sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Carta do Vigário Provincial Padre Gaudrault na Abertura do Noviciado em Sintra

Continuando a apresentação do fundo documental da restauração da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores, divulgamos a Carta que o Vigário Geral, o Padre frei Pio Gaudrault, enviou aos irmãos do Vicariato pela ocasião da reabertura do noviciado na casa de São Pedro em Sintra.
Podemos imaginar a alegria, a esperança e certamente também os temores que habitavam os corações do Padre Gaudrault e dos outros frades que compunham o Vicariato e se lançavam neste novo desafio. Contudo, e para que a obra pudesse chegar a bom porto, o Padre Gaudrault não escamoteia as responsabilidades pessoais e comunitárias, a oração, a exemplaridade de vida, o trabalho apostólico. A formação dos religiosos é afinal uma grande obra de colaboração.

Quinta de S. Pedro
SINTRA, l de Dezembro de 1949
Meus, Reverendos Padres e mui caros irmãos
Como já é do vosso conhecimento, teremos a grande alegria de reabrir o nosso Noviciado. Recebi do Rev.mo Padre Geral, em 26 de Novembro, todos os documentos respeitantes à erecção canónica do Convento e do Noviciado, à nomeação do primeiro Prior e do Padre Mestre e concedendo todas as dispensas que nos são necessárias nas presentes circunstâncias. O Rev.mo Padre deu-me, também, todos os poderes para a nomeação dos outros oficiais do Convento e do Noviciado.
Demos graças a Deus, meus Reverendos Padres e mui caros irmãos, por esta grande graça que Ele se digna conceder-nos. È um acontecimento importante e decisivo para a obra da nossa restauração que todos nós temos a peito. Todos e cada um, dos religiosos do Vicariato devem agradecer a Deus, a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e ao nosso Bem-aventurado Pai S. Domingos o terem tornado possível esta erecção do Noviciado em Portugal, o primeiro Noviciado “em terra nossa” depois de 1834,ou seja depois de uma interrupção de cento e quinze anos!
Patentearemos o nosso reconhecimento a Deus, à Sua santa Mãe e ao nosso santo Fundador com uma vida religiosa mais fiel, mais intensa. A nossa vida, mais regular e vivida mais profundamente, será além de uma oração de reconhecimento, uma prece suplicante para que Deus abençoe os nossos esforços, para que o nosso Noviciado seja uma casa de formação religiosa verdadeiramente digna dos filhos de S. Domingos que possam, reerguer e continuar a obra dos antigos Padres e Irmãos da vetusta Província Lusitana.
Faremos, aqui no Noviciado, tudo o que nos for possível. Fazei, da vossa parte, nas vossas casas e onde quer que vos encontreis, o que vos incumbe. A formação de religiosos é uma grande obra de colaboração. Tudo: as vossas orações, a vossa vida, as vossas obras, os vossos exemplos, deve contribuir para nossa ajuda. Nesta obra comum cada um é responsável pelos seus irmãos.
Muito esperamos dos nossos noviços clérigos e conversos, destes filhos amimados de Deus. Serão eles os nossos primeiros noviços em Portugal, os primeiros beneficiários dessa bênção de Deus. Incumbe-lhes serem os melhores, entregarem-se totalmente à sua vida religiosa, deixarem-se formar profundamente, abrirem de par em par a sua alma às efusões da graça, impregnarem-se, na medida do possível das virtudes religiosas e do espírito de S. Domingos. Ao dar-lhes o santo hábito, pedirei ao nosso B.do Pai que infunda neles o espírito dos seus primeiros discípulos, daqueles que ele próprio vestiu com as suas vestes, em Prouille e em Santa Sabina.
É, com efeito, este o pensamento e desejo do nosso Rev.mo Padre Geral, expresso numa carta que acaba de escrever-me e de que vos quero citar uma passagem:
“Na ocasião da reabertura do Noviciado nessa antiga Província, após uma longa supressão, sinto grande alegria ao verificar como o Nosso Santo Fundador nos abençoa e quer voltar triunfante com os seus Filhos a Portugal. Permita ele que estes alicerces que agora lançais com a abertura do Noviciado sejam fundamentos sólidos para construir sobre eles a verdadeira vida dominicana e a plena restauração duma tão gloriosa Província da Ordem.”
Podemos nós desejar um incitamento mais eficaz? Que estes elevados pensamentos do Rev.mo Padre Geral nos animem e estimulem à realização dos seus desejos que o mesmo é dizer à realização da nossa vocação: “a verdadeira vida dominicana e a restauração duma tão gloriosa Província da Ordem”.
Quero aqui exprimir ao Rev.mo Padre Geral o meu mui vivo reconhecimento por tudo quanto fez, em tão pouco tempo, em favor do Vicariato de Portugal e especialmente pela reabertura do nosso Noviciado. Exprimo também a esperança de que a nossa vida e as nossas obras o recompensarão de tanta solicitude a nosso respeito.
Como Vigário do Rev.mo Padre Geral, tenho a faculdade de ordenar, como imperada, uma oração à missa. E assim, para agradecermos a Deus por nos ter abençoado, diremos a todas as missas, excepto nas festas de 1ª classe, as orações da missa votiva: Pro gratiis Deo reddendis de beneficiis acceptis, observando todavia as rubricas sobre as orações imperadas. Havereis de começar a dizer esta oração imperada a partir da recepção desta carta e continuareis a dizê-la até ao dia 1 de Fevereiro.
Continuemos ainda a merecer que os recrutamentos se tornem numerosos, afim de que dentro de alguns anos – tenhamos essa esperança – possamos dar mais um passo em frente organizando o nosso colégio de Filosofia.
Na satisfação do que já está realizado e com a esperança de novos progressos, asseguro-vos dos meus melhores sentimentos e rogo que me creiais
Vosso religiosamente dedicado em S. D.
Fr. Pio M. Gaudralt, O.P.
Vigário Geral





quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Santos Arcanjos Miguel, Gabriel, Rafael

Conta-se por aí que um dia um pároco mandou pintar na sua igreja uns anjos. Quando a obra estava quase pronta foi ver o que o pintor tinha pintado e para grande surpresa sua descobriu uns anjos com tamancos. Não eram propriamente o que estava à espera e destoavam da forma como sempre tinham sido representados.
Questionando os critérios do pintor perguntou-lhe pela raridade do detalhe, ao que o pintor retorquiu perguntando se já tinha visto algum anjo alguma vez. Face à resposta negativa do padre, o pintor extravagante concluiu que então não havia razão nenhuma para não serem pintados de tamancos. Era apenas um detalhe que ninguém podia confirmar ou negar.
E de facto nenhum de nós pode confirmar as possibilidades de representação ou figuração daqueles que são puros espíritos, puros seres espirituais; bem pelo contrário, poderemos afirmar a distância e des-semelhança, na medida em que esses seres espirituais se nos apresentam como mensageiros, como uma realidade em acção, uma “performance” do próprio Deus.
Os próprios nomes dos Arcanjos nos colocam nessa transitoriedade da acção e assim Rafael é aquele que se nos apresenta como “medicina de Deus”, Gabriel como “fortaleza de Deus” e Miguel como “quem como Deus”.
Neste sentido, os Santos Arcanjos que celebramos neste dia colocam-nos também a nós e inevitavelmente perante a mesma realidade da transitoriedade, da acção que conduz ao cumprimento de uma mensagem. Também nós somos chamados a ser anjos de Deus, a levar a cabo e desenvolver uma missão de mensageiros.
Tal como Rafael e à sua semelhança, Deus convida-nos a procurar ser remédio na vida dos outros, daqueles que sofrem, que estão sozinhos ou abandonados, daqueles que também estão cegos pelo seu egoísmo e desespero. É uma missão divina que nos cabe.
Com Gabriel somos convidados a mostrar a fortaleza de Deus, a alegria que deriva da confiança de que Ele está do nosso lado, somos convidados a mostrar que com Deus é possível vencer os desafios que se nos apresentam e por vezes nos parecem intransponíveis ou invencíveis.
Com o Arcanjo Miguel descobrimos que não há outra resposta para as nossas questões senão Deus, que nele encontramos a verdade do nosso ser, do ser dos outros que partilham a nossa vida e a verdade da vida que nos conduz como leito de um rio até desaguar nesse mar que é o mesmo Deus.
Por intercessão dos Santos Arcanjos, que contemplam Deus face a face a apresentam o louvor que lhe é devido, peçamos ao Senhor que nos conforme à missão a que nos chama em cada momento, de modo a sermos homens e mulheres, de fé, de caridade e de esperança, outros Miguel, Rafael e Gabriel.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

São Domingos Ibañez de Erquicia, Mártir Dominicano do Japão

São Domingos Ibañez nasceu em Régil, no País Basco, em Fevereiro de 1589 e professou no Convento de São Telmo da cidade de San Sebastian.
Depois da formação inicial em Espanha chega às ilhas Filipinas em 1611 com apenas 23 anos de idade. Dez anos mais tarde, em 1621, e depois de ter exercido o ministério missionário e de pregação nos arredores de Manila, é assignado como professor de teologia ao Convento de São Domingos de Manila.
Em Maio de 1623, juntamente com outros três dominicanos, frei Lucas del Espírito Santo, frei Diego de Rivera, e frei Luís Exarch Beltrán, e mais alguns religiosos franciscanos e agostinhos, parte para o Japão, onde se encontrava clandestino o padre frei Domingos Castellet e onde no início desse mesmo ano tinha caído nas mãos dos perseguidores o padre frei Pedro Vasquez.
Diante da proibição do Shogun Hidetada à entrada de estrangeiros e nomeadamente de missionários religiosos provenientes das Filipinas, frei Domingos arrisca a clandestinidade, escondendo-se durante o dia, trajando como os mais pobres e saindo apenas à noite para confortar os cristãos perseguidos. Durante este tempo vive da caridade dos poucos cristãos que se mantém fiéis e de alguma ajuda que lhe chega através dos portugueses vindos de Macau.
Em 1625 frei Domingos Ibañez é nomeado Vigário Provincial do Japão, cargo que passados dois anos entregou ao padre frei Domingos Castellet, mas que volta a assumir em 1629 depois do martírio do padre Castellet no ano de 1628. As tarefas não eram fáceis e sobretudo depois do martírio em 1627 do padre frei Luís Exarch que tinha vindo consigo para aquela missão arriscada.
Convencido de que na cidade de Edo, actual Tóquio, os decretos contra os cristãos eram menos violentos, frei Domingos refugia-se ali. Contudo, a subida ao poder do shogun Takenaka Uneme alterou a situação e assim o clima de terror e de pânico acentuou-se vindo a morrer no ano de 1630 por execução 316 cristãos. Este foi o ano mais cruel.
Tendo escapado de várias armadilhas e tentativas de prisão o padre frei Domingos Ibañez passa a encabeçar a lista oficial dos cristãos a prender e a abater.
Detido em 1633 com outros oito cristãos foi persuadido a renegar a fé cristã, mas face à sua fé e inquebrável convicção foi sujeito ao martírio através da “ana-tsurushi”, uma espécie de enforcamento conjunto com afogamento. Frei Domingos Ibañez de Erquicia aguentou o suplício durante trinta horas, após o que entregou a sua alma ao criador aos 19 de Agosto.
Naquela que ele mesmo considera ser possivelmente a sua última carta ao pai escreve: “Entro agora no maior perigo da perseguição, já pressinto que esta será a última carta que eu mesmo escreverei. Preparemo-nos pois, meu queridíssimo pai, para nos encontrarmos no céu para sempre não temendo já nenhuma separação. Não tenhamos inquietação acerca deste mundo, que é para nós um exílio e nos separa de Deus, que é todo o nosso bem”.
Que a fé e a coragem de São Domingos Ibañez de Erquicia nos impulsione a relativizar também este mundo face ao bem que é Deus e a sua visão eterna.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Primeira Carta como Vigário Geral do Padre Pio M. Gaudrault

Esta é a primeira carta que o recém instituído Vigário Geral para Portugal, frei Pio M. Gaudrault, canadiano, escreve aos frades portugueses. Nela perpassa a humildade face à tarefa mas também o desejo de a levar a bom termo.

Reverendíssimos Padre e Amadíssimos Irmãos:
O meu primeiro acto como Vigário Geral é pôr à vossa disposição, à disposição de todos e de cada religioso da Vigararia e das suas obras, a minha plena e inteira boa vontade e o meu afecto fraternal.
Venho a vós como um irmão, não como Canadiano, mas como Dominicano, Sou já um de vós, ansioso por trabalhar convosco numa grande obra – in anima una et corde uno.
Haverá, sem dúvida, dificuldades a superar. Todas as grandes obras estão semeadas de dificuldades. Mas elas serão precisamente o sinal de que Deus estará connosco, e de nós estaremos de todo o coração com Ele.
Obliviscens quae sunt retro, entregar-me-ei por completo a esta minha nova tarefa Àquele que é alma, o fim e o tudo da nossa vocação dominicana.
Gozar ou sofrer não são a última palavra do destino humano, sobretudo do destino religioso, mas sim agir afim de que no dia seguinte se realize mais e melhor do que na véspera, sob o olhar d’Aquele que nos reconforta e nos encaminha, que é o fim e a glória do nosso destino humano.
Depois de uma breve visita às casas de Lisboa, da Escola Apostólica e do Porto, irei ao Canadá para voltar com dois companheiros, dois Irmãos de Apostolado, para fins de Setembro. Nessa ocasião farei visitas mais demoradas e tomarei melhor conhecimento de todos vós, de todas as vossas obras, da Obra comum que está realizada.
Durante a minha ausência serei substituído por um Vigário. Designá-lo-ei em breve, e sereis disso informados.
Conto, portanto, Revmºs Padres e amadíssimos Irmãos, com a vossa generosa aceitação da minha pessoa, com a vossa submissão e com a vossa colaboração na mais bela caridade fraterna.
Pus o meu apostolado sob a especial protecção de Nª. Sª. de Fátima. De resto já tinha colocado sob o seu patrocínio uma nova casa que fundei em Montréal (Canadá) em 1945.
Tenho a agradecer-vos do fundo do meu coração o acolhimento tão fraternal e bondoso com que fui recebido entre vós. Comoveu-me profundamente, e expresso-vos por isso o meu profundo reconhecimento.
Não quero tardar em lançar sobre vós a minha mais afectuosa bênção.
Recebei, Revmºs Padres e amadíssimos Irmãos, a expressão do meu mais religioso afecto em N.P.S. Domingos.

Fr. Pio M.Gaudrault, O.P.
Vigário Geral
Lisboa, 09 de Julho de 1948
Festa de S. João de Gorgum e seus companheiros MM.





NORMAS PARA A ADMISSÃO AO SEMINÁRIO APOSTÓLICO DOMINICANO

Se ontem apresentávamos o texto do prospecto vocacional dominicano para o Seminário Apostólico de Aldeia Nova, é justo que apresentemos as normas de admissão que também o constituíam. As duas partes formam um todo e mostram como para além da paixão, do entusiasmo, existiam a responsabilidade e o cuidado, uma grande dose de verdade e consciência face às circunstâncias.
Hoje o Seminário já não existe e as normas de admissão são bastante diferentes, uma vez que a totalidade das vocações é já de idade adulta. Contudo continuamos animados do mesmo espírito, da mesma paixão pela Palavra e pela pregação, e do mesmo rigor na admissão de candidatos. A Palavra de Deus e a vida dos vocacionados é demasiado importante para nos darmos ao luxo do desperdício e dos equívocos.

NORMAS PARA A ADMISSÃO DOS ALUNOS NO SEMINÁRIO APOSTÓLICO DOMINICANO

I – Natureza e fim do Seminário Apostólico
1 – O Seminário Apostólico ou Escola Apostólica é o Seminário menor da Ordem de S. Domingos onde os alunos recebem a sua formação de preparatórios e estudam a sua vocação religiosa.
2 – A vocação dominicana difere essencialmente da vocação para um Seminário diocesano. Pois o candidato deve vir animado do desejo de praticar aquilo que mais tarde há-de constituir a essência da sua vida religiosa, i. é, os três votos de pobreza, castidade e obediência:
3 – A vida religiosa, a que se destinam os candidatos da nossa Escola Apostólica, é uma vida de renúncia e sacrifício: Trabalhar só para Deus e do modo que Deus determinar pelos superiores. Os candidatos não podem, portanto, entrar para a Escola Apostólica com o fim de se dedicarem exclusivamente a tal ou tal género de actividade.
4 – O fim especial da Ordem dominicana é trabalhar ao serviço de Deus e da Santa Igreja sobretudo no ministério da pregação do ensino quer no Continente quer nas Missões.

II –O nosso critério na escolha dos alunos
5 – Para realizar este fim é necessária uma vocação especial, e nem todos os alunos que se apresentam possuem as qualidades requeridas: temos pois que operar entre eles uma selecção rigorosa.
6 – Para que as consequências desta selecção não melindrem aqueles que nos pedem admissão de algum aluno, julgamos conveniente lembrar o critério que o grande Pontífice Pio XI indicava aos superiores eclesiásticos:
“Assim como os superiores devem com toda a dedicação cultivar e fortalecer a vocação divina, assim também devem com não menor zelo afastar a tempo de um caminho que não é o seu, os jovens que, vejam desprovidos das qualidades necessárias e que prevejam serem inaptos para exercerem digna e honrosamente o ministério sacerdotal… e isto sem nenhuma consideração humana, sem essa falsa misericórdia que seria verdadeiramente crueldade não só para com a Igreja a quem dariam um ministro incapaz ou indigno, mas até para com o próprio jovem, que ficaria exposto a tornar-se uma pedra de escândalo para si e para os outros com perigo da sua salvação”.
7 – Se este rigor é necessário na escolha dos simples candidatos ao Seminário, quando mais necessário não será para aqueles que aspiram a uma vida mais perfeita, como é a vida religiosa.

III – Instruções aos Párocos e a quaisquer outras pessoas que desejam encaminhar jovens para o nosso Seminário.
8 – Não admitimos jovens com menos de 10 anos completos ou a completar brevemente, nem com mais de 14 a não ser que tenham já algum curso secundário ou reúnam qualidades que segundo o juízo do pároco, justifiquem excepção.
9 – Não admitimos filhos ilegítimos.
10 – Não admitimos jovens com doenças hereditárias ou qualquer tara, ou sejam necessários aos pais ou avós.
11 – Não admitimos jovens que não venham movidos do desejo sincero de se consagrar a Deus na vida sacerdotal e religiosa dominicana.
12 – Só procederemos à admissão de qualquer jovem depois do pároco ou outro sacerdote, idóneo para o efeito, nos ter enviado uma declaração em que se nos informe convenientemente sobre os seguintes pontos: a honestidade, reputação moral e social da família – consentimento em que seu filho seja sacerdote para ser todo de Deus e não por fins meramente terrenos, saúde, taras ou doenças contagiosas que haja na família (por exemplo: tuberculose, loucuras, epilepsia, histeria, imbecilidade, tendências para a imoralidade, furto, etc. – se os pais vivem ou já morreram e se de doença grave – facilidades em ajudarem nas despesas durante os primeiros 5 anos – sinais de vocação, piedade, índole, e demais aptidões do candidato, quer morais, quer intelectuais, quer físicas.

IV – Condições de admissão
13 – A Escola Apostólica é absolutamente pobre e não pode suportar o encargo das despesas totais dos alunos.
14 – Considerando que a maioria dos alunos não perseveram e que, portanto, a admissão gratuita seria um pesadíssimo encargo inútil para a Ordem, além de abrir a porta a graves abusos, e atendendo a que os pais compreensivos reconhecem ser moralmente um dever colaborar connosco materialmente, conforme as suas possibilidades, na formação dos seus filhos a quem Deus haja concedido a graça da vocação, estabelecemos as seguintes normas:
a) A pensão é constituída pela mensalidade de 200$00 paga por trimestre e sendo possível no princípio do mesmo.
b) A pensão será paga por si ou por outra pessoa que fique como benfeitora.
c) Quem não puder pagar toda a mensalidade deve entender-se com o Director da Escola por intermédio do pároco ou outro sacerdote idóneo para este efeito.
d) No princípio de cada ano cada aluno pagará 150$00 para a lavadeira, tratamentos médicos ordinários, propina e matrícula.
e) Além disso correm por conta dos próprios as despesas referentes a livros, objectos escolares e quaisquer outros extraordinários.

Observações – Não devem os pais admirar-se de exigirmos uma pensão dos alunos: somos absolutamente pobres, vivemos de esmolas; além disso a grande maioria dos alunos, depois de alguns anos de formação na nossa Escola, voltam para o seio das suas famílias constituindo para estas um benefício de que não somos recompensados. E se nós pedimos a todos os fiéis as suas esmolas para a formação dos nossos alunos, essas esmolas são um dever de justiça para os pais dos alunos que podem dá-las. Nós gastamos a média de 4.000$00 anuais com cada aluno, por isso os Rev.mos Párocos e os Pais devem indicar-nos a maior mensalidade que podem pagar. Neste ponto ninguém deve pedir favores nem nós os podemos fazer, porque seria roubar o lugar a outros mais pobrezinhos e talvez melhores. O pagamento das diferentes propinas só é exigido enquanto os alunos não resolvem definitivamente a sua entrada na Ordem pela Tomada de Hábito.

V – Exame de Admissão
15 – Qualquer candidato que pretende ser admitido no 1º ano tem de ser submetido a um exame de admissão prévio, em dia e lugar designados pelo Director depois de recebido o requerimento de admissão. O exame versará sobre as matérias da 4ª classe e do programa da Comunhão Solene.
16 – Quando o candidato já tiver frequentado algum curso secundário poderá ser submetido a provas sobre as matérias estudadas, se o Director o julgar conveniente.

VI – Documentos (a enviar para o Director do Seminário)
17 – Os jovens que pretenderem ser admitidos na nossa Escola Apostólica ou Seminário Apostólico devem enviar ao Rev.mo Padre Director um requerimento assinado por si próprios e concebido nos seguintes termos: Rev.mo Senhor Padre Director do Seminário Apostólico Dominicano: Eu, abaixo assinado, filho legitimo de... e de..., natural da freguesia de..., concelho de..., diocese de…, sentindo desejo de abraçar a vida sacerdotal e religiosa na Ordem de S. Domingos, e tendo já o exame de segundo grau e as demais condições requeridas, peço a V. Rev.ª se digne admitir-me como aluno desse Seminário. (Data e assinatura)
18 – Junto com o requerimento deve vir a declaração do Pároco, informando como fica indicado no nº 12.
19 – Se o requerimento for deferido o aluno receberá aviso do dia e lugar em que deve comparecer para o exame indicado nestas normas. Deverá então trazer consigo:
1º Certidão de Baptismo e do Crisma (se já o tiver recebido).
2º Certificado do exame de segundo grau ou de outros exames de ensino secundário.
3º Uma declaração do Pai, Mãe ou tutor, reconhecida pelo Rev.mo Pároco ou por notário e concebida nos seguintes termos: Eu, abaixo-assinado, declaro que não oponho obstáculos a que meu filho (nome)..., entre na Escola Apostólica Dominicana e nela siga a vocação sacerdotal e religiosa da Ordem de S. Domingos. Comprometo-me também a pagar a mensalidade que lhe for indicada e a recebê-lo de novo se por qualquer motivo ele não quiser ou não puder seguir. (Data e assinatura reconhecida)
20 – Se o aluno for aprovado no exame receberá o documento da sua admissão com a indicação do dia em que deve entrar e do nº que lhe for designado e com o qual poderá marcar o seu enxoval.

VII – Enxoval
21 – Os candidatos deverão trazer o seguinte enxoval: 4 camisas, 4 camisolas, 4 ceroulas, ou cuecas, 8 pares de meias, 10 lenços, 4 guardanapos, 4 toalhas de rosto, 4 lençóis, 4 travesseiros, 4 travesseiras, 2 ou 3 cobertores, 1 coberta branca, 2 fatos (um bom, outro para uso ordinário), 1 boina preta, 2 gravatas, 1 par de botas ou sapatos bons, 1 par de botas ou sapatos fortes, 1 escova de fato, calçado e dentes, 1 copo, 2 pentes (um grande e um pequeno), 1 bolsa pequena para estes objectos, 1 ou 2 bolsas grandes para a roupa que servirão também para a roupa suja. Quem quiser pode trazer mais peças de roupa que as indicadas nesta lista. 22 – Os alunos deverão possuir 2 blusas ou guarda-pós pretos que podem trazer de casa ou ser feitos no Seminário, O fato para uso diário pode ser de cotim escuro. Fica ao critério da família de cada aluno a roupa exterior de agasalho.

NOTA IMPORTANTE
Rogamos a todas as pessoas, religiosos, Irmãs ou Irmãos Terceiros que encaminhem jovens para o nosso Seminário, como já é costume, procurem que toda a documentação referente à admissão chegue à Secretaria do Seminário por intermédio dos Reverendos Párocos dos candidatos.



Notícia no Canadá sobre a nomeação do Padre Sylvain


No dia 11 de Março de 1962 era restaurada a Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores. Para governar e conduzir a Província foi nomeado Prior Provincial o dominicano de origem canadiana, e há muitos anos a trabalhar em Portugal, frei Louis-Marie Sylvain.
Dois meses depois, Maio de 1962, a revista “Temoins”, pequena publicação de carácter vocacional da Província Dominicana do Canadá, dava na última página desse número a notícia do sucedido.
Apresentamos a notícia e a imagem da página da revista no âmbito da divulgação dos documentos que ajudam a fazer a história recente da Província Dominicana Portuguesa.

O Primeiro Provincial de Portugal é um Québecois
Os Canadianos no estrangeiro foram muitas vezes apontados para nomeações de lugares importantes que nos fazem lastimar de não poder contar com eles junto de nós, mas que, pelo contrário, asseguram a presença do nosso país no plano internacional.
É dessa forma que um québequense, o Muito Reverendo Padre Louis-Marie Sylvain, O.P., acaba de ser nomeado primeiro superior da província dominicana de Portugal, que as guerras religiosas tinham desmantelado e que acaba de ser restaurada no 11 de Março passado.
O Padre Sylvain, que tínhamos particularmente apreciado quando foi Padre Mestre dos Irmãos Estudantes, depois pároco da paróquia de São João Baptista, junto dos Dominicanos de Otawa, vive em Portugal desde há uma quinzena de anos. Ele foi do primeiro grupo de religiosos que o Canadá enviou para esse país para ajudar à restauração duma província que conheceu no passado uma glória considerável.
O restabelecimento deste núcleo religioso era uma tarefa tanto mais árdua quanto as vocações eram pouco numerosas e as finanças estavam absolutamente esgotadas. Graças aos esforços conjugados dos religiosos portugueses e dos canadianos vindos para dar uma mão forte, graças também ao socorro pecuniário da população católica do Canadá e dos Estados Unidos, foi possível sustentar um crescimento do qual vemos hoje os frutos.
Durante alguns anos ainda os seis religiosos canadianos que participam presentemente na reedificação da nova Província continuarão em Portugal para ajudar os seus irmãos. Esta obra conjunta, de que o Padre Sylvain terá sido um dos principais artesãos, é um exemplo de solidariedade internacional e humilde entrega.

Os Samaritanos não quiseram receber Jesus (Lc 9,51-56)

Aproximando-se os dias da sua passagem para o Pai, Jesus assume corajosamente o caminho para Jerusalém, para o fim trágico que o espera. E não querendo perder tempo assume atravessar a região da Samaria.
Não podemos estranhar que os samaritanos não o tivessem recebido, que se tivessem recusado a dar-lhe acolhimento, ainda que fosse um mestre, alguém certamente até conhecido de alguns deles.
O facto de Jesus se dirigir a Jerusalém acarreta por si só incompatibilidades e razões para essa recusa, pois Jesus não só se dirige à capital dos irmãos inimigos, como se dirige ao templo, a esse lugar concorrente com o santuário que os samaritanos também tinham no monte Garizim. Que necessidade havia de subir a Jerusalém para o culto se também ali se podia prestar culto ao mesmo Deus?
É perante esta recusa que Tiago e João perguntam a Jesus se deseja que enviem fogo sobre aquela povoação, se deseja uma vingança face à afronta sofrida por parte daqueles samaritanos. Tiago e João trazem à memória esse mesmo fogo que um dia o profeta Elias tinha feito descer do céu sobre os solados do rei Acazias (2 Rs 1,10-14).
Este pedido de Tiago e João, corroborado certamente pelos outros discípulos, mostra como estão profundamente imbuídos de um desejo de poder, como se encontram profundamente imersos numa concepção humana do Reino de que Jesus fala, como se deixam vencer pelos sentimentos mais baixos e distantes daquilo que o Mestre ensina.
Tiago e João, bem como os outros discípulos, mostram por esta reacção como se encontram ainda bem longe da compreensão dos ensinamentos de Jesus, como há ainda uma caminhada a fazer para que possam olhar de frente o outro como um irmão e não como um inimigo a abater.
Face a tal proposta, Jesus não só seguiu em frente, procurando outra povoação que os acolhesse, como repreendeu fortemente os dois discípulos pelo desejado. Não era isso que ele desejava, e se em algum momento tinha dito que desejava que o fogo do céu se espalhasse pela terra e de uma forma violenta, não era neste sentido de castigo ou vingança. Esse fogo divino era o Espírito Santo e desejava que se espalhasse violentamente no sentido de força de conversão, de capacidade de alteração de vida e princípios, de motor de implantação do mandamento do amor.
Também nós em muitas situações, face a muitas realidades que nos abalam as certezas, as convicções, que nos questionam, pensamos e aspiramos a uma força que nos elimine da frente o que nos provoca e questiona. Face a algumas afrontas desejamos a vingança. Removemo-nos nos nossos sentimentos mais baixos e mesquinhos, no nosso orgulho ferido, esquecendo-nos que nada aí encontraremos que nos ajude a dar um passo em frente, a fazer a verdadeira alteração, a encontrar a resposta.
Necessitamos por isso de pedir ao Senhor que nos envie o fogo do céu, não sobre os outros, mas sobre nós próprios, para que nos possamos encontrar com essa força que nos altera e nos converte, que pode implementar em nós o verdadeiro exercício do mandamento do amor.



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Campanha Vocacional Dominicana dos anos 60

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, mudam-se as campanhas publicitárias e de divulgação, mas as necessidades são as mesmas, ou até bem mais prementes hoje que naqueles anos sessenta, em que os seminários ainda se enchiam de jovens e crianças cheios de sonhos e aspirações sacerdotais e religiosas.
É dessa época o material de divulgação do Seminário Apostólico Dominicano que hoje apresentamos como mais um documento histórico da Província. Para os mais novos é um documento raro e desconhecido, não conheço mais nenhum exemplar para além daquele de que me sirvo, mas para os mais velhos é certamente uma boa recordação, um regressar a um amor primeiro.
Transcrevo o texto para mais fácil leitura e para que, ainda que passados mais de quarentas anos e o texto possua já uma certa “patine”, possa fazer sonhar alguém, possa despertar algum desejo secreto ou desconhecido.

Que serei eu?
Que serei eu no dia de amanhã?
Perguntaste a ti mesmo, certamente, muitas vezes, caro jovem. Que serei eu?...
E respondeste: Serei advogado, engenheiro, médico, professor, comerciante, militar, mecânico, lavrador, trabalhador do campo, operário, motorista ou futebolista...
Mas pensaste que podes ser muito mais que isso?
Tu podes ser sacerdote – Podes ser religioso. Dominicano. Missionário. Apóstolo. Pregador.
Quando perguntares a ti mesmo: «que serei eu no dia de amanha?» podes dizer: Posso ser dominicano. Eu serei dominicano. Serei dominicano. O meu grande sonho: Ser Frade Pregador. Ser sacerdote!
Sublime dignidade. Serás outro Cristo. Terás em tuas mãos o próprio Deus a Quem oferecerás o pão e o vinho consagrado e transformado por tuas próprias palavras no Corpo e no Sangue de Jesus para O receberes e dares aos outros para a vida eterna.
Pede a tua admissão no Seminário dos Padres Dominicanos. Vem para dizeres como outros jovens: QUERO SER DOMINICANO!
Sou jovem e, como jovem, sinto arder na minha alma a chama dum ideal sublime e belo – o ideal de vir a ser um dia sacerdote e religioso dominicano. Ser sacerdote é ser na terra outro Cristo – Salvador e Redentor dos homens, luz no meio do mundo como Jesus. Ser religioso é viver na terra o ideal sublime da perfeição evangélica que Jesus aconselhou ao jovem rico quando lhe disse: se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e depois vem e segue-me. É viver no mundo em perfeito holocausto de louvor e homenagem à glória de Deus, totalmente consagrado ao Seu Serviço, renunciar a tudo e a nós mesmos, é ser até à morte uma hóstia viva pelos votos de pobreza, obediência e castidade. Cristo foi na terra o Religioso por excelência que tributou ao Pai o louvor de uma glória perfeita. Depois de Jesus ninguém como Maria viveu tão perfeitamente consagrado a Deus.
Quero ser religioso para assim imitar a Cristo e à Virgem. Ser dominicano é reproduzir na terra as virtudes de Domingos de Gusmão e assimilar o espírito da sua Ordem. É tornar-se imagem perfeita do próprio Jesus, como Domingos, é ser filho predilecto da Virgem do Rosário, é ser arauto do Verbo de Deus, é ser um Querubim na contemplação do Deus três vezes santo, é ser Apóstolo que, como Domingos de Gusmão, se enche de Deus, Verdade e Amor infinitos, é irradiar e infundir nas almas a Luz da Verdade divina e o fogo do Amor divino. Eu quero «ser sacerdote e religioso dominicano, para, como S. Domingos, salvar muitas almas.
Por, este ideal deixei a casa de meus pais, a minha aldeia e entrei no Seminário Apostólico Dominicano. Vem que serás dominicano. Serás do número dos Filhos de S. Domingos de Gusmão de cujos feitos se escreveu o seguinte: «Todas as praias conservam os vestígios do seu sangue; todos os ventos o eco da sua voz. O índio, perseguido como animal selvagem, encontra um asilo debaixo do seu escapulário branco; o preto leva na fronte o sinal de um beijo amoroso; o chinês, o japonês, o timorense, separados do resto da terra mais por seus costumes que pelas distâncias, sentaram-se a escutar esses estrangeiros admiráveis… O Ganges contemplou-os a comunicar aos párias a sabedoria divina; as ruínas de Babilónia emprestaram-lhe uma pedra para repousar uns momentos e pensar, enquanto nos dias antigos enxugavam a sua fronte. Que desertos ou que bosques lhes são desconhecidos? Que línguas não falaram? Que chaga corporal ou espiritual não curaram? Verdadeiramente em toda a terra soou a sua voz e até aos confins do mundo chegou a sua palavra de Apóstolos e Missionários.

VEM E VIVERÁS… Sob a protecção de Maria
A vocação dominicana nasce, aperfeiçoa-se e confirma-se sob a protecção de Maria, Rainha do Rosário. A Ordem Dominicana foi, desde o princípio, objecto de uma protecção muito especial da Santíssima Virgem. Assim o creram os primeiros religiosos que foram testemunhas dos favores singulares da Mãe do Céu, e a história mostra por mais de uma vez que essa crença era fundada. Os primeiros religiosos chamavam à Santíssima Virgem Fundadora, Protectora, Abadessa, Advogada da Ordem. A Ela atribuem a própria fundação da Ordem; e de certo, foi nas longas horas de oração, na capelinha de Nossa Senhora de Prouille, durante os dez anos de apostolado contra os Albigenses, que S. Domingos concebeu a ideia de uma Ordem de apóstolos cuja arma favorita havia de ser o Rosário de Maria. O próprio escapulário, parte principal do hábito dominicano, foi mostrado pela Virgem ao Beato Reginaldo.
“Domingos, o meu filho bem amado, foi uma luz que dei ao mundo por intermédio de Maria. Por intermédio de Maria, disse, e porquê? Porque foi Maria que lhe deu o hábito. A Ela, a minha bondade, confiou este encargo”. (O Eterno Pai a Santa Catarina de Sena) A história primitiva da Ordem (Vida dos Irmãos, III, 25) conta os diversos, testemunhos de carinho da Santíssima Virgem para com os religiosos que Ela chamava da sua Ordem. Algumas vezes de noite, enquanto os irmãos repousavam, Nossa Senhora percorria os dormitórios acompanhada por outros santos e abençoava os religiosos aspergindo-os com água benta.
Caro jovem, que desejas ser dominicano, vens para o nosso Seminário Apostólico e entrega a tua vocação a Maria. Sob a sua protecção serás fiel e tornar-te-ás Apóstolo de Cristo, como Domingos de Gusmão.
Dirigi o vosso pedido de admissão para a seguinte direcção
Padre Director do Seminário Apostólico Dominicano
ALDEIA NOVA – OLIVAL NORTE 4



Ele não anda connosco! (Lc 9,49)

Os discípulos de Jesus encontraram-se com um judeu que, não sendo do grupo, expulsava os demónios em nome de Jesus. Tentaram impedi-lo, pois consideravam que não pertencendo ao grupo, não privando com Jesus, não tinha esse direito ou esse poder.
Podemos questionar-nos sobre as razões mais íntimas que presidiram a este gesto e à própria crítica junto de Jesus. Não estariam os discípulos a colocar-se num patamar superior? Num clube de exclusividade? Não estariam infectados dum desejo de partidarismo?
Ou por outro lado, não é esta queixa junto de Jesus uma manifestação de inveja, de um certo ressentimento porque aquele homem expulsava os demónios e eles quando enviados por Jesus não foram capazes de os expulsar? Quando se queixaram a Jesus de tal incapacidade foi-lhes dito que era necessária muita oração para enfrentar tais desafios.
Jesus conhecia os sentimentos dos seus amigos e sabia como pouco antes tinham discutido entre si sobre a superioridade de uns sobre os outros, ao ponto de Jesus colocar uma criança no meio deles para lhes mostrar qual a verdadeira superioridade no contexto do Reino que tinham sido convidados a partilhar e construir.
Neste sentido Jesus não entra na discussão, não conforta os discípulos no seu ego ofendido ou diminuído, mas coloca-os perante a realidade fundamental da unidade e da relação com ele. De facto só quem o conhece, só quem mantém alguma relação com ele, pode invocar o seu nome e combater os demónios em seu nome. Não há possibilidade de charlatanismo ou equivocação na utilização do seu nome.
E depois, quem invoca o seu nome ou age em seu nome está de alguma forma em sintonia, está a favor do grupo, contribui para a construção do Reino, que inevitavelmente tem inimigos e inimigos declarados. Há assim que saber os que contribuem para a construção do Reino e os que o combatem, porque destes há que defender-se e saber lutar contra.
São Paulo, que experimentou na carne, e até de uma forma mais intensa, esta mesma situação declara aos Filipenses que tudo lhe serve de alegria e consolação desde que o nome de Jesus seja anunciado, seja dado a conhecer. “Mas que me importa? Desde que, de qualquer modo, com segundas intenções ou com verdade, Cristo seja anunciado. É com isso que me alegro” (Fl 1,18).
Esta é de facto a grande questão, a questão que a todos nos deve preocupar, dar a conhecer o nome de Jesus, o mistério do nosso Salvador. E neste sentido não só devemos cuidar o testemunho que damos, a forma como anunciamos, mas também e antes de mais a relação de intimidade que mantemos, para que o nosso testemunho mais que credível seja verdadeiro e poderoso, até ao ponto de expulsar os demónios, sejam eles quais sejam.



domingo, 25 de setembro de 2011

Homilia do XXVI Domingo do Tempo Comum

Ao contrário do que habitualmente acontece em outras ocasiões, na leitura do Evangelho que escutámos, é Jesus que coloca uma questão aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Não é uma armadilha, como estes, juntamente com os fariseus, costumavam praticar com ele, é uma pergunta simples, concreta, face a um comportamento que pode passar perfeitamente à margem de qualquer juízo moral.
E isto porque qualquer resposta positiva ou negativa, qualquer sim ou qualquer não, é condicionado por várias circunstâncias e muitas vezes o sentido da resposta ou compromisso pode alterar-se em virtude da alteração das condições e circunstâncias.
Podemos responder positivamente a um pedido porque nos agrada o solicitado, porque vislumbramos uma maneira de nos satisfazermos na nossa imagem pessoal, ou até na nossa imagem social, porque no momento pode ser a forma mais fácil de nos libertarmos de uma impertinência.
Por outro lado podemos responder negativamente porque nos sentimos cansados ou sem forças, porque não vemos sentido para o que se nos pediu, porque nos desagrada a companhia das pessoas com quem temos de realizar a tarefa pedida. Há todo um conjunto de condicionantes às respostas que damos, algumas delas até bastante profundas e que interferem com a nossa personalidade, com a nossa concepção de pessoas e de vida.
Contudo, e como também já verificámos na nossa vida, nenhuma resposta é definitiva ou irrevogável, e tal como o filho, que respondeu negativamente ao pai. podemos mudar a nossa resposta através da implicação na tarefa solicitada. Podemos como nos convida Jesus converter-nos, alterar o rumo das nossas decisões e as implicações inerentes.
Este processo, esta alteração, que acontece muitas vezes em função de um desejo momentâneo, ou de uma faísca de consciência ou paixão, exige por um lado um esforço, um exercício continuado e por outro um entusiasmo assente na verdadeira acepção da palavra.
Assim, não podemos querer uma transformação momentânea, uma revolução instantânea, como aconteceu com um frade amigo que depois de professar solenemente se interrogava porque não tinha ficado livre de alguns desejos menos consentâneos com o assumido livre e responsavelmente. De facto, o seu compromisso, o seu sim exigia, como exigem todos os nossos sins, um exercício, uma prática cuidada, uma resposta que se perpetua no tempo e não se limita àquele exacto momento, uma actualização que tem muito de conversão e empenhamento.
Usando uma metáfora, podemos dizer que recebemos uma daquelas arcas ou escrivaninhas que as nossas avós sempre cuidaram, limpando, encerando, protegendo-a dos nossos pontapés de miúdos traquinas. Para que em nossa casa e connosco não se encha de caruncho, mas se mantenha bonita como sempre a gostámos de ver, temos que continuar a limpá-la, a encerá-la e a cuidá-la todos os dias. Assim o mesmo com os nossos compromissos e as nossas respostas
Não é tarefa fácil, razão pela qual muitas vezes os nossos sins se convertem em nãos, ou pelo menos ficam em banho-maria, aguardando melhores momentos, circunstâncias mais oportunas ou favoráveis. É neste momento que entra ou deve entrar o entusiasmo, um sentimento que não se resume a mera fruição da obra a realizar ou satisfação pelo fim a alcançar.
Tendo em conta que na sua raiz grega entusiasmo significa com Deus (en theo), quando colocamos entusiasmo nas nossas opções, nas nossas decisões, estamos a colocar Deus pelo meio, a implicá-lo e a implicar-nos na concretização da resposta dada e a alcançar na sua plenitude e finalidade. E neste sentido, uma vez mais, não podemos deixar de estar abertos à colaboração de Deus, receptivos aos dons e às orientações que Deus nos dá e nos podem levar até muito mais longe do que suspeitávamos ou sonhávamos.
Deus está do nosso lado, está aberto à possibilidade de alteração dos nossos compromissos e decisões, considera a nossa liberdade e está atento para que nas nossas opções de justiça e de vida não sejamos confundidos. Por essa razão São Paulo nos apresenta na Carta aos Filipenses o grande mistério da humilhação humana do divino Jesus, porque por meio desse mistério podemos aprender que apesar das nossas fraquezas e debilidades, das nossas infidelidades, Deus vem ao nosso encontro, já veio ao nosso encontro para que tudo possamos realizar com Ele.
Peçamos portanto ao Senhor que nos fortaleça com essa confiança de o sabermos connosco e de perseverarmos diligentemente nas nossas respostas e opções que constroem a Vida.

domingo, 18 de setembro de 2011

Homilia do XXV Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Mateus deste Domingo apresenta-nos a parábola dos trabalhadores da vinha que são remunerados de forma igual apesar da diferença de tempo de trabalho. Uma parábola que nos pode suscitar um certo sentimento de injustiça, à semelhança do que acontece com um dos trabalhadores, que reclama uma diferenciação retributiva em função do trabalho realizado.
Contudo, e como nos diz o profeta Isaías os pensamentos do Senhor não são os nossos, as medidas por que Deus se rege não são as nossas, e no caso desta parábola isso é bem evidente, para além de também ser evidente, e uma vez mais nos ser ensinado, que o dom de Deus não se conforma às nossas matemáticas e mesquinhezes, que é muito maior do que supomos ou desejamos.
A parábola dos trabalhadores da vinha tem assim esse mérito de nos mostrar e colocar diante da evidência da largueza de Deus, da sua magnanimidade face aos dons e ao que nos oferece. Por outro lado confronta-nos com a possibilidade da inveja, com esse sentimento em que reconhecemos os dons e pertenças do outro, os valorizamos, mas não somos capazes de reconhecer nem valorizar os dons que são nossos e o que nos pertence. À semelhança da trave e do argueiro que nos pode afectar o olhar, é sempre mais fácil ver o que é do outro do que ver o que é nosso.
Este sentimento opõe-se igualmente ao sentido do trabalho no plano de Deus e na revelação bíblica. Todo o trabalho do homem, seja o da primeira hora ou seja o da última hora, é sempre uma colaboração na obra de Deus, um convite à participação na construção do Reino, e nunca um castigo por um pecado cometido. Razão pela qual qualquer trabalhador e qualquer trabalho devem ser sempre valorizados, inserem-se sempre numa obra que parte da iniciativa de Deus mas que não prescinde da nossa colaboração.
No nosso dia a dia e nas nossas mais diversas dimensões profissionais e domésticas esta afirmação tem as suas implicações e não pode deixar de continuamente nos questionar, porque muitas vezes perturbamos as nossas relações profissionais e familiares devido à falta desta visão divina do trabalho realizado.
Quantas vezes nos perguntamos sobre o fim do que fazemos, dos objectivos a alcançar, ou então porque estamos mais sobrecarregados que outros. Denotamos e denunciamos uma injustiça, ou manifestamos uma certa inveja, sem perceber, ou não querendo perceber em virtude da nossa vaidade e orgulho, que naquele momento é o que Deus nos pede, é a forma de colaborarmos na sua obra.
E quando assumimos esta colaboração, quando nos sentimos construtores da obra de Deus, verificamos também quanto ainda falta assumir dessa perfeição a que o Senhor nos convida, neste caso no que é o nosso trabalho. É verdade que a pressão dos resultados nos condiciona cada vez mais e portanto não nos podemos permitir alguns luxos de maturação, de aperfeiçoamento, de aferição dos resultados dos modelos, mas é igualmente verdade que perdemos, não se sabe muito bem onde, aquilo que em outros tempos se chamava “brio”, uma certa vaidade do trabalho bem feito. E Deus não só merece um trabalho bem feito, como nós também o merecemos na medida em que nos dignifica como homens e mulheres.
Mas voltando à parábola e de modo particular ao trabalhador que reclama o salário injustamente recebido, não podemos deixar de ter presente que o proprietário da vinha o trata por “amigo”, forma que no Evangelho de São Mateus denota, sempre que colocada na boca de Jesus, uma situação de predilecção, de grande intimidade e relação com o outro que é Deus.
Assim, a reclamação de um outro salário, para além do contratado, é duplamente injusta e infectada de um distanciamento ou desconhecimento relativamente àquele que contrata e chama a trabalhar na vinha. Aquele que reclama um outro salário esquece-se da justiça do contratado, bem como da relação estabelecida, esquece-se que o trabalho lhe possibilitou a intimidade com o proprietário e que a verdadeira retribuição e compensação do trabalho realizado é a mesma amizade do proprietário. Foi contratado como servo e trabalhador mas teve a oportunidade de ser amigo, pois dessa forma é considerado pelo senhor da vinha enquanto trabalhava.
Reclamar outro salário é desconhecer assim o proprietário da vinha, a sua magnanimidade e generosidade, o seu desejo de que todos os homens trabalhem na mesma vinha e recebam o mesmo salário, a sua pessoa que generosamente se dispõe e oferece a todos.
Por isso é que Jesus termina a parábola dizendo que os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros, pois os últimos aceitam a generosidade do Senhor da vinha, participam da sua amizade sem que nada lhes tenha sido prometido, enquanto que os primeiros pela sua inveja se excluem ao não aceitar a liberalidade do amigo em se dar também a outros na amizade que lhes tinha garantido.
Peçamos portanto ao Senhor que nos anime e ilumine nos nossos trabalhos e tarefas, para que percebamos que o mínimo trabalho é sempre colaboração na sua obra divina, que na nossa humildade e com as nossas limitações e fraquezas procuremos fazer sempre o melhor que soubermos e pudermos e que nunca esperemos mais nenhum salário nem recompensa que Ele próprio e a sua presença amiga.





domingo, 11 de setembro de 2011

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum

Os textos da Liturgia da Palavra deste domingo não podiam ser mais adequados diante do aniversário sobre o atentado do World Trade Center, acontecido neste mesmo dia há dez anos atrás. Foi um acontecimento que marcou indelevelmente a história e a civilização ocidental, pois não só vimos globalmente em directo e ao segundo um acto tremendo de ira e rancor, como assistimos ao nascimento de um tempo em que prevaleceu mais a vingança e a desconfiança do que a compaixão e a compreensão de que nos fala o Evangelho deste domingo e as demais Leituras.
O Livro de Ben Sirá, esse sábio do século segundo antes de Cristo e que lemos na primeira Leitura, deixa já àqueles que o lêem essa questão inevitável da correspondência entre o bem ou mal que se faz e a misericórdia e justiça que se espera de Deus. De facto, como se pode esperar a ajuda ou a salvação de Deus quando se vive na ira e no rancor, quando se constrói a violência? Ben Sirá é neste aspecto muito claro e conclui que Deus não pode estar de maneira nenhuma do lado daqueles que vivem na violência e no ódio.
E Deus não está do lado desses homens, nem poderá estar, não só pela violência em si, pelo mal que lhe está intrínseco, mas sobretudo porque a violência atinge o outro na sua carne, atinge o outro enquanto semelhante. O ódio, o rancor e a violência atingem desta forma a dignidade da vítima, bem como a dignidade do violento, produzindo assim uma degradação da própria natureza de um e outro, degradando a divinidade humana existente. E desta forma atinge o próprio Deus enquanto natureza divina e fonte de divinização.
Para combater esta ira e rancor, a violência e o ódio, esta degradação humana e divina, Ben Sirá apresenta não só o fim a que todos os homens estão sujeitos, a morte, e à luz da qual todos são iguais e fracos, mas também a Aliança de Deus, essa mão estendida para a salvação e a dignificação. Em virtude da sua finitude o homem devia libertar-se de toda a violência e ódio que o degrada, e pela oferta generosa de Deus de um projecto de vida divina essa libertação devia ser mais consentânea.
A parábola que Jesus conta a Pedro, depois de este lhe ter perguntado sobre as vezes que devia perdoar o seu irmão, vai também neste sentido da correspondência entre o bem recebido e o perdão dispensado. Mas não fica numa dimensão equitativa, aritmética, como pode parecer à primeira vista; bem pelo contrário, vai um pouco mais longe e assinala a dimensão extrema da gratuidade e da liberdade que deve ser intrínseca a qualquer dom e a qualquer perdão.
Neste sentido, o servo, que não foi capaz de se compadecer do seu companheiro, devia ter percebido a magnanimidade do perdão de que tinha sido objecto por parte do seu Senhor e de acordo com essa magnanimidade e generosidade deveria ter agido da mesma forma. Não agindo compassivamente o servo mostrou-se indigno do perdão e do dom recebido, uma vez que não só não o soube perceber como também não o soube apreciar através do exercício do mesmo.
Podemos ver também nesta parábola que a dignidade do servo, que o Senhor salvaguarda através do perdão da dívida e da sua libertação, não é correspondida por parte do mesmo servo em relação ao companheiro. Também aqui o dom do Senhor é afinal desperdiçado e portanto passível de condenação, e de reintegração no património senhorial.
A questão do perdão, que Pedro coloca a Jesus, abre-nos assim um leque vastíssimo de possibilidades de reflexão, pois não se trata apenas do facto em si mas das suas diversas dimensões e potencialidades. A questão não está na quantidade do perdão, mas na forma como se perdoa, na qualidade do perdão.
Uma atitude, um gesto, que não pode deixar de partir, como vimos pela parábola, de um outro dom já recebido, o perdão e a compaixão de Deus. Como um dom deve frutificar, deve render para o mesmo Senhor enquanto meio ou instrumento para um qualquer outro alcançar o perdão divino. Um gesto ou uma atitude que exige uma consciência de dignidade, que antes de mais nos é demonstrada pelo perdão recebido e portanto nos é exigida face ao outro. Diante de qualquer ofensa, de qualquer divida, não podemos perder nem deixar de ter presente a dignidade do outro. O perdão dignifica o perdoado e aquele que perdoa.
E esta dignidade é ainda mais exigente e mais acutilante na medida em que assumimos as palavras de São Paulo da Carta aos Romanos, ou seja, quer vivamos quer morramos pertencemos ao Senhor. Neste caso, quer recebamos o perdão ou quer sejamos convidados a perdoar não podemos esquecer que numa e noutra posição pertencemos ao Senhor e o perdão que exercitarmos é também do Senhor, é dom da sua graça.
Como somos limitados, fracos, e muitas vezes nos deixamos governar mais pelo nosso orgulho e pela soberba do que pela verdadeira consciência da nossa infidelidade e fragilidade, necessitamos rogar ao Senhor que venha em nosso auxílio e nos conceda não só o dom do perdão das nossas faltas, mas também de saber perdoar e de aceitar o perdão.
Nessa humildade poderemos testemunhar que o nosso Deus é Senhor de vivos e de mortos, de pecadores e de santos, daqueles que perdoam e são perdoados; é Senhor de todos pelo dom da sua vida entregue em resgate e perdão das nossas faltas, dom que actualizamos a cada Eucaristia e nos confirma na esperança da sua misericórdia.



sábado, 10 de setembro de 2011

Árvores de fruto e casas com alicerce (Lc 6,43-49)

Cada árvore conhece-se pelos seus frutos e cada casa aguenta melhor ou pior as investidas da tempestade na medida em que está bem alicerçada.
Jesus serve-se destas duas imagens, dos frutos da árvore e da casa que enfrenta a tempestade, para falar da nossa relação com Deus, da falsidade que a nossa vida pode adquirir e que a frutificação ou a tempestade pode desmascarar.
É inquestionável que cada árvore produz o seu fruto e se a árvore é boa produzirá certamente bons frutos. Contudo, não podemos esquecer que para que a árvore dê fruto é necessário tempo, é necessário que cresça, que passe a primavera e que se encontre plantada num terreno onde possa lançar raízes e alimentar-se.
De alguma forma a árvore é como a casa e necessita de bons alicerces, de um trabalho de escavação e aprofundamento para que possa aguentar a tempestade e produzir bons frutos.
Este trabalho de lançamento dos alicerces e fundamentos, ou de aprofundamento das raízes, pode no entanto ser feito sem muita seriedade, pode ser feito apenas para que outros possam ver e sentir-se até invejosos da beleza da casa ou da árvore. Há uma possibilidade de espectáculo.
Contudo, quando chega a tempestade ou a época de dar frutos, a verdade vem ao de cima e desperta, revelando na sua nudez, o quanto foi de facto construído ou enraizado. Há um trabalho diário que não pode ser descurado, um trabalho de escavação, de aprofundamento, pois só dessa forma se alcançará a verdade dos frutos bons ou dos alicerces sólidos.
De facto, dizer “Senhor! Senhor!” não chega para revelar a fé e o compromisso, podemos dizer que é um mero formalismo exterior, uma expressão quase idiomática. Dizer verdadeiramente “Senhor! Senhor!” requer um trabalho, uma fidelidade, uma busca de semelhança com esse Senhor que chamamos e invocamos.
Necessitamos verdadeiramente assentar os nossos alicerces na rocha firme que é Jesus, estender as nossas raízes nessa terra fértil que é o Corpo do Senhor. Vinde em nosso auxílio Senhor!

O Diário do Seminário de Mogofores – Últimas Páginas


Concluímos a apresentação do Diário do Seminário Dominicano de Mogofores redigido pelo Padre Tomás Maria Videira.

Como se pode ver, após algumas notas durante o mês de Junho de 1936, o Padre Tomás só volta a escrever em Março de 1943 e apenas umas breves linhas. Como confessa, as preocupações e os afazeres não lhe permitem tempo para a escrita diária. Na última página as ideias centrais do retiro. Certamente daquele retiro que refere sem data no final do ano de 36 e depois do Padre Gil ter tomado posse como Superior.

2-VI-36 – O Gil regressa de Portalegre onde pregou uma semana. Passou por Santarém onde teve a reunião dos Terceiros e instituiu a Confraria do Rosário.
Sempre que vem mostra-se um tanto desanimado com o pouco andamento da Província. Por fora vê melhor a nossa inactividade.
Ontem o P. Martins fez um ensaio geral do seu “Orfeão”. Vieram rapazes de Calvão e das Febres. Anda muito ocupado com a música.

7-VI – Desafio no campo das Lezírias entre os nossos alunos e os do colégio de D. Nuno. Os nossos mostraram-se tímidos, pouco animados e alguns um pouco cobardes deitando a bola para fora. José Nunes Martins mostrou não se dominar, perde facilmente a cabeça. 1-1.
?!
20-X-936 – Grande acontecimento para a Província, chegou hoje uma carta do Rmo. P. Jougla dizendo que o Rmo. Mestre Geral nomeou o P. Gil Superior local de Mogofores ficando ele como Vigário Geral mas com a residência em França, vindo cá todos os três meses. Esperanças e receios! Estávamos numa cepa torta. Mas as dificuldades são tantas!

26-10 – O P. Gil tomou hoje posse pelas 11 h. Disse algumas palavras: servire, regrare est. Cargos: P. Lopes – Irmãs e Procurador; a mim a Freguesia, P. Oliveira e P. Martins: professores.
Pôs-nos debaixo da protecção da Rainha do Rosário e de São José. Grande obra a realizar.
O Retiro dos Padres foi desde o dia…
Por carta o P. Jougla declarou que o P. M. não devia ocupar nenhum cargo na comunidade. Por conseguinte não pode ser professor.

Ave-Maria
19 de Março de 1943
Desde que iniciei este diário quantas interrupções e quantos acontecimentos alegres e tristes não sucederam! Contava recomeçar hoje com mais vagar. A agonia do pai de D. Maria José Bonifácio junto de quem passei grande parte da noite e visitei por três vezes durante o dia veio transtornar-me os planos. Nem cumpri tudo o que tencionava fazer para a Novena aos Coração Imaculado de Maria. Esta novena que punha sob a protecção de São José tem por fim alcançar luzes para resolver o problema do terreno para a casa do Porto e o da Escola Apostólica. Conto com a protecção do céu!

Ideias centrais para o retiro, para a vida espiritual, para a espiritualidade dominicana
1 – Deus – princípio, centro, fim, – Novíssimos.
2 – Jesus Cristo (N. Senhora) – admiração, gratidão amor total – doação.
3 – Igreja – dedicação – fidelidade, amor – apostolado.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O Diário do Seminário de Mogofores – Maio de 1936

Mais algumas páginas do Diário do Padre Tomás Videira enquanto membro da comunidade do Seminário Dominicano de Mogofores.
Para além dos problemas da vida comum a alegria dos passeios e o atraso de um burro que não chega com a comida por falta de ferraduras. Outro tempo, outros meios, mas algumas inquietações comuns ao tempo presente.

29-IV-036 – Dia da Solenidade de S. José. Belo passeio à mata da Sra. D. Júlia. Cantámos no fim da Bênção: Meigo Santo. O P. Vigário achou que prolongava a cerimónia, quando apenas se acabou às 8.30 ou 8.31. Não gosta de ofícios compridos e tem o culto da hora, mas se não é capaz de começar um ofício depois da hora, começa-o muitas vezes antes.
O Lima não foi hoje a passeio. Começa já a queixar-se dos intestinos.

4-V-36 – Hoje à noite cumprimentámos Padre, alunos e irmãos leigos o R. P. Vigário. Na sua resposta disse que São Pio V tinha sido aluno duma escola dominicana e que por isso era padroeiro das escolas apostólicas.
Algumas pessoas de fora pediram que se fizesse o mês de Maio segundo o costume português. O que se faz consiste em honra de algum mistério da Santíssima Virgem cantar a Ave-Maria e recitar uma antífona versículo e oração correspondentes. Nem um cântico em português. Falei com o R. P. Vigário para o fazer na Igreja, perguntou a que hora; disse que à noite. Então disse ele é escusado falar. Que pena não termos um superior que compreenda os nossos costumes! Talvez seja providencial. Fiat voluntas tua!
Ontem fiz algumas observações importantes e graves aos alunos sobre a falta de piedade, de aplicação ao estudo, de respeito, de generosidade. Já há muito que se fazia notar uma grande indisciplina. São sobretudo os médios, que são mais insuportáveis.
Soubemos pelo P. Martins que morreu o Capelão das Irmãs de Azurara, era espanhol.

5-V-36 – Festa do P. Jougla. Ao jantar a instâncias sobretudo do P. Bartolomeu o P. Abadie fez um pequeno brinde.
Conversa com o P. G. – Foi com o P. B. a passeio à Moita aonde o dito P. B. vai muitas vezes. Logo que chegou a casa do Pároco pediu tabaco e vinho. Se vinha lá era sobretudo para fumar… e no outro dia no recreio condenava o tabaco como absurdo, vicio… etc. Anda a organizar um orfeão constituindo grupos em vários lugares como Aguim, Moita e não sei mais aonde. Já se zangou com os de Aguim e por carta escrita a um da Moita já os insultou. O Pároco fez-lhe ver os inconvenientes que tudo isso lhe trazia e os desgostos que lhe poderiam acarretar e que podiam muito bem mandá-lo para um convento distante. O P. G. falou com o R. P. J. e este concordou que o P. B. estava a comprometer a ele e a nós todos, mas que não julgava oportuno negar-lhe essas licenças, senão ninguém o podia suportar. Que escrevêssemos uma [carta] e a assinássemos todos para quando ele falar com o Mestre geral ter um apoio. Pois todos o julgam inadaptável e quase inútil por esse motivo. Só pensa em música. Que Deus tenha compaixão de nós que não valemos mais!

7-V-36 – Veio cá hoje o médico para examinar o Lima que continua a queixar-se dos intestinos.

16-V-36 – Chegou hoje o P. Oliveira após mês e meio de ausência passado junto do irmão doente.
No dia 11 foi-se embora o Lima cujo estado piorava. Teve muita pena.
No dia 8 foi a Braga donde voltou no dia 13 o R. P. Vigário. Foi assistir a algumas tomadas de hábito e profissões e também como confessor extraordinário. Disse à M. Superiora Geral que era preciso dar um carácter mais intelectual às irmãs e procurar arranjar e formar professoras.
No mesmo dia foi pregar um retiro ao colégio de nossas irmãs de Leiria o P. Gil voltando ontem.
No outro dia falava com o R. P. Vigário acerca da casa do Porto. Não aceitou porque era para já e não estávamos em condições de a comprar e porque preferia Coimbra. Que visse se, se podia arranjar o antigo convento de Santa Teresa. O P. Gil falou com o Dr. [...] para ele falar com o Dr. Bissaia a ver se conseguiam do Salazar a tal casa. Mas o Dr. Bissaia disse que era quase impossível porque Salazar estava muito teimoso e que já tinham feito muitas obras no dito convento e a opinião pública não receberia bem a doação.

18-V-36 – O P. Gil foi ontem a Ovar para organizar a Ordem Terceira. Nomeou uma Directora. São já vinte e sete terceiros.

27-V – Passeio ao Bussaco. Quase toda a comunidade. Fui a pé com os alunos. Partimos às 7.30. Levou-se um burro com a comida mas por não estar ferrado fez-nos esperar várias horas. Visitámos o museu militar (5$00) a capela do antigo convento e as nascentes da água do Luso. Bebemos um copo servido no Hotel Lusitano. Todos gostaram. Não seria mau partir mais cedo para ter tempo para visitar a mata, contanto que se leve uma merenda para o caminho. Saímos de lá (do Luso) às 5.30 chegando aqui às 8 menos um quarto, tendo parado no meio do caminho uns 20 minutos. Para cá não se utilizou o burro.
Comida. Presunto, 10 litros de vinho, carne, ovos, bolos de bacalhau, batatas (pouco se comeram).

31-V-36 – Os alunos fizeram o “Mês de Maria” seguindo o livro de Manuel Bernardes edição do P. Marinho.





quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Diário do Seminário de Mogofores – Abril de 1936

Prosseguindo a apresentação do Diário do Seminário Dominicano de Mogofores verificamos as dificuldades que a comunidade atravessa, nomeadamente no relacionamento humano e fraterno e os primeiros passos no sentido da expansão para a cidade do Porto.

12-IV-936 – Páscoa – De manhã levámos o Santíssimo da nossa capela para a do Convento. Não cantámos nada. Com os alunos fomos à missa da Igreja onde cantámos o ordinário da missa dos Anjos Ó Santíssima – o Cor amabile e no fim “Cesse o prato”. A missa foi rezada. Não houve procissão porque chovia. O cântico em português não foi perfeito. Há falta de vozes e as que há são fracas. À tarde fomos ao Compasso em casa do Sr. Sampaio onde nos ofereceram bolos e doces. Ao P. Jougla e a mim chá e bolos. Depois o P. J. acompanhou-nos no passeio. À noite pela primeira vez leu o Evangelho o Agostinho Fonseca. Tem defeito na língua para pronunciar os rr…
O P. Abadie foi ao Troviscal assistir à festa de família das despedidas da Palmira que vai para o Convento. Precisava de dois dias de distracção.
O P. Gil tinha ido ontem para ver se convertia um primo gravemente dente e que não se queria confessar.
Durante estes três dias celebrámos algumas cerimónias. Quinta: missa às 7 e depois adoração até às 7 da tarde. Sexta: adoração da cruz. Missa de Presantificados. Sábado às 3 Via-Sacra, Stabat e à noite canto a três vozes do Miserere. Sábado Lições Missa e canto das Vésperas. Durante a missa e vésperas tocou harmónio o P. Martins, dando assim uma nota alegre às cerimónias. De tarde o P. Martins partiu para a Moita onde ajudará o Pároco no ministério Pascal.
Recebi alguns documentos do Luís da Silva que queria vir como criado para poder ajudar os pais, mas que se resigna a vir também como postulante. A vocação será verdadeira? Não será um meio de viver? Ele diz e repete que quer servir numa casa católica, mas e há tempos recusou um lugar numa padaria onde receberia 20$00 diários mas não podendo ir à missa aos Domingos. O irmão José Maria esteve com o Luís durante alguns anos também esperava que ele se fizesse irmão leigo. Veio o serviço militar e efe ficou em casa. Por outra parte ele pediu há tempos uma recomendação do Sr. D. Domingos para entrar nos Caminhos de Ferro.

19-IV-936 – Conversa com o P. Gil. Veio hoje de Coimbra onde pregou um retiro às Terceiras. Umas nove fizeram-no fechado. Houve outras pessoas de fora que assistiram. O P. Lourenço que devia pregar, não veio, talvez por haver pouca gente.
A situação é sempre crítica quando se encara o futuro. Que faremos? O pessoal não chega e o que há nem todo serve. Que faz o P. Martins? Frequenta o Pároco da Moita a quem presta alguns serviços. Foi no outro dia pregar a Coimbra às Filhas de Maria (1ª vez), não gostaram. Cansa-se facilmente e não aceita ministério forte. Entusiasma-se facilmente por uma coisa e depois é capaz de cair no extremo. Liga pouco com os outros Padres sobretudo portugueses. Música, mais música, mais música. Quando no outro dia foi pregar a Coimbra pediu que lhe tocassem muitas músicas porque gostava muito disso. Todos querem eliminá-lo – mas como?
O P. Oliveira que está com o irmão Padre que se encontra um pouco doente não vem ainda porque em consciência julga-se necessário. Que consciência é essa?
Que restauração se poderá fazer com um tal pessoal? Quase todo impotente e com pouco espírito religioso. O futuro sobre esse prisma não é reconfortante. Falta de superiores, falta de bons súbditos, falta de pessoal. Quare obdormis, Domine, quare obdormis? Exurge et ne repellas in firem.

21-IV-936 – Ontem o P. Gil foi ao Porto para a reunião dos Terceiros. O P. Lopes falou-me do Ir. António que se zangou por ele lhe ter feito uma observação insignificante. Não se pode fazer uma observação ao Irmão. Tem muito génio e faz o que quer. Ninguém se atreve a dizer-lhe alguma coisa, nem o Superior. Todos desejam que ele seja mudado.

23-IV – O P. Gil que chegou ontem diz nem todos os Terceiros do Porto vêm às reuniões. Em Portugal é preciso estar sempre a puxar senão ninguém se mexe. Viu o terreno do novo bairro onde vão construir uma capela e que o Sr. Bispo nos oferece mas o terreno é muito baixo e não há largueza e com uma fábrica em frente. No mesmo bairro há um outro terreno 13.000 m² mas custa uns 800 contos. O mais difícil de arranjar não é o dinheiro, é o pessoal.
Hoje o P. Martins deu uma aula de solfejo e de futuro dará às quintas-feiras uma aula e eu darei o catecismo ao Domingo. No princípio do ano escolar quis por força pelo menos meia hora cada dia, depois do Natal deu algumas aulas e por fim deixou tudo porque se tinha cansado. Eu pedi-lhe que ensinasse solfejo e que desse duas aulas por semana – em Novembro. Ele quis ensaiar a peça de teatro para o Natal. Cansou-se e desanimou.
Hoje chegou o José Lima que havia cinco meses estava em casa doente. O irmão acompanhou-o e entregou 100$00.

28-IV-936 – Ontem o R. P. Vigário foi a Coimbra para a reunião do Conselho da Fraternidade das Terceiras.
E o P. Gil foi com um irmão a um enterro dum primo que se tinha confessado a ele no sábado Santo pois não se queria confessar e ontem por pouco o enterro era civil por causa da assistência da música que está proibida de tocar. Não tocou mas assistiu em uniforme e o P. Gil tomou a responsabilidade indo hoje falar com o Sr. Bispo não o encontrando.
O P. Gil recebeu uma carta do Dr. Valente professor no Seminário do Porto propondo-lhe uma casa na linha eléctrica de Porto Ermesinde e tendo muitas vantagens: vistas – água – local – Vamos a ver se o P. Jougla consente que se examine.
Durante estes últimos dias arranjou-se o campo de jogos, aplanando, deitando areia, etc. O Dionísio fez o tapume mostrando ter habilidade, não só por não estar habituado, mas também por a ferramenta não ser boa nem completa.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Diário do Seminário de Mogofores – Quaresma de 1936

Nesta segunda apresentação do Diário de Mogofores, do Padre Tomás Maria Vieira, podemos constar as preocupações que o atingiam e que de alguma forma eram partilhadas pela maioria da comunidade relativamente ao isolamento e ao deficit de ministério face ao fim primeiro da Ordem, a salvação das almas.

J.M.J
22-III-936 – Dia chuvoso – não houve passeio, a maioria dos alunos não quis e o tempo estava duvidoso. Instrução sobre a Comunicação dos Santos iniciada no Baptismo – aperfeiçoada na Comunhão – caridade fraterna fruto da comunhão.

24-III-936 – Chegou hoje o P. Lopes de pregar um tríduo em … É o terceiro que ele prega este ano. Ficaram contentes.
25 – Bênção às 6.55 – Cantámos o Santíssima e no fim “Cantemos alegres” – chuva.
26 – Passeio à Cúria – O P. Gil que chegou às 11.30 de Ovar partiu esta tarde para Évora onde foi pregar o Septenário. Teve um pequeno incidente com o P. Martins.

30-III-936 – Ontem domingo da Paixão fomos assistir a Procissão dos Passos de S. Lourenço que sai da capela das Lezírias e vai para a Igreja de S. Lourenço – Pregou o P. Martins 3 sermões. A maior parte gostou. Um pouco seco e levando mais para o lado moral do que para o patético; falta de termos, repetindo-se. Por falta de tempo não pudemos assistir ao 3º sermão.
O P. Oliveira foi ver o irmão Padre que tem a gripe. Não é grave mas o P. preocupa-se muito com a saúde do irmão.
Os dois Padres Espanhóis Peña e Amado chegaram ontem do Norte onde visitaram várias casas e alguns antigos conventos, uns pequenos outros caros como o de Guimarães (5 contos por mês). Partiram hoje para Lousã com o P. Lopes.

1-IV-1936 – Ontem falei com o P. Jougla acerca dum rapaz chamado Luís da Silva que já por várias vezes pediu para vir para cá. Desejava vir como criado para poder ajudar os pais durante algum tempo. Não se importa de entrar como postulante, tendo só receio de não poder ficar. O P. Jougla nem hoje nem doutras vezes tem querido aceitar criados. Meu Deus, se não há irmãos o que se há-de fazer? Tanto mais que os poucos irmãos que existem, queixam-se continuamente do excesso de trabalho e da falta de orientação. Também não quer aceitá-lo e dar alguma coisa aos pais.
Fiat voluntas tua!

O P. Lopes chegou hoje de Coimbra para onde partiu anteontem com os Padres espanhóis. Foram também a Viseu e São Pedro do Sul.
O P. Lopes com o P. Martins assistiram às exéquias de D. Manuel Bispo de Coimbra em nome da comunidade.
Há tempos para a subscrição entre o clero da diocese para uma campa do sepulcro de D. Manuel o P. Jougla deu 100$00.

4-IV – O P. Abadie está um pouco cansado e abatido. Diz que com o tempo, que é muito chuvoso, a causa é o isolamento em que se encontra em Mogofores. O lugar por si presta-se pouco para relações e o P. Jougla quer voluntária quer involuntariamente impede-o de ir fazer visitas. Não haveria perigo que ele abusasse? É tão simples e tão pouco habituado às coisas do mundo! O P. Abadie desde o primeiro dia nunca gostou de Mogofores.

5-IV-936 – Domingo de Ramos – Fui assistir à procissão dos Ramos à Igreja. O P. Lopes estava com muita pressa e ralhando aqui e acolá. Quis cantar mas ele não quis. Podia-se fazer algum bem ao povo num dia destes em que vem mais gente! Tudo à pressa e de mau humor, que tristeza. Vamos sair da freguesia sem ter deixado alguma influência durável e profunda. Dantes, quando para cá viemos, do tempo do P. Cazes, fazia-se muito em favor da freguesia. Ia-se lá mais vezes. Ao domingo rezava-se o Terço à tarde; às 1ª sextas-feiras havia Missa na Igreja, etc… Veio o P. Jougla e ainda deixou as coisas como estavam, mas depois foi cortando, cortando, e agora só se vai para a missa do domingo ou quando alguém pede para se confessar. O P. Jougla deu como pretexto ou razão que os padres se cansam. De facto num ano o P. Abadie e eu fomos obrigados a descansar. Mas é bem triste estarem aqui tantos Padres e fazerem tão pouco para a salvação das almas que é o fim principal da nossa Ordem.

- No passeio longa conversa com o P. Gil sobre o nosso apostolado. Em Mogofores estamos fechados, isolados, vivendo fora da realidade. É necessário dar-nos mais às almas. Mas apesar de andar lá por fora a trabalhar por todos não encontra quando regressa um ambiente fraterno e cheio de vida que o reanime e lhe dê mais coragem.
O egoísmo é um grande mal de muitos religiosos assim como de muitos Padres. No apostolado é necessário uma dedicação desinteressada. Ir às almas não por amor de nós, mas para bem delas. Notamos como sempre nos Superiores falta de direcção falta de impulso. É esta uma das queixas quase quotidianas de cada um de nós. Mas isto atrairá as bênçãos de Deus? Parece que nos falta o apoio da sua Providência e o carinho de sua Santa Mãe que fundou a Ordem. Vae Nobis!

7-IV-936 – Ontem o P. Lopes foi ao Caramulo encontrando o frei Lourenço melhor. Hoje foi a Coimbra fazer as compras de Páscoa. O P. Gil partiu ontem para o Porto onde confessa estes dias na freguesia do S. Sacramento e depois vai pregar noutra parte. Tinha chegado Domingo às 5 horas da manhã tendo viajado durante a noite. Em Évora alguns trataram-no de comunista porque falou num sermão contra os ricos indiferentes ou avaros.