quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Pedido dos Dominicanos Portugueses à Câmara de Lisboa em 1955


Após a expulsão dos religiosos em 1834, e a consequente perda dos Convento de São Domingos de Lisboa e São Domingos de Benfica, os frades de São Domingos voltaram à capital do império nos finais de 1947, instalando-se na Rua do Salitre.
Aí assumiram a direcção do Colégio Clenardo, um meio imprescindível para evangelizar a juventude, realizar de alguma forma o seu carisma, e para obter algumas receitas para uma outra obra bastante necessitada economicamente, que era o Seminário da Escola Apostólica.
Face à adesão ao projecto dominicano, ao número de alunos e à situação de arrendamento de uma propriedade que não lhes pertencia, e cujas condições deixavam a desejar, no ano de 1955 ventila-se a hipótese da construção de um colégio novo num outro espaço da cidade. É neste sentido que surge a carta que o Padre Luís Sylvain dirige ao Presidente da Câmara de Lisboa e que publicamos no âmbito da divulgação do espólio documental histórico dominicano.
O projecto acabou por se gorar, pois a Câmara apenas cedia um espaço com pouco mais de vinte e dois mil metros, para uma escola primária, e o projecto exigia quarenta mil. O Colégio teve que permanecer assim até ao fim na Rua do Salitre, embora fossem realizadas posteriormente outras diligências para a construção noutro lugar, que também não foram avante e geraram por isso uma grande desilusão.

Exmoº. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
A Província Dominicana Portuguesa, sentindo a necessidade de colaborar, segundo a sua vocação apostólica, mais activamente na formação da juventude portuguesa e em especial da cidade de Lisboa, deseja construir um Colégio para o ensino infantil, primário e secundário do sexo masculino.
Tendo considerado a zona da cidade onde mais se faz sentir grande e urgente necessidade dum estabelecimento de ensino deste género ministrado por Religiosos, chegou à conclusão que é a zona ocidental da Cidade de Lisboa.
Pelo que vem, por intermédio do Reverendíssimo Padre Luís Maria Sylvain, seu Vigário Geral em Portugal, residente no Convento de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, pedir a V. Exª. se digne autorizar a concessão de um terreno na zona do Restelo (Encosta da Ajuda) que comprote as necessárias instalações, com uma área aproximada de 40.000 m2 (quarenta mil metros quadrados).
Tratando-se de um obra do bem comum duma zona desta cidade de Lisboa; de uma Ordem Religiosa que se está a restaurar em Portugal através de muitos sacrifícios e que outrora possuía só na cidade de Lisboa, ou junto dela, o convento e igreja de S. Domingos de Lisboa, o convento e igreja de S. Domingos de Benfica, o convento e igreja de São Paulo de Almada; de uma obra assas dispendiosa, muito agradece a V. Exª. toda a benevolência possível na concessão do dito terreno.
A Exmª. Câmara Municipal do Porto, mediante o despacho de autorização de Sua Exª. o Senhor Ministro do Interior, publicado no Diário do Governo, 2ª Série, de 23 de Agosto de 1949, concedeu gratuitamente a esta dita Província Dominicana Portuguesa um terreno para a construção de uma igreja e convento anexo numa zona da cidade do Porto, os quais estão actualmente erguidos, a igreja totalmente, o convento em parte.
Baseada nas razões apresentadas e na boa compreensão e benevolência da Exmª. Câmara Municipal de Lisboa, a Província Dominicana Portuguesa ousa formular a V. Exª. idêntico pedido para a cedência gratuita, mas, se de todo não for viável, pede e agrade tudo quanto possa fazer no sentido de a venda do dito terreno ser pelo mínimo preço.
Esperando e agradecendo antecipadamente toda a atenção de V. Exª. para o assunto exposto, pede deferimento.
Fátima, 4 de Novembro e 1955.
Pela Província Dominicana Portuguesa
Padre luís Maria Sylvain, op
Vigário Geral dos Dominicanos de Portugal.

Oração de Santo André face à cruz do martírio

Na "Legenda Dourada" de Tiago de Voragine encontramos esta bela oração de Santo André face ao instrumento do seu martírio. Vale a pena rezá-la e meditá-la neste dia em que celebramos a memória deste Santo Apóstolo.

Salvé, oh Cruz gloriosa, santificada pelo corpo de Cristo e adornada com seus membros mais ricamente que se tivesses sido decorada com pedras preciosas!
Antes que o Senhor te consagrasse foste símbolo de opróbrio, mas já és e serás sempre testemunho do amor divino e objecto de desejo.
Por isso eu agora caminho para ti com firmeza e alegria.
Recebe-me tu também gozosamente e converte-me em discípulo verdadeiro daquele que pendeu de ti.
Oh Cruz santa, bela e nobre desde que os membros do Senhor repousaram cravados sobre ti!
Oh Cruz bendita, tanto tempo desejada, solicitamente amada, constantemente buscada e por fim já preparada.
A ti me chego com o desejo ardente de que me acolhas em teus braços, me tires deste mundo e me leves até ao meu Mestre e Senhor.
Ele que me redimiu por ti, por ti e para sempre me receba.

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Senhor, eu não sou digno que entres em minha casa (Mt 8,8)

Ao entrar em Cafarnaum Jesus encontra-se com um centurião romano, um estrangeiro e um gentio. Um homem que tem poder sobre outros homens, que pode dizer vai e eles vão, que pode dizer faz isto e eles fazem.
Contudo, diante de Jesus apresenta-se como aquele que não tem qualquer poder; na sua impotência de curar o servo doente, vem implorar a ajuda daquele que é mais forte que ele, que pode de facto e em verdade dizer vai e faz, uma vez que à sua palavra tudo foi criado.
E quando Jesus se prontifica a ir a sua casa, curar o pobre servo que tem paralítico e nem sequer pode ser deslocado, o centurião romano humildemente diz-lhe que não é digno, que não merece a visita de Jesus à sua casa.
Quanta humildade a deste homem habituado a dar ordens e a ser obedecido, quanta fé e sabedoria. Sabe com quem se veio encontrar, reconhece a sua indigência e infidelidade, e mostra para com aquele a quem recorre o respeito divino que lhe é devido.
No portal deste Advento de 2011, o centurião romano apresenta-se como uma pista para vivermos este tempo de preparação para o Natal. Com ele também nós somos convidados a reconhecer a nossa indignidade para receber o Senhor que vem ao nosso encontro. Afinal de alguma forma também nós nos mantemos ainda na gentilidade, nesse campo da infidelidade, quando continuamos a viver como se fossemos senhores e donos do que nos rodeia, quando nos iludimos que tudo obedece às nossas ordens e desejos.
Mas com o centurião romano somos também convidados neste Advento a caminhar em direcção ao Senhor, a solicitar a cura das nossas paralisias e daqueles que amamos ou com quem vivemos. Necessitamos dizer-lhe que estamos doentes e necessitamos a sua cura, necessitamos que venha ainda que sejamos indignos. É a oportunidade do encontro e do diálogo que se nos oferece.
E depois, na humanidade de Deus que vem ao nosso encontro, nessa fragilidade de um Deus infante, oferece-se-nos a possibilidade de ver para além do visível, de desvelar o véu da humanidade em que se oculta a divindade. O Filho de Deus encarnou para se poder encontrar com o centurião e se poder encontrar com cada um de nós.
Peçamos por isso ao Senhor nosso Deus que nesta caminhada para o nascimento de Jesus nos disponhamos a acolhê-lo como aquele que pode curar todas as nossas fragilidades e paralisias.



Padre Gaudrault no Convento dos Capuchos em Sintra

Uma vez mais rectificamos a identificação de uma fotografia apresentada no âmbito da história da restauração da Província de Portugal dos Dominicanos.
Desta feita, e por puro acaso, desfolhando um livro editado há poucos dias sobre as Ordens religiosas em Portugal e a sua obra empreendedora, e sobre o qual ainda voltarei a falar, encontrei uma fotografia sobre o Convento dos Capuchos na serra de Sintra.
Imediatamente me recordei da fotografia que o Padre Gaudrault e o Padre Sylvain ali tinham tirado, e que até agora não tinha conseguido identificar. Foi uma satisfação tremenda.
Deixo uma ao lado da outra, para que possamos confirmar, que pelo menos, no Convento dos Capuchos em Sintra, a acção do homem nestes sessenta anos foi comedida em alterações no património religioso.

domingo, 27 de novembro de 2011

Visita do Mestre da Ordem Manuel Suarez ao Noviciado de São Pedro de Sintra

Na véspera de se dirigir para Fátima, para o encerramento a 13 de Outubro do Ano Santo de 1951, o Mestre da Ordem Manuel Suarez visitou o Convento da Quinta de São Pedro em Sintra.
Aproveitando a visita concedeu uma audiência ao grupo de noviços que desde o dia 7 de Setembro aí estavam. Entre os vários temas da conversa, aquele que mais deixou marcas na memória dos jovens dominicanos foi o apelo missionário.
O Mestre da Ordem Manuel Suarez falou-lhes da história gloriosa da Província, do seu antigo esplendor missionário no Oriente, e por isso acalentava fortes esperanças de que em breve os dominicanos portugueses pudessem retomar essas presenças e missões. Tal esperança vinha ao encontro dos pedidos que de Timor e Moçambique lhe tinham sido dirigidos para o regresso dos dominicanos aquelas terras.
Face a tal realidade dependia agora dos jovens portugueses que entravam na Ordem o cumprimento da promessa que tinha feito, pois a tais solicitações tinha respondido e pedido algum tempo para que pudesse enviar dominicanos portugueses.
Mais de cinquenta anos depois ainda não voltámos a Timor, onde historicamente tivemos uma presença marcante, mas regressámos a Moçambique e aí nos mantivemos até à independência, e presentemente estamos em Angola.

Foto dos noviços com o Mestre da Ordem
Primeira fila: Padre Sylvain, Padre Manuel Suarez, Padre Aniceto Fernandes e Padre Reed.
Segunda fila: Frei Miguel dos Santos, frei Carlos Jacinto Videira, frei Pedro Agostinho, frei Gil Manuel, frei Henrique Andrade.
Terceira fila: Frei João Domingos e atrás de si o Irmão Converso Lourenço da Rocha(?), o Irmão frei Jacinto Pereira, frei Luís Custódio e atrás de si o postulante António Pedro, e ao seu lado outro postulante por identificar e depois, com óculos, o frei Joaquim Frango.

Outra Foto dos noviços com o Mestre da Ordem
Primeira fila: Padre Sylvain, Mestre da Ordem Manuel Suarez e Padre Aniceto Fernandez.
Segunda fila: Frei Miguel dos Santos, frei Carlos jacinto Videira, frei Vicente Santos, e frei Henrique Andrade.
Terceira fila: Frei João Domingos, frei Pedro Agostinho, frei Gil Manuel.
Ultimas filas: Escondido por detrás do frei João o Irmão Converso Noviço frei Lourenço da Rocha(?), frei Jacinto Pereira, frei Luís Custódio e atrás de si o postulante António Pedro, outro postulante à sua direita e por fim o Irmão frei Joaquim Frango.

Homilia do I Domingo do Advento

Iniciamos o tempo do Advento e mais um ano litúrgico com esse apelo de Jesus a estar vigilantes, uma vez que não sabemos o momento da chegada.
No entanto, e apesar da incerteza de que Jesus fala, sabemos e assumimos que o momento chegará no dia de Natal, já chegou há dois mil anos, e chega em cada dia de paz. Razão pela qual é ainda mais necessário estar vigilantes, vigiar activa e criticamente para que essas vindas e chegadas se transformem e culminem num último encontro pacífico e definitivo. “Sem vigilância toda a experiencia é idolátrica, minando-nos o juízo, as formas de atenção, a sabedoria, a ética para o presente” (Mourão, “A Palavra e o Espelho”, 10).
Importa por isso aprofundar o sentido da vigilância a que Jesus nos convida, para não cairmos na idolatria, para vivermos verdadeiramente a fé e o seguimento de Jesus, e para verdadeiramente vivermos a nossa humanidade e nela o advento de Deus a cada um de nós e a todos os homens. Viver na expectativa de Deus que vem é viver a realização do homem na plenitude da sua natureza mais íntima e perfeita.
Vigiar não pode por isso ser um estar, um “stand by”, em que se manifesta uma presença mas não há mais qualquer actividade. Vigiar no contexto da palavra de Jesus não é apenas permanecer, ainda que para vigiar seja necessário permanecer. O monge permanece na sua estala de coro vigilante.
Vigiar não pode também ser visto como esperar, aguardar por algo ou alguém. Ainda que à luz da palavra de Deus vigiar signifique permanecer esperando esse Outro que é o próprio Deus. O monge permanece na sua estala coral vigilante, aguardando a chegada da razão da sua vida.
Vigiar não é apenas um estar com os outros, um encontro à volta de um acontecimento ou de um tarefa, uma velada de amigos, apesar de vigiar com Jesus e ao estilo de Jesus signifique encontrarmo-nos alegremente com alguém. O monge nas suas vigílias nocturnas permanece e aguarda com os outros a vinda do totalmente Outro.
Vigiar é trabalhar, é um exercício prático e constante, é permanecer como o monge mas de uma forma activa, cuidando essa vigilância com a sua atitude corporal, com a alegria do canto que lhe brota da alma na expectativa do encontro do Senhor, apressando esse encontro com a sua oração insistente e persistente. Vigiar é portanto cuidar, guardar, olhar, estar atento para saber o que se espera, como se espera e o que se faz para que o que se espera aconteça.
Vigilantes nesta forma activa, inviabilizamos a idolatria porque o alcançado, o esperado, é sempre uma porta, uma passagem para um encontro e uma realidade mais profunda e definitiva sobre a qual não temos poder porque nos é oferecida, vem ao nosso encontro na medida da nossa busca. Como Santa Catarina de Sena experimenta e escreve, quando mais aprofunda no mistério de Deus mais se sente atraída pela profundidade desse mesmo mistério. Também vigilantes nesta forma activa, a nossa sabedoria e os nossos juízos, os valores e a ética permanecem num constante estado de alerta, numa construção e renovação que impedem a esclerose ou a putrefacção.
Mas viver nesta vigilância só faz sentido na media em que se pressupõe um encontro, na medida em que previamente há um desejo de encontro, um encontro para o qual trabalhamos, no qual nos envolvemos através da nossa solicitude para que aconteça.
Esse encontro é essa visão do rosto de Deus de que nos fala o profeta Isaías, um rosto que na história do povo de Israel se deixou de manifestar, de estar visível para o povo que vivia na infidelidade. E por essa razão o profeta suplica a sua revelação.
Mas para nós cristãos, e na medida em que ninguém pode ver o rosto de Deus e viver, como é dito ao profeta Elias, a visão do rosto de Deus é-nos facultada na pessoa de Jesus, no encontro com a humanidade do Filho de Deus.
O rosto de Deus revela-se-nos na humanidade de Jesus, mas com ele e nela revela-se-nos também a divindade do rosto do homem. Por essa razão dizia o Mestre Eckhart que cada pessoa, cada rosto é mais nobre e valioso que todo o universo, uma vez que no rosto de cada um, homem e mulher, transparece pela humanidade do Filho de Deus o rosto de Deus Pai.
O Advento é assim um tempo de vigilância para o encontro com Deus que vem à nossa humanidade, mas é também, e por essa razão, um tempo de vigilância para o encontro com os nossos irmãos, com os homens e mulheres que espelham nos seus rostos a face de Deus transfigurada.
E se as nossas fragilidades e o temor dos outros nos pode impedir um passo no sentido do acolhimento e da fraternidade, da partilha e colaboração, a certeza do dom da graça para aqueles que esperam a manifestação de Jesus Cristo, de que fala São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, deve obrigar-nos e impelir-nos a ultrapassar esses impedimentos e barreiras. Afinal o outro é sempre o espelho do totalmente Outro, somos todos obras da mão do mesmo Oleiro, no rosto de cada homem manifesta-se o rosto de Deus.
Preparemo-nos assim para celebrar o Natal do Senhor, vigilantes na expectativa da sua vinda e vigilantes no encontro com os outros homens e mulheres nossos irmãos.

sábado, 26 de novembro de 2011

Bênção da Primeira Pedra do Convento de Fátima a 13 de Outubro de 1951

Aproveitando o encerramento do Ano Santo de 1951 em Fátima, o Mestre da Ordem dos Pregadores Manuel Suarez lançou e benzeu a primeira pedra daquele que viria a ser o Convento de Nossa Senhora do Rosário dos Padre dominicanos em Fátima.
Depois de participar na peregrinação internacional do Ano Santo, na qual segundo os jornais estiveram presentes mais de um milhão de pessoas, e que foi Presidida pelo Cardeal Tedischini, Legado do Papa Pio XII, o Padre Manuel Suarez dirigiu-se por volta das 17 horas com um luzidio grupo de religiosos e numerosos amigos para o local onde seria construído o convento.
Aí, com palavras repassadas de carinho, manifestou a esperança de ver em breve inaugurado o edifício em projecto, desejando mesmo que no ano seguinte funcionasse ali o noviciado, entretanto instalado na Quinta de São Pedro em Sintra, o Colégio de Filosofia, primeiros passos na formação intelectual dos frades pregadores.
As fotografias testemunham o acontecimento.

Panorama Geral da Bênção da Primeira Pedra
Da esquerda Para a direita: Frade por identificar, seguido de um miúdo e do Padre frei Lourenço da Rocha. Com a mala na mão o Padre frei Francisco Rendeiro, ao seu lado o bispo de Prince-Albert no Canadá, D. Reginald Duprat, e a seguir, ainda que parecendo antes, o Padre Aniceto Fernandez. Entre os dois vislumbra-se o frei Estêvão da Fonseca com os olhos.
Por detrás da pedra encontram-se os noviços frei Carlos Jacinto Videira, frei Henrique Domingos Andrade, frei João Domingos oculto atrás do frei Henrique, frei Miguel dos Santos e o recém professo simples frei Pedro Agostinho.Segue-lhe o Padre Luís Cerdeira, que tem atrás de si o Padre Pio Gomes, o Mestre da Ordem Manuel Suarez com estola e segurando um livro e atrás de si o Padre Bartolomeu Martins.
Em posição posterior e elevada encontram-se os Irmãos Conversos frei António Ribeiro, do Corpo Santo, com os braços cruzados; atrás de si o frei Jacinto Pereira. Acima do frei Francisco Rendeiro e olhando para o chão o frei António Mendes de Oliveira, e logo atrás de si frei Bernardo de Jesus Domingues, tio do noviço frei Bernardo Domingues que encontra ao seu lado, e ao lado de quem se encontra o noviço Luís Custódio. Entre o tio e o sobrinho Bernardos e segurando o queixo o noviço Converso frei Lourenço da Rocha de Sousa? Por detrás do tio frei Bernardo e do jovem de gravata frei Joaquim Frango.

Leitura dos documentos de Bênção da primeira pedra pelo Padre Estêvão da Fonseca
Da esquerda para a direita: D. Reginald Duprat, Padre Aniceto Fernandez, Padre Estêvão da Fonseca, frei Carlos Jacinto Videira, espreitando frei João Domingos, frei Henrique Domingos Andrade, frei Miguel dos Santos, frei Pedro Agostinho, Padre Luís Cerdeira e Mestre da Ordem Manuel Suarez.
Na fila de trás: frei António Ribeiro, frei António Mendes Oliveira, frei Bernardo tio e frei Bernardo sobrinho noviço e Luís Custódio.
Ultima fila: frei Jacinto Pereira, jovem à civil e frei Lourenço da Rocha de Sousa?

Outra fotografia de outro momento da Bênção da primeira pedra do Convento de Fátima
Da esquerda para a direita: D. Reginald Duprat, rosto do Padre Aniceto Fernandez, Padre Estêvão da Fonseca, frei Carlos Jacinto Videira, frei Henrique Domingos Andrade e atrás de si frei João Domingos, frei Miguel dos Santos, Padre Domingos Martins?, frei Pedro Agostinho segurando o documento e Padre luís Cerdeira com a colher de pedreiro. Atrás de si o Padre Pio Gomes e de costas o Mestre da Ordem.
Atrás os Irmãos Conversos frei António Ribeiro, do Corpo Santo, frei Jacinto Pereira, frei António Mendes, frei Bernardo de Jesus e frei Bernardo Domingues.

Aplauso finais
Da esquerda para a direita: Padre Estêvão da Fonseca, frei Carlos Jacinto Videira, frei João Domingos, frei Henrique Domingos, frei Miguel dos Santos, frei Pedro Agostinho, Padre Luís Cerdeira, Padre Pio Gomes, Mestre da Ordem Manuel Suarez, Padre Bartolomeu Martins e Padre Sylvain.

Grupo do Padres com um miúdo
Da esquerda para a direita: Padre Bartolomeu Martins, Padre João de Oliveira, Padre Clemente de Oliveira, sem capa; Padre Tomás Maria Videira e atrás de si o Padre Lourenço da Rocha. Padre Estêvão da Fonseca e atrás de si o Padre Agius, Padre Francisco Rendeiro, Padre Sylvain, D. Reginald Duprat com um miúdo aos pés, Mestre da Ordem Manuel Suarez, Padre Aniceto Fernandez e Padre Luís Cerdeira.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Santa Catarina de Alexandria Virgem e Mártir

Celebra hoje a Igreja a memória de Santa Catarina de Alexandria, mártir do século IV no Egipto. E ao celebrar esta memória recordei-me de um conselho que na minha meninice me foi dado por uma senhora já entrada na idade, a Tia Maria Pinheira. Na altura, e não sei em que circunstâncias particulares, aconselhou-me a recorrer e a rezar a Santa Catarina, porque era a advogada dos estudantes.
Não sabia grande coisa sobre esta Virgem Mártir e algumas vezes cheguei a pensar que a Tia Maria falava de Santa Catarina de Sena. Clubismos. Contudo, ao conhecer a sua história percebi porque me tinha sido dado aquele conselho e porque Santa Catarina de Alexandria é também uma das advogadas da Ordem dos Pregadores.
Antes de escrever esta nota ainda procurei algum episódio na vida de São Domingos que me fundamentasse essa devoção primitiva dominicana, mas assim à primeira não encontrei outra referência para além do nome do convento de Bolonha, convento de Santa Catarina, onde São Domingos viveu.
Santa Catarina de Alexandria viveu nesta cidade do Egipto no século quarto e ainda que as notícias sobre a sua vida tenham uma forte origem lendária, a verdade é que Tiago de Voragine, outro dominicano, na sua obra “Legenda Dourada”, construiu um magnifico relato da sua vida.
Assim, a bela jovem era filha de um rei, uma princesa que, sendo cristã e consagrada a Cristo, se recusou desposar-se com o imperador. Não conseguindo convencê-la a casar-se consigo nem a oferecer sacrifícios aos deuses, o imperador convoca um conjunto de cinquenta e três filósofos e oradores para tentarem dissuadir Catarina da sua fé em Cristo.
Catarina no entanto não só não se deixou convencer, como com os seus argumentos converteu os filósofos à sua fé em Jesus Cristo, facto que provocou a ira do imperador, que mandou queimar os mesmos filósofos e oradores.
Catarina, que entretanto tinha criticado o imperador pelas suas perseguições aos cristãos foi encerrada numa prisão sem direito a qualquer alimento. Abandonada durante doze dias foi alimentada por uma pomba branca, que lhe trazia o alimento do céu quotidianamente.
Ao ser libertada com um melhor aspecto do que tinha ao ser presa, Catarina apenas agravou a aversão do imperador, que decide justiçá-la com um suplicio atroz como era a roda dentada, atributo iconográfico por excelência de Santa Catarina de Alexandria. Contudo, e graças à intervenção divina, a roda construída de propósito para o sacrifício quebra-se no momento de dar início ao seu funcionamento, razão pela qual Catarina é decapitada. Nesse momento, e para grande surpresa dos algozes, do seu pescoço manou leite em vez de sangue e pouco depois o corpo desaparece transportado por um grupo de anjos para o monte Sinai. Ainda hoje um antigo e famoso mosteiro guarda e venera os seus restos mortais.
Santa Catarina de Alexandria é habitualmente representada com a roda dentada quebrada, instrumento do seu martírio. Também aparece com a palma do martírio, com a espada com que foi decapitada, ou ainda com a pomba branca que a alimentou. Na pintura encontramos ainda a representação dos seus desposórios místicos.
Juntamente com Santa Bárbara, Santa Doroteia e Santa Margarida forma o grupo chamado das “Quatuor Virgines Capitales”.
Que Santa Catarina de Alexandria interceda por nós e nos alcance a sabedoria para enfrentar todos os desafios.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Erguei-vos e levantai a cabeça (Lc 21,28)

Jesus deixa este convite aos seus discípulos depois de lhes ter anunciado e profetizado um fim trágico para a cidade de Jerusalém. E diante de tal anúncio, de tamanha catástrofe podemos perguntar-nos como é possível, de onde nos virá a força para nos erguermos e levantarmos a cabeça? Se no nosso dia a dia, em que tão poucas coisas acontecem, já não somos capazes de levantar a cabeça e erguer-nos, como será possível face a um desafio tão grande, a uma situação em que tudo parece perdido?
Contudo, não há outra saída, não encontraremos a libertação que o Senhor promete se não levantarmos a cabeça e nos erguermos das cinzas e destroços, não poderemos ver que ele vem sobre as nuvens com todo o seu poder e glória ao nosso encontro se não tirarmos os olhos dos nossos pés.
É a nossa dimensão humana com toda a sua finitude e fragilidade que necessita ser superada, transfigurada e fortalecida nessa confiança de que o profeta Daniel nos dá um testemunho. Face aos leões e àqueles que o acusam de um crime apenas a confiança esperançada na protecção de Deus.
Confiança gerada e crescida nesse gesto de três vezes por dia se dirigir ao Senhor seu Deus, de se recolher e dialogar com Aquele que é totalmente outro. É a oração que nos alimenta e fortalece, essa relação tão íntima em que experimentamos que o amor nos envolve e nos protege, nos conduz por sendas planas e ainda que tenhamos que atravessar vales tenebrosos não nos deixa temer.
O nosso Deus é um Deus vivo, um Deus que permanece para sempre e em todas as situações na medida em que também nós permanecemos nele, nos movemos e existimos nele. Que saibamos dizer a nós próprios como o rei Dário disse a Daniel: “O teu Deus te salvará”

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Apresentação da Virgem Maria no Templo

Tem apenas três anos, mas sobe segura e decidida os degraus de pedra que conduzem ao templo. Seu pai Joaquim e sua mãe Ana olham enternecidos, enquanto que no cimo da escadaria o sumo-sacerdote espera por ela de braços abertos.
É a imagem que nos fica e foi plasmada pela arte desta apresentação de Maria no templo, desta entrega por parte de seus pais para que fosse educada no templo e preparada para a sua missão de mãe do Redentor.
Contudo, e ainda que o apócrifo Evangelho de Tiago nos relate este acontecimento com todo o pormenor, não podemos deixar de assumir que ele é apenas fruto da sua imaginação, porque de facto e historicamente falando nunca no templo de Jerusalém se aceitaram crianças.
Estamos assim perante um acontecimento que é uma mera representação, uma construção de uma imagem que representa uma realidade muito mais profunda, e por isso, desde bastante cedo, deu origem a uma festa na Igreja. Para a Igreja Ortodoxa ainda hoje é uma das doze grandes festas anuais, o que mostra a sua importância.
Sob esta capa da apresentação da Virgem Maria no templo, da entrega por parte dos seus pais ao cuidado da instituição religiosa, manifesta-se a entrega total da Virgem Maria ao plano de Deus, a sua participação na redefinição do templo enquanto lugar e relação com Deus à luz do mistério da Incarnação do Filho de Deus.
A apresentação da Virgem Maria no templo revela-nos e remete-nos para a sua constituição como templo em que o Verbo de Deus se manifestará encarnado, no seu seio assumirá a carne de filho do homem. A apresentação de Maria no templo remete-nos também para esse outro acontecimento posterior em que o filho Jesus a louvará bem-aventurada porque cumpriu a vontade do Pai, porque aceitou participar nessa aventura de ser Mãe do Filho de Deus.
A apresentação da Virgem Maria no templo conduz-nos inevitavelmente a essa ideia de que todos somos templos do Espírito Santo e por isso a nossa relação com Deus está mais próxima do que muitas vezes imaginamos, ou até desejamos, ela está informada na nossa própria condição e dimensão humana, o que acarreta consequências de fidelidade e veneração da nossa humanidade.
Que a Virgem Maria neste dia e nesta memória desperte em nós essa consciência da nossa dimensão espacial e relacional com Deus inscrita na nossa condição humana.

domingo, 20 de novembro de 2011

Homilia do XXXIV Domingo do Tempo Comum – Solenidade de Cristo Rei

Celebramos hoje a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo e com ela damos por terminado mais um ano litúrgico. Paralelamente também a leitura do Evangelho de São Mateus conclui um capítulo importante desse mesmo Evangelho.
Um capítulo onde nos confrontámos com as parábolas das virgens loucas e sensatas e a necessidade de vigilância, depois com a parábola dos talentos e a necessidade de fazer produzir os dons que Deus nos confiou, e hoje nos confronta com as obras que podemos e devemos praticar nesse tempo de vigilância e no sentido da frutificação dos nossos dons, para que possamos partilhar da alegria e da intimidade do nosso Senhor.
É um texto que conclui o capítulo vinte e cinco mas que difere do texto das parábolas, pois nestas fala-se sempre de uma semelhança ao Reino de Deus, de realidades possíveis, da proposta de algo a realizar, e aqui estamos diante de uma realidade que já não é uma semelhança, mas um acontecimento muito concreto, o momento do juízo, da prestação de contas, o momento da vinda do Filho do Homem.
E é nesse momento que a realeza de Jesus, do Filho do Homem, que hoje celebramos, se manifesta em toda a sua glória eterna, na medida em que exercendo a justiça que lhe é natural outorga a cada um o quinhão da herança prometida e destinada desde o princípio dos tempos, ou a condenação em virtude da falta de azeite e frutos dos talentos recebidos.
Um juízo que não podemos conceber sem piedade, sem compaixão, tirânico, porque sabemos que Deus quer que todos os homens se salvem, partilhem dessa herança da eternidade e filiação divina; mas que também não podemos conceber faltando à verdade, e sobretudo a essa verdade de que Deus não nos pediu nem nos pede muito para podermos gozar da sua alegria.
Neste sentido a leitura de hoje de São Mateus é extremamente ilustrativa e pedagógica porque o acesso ao gozo da herança eterna não depende apenas de um único elemento, de um único facto. Jesus ao acolher os eleitos da sua direita menciona uma diversidade de tarefas, de actividades pelas quais podemos manifestar a caridade, viver o mandamento do amor, e fazer frutificar os dons recebidos. Dar de comer, dar de beber, vestir, assistir, visitar, acompanhar, partilhar, são muitas possibilidades para que nos possamos desculpar de não saber o que fazer ou de não poder fazer nada.
E depois, o acolhimento de Jesus, essa participação da glória, não é porque fizemos coisas extraordinárias, grandiosas, mas porque fizemos o que estava ao nosso alcance. Neste sentido, a condenação não resultará porque não libertámos aquele que estava preso, ou não curámos aquele que estava doente, mas porque estando presos ou doentes os fomos visitar e os fomos ver. É claro que se temos o poder e a capacidade de libertar e curar, devemos fazer tudo para que isso aconteça, é afinal fazer render os talentos de acordo com a nossa capacidade, mas se não temos, podemos e devemos fazer render o que está ao nosso alcance, o que nos é possível.
O exercício destas actividades, daquilo que chamamos obras de misericórdia, desafia-nos hoje de uma forma surpreendente, quase que poderia dizer tragicamente gritante. A nossa ideia de justiça, a defesa dos direitos de todos por todos, uma boa dose de egoísmo e conformismo face a necessidades que pouco têm de vitais, levam-nos a descurar muitas destas pequenas oportunidades de fazermos frutificar os dons recebidos e de viver o mandamento do amor que Jesus nos deixou.
Quantas pessoas estão nos hospitais e nos lares de idosos sem qualquer visita? E nós com tempo para passar uma tarde mirando as montras de qualquer centro comercial, apenas para passar o tempo, porque até não precisamos de comprar nada.
Quantos vizinhos isolados que não têm ninguém com quem partilhar o pobre chá que tomam? E nós empanturrando-nos de pipocas com um comando de canais de televisão na mão, qual ceptro de um rei.
Quantos cachorros ocupam os nossos apartamentos, nos obrigam a levantar cedo e faça chuva ou faça sol temos que levar a passear? E falta-nos o espaço e o tempo para o avô e a avó, ou pior ainda, para um filho. Dão tanto trabalho e não os podemos abandonar no canil quando já estivermos fartos.
Quantos colegas e companheiros de trabalho estão sobrecarregados de trabalho? E nós desfrutando de mais um jogo no computador, sem um gesto de ajuda e partilha.
Como nos poderemos desculpar de tudo isto e tantas outras coisas que estão à nossa mão? Não deveríamos fazer da compaixão um mote da nossa vida, cientes de que o mais pequeno gesto para com qualquer um mais pequeno, mais fraco ou necessitado está ao nosso alcance e é a viabilização do acesso à promessa de Deus e da sua glória?
São Paulo na Primeira Epistola aos Coríntios diz-nos que é necessário que Jesus reine até que submeta todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. Ao viver a caridade e a compaixão, ao exercitar esses pequenos gestos de misericórdia, cada um de nós está a contribuir com a sua capacidade e com o seu esforço para a vitória destes inimigos que o Senhor combate e deseja submeter, para a instauração do seu Reino. De acordo com a sua promessa temos a garantia de participar e partilhar da sua vitória final.
Quem de nós não deseja estar do lado dos vencedores? Já só este desejo tão mundano e humano nos deveria mover a fazer alguma coisa de diferente. Que o Senhor desperte em nós esse desejo de participar da sua vitória, porque venceremos com ele a morte.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Santo Alberto Magno Devoto da Virgem Maria

Quando o Papa Pio XII, em 1942, atribuiu Santo Alberto Magno como patrono aos cientistas e investigadores das ciências naturais, uma parte da sua investigação e reflexão caiu no esquecimento, ou pelo menos perdeu alguma importância. A sua versatilidade e interesse pelos diversos ramos das ciências naturais fez com que a reflexão teológica e mormente a sua teologia mariana fosse um pouco esquecida.
Contudo, e à luz da história da teologia mariana, Santo Alberto Magno é um dos maiores, se não o maior, teólogo medieval; e não só por causa da sua obra “Mariale”, um célebre e extenso tratado sobre todas as questões relativas a Maria, questões ainda hoje pertinentes e que continuam a exigir reflexão e estudo, mas sobretudo porque são raras as suas reflexões teológicas e comentários bíblicos que não tocam a Virgem Maria e a sua cooperação na obra da redenção.
Deixamos uma oração escrita por Santo Alberto Magno, certamente muitas vezes rezada por ele, e pela qual podemos ter uma ideia do seu pensamento teológico e devoção à Mãe de Deus.

Salvé, Humanidade do Redentor, que no seio virginal te uniste com a eterna Divindade.
Salvé, suma e eterna Deidade, que vieste até nos sob o véu da nossa carne.
Mil vezes Salvé a ti, que pela virtude do Espírito Santo te uniste à carne virginal.
Salvé, também a ti, Maria, na qual, a plenitude da Divindade, estabeleceu corporalmente a sua mansão.
Salvé a ti, em quem habita sem medida a plenitude do Espírito Santo.
Salvé também à puríssima Humanidade do Filho, que foi abençoada pelo Pai e veio até ti.
Salvé, Imaculada Virgindade, que foste exaltada acima dos coros dos anjos.
Rejubila Senhora do mundo, que foste digna de ser Templo da puríssima Humanidade de Cristo.
Rejubila e alegra-te, Virgem das Virgens, em cuja carne a bem-aventurada Deidade quis unir-se a esta puríssima Humanidade.
Rejubila, Rainha do Céu, em cujo santíssimo seio, esta Humanidade encontrou digna morada.
Rejubila e alegra-te, Nobre Esposa dos Patriarcas, que foste digna de nutrir em teu seio virginal e amamentar a esta santa Humanidade.
Louvor e bênção a ti pelos séculos dos séculos, oh Fecundíssima Virgindade, pela qual nós fomos dignos de recolher o fruto da salvação eterna. Ámen.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Senhor, que eu veja. (Lc 18,41)

Senhor, que eu veja!
Para um cego que se encontra à beira do caminho e que Jesus manda vir ter consigo e lhe pergunta o que deseja é a resposta mais natural, afinal o milagre esperado toda a vida.
Contudo, é um pedido um tanto ou nada paradoxal, porque no conjunto de todos os presentes este cego é aquele que verdadeiramente vê quem vai a passar e por isso pode clamar: “Jesus, Filho de David tem piedade de mim”.
Assim sendo, o pedido de visão do cego vai para além da visão física, o seu desejo e o seu pedido é o da visão da glória do Messias que passa e ele reconhece.
No Evangelho de São Lucas este é o último milagre de Jesus, um milagre que restitui a visão a quem tem fé, para que possa ver tudo o que se vai passar depois e no escândalo da cruz e da morte contemple a glória do Messias.
Corroborando esta leitura aparece a multidão, que num primeiro momento se apresenta acompanhando Jesus sem mais qualquer sinal identificativo. É apenas uma massa amorfa e cujas intenções de propriedade e controle sobre aquele que passa se manifestam na repreensão ao cego que clama pelo Messias.
Eles vêem e acompanham aquele Jesus mas não sabem verdadeiramente quem ele é. Será o milagre da cura a projectar sobre esta multidão uma outra identidade e por isso quando retomam o caminho não é já uma multidão amorfa que segue Jesus, mas um povo que dá graças e louva a Deus pelo sucedido. Agora também eles vêem.
Também nós necessitamos pedir ao Senhor Jesus que tenha piedade de nós e nos abra os olhos, nós que tantas vezes o seguimos com esse mesmo espírito de propriedade, não vendo verdadeiramente quem seguimos. Que o Senhor Jesus nos abra os olhos para o vermos presente e activo na nossa vida, e sobretudo nessas realidade e situações em que nos sentimos à beira do caminho, em que parece que ele está ausente e nos abandonou.
Permite-nos Senhor ver a tua glória onde ela se oculta.

domingo, 13 de novembro de 2011

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum

À medida que nos aproximamos do fim do ano litúrgico as leituras da Palavra de Deus colocam à nossa reflexão a necessidade de estarmos preparados e vigilantes, na expectativa desse fim dos tempos em que Jesus virá para julgar todas as obras dos homens e mulheres.
No domingo passado o Evangelho apresentava-nos a parábola das virgens que vigilantes aguardavam a vinda do Senhor e nesse sentido éramos alertados para a necessidade desse estado de vigilância que faz parte do ser cristão. Contudo, havia também já nessa parábola algumas insinuações muito concretas sobre uma outra realidade do ser cristão, a necessidade de enquanto se vigia se produzir alguma coisa, a necessidade de rentabilizar o tempo de espera, realidade essa bem patente hoje na parábola dos talentos que o Evangelho nos apresenta.
Um senhor parte de viagem e distribui os seus bens pelos seus servos de acordo com a capacidade de cada um, ou seja, sem impor a ninguém mais do que podia suportar. A imagem mostra-nos um senhor, e um Deus, que tem em conta a capacidade de cada um e por isso não entrega nem cria cargas pesadas para que os seus servos levem. O mistério da encarnação do Filho de Deus, mistério fundamental da nossa fé, tem também esse objectivo didáctico de nos ensinar e mostrar que os talentos entregues a cada um estão à dimensão da nossa capacidade humana. Na nossa humanidade podemos e devemos rentabilizar e fazer produzir aquilo que Deus nos entregou.
No regresso da longa viagem do senhor, cada um dos servos entrega o que recebeu e o que conseguiu fazer render dos dons recebidos, dentro das suas capacidades. Há nesta parábola uma proporção entre o recebido e o produzido, facto que não se verifica na parábola paralela do Evangelho de São Lucas em que o recebido de forma equivalente por todos produz de forma diferente. Podemos ver nesta proporcionalidade do Evangelho de São Mateus uma rentabilidade que mais que fruto do próprio é igualmente dom do Senhor, dom da audácia e da alegria do recebido, e colocado à disposição da frutificação. E por isso no momento da entrega do recebido e produzido atribuem ao senhor tudo o que entregam.
Tragicamente o servo que recebeu apenas um talento entrega esse mesmo talento, justificando-se com o medo e o conhecimento que tinha do senhor. Esse medo, um conhecimento errado do seu senhor, e a preguiça de tentar fazer render o possível, tinha inviabilizado a própria acção produtiva do dom recebido.
Contudo, nesta prestação de contas, não podemos esquecer que em nenhum momento da parábola se diz que o senhor esperava mais ou menos resultados, porque afinal o que está em causa é o esforço e a disponibilidade para fazer render o talento recebido.
Neste sentido, e tendo presente que a parábola se dirige hoje a cada um de nós, temos que assumir os dons recebidos e vive-los não como uma divida que nos será cobrada, da qual teremos que pagar juros, mas como uma oferta que nos é feita para nosso engrandecimento e realização, para que possamos viver e partilhar o gozo da intimidade do Senhor. Esse é o verdadeiro e último rendimento, prémio se assim quisermos dizer, que os servos recebem pela aplicação dos talentos e dons recebidos.
Continuando na actualidade da parábola, e tendo presente alguns dos nossos valores, podemos questionar-nos se de alguma forma não houve um predilecção, uma injustiça na atribuição dos dons, pois parece que houve dois pesos e duas medidas. A um foi dado muito para fazer render e a outro apenas um pouco.
Antes de mais esta questão esquece que foi dado a cada um segundo as suas capacidades, e depois esquece também que muitos de nós temos os olhos mais abertos para os dons e os talentos dos outros do que para os nossos, que nos sentimos muitas vezes inferiorizados pelo que os outros têm e são, caindo dessa forma nesse pecado capital que se chama a inveja.
Com esta atitude e nesta situação esquecemo-nos que todos somos diferentes, que a nenhum de nós foi dada a possibilidade de escolher os seus dons e talentos, (o que ainda temos que agradecer a Deus porque de contrário morreríamos envenenados pelo nosso próprio orgulho), e que, o que é importante e o que nos deve mover, é a possibilidade de frutificação e rentabilização dos nossos talentos e dons, o chamado “dar o litro” de tudo o que recebemos, seja muito ou seja pouco.
E é importante esta consciência para que os dons e talentos frutifiquem, para que a sua própria força seja desenvolvida, porque se nos mantivermos na inveja e na expectativa de dons que são dos outros acabaremos por acabar excluídos do gozo do Senhor, num estado de loucura que nos conduzirá à condenação.
O filme “Amadeus”, em que Milos Forman narra uma história sobre Mozart e a inveja que Salieri desenvolve pelo talento do jovem compositor é neste aspecto um fabuloso exemplo. Um compositor bem sucedido na vida, reconhecido na corte, que desde pequeno tinha consagrado todo o seu génio e a sua vida ao serviço e à glória de Deus através da música, vê-se subitamente preterido por um miúdo que compõe uma musica sublime mas que não tem respeito por nada nem por ninguém, que é um desleixado e um boémio.
Diante de tal injustiça, numa noite de oração e loucura Salieri recusa-se a continuar a servir Deus com a sua música e o seu trabalho e gera a ambição de destruir Mozart e o seu talento, o talento que Deus lhe proporcionava admirar. Tal desejo apenas o conduz à loucura e à morte do outro, ao desenvolvimento de uma cadeia de sofrimento e tristeza.
Necessitamos por isso diante da parábola dos talentos descobrir o que Deus nos ofereceu como dom e fazê-lo crescer, frutificar, preocupados não com o que os outros têm ou fazem, mas com o que aqui e agora podemos fazer em pleno com o que temos, afastando-nos desse modo da inveja, da loucura ameaçante e da condenação de Deus por não termos feito o pouco que podíamos fazer.
Que o Senhor nos conceda a graça e a alegria de ver e amar o que Deus colocou em nós para crescer e ajudarmos a frutificar.



sábado, 12 de novembro de 2011

O FACHO Nº3 – 24 de Maio de 1947.

O FACHO Nº3 – 24 de Maio de 1947.

Seminário Dominicano
Aldeia Nova – Olival

Maio Florido
Mística harmonia é a do nome deste mês que nos apresenta as flores da natureza e nos lembra a Virgem Maria. Há quanto tempo é Ela celebrada especialmente neste mês? Não é fácil dizer-se.
Mas as flores com que adornamos seus altares, as flores de que Deus tão profusamente enche os nossos campos e jardins bem nos mostram que não podíamos escolher melhor ocasião para honrar Aquela que na linguagem inspirada da Liturgia tantas vezes se chama Rosa Mística, Flor de Jessé.
Maio, até o nome deste mês é o que mais semelhança tem com o nome de Maria.
Maio foi o mês que Virgem escolheu para começar as suas comunicações à terra portuguesa de Fátima, porque mesmo a Serra de Aire tem em Maio seus encantos. Tão árida ela é no resto do ano! Mas em Maio cobrem-se as azinheiras de seus tenros rebentinhos que espalham no fundo verde escuro uma alegre tonalidade mais clara. Em Maio também a Serra tem as suas flores agrestes.
Maio de 1947! Há 30 anos que a Virgem veio visitar Fátima! Há 30 anos que a Serra de Aire é um constante Maio florido na Cova da iria. É que os pés imaculados da Virgem ao poisarem naquela terra agreste aí fizeram aparecer as mais variadas flores. São rosas brancas das graças que se recebem, rosas vermelhas do sangue que se derrama, rosas roxas da penitência, dos sacrifícios, das lágrimas do arrependimento.
E a humanidade inteira caminha para Fátima a adornar o altar da Virgem com todas as suas rosas. Dezenas, centenas de milhar de peregrinos. Só Deus que vê as almas e lhes lê seus sentimentos pode contemplar os encantos desse jardim humano.
São as raparigas de todo o mundo nessa peregrinação internacional a ofertarem à Virgem a sua mocidade em flor; são os rapazes nessa jornada custosa de penitência a consagrar-lhe o seu vigor.
Fátima vê passar as multidões numa só fé, aclamando em uníssono Aquela que o Anjo há dois mil anos saudou “Bendita entre as mulheres”.
É Maio florido diante do altar da Virgem. É Maio de Maria.

Santos do Mês
5 de Maio – S. Pio V (o pastorinho de Bosco)
Chamava-se Miguel e guardou as ovelhas de seus pais até aos 12 anos. Foi então que dois religiosos dominicanos o encontraram uma vez por acaso e de tal modo ficaram impressionados pelo seu talento e bondade que lhe propuseram levá-lo para o convento. Era a realização das maiores aspirações do pastorinho.
Consentiram seus pais e dois anos mais tarde recebia ele o hábito branco de S. Domingos. Foram extraordinários os seus progressos na ciência e na virtude, até que chegou a ocupar a cadeira de S. Pedro, com o nome de Pio V. ficou conhecido na história pelo Papa do Rosário, pelo seu amor a esta devoção que lhe alcançou a famosa vitória de Lepanto.

10 de Maio – S. Antonino – Arcebispo de Florença
Tinha 15 anos e era de estatura muito pequeno quando se apresentou ao Beato João Dominici a pedir-lhe a sua admissão na Ordem Dominicana. A resposta que recebeu era uma maneira graciosa de o dissuadir: “Quando souberes de cor esse livro que andas a estudar, volta”. Passado um ano Antonino apresentou-se ao mesmo Superior, com o livro inteiramente decorado (eram os Decretos de Graciano). Foi admitido e chegou a ser um eminente religioso que o Papa escolheu para Arcebispo de Florença.

12 de Maio – Princesa S. Joana
A filha de D. Afonso V de Portugal é hoje venerada nos altares sob o hábito branco de S. Domingos. No palácio de seu pai, cedo manifestou fortes tendências para a vida de piedade. Recusou vantajosos casamentos que se lhe ofereceram e foi enclausurar-se no Mosteiro de Jesus de Aveiro. Aí viveu até à morte em 1490 (com 39 anos) dando sempre o exemplo da mais admirável humildade, uma princesa a varrer a casa, a fazer todas as limpezas e ocupava-se nos mais baixos serviços, ela assim o queria. Os seus restos mortais são hoje venerados em rico mausoléu de mármore no coro do mosteiro onde viveu.

14 de Maio – S. Fr. Gil de Santarém
Era médico e fora especializar-se em Paris. Mas nesses anos de estudo entregou-se à vida desvairada e licenciosa, constando até que fez um pacto mágico com o demónio, prometendo-lhe a sua alma em troca de uma protecção especial que lhe garantiu sempre os sucessos na sua arte. Tocado pela graça converteu-se e tomou o hábito de S. Domingos.
De regresso a Portugal foi um dos primeiros pioneiros da Ordem na nossa Pátria. Era natural de Vouzela, mas porque viveu e morreu no convento de Santarém, daí lhe ficou o nome. Segundo a tradição foi na igreja deste convento que ele obteve por intercessão da Santíssima Virgem a restituição do pacto que assinara com seu sangue, entregando a sua alma ao demónio. Desde esse momento gozou de imensa paz e assim morreu em 1265.

TALVEZ que o próximo número do nosso “Facho” saia impresso. Ainda não garantimos mas estão as coisas encaminhadas para isso. A tipografia já aceitou, faltam apenas algumas formalidades indispensáveis. Assim podemos fazer chegar as nossas notícias a um número muito maior de amigos e benfeitores que se interessam por nós.

Duas Imagens
O nosso Oratório enriqueceu-se agora com 2 imagens no seu altar. Bastante falta faziam. Alguém que viu a fotografia que lhe enviámos notou essa falta e ofereceu-nos 2 lindas imagens: Nossa Senhora de Fátima e S. Domingos.
Lá estão elas agora expostas à nossa veneração, a lembrar-nos o que devemos à boa Mãe do Céu e a nosso glorioso Patriarca.
Muito obrigado à Senhora D. Maria Luísa Pimentel, a quem já devemos tantas finezas.

A Correspondência do Facho
“Recebi o 2º número do “Facho”. É muito bom, é pequenino, não maça ninguém; é grátis mas é preciso que nós os leitores o auxiliemos e o façamos crescer para que assim cresça também a nossa compreensão do bom fruto que dele podemos colher”. A.A.C. – Lisboa.
“Recebi há tempos o jornalzinho tão interessante dos nossos seminaristas. Achei imensa graça. Junto remeto 50$00. É para pagar a minha assinatura”. C.S.T. – Lisboa.
Muito agradecemos tão elogiosas referências ditadas pela bondade dos nossos leitores, que não pelos méritos do “Facho”. Mas prometemos esforçar-nos por merecê-las.

Um Passeio a Ourém
É já tradicional o nosso passeio ao vetusto castelo de Ourém. Este ano foi no dia 12 de Abril. Todos os anos lá vamos admirar essas históricas ruínas que foram testemunhas de tantas batalhas antes mesmo de pertencerem aos portugueses.
A antiga vila de Ourém hoje quase deserta, está situada no cabeço que domina a 3 kms de distância a actual Vila Nova de Ourém. Já era importante no tempo dos godos. Foi tomadas pelos mouros em 715 e por D. Afonso Henriques em 1136.

O Facho em Espanha
“É com entusiasmo que devoramos aqui as colunas do “Facho” vivendo essa alegria que anima os nossos Apostólicos. Os nossos votos mais sinceros são para que melhore cada vez mais na apresentação e que o número dos seus leitores seja cada vez maior”.
É de uma carta dos nossos estudantes dominicanos em Valência (Espanha). De Calanda, onde está o mais novo dos nossos antigos companheiros, recebemos igualmente palavras animadoras. “O Facho” leva-lhes as nossas notícias, vai recordar-lhes os tempos que viveram connosco, neste Seminário por onde passaram. Sim, porque Calanda e Valência, esses dois conventos de formação dominicana, são como que a continuação do nosso Seminário: para lá iremos nós também depois de terminado o nosso quinto ano de preparatórios.
Caros irmãos de Espanha, “O Facho” também é vosso; e quando sair impresso (o que esperamos seja muito brevemente) há-de trazer sempre o vosso cantinho. Venham, pois, notícias e colaboração.

Crónica de Abril
Tomámos parte nas cerimónias realizadas na igreja paroquial do Olival. Graças ao trabalho do Sr. António Rodrigues Vieira, nosso estimado professor de música, o grupo coral saiu-se bem e agradou.
Páscoa: Fizemos o sacrifício de não ir a férias. Já sabemos que é assim o Regulamento do nosso Seminário. Custou-nos um pouco, mas podemos dizer que a nossa Páscoa foi bem alegre. Preparámos uma pequena récita, inteiramente original e tivemos a consolação de satisfazer plenamente os assistentes.
14 de Abril: Recomeçaram as aulas. Mais um trimestre. É a última arrancada para a vitória final dos exames. Oxalá.
Os que ficam pelo caminho: Este mês vimos partir um dos nossos companheiros mais adiantados. “São muitos os chamados e poucos os escolhidos”, terrível palavra. Mas enfim, para nós os que se vão não interessam, o que importa é sermos fiéis, os que ficamos. Pedi, caros amigos, a nossa perseverança.

Que a tua mão esquerda não saiba…
Na vida do nosso Seminário há delicadezas que nos enternecem e fazem cantar bem alto a Providência do Senhor. Chegou-nos há dias uma carta registada de Coimbra. Trazia dentro apenas o seguinte: uma nota 100 escudos e num papel escrito a lápis: “um pequenino grão de areia para a obra de V. Rev”. Nem data nem assinatura.
No remetente da carta, talvez por exigências do registo, figuram um nome e uma morada. Escrevemos a agradecer; e a nossa carta foi-nos devolvida com a seguinte nota dos correios: esta pessoa é desconhecida nesta morada. Só Deus conhece o autor desta acção, e nós não faremos comentários.

Donativos para o nosso jornal
Para não ferirmos a humildade dos nossos benfeitores publicamos apenas as abreviaturas dos seus nomes.
A.A. Coelho – Lisboa – 50.00
M.J.P.R. – Porto – 100.00
M.P.L. – Granja – 20.00
C.S.T. – Lisboa – 50.00
N.P.G. – Olival – 50.00
Que Deus a todos recompense.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Jesus disse-lhes: “Onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres” (Lc 17,37)

Jesus continua a sua instrução aos discípulos sobre o fim dos tempos, sobre o juízo final e para mostrar a inevitabilidade, mas também o conhecimento possível desse acontecimento, apresenta as histórias de Noé e de Lot.
São histórias em que os elementos tradicionalmente reconhecidos como purificadores aparecem, a água que submerge o mundo conhecido de Noé e o fogo que consome a cidade de Sodoma onde Lot habitava.
Mas se estas duas tragédias mostram um juízo, um exercício de prestação de contas por parte de Deus, revelam também que a relação com Deus, a viva vivida na fidelidade aos mandamentos do Senhor, possibilitam uma salvação desse juízo e dessa condenação.
E por isso, quando os discípulos, imitando os fariseus, perguntam pelo local de tal acontecimento, Jesus responde-lhes com essa resposta para nós hoje um pouco enigmática mas bastante concreta e perceptível para os que o ouviam.
“Onde estiver o corpo se juntarão os abutres”, porque estas aves necrófagas se juntam para devorar os corpos sem vida, os corpos caídos no deserto, e os discípulos sabiam disso.
Ora, se assim acontece na natureza, também o mesmo acontece na vida espiritual, na realidade do juízo final e do fim do mundo. Serão aqueles que estão mortos que serão devorados, que serão consumidos pelo fogo e pela água, pelos abutres, porque os vivos serão tomados e serão levados, serão preservados pela própria vida que transportam em si.
E esta vida é o conhecimento de Deus, a permanência nele. Quem conhece a Palavra de Deus e permanece nela, vive para sempre, porque esta palavra não passará ainda que passem o céu e a terra. São estas as promessas de Jesus e são também o testemunho que nos deixam Noé e Lot, que permaneceram na Palavra de Deus através da sua fidelidade.
Peçamos por isso ao Senhor que nos ajude a estar atentos à sua Palavra e a permanecer nela para não perecermos, porque a sua Palavra é vida e vida eterna.





quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Visitas e benfeitores no Seminário Dominicano de Aldeia Nova


O segundo número do jornal do Seminário Dominicano de Aldeia Nova, “O Facho”, entre as palavras de apreço recebidas pela publicação, os donativos para o jornal e a crónica das actividades, faz referência a várias pessoas.
Entre o espólio fotográfico do Arquivo Histórico Dominicano encontrámos uma fotografia de uma visita ao Seminário por um grupo de benfeitoras e amigos. Nela podemos não só identificar duas irmãs Dominicanas que se encontravam em Fátima e tão amavelmente tinham recebido o grupo dos seminaristas na sua peregrinação do dia 13 de Março, como também D. Carolina Melo e Faro, que muito estimou a iniciativa de “O Facho” e desejava fosse de proveito para os futuros dominicanos.
Fica mais um testemunho da história da restauração da Província e uma singela homenagem àqueles que para além dos frades contribuíram para essa restauração.

Visita ao Seminário Dominicano de Aldeia Nova
Sentadas: Madre Madalena, D. Carolina Melo e Faro, e Madre São Carlos.
De pé: Padre José, Frei João de Oliveira, Frei Clemente de Oliveira e Senhor Quintela.

O FACHO Nº2 – 6 de Abril de 1947.

O FACHO Nº2 – 6 de Abril de 1947.
Seminário Dominicano
Aldeia Nova – Olival

Ressuscitou
Talvez não haja no ciclo litúrgico da Santa Igreja outra festa em que a alegrai cristã seja tão comunicativa. A própria palavra Aleluia, alegrai-vos, está continuamente nos lábios da Igreja nestes dias festivos. Depois da tristeza da Quaresma, depois dos lutos da Semana Santa em que as almas vivem o mistério trágico da morte de um Deus para resgate dos homens, sente-se o ressuscitar de uma vida nova.
Cristo ressuscitou e vive agora de uma vida gloriosa impassível. E o cristão ressuscitou também. A morte do pecado foi vencida pela morte de Cristo.
A graça espalha-se de novo pelo mundo das almas, em torrentes jamais verificadas. Importa realmente que esta vida nova não seja apenas impressão passageira de sentimentalismo, mas renovação profunda, regeneração espiritual. “Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, saboreai as coisas do céu, onde Cristo habita”. Era esta a linguagem do Apostolo São Paulo para quem a Ressurreição de Cristo simbolizava tão expressivamente a ressurreição da alma que não deve voltar mais à morte do pecado.

Boas Festas
A todos os seus estimados leitores, a todos os amigos e Benfeitores do Seminário Dominicano deseja “O Facho” uma Páscoa muito feliz.

Um Centenário
Passou a 25 de Março um centenário dominicano que não pode ficar esquecido. Em igual dia de 1347 nascia aquela menina que viria a ser Santa Catarina de Sena. Era a 25ª filha de Tiago Benincasa e de Lapa Pagenti, humildes tintureiros na cidade de Sena.
Aos 16 anos tomou o hábito das Terceiras Dominicanas, continuando a viver em casa de seus pais. Quem ousaria prever a influência que viria a exercer no mundo das almas e na própria vida pública da Santa Igreja essa humilde rapariga.
É que as frequentes manifestações de Deus à sua alma faziam-na viver inteiramente no mundo sobrenatural. Muitos dos seus concidadãos não puderam resistir aos atractivos da sua vida espiritual e em breve se formou um grupo de discípulos que seguiram fielmente os seus exemplos e a sua direcção espiritual. Os próprios confessores e directores espirituais, entre eles o Beato Raimundo de Cápua, submetiam-se aos seu influxo espiritual.
As suas visões e êxtases eram sem número. Foi num período de êxtases quase contínuos que ela ditou esse famoso livro dos “Diálogos”, um dos mais extraordinários da espiritualidade cristã. “Os Diálogos” não são propriamente uma obra humana, são as próprias palavras que o Eterno Pai dizia a Catarina nos seus êxtases. A sua actuação política no seio da Igreja foi a mais extraordinária que jamais uma mulher exerceu. Ela foi a conselheira dos Papas, foi o instrumento da recondução do Pontífice Romano de Avinhão para a sua verdadeira sede em Roma.
Só depois de realizada esta suprema aspiração da sua vida é que Catarina morre a 29 de Abril de 1380 com 33 anos e poucos dias.
Morreu, mas os santos não morrem. Trocam esta vida miserável pela eterna glória, deixando atrás de si rastos luminosos a guiar a pobre humanidade para as alturas do sobrenatural. Nas suas Cartas e nos seus “Diálogos”, Catarina transmite-nos a mensagem do céu; pena é não termos uma tradução portuguesa dessas obras.

S. Catarina Anjo da Paz
Nas épocas perturbadas para um povo, nas horas de angústia para uma raça, uma família até, muitas vezes surge um ser salvador que parece dissipar o perigo ameaçador, a desgraça próxima. É um filho da Pátria em perigo, que animado duma força interior se ergue no meio dos seus compatriotas, e dum gesto heróico desfaz a catástrofe ameaçadora.
Folheando a história dos povos nós vemos que este anjo pacificador é representado ora por um braço forte, ora figurado pela mão fraca duma mulher. Lancemos um olhar sobre o século XIV, e numa vista de olhos, vejamos o estado de anarquia em que se encontra a Itália, a situação crítica do património da Igreja.
Guerras, revoltas, rebentam por toda a parte. Tropas mercenárias vindas de quase todos os pontos da Europa ameaçam de morte o património pontifício. Roma, abandonada pelos seus Pontífices, única esperança da unidade italiana, cai em ruínas. Além desta chaga, o flagelo da peste e da fome, lança a sua nota de desespero sobre as almas desoladas que não podem mais. E enquanto um grito de angústia se levanta na atmosfera pesada, uma Virgem de Sena chamada Catarina, cuja fama de milagres e virtudes extraordinárias ultrapassam já as muralhas natais, toma o seu voo para ditar aos potentados e aos reis da terra a vontade de Deus, a paz entre os povos e sobretudo nos corações.
Semelhante a uma pomba, Catarina, voa levada sobre as asas do amor de república em república, desprendendo à sua passagem o perfume das suas virtudes e dos seus milagres extraordinários.
De linhagem plebeia apresenta-se aos magistrados do povo, é admitida ao Conselho dos grandes, para os esclarecer na situação crítica em que se encontram. É que eles vêem nesta extática que o mundo admira já qualquer coisa de extraordinário. A sua palavra ardente de amor pela paz aquece a tibieza dos chefes do povo! A estes ela pede para organizarem uma cruzada, único meio de pôr fim às lutas que dilaceram a Cristandade, e do Soberano Pontífice cuja ausência já causa desespero, ela implora o regresso a Roma.
Mas enquanto a sua influência pacificadora serena revoltas, impede alianças perigosas, outras tempestades se levantam ao longe, cujo ruído repercute já no coração de Catarina.
E um tal espectáculo arranca do seu coração o gesto mais heróico que existe, o oferecimento da sua própria vida pela paz na Igreja e do seu povo. “Pai Eterno dignai-vos aceitar a minha vida pelo Corpo Místico da Santa Igreja. Eu não posso dar-vos senão o que vós me destes. Tomais pois o meu coração e espremei-o sobre a face da vossa Esposa”.
Deus aceita oferta tão generosa e sobre a campa de Catarina floresce uma dupla flor: uma Itália nova e a Igreja restaurada.
Frei Estêvão da Fonseca Faria.

Crónica de Março
No último número referimo-nos à festa de S. Tomás que então estava a preparar-se. Foi o melhor que pudemos realizar. Houve um tríduo de pregação.
No próprio dia foi transportado Solenemente o Santíssimo Sacramento da Capela para o nosso Oratório onde ficaria permanentemente. Cantámos a Missa a duas vozes. De tarde fizemos uma pequena sessão solene e recreativa em honra de S. Tomás.
Dia 13 alta madrugada levantámo-nos, ouvimos Missa e iniciámos a nossa peregrinação à Cova da Iria. Bem hajam as Irmãs Dominicanas que nos receberam tão hospitaleiramente.
Dia 19, como era de justiça S. José foi festejado solenemente
Dia 29, sábado de Ramos foi o último dia de aulas. Começaram as férias e nós preparámos as cerimónias da Semana Santa.
ULTIMA HORA, chega-nos pelo correio um pequeno embrulho com 6 exemplares do Almanaque de Santo António. Muito obrigado Senhora Dona A., pela boa lembrança. Temos cá a biblioteca do nosso seminarista que muito precisa de leituras amenas e instrutivas. Oxalá que o exemplo seja imitado.

Leiam Todos
“O Facho” é um jornal de graça. Ninguém vos pedirá o preço da sua assinatura. Mas então de graça? De graça, sim senhor, que é para poder viver. Se nós exigíssemos dos leitores o pagamento da assinatura condenávamos “O Facho” a morrer, logo à nascença. Assim de graça só vive enquanto os leitores quiserem.
E quereis saber como viverá “O Facho”? É desta maneira:
Logo no dia em que saiu o 1º número aparece-nos um leitor anónimo que nos pergunta: - Quanto é a assinatura? Quero pagar já.
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E deixou-nos 50$00. Temos mais leitores desta categoria, noutro lugar publicamos o que recebemos. E, é assim que “O Facho”, jornal de graça, viverá.

Apreciações
É com gosto que registamos as seguintes apreciações que nos fizeram.
“Estimei muito “O Facho”, iniciativa de proveito para os futuros dominicanos.”
D. Carolina M. Faro
“Recebi o jornalzinho do Seminário. Gostei muito, e muito lhe agradeço.”
D. Adelaide A. Coelho.
“Acabo de receber o 1º número do jornal do nosso Seminário e apresso-me a escrever-lhe, para pedir a V. Rª. para em meu nome felicitar os nossos rapazinhos e entregar-lhes estes 20$00 para ajuda da tipografia. Assim é que se começa e quem sabe se mais tarde, eles ainda irão prestar uma grande ajuda à nossa Religião, com os seus artigos. Creia que achei imensa graça e cá espero o nº 2.”
D. Maria do C. Machado
Agradecemos muito estas lisonjeiras referências que nos animam a prosseguir. Nenhum leitor manifestou desagrado. Se alguns não gostaram calaram-se, bem sabemos com quantos defeitos saiu e continua a sair “O Facho”. Esforçar-nos-emos por corrigir o que pudermos.
Donativos para o nosso jornal
Anónimo de Urgueira – 50$00.
D. Maria Adelaide Coelho da Silva – 100$00.
D. Maria do Carmo Machado – 20$00.
D. Emília A. C. Pessoa – 20$00.

Livros Dominicanos
“Ao Serviço de Jesus e sua Mãe. Opúsculo sobre a Ordem Dominicana”; 40 páginas, profusamente ilustrado. Preço; 2$00.
“Frei Bartolomeu dos Mártires”, por Mons. José de Castro. Preço: 10$00.
“Nossa Senhora na minha Vida”, por Padre Bernadot, OP. Preço 15$00.
“Nossa Senhora nos Mistérios de Deus”, por Frei Palha, OP. Preço 10$00.
“Dicionário de Doutrina Católica”, pelo Padre José Lourenço. Preço 15$00.
Mandar vir estes livros é auxiliar o seminário Dominicano.

O Reino de Deus está no meio de vós (Lc 17,21)

Uma vez mais Jesus se encontra e confronta com os fariseus. Desta feita a questão coloca-se sobre a vinda do Reino de Deus, sobre o momento em que é possível dizer que está ali, presente, a acontecer.
A resposta de Jesus não podia ser mais óbvia, o Reino de Deus estava ali no meio deles, estava a acontecer naquele momento, e um dos sinais desse acontecimento eram os dez leprosos que pouco antes tinham ficado curados. O importante era portanto ver, querer ver o acontecer do Reino de Deus.
Mas porque a realidade do Reino de Deus era uma questão em aberto, não se tratava tanto de um quando nem de um onde, Jesus avisa e prepara os discípulos para essa realidade, para essa necessidade de descobrir o Reino de Deus num acontecer fluido.
A questão fundamental do Reino de Deus é assim uma questão de qualidade de manifestação e presença activa. O Reino de Deus está de facto já entre nós, necessitamos apenas iluminá-lo e manifestá-lo.
Para Jesus a presença do Reino de Deus manifestava-se na sua presença, nesse mistério da Incarnação do Filho de Deus, e portanto quem o visse e se encontrasse com ele nos sinais que desenvolvia encontrava-se com o Reino de Deus, presente, ali e naquele modo.
Para nós o Reino de Deus está também presente, flui na história e na vida de cada um de nós, e por isso apenas necessitamos manifestá-lo, dá-lo a conhecer com a qualidade da nossa vida alicerçada na fé, na esperança e no amor. Cada gesto de compaixão, cada acto de justiça, a busca comum da verdade, manifestam essa presença, iluminam essa realidade presente e actuante com a nossa colaboração.
Peçamos ao Senhor que nos conceda a Sabedoria, que é mais ágil que todo o movimento, que atravessa e penetra tudo devido à sua pureza, para sabermos manifestar e iluminar todas as realidades que traduzem a presença de Deus e do seu Reino entre nós.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Não façais da casa de meu Pai casa de comércio (Jo 2,16)

A manifestação violenta de Jesus no templo de Jerusalém e a ordem a não fazer da casa de Deus um lugar de comércio é uma consequência das palavras do profeta Zacarias, que já tinha profetizado esta situação como um sinal messiânico (Za 14,21), e das palavras tantas vezes rezadas por Jesus no Salmo 69 “devora-me o zelo da tua casa”.
É o zelo pela pureza da casa de Deus, pela libertação da necessidade de sacrifícios incomensuráveis e intermináveis, é o zelo pelo regresso à simplicidade da relação com Deus estabelecida e vivida na intimidade do coração.
E por isso o corpo é o novo templo de Deus, o novo espaço da relação com Deus, um corpo que se reconhece obra divina e habitáculo da presença divina. É pelo corpo que nos encontramos com o outro e podemos viver o amor, mandamento de Deus, é no corpo que nos encontramos com a nossa finitude e essa ânsia de eternidade que só Deus satisfaz.
Somos templos de Deus e o Espírito de Deus habita em nós como nos diz São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios. Mas tal verdade obriga a assumir uma veneração respeitosa pelo nosso corpo, um cuidado que assinala essa presença e a torna manifesta.
E neste sentido, podemos e devemos perguntar-nos até que ponto não regressámos ao comércio praticado no templo de Jerusalém, de que modo a nossa própria realidade corporal não é objecto ou campo de negócio e comércio?
Certamente que a primeira ideia que nos virá à cabeça é a da prostituição, e logo ficaremos tranquilos porque não vendemos o nosso corpo ou o prazer que possa suscitar. Mas será assim tão linear? Tão básico?
Quantas vezes não nos servimos do nosso corpo para insinuar um poder ou uma força que não temos mas que desejamos que o outro pense que temos? Quantas vezes a proximidade física ou corporal não servem para que o outro, enquanto fonte de afectos, nos sirva com o afecto que nos tem, sem mais nada em troca?
Quantas vezes silenciamos um carinho, uma carícia, que divinizariam o outro na sua frágil humanidade, apenas porque temos medo do que os outros vão pensar, de como os outros nos vão catalogar? E como catalogamos tão facilmente… E quantas vezes pelos nossos silêncios, pelas nossas marginalizações, amuos e maledicências não vemos nem respeitamos a chama divina que arde no templo que são os outros.
Peçamos ao Senhor que saibamos não fazer do nosso templo espaço e modo de comércio e vejamos sempre no outro que é corpo a sua presença resplandecente de santidade.