empenharam em dar o seu melhor, mas que infelizmente deixaram muito a desejar. Em vez de animar a celebração eram como que uma perturbação, pois os cânticos condiziam mais com uma celebração infantil, de um grupo de catequese do primeiro ano, do que com a celebração de um povo em peregrinação, um povo que luta pela sua terra e pelas suas tradições, orgulhoso das suas tradições e dos seus pendões.
Não posso deixar de assumir que estou habituado na minha comunidade e nas celebrações comunitárias do convento a um tipo especial de música, onde prevalece o ritmo de Taizé e os belos cânticos litúrgicos do dominicano francês André Gouzes. Mas para além deles, gosto de ouvir os cânticos que o pequeno coro da minha paróquia natal canta, cânticos tradicionais ou já suficientemente conhecidos para que toda a assembleia participe cantando. Num espaço e noutro sentimo-nos envolvidos, participantes, ainda que não saibamos cantar ou não percebamos nada de latim
Hoje, contudo, não aconteceu nada disso, porque a assembleia não participou e o coro tão pouco creio que estivesse a sentir e a viver aquilo que estava a cantar. A música não era delas, não era das suas vidas, com tudo o que ela comporta de lágrimas de dor e alegria, e ainda que lhe tenham dedicado bastantes horas de ensaio. Pelo que nos resta um desafio comunitário, a cada comunidade que celebra e em cada celebração, relativamente à animação musical e ao cântico.
São Tomás diz que para uma obra ser bela, ser verdadeiramente arte, necessita possuir várias características como a harmonia, o equilíbrio, a proporção, e outras mais que neste momento e onde estou não consigo ter presentes. Também no canto litúrgico elas devem imperar, mas conjuntamente com elas não podemos deixar de ter presente o decoro, essa sensibilidade para perceber a partir de onde o belo se transforma em horror, a partir de onde o especial se torna inacessível e indiferente.
O cântico e a música litúrgica não são um espectáculo, mas um meio artístico para nos animar e congregar a todos no louvor mais perfeito e mais belo de Deus.

Homilia da Solenidade do Pentecostes

O relato que o Livro dos Actos dos Apóstolos nos faz do momento do Pentecostes é extremamente expressivo e remete-nos inevitavelmente para uma semelhança com as grandes teofanias da Antiga Aliança do povo de Israel. Assim vemos presente o vento e o fogo, elementos característicos da revelação de Deus na história do povo hebreu.
O vento aparece-nos presente no momento da criação, pairando sobre as águas no seu silêncio criador e testemunhal da criação. Vento que também manifesta a Elias a passagem de Deus numa brisa suave de final da tarde. Vento que Jesus apresenta aos seus discípulos com vindo e indo não se sabe de onde nem para onde mas que se faz presente e reconhecível. Este desconhecimento, esta surpresa, manifesta a iniciativa de Deus, o seu poder de agir e fazer apenas pela sua vontade.
Por outro lado temos o fogo que no monte Sinai abrasou toda a montanha, que se mostrou de tal forma grandioso que fez o povo temer a presença de Deus. Fogo que consumiu a oferta apresentada por Elias no monte Carmelo e que posteriormente o elevou envolto num carro ao mais alto dos céus. Fogo que ardia na sarça que Moisés contemplava mas que não provocava nenhuma destruição. Fogo que um dia Jesus disse aos seus discípulos que tinha vindo lançar à terra e que mais não desejava senão que ele se ateasse e se espalhasse por toda a face da terra.
Fogo que Paulo apresenta na Primeira Carta aos Coríntios (3,13) como o elemento revelador das obras de cada homem no momento do juízo final. Tal como o ouro e a prata seremos purificados pelo fogo e pelo fogo se verificará a nossa qualidade de vida, as obras que tivermos praticado.
Na medida em que a Igreja nasce deste fogo que o Senhor envia sobre ela no momento de Pentecostes, todos nós estamos envolvidos pelo mesmo fogo e pelo mesmo vento, e a nossa vida deve ser por isso um constante atear desse fogo em nós e naqueles que nos rodeiam no sentido de uma qualificação, de um crescimento frutífero.
Num primeiro momento temos que reconhecer e aceitar que o fogo não pode deixar de operar e de exigir de nós uma purificação, um consumo daquelas coisas que nos afastam da qualidade do ouro puro. E por isso devemos não só deixá-lo actuar nessa purificação mas tomar a iniciativa de lhe apresentar as nossas escórias para que as transforme e converta em metal puro, em verdade, justiça e amor, que são os reflexos iluminados do nosso ser por esse mesmo fogo transformado.
Ainda neste primeiro momento temos que apresentar as nossas ofertas, os nossos dons, para que esse fogo os qualifique num nível superior dando-lhes essa marca do amor que faz com que cada peça fundida seja uma jóia ou uma peça de arte. Necessitamos dar esse cunho ao que de bom possuímos ou podemos fazer para que a obra e a oferta tenham a marca da eternidade.
Então, purificados e iluminados por este fogo que arde em nós, podemos honestamente partir para a partilha, para o seguimento e cumprimento do desejo de Jesus de incendiar este mundo com o seu fogo de amor. E fazemo-lo partilhando com todos aquela mesma paz que o Senhor partilhou com os seus discípulos quando se apresentou no meio deles.
É o grande dom do fogo que pela fé habita em nós e que não podemos deixar de partilhar e querer levar aos outros. E neste sentido a missão do discípulo projecta-se como a presença do vento, testemunhal ao mesmo tempo que activa, mas sempre como uma brisa suave e fresca do final do dia. Não podemos apresentar-nos como um fogo devorador nem como um vento de tempestade, cairíamos certamente num processo de destruição mais que num projecto de construção.
Porque é este o grande projecto que o Senhor nos deixa no momento do Pentecostes, um projecto de unidade feito a partir da reconciliação e da partilha do dom da paz pela força do fogo do Espírito Santo. Um projecto que conta com as nossas debilidades, com as nossas fraquezas e misérias, como contou com as dos discípulos; mas por isso mesmo é possível e é de facto um projecto de Deus, pois como nos diz São Paulo somos pobres fracos vasos de argila onde se transporta um grande tesouro.
Cumpre-nos assim não entristecer o Espírito Santo encerrando-nos na nossa mediocridade mas abrir-nos confiantes à sua força e generosidade, para que ele actue em nós e através de nós junto do mundo. É o exemplo que nos deixam os Santos e os Padres da Igreja, os Apóstolos, que confiaram mais em Deus que em si mesmos e nas suas forças.
Peçamos portanto ao Senhor, a Deus Pai, por intermédio de seu filho Jesus, que nos envie o Espírito Santo, o seu fogo de amor, para que possamos encontrar a paz nos nossos corações e a saibamos partilhar na prossecução de um mundo mais unido e fraterno.

sábado, 11 de junho de 2011

Vésperas em Gregoriano em São Domingos de Silos

É na medida da honra que cada um rende a Deus durante a oração, com o seu corpo e com o seu espírito, que se abrirá diante de si a porta do socorro que o deve conduzir à purificação das suas moções e à iluminação no decurso da oração. Aquele que toma uma atitude de respeito durante a oração, elevando as mãos para o céu enquanto se mantém modestamente abaixado, ou prostrando-se com a cabeça até ao solo, será julgado digno das grandes graças do alto.”
Estas palavras de Isaac o Sírio, Padre da Igreja Oriental do século sétimo, não podem deixar de nos provocar na medida em que um participa, como hoje tive a oportunidade de participar, na celebração das Vésperas na Abadia Beneditina de São Domingos de Silos, em Espanha.
É verdade que é o canto gregoriano que nos atrai a Silos e a esta comunidade beneditina, que assumiu o canto como uma forma de evangelização e de transmitir ao mundo e a todos aqueles que aqui se dirigem a experiência de Deus.
Contudo, e como nos diz Isaac o Sírio, a oração e o canto necessitam de expressão corporal, necessitam de gestos, de uma presença física comunicativa, que permita que esse canto e essa oração adquiram uma dimensão de honra, de meio visível para o alcance das graças solicitadas e do louvor prestado a Deus.
Os monges beneditinos de Silos, para além do canto, cuidam também esta expressão corporal, esta honra e respeito que marcam a sua celebração e que nos ajuda a interiorizar o canto em latim, que certamente não perceberíamos sem a ajuda da tradução que distribuem e sem a gestualidade que nos coloca atentos e obriga a focalizar os sentidos.
Para alguns este cuidado é um pouco “old fashion”, um ressuscitar de velhas formas, de velhos ritos e de uma liturgia que se apresenta distante e não participativa. É um retrocesso no que se alcançou com a reforma litúrgica do Segundo Concilio Vaticano.
Contudo, e verdade seja dita, nessa reforma perdemos uma dimensão simbólica e espiritual que não foi substituída por nada e por isso em muitos lugares as nossas celebrações, ainda que muito dinâmicas e participativas, deixam uma sensação de vazio, não deixam memória, uma memória que atravessa os sentidos e chega ao coração e ao sentido da presença do divino.
Necessitamos por isso, numa celebração mais participativa ou mais ritual, cuidar os gestos da celebração, na riqueza da sua simplicidade, porque muitos gestos litúrgicos necessitam apenas ser bem executados para que voltem a ter uma dimensão simbólica e a dizer mais do que à primeira vista querem dizer.
Estas Vésperas celebradas em São Domingos de Silos em gregoriano foram assim um bom início para a Solenidade do Pentecostes e um motivo para dar graças a Deus e para pedir a iluminação do Espírito Santo para a forma como celebramos, para a dignidade da forma como devemos celebrar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Censura ao Livro Duodécimo de Sermões do Padre frei João Franco - 1741

A publicação de um livro é ainda hoje um processo longo e demorado. Mas se olharmos para os séculos passados e nomeadamente para o período em que vigorou a censura do Tribunal do Santo Oficio percebemos que esse processo era ainda mais demorado e por vezes não chegava mesmo ao fim desejado que era a publicação.
Não é o caso que aqui apresentamos, porque o autor, frei João Franco, frade da Ordem dos Pregadores, e ao tempo do terramoto de Lisboa de 1755 Prior do Convento de Lisboa, publicou várias obras durante a sua vida, ainda que hoje raras e de muito difícil acesso.
A censura, ou apreciação que lhe é feita ao último volume da colecção de Sermões, por um outro frade dominicano, frei Agostinho de São Boaventura, Padre Presentado e Pregador Geral, mostra bem da importância da sua obra e certamente da necessidade de ser recuperada e resgatada do esquecimento

“Aprovação do Muito Reverendo Padre frei Agostinho de São Boaventura, Presentado, e Pregador Geral.
Muito Reverendo Padre Mestre Provincial. Manda-me Vossa Paternidade Muito Reverenda, que veja este Duodécimo Tomo de Sermões, que o Padre Presentado Frei João Franco escreveu, e pregou, e com justíssima razão me manda, e ordena que o censure. Já o digo, é obra muito grande, muito importante, e muito necessária. Grande pela perfeição dos seus pensamentos, e discursos; importante para o exemplo; e necessária pela utilidade, que sem dúvida terão as almas, quando o lerem. Com justa razão me ordena Vossa Paternidade Muito Reverenda que o reveja, porque além de não conter coisa alguma contra a pureza da nossa Santa fé, e bons costumes, encontro nele um claro Índex do seu grande talento, tão merecedor do aplauso de todos, que fora privar a Religião, e ao Autor da glória, que destes escritos lhe resulta, o negar-se lhe a licença, que pretende. Este é o Duodécimo Tomo, que agora quer imprimir, e logo, que tive o gosto de rever o Undécimo Tomo, entendi, que neste estava a coroa, que o Autor merecia, tão luzida, como brilhante, em que nele vemos a coroa de doze Estrelas, com que lá no Apocalipse se viu coroada uma cabeça, que tinha o Sol por gala. Não digo mais, ainda que tinha mais, que dizer, que está ajustado o curso deste Sol nos doze signos, que nos doze Tomos, que escreveu, e imprimiu, ostentou. É digníssimo de se imprimir. Vossa Paternidade Muito Reverenda fará o que for servido. São Domingos, 16 de Abril 1741. Frei Agostinho de São Boaventura.”

Pedro amas-me? (Jo 21,15-19)

Ao aproximarmo-nos do fim do Tempo Pascal o Evangelho apresenta-nos o relato do encontro de Jesus com os discípulos nas margens do lago e a conversa um tanto ou quanto constrangedora que teve com Pedro, que num determinado momento se tinha disposto a dar a sua vida pelo Mestre, a segui-lo por onde quer que fosse, mas que perante a ameaça à sua vida se apronta a negar o Mestre dizendo que não o conhecia.
De facto Pedro não conhecia o Mestre, e muito menos aquele Mestre que ele via de longe humilhado, sem poder e sem glória, quase sem figura humana, e completamente desenquadrado das suas expectativas e das expectativas dos demais membros do grupo. Aquele Jesus, com o qual a criada o confrontava, não era o Jesus que ele conhecia, não cabia dentro dos referenciais que tinha adquirido ao longo do tempo que tinha vivido com ele.
Agora que tudo passou, e que o peso da culpa domina o seu coração, Jesus coloca-o face a face com um amor que necessita ser retomado, necessita ser redimido por um amor maior, que é o amor do próprio Mestre que misericordiosamente vem ao seu encontro.
Há uma necessidade de começar de novo, de refundar a relação e por isso Jesus não interpela Pedro com esse nome que um dia lhe outorgou como chefe do grupo, mas chama-o de Simão, com o nome de toda a vida e da sua humanidade e história. Pedro necessita nascer de novo para o seguimento do Mestre e para o amor de Jesus.
A pergunta, “Simão, tu amas-me mais que estes”, deixou certamente Pedro constrangido, pois não só Jesus o chamava por um nome que não era o dado, como colocava o seu amor em comparação com os outros, que ainda que o tivessem abandonado não o tinham negado.
Não é de estranhar que Pedro tenha respondido um pouco acabrunhado e triste que amava o Senhor, porque o Mestre o obrigava a confrontar-se com a relação pessoal que tinham e com a relação que cada um dos outros também tinha com o Mestre. Contudo, e apesar da resposta temerosa, Jesus não deixa Pedro na tristeza e na incerteza do seu amor, bem pelo contrário, a esse amor frágil e inconstante convida a tomar conta dos seus cordeiros.
Por uma segunda vez Jesus pergunta a Pedro pelo seu amor, embora desta feita não haja já termo de comparação. É o amor de Pedro em exclusivo que interessa, um amor que depois de afirmado, ainda que temerosamente, vai ser convidado, não já a tomar conta das ovelhas, mas daqueles que também cuidavam das ovelhas, ou seja, um amor por aqueles que não negando o Mestre o tinham abandonado. O amor de Pedro deve estender-se aos seus irmãos e condiscípulos, deve ser um amor colegial e ao mesmo tempo misericordioso para com os pecadores.
Por fim e numa terceira vez Jesus pergunta a Pedro pelo seu amor, facto que leva Pedro aos limites da sua consciência e da sua infidelidade, da sua incapacidade de amar sem a força e o amor do Mestre presentes. É a necessidade e a resposta do despojamento, à semelhança de Jesus, de tudo colocar nas mãos do Senhor.
E perante tal disponibilidade, tal abertura, Jesus confirma Simão na missão de Pedro, porque já não será guiado por si mesmo, pelas suas forças e vontade mas pela mão de um outro que o levará aonde ele mesmo não quererá ir. Simão Pedro poderá então dar plenamente resposta ao convite “segue-me”, com que termina a conversa entre Jesus e Pedro.
A conversa de Jesus com Pedro e as perguntas sobre o amor levam à descoberta dos vários níveis do amor e do seguimento de Jesus, que se traduzem num cuidado das ovelhas do rebanho, num amor misericordioso para com aqueles que também falham no cuidado, e numa abertura e disponibilidade total ao Espírito Santo, dessa mão que nos guiará pelos caminhos insuspeitos pelos quais se traduz o seguimento mais perfeito de Jesus.
Que cada um de nós saiba despojar-se de tudo o que nos impede de responder também a Jesus como Pedro respondeu: “Senhor tu sabes tudo, tu sabes que te amo”.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Consagra-os na Verdade (Jo 17, 17)

Jesus continua a rezar ao Pai pelos seus amigos e discípulos nesta hora de partida e despedida. E depois de afirmar que nenhum deles é do mundo, à sua semelhança, pede que os livre do mal e os consagre na verdade.
Para nós, para os discípulos e para cada um de nós, o primeiro pedido de Jesus soa-nos a normal, a uma consequência daquela oração que nos tinha ensinado e na qual terminamos pedindo ao Pai que nos livre do mal.
Faz parte da nossa condição humana, da nossa natureza, esse desejo de libertação do mal, de uma felicidade e alegria que nos estão inscritas nos genes desde a criação. Fomos feitos para a vida e para a felicidade e por isso aspiramos naturalmente a elas, e viveríamos nelas perfeitamente se não fosse o pecado, essa nossa tendência rebelde de querermos ser senhores de nós próprios e da nossa felicidade, como se fossemos o princípio e o fim de nós próprios.
Faz-nos falta aceitar as nossas limitações, as nossas dependências e interdependências, e a nossa necessidade dos outros e do Outro para nos encontrarmos com a vida verdadeira, a felicidade e a alegria que Deus dispôs e deseja para nós.
Para tal, para que de facto aconteça este encontro, Jesus pede ao Pai que nos consagre na verdade, que nos assuma junto dele e sob a sua protecção, porque é isso que de facto quer dizer consagrar. “Con-sacrum” ou “con-sanctum” quer dizer tomar para junto de si, assumir para junto de si, missão que o Espírito Santo realiza na medida em que é relação e coloca em comunicação o Pai e o Filho e todos aqueles que estão em relação com o Filho.
E somos assumidos junto do Pai na verdade que é o mistério do Filho, a Palavra feita carne, a Palavra experimentada pela morte e dela saída vencedora, a Palavra que assumida ao céu e à intimidade do seio do Pai regressa com todo o peso da condição humana.
Somos consagrados na Verdade que é Jesus Cristo, Filho de Deus e Filho do Homem, consagrado ele mesmo na obediência do amor para que todos possamos também ser consagrados pelo fruto e a vitória desse mesmo amor. É pelo Filho Jesus que se nos abre a via da consagração, desse poder ser assumido e colocado ao lado do Divino Pai.
Assim, como homens e mulheres em busca da felicidade, e como discípulos em busca de fidelidade ao Mestre e aos seus mandamentos, não podemos deixar de lado o processo de assumir a nossa humanidade, a nossa condição humana; necessitamos ser verdadeiramente homens e mulheres para nos encontrarmos com a nossa verdade humana, finita e provisória, e a partir dela nos encontrarmos também com a verdade divina que nos habita e impele, uma verdade eterna e vital que não se contenta nem se satisfaz apenas com a felicidade deste mundo.
O Espírito Santo é a fonte de luz e força para estes processos de encontro e verdade, e por isso o imploramos ao Senhor, o pedimos a Deus Pai, para todos nós e para todos os momentos da nossa vida.

terça-feira, 7 de junho de 2011

É por eles que eu rogo (Jo 17,9)

Jesus prepara-se para entregar a sua vida ao Pai, mas antes centra a sua atenção naqueles que o acompanharam desde sempre, os seus companheiros e discípulos. E se num primeiro momento se lhes dirige directamente, preparando-os para o que dentro de pouco sucederá e para o dom do Espírito que lhes será oferecido, num segundo momento dirige-se ao Pai intercedendo por aqueles que estavam com ele mas ainda não estavam verdadeiramente preparados para o que se passaria e o dom que lhes seria oferecido.
É um gesto de atenção da parte de Jesus, um gesto do seu amor fraterno, mas também uma manifestação da realidade da sua missão. Ele tinha vindo do Pai, tinha recebido os homens, e aqueles homens em particular, e agora devolvia-os ao Pai e ao seu cuidado, porque de facto não eram dele mas do Pai, eram suas criaturas, sua propriedade eleita, seus filhos em adopção.
Jesus nada tem e nada quer para si, tudo remete ao Pai e tudo refere ao Pai, verdadeiro Senhor e verdadeira fonte de toda a sua missão. É o despojamento total, o abandono de tudo e de todos na mão do Pai, a verdadeira liberdade para poder vencer o mundo, porque só um homem livre pode vencer o mundo.
Contudo, esta liberdade e este despojamento não impedem nem inviabilizam o cuidado pelos outros, essa atenção de rogar ao Pai por aqueles que lhe foram entregues, para que não fiquem abandonados. A liberdade não se opõe ao amor, pelo contrário complementam-se e crescem juntos, porque só ama quem é livre e quanto mais se ama mais se deseja a liberdade do outro.
A oração de Jesus ao Pai pelos seus discípulos é para nós um conforto, um motivo de confiança e paz, porque também ela é feita por nós, por cada um de nós. E se naquele momento histórico, situado no tempo e no espaço, ela foi significativa, quanto mais não é agora em que essa prece se apresenta constante e eternamente diante de Deus Pai.
O Filho subido ao céu apresentou-se diante do Pai com a sua oferta de amor, com a vitória sobre a morte do seu amor obediente, e nele apresentou-se toda a nossa humanidade resgatada da infidelidade e do desconhecimento do amor de Deus.
Como esta oferta nos deveria deixar tranquilos, confiantes, dispostos a acolher generosamente o dom do amor de Deus e a vivê-lo sem medos nem peias.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tende confiança, eu venci o mundo (Jo 16,33)

À primeira vista estas palavras de Jesus soam como a publicidade enganosa, pois como é possível ter confiança em alguém que está condenado à morte, que aparentemente se apresenta como um fracasso face às expectativas geradas ao seu redor e em relação a si.
Que vitória tinha alcançado sobre os seus inimigos, sobre as tramas que se urdiam para o entregar à morte, para o fazer desaparecer? E mesmo junto dos seus amigos que garantia tinha de que podia confiar neles, que não o abandonariam no momento em que mais necessitaria deles, que era verdadeiramente o seu líder?
Contudo, é nesta perda, nesta derrota total e visível aos olhos humanos que se tece a vitória, porque não é uma vitória obtida com força, com poder ou com dinheiro, com qualquer realidade corruptível e por isso finita. Não são as forças e os poderes deste mundo e as suas influências que asseguram a vitória.
Bem pelo contrário, é na total ausência de tudo isso e na total confiança no amor do Pai que se vislumbra a vitória possível. Um amor eterno e total, gratuito e sem contrapartidas que é capaz de vencer qualquer inimigo, mesmo o mais acicatado como é a morte.
“Eu não estou só, o Pai está comigo”, diz Jesus, e é desta confiança, desta fé que nasce o poder de vencer o mundo, porque apesar de aparentemente só, Jesus está acompanhado daquele que é a presença, que é a relação por natureza, que é o criador e senhor de todas as coisas, mesmo as do mundo que parecem querer vencê-lo. É desta participação e desta unidade íntima que nasce a força para vencer todos os desafios, todos os embates e o mundo no qual se encerra a morte.
Neste sentido, o apelo que Jesus faz aos seus discípulos e a cada um de nós fundamenta-se nesta intimidade e no convite à sua participação. Também nós, cada um de nós, pela intimidade com o Pai, e através do Filho, podemos vencer o mundo e as suas ameaças de morte. Resta-nos apenas ter confiança, essa confiança que Jesus manifestava, porque se sabia acompanhado como nós estamos acompanhados.

domingo, 5 de junho de 2011

Homilia do Domingo da Ascensão do Senhor

As leituras do livro dos Actos dos Apóstolos e do Evangelho de São Mateus apresentam-nos duas versões diferentes do mesmo acontecimento, ou duas experiências diferentes do mesmo acontecimento que foi a ascensão de Jesus ao céu, o regresso ao seio do Pai.
Diferenças redacionais e de contexto que acabam por se complementar e por nos colocar perante a mesma exigência de testemunho, de ir pelo mundo anunciando a Boa Nova de Jesus Cristo e baptizando em seu nome todos aqueles que nele acreditarem.
O relato dos Actos dos Apóstolos enquadra-se no contexto de uma ceia, de uma refeição na qual Jesus está presente. É aí que Jesus não só promete a vinda do Espírito Santo, muito em breve, mas também se eleva diante dos olhos dos discípulos.
Neste sentido não podemos esquecer a celebração da Eucaristia como lugar e modo da presença de Jesus, mas também como lugar e memória da sua ascensão. Em cada celebração da Eucaristia Jesus faz-se presente, mas também nos faz presentes no céu, pois participando da nossa humanidade na incarnação fez-nos participantes da sua divindade na ascensão.
A presença dos dois anjos, à semelhança daqueles que se encontram no sepulcro na manhã de Páscoa, e que num momento nos convidam a não procurar entre os mortos aquele que está vivo e no outro a não ficar a olhar para o céu, remete-nos para uma profissão de fé no ressuscitado activa e dinâmica. A nossa fé em Jesus ressuscitado e elevado ao céu deve mover-nos à actividade missionária, apostólica, a um testemunho junto do mundo, porque é esse o convite que os anjos nos deixam face à ausência de Jesus na forma física.
Há assim na experiência da ascensão que os Actos dos Apóstolos nos relatam uma íntima e intrínseca relação entre a celebração da Eucaristia e o anúncio da Boa Nova ao mundo, uma dimensão de intimidade e relação experimentada na refeição que depois fundamenta e fortalece o testemunho, a resposta ao mandamento de ir pelo mundo anunciando as maravilhas da salvação.
Neste sentido coloca-se um grande desafio entre o que representa a nossa celebração e a sua dimensão contemplativa, a nossa relação pessoal e intimida com Deus, e o mandamento da missão, porque as duas realidades se interrelacionam, são interdependentes, e devem coexistir para um cabal cumprimento do mandamento. A actividade missionária não pode esquecer a contemplação e a contemplação não se pode esquecer da actividade missionária. Santa Teresinha do Menino Jesus é nesta questão um exemplo para cada um de nós, pois ainda que vivendo na clausura carmelitana nunca deixou de ter presente os missionários na sua oração, participando dessa forma na missão que eles realizavam bem longe do seu mosteiro.
Na celebração da ascensão de Jesus ao céu não podemos esquecer também as palavras que nos deixa no Evangelho de São Mateus, a promessa de permanecer connosco até ao fim dos tempos.
São para nós um conforto, uma esperança que nos deve animar, porque de facto essa presença se mantém e permanece na medida em que a nossa natureza foi elevada aos céus e divinizada com essa ascensão. Desde a ascensão de Jesus a nossa humanidade é já participante da eternidade, ainda que aos nossos olhos humanos essa participação seja bastante imperceptível e frequentemente nos apareça envolta nas trevas da nossa mesma condição humana e da sua fragilidade e finitude.
Perante esta obscuridade, a figura de José, do carpinteiro de Nazaré, aparece-nos como paradigmática nas opções e atitudes a tomar. Também a ele lhe foi revelada uma realidade divina que os seus olhos humanos não eram capazes de captar, uma realidade divina de um filho que por momentos o levou a pensar em cometer um acto de injustiça para com aquela que estava para ser mãe. O revelado opunha-se e entrava em choque com os seus planos e as suas expectativas, até mesmo com as suas considerações mais religiosas.
Mas é perante este desconhecido e este incompreensível que José se lança confiante, fazendo fé nas palavras de um sonho e certamente também nas palavras daquela que era o epicentro do terramoto que atingia a sua vida. Não podia fazer mais nada senão confiar e acreditar, uma vez que amava não só aquela mulher que estava para ser mãe do Filho de Deus, mas também porque desejava e procurava ser justo aos olhos de Deus.
Face à ascensão de Jesus e à promessa da sua presença junto de nós até ao fim dos tempos fica-nos assim a proposta de viver cada dia como José e tantos outros homens e mulheres de fé, no silêncio do ritmo e da rotina do dia a dia, confiantes de que o Senhor está connosco porque nós estamos com ele; e testemunhando com a justiça, a verdade e o amor que essa presença se destina a todos os homens e mulheres assumidos já em Cristo e por Cristo.

sábado, 4 de junho de 2011

Carta de Presos Políticos à Rainha D. Maria II

A 15 de Outubro de 1834 um grupo de presos da cadeia de Lisboa escreve à Rainha D. Maria II solicitando a sua libertação face a um Decreto de Amnistia para todos os presos políticos emitido a 27 de Maio desse mesmo ano.
Trazemos à luz este documento em virtude de a maior parte dos signatários da carta serem eclesiásticos e nomeadamente dois deles frades dominicanos. Percebemos que inevitavelmente eram miguelistas e de alguma forma combateram o regime liberal, embora neste momento não tenhamos ainda conhecimento dos processos e dos crimes de que foram acusados.
Os frades dominicanos que assinam a petição são frei Francisco de Nossa Senhora da Guia Pinto, que desde pelo menos 1822 aparece ligado ao governo do Convento de São Domingos de Azeitão, onde foi Prior, Subprior e Vigário, e frei Manuel de Nossa Senhora do Rosário Marinho, também ele um membro da comunidade do convento de Azeitão.
São mais duas testemunhas no cômputo geral dos radicalismos que se viveram em Portugal no século XIX, bem como do papel diversificado e tantas vezes divergente que os dominicanos adoptaram nos contextos políticos e sociais.

Senhora
Dizem os presos por motivos políticos na cadeia desta cidade, abaixo assinados; que tendo-se julgado compreendidos no Decreto de Amnistia de 27 de Maio último todos os mais presos de semelhante natureza, processados em diversos juízos tanto desta corte, como da cidade do Porto, e outras terras do Reino, e gozando já de há muito tempo da sua liberdade, e benéficos efeitos daquela saudável, e heróica providência, todos esses infelizes que gemiam em ferros: geme todavia debaixo deles ainda hoje os misérrimos Suplicantes, como, que para apresentarem à Nação Portuguesa, e às mais da Europa civilizada, um testemunho estupendo do rigorismo dos Tribunais Superiores da Corte! Nenhuma razão, Soberana Senhora, pode justificar uma tal singularidade.
É certo que o maior número dos Juízes da Relação de Lisboa tem vencido pela aplicação da amnistia aos Suplicantes, e mais presos por motivos meramente políticos. Mas de que lhes tem valido isso? O Procurador Régio tem interposto o recurso de revista em todos esses processos; e por uma fatalidade incrível tem se julgado concessíveis semelhantes revistas no Supremo Tribunal de Justiça!
Eis aqui os desgraçados presos políticos da Relação de Lisboa arremessados agora depois de um ano (e alguns mais de um ano) de ferros lá para a Relação do Porto!..
E será isto, Senhora, das Benévolas Intenções de Vossa Majestade? Seria esta a Mente do Augusto Pai de Vossa Majestade (que repousa em Glória Eterna) quando, levado somente do intenso desejo de reunir junto do Trono Legitimo de Vossa Majestade todas as vontade, todos os votos, e todos os corações com inteiro esquecimento de passados crimes e opiniões, concedeu amnistia geral por todos os delitos políticos cometidos desde o dia 31 de Julho de 1826?
Quem poderia pensá-lo! Não se pode descobrir motivo particular por que os presos hajam de ser excluídos deste Grande Acto de Clemência do Augustíssimo Regente em nome de Vossa Majestade, e menos razão ainda se pode excogitar para que esta odiosíssima, e intolerável excepção, abranja somente os malfadados presos da Relação de Lisboa, enquanto que os presos de semelhante natureza sujeitos aos Juízes das primeiras instâncias somente (como de tais Juízes não se podia interpor o recurso de revista) gozam há muito da aura vital da sua apreciável liberdade.
Mova-se pois o Real Ânimo de Vossa Majestade, Augusta Senhora, a mandar pôr termo a tantos males, e tantos padecimentos, que por certo não são compatíveis com os Clementíssimos Sentimentos que a Nossa Adorada e Jovem Rainha herdou de seu Imortal (e sempre saudoso) Progenitor.
Curvados muito reverentemente aos Pés do Régio Trono, pedem a Vossa Majestade seja servida mandar declarar muito positiva, e explicadamente, que a amnistia outorgada a todos os portugueses pelo Augusto Pai de Vossa Majestade no Decreto de 27 de Maio último compreende os presos em cadeias públicas como estão os suplicantes.
E. R. M.
Lisboa, 15 de Outubro de 1834.
José Pacheco
José António dos Santos Cavaco
O Padre Vicente José Pinheiro
Frei Francisco de Nossa Senhora da Guia Pinto
Frei Manuel de Nossa Senhora do Rosário Marinho
José Joaquim Mendes da Cunha
João Francisco da Silva
Frei José da Sacra Família
Frei José João das Dores
O Padre Boaventura Franco[?] de Carvalho
O Padre Paulo António Pereira da Costa
Frei Joaquim Manuel de Santa Petronilha
Frei Alexandre José Moreira
Frei António Ezequiel da Silveira
Frei Luís Teixeira de Freitas
Frei João Piteira Ramalho
Frei Alexandre dos Prazeres Ferreira
Frei Luís Inácio Guedes
José António Oliveira Barreto
Frei Francisco de Santo António
João Pedro Montóia.

São Pedro de Verona, Mártir Dominicano

Celebra hoje a Ordem de São Domingos o seu primeiro mártir frei Pedro de Verona, também considerado o primeiro inquisidor.
Fazendo memória, e para elucidar os atributos iconográficos com que habitualmente é representado, deixamos o relato da sua morte segundo o que podemos encontrar no “Agiológio Dominico” de Frei Manuel de Lima, publicado em Lisboa em 1710 na Oficina de António Pedroso Galram.
“Era o Santo Inquisidor neste tempo, Prior do Convento de Como, donde sendo necessário ir a Milão tratar de negócios do Santo Oficio, partiu em um sábado dentro das oitavas da Páscoa de 1252. Era já tarde quando saiu do Convento, e como havia de fazer a jornada a pé, e andava doente de quartãs, pediram-lhe os seus religiosos que passasse aquela noite em Como, porque temiam chegasse fora de horas a Milão, e que no outro dia faria a viagem com mais comodidade.
Respondeu profeticamente que lhe convinha partir àquela hora, e que se não pudesse entrar em Milão na mesma noite, ficaria na Igreja de São Simpliciano, que está no meio do caminho. Dito isto, continuou a jornada com o seu companheiro frei Domingos, gastando o tempo em rezar Hinos, Salmos e outros louvores de Deus, com fervorosa devoção, como quem sabia o que o esperava.
Chegando com este exercício a um lugar chamado Barlassina, lhe saíram ao encontro os matadores, e puxando Carrino, seu capitão, por um alfange, deu com ele um tão grande golpe na cabeça do Santo Inquisidor, que o fez logo cair por terra.
Não perdeu ele o ânimo, nem os sentidos, antes assim mortalmente ferido, ofereceu a vida ao Senhor e confessou a fé porque morria, não só de palavra, mas por escrito, porque fazendo tinta do próprio sangue e pena do dedo, para mostrar sua firmeza, ao mesmo tempo que o proferia com a boca deixou escrito em uma pedra aquele artigo da Fé porque o martirizavam: ‘Creio em Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, e de todas as coisas assim visíveis como invisíveis’. E levantando os olhos ao Céu disse: ‘Nas vossas mãos, Senhor, encomendo o meu espírito’.
Nesse tempo lhe atravessou o ímpio herege o coração com um punhal, para ficar mais seguro da sua morte, e por esta ferida saiu a ditosa alma, acompanhada de angélicos exércitos que a conduziram a triunfar no Império onde com triplicadas coroas, de Doutor, de Mártir e Virgem foi laureado.
Ficou seu companheiro frei Domingos também mortalmente ferido, porque não pôde escapar à fúria dos inimigos infernais, os quais vendo-os ambos estendidos na terra partiram com pressa a dar a nova aos Maniqueus da proeza que tinham feito. Porem seguiram-nos uns lavradores, que passando por este lugar viram o horrendo espectáculo movidos das sentidas vozes do Companheiro que ainda ficou vivo, e fizeram esta diligência com tanta pressa que prenderam o principal da companhia, que era Carrino, fugindo-lhe os mais.
Ficaram alguns em sua guarda e do corpo do Santo Mártir, e seu Companheiro, e outros foram dar parte do sucesso à cidade de Milão. Tanto que os nossos religiosos o souberam puseram-se a caminho e chegando ao lugar do martírio acharam o Santo Inquisidor já morto, com a cabeça partida e o peito atravessado, e o Companheiro mais morto que vivo, com cinco feridas mortais, que mandaram passados cinco dias para o Céu, como piamente se crê e deixámos dito na sua vida a 11 deste mês.
Lavaram os religiosos com mares de lágrimas as feridas, chorando não a sua morte que, bem viam, devia ser invejada, mas a perda de tão grande irmão e companheiro. Acomodaram o santo corpo sobre um carro coberto de ramos e flores, à maneira de triunfo e partiram para Milão, onde se tendo já divulgado a nova foi tal o movimento nos peitos Católicos que fechadas as casas e tendas saiu todo o povo a ver e reverenciar o sagrado cadáver. Temendo o Governador e mais adjuntos, que da confusa multidão sucedesse algum tumulto mandaram fechar as portas da cidade para que este Celestial Triunfador das heresias fosse recebido como ordem e devotíssimo aplauso.
Porque era já tarde para entrarem em Milão, pareceu aos religiosos conveniente ficarem na Igreja de São Simpliciano, como profetizando tinha dito o mesmo santo. No dia seguinte, que foi a Dominga de Albis, entrou na famosa cidade este precioso tesouro, com um glorioso acompanhamento. Saíram a recebê-lo um bom espaço fora todas as comunidades dos religiosos, com a cleresia e o Cabido com o seu Arcebispo em forma de procissão.
Seguia atrás o carro todo coberto de ramos entretecidos com vistosa variedade de flores. E porque a este glorioso triunfo não faltassem despojos de inimigos vencidos, e prisioneiros, vinha atrás do carro preso com fortes cadeias o seu capitão Carrino, que tinha sido o agressor desta tirania, não já presa dedicada a uma cruel morte, como pedia todo o povo, sim a uma religiosa e gloriosa vida, passando de ministro do demónio ao serviço de Deus e da Religião.
Seguia-se ultimamente o governo da cidade com todos os seus moradores, porque se não tinha por Católico o que não saiu a acompanhar o destruidor das heresias. Com tanta honra e tão gloriosa pompa foi levada a preciosa Relíquia ao nosso Convento de Santo Eustórgio, onde lhe deram conveniente sepultura.”

Visita de Lord e Lady Holland ao Convento da Batalha em 1808

No último dia do ano de 1808 chegam ao Convento da Batalha três visitantes ingleses, vindos da Marinha Grande onde tinham pernoitado na noite anterior. Eram eles Lord Holland, a sua esposa Lady Holland, e o médico secretário que os acompanhava Dr. John Allen. Estavam de passagem por Portugal numa viagem cuja meta era Sevilha, onde Lord Holland se encontraria com membros da Junta que lutava em Espanha contra as tropas napoleónicas que tinham invadido a Península.
Cada um destes visitantes redige um diário da viagem, tomando nota dos lugares por onde passam, das gentes e curiosidades que encontram, de algumas características da paisagem e da agricultura, das milhas feitas na viagem e em quanto tempo, e obviamente das condições com que são recebidos em cada lugar.
Ao passarem pelo Convento cada um deles faz o seu registo e a sua apreciação. Assim encontramos em cada um deles a descrição da igreja e dos túmulos reais, a forma como foram recebidos e foram alimentados e até do que souberam das pilhagens das tropas francesas aquando da primeira invasão em 1807. É essa informação que deixamos para conhecimento e divulgação.

“Permanecemos aí mais de duas horas, admirando aquele belo edifício e desfrutando da hospitalidade dos frades, que nos mimaram com vinho excelente e doces.
Seria inútil tentar qualquer descrição de um edifício que foi tão bem representado nas imagens de Murphy. Na Capela do Fundador, ao centro, encontram-se os túmulos e estátuas em mármore de D. João I, fundador do Convento, e da sua Rainha, D. Filipa. Dos lados, os túmulos de quatro dos filhos, D. Pedro, D. Henrique, D. João e D. Fernando, mas nenhum deles, à excepção do de D. Henrique, o grande promotor das viagens de descobrimento ao longo da costa de África, tem estátuas.
Em frente ao altar-mor, encontram-se os túmulos do seu filho D. Duarte e da sua Rainha, com as respectivas estátuas jacentes nos túmulos. À esquerda do altar-mor, encontra-se a capela de D. João II, na qual o seu corpo está conservado com a pele seca e quase intacta, e por trás daquela capela, há uma outra muito bela, com um túmulo e altar de mármore embutido construído em 1640, pertencente ao Duque de Lafões. Do outro lado do altar, encontram-se as duas capelas correspondentes.
Na Casa do Capítulo, encontram-se os túmulos de D. Afonso V e da sua Rainha, cobertos de madeira. O Mausoléu de D. Manuel, como é conhecido, foi fundado, segundo nos foi dito, por D. Duarte e concluído pela sua Rainha, de acordo com o traço original. Posteriormente, D. Manuel desejou elevá-lo e cobri-lo, mas depois da obra ter avançado, ficou tão desconsolado com a inferioridade do trabalho, que abandonou a empresa deixando-a no seu estado actual incompleto.
Tive pena de ver algumas das imagens à entrada do Mausoléu e muito da requintada obra de talha, bastante danificadas desde a última vez que estivemos no Convento. Os frades, que são dominicanos, são mais de vinte. A sua renda não é elevada, mas como é paga sobretudo em milho e vinho, deverão estar quase, senão mesmo, tão ricos do que já alguma vez estiveram. Sofreram menos com os franceses do que os monges de Alcobaça, mas a prata da sua igreja, excepto as custódias e os cálices, foi levada.” (Do Diário do Dr. John Allen)

“A Igreja é muito grande do lado direito. Naves em ângulo recto a partir do centro. A Capela do Fundador: este e sua mulher, D. Filipa, a filha de John of Gaunt, jazem num túmulo magnificente ao centro e as suas esfinges, maiores do que o tamanho real, são esculpidas em fino mármore. Os seus filhos encontram-se em nichos à volta. O Monumento de D. Duarte, filho de D. João I, e de sua mulher, D. Leonor, encontra-se sob o altar-mor.
O Monumento de D. Afonso V e de sua mulher encontram-se na Casa do Capítulo. Numa capela anexa ao altar-mor, o corpo de D. João II, cujo caixão está aberto para os curiosos e os seus restos expostos para observação. Tem-se degradado consideravelmente desde que o vimos há três anos atrás, consequência da constante exposição e observação. D. João II, filho de D. Duarte, depois de recusar as ofertas de Colombo, contratou Vasco da Gama.
O Mausoléu de D. Manuel encontra-se separado do Mosteiro e é muito belo. A parte inferior foi construída por D. Duarte e a superior acrescentada posteriormente, mas foi considerada tão inferior por D. Manuel, que este não permitiu que fosse concluída. Os claustros são bonitos, a parte superior toda ela ricamente trabalhada na pedra.
A comunidade consiste em cerca de vinte frades dominicanos. Os rendimentos da igreja são escassos e há um aspecto de enorme pobreza. Ofereceram-nos um excelente banquete de frutos secos, doces deliciosos e bom vinho na Sacristia. Alguns dos frades lembravam-se de nós.
Numa pequena capela para lá daquela que contém o ataúde de D. João II, há um formoso túmulo de mármore pertencente à família do Duque de Lafões, cujo último corpo aí sepultado foi em 1640. O mausoléu parece ter sofrido recentemente das injúrias do clima, alguns dos requintados ornamentos em talha foram consideravelmente danificados. A esfera está posta em todo o lado, como símbolo da ciência do patrono. Os rendimentos são pagos sobretudo em milho e vinho e algum dinheiro. Sofreram menos com os franceses do que os monges de Alcobaça, mas a sua prata, à excepção das custódias e dos cálices, foi levada. Um destacamento inglês comandado pelo General Fergusson esteve aqui aquartelado, beberam livremente do bom vinho, mas não se comportaram mal.” (Do Diário de Lady Holland)

“Admirámos, pela segunda vez, a arquitectura do Convento, o Mausoléu inacabado e os Claustros. A Capela é muito bonita, com o monumento a D. João I, o fundador (que morreu em 1433), e à sua mulher, filha de J. of Gaunt, com os seus três filhos mais novos do lado direito. O seu filho, o Rei D. Duarte, tem um monumento imediatamente por baixo do altar-mor. O monumento a D. Afonso Quinto e à sua mulher, na Casa do Capítulo, e o corpo de D. João II, em que grande parte da pele ainda se encontra preservada, é exibido num caixão na Capela à esquerda do altar-mor. A parte inferior do Mausoléu foi edificado pelo Rei D. Duarte e sua mulher, a superior pelo Príncipe D. Manuel, o qual, descontente com a inferioridade da obra, a deixou inacabada.
Lady Holland passeou pelos Claustros. De acordo com o regulamento, nenhum dos frades, que são dominicanos, pode acompanhar uma senhora através dos Claustros, mas conquanto fiquem à porta, estas são autorizadas a andar pelo Convento. Receberam-nos com grande hospitalidade, pressionaram-nos para jantar e deram-nos uma excelente refeição de frutos secos, doces e vinho na Sacristia. Um dos frades reconheceu-me da minha visita em 1805 e acompanhou-me na sua mula a Carvalhos.
Tive conhecimento que os franceses não levaram grande coisa da Batalha, mas a prata e os castiçais foram pilhados e muito daquilo que foi salvo, tinha sido escondido pelos padres. As suas rendas são muito modestas, metade das quais pagas em dinheiro, e todas elas vitaliciamente fixadas.” (Do Diário de Lord Holland)

Para quem quiser saber um pouco mais da viagem destes três personagens por Portugal, os três Diários foram publicados recentemente pela Caleidoscópio – Edição e Artes Gráficas, de onde foram retirados estes excertos relativos à Batalha.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria (Jo 16,22)

Há no mistério e na pessoa de Jesus uma abrangência das realidades tão vasta e tão profunda que quando pensamos nela ficamos abismados com tamanha grandeza e vastidão, com tamanho amor. Até custa a acreditar.
E nesta passagem do Evangelho de São João, nesta promessa de uma alegria que não nos poderá ser tirada, encontramos esse grande e profundo amor de Deus, esse abismo de uma oferta que não nos pode deixar indiferentes.
No mistério da Incarnação o Filho de Deus assumiu a nossa condição humana, fez-se em tudo semelhante ao homem, excepto no pecado. Nessa Incarnação assumiu toda a radicalidade da vida humana e por isso fez a experiência da morte, para nos resgatar dessa mesma morte, para que a morte não tivesse a última palavra sobre a vida dos homens.
No mistério da Ressurreição, o Filho do Homem que regressa ao seio do Pai celeste, assume toda a história da humanidade e tudo o que tinha operado por ela, reclama o mistério da redenção realizado por amor e pela entrega da sua vida. E ao fazê-lo deixa àqueles que acreditam nele a promessa da sua presença e da sua alegria.
Ausente aos olhos físicos permanece presente no Espírito e no amor que une os discípulos, aqueles que optam por segui-lo nas suas vidas precárias e frágeis. Permanece na força e na luz que conforta e ilumina o fazer humano.
E à luz destes dois mistérios, destas duas formas de presença, a humana da Incarnação e a espiritual da Ressurreição, percebemos o quanto esta história de Deus com os homens tem uma tremenda carga de solidariedade. Deus solidariza-se com a humanidade sofredora para a libertar desse sofrimento e depois fá-la participar da alegria da eternidade, do Reino celestial aberto por essa entrega de amor.
Desta forma, a alegria é um dom que verdadeiramente ninguém nos poderá tirar, ninguém nos poderá roubar, porque ela não é da ordem deste mundo, não é da ordem do quantificável nem do comerciável, é um puro dom, uma forma de participação já na eternidade e no gozo da contemplação da face de Deus.
Pelo que nos fica um grande convite, ou desafio, o de viver a alegria com essa certeza de que nos foi oferecida como participação na eternidade de Deus e portanto nada nem ninguém nos poderá privar da oferta que Deus nos faz, tal como ninguém nos pode privar da redenção realizada por Jesus, acreditemos ou não nela. Ambas as realidades são puros dons de Deus àqueles que os quiserem receber.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A vossa tristeza converter-se-á em alegria (Jo 16,20)

Esta promessa de Jesus, de que a tristeza se converterá em alegria, esbarra muitas vezes na tristeza em que teimamos viver, como se a alegria fosse um dom demasiado difícil de alcançar. Cristãmente parece que não queremos passar da Sexta-feira Santa, que não queremos viver a manhã de Páscoa e gozar da alegria da ressurreição.
E contudo, quando Jesus faz esta promessa aos discípulos tem bem presente o sofrimento que o espera, a tragédia que se vai abater sobre o grupo, e por isso mesmo é necessário prepará-los, abrir-lhes a porta a um futuro que não podem imaginar face ao que se vai processar e às expectativas que verão cair por terra, porque falsas.
Há de facto um momento de tristeza, um momento de morte violenta que atingirá não só o corpo do Mestre mas também todo o corpo relacional dos discípulos. Todos estarão expostos a essa morte e a essa violência, mas para além delas brilha e vislumbra-se uma presença, uma outra presença que não se reduz ao físico, mas que é Espírito e por isso permanece sem fronteiras e sem barreiras.
E é essa presença espiritual, ressuscitada, que garante e suporta a alegria, que permite que a tristeza do desaparecimento seja de facto passageira, uma vez que há uma esperança de presença a toda a prova e inviolável. A morte e o desaparecimento não são o fim, mas apenas um processo, doloroso inquestionavelmente, pelo qual é necessário passar.
Neste sentido a promessa de Jesus surge-nos com um poder desafiante tremendo, pois também nós e face a tantas trevas, a tantas dúvidas e a um sofrimento e morte certos, somos convidados a viver na alegria da esperança e da confiança de que há uma presença que nos acompanha e nos garante que o Filho do Homem e Filho de Deus venceu o mundo e venceu a morte.
Essa presença é o Espírito Santo que nos recorda o que Jesus disse e fez por nós, mas que também nos faz participantes da relação de vida que existe entre o Filho e o Pai, uma relação eterna e imutável e na qual fomos assumidos em pleno.