sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de Bom Ano de 2012


A todos os amigos e amigas que têm passado por aqui e partilhado este projecto os meus votos de um Ano de 2012 cheio das bênçãos de Deus.



Ilustração: “Virgem Maria com Jesus e Santa Maria Madalena e São Bernardo”, de Francesco Botticini.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sagrada Família de Nazaré

Diz-nos São Lucas, após ter narrado a apresentação de Jesus no templo de Jerusalém, que Jesus, Maria e José regressaram a Nazaré e aí Jesus crescia em espírito e graça, robusto e com sabedoria.
Os Evangelhos Apócrifos apresentam-nos muitos relatos, alguns deles quase anedóticos deste período da vida de Jesus, enquanto que os Evangelhos Canónicos nada nos dizem da infância de Jesus para além da viagem a Jerusalém em que se perdeu da família.
Há um silêncio enorme sobre este período da vida de Jesus, como se fosse um tempo de espera, de preparação, em que o sucedido pouco interessa para o relato da missão, para os passos dados por Jesus após o baptismo no rio Jordão.
Contudo, e ainda que exista este silêncio, não podemos deixar de elevar a nossa imaginação até esse tempo e essa família que nos é apresentada como modelo, perscrutando nesse mesmo silêncio e certamente na normalidade da vida quotidiana alguma luz para a nossa própria vida.
Neste silêncio, e pelo silêncio que sobre ele se estende aos Evangelhos, ressalta a figura de José, o pai de Jesus, o carpinteiro. Pouco sabemos dele, e tão pouco que nem na vida pública de Jesus ele aparece presente, ao contrário da mãe, Maria.
A identificação do filho pela profissão do pai, carpinteiro, deixa-nos vislumbrar um homem que trabalhava e vivia do seu trabalho, e que ensinou ao seu filho a sua profissão. Podemos imaginar também um homem de fé e tradições, que as transmite ao filho, que integra o filho no clã familiar e na cultura e fé do povo.
Neste sentido José aparece-nos como uma interrogação sobre a forma como os filhos são hoje identificados face ao pai, afinal que valores os pais transmitem aos filhos que permitam a identificação da ancestralidade e paternidade.
Esquecemos muitas vezes que a paternidade e a maternidade não se reduz à transmissão de uma herança genética, mas comporta também a transmissão de uma herança cultural, ética e moral. Quando alguns pais se queixam que não reconhecem ou conhecem os filhos adolescentes e jovens é porque se esqueceram dessa transmissão que permite a identificação.
No silêncio de Nazaré encontramos também Maria, que guardava tudo no seu coração. Não podia ser de outra forma para a mãe de Jesus, porque as mães guardam no coração o que vivem e sofrem com os filhos. Contudo, neste silêncio e nesta vida familiar podemos imaginar que Maria transmitia ao filho também o respeito pela mulher, pela sua dignidade. Não podemos perceber o respeito de Jesus por sua mãe, fiel e livre face ao compromisso com Deus, sem esta intimidade e cumplicidade vivida na intimidade de Nazaré.
Maria apresenta-se assim como um desafio a uma amizade e a uma cumplicidade entre mãe e filho que só pode conduzir ao respeito, ao reconhecimento da dignidade e do valor de todo o sofrimento e entrega.
Por fim é neste silêncio de Nazaré, nesta tranquilidade que Jesus vai crescendo, robusto fisicamente para mais tarde poder enfrentar todo o sofrimento da cruz, e robusto espiritualmente para não desanimar nem deixar de confiar que Deus Pai está presente apesar de todo o silêncio e de toda a não resposta às suas questões.
Numa época histórica em que fortalecemos as crianças fisicamente, face a algumas fragilidades e desafios, é obrigatório fortalecê-las e robustecê-las em confiança e sabedoria para que possam pensar pela sua cabeça, assumir os seus valores e enfrentar os desafios da vida acreditando que Deus está connosco e é a meta da nossa felicidade.
Que Jesus, Maria e José venham em nosso auxílio e nos iluminem nas nossas relações familiares e no quanto estamos chamados a ajudar-nos mutuamente a crescer.

Ilustração: “Jesus na casa de Nazaré”, de John Everett Millais. Tate Britain de Londres.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Já brilha a luz verdadeira (1Jo 2,8)

Enchemos as nossas ruas e as nossas árvores de luzinhas. Parece que sem essas luzes e sem esse brilho o Natal não é o mesmo. Face a alguma crítica relativamente a estas iluminações não podemos deixar de responder apresentando as palavras da Primeira Carta de São João, “já brilha a luz verdadeira”. As nossas luzes de Natal são assim uma recordação da luz verdadeira que brilha em Jesus.
Contudo, não podemos ficar apenas nesta dimensão simbólica, nesta realidade estética de uma agradável sensação visual, porque a luz de que as luzes nos fazem memória significa uma vida, significa um modo de vida fundado no mandamento do amor.
Como São João nos diz, para nós já brilha a luz verdadeira porque o Filho de Deus se fez homem, encarnou e habitou entre nós, e isto por uma razão de amor, pelo amor que Deus tem aos homens.
O mistério da encarnação que celebramos no Natal é o mistério do amor feito carne, feito presença entre os homens para lhes ensinar o verdadeiro mandamento do amor. Ama aquele que dá a vida pelos seus amigos, aquele que é capaz de descer do seu pedestal divino para partilhar a sorte e a dor daqueles que não tinham acesso a esse mesmo pedestal.
E por isso brilha a luz, porque Deus vem ao nosso encontro, vem iluminar na nossa condição humana os caminhos de acesso a essa divindade de que estávamos privados pela desobediência, pelo desejo de a atingirmos pelos nossos próprios meios.
Brilha a luz para aqueles que são também capazes de viver esse mesmo amor, que o procuram viver com as suas fragilidades, que procuram manter-se nessa luz através das obras de justiça, de verdade e de amor, entregando também a sua vida para que outros possam viver.
São João diz-nos que aquele que ama o seu irmão permanece na luz e nele não há ocasião de pecado, porque a luz que é o amor não permite a falha nem a falta. Aquele que ama quer o melhor para o outro, o bem do outro, a felicidade e a salvação do outro.
Contemplando as luzes que colocámos na nossa árvore de Natal, ou que enfeitam as nossas ruas ao cair da tarde, recordemos como há uma luz interior em cada um de nós que espera e deseja ser descoberta, como através do amor e da amizade podemos ser uma luz na vida de outras pessoas, tornando assim presente e mais luminosa a luz verdadeira que nasceu para todos os homens em Belém da Judeia.

Ilustração: “Virgem Maria com o Menino numa moldura de flores e anjos”, de Peter Paul Rubens, Alte Pinakothek.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ele é fiel e justo (1Jo 1,9)

Estamos quase a terminar um ano e como habitualmente chega o momento de fazer um balanço do que vivemos, do que fizemos, do que nos propusemos viver e fazer e afinal ficou apenas no papel do projecto.
É neste contexto e para contrastar e reavaliar o que vivemos erradamente ou deixámos por viver e fazer que nos é oferecida a leitura da Primeira Carta de São João, e de modo muito particular no dia de hoje esta afirmação de que Deus é fiel e justo, se confessarmos os nossos pecados, para nos perdoar e purificar de toda a maldade.
Quanta alegria e quanto conforto ao saber desta fidelidade, justiça e misericórdia de Deus, quanta confiança face à análise do que vivemos neste ano quase a findar.
Há certamente algumas coisas erradas, algumas omissões, algumas faltas de caridade e justiça, alguma leviandade na busca da verdade, algum desânimo na luta por um mundo melhor, mais fraterno e mais justo.
Há certamente alguma preguiça, um reduzido empenho na frutificação dos talentos, um suficiente esquecimento da presença e da acção de Deus na nossa vida.
Esquecemo-nos demasiadamente que estamos a caminho, que somos um projecto em desenvolvimento, realidades em processo e portanto não se pode considerar nada como garantido ou alcançado, há sempre um horizonte que se perfila como meta.
Face a esta consciência e a alguma dor e frustração que possamos sentir, a algum desânimo face ao errado da nossa vida neste ano que termina, vem ao nosso encontro esta fidelidade e justiça do Senhor, essa confiança em nós mais forte e mais activa que a nossa própria confiança.
Fica-nos portanto e apenas a necessidade de confessarmos os nossos pecados, de assumirmos diante de Deus os nossos falhanços e as nossas fraquezas, as infidelidades e incoerências, o encontro connosco próprios e as circunstâncias que nos impedem de avançar mais, de fazer melhor. Se o fizermos, e como nos diz São João Deus não é mentiroso para não cumprir as suas promessas, o Senhor virá ao nosso encontro para nos curar, para nos fortalecer e para nos purificar de toda a maldade que possamos ter cometido.
Aproveitemos por isso qualquer momento destes últimos dias do ano, um pouco da noite, para nos encontrarmos com Deus e deitarmos contas à nossa vida, dispondo o nosso coração à graça libertadora e salvadora de Jesus. O ano que chega poderá apresentar-se com dificuldades mas nós entraremos nele fortalecidos e rejuvenescidos com a fidelidade e confiança de Deus em nós.

Ilustração: “Jesus Bom Pastor”, vitral de Alfred Handel na Igreja de São João Baptista em Ashfield, Austrália.

Os Santos Meninos Inocentes

Conta-nos São Mateus no seu Evangelho que, após a partida dos Reis Magos e perante o desconhecimento da identidade do Menino Rei que tinha nascido em Belém e eles tinham vindo adorar, Herodes temeroso e furioso mandou matar todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos.
É um crime do poderoso rei Herodes que não se encontra registado para além dos Evangelhos, ao contrário de muitos outros e de menor dimensão e gravidade que ficaram registados na história, como a que nos deixou Flávio Josefo nas suas “Antiguidades Judaicas”.
Tal facto, e face ao horror do que é narrado por São Mateus, leva-nos a admitir que o acontecimento é uma construção teológica, uma narração interpretativa que visa integrar e assemelhar a vida e a pessoa de Jesus à grande e incontornável figura de Moisés. Jesus é o novo Moisés e portanto não só regressa do Egipto à terra de Israel como também escapa à vontade genocídica dos que governam o povo e têm poder para o extermínio.
A celebração festiva deste acontecimento na oitava do Natal exige por isso uma compreensão alargada da mesma, uma vez que é uma das festas mais antigas do ciclo do Natal e está inequivocamente ligada à figura de Jesus.
Antes de mais, e como já referimos, não podemos esquecer a aproximação que São Mateus faz da pessoa de Jesus à figura histórica de Moisés. Jesus é o novo Moisés, o instituidor da nova Lei e da Nova Aliança, e por isso em alguns episódios da vida de Jesus há referências à vida e actuação de Moisés. Neste caso particular da matança dos inocentes, mas também no momento em que Jesus sobe ao monte para proclamar as Bem-Aventuranças, o novo código de conduta do novo povo de Deus, à semelhança do que tinha acontecido no Monte Sinai.
Por outro lado a morte destes inocentes aparece como uma prefiguração da morte inocente de Jesus na cruz. Tanto as crianças como Jesus são vítimas do ódio, do desejo de poder, e portanto estes meninos participam antecipadamente do sacrifício de Jesus. Sem o saberem são as primeiras vítimas da violência do mal que se opõe ao mandamento do amor de Jesus, e simultaneamente as primeiras testemunhas da dimensão martirial do seguimento de Jesus.
Ao celebrar a sua memória, neste tempo festivo de Natal, a Igreja recorda e traz à nossa consciência todas as vítimas inocentes da história da humanidade, todos aqueles e aquelas que têm sofrido violência por causa das suas convicções, da sua fé, da sua cor de pele, às vezes até pela sua simples existência.
Tal memória e celebração deve também levar-nos a rever alguns dos nossos critérios e valores, alguns dos nossos comportamentos, que podem ser uma violência sobre inocentes, contrariando e desvirtuando desta forma o mandamento do amor que Jesus nos mandou viver e que a celebração do Natal nos coloca em evidência.

Ilustração: “Matança dos Inocentes”, de Girolamo Donnini, Fondazione Pietro Manodori.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

João o cantor do Verbo da Vida

Continuamos nesta oitava do Natal a celebrar a alegria do nascimento do nosso Salvador, e depois de termos celebrado a festa do primeiro Mártir, Santo Estêvão, celebramos hoje a festa de São João, o discípulo amado.
E se a festa de Santo Estêvão nos recordava a dimensão martirial e de sacrifício do seguimento de Jesus, a festa de São João Evangelista recorda-nos a dimensão de intimidade e amizade que esse mesmo seguimento exige.
Como São João nos diz na sua Primeira Carta é o que ouvimos, o que vimos, o que as nossas mãos tocaram, que podemos anunciar, que pode fundamentar a radicalidade e fidelidade do nosso seguimento. Necessitamos dessa intimidade, desse convívio íntimo e privado com Jesus para poder anunciar verdadeiramente o nome de Jesus e o seu mistério de redenção.
Intimidade e conhecimento que passa pelo mistério da encarnação, por essa fé de que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, mas que passa também pelo mistério da ressurreição e do encontro do túmulo vazio. Diz-nos o Evangelho que João viu e acreditou, apesar de naquela manhã de Páscoa apenas ter visto o túmulo vazio e as ligaduras abandonadas a um canto.
Também nós somos convidados a acreditar, a partilhar dessa alegria que o Natal suscita em nós e São João deseja que seja completa. Contudo, para que tal possa acontecer não podemos dissociar estes dois grandes mistérios, a encarnação e a ressurreição, não podemos deixar de ter presente a pessoa de Jesus na sua dimensão histórica e a sua presença espiritual e gloriosa após a ressurreição, ou seja, não podemos deixar de acreditar na sua presença na ausência, no corpo do espírito.
Estas duas realidades ou dimensões marcam a nossa fé e a nossa relação com Deus e com os outros, pois sabemos que existimos num corpo e num espírito, somos herdeiros desse corpo histórico que foi Jesus e procuramos viver o espírito que o animou através do mandamento do amor.
À semelhança de São João que saibamos repousar a nossa cabeça sobre o peito de Jesus, e neste momento natalício sobre o peito de menino, para acolher e recolher toda a força e todo o espírito que nos ajudam a viver fielmente o seu seguimento.

Ilustração: “São João Evangelista”, de Jan van Bijlert, Museu de Utrecht.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Estêvão e o Espírito que fala em nós

Imediatamente a seguir ao dia de Natal, à celebração do nascimento do Salvador, a Igreja celebra a festa do Mártir Santo Estêvão, o primeiro a dar a vida pela fé em Jesus, e por isso conhecido como o protomártir da Igreja.
As diversas representações iconográficas do seu martírio mostram-nos um jovem, um jovem paramentado com a dalmática, um diácono que serve a Igreja nascente e presta o seu maior serviço através desta entrega da vida pela vida da Palavra.
Jesus tinha prevenido os seus discípulos para esta situação, para as inimizades que iriam encontrar pelo facto de acreditarem nele, de o testemunharem com a vida e a palavra. Afinal, seguir Jesus significava assumir a sua cruz e perder a vida para a encontrar.
Estêvão assumiu esta perda de vida, assumiu este risco, acreditando que mais importante que a sua vida era a vida de Jesus, era a sua palavra de vida. Estêvão assumiu também que a promessa do Espírito não era uma ilusão, mas uma realidade muito concreta que radicava na fé em Jesus, Filho de Deus, vencedor da morte, ressuscitado, e actualmente presente nesse Espírito Santo prometido.
Por causa desta confiança no Espírito Santo, na sua força, é que Estêvão defende a pessoa de Jesus, a sua história e a sua missão, é capaz de enfrentar os seus opositores acusando-os da morte do Filho de Deus, a quem ele vê sentado à direita do Pai. É nesta mesma confiança que entrega a sua vida clamando “Senhor Jesus recebe o meu espírito”.
Esta confiança de Estêvão é para nós um desafio e ao mesmo tempo um incentivo, na medida em que muitas vezes defendemos as nossas posições e convicções cristãs mais com a nossa palavra, a nossa capacidade pessoal de argumentação, fundados mais na nossa inteligência, que fundados e fundamentados no Espírito Santo, nessa promessa que Jesus nos fez que o Espírito Santo falaria por nós e em nós.
Não me consigo lembrar onde li que o Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, era o grande desconhecido face às pessoas de Jesus e do Pai. Não sei se o é, mas a verdade é que em muitas das nossas realidades nos esquecemos dele, da sua presença e acção intrínseca na nossa vida, pelo que necessitamos reencontrar-nos com ele e fazer com que fale em nós e através de nós.
Que o Mártir Santo Estêvão interceda por nós e nos ajude a aumentar a confiança no Espírito que habita em nós e nos pode levar a fazer as coisas mais insuspeitas à nossa fragilidade humana.

Ilustração: “Martírio de Santo Estêvão”, atribuído a Luigi Garzi

Homilia da Solenidade da Natividade do Senhor Jesus

A leitura que escutámos do profeta Isaías, e de modo particular o seu início, “que belos são os pés do mensageiro que anuncia a paz”, dá sentido à alegria que experimentamos e vivemos nesta celebração da Natividade do Senhor. Também nós nos alegramos e dizemos que belos são os pés do mensageiro, porque sabemos a paz que nos foi oferecida, a nova Aliança que Deus estabeleceu connosco através deste mensageiro que é o seu próprio Filho feito carne, um de nós excepto no pecado.
A vinda do Filho de Deus, a habitação do Verbo de Deus entre os homens, faz-nos recuperar das nossas ruínas, dessas muralhas destruídas à semelhança da cidade santa de Jerusalém. O pecado introduzido por Adão tinha desfigurado a obra de Deus, esse templo construído pelas suas próprias mãos com muito amor, essa cidade santa que cada um estava destinado a ser à semelhança do seu criador. A vinda do Verbo, à imagem do qual tudo tinha sido criado, vem recuperar e transfigurar essa mesma obra, outorgando-lhe a dignidade perdida e a possibilidade de uma relação filial com o seu criador.
Em consequência, a vinda do Filho no mistério da encarnação apresenta-se também como um anúncio de paz, uma paz definitiva, pois não só passamos a ter junto de Deus um medianeiro e defensor que fez a experiência da nossa fragilidade e limitações, como também o fiador do pagamento da dívida que tínhamos em aberto pela nossa desobediência, divida que foi resgatada pela obediência do Filho, pela obediência daquele que não tinha nada em dívida.
Podemos e devemos por isso alegrar-nos e exultar no Senhor, porque veio até nós, veio reconstruir a dignidade da nossa humanidade e veio também resgatar-nos da condição de devedores.
A vinda do Filho de Deus à nossa condição humana é também motivo de alegria na medida em que se coloca à disposição da nossa capacidade de relação. Não só deixámos de ter um Deus distante, um Deus que habita nas alturas e imperceptível, mas passámos a ter um Deus que se fez um de nós, que experimenta a nossa condição com tudo o que ela tem de fragilidade e limite. E que forma mais frágil, mais próxima, mais amável, poderia encontrar para se manifestar que a de uma criança necessitada de toda a protecção e carinho?
Deus vem ao que é seu e vem nessa forma humilde e simples para que todos o possam acolher, para que todos possam partilhar da sua glória e divindade, porque a glória de Deus é o homem e o homem vivo, e em Jesus é concedida ao homem essa possibilidade de vida, porque aquele que nasce em Belém e encontramos deitado na manjedoura é a Vida.
Participando desta celebração, pela nossa fé e esperança, somos também enviados como mensageiros, enviados a despertar as sentinelas para esta grande novidade da vinda do Verbo de Deus, e a convidar todos os homens a alegrarem-se com esta vinda e este menino que se nos oferece pobre e mendigo do nosso amor. Somos também convidados a embelezar os nossos pés sobre as montanhas levando esta boa nova da salvação a todos os homens.
E hoje, nos tempos em que vivemos, esta missão apresenta-se de forma premente, pois necessitamos ajudar os homens e as mulheres a encontrarem-se com a esperança e com a alegria, com a confiança em si mesmos que é o mesmo que a confiança em Deus.
Não somos pó votado ao aniquilamento, nem as nossas obras estão votados ao esquecimento, há em nós uma força e uma vida que necessita crescer e desenvolver-se, necessita frutificar. O mistério da encarnação do Verbo, deste Deus que se faz menino, vem mostrar-nos que Deus acredita em nós, acredita na sua obra, nessa obra feita à sua imagem e semelhança e que foi avaliada como muito boa.
Como é possível que deixemos de acreditar em toda a nossa potencialidade? E como é possível que tenhamos deixado de acreditar que Deus está do nosso lado, nos ampara em todas as nossas fraquezas e debilidades? O mistério do Natal e a sua alegria não podem passar à margem e têm que levar a encontrar-nos com este projecto de Deus que somos e que Deus ama, porque de outra forma o mistério do nascimento do Verbo de Deus é um equívoco, um acontecimento completamente supérfluo e sem razão.
Depois de termos oferecido as nossas prendas, esses sinais da nossa amizade e carinho, veneração pelo outro como pessoa, somos convidados a continuar essa generosidade oferecendo e disponibilizando para os outros esta fé na obra boa de Deus, no quanto Deus nos ama e quer que atinjamos a plenitude.
Peçamos por isso a Deus, por intermédio de Maria, a mais generosa das colaboradoras neste mistério que celebramos, a não deixarmos esmorecer em nós a fé e a alegria de a partilhar com todos.

Ilustração: “Virgem Maria com o Menino”, de Correggio.

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Natal com um poema de Rainer Maria Rilke

Porque haviam minhas mãos de nos pincéis errar?
Quando te pinto, meu Deus, mas o hás-de notar.

Sinto-te. Nos meus sentidos a entrar
começas a hesitar, como com muitas ilhas,
e para os teus olhos, sem nunca pestanejar,
sou eu o espaço sem milhas.

Já não te encontras no seio do teu esplendor
em que todas as linhas da dança dos Anjos em redor
as distâncias como música se desfazem,
moras na tua casa derradeira.
Todo o teu céu me escuta na fronteira
Porque meus pensamentos do silêncio se refazem.

Ilustração: “O Sono do MeninoJesus”, de Il Sassoferrato.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um menino numa manjedoura (Lc 2,12)

Acontecimento estranho o desta noite, um acontecimento para ficar na memória. Uns anjos que cantam no céu que nos nasceu o Salvador, um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.
Um gruta iluminada por um fogo trémulo, uns poucos animais que testemunham tão magnifico nascimento, o pai e a mãe, o seu filho acabado de nascer, sem mais que uns pobres panos que o cobrem e protegem do frio.
Não houve lugar para eles na hospedaria e ali tão pouco houve um berço para aquele menino, apenas uma manjedoura na qual foi deitado para ter o aconchego do bafo quente dos animais que o admiram.
Este é o sinal para o reconhecimento, um menino, envolto em panos e deitado numa manjedoura. O nosso Deus, o nosso Salvador, apresenta-se-nos assim, frágil, necessitado e desconcertante.
Um menino, quem não se apaixonará por um menino recém-nascido? Está-nos nas veias do sangue essa atracção, é o nosso instinto de paternidade ou maternidade que nos leva sempre a abeirar-nos, a olharmos e a amarmos. Que outro modo poderia Deus usar para nos atrair a ele, na sua encarnação, se não aparecendo como menino? Deus vem sempre ao encontro do que em nós existe de bom, do que em nós pode conduzir-nos à satisfação e felicidade.
Um menino envolto em panos, nos panos da nossa pobreza corporal, nessa dimensão que nos constitui e nos faz relacionáveis, possíveis de viver com o outro. Um pano que é a nossa carne e sob a qual se esconde a divindade, para que nos pudéssemos aproximar sem temor.
Um menino deitado numa manjedoura, instrumento para a alimentação dos animais que nessa noite dormiam na gruta. Um menino que se oferece como alimento a todos os homens e mulheres, alimento para o seu desejo de imortalidade, para o seu desejo de amor, para o seu alimento de justiça e de verdade.
Deus menino nasce e apresenta-se inocente e frágil numa manjedoura para que nos aproximemos dele como do pão que sacia e alimenta a nossa vida, na sua palavra feita Evangelho, no seu corpo feito Eucaristia, na sua vida feita amor e entrega amorosa para nossa redenção.
Nesta noite de Natal do ano dois mil e onze aproximemo-nos de Jesus com fome, com muita fome, porque ele se faz alimento e vem saciar todos aqueles que o buscam confiantes.

A todos os amigos e amigas que têm frequentado este espaço os meus votos de um Santo Natal, vivido neste espírito de amor fiel e confiante que o Jesus menino nos legou.

Ilustração: “Natividade”, de Louis Cretey.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Antífona do Ó do dia 23 de Dezembro

Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo, vinde salvar-nos Senhor nosso Deus.

Não estão de moda os reis, soam-nos a uma certa decadência, a uma pertença do passado, a um tipo de vida em que nos estruturávamos por patamares, havia o rei, a nobreza, o clero e o povo, e cada um estava confinado ao seu nível, ao seu grupo e ao seu estatuto.
Também não está de moda o legislador, ainda que vivamos em grupo e sociedade e nenhuma destas realidades exista sem uma lei, sem uma legislação. A anarquia parece ser o nosso ídolo, como se a nossa liberdade e plenitude só se alcançasse anarquicamente, num mundo sem regras nem lei.
Contudo, na última antífona do Ó aclama-se o Senhor nosso Deus, esperança das nações e salvador do mundo, como o nosso rei e legislador. Ele é aquele que nos governa, ele é quem fez a lei pela qual nos devemos reger.
Uma lei que pela sua simplicidade nos passa tantas vezes ao lado, nos passa despercebida. Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos amigos, o meu mandamento é que vos ameis uns aos outros. Esta é a lei do nosso Rei, a lei do amor.
E dizemos nosso rei porque é Deus connosco, Emanuel, o todo poderoso que abdicou das suas prerrogativas celestiais para se fazer um como nós, para vir habitar no meio dos homens, experimentar todo o seu sofrimento até à morte.
Não fomos nós que o elegemos para governar sobre nós, foi ele que nos elegeu para nos fazer governar com ele, fazendo-se nosso irmão, homem como nós excepto no pecado, fez-nos filhos de Deus e herdeiros do Reino dos Céus.
Por isso nesta véspera da noite do seu nascimento suspiramos para que venha salvar-nos, salvar-nos da nossa anarquia egoísta, da idolatria da liberdade sem responsabilidade, da escravatura a que nos entregamos no consumo desenfreado e nas aparências sociais.
Na simplicidade da lei do amor faz-nos viver Senhor, sob o teu jugo suave e leve governa-nos Senhor.

Ilustração: “Cristo Pantocrator rodeado do Tetramorfos”. Friso na fachada da Igreja de Santiago, em Carrión de los Condes, Maio de 2010.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas (Lc 1,49)

Ao chegar a casa de sua prima, Maria é louvada por Isabel como a bendita entre as mulheres, a bem-aventurada, a feliz, porque acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe tinha sido dito da parte do Senhor.
Na sua humildade, e certamente ainda perdida no mistério que a envolvia, Maria canta um hino de louvor, eleva a sua voz para enaltecer o Senhor, pois o seu Espírito exulta de alegria no Deus seu Salvador.
O seu canto de louvor parte dessa consciência que o Senhor olhou para a sua humildade, dessa consciência de que o seu recato, a sua paz, a sua justiça, o despojamento da sua vontade para que se cumprisse a vontade de Deus, não conduziu a um aniquilamento, a uma nulidade, mas ao olhar benévolo e misericordioso de Deus para consigo. E a partir desse olhar e do seu acolhimento, da sua disponibilidade para a surpresa de Deus, o Todo-Poderoso fez em si maravilhas, actuou nela como em toda a obra da criação.
Maria é o novo paraíso, no qual pode ser formado o novo Adão, Maria é a nova terra ainda virgem, sem mancha de fogo nem arado, na qual pode ser lançada a semente da vida eterna. Maria é a nova história, um começo de uma nova história, porque o tempo velho era o tempo da promessa e agora é o tempo do acontecimento, o tempo do existir aqui e agora, o tempo do “Eu Sou”.
Por todas as razões Maria reconhece que o Senhor fez nela maravilhas, foi-a formando e moldando como mulher para que estivesse apta a ser a mãe do Salvador, fosse de facto bendita para poder acolher o sumo Bem que vinha viver entre os homens. E portanto não pode fazer outra coisa mais que acolher essa vinda, essa vida nova que quer nascer, e louvar a Deus pelo seu amor e a sua preferência por querer viver entre os homens.
Também nós, como Maria, somos convidados a reconhecer as maravilhas que o Senhor fez e faz em nós, a louvar cada obra e cada acção de Deus na nossa vida e na vida daqueles que nos rodeiam e amamos. E quantas maravilhas o Senhor vai fazendo!
O sol que nasce e vemos, a neblina que nos resfria, o pão de cada dia, um corpo amigo para amar, um filho para educar, um trabalho para nos realizar e dignificar, a palavra que trocamos com o desconhecido num desejo de bom dia, um abraço irmão, o cansaço do fim do dia e afinal ainda o corpo vivo.
Mas também a dor da partida e da ausência, a fé de uma eternidade junto de Deus, o crescimento na autonomia e na responsabilização, a fraqueza e os limites do outro, arestas que nos limam nas nossas próprias arestas, a injustiça e a guerra que apelam à nossa insensibilidade, a liberdade de poder fazer o bem ou fazer o mal e a alegria do bem que se fez e a tristeza pelo mal que se consentiu.
Não acreditamos num Deus ausente, e muito menos num Deus passivo. Deus vai fazendo história connosco, na nossa vida e na nossa relação com ele e com os outros. Não é um Deus determinista, e não somos umas marionetas nas suas mãos, mas não podemos negar que vivemos sempre à beira de um convite, de uma mão estendida cheia de estrelas para partilhar.
O Senhor fez em mim maravilhas, faz em mim maravilhas, e quer ainda mais que eu faça maravilhas com o que me oferece maravilhosamente do seu amor.

Ilustração: “Virgem Maria”, de Adalbert Begas.

Antífona do Ó do dia 22 de Dezembro


Ó Reis das nações e Pedra angular da Igreja, vinde salvar o homem que formastes do pó da terra.

O vendaval do tempo mostra-nos o quanto somos pó. Formados do pó e vivificados pelo sopro divino voltamos inevitavelmente ao pó. No entretanto e entretecer do tempo vivemos do sopro mas sempre com essa contingência do pó de onde partimos e ao qual regressaremos.
É por isso que ao aproximar-se o Natal brada nas nossas gargantas esta súplica de salvação, necessitamos ser resgatados do pó, desta contingência opressora do pó, o sopro da vida divina quer um pouco mais.
A encarnação do Filho de Deus, a vinda do Rei das nações, é o remédio e a vitória sobre esta contingência, pois só nele este mesmo pó adquire uma outra dimensão substancial, deixando de ser apenas uma contingência fatal para se abrir à possibilidade de caminho e dom.
O pó de que somos formados revela-se alimento, fonte de amor, arma de luta pela justiça e pela paz, o corpo de pó transforma-se em pão, alimento para os outros do amor que buscam e necessitam. Em cada grão do pó brilha a vida e o sopro divino e portanto nada mais está condenado, mas reabilitado para a eternidade do amor.
O pó transforma-se assim em pedra angular, coluna e cume de uma construção querida e amada desde o seu mesmo primeiro momento de existência. É a semelhança com o criador, o reinado sobre todos os animais e plantas, a filiação divina que transforma o sopro vivificante em fogo que purifica o pó nessa entrega para alimento.
Somos pó Senhor, pó da terra! Transforma-nos pelo Espírito que sopra em nós, em pão de farinha de trigo, alvo, puro, digno de ser teu Corpo transfigurado.

Ilustração: Mosaico Paleocristão com o Pão e o Peixe.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Antífona do Ó do dia 21 de Dezembro

Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça, vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte.

Vem, suspiramos na noite
Vem, que te esperamos
Já raia a madrugada
E a noite se dissolve.
Vem, sol de justiça
Saciar a nossa fome,
Vem, esplendor do Pai
Iluminar a nossa carne
Da divindade do Pai.
Vem, te pedimos, suplicamos
Não tardes.

Ilustração: Jesus Cristo, Mosaico na Basílica de São Paulo Extra Muros, Roma.

E estes por acaso não são homens?

E estes por acaso não são homens?
Faz hoje, dia 21 de Dezembro, quinhentos anos que esta questão foi colocada num sermão na ilha de La Espanhola por frei António de Montesinos. Era o quarto domingo do Advento de 1511 e o frade vestido de hábito branco e capa negra de São Domingos comentava o evangelho do profeta João Baptista, o Precursor do Messias.
Uma semana depois, a 28 de Dezembro os temas abordados pelo primeiro sermão, e que tanto escândalo tinham provocado, eram de novo retomados num tom mais veemente e numa frontalidade sem par.
Podemos dizer que foram sermões que mudaram a história da humanidade, há um tempo e uma concepção anterior e um tempo e uma concepção posterior, há uma dignidade do homem antes e outra depois, não há direito dos indígenas antes e passa a lutar-se por isso depois.
Conta-nos frei Bartolomeu de las Casas, uma das testemunhas do acontecimento que, “suplicando e encomendando-se muito a Deus com continuas orações, jejuns e vigílias, pediam a Deus que os iluminasse para não errar em coisa que tanto ia, e que se apresentava como novidade e escândalo, como era despertar pessoas que em seu tão profundo e abismal sonho tão insensivelmente dormiam. E finalmente, depois de repetidas vezes terem reunido o conselho, deliberaram pregar nos púlpitos publicamente e declarar o estado em que os pecadores se encontravam ao terem aquelas gentes oprimidas”.
Depois de vários dias de oração comum, vigílias e jejuns chegou o tão esperado domingo do Advento em que frei António de Montesinos, por obrigação de preceito formal dado pela comunidade, subiu ao púlpito com o sermão por todos preparado.
“Chegado o domingo e a hora de pregar, subiu ao púlpito o dito padre frei António de Montesinos, e tomou por tema e fundamento do seu sermão, que já levava escrito e assinado pelos demais: ego vox clamantis in deserto. (Isaías 40,3)
Feita a introdução e dito algo relativamente à matéria do advento, começou a questionar, dizendo: eu sou a voz de Cristo no deserto desta ilha, dizei-me, pois, estes não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto? Não sentis isto? Como estais em tamanha profundidade, dormidos num sono tão letárgico?
Tende por certo que, no estado em que vos encontrais, não vos podeis salvar mais que os mouros ou os turcos que não sabem nem querem saber da fé em Jesus Cristo!”
O burburinho no auditório foi mais forte que o rugido do mar e às mesas de almoço daquele domingo de Advento não houve lugar para outras conversas. Pouco depois todos se reuniam em casa do almirante Diego Cólon e organizava-se a manifestação de protesto que se plantou diante da porta do convento.
Diego Cólon, primeiro responsável pela ordem e pelo cumprimento das leis do reino de Castela entravou conversações com o prior do pobre convento, frei Pedro de Córdova, para que frei António de Montesinos se retractasse do que tinha dito no sermão, pois não podia comparar senhores de Castela, baptizados e velhos cristãos, a mouros e turcos infiéis.
A conversação e intimidação não tiveram os resultados esperados, pois frei Pedro de Córdova esclarece D. Diego que o pregado por frei António de Montesinos “tinha sido do parecer, da vontade e consentimento seu, enquanto prior, e de todos os da casa, e depois de muito bem visto e conferido entre eles, e porque com muito conselho e madura deliberação tinham determinado que se pregasse como verdade evangélica e como necessária à salvação de todos os espanhóis e índios daquelas terras”.
Por fim, e depois de muita conversa, D. Diego de Cólon consegue um meio acordo, a promessa de que no domingo seguinte, 28 de Dezembro, frei António de Montesinos subirá ao mesmo púlpito, não para proferir uma retractação do dito mas para dar uma explicação satisfatória pata todos.
No domingo seguinte, e uma vez mais depois de uma semana de oração, vigílias, e jejum, para não dizer fome, porque os colonos não partilharam com eles nada das festas do Natal, frei António subiu ao púlpito e iniciou o seu sermão como era habitual por uma citação bíblica, “repetam scientiam meam a principio, et sermones meos sine mendacio esse probabo” (Job 36,3-4).
Segundo conta frei Bartolomeu de Las Casas traduziu desta forma frei António a citação latina: “tornarei a referir desde o seu princípio a minha ciência e verdade que no domingos passado vos preguei, e aquelas minhas palavras que tanto vos amargaram mostrarei como são verdadeiras”.
O sermão daquele domingo 28, depois do Natal, não foi assim nenhuma retractação, nenhum retrocesso, mas uma reafirmação e corroboração de tudo o dito no domingo anterior, o que provocou imediatamente, e já sem qualquer perspectiva de diálogo, a ruptura entre os frades de São Domingos, D. Diego de Cólon e os castelhanos instalados na ilha.
O governador escreveu imediatamente à Corte, acusando os dominicanos de semear a discórdia e tentar afundar a tarefa colonizadora, “como tinham escandalizado o mundo semeando uma doutrina nova, condenando todos ao inferno, porque tinham os índios e se serviam deles nas minas e em outros trabalhos, contra o que sua Alteza tinha ordenado, e que não era outra coisa a sua pregação senão tirar-lhes o senhorio e as rendas que tinham naquelas partes”.
Foi o fim de um tempo de inconsciência, ainda que não da violência cometida sobre os índios. Foi uma experiencia de coerência à graça da pregação, uma prova de uma lealdade sem limites à sua vocação, pois são mendicantes, uma lealdade aos outros, pois é a sua salvação que está em causa, e uma lealdade à não violência porque a sua sensibilidade não podia deixar de ser tocada por tanta injustiça e abusos, que não eram caminho para a paz.
A pregação destes frades está dirigida antes de mais à idolatria do poder e à necessidade de salvação de todas as almas, e por isso no sermão não houve indígenas nem europeus, mas apenas homens e filhos de Deus que exploravam e eram explorados. Portanto uns e outros necessitavam evangelização, necessitavam de uma transformação à luz da Palavra de Deus e do mandamento do amor.
Passados quinhentos anos orgulhamo-nos destes irmãos, da sua ousadia e fidelidade, e pedimos junto de Deus a sua intercessão para nos dias que nos toca viver assumirmos a mesma coerência e fidelidade, podermos ser também um grito profético de libertação.

Ilustrações:
Frei António de Montesinos, estátua em pedra e bronze do escultor mexicano António Castellanos Basich, oferecida pelo México à cidade de Santo Domingo, na Républica Dominicana.
Frei Bartolomeu de Las Casas, Retrato enquanto bispo.
Ameríndios armazenando milho. Ilustração do Códice Florentino, do século XVI.

Maria pôs-se a caminho (Lc 1,39)

Após a partida do anjo Gabriel conta-nos o Evangelho que Maria se prontificou a partir, pôs-se a caminho para ir visitar sua prima Isabel, aquela mesma que o Anjo lhe tinha confiado que estava de esperanças na sua velhice.
Para os mais cépticos e racionais esta partida pode significar um desejo de confirmar, uma certa falta de confiança no que o Anjo tinha dito e por isso a necessidade de ver com os próprios olhos; tal como Tomé, que muito tempo mais tarde vai querer confirmar a ressurreição com um toque no corpo ferido do Senhor. Maria afinal não se deixa levar em conversas!
Para aqueles que têm um coração mais aberto, que estão marcados pelo espírito de solidariedade e da fraternidade, esta viagem de Maria insere-se nesse espírito, nessa busca de ajuda a alguém que necessita. Maria é portanto a primeira ONG em acção solidária!
Embora seja verdade, Maria é uma mulher que pensa e questiona, é também uma mulher que tem atenção aos outros, que se preocupa com os outros, este pôr-se a caminho é muito mais que uma simples actividade solidária ou um exercício empírico de conhecimento, é um estado de alma, é uma vida.
Maria é a caminhante por excelência, aquela que primeiro desbrava a vereda do filho que é Caminho, pelo qual segue confiante, segue como discípula. Maria segue Jesus na sua opção de profeta, partilhando os caminhos pela Galileia, segue Jesus como Mestre e por isso num banquete não se envergonhará de dizer, “fazei o que ele vos disser”, porque eu o fiz e aqui estou.
Maria é a caminhante de toda a história de Israel, uma vez que nela se abre a via do cumprimento das promessas de Deus feitas pelos profetas. Todos os caminhos traçados, todos os peregrinos, os exílios do povo, confluem em Maria, encruzilhada da história; ela é a montanha do orgulho do homem aplanada na humildade do seu consentimento para que o Rei possa avançar em toda a glória.
Maria é a primeira caminhante da Igreja, ao lado da cruz com o novo filho que lhe é entregue pelo Filho, um novo caminho de maternidade. No Pentecostes, com todos os discípulos que recebem o dom do Espírito Santo, ela faz o caminho da abertura a todos os povos e línguas. Ela guarda e fortalece o espírito do caminho, afinal ser discípulo é seguir, é caminhar no encalço daquele que nos precede.
Também a nós nos é feito o mesmo convite, a mesma convocação de estar em caminho, a sentirmo-nos caminhantes, peregrinos ao encontro do Senhor que vem. Não temos aqui morada permanente, somos nómadas à procura da fonte que sacia a nossa sede de eternidade.
Na madrugada deste Advento, Maria é a estrela que brilha com mais intensidade para nos guiar no peregrinar do nosso caminho, é a Estrela da Manhã, peregrina e caminhante como nós, convite a colocar-nos confiantes em viagem ao encontro da face de Deus que se nos revela. Partamos com ela!

Ilustração: “Visitação”, de Peter Paul Rubens.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Maria não temas (Lc 1,30)

Gabriel desce até Nazaré, a essa pequena aldeia perdia no meio de nada, para anunciar a uma jovem, a uma virgem desposada com José, um homem da tribo de David, que foi escolhida para ser a mãe do Salvador. O seu nome é Maria e espera-se o seu consentimento, a sua aceitação do convite de Deus. Espera-se, porque só ela pode dizer que sim, só ela.
A entrada do anjo e a sua saudação provocam uma perturbação no espírito e no coração da jovem donzela. Quem é ele, mas sobretudo quem é ela, que graça a habita ou o que fez para o Senhor estar com ela? Ela, uma pobre mulher que vive na intimidade do seu lar, no silêncio da sua pureza, nesse desejo de viver sem deixar marca.
Maria perturba-se na sua humildade, nesse desejo de despojamento, pois o anúncio do anjo coloca-a num estatuto que ela não conhece no seu coração, num patamar que a retira da sua simplicidade, nessa proeminência que nunca buscou nem deseja.
Maria não temas é a resposta do anjo ao temor, a essa interrogação que nasce dentro dela. O temor perturba e não nada pode perturbar este momento. Ele é demasiado importante para poder se perturbado, mesmo pela humildade.
Há muito em jogo, porque essa humildade pode perturbar e inviabilizar o projecto de Deus de habitar entre os homens, de construir o seu novo templo, e enquanto esse novo templo não se ergue é necessário que tu Marias sejas a tenda em que Deus habitará até à edificação do templo.
São apenas necessários nove meses para a construção, ainda que depois sejam necessários mais alguns anos para que esse templo cresça e se aperfeiçoe. Contudo é necessário lançar os alicerces, gerar o corpo, e a ti cabe essa tarefa, és convidada a essa missão.
Aceita Maria, porque todos esperamos esse novo templo, essa nova presença de Deus entre os homens, sem barreiras de línguas ou cores, sem fronteiras ou adros cercados. Aceita Maria, porque serás a Arca da Nova Aliança, não já construída de madeiras preciosas e revestida a ouro, mas feita da carne de todos homens e revestida da graça com Deus já te cumulou.
Aceita Maria, porque no teu sim também a nós se nos abre a porta de podermos ser templos, arcas da aliança, tenda sobre cuja cobertura repousará a sombra do Senhor. Aceita Maria, para também nós podermos experimentar a gestação e a maternidade, esse filho Outro que cresce em nós com aspirações de eternidade.
Não temas Maria, porque da tua audácia depende também a nossa ousadia.

Ilustração: “Anunciação”, de Sandro Botticelli



Antífona do Ó do dia 20 de Dezembro

Ó Chave da casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir; vinde libertar os que vivem nas trevas do cativeiro e nas sombras da morte.

Quantas cadeias Senhor
Quantos grilhões nos acorrentam
O corpo e o seu peso
Esta avidez de possuir
E um afecto que não nos satisfaz.
A prisão da carne e apetites
Uma imaginação que cavalga
Desenfreada e louca
Entre névoas e véus de noite.
Um cavalo negro
E nele nos perseguindo
A macabra com a ferramenta
Da ceifa dos campos já maduros.
Vem Senhor, chave de todas portas
Resposta a todas as perguntas
Libertador de todas as prisões
Vem libertar-nos.
És a chave da porta do paraíso
A tenda aberta ao vento
Corpo novo onde sopra
A vida nova da luz.
Vem nos abrir ao teu amor
Vem fechar-nos no teu amor
Acolhe-nos na tua casa e livra-nos
Da ceifa cega e muda.
Tu és a Chave, a porta, a casa
O Caminho, a Verdade, a Vida
Tu És e fazes Ser.

Ilustração: “Descida aos infernos”, fresco do Beato Angélico no Convento de São Marcos de Florença.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vais ficar mudo sem poder falar (Lc 1,20)

Zacarias entra no santuário do Senhor para fazer a oferta do incenso e ali lhe aparece o Anjo do Senhor com o anúncio de um filho, uma alegria para a sua velhice e a velhice da sua esposa.
Zacarias, sacerdote do templo, homem experimentado na vida, nas leis e no exercício do culto, questiona o anjo, pede-lhe uma prova da verdade desse anúncio e por causa disso, por causa dessa falta de fé cai sobre ele o castigo do silêncio, a impossibilidade de contar a alguém, até à sua própria esposa o que lhe tinha acontecido e estava para acontecer.
Contudo, a mudez de Zacarias não é apenas um castigo pessoal, ela é o sinal da própria experiência do povo e do sacerdócio a que Zacarias pertencia, a experiência de uma promessa que não tinha sido acreditada, crida como verdadeira, à qual tinham sido exigidas provas e por isso se tinha tornado silenciosa, impossível de comunicar, intransmissível.
E a falta de fé de Zacarias e do povo é ainda mais condenável na medida em que um tem a possibilidade de entrar no santuário do Senhor, partilhar da intimidade do espaço divino onde lhe oferece incenso, enquanto que o outro partilha dessa mesma intimidade com a presença de Deus nesse espaço sagrado no meio do povo.
O silêncio é assim consequência da falta de percepção de que Deus vem ao encontro do homem, do seu povo, habita no meio dele, está disposto a dar a vida, a fecundar todas vidas, mas para isso é exigido ao homem a confiança na sua palavra, na promessa dessa mesma presença, vinda e fecundidade.
Este desafio coloca-se também a nós, e pode realmente levar-nos à mudez, a essa experiência de não podermos falar de Deus e até com Deus. Para que isso não aconteça necessitamos colocar nele toda a nossa confiança, a nossa esperança, sem qualquer demanda de prova ou senha. Que a Virgem Maria, que confiou e se entregou, nos ilumine nessa confiança.

Ilustração: "Anunciação a Zacarias", fragmento de um icone russo "A execução de São João Baptista".

Antífona do Ó do dia 19 de Dezembro

Ó Rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos, vinde libertar-nos, não tardeis mais.

Brota em nós como nascente
Irrompe em desejo
Que nos leva bem longe.
Liberdade. Liberdade.
Como te buscamos
Sedentos de ti e por ti
Partimos desvairados.
E tu aqui, tão perto
À nossa porta,
Ou quem sabe já dentro de casa.
E por isso te pedimos,
Num grito impaciente
Vem salvar-nos,
Dessa exterioridade em que te buscamos
Desse longe onde nos perdemos.
Não tardeis em erguer-vos
Rebento que brota nas nossas raízes
Velhas e empobrecidas
Para dar-nos sombra e fruto.

Ilustração: Caminho de Santiago em direcção à cidade de Santo Domingo de La Calzada, Maio 2010.

Antífona do Ó do dia 18 de Dezembro

Ó Chefe da Casa de Israel, que no Sinai deste a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço.
Não foi com ouro nem prata que fomos resgatados
O preço foi muito alto
Um braço estendido
Outro braço estendido,
Um corpo estirado sobre um madeiro.
O poder de dar
O poder desse braço mendicante
Vem resgatar-nos.
E uma criança é o chefe
O novo legislador
Uma nova lei,
A lei do amor que se entrega.
E o Sinai a manjedoura
Entre palhas a revelação
Um Deus que se faz menino
Homem entre os homens
Para pagar o resgate.

Ilustração: “Menino Jesus dormindo sobre a cruz e acariciando uma caveira”, pintura no Colégio de São José do Ramalhão.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Homilia do IV Domingo do Advento

Passados nove meses sobre o dia vinte e cinco de Março, festa da Anunciação do Senhor, e a leitura deste trecho do Evangelho de São Lucas, eis que nos voltamos a encontrar com ele às portas da celebração do Natal, uma semana antes de se completarem os nove meses.
Não podemos deixar de fazer memória nem de contemplar a beleza radiante de luz e de paz que este mesmo acontecimento nos traz, como através dele intuímos uma grande alegria e uma felicidade que parece querer irradiar para toda a vida e do o mundo.
Não podemos deixar também de ter presente como este acontecimento e esta beleza chocam com a falta de fé, ou com essa fé alicerçada apenas na tecnologia e na ciência, que tudo considera como um mito ou uma lenda, que se ri de nos alegrarmos e esperarmos num anúncio feito a uma jovem por um anjo.
Numa época de crise como a que vivemos, e não apenas de crise económica, porque certamente esta é fruto de uma outra crise muito mais profunda e fundamental que afecta a arte, a poesia, a literatura, a filosofia, a ética, a anunciação do anjo à Virgem de Nazaré apresenta-se-nos como o remédio para a crise, para essa crise profunda que se desenvolveu com a perda do sonho, porque como diz o poeta, o sonho comanda a vida.
Não podemos esquecer, nem deixar de trazer ao nosso horizonte existencial, que foi o sonho que levou o homem a fazer as grandes obras de que hoje nos gloriamos, o sonho da liberdade, o sonho da independência, o sonho da saúde, o sonho da paz, o sonho da Europa unida. Todas as grandes construções da humanidade partiram de um sonho. “I have a dream” gritou um dia Martin Luther King.
Não podemos esquecer também que o sonho faz parte da condição natural do homem, que no sonho se expressa o que há de mais vital, bem como o que o homem tem de mais profundo, como o medo, o desejo de satisfação, a alegria. A psicologia e os seus mestres como Freud e Jung trouxeram-nos a confirmação dessa realidade estruturante do homem.
A arte, nas suas mais diversas manifestações, como a pintura, a música, a poesia, plasmou materialmente este sonho que podemos dizer que é a anunciação do anjo a Maria. Um sonho do homem, nessa dimensão da presença de Deus junto dos homens, de um Deus da sua própria carne, mas também um sonho de Deus que abdicou das suas prerrogativas celestes para habitar e fazer-se próximo daqueles que eram seus filhos muito amados.
A anunciação do Anjo a Maria é assim o acontecimento gerador da alegria por excelência, uma alegria que nos invade como uma doce e tranquila onda, uma vez que parte desse encontro do sonho de Deus com o sonho do homem. Alegria fruto do convite do Anjo a Maria para se alegrar, e com ela toda a humanidade, pois o Senhor vem ao encontro dos seus filhos para os levar nos braços e introduzir na casa paterna de onde se tinham perdido.
Alegria incontável porque a jovem donzela de Nazaré, a Virgem Maria, incarna as mais altas aspirações da humanidade e das suas melhores e mais belas obras, aspirações como são a fidelidade, a pureza, a castidade, o dom de si, a humildade e a liberdade. A arte e a literatura são certamente as obras da humanidade em que mais vemos a busca e o desejo de alcançar estas mesmas aspirações na sua plenitude e perfeição.
A virgem Maria apresenta-se também neste acontecimento da anunciação, e por isso a alegria que dele nos vem, como o desmascarar da mentira da obrigatoriedade da subserviência aos valores mais baixos, mais mesquinhos, que infelizmente hoje nos são apresentados como critérios válidos e orientadores. Maria com a sua humildade e a aceitação do convite do Anjo a ser mãe do Salvador dá-nos a alegria de ver vencidas a injustiça e a mentira que nos subtrai à condição divina, pois por ela e pela sua liberdade de dizer sim ao projecto de Deus recuperámos a nossa dignidade e liberdade originais de também poder dizer sim.
Neste sentido, Maria é não só a fonte da nossa alegria, mas também alento para a nossa coragem de enfrentar os desafios, consolação para os momentos de desânimo e dúvida, inspiração para procurar a beleza e a bondade de Deus presente em todas as suas obras, socorro e auxílio sempre pronto nas adversidades.
A anunciação do Anjo a Maria inspira também a nossa alegria nessa verdade e consciência de que Deus vem ao nosso encontro, ao encontro da humanidade e de cada um de nós, não de uma forma estrondosa, assustadora a ponto de nos recusarmos a escutá-lo como aconteceu no monte Sinai, mas de uma forma terna, meiga, acessível ao sonho e ao desejo de cada um, como é uma criança frágil e necessitada de tudo.
Diante desta criança, deste menino que se nos anuncia como filho, como é possível que não nos atrevamos e arrisquemos a dizer como Maria ao Anjo: “eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”? Que medo pode provocar uma criança que vem ao nosso encontro e apenas nos solicita o nosso amor?
Que este tempo de Advento que nos resta nos sirva para encontrar em nós as mais altas aspirações que ainda nos habitam, para as podermos oferecer ao menino Deus como sementes a fazer germinar e frutificar, plenitudes a desenvolver e alcançar.

Ilustração: “Anunciação” de Josefa de Óbidos.



sábado, 17 de dezembro de 2011

Antífona do Ó do dia 17 de Dezembro


Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação.
Perdidos na noite da nossa ignorância andamos,
Perdidos sem saber o caminho,
Do regresso a casa, da salvação.
Num dia de nevoeiro nos desgarrámos
Ao sussurro de uma voz
Que nos despertou o orgulho.
E andamos vagabundos,
Como ovelhas sem pastor.
Vinde Sabedoria do Alto
Vinde suave como o orvalho
Firme como o sol
Que já raia madrugador sobre os montes.
Vinde ensinar-nos
O caminho, a vereda, a linha
Por onde regressar,
Retomar os passos convictos
Às pastagens altas
À voz que nos chama
Amigo meu, amada minha
Vem.

Ilustração: "Anunciação aos Pastores" de Taddeo Gaddi.

Genealogia de Jesus Cristo (Mt 1,1)

A uma semana do Natal eis que nos encontramos com a genealogia de Jesus segundo o Evangelho de São Mateus. Uma longa lista de nomes e filiações que o autor dividiu em três blocos, um primeiro até David com catorze gerações, outro de David até ao exílio na Babilónia também com catorze gerações, e o terceiro do exílio até Jesus filho de Maria.
A longa genealogia é assim interrompida em dois momentos por dois acontecimentos que de alguma forma quebram a sequência, inserem uma outra dimensão e realidade na sequência geracional, o pecado de David com a mulher de Urias e o desterro para a Babilónia, a perda do templo de Jerusalém.
Se relativamente ao primeiro acontecimento a tradição da Igreja sempre viu a assumpção por parte de Deus da infidelidade do homem, simbolicamente representada na infidelidade de David, no segundo acontecimento não podemos deixar de ver a assumpção da abertura e libertação de um único espaço de culto.
Deus assume-se presente fora do templo, acompanhando o povo no seu exílio, passível e possível de encontro fora de uma estrutura construída pelo homem. Aliás, esta ideia torna-se mais clara, mais evidente na medida em que temos presente a promessa de Deus a David quando este se propõe construir um templo em Jerusalém; através do profeta Natan é prometida a David uma casa preparada por Deus para ele e para os seus descendentes.
Jesus, o filho de Maria e descendente de toda esta longa linhagem, é assim a casa de Deus, a casa que Deus promete a David e o templo que o povo pode levar consigo para qualquer exílio, seja na Babilónia, no Egipto ou em qualquer outra terra de escravidão.
Em Jesus, Deus faz-se presença, habitação entre os homens e espaço de habitabilidade dos homens com Deus, faz-se mobilidade e capacidade de acompanhar o homem sem nunca o abandonar, uma vez que também se fez homem. A genealogia mostra essa presença constante e activa de Deus junto dos homens.
Peçamos por isso ao Senhor, que nos envie a Sabedoria do Altíssimo para nos ensinar os caminhos que nos conduzem à habitabilidade de Deus entre nós e connosco.

Ilustração: Árvore de Jessé do claustro do Mosteiro de Silos, Espanha, 2009.



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

E vós, por um momento, quisestes! (Jo 5,35)


João Baptista ardia como uma lâmpada e iluminava a noite do deserto. E por momentos todos quiseram alegrar-se com aquela luz que brilhava como prenúncio do dia que nascia.
Quiseram, como se lamenta Jesus, porque quando a luz brilhou com mais intensidade e exigência, a vontade e o querer esmoreceram, deixaram-se vencer pela facilidade e o conformismo, por fidelidade a uma lei que anestesiava.
Jesus fala e lamenta-se daqueles que encontraram João no deserto e chegaram a ir ali para serem baptizados pelo profeta que apelava ao arrependimento e à conversão. Mas depois, quando regressaram do deserto, apenas a constatação de que pouco ou nada tinha mudado. Por um momento apenas se tinha querido.
Esta queixa, este apelo de Jesus, vem ao nosso encontro, vem encontrar-se connosco naquela consciência de que também nós um dia, por momentos quisemos, nos alegrámos e nos entusiasmámos por fazer diferente, por dar um outro rumo à nossa vida, por nos convertermos.
E tal como aqueles homens que tinham ido ver João, também nós muitas vezes soçobrámos e soçobramos à nossa preguiça, ao comodismo, a essa inércia que nos dificulta mudar a vida, converter os nossos corações e os nossos gestos. Quisemos ou queremos, mas depois falta-nos a perseverança, a força para continuar e fortalecer esse desejo inicial de mudança.
Somos fracos, e não podemos negar essa evidência, inconstantes nos nossos desejos, que tão pouco podemos negar, mas acima de tudo somos pobres de amor, desse amor cheio de vaidade por fazermos a obra bem feita, de lutarmos até à última gota de sangue como os heróis, de ser fiéis apesar do desabamento que nos cerca e ameaça.
Face a tudo isto apenas nos resta pedir ao Senhor que não deixe extinguir em nós aquela pequenina chama que ainda permanece, aquela faúlha que na noite nos recorda que há luz, e que espera trémula que nos lancemos nela com todas as nossas escórias para sermos purificados e nos convertermos em espelhos radiantes de luz e beleza.
Vem Senhor atear o fogo do amor que nos converte e nos alicerça na fidelidade ao primeiro desejo de ser mais e melhor.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Que fostes ver ao deserto? (Lc 7,24)

As dunas flutuantes de areia, os maciços de rochas nuas e agrestes, a vastidão de um espaço onde o sol desliza lentamente, o silêncio sem perturbação, marcam a nossa imagem do deserto. Afinal um espaço em que nos podemos perder pela falta de pontos de referência.
Para os ouvintes de Jesus, aos quais pergunta o que foram ver, o deserto é ainda mais que esta imagem, é uma experiência pessoal e histórica, pois não só o povo tinha feito a experiência de peregrinar pelo deserto, encontrando-se aí com Deus, como também alguns deles tinham ido além do Jordão para conhecer João e escutar a sua pregação.
Confrontando os ouvintes com a necessidade de coerência face a esse peregrinar ao deserto, Jesus coloca diante deles algumas imagens impossíveis no deserto. Assim, a ida ao deserto não tinha sido motivada por uma pessoa que vivia no luxo, que se vestia e alimentava ricamente, porque as pessoas que vivem dessa forma devem ser procuradas nos palácios e não nos desertos.
Também não foram ao deserto para ver uma cana agitada pelo vento, porque naturalmente as canas crescem nas margens dos rios, nos espaços húmidos e portanto não devem ser procuradas no deserto. Para além de nada significar uma cana agitada pelo vento para além desse mesmo vento que passa.
A visita a João no deserto representa assim a possibilidade de um encontro e de uma transformação, que são necessários assumir para que tal ida ou visita não se transforme numa condenação, num equívoco, como aconteceu com os fariseus e os doutores da lei que foram ver João Baptista mas não compreenderam ou não quiseram compreender o que ele significava.
Procurar o deserto, embrenhar-se no deserto, exige um encontro com uma fonte para que não se morra se sede, exige afinal encontrar essa cana que se agita ao vento, mas nos indica a presença do manancial escondido. É uma simples cana, frágil, tão fácil de se quebrar, que nos revela a presença da fonte e da água que nos sacia.
Também nos nossos desertos, nessa busca pelas vastidões da experiência de Deus, são os pequenos sinais, as pobres frágeis canas que nos assinalam a presença da fonte. O Livro da Palavra, o Pão consagrado, um rito litúrgico, um momento de silêncio ao fim do dia, um gesto de ternura, uma palavra de coragem. E a fonte pode estar mesmo ali à mão.
Visitar o deserto, entrar nele, exige igualmente o despojamento, a libertação desses luxos palacianos, as ricas sedes e brocados com que tantas vezes nos mascaramos para não nos revelarmos na nossa fragilidade e infidelidade. Tal como Jacob necessitamos não levar nada, ir nus, para que a nossa luta possa ser uma luta de corpo a corpo, sem véus que nos escondam a face do anjo ou capas que permitam o apego do inimigo.
Nesta preparação para a vinda do Senhor, no Natal e em cada dia da nossa vinda, que o medo não nos impeça de entrar no deserto e procurar a fonte que nos sacia, despojados de tudo o que nos possa privar do encontro corpo a corpo com o nosso Salvador.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Carta de Frei Francisco Rendeiro de 6 de Junho de 1944 ao Padre Pio Gomes

Continuamos a divulgação do espólio documental do Arquivo Histórico Dominicano apresentando uma carta que o Padre frei Francisco Rendeiro dirige a 6 de Junho de 1944, desde Aldeia Nova, onde estava como Director da Escola Apostólica, ao Padre Frei Pio Gomes.
Por ela ficamos a saber do atraso no início do ano lectivo, provocado pela própria instalação da Escola Apostólica ali no ano de 1943, das perspectivas de vocações, nomeadamente da ida do aluno Raul Rolo para o noviciado, e da inerente questão económica e sustentabilidade face a uma vocação não aceite pela família.
É um documento extraordinário, na medida em que revela a realidade da ainda não Província Dominicana em Portugal, com as suas dificuldades e esperanças, e a sensibilidade de frei Francisco Rendeiro, mais tarde Bispo do Algarve e de Coimbra.

Aldeia Nova 6/VI/944

Meu Reverendo e Caro Padre Pio
Já deve estar arreliado comigo e com razão pois devo-lhe resposta a 2 cartas que têm esperado aqui encima da minha mesa. Queira desculpar-me que o trabalho é muito. Agradeço as suas boas notícias e as suas contas de Missas. A sua primeira carte é de 9 de Maio. Nela faz alusão a outra longuíssima que diz ter escrito durante férias: não recebi nada. Recebi por estes dias a sua última que também agradeço.
Pois nós por cá vamos afrentando a barca. Os nossos alunos ressentem-se bastante de termos começado o ano só em Janeiro, mesmo assim creio que uma boa parte deles vencerão o ano. O Rolo seguirá este ano para o noviciado. Depois não sei quando será a próxima leva, porque o resto está bastante cru. Como sabe é mister muito ingrato o nosso por vermos quão pequeno é o número do que se aproveitam.
Fizemos a nossa peregrinação a Fátima a pé. Lá vimos a miraculada da Guarda, mas só antes da missa dos doentes. No regresso o Senhor Rodrigues fez o favor de nos vir trazer de automóvel em 3 viagens.
O Senhor Padre Videira já me falou do seu aspirante de 20 anos e parece-me até que já tomou decisão favorável a seu respeito. Oxalá que seja um bom elemento. O pai ainda continua na oposição? Nesse caso quem lhe dará o necessário para as despesas?
Muito me regozijei também com a notícia que me dá do tal médico de que já me tinha falado. E quero felicitar o meu caro frei Pio por ter sido instrumento de Deus nessa vocação.
Rezemos para que as suas impressões de Salamanca sejam boas e a vocação firme. Era bom manobrar para que ele não vá fazer o noviciado a Ávila onde os noviços são garotos de 16 anos, mas sim a Salamanca onde encontrará um ambiente próprio da sua categoria. Já talvez isto esteja até combinado sem eu saber, mas permita que lhe lembre porque depois pode haver dificuldade quanto ao lugar.
Peço dê muitos cumprimentos meus aos Reverendos Padres desse Seminário.
Não se esqueça também nas suas orações deste seu indigno irmão em São Domingos.
Frei Francisco Rendeiro, OP



Ide contar o que vistes e ouvistes (Lc 7,22)

João Baptista, preso nos cárceres de Herodes, envia dois dos seus discípulos perguntar a Jesus se era ele mesmo o Messias esperado, ou se deviam esperar outro. As acções de Jesus não se coadunavam com a imagem tradicionalmente construída do Messias e por isso esta dúvida de João e a necessidade de uma confirmação da sua fé e esperança.
A resposta de Jesus vem ao encontro do conhecimento e da consciência de João, pois uma e outro se assumem como integrados e integrantes da profecia de Isaías a que Jesus se reporta. O profeta Isaías e o que cada um tinha assumido da revelação divina feita por ser intermédio era a chave de leitura, era o garante da verdade.
Contudo, Jesus faz aos enviados de João Baptista um desafio extremamente radical, um convite que exige a superação das próprias realidades envolvidas como são os sentidos. Convite e desafio que também nos toca a nós, pois também somos convidados a ver e a ouvir e a depois contar o que vimos e ouvimos.
A resposta a dar a João é clara, e perceptível para ele, mas para que não houvesse a menor dúvida os enviados tinham que ver com olhos de ver e ouvir com ouvidos de ouvir o que se estava a passar e confirmava a resposta exigida.
E o que os enviados viam era um conjunto de curas, um conjunto de outras acções um pouco estranhas, quase que marginais ou mesmo marginalizantes, e a figura de um homem que nada aparentava de extraordinário. Por outro lado ouviam uma palavra que tinha bastante carisma, proclamada com autoridade, reconhecida como nova, mas que também não deixava de estar na linha da tradição em que o próprio João se inseria e tinha assumido na sua missão. Também não havia assim nada de extraordinário.
O convite de Jesus a ver e a ouvir vai assim para além daquilo que os sentidos da visão e da audição permitem, era necessário ver e ouvir nessa aparente normalidade, nessa simplicidade em que tudo se envolvia, a profundidade da revelação de Deus, o seu amor e a sua misericórdia. Era necessário ver para além dos olhos e escutar para além dos ouvidos, era necessário ver com o coração e ouvir com a disponibilidade do amor.
Ao prepararmos a celebração do nascimento do Menino Jesus esta exigência redobra de necessidade, porque também aos nossos olhos o Salvador e Redentor se apresenta com a figura simples e normal de uma criança recém-nascida. Necessitamos por isso de fazer uma higienização dos ouvidos e olhos do nosso coração para nos encontrarmos com Aquele que verdadeiramente nasce neste menino. Só dessa forma o veremos e ouviremos na sua verdade e poderemos contar aos outros quem de facto é.
E neste dia em que fazemos memória de São João da Cruz, nada melhor para complementar esta reflexão que alguns versos da sua poesia.
Que bem sei eu a fonte que mana e corre
Mesmo sendo noite!
Aquela eterna fonte está escondida.
Bem eu sei onde tem sua guarida
Mesmo sendo noite!
Sei que não pode haver coisa tão bela
E sei que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo sendo Noite!
Sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda a origem dela vem
Mesmo sendo Noite!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O filho respondeu: “não quero”; mas arrependeu-se e foi. (Mt 21,29)


Podemos dizer que todo o tempo é tempo de conversão, mas o Advento apresenta-se na sua dinâmica como um tempo propício, um tempo no qual esse convite se formula na simplicidade de um menino que nos nasce, num filho que nos é dado.
É nesse sentido que nesta terceira semana do Advento o Evangelho nos convida a meditar sobre a parábola dos filhos que obedecem ou não ao pedido do pai para irem trabalhar para a vinha.
Contudo, e para lá da evidência moral de que a obediência se traduz em actos, mais que em palavras, temos que encontrar-nos com o que verdadeiramente está em jogo, com o que é essencial nesta parábola, porque Jesus não coloca em questão os actos dos filhos, a obediência ou desobediência, mas o dinamismo que lhe está subjacente, um dinamismo vital que transforma a mesma obediência.
Assim vemos que no primeiro momento o filho que se nega a ir para a vinha, expressa a sua vontade na sua liberdade de ir ou não ir, e ele não quer ir. Não tem qualquer interesse na vinha e por isso o pedido do pai aparece-lhe como descabido, sem necessidade de uma resposta positiva. Os servos poderiam trabalhar na vinha.
Contudo, depois da resposta dada, este filho arrepende-se e vai de facto trabalhar para vinha, sem qualquer outra justificação ou resposta ao pedido do pai. Uma vez mais é a sua liberdade e a sua vontade que determinam a acção.
Mas se o filho altera a sua resposta, se se converte, é porque percebeu que da parte do pai não havia qualquer imposição, qualquer obrigação, mas se respeitava a sua liberdade e a sua resposta.
O pedido ou convite do pai apelava mais a uma atenção, a um respeito que nasce do amor, do que propriamente a uma resposta imediata e irreflectida, como a do filho que diz que vai e depois não vai. O amor do pai manifestado não só no pedido mas também no respeito da resposta reivindicava uma alteração, a conversão da primeira resposta dada.
É esta dinâmica que está em jogo na parábola que Jesus conta e que faz perceber que toda a obediência só tem sentido e só é verdadeira na medida em que nasce do amor, da percepção da anuência como manifestação de amor a um outro acto de amor já presente no pedido.
O mistério de Deus que se faz menino insere-se nesta mesma dinâmica, uma vez que Deus não se apresenta como aquele que nos vem dar lições, que nos vem exigir respostas funcionais, mas pelo contrário como criança a mendigar uma resposta simples e amorosa, esperando com amor a resposta ao seu amor.
Saibamos nós escutar o pedido de Jesus e responder-lhe prontamente.