terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Não temas porque basta que tenhas fé. (Mc 5,36)

Jesus passa à outra margem do lago e logo o rodeia uma multidão ansiosa da sua palavra, das suas curas, dos seus milagres. Entre a multidão duas pessoas se destacam, ambas sofrem e ambas possuem uma grande fé pronta a manifestar-se em gestos concretos.
A primeira dessas pessoas é o chefe da sinagoga, Jairo de seu nome, que sem qualquer medo, sem qualquer vergonha, se lança aos pés de Jesus para que vá a sua casa curar a filha que jaz doente. Um pedido de vida que manifesta a fé no Senhor da vida.
O Senhor irá a sua casa a curará a sua filha, erguê-la-á da cama em que se encontra, como fez e faz com todos os homens e mulheres que lhe pedem a vida, uma cura de vida. Afinal o mistério da vida de Jesus, da sua encarnação, tem apenas esse objectivo, erguer o homem, reerguê-lo à sua condição de filho de Deus.
A outra pessoa que se encontra no meio da multidão é a mulher que sofre de um fluxo de sangue e perdeu tudo em médicos que não a curaram. Ao contrário de Jairo que se lança aos pés de Jesus sem qualquer medo, esta mulher vem temerosa, sem desejar expor-se, apenas confiante que o toque na orla do manto será suficiente para ficar curada. E de facto fica curada, mas fica também exposta, porque Jesus se apercebe da força da fé que o toca mesmo na orla do manto.
Tanto Jairo como a mulher manifestam a sua fé em Jesus e ele manifesta-se a cada um deles como disponível e atento, como aberto a ser convidado a ir a casa ou a deixar-se tocar. Face a estas atitudes podemos assumir a liberalidade de Jesus, o seu amor para com todos aqueles que o procuram com fé e esperança, mostrando-nos que está disponível para ser acolhido em casa como para ser tocado fugazmente. O importante é a fé na busca e a esperança do encontro.
Neste sentido, e num mundo cada vez menos crente, menos esperançado, onde a desconfiança impera e a dúvida se insinua tão frequentemente no coração do homem, esmagando-o na sua humanidade tão rica de potencialidades, Jesus espera de nós um caminhar contra a corrente, uma manifestação de fé e esperança sem desfalecer, porque acreditamos firmemente que ele é o Senhor da Vida. Ou não acreditamos?

Ilustração: “A Cura da filha de Jairo”, de Ilya Jefimowitsch Repin, Museu Estatal Russo, São Petersburg.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pediram a Jesus que se retirasse do seu território (Mc 5,17)

O episódio que São Marcos nos conta da legião de espíritos impuros que Jesus enviou para uma vara de porcos, libertando assim um homem possesso, é por todas as formas surpreendente. Pela descrição do suplício do possesso, pelo encontro de Jesus com ele numa região estranha, pela condescendência de Jesus para com os espíritos, pela profissão de fé dos espíritos e sobretudo pela atitude completamente díspar do homem e da multidão.
Depois da cura que Jesus operou e do desastre dos porcos, a multidão que vem das aldeias e dos campos pede a Jesus que se retire do seu território, que não os incomode mais nem provoque mais nenhum prejuízo. Estão dominados pelo interesse económico, pelo prejuízo sofrido, pela perda, incapazes de ver a salvação que Jesus tinha operado com aquele homem que eles mesmos temiam.
Estes homens, estes senhores dos porcos, acabam por se colocar nos antípodas dos espíritos impuros, pois esses ainda que espíritos impuros, provocadores do mal, prontos a serem vencidos por Jesus, foram capazes de reconhecer a salvação que se apresentava diante deles, o Filho de Deus. Pelo contrário estes homens não são capazes de qualquer pequena condescendência para com Jesus, não são capazes de ver, nem de reconhecer, apenas se querem ver livres dele.
Afinal desconhecem o que se tinha operado ali, a nova situação do homem que anteriormente estava possesso e agora se dispõe a seguir Jesus, a subir para a barca e ir com ele, a acção da graça salvadora de Jesus. Este homem sabe o que era o seu sofrimento anterior, sabe do que foi salvo, e por isso reconhece o seu salvador e quer acompanhá-lo, continuar a partilhar da liberdade da sua salvação.
Contudo, Jesus impede-o, devolve-o aos seus, à família, convida-o ao testemunho da salvação operada, e por isso o homem vai e pela Decápole anunciando o que Jesus tinha feito com ele, a salvação que era possível e de que ele era a prova.
Este convite também nos é feito a nós, a testemunharmos a salvação que Jesus operou connosco e opera em cada um de nós, mas muitas vezes tal como aqueles proprietários da vara dos porcos estamos mais preocupados com o que perdemos, com o prejuízo que podemos sofrer, do que com o bem que podemos ganhar, ou ver ganhar nos outros.
Muitas vezes também andemos cegos e não vemos o bem que Deus opera, a sua cura e a sua salvação, a libertação dos nossos espíritos impuros. Abre-nos Senhor os olhos e o coração para te acolhermos e avaliarmos os que nos fazes ganhar, a vitória que nos ofereces.

Ilustração: “A cura do possesso”, página 51 de Ottheinrich-Bible, Bayerische Staatsbibliothek.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Homilia do IV Domingo do Tempo Comum

Na leitura do Evangelho que acabámos de escutar, São Marcos inicia a vida pública de Jesus sem qualquer rodeio, sem qualquer preliminar para além do chamamento dos discípulos nas margens do lago.
Jesus começa a sua vida pública em Cafarnaum indo à sinagoga e ensinando aqueles que ali se tinham reunido. São Marcos não nos dá qualquer indicação, qualquer referência do que Jesus ensinou, do que disse àquele grupo reunido na sinagoga para escutar a leitura da Lei. Apenas foi ali e ensinou, mas com uma sabedoria e uma autoridade que todos ficaram maravilhados.
Este debutar público de Jesus em Cafarnaum apresenta contudo, e na sua simplicidade, aquele que vai ser o seu método de ensino e pregação ao longo de toda a sua vida, um método que associa o discurso à acção, que associa a palavra ao gesto.
E no acontecimento de Cafarnaum, e face à não apresentação do conteúdo do ensinamento de Jesus, vai ser o gesto o que nos revela aquilo que Jesus tinha ensinado àquela multidão. Diante do gesto e da profundidade do seu significado as palavras podiam ser dispensadas, como foram por São Marcos, pois o gesto dizia tudo.
Face ao sábio ensinamento de Jesus, que no Evangelho de São Lucas nos é apresentado quando se encontra entre os doutores do templo aos doze anos de idade, perdido de seus pais que o buscam desesperadamente, um homem com um espírito impuro levantou-se e começou a gritar, “que tens tu a ver connosco, vieste para nos perder? Sei quem tu és, o Santo de Deus.”
O grito do homem possesso é o enunciado da pregação de Jesus, afinal as palavras que o evangelista não nos quis transmitir. O grito do possesso revela o combate que Jesus tinha anunciado, a luta que se travava entre o bem e o mal, a presença de Deus entre os homens, confessada pelo próprio espírito impuro.
Se na experiência do deserto, com as suas tentações, o demónio não tinha a certeza de estar diante do Filho de Deus, do Santo de Deus, agora aqui é claro, pois a batalha já se iniciou, Jesus já se revelou na autoridade e sabedoria com que ensina, uma autoridade muito distante e diferente da dos escribas e doutores da lei. Por isso o espírito impuro afirma com toda a convicção, “eu sei quem tu és”.
Este conhecimento da divindade da pessoa de Jesus, pela parte do espírito impuro, é acompanhado do conhecimento do objectivo da sua vida, da razão do mistério da encarnação, ou seja, a vitória sobre o mal e a perdição dos espíritos impuros. Vitória desde já anunciada e prefigurada nessa ordem de Jesus de silêncio e abandono do corpo do homem, prontamente cumprida pelo espírito impuro.
Desta forma, e por meio deste relato circunstanciado, ficamos a conhecer as palavras de Jesus, aquele que foi o seu primeiro ensinamento, uma prelecção sobre a luta que se trava entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, e da qual sai vencedor aquele que é o Santo de Deus.
São Marcos prossegue o relato deste acontecimento dizendo que todos ficaram muito admirados com o poder de Jesus, com a sua capacidade de se fazer obedecer até pelos espíritos malignos, deixando dessa forma aos seus leitores a oportunidade de também eles se admiraram e de alguma forma perceberem como discípulos, como crentes, que também eles ali estavam implicados.
A primeira nota a conservar deste acontecimento e do ensinamento de Jesus é essa consciência de uma luta, de um combate em que todos estamos envolvidos e que dura toda a vida do homem. Há em nós uma oposição entre o bem e o mal, duas forças que se gladiam pela supremacia.
Neste sentido não podemos deixar de recordar também as palavras de São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, ou seja, que há circunstâncias do nosso estar no mundo que propiciam a uma tendência para um dos lados, que dificultam o combate pelo bem. São Paulo fala da situação dos casados e dos célibes, mas podemos aplicar o raciocínio a muitas outras dimensões da nossa vida tanto como casados ou solteiros, enquanto situados no mundo. O mundo dificulta-nos o combate.
Desta constatação e do acontecimento de Cafarnaum retiramos a segunda nota para a nossa vida como cristãos e discípulos de Jesus, o combate vence-se na medida em que acolhemos aquele que Deus suscitou como profeta entre nós, em que aceitamos partilhar o combate e a vitória já alcançada por Jesus, na medida em que aceitamos que há alguém com poder para silenciar e expulsar os espíritos que nos perturbam, o mal que nos tenta.
O acontecimento de Cafarnaum narrado por São Marcos abre-nos assim ao mistério da vida de Jesus que depois se desenvolve em todo o Evangelho, mistério que também é o nosso enquanto situados neste mundo de combate, mas do qual podemos sair vencedores se acolhermos aquele que o espírito impuro declarou o Santo de Deus, o vencedor e libertador de todo o mal.

Ilustração: “Jesus ensinando em Cafarnaum”, de Maurycy Gottlieb, Museu Nacional de Varsóvia.

sábado, 28 de janeiro de 2012

São Tomás de Aquino negociante de pérolas


É São Mateus que nos diz que Jesus comparou o Reino de Deus a um negociante de pérolas, um negociante que tendo encontrado uma pérola preciosa e de grande valor vende tudo para a comprar para si.
Esta parábola assenta como uma luva ao grande doutor e santo dominicano que hoje celebramos, São Tomás de Aquino, que tudo deixou para encontrar e gozar da pérola preciosa que é o próprio Deus.
Quando ainda jovem, quase sem poder para decidir sobre a sua vida, vende o campo que lhe era oferecido pela família através da educação que recebia na abadia, para comprar a pérola um tanto ou quanto ainda desconhecida e pouco apreciada que era a Ordem mendicante dos Pregadores. Tomás de Aquino vende a glória de um título familiar, de uma mitra de abade desde há muito projectada para ele, ou até de um possível chapéu cardinalício, para comprar a pérola preciosa da pobreza, da obediência e da vida comum ao serviço da verdade da Palavra de Deus.
Já na Ordem vende o campo da quietude da cela conventual para ensinar na Sorbonne, para comprar a pérola da luta contra os delatores da pobreza mendicante e o seu direito a ensinar, a ensinar a verdade do Evangelho e da presença de Deus em todas as suas criaturas.
Em Paris e em Colónia, em Roma ou em Bolonha vende o campo do tempo de descanso para poder comprar a pérola da oração e do silêncio, imitando dessa forma São Domingos que de dia falava de Deus e de noite falava com Deus.
Tomás de Aquino equilibra a sua busca da pérola perfeita da santidade entre o estudo da verdade e a sua transmissão aos homens, e a contemplação dessa mesma verdade na oração pessoal, na celebração da Eucaristia, na vida fraterna dos irmãos e no silêncio dos claustros.
A cada pérola preciosa alcançada Tomás de Aquino deseja e busca acrescentar outras ainda mais preciosas e perfeitas.
Até que um dia, 6 de Dezembro de 1273, durante a celebração da Eucaristia, São Tomás vislumbra a verdadeira e perfeita pérola, a pérola que o levará a dizer ao seu secretário de longa data e grande amigo Reginaldo de Piperno, “tudo o que escrevi até agora é palha levada pelo vento”.
Tomás de Aquino deseja essa pérola, foi por ela que toda a vida deixou e vendeu os campos, foi trocando as sucessivas pérolas por uma sempre mais perfeita e preciosa. Agora está ali à mão e contudo não a pode comprar, apenas pode expressar esse desejo de a querer, “Non nisi Te Domine”, nada mais que tu Senhor.
A pérola perfeita e mais preciosa não se compra, é oferecida, está à disposição de quem a queira procurar, sentada à porta de casa e à espera de ser acolhida. Tomás de Aquino procurou-a, buscou-a na sua investigação pela verdade de Deus e a verdade presente na obra divina da criação, mas agora oferece-se-lhe como dom e apenas condicionada ao seu abandono total à imensidão do amor.
É Deus que agora apenas deve trabalhar, e tal como na natureza em que se formam as pérolas, Tomás de Aquino apenas se deve apresentar nu, só e sem armas no coração da madrepérola do amor de Deus para terminar de se transformar ele próprio numa pérola preciosa. Desde aquele 6 de Dezembro até 7 de Março de 1374 não fez mais nada, apenas deixou Deus terminar a obra começada.
Peçamos a Deus por intercessão de São Tomás que nos ajude a vender os campos que nos prendem, para buscarmos a verdadeira e perfeita pérola que é a transfiguração no Deus que nos ama e nos transfigura.

Ilustração: “A Tentação de São Tomás de Aquino”, de Diego Velázquez, Museu Diocesano de Orihuela.





sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Conforme eram capazes de entender (Mc 4,33)

Conta-nos São Marcos que Jesus pregava à multidão em parábolas, conforme eram capazes de entender, mas aos discípulos tudo lhes explicava.
Há nas parábolas de Jesus, e assim nos é dito em outra passagem do Evangelho, um desejo de inexplicável, um desejo de que aqueles que ouvem as parábolas não as entendam apesar de as ouvirem.
Contudo, São Marcos deixa escapar a afirmação de hoje e com ela mostra-nos que se havia da parte de Jesus um certo ocultamento, havia também uma preocupação pedagógica. Afinal assim nos é dito neste trecho do Evangelho, Jesus procurava revelar e dar a conhecer o Reino de Deus, de acordo com as capacidades de compreensão do seu auditório.
Esta posição é confirmada e corroborada na medida dos próprios exemplos que Jesus utiliza nas parábolas, vinha, sementes, terra, semeador, um conjunto de realidades que faziam parte do quotidiano dos seus ouvintes e do seu conhecimento empírico.
Neste sentido temos que reconhecer que a própria Boa Nova de Jesus, a revelação está conforme à nossa capacidade de entender, de conhecer, e portanto todas as realidades divinas que se nos tornam perceptíveis são apenas uma pálida imagem da realidade.
A bondade de Jesus que conhecemos é uma ínfima parte da sua verdadeira e divina bondade, o seu amor presente nas nossas vidas é apenas um leve toque do seu amor divino. O mistério da encarnação do Filho de Deus é apenas uma equação adaptada à nossa capacidade, porque ele é muito mais do que o homem pode imaginar ou conceber.
Face a isto podemos soçobrar, reduzidos à inveja e à frustração da nossa incapacidade, ou pelo contrário animar-nos a dar graças a Deus por tudo o que Deus fez e faz por nós, e nos ultrapassa no nosso conhecimento e capacidade de abarcar.
Esse dar graças certamente abrirá o nosso coração à humildade e capacitar-nos-á pela mesma humildade a reconhecer e conhecer o que mais há ainda para conhecer e entender de Deus. Não desperdicemos a oportunidade.

Ilustração: “Santa Face”, de Francisco de Zurbaran, Museu Nacional de Stockholm.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Exorto-te a que reanimes o dom de Deus (2Tm 1,6)

Exorto-te a que reanimes o dom de Deus. É desta forma que Paulo se dirige a Timóteo logo no início da sua carta para aquele que era um dos filhos espirituais.
Uma intimação, uma ordem, um convite àquele por quem Paulo dava graças a Deus nas suas orações, àquele que Paulo desejava novamente ver para se encher de alegria.
Timóteo era seu filho espiritual mas era também filho da fé sincera da sua avó Loide e da sua mãe Eunice, um homem fortalecido na fé pela pregação do apóstolo e pelo testemunho da família.
Reanimar um dom cuja missão principal se traduzia em dar testemunho, em não se envergonhar nem de Paulo, nem de Cristo, nem do próprio dom recebido, que se traduzia em ser forte, moderado e caridoso.
O dom recebido de Deus não era um espírito de timidez, um espírito de fraqueza, mas bem pelo contrário um espírito de fortaleza capaz de suportar os desafios da caridade e da moderação, do sofrimento pelo Evangelho.
Paulo convida Timóteo a não se envergonhar, a confiar no poder de Deus e nesse dom que o transformava. Também em Timóteo nós somos convidados à mesma confiança, a não ter envergonha da nossa fé e dos nossos dons, da fortaleza, da caridade e da moderação com que procuramos viver alicerçados no Senhor.
Ao terminar o dia demos também graças a Deus, oremos a Deus por aqueles que nos enchem de alegria como Timóteo enchia Paulo, e solicitemos de Deus a fortaleza para moderarmos a tristeza que nos podem causar.

Ilustração: “São Timóteo e Maura”, de Henryk Siemiradzki, Pinacoteca Zascianek, Polónia.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

São Paulo defende a sua conversão ( Act 22,3)

Os Actos dos Apóstolos guardam um discurso que Paulo de Tarso dirigiu ao povo de Jerusalém depois deste o ter aprisionado e agredido no templo e a seguir o ter entregue às mãos das autoridades romanas.
É uma defesa da sua conversão a Jesus Cristo, àquele que ele mesmo tinha perseguido na pessoa dos discípulos e para o qual tinha obtido credenciais e poderes junto das autoridades religiosas que agora o entregavam como herege e blasfemo.
Mas se Paulo faz um relato da sua vida como judeu cumpridor da lei, do acontecimento que alterou a sua vida, ou seja do momento da sua conversão, o que verdadeiramente nos pode e deve tocar hoje, e certamente por isso e pelo alcance que podia ter Paulo se refere a ele, é o zelo com que tudo fez, a sua paixão pelo serviço de Deus.
Paulo persegue os cristãos porque é zeloso pelo cumprimento dos preceitos da sua fé, é zeloso quando depois de se encontrar com Jesus a caminho de Damasco procura humildemente aquele Ananias que lhe podia ajudar a recuperar a visão, é zeloso ao prontificar-se a receber o baptismo depois da experiência que tinha vivido, é zeloso porque depois disso não deixou de anunciar a todos os homens a maravilha de Deus que tinha descoberto, é zeloso ao ponto de subir a Jerusalém sabendo o perigo de vida que podia correr. Paulo é a na sua vida e na sua acção, em todas as suas vertentes, a expressão viva da palavra do profeta “o zelo da tua casa devora-me” e por ele a tudo se expos e tudo sofreu.
Um zelo que não é outra coisa senão a expressão do amor, de um amor que ultrapassa a razoabilidade e se torna difusivo, contagiante, comunicável porque não sabe viver apenas em si e para si, necessita dar-se para se sentir e existir. E neste sentido São Paulo é para nós um exemplo e um convite a viver de forma audaciosa o zelo pela casa do Senhor, pela sua glória, nomeadamente nessa glória que é o próprio homem. Como cristãos e herdeiros da palavra de Paulo e da sua missão necessitamos transformar-nos em pólos contagiantes, difusores em cada momento do nosso quotidiano da maravilha que é o Deus que nos salvou e no qual acreditamos como fonte de uma vida nova.
Que São Paulo interceda por nós e nos alcance pelo menos um pouco da sua paixão por Jesus Cristo e a sua boa nova do amor

Ilustração: “Conversão de São Paulo”, de Francisco Camilo, Museu Provincial de Segóvia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura. (Mc 3,32)

O comportamento de Jesus provoca a preocupação da família que parte à sua procura no intuito de o fazer regressar a casa. Ao chegarem à casa onde ele se encontrava tiveram que ficar fora uma vez que era impossível chegar junto dele devido à multidão que o rodeava.
Alguém ao dar conta do sucedido avisa Jesus daqueles que estão fora e o procuram, da sua família que o quer levar de volta a casa. É então que Jesus profere uma palavra que nos deixa surpreendidos, porque no grupo de fora estava a sua Mãe, aquela que tinha aceite fazer a vontade de Deus.
Contudo, esta aparente desconsideração de Jesus para com sua mãe visa marcar uma fronteira, limitar campos. A expressão de Jesus, tomada e reforçada pelo Evangelista Marcos visa mostrar a diferença entre os que estão fora e os que estão à sua volta, entre os que estão dentro de casa e gozam da sua intimidade e aqueles que o buscam ainda sem sentido ou erradamente.
O grupo da família de Jesus, no qual se insere sua mãe certamente por pressão do grupo patriarcal, representa aqueles que buscam Jesus pela sua relação familiar, numa tentativa de posse e apropriação. E neste sentido, este episódio pode ter sido para Maria um ponto de viragem, uma demonstração de que afinal o seu filho não era sua propriedade, era Filho de Deus e por isso só podia ser acolhido na amplitude da sua liberdade.
Aqueles que estão dentro da casa, pelo contrário são aqueles que ouvem a palavra, ouvem Jesus e o acompanham sem mais qualquer outra pretensão que a escuta da sua palavra, a sua companhia e a partilha desse Reino de verdade e justiça que anuncia.
Também nós necessitamos purificar-nos na nossa busca de Jesus, passar a fronteira da tentativa de apropriação para gozarmos apenas da sua presença sem qualquer outra pretensão.

Ilustração: “Jesus despedindo-se de sua Mãe”, de Albrecht Altdorfer, National Gallery, Londres.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Beato Henrique Suzo, Místico Dominicano

Celebra hoje a Ordem de São Domingos a memória do Beato Henrique Suzo, um dos místicos renanos, a par de Eckhart e Tauler.
Como para quase todos aqueles que, na Idade Média, não nasciam nas famílias reais, pouco ou nada sabemos sobre o seu nascimento e a sua infância. É provável que tenha nascido em Constanza, ou na vizinha cidade de Unterlinden, na região da Suábia, e mais ou menos entre 1295 e 1297.
Aos treze anos entrou na Ordem dos Pregadores, no convento da cidade de Constanza, então da Província da Teutónia. É provável que ali tenha realizado os seus estudos elementares e mais tarde tenha sido transferido para o Studium de Estrasburgo.
Depois de viver cinco anos no convento sem muito fervor, Henrique experimenta uma grande insatisfação com a sua vida e um grande vazio interior, preliminares de uma experiência mística extremamente forte que viverá e o levará à conversão profunda.
Descobre que só o amor de Deus completa e sacia o seu coração ardente e por essa razão quer permanecer tão intimamente unido ao Senhor que num arrebate de paixão grava sobre o seu coração o monograma de Jesus dizendo: “Senhor, único amor do meu coração, vê o enorme desejo da minha alma. Não posso imprimir-te mais fundo. Assim pois, acaba Senhor o que falta e grava-te mais profundamente no fundo do meu coração, esculpe e sela em mim o teu santo nome de modo a que nunca possa apagá-lo nem apartá-lo do meu coração” (Vita, capítulo 4)
Será este momento da vida de Henrique Suzo, que Zurbaran plasmará num quadro que se pode admirar no Museu de Belas Artes de Sevilha, um quadro carregado de misticismo na simplicidade da sua mesma representação.
Este desejo de viver sempre unido a Deus vai ser uma constante na sua vida, que num primeiro momento se traduzirá por uma grande austeridade e mortificação de vida, à semelhança dos Padres do Deserto, cuja vida se lia nas refeições do convento. Tal como os seus contemporâneos considera que o sofrimento é um dado do amor, acompanha o amor e portanto não há amante que não seja mártir.
Anos mais tarde numa outra experiência mística, em que se encontra com a Sabedoria, vai descobrir que os exercícios ascéticos são apenas um bom começo, mas não são o fim. A Sabedoria convida-o a iniciar-se na ciência do abandono total e perfeito, de modo a estar tão despojado de si mesmo que não lhe importe como Deus se manifesta, se por si mesmo, se pela natureza, pelas suas criaturas, se na alegria ou no sofrimento. O importante é a disposição para o acolhimento.
Ao ser enviado para o Studium General de Colónia Henrique em 1324 encontra-se com o Mestre Eckhart, um outro místico, mestre e reformador da vida religiosa. A condenação do Mestre condiciona Henrique Suzo a regressar a Constanza onde viverá vinte anos, até em 1348 ser enviado para Ulm onde permaneceu até ao fim dos seus dias, 25 de Janeiro de 1366.
A tradução da sua obra para latim em 1555 pelo monge cartuxo Lourenço Surio fez com que se difundisse por toda a Europa o seu pensamento e a sua obra, nomeadamente a mais conhecida e reveladora do seu pensamento e da sua mística “Horologium Sapientiae”, “O Diálogo da Sabedoria”.
Neste dia que em que celebramos a sua memória, que o Beato Henrique Suzo interceda por nós e avive em nós esse desejo de união íntima e constante com Jesus.

Ilustração: “Henrique Suzo”, Incunábulo K7 da Biblioteca Nacional e Universitária de Estrasburgo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Carta de 1924 de D. Laura de Avelar e Silva Benfeitora dos Estudantes Dominicanos

Continuamos a divulgação do espólio documental do Arquivo Histórico Dominicano apresentando mais uma missiva de D. Laura de Avelar e Silva. Uma vez mais se pode constatar a sua colaboração no financiamento da formação dos jovens estudantes dominicanos, pois deixa quatro contos de reis para as despesas.

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Por ter de esta às 9 ½ na igreja dos Anjos onde tenho uma missa de aniversário de uma pessoa de família é-me impossível ficar aqui para a missa das 10 e esperar por Vossa Reverência.
Junto aqui quatro contos de reis para os meus 2040 francos, porque visto ter de tirar a licença para uns é mais fácil visto ter a factura pedir Vossa Reverência para todos.
Enquanto às liras, tenho esperança de alguma coisa arranjar.
Quando voltará Vossa Reverência para eu lhe poder falar?
Sou com a maior consideração de Vossa Reverência atenciosa respeitosa e obrigada.
Laura de Avelar e Silva

Nota à mão: Esta carta é de Maio de 1924.

Homilia do III Domingo do Tempo Comum

As leituras deste Terceiro Domingo do Tempo Comum não podem deixar de nos recordar, como diz São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, que o tempo é breve, que o tempo é um dom que Deus coloca à nossa disposição para uma alteração na nossa vida, para a conversão do nosso coração ao coração de Deus, para aproveitar a oportunidade de uma ascensão na nossa identidade neste tempo que nos é possível.
Na leitura que escutámos do Evangelho de São Marcos encontramos Jesus junto do mar da Galileia a anunciar que se cumpriu o tempo e está próximo o Reino de Deus, razão para que os que o escutam se convertam e acreditem no Evangelho. É o início da vida pública de Jesus, que no Evangelho de São Marcos, é apenas precedida por treze versículos nos quais se nos conta a missão de João Baptista no deserto, o baptismo de Jesus e de forma breve a experiência das tentações no deserto.
Este anúncio de Jesus, do tempo que se cumpriu, está muito próximo do anúncio que escutávamos na boca do profeta Jonas em Nínive, mas se para os habitantes da grande cidade que levava três dias a atravessar havia quarenta dias para mudar de vida, no caso de Jesus e do seu anúncio a conversão exige-se imediata, é uma urgência, uma vez que o tempo se cumpriu, que a promessa de Deus está em acontecimento.
Face a Jesus não há um prazo para conversão, porque o que se espera, o que Deus espera é o acolhimento, é a aceitação da sua oferta de perdão e amor misericordioso. Por essa razão São Marcos nos relata que quando Jesus passou junto dos barcos e viu Simão e André a pescarem e os convidou a serem pescadores de homens, eles deixaram tudo e seguiram Jesus.
Não houve qualquer hesitação, qualquer discussão, qualquer interrogação sobre as suas capacidades ou sobre a razão do seu chamamento, nem mesmo sobre as consequências de abandonarem tudo e seguirem aquele Jesus que lhes anunciava que o tempo estava cumprido, que estava agora e ali a oportunidade de o aproveitar. Neste sentido São Marcos quer anunciar e convidar-nos à fé daqueles homens que deixaram tudo sem certamente perceberem minimamente o que significava ser pescadores de homens. Também nós somos convidados à mesma radicalidade de fé, pois também muitas vezes o Senhor nos chama através do inusitado e do insuspeito ao seu amor.
Por outro lado este chamamento dos discípulos quer mostrar-nos o apelo à conversão, à adesão e ao seguimento de Jesus, ao acolhimento sem reservas da sua pessoa e do seu dom salvador, que acontece no quotidiano, nas mais diversas circunstâncias da nossa vida. É aí, nesse tempo que temos e é sempre breve, que o Senhor vem ao nosso encontro e se nos oferece como oportunidade de alteração de vida.
Esta dimensão alterante, conversora do chamamento de Jesus, percebe-se no chamamento de Simão e André, mas de forma ainda mais evidente no chamamento de Tiago e João. Se os primeiros deixaram as redes, a sua situação laboral, Tiago e João deixam o pai com os assalariados para seguirem Jesus. O seguimento de Jesus, a adesão ao seu convite, promove-os de assalariados a amigos, altera-os na sua condição e no seu estatuto. Não é sem razão que em outra passagem do Evangelho de São João, Jesus diz que os servos não sabem o que faz o seu senhor enquanto que os amigos o conhecem na intimidade, porque lhes foi dado a conhecer.
O convite de Jesus é portanto um convite a passar dessa situação de assalariado a uma situação de amigo, a um novo estatuto e identidade que deriva dessa partilha da sua mesma intimidade, da aceitação do convite ao seguimento. Face ao tempo, e à necessidade que temos do seu aproveitamento, é de facto urgente que aceitemos o seu convite a partilhar da sua intimidade, a segui-lo para conhecer e gozar do dom do Pai que se nos oferece nele próprio.
Aceitando o seu convite, e a forma como nos transforma e converte, percebemos a dimensão das palavras de São Paulo aos Coríntios quando lhes diz que o cenário deste mundo é passageiro e portanto tudo o que fazemos e vivemos é relativo, insignificante, fora do tempo e da verdade de Jesus Cristo, do seu tempo redimido e redentor e da verdade do seu amor misericordioso. Tudo tem outro sentido à luz da sua pessoa e do seu mistério salvador.
Procuremos pois viver as várias circunstâncias e realidades da nossa vida à luz deste convite que Jesus nos faz de nos encontrarmos com ele nessas mesmas circunstâncias e realidades, para que o seguindo aí e vivendo na sua intimidade nos sintamos resgatados da nossa condição de servos assalariados e elevados ao estatuto de amigos.

Ilustração: “A vocação dos filhos de Zebedeu”, Marco Basaiti, Academia de Veneza.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Diziam que Jesus estava fora de si. (Mc 3,21)

É face à incapacidade de Jesus e os seus discípulos conseguirem comer, devido à gente que se acumulava à porta de casa, que a sua família se põe a caminho para o vir buscar, para o fazer regressar ao seio da família e do controlo da aldeia. As suas atitudes estranhas e inusitadas obrigavam a dizer, pelo menos à família, que estava fora de si.
Estranha afirmação pelo que encerra de mentira, de equívoco, e de verdade, de uma profunda e inequívoca verdade. Equívoco no sentido de que Jesus não estava louco, nem possuído por nenhum demónio, como alguns quiseram fazer parecer. Sabia muito bem o que fazia e porque o fazia.
Profunda e inequívoca verdade, porque Jesus estava de facto fora de si enquanto membro da Trindade que tinha encarnado como filho de homem, como Deus que se tinha colocado fora da sua transcendência para se baixar ao nível dos homens.
Loucura completa, mas uma loucura que é mais sábia que a sabedoria dos homens, pois jamais pela cabeça de qualquer homem, de qualquer sábio, passaria essa ideia estranha de um deus se fazer igual à suas criaturas, de se baixar da sua condição celestial para se deixar aniquilar às mãos daqueles que não são mais que pó da terra.
Loucura que contagia, porque outros homens e mulheres depois de Jesus quiseram fazer a mesma experiência, alguns assumiram mesmo viver como loucos para mostrar aos homens sábios como fúteis são algumas das suas pretensões de poder e domínio, de egoísmo e avidez.
Também nós hoje somos convidados a viver esta loucura, a ser testemunhas de uma vida e uma esperança que desconcerta e se desenquadra dos parâmetros estabelecidos, para que os homens percebam como tudo é passageiro e só em Deus se encontra a verdadeira sabedoria.

Ilustração: “Um Louco de Deus sentado na neve”, de Vasily Surikov.

Carta de D. Laura de Avelar e Silva Benfeitora dos Estudantes Dominicanos

Se ontem divulgávamos uma nota das despesas da formação dos jovens dominicanos em Saint-Maximin no ano de 1926 e referíamos como as notas à margem manifestavam a existência de benfeitores que patrocinavam os estudos desses dominicanos, hoje apresentamos uma pequena carta que D. Laura de Avelar e Silva escreveu aos padres dominicanos em Portugal em Março de 1925 e na qual refere que inclui quinhentos mil reis para se poder liquidar as dívidas que existiam em Espanha.
É interessante ver a sua preocupação com o “desemprego” do destinatário da carta, mas sobretudo o sentimento de partilha de responsabilidade quando usa o plural no “saldarmos”, como se a divida da formação dos dominicanos também fosse sua.
Como se pode ver na nota que foi escrita no fundo da carta “estes 500 mil reis deviam ser para pagar em Córias a viagem do António Oliveira de lá para Saint-Maximin”.
António era o nome de baptismo de frei Clemente de Oliveira, que em 1923 passou do Convento de Córias, pertencente à Província de Espanha e onde fez o primeiro ano de Filosofia, para Saitn-Maximin onde terminou os estudos.

Lisboa 2 de Março de 1925

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor
Também eu tive muita pena de não ter estado em casa quando Vossa Reverência fez o favor de me vir procurar. Mas tenho tido uma questão judicial que muito me preocupava e que muito me fez sair. Graças a Deus foi agora julgada e a nosso favor como era de justiça.
Incluo aqui 500$000 reis para Vossa Reverência fazer o favor de comprar o cheque das pesetas e as mandar ao seu destinatário para saldarmos as nossas contas em Espanha.
Então arranjou alguma capelania boa? Conseguiu alguma coisa nas Picoas?
Esperando o prazer de o ver e poder conversar, sou com a maior consideração de Vossa Reverência atenciosa venerada e muito obrigada
Laura de Avelar e Silva

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Despesas dos Estudantes Portugueses Dominicanos em França em 1926

Há pequenos troços de papel que nos comovem, como aconteceu comigo com esta nota das despesas dos estudantes dominicanos em França em 1926. É o testemunho material de um tempo de grandes dificuldades, para quem permanecia em Portugal a angariar um pouco de dinheiro para sustentar a formação dos jovens frades no estrangeiro, e para quem estava lá, certamente cheios de saudades da sua terra natal e carregando o peso da responsabilidade de não desanimar nem desiludir aqueles que apoiavam.
A nota de despesa diz respeito aos gastos do frei Tomás Maria Videira e frei Clemente de Oliveira durante o segundo trimestre de 1926. Por cada estudante era cobrada uma mensalidade de 240 ou 248, ou seja 8 francos por dia. Para além das mensalidades encontramos ainda a despesas das viagens a Marselha de frei Clemente de Oliveira, as taxas do Consulado para ambos e os remédios para o frei Tomás Videira. Uma despesa total de 1634 francos.
Podemos ver também que havia um crédito em nome de M. Lopes, frei Bernardo Lopes, no qual se incluíam as 23 pesetas que Clemente de Oliveira tinha entregue no seu regresso de Portugal.
Contudo, o que mais comove neste pedaço de papel são as notas e as contas feitas à mão por quem tinha que liquidar a factura. Por elas percebemos as dificuldades e os arranjos que era necessário arquitectar. E se havia pessoas que pagavam pelo Videira e pelo Clemente as mensalidades, como se pode ver na conta feita do lado esquerdo, e nas notas a lápis do fim da folha, o responsável teve que adiantar algum dinheiro do seu bolso, como regista: “à minha conta tive pagar além de 6 francos que já lá estavam mais 158 que a 550 custaram 86$900”.
Para pagar a conta presente teve que comprar dois cheques de 814 francos cada um, o que custaram ao câmbio de 550 o valor total de 895$400 e mais 1$200 de encargos bancários. Uma despesa tremenda para quem vivia de esmolas.
A notar ainda que esta factura de despesas foi recebida no dia 3 de Setembro de 1926, e parece assinada por Mr. Thomas La Crampe.
Que o Senhor recompense com a sua glória aqueles que passaram por estes sofrimentos e aqueles que os suavizaram com sua ajuda pecuniária.

Jesus escolheu doze para estarem com ele (Mc 3,14)

Jesus subiu ao monte com os seus discípulos e escolheu doze para estarem com ele, para andarem com ele, partilharem da sua intimidade. Depois enviá-los-ia a anunciar a Boa Nova do Reino, a curar enfermos e a expulsar demónios, mas agora é com ele que devem estar.
E para reforçar esta necessidade de permanência e intimidade chama cada um dos doze pelo seu nome próprio, e a alguns dá-lhes mesmo um nome novo, um nome que lhes permitirá experimentar no alto de um outro monte a visão gloriosa daquele que os tinha chamado.
Este é afinal o primeiro passo da vocação dos doze, depois do chamamento nas margens do lago, permanecer e estar com Jesus, acompanhá-lo nas suas mais diversas experiências, para aprofundar a amizade e o conhecimento.
É uma experiência fundamental e extremamente necessária pois só nesse conhecimento e nessa permanência é possível crescer na comunhão fraterna, formar uma comunidade unida e fortalecida nos laços de amor pelo mesmo amor daquele que chamou e escolheu.
Sem esta experiência e esta unidade é impossível testemunhar a verdade de Jesus Cristo em toda a sua dimensão e realidade humana e divina, pois é em Jesus que se pode fazer a experiência da presença de Deus entre os homens, do seu amor misericordioso e da confiança que o Espírito Santo nos oferece.
Permaneçamos assim também nós junto de Jesus, partilhemos um pouco da sua intimidade e da sua vida, para que possamos testemunhar a sua verdade e o seu amor por cada um de nós, a quem chama também pelo seu nome para nos dar um nome novo.

Ilustração: “Vocação dos Apóstolos”, de Domenico Ghirlandaio, Capela Sistina, Vaticano.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jesus pediu que lhe preparassem uma barca (Mc 3,9)

Conta-nos São Marcos que a multidão era tanta que ao chegarem às margens do lago Jesus pediu aos discípulos que lhe preparassem uma barca para que a multidão não o apertasse.
Sem querer, este comodismo de Jesus faz-me esboçar um sorriso, acho-o cheio de piada, pois mostra-nos um Jesus que também se encolhia, que também não se sentia à vontade com tudo e com todos. É um Jesus humano, à medida das nossas próprias esquisitices.
Mas pensando mais a sério, numa leitura alegórica, podemos pensar que Jesus também nos pede que lhe preparemos uma barca para a qual possa subir, uma barca na qual não se sinta preso nem apertado.
Jesus pede-nos que preparemos a barca do nosso coração e da nossa vida, uma barca onde ele se sinta à vontade, livre par circular e falar, onde não haja qualquer tralha ou empecilho que o limite.
E como é difícil arrumarmos a nossa barca para que ele possa sentar-se, estar à vontade, sentir-se em casa na casa que é dele por direito. Andamos tão cheios de multidão sedenta de satisfação momentânea que nos esquecemos até da barca.
Vem Senhor gritar-nos a vontade que tens de subir à nossa barca e a necessidade que nós temos que subas para navegarmos mar adentro com confiança e segurança.

Ilustração: “Fuga para o Egipto”, de Sebastiano Ricci, Devonshire Collection

Frei Pie Jougla Vigário dos Dominicanos em Portugal de 1928 a 1937

Frei Pie Jougla nasceu em França em 1868. Em 1880 fazia a sua Primeira Comunhão e em 1890 entrava na Ordem dos Pregadores.
Dotado de grandes qualidades de inteligência e coração distinguiu-se como Padre Mestre na Itália e em França, exercendo esse cargo durante quase vinte anos.
Em 1920 foi nomeado Prior de Toulouse, depois Vigário de Montpellier, e em 1925 foi eleito Prior do Convento de Saint-Maximin.
Em 1927 é enviado pelo Mestre da Ordem frei Boaventura Garcia de Paredes para restaurar a antiga Província dominicana portuguesa. Chega a Portugal em Janeiro de 1928 data em que entra no exercício das suas funções de Vigário Geral do Mestre da Ordem para Portugal, cargo que exerceu de forma incansável até ao momento em que faleceu em França no dia 16 de Novembro de 1937.
Ao chegar a Portugal a sua primeira tarefa foi aprender o português, algo um tanto ou quanto dificultado pela idade e pela experiência da língua italiana que tinha aprendido aquando da sua passagem por Itália. O seu esforço e empenho heróicos conseguiram que se fizesse perceber e assim um ano mais tarde escreve para França que irá pregar um retiro aos Seminaristas do Seminário de Coimbra, mas consciente que é uma missão penosa para um francês recém-chegado.
Contudo, se não chegou a manejar facilmente o português, a verdade é que os erros que dava eram facilmente resgatados e perdoados pela profundeza da sua doutrina e pela clareza da exposição de argumentos. Os ouvintes gostavam de o escutar.
Durante três anos governou a pequena comunidade do Luso e a sua Escola Apostólica, ocupando-se aí por vezes do ensino da Filosofia e do Latim. Face à entrada de alguns jovens para o Noviciado, quis levar mais à frente a sua acção restauradora da Província e para isso abriu uma casa em Coimbra, deixando à frente da Escola Apostólica do Luso frei François Cazes, vindo de França especificamente para essa missão.
Face ao desenvolvimento da comunidade do Luso, com o aumento do número de alunos, fez-se sentir a necessidade de uma outra casa para a Escola. Foi frei François Cazes que pediu autorização para a Escola se transferir para Mogofores, onde se ofereciam pelo menos temporariamente melhores condições numa casa mais ampla e desafogada.
Como os meios financeiros disponíveis não eram muitos limitaram-se as obras de adaptação da casa ao essencial, permitindo contudo que ainda assim se alojassem quinze alunos. Como frei Pio Jougla queria os alunos bem formados redigiu conjuntamente com frei Henrique Abadie, entretanto também chegado de França, o regulamento da Escola.
Em 1933, e depois de frei François Cazes ter sido chamado de regresso a França, ficou a faltar em Mogofores um Superior que continuasse o objectivo estabelecido de formação. Frei Pio Jougla viu-se assim obrigado a deixar a casa de Coimbra e a assumir esse cargo e tarefa.
O ano de 1934 foi um ano de provação para frei Pio Jougla, pois levantavam-se no ar sérias dificuldades para o pequeno grupo de frades. A Casa de Coimbra, onde tinham ficado três irmãos, viu-se obrigada a fechar, desfazendo-se dessa forma as grandes esperanças e aspirações do padre Jougla de estar no meio universitário, tal como São Domingos tinha ordenado aos seus irmãos.
O projecto de Coimbra ainda que humilde era oportuníssimo, pois como expressa em 1931 era uma forma de estar junto dos meios intelectuais, dos jovens, do seminário diocesano, das Irmãs Dominicanas que já ali estavam instaladas e das Fraternidades da Ordem Terceira que também já ali existiam. Desfeita a precária realização do sonho nunca desistiu dele totalmente e por isso quando os irmãos portugueses em 1936 lhe apresentam a proposta de uma comunidade na cidade do Porto, frei Pio Jougla expressa a sua preferência e vontade de voltar a Coimbra.
Devido à sua idade e experiência conhecia bem os homens e as Constituições da Ordem e por isso a ele se deve não só a introdução do uso do hábito dentro de casa como também de uma certa regularidade de práticas e costumes. A sua acção inspirada pelas circunstâncias foi resolver as dificuldades que a missão lhe oferecia e ir formando nos seus irmãos um verdadeiro e integro espírito e vida dominicanos.
Este espírito formativo dominicano estendia-se para além das paredes da casa e alcançava as Fraternidades da Ordem Terceira, que visitou por todo o país, e as Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, nomeadamente através dos conselhos seguros e cheios de caridade que facultou à Madre de São João Evangelista Vidal enquanto Madre Geral da Congregação.
Fora do âmbito dominicano não se podem deixar de referir a conferência proferida aos estudantes do CADC, profundamente apreciada, e as conferências que quinzenalmente ministrava aos estudantes do Seminário Maior de Coimbra, no qual no ano lectivo de 1931-1932 foi professor de Ascética e Mística. Foi também convidado pelo bispo de Portalegre, D. Domingos Frutuoso a exercer o mesmo ministério junto dos seus seminaristas, mas a saúde precária já não lhe permitiu tal trabalho.
Em Coimbra exerceu ainda, a pedido do bispo da diocese, o acompanhamento dos membros da Congregação dos estudantes filhos de Maria, realizando dessa forma um apostolado fecundo junto daqueles que eram considerados a elite dos estudantes católicos na universidade de Coimbra.
A precariedade da sua saúde, já na fase final da sua vida, fez com que em alguns momentos não fosse compreendido pelos irmãos e comunidade da Escola Apostólica de Mogofores, e obrigou-o a retirar-se para França com a promessa de visitar os irmãos portugueses cada três meses. Ainda que distante esteve sempre a par de tudo o que se passava na Escola Apostólica e assim quando depois da nomeação de frei Gil Alferes para Superior em Outubro de 1936 são redistribuídos os cargos comunitários escreve de França a contestar e a proibir uma nomeação realizada.
Se os seus planos iniciais de Restauração da Província falharam e em muitos aspectos ficaram aquém do desejado, isso deve-se à falta de elementos de suporte, a uma ajuda que lhe foi prometida pelo Mestre da Ordem e que ele não soube pedir ou nunca lhe foi facultada. Ainda assim, a Restauração da Província deu os primeiros passos de uma forma pacífica e firme e à data da sua morte em 1937 a Escola Apostólica de Mogofores tinha seis sacerdotes, quinze alunos, e seis estudantes superiores em França.

Ilustrações:
1 – Memória da Morte de Frei Pie Jougla.
2 – Grupo de Irmãs da Ordem Terceira Dominicana com os Padres em Mogofores em 1937. Encontram-se presentes frei Tomás Maria Videira, frei Clemente de Oliveira e de hábito completo frei Gil Maria Alferes.
3 – Grupo de Irmãs de Santa Catarina de Sena do Colégio de São José de Coimbra em 1937 com frei Gil Maria Alferes.
4 – Grupo dos quinze alunos da Escola Apostólica de Mogofores em 1937 com frei Tomás Maria Videira. Sentado à direita de frei Tomás, parece ser Agostinho da Fonseca Rodrigues, e o mais alto do lado direito Raul de Almeida Rolo. Identidades a necessitar confirmação.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Levanta-te e vem aqui para o meio (Mc 3,3)

A ordem de Jesus ao homem que se encontra na sinagoga com a mão atrofiada é muito clara e precisa, “levanta-te e vem aqui para o meio”. Uma ordem inesperada, sem qualquer acção prévia, quer da parte do homem ou quer da parte de Jesus. Apenas um público expectante, ou algum público previamente expectante.
A ordem de Jesus ao homem que tem a mão atrofiada deve contudo obrigar-nos a pensar no que ela representa, porque inevitavelmente coloca o homem e coloca-nos a cada um de nós sobre a mira do olhar. Com a nossa mão atrofiada somos convidados a levantar-nos e a colocar-nos no meio, num centro de atenções.
Isto pode representar um problema sério para aqueles que são mais tímidos, para os mais envergonhados, pode ser também uma armadilha para os vaidosos e orgulhosos. Porque o colocar-se no centro significa ficar exposto com todas as suas fragilidades e defeitos, com todas as suas misérias, afinal com a mão atrofiada pela falta de justiça, a mentira ou a falta de caridade. E tanto o tímido como o vaidoso não estão isentos da verdade das suas incongruências e infidelidades.
Há contudo essa necessidade de se colocar no meio, de se revelar na sua dimensão de fragilidade e pequenez, porque só dessa forma poderemos obter a cura que Jesus nos oferece. Mas se o fazemos, e com um pouco de fortaleza e buscando a verdade, é porque previamente nos levantámos, nos dispusemos ou predispusemos a colocar-nos sob a mira de todos os olhares.
Neste sentido podemos dizer um pouco como David a Golias, “eu vou contra ti em nome do Senhor do universo”, ou seja, eu exponho-me ao visionamento das minhas misérias para as poder vencer por esse mesmo Deus que me dá força para as enfrentar.
Tudo acontece e tudo é possível à luz da graça de Deus, dessa força e dessa coragem que nos dá para lutarmos e nos colocarmos em campo de batalha. Munidos da armadura da fé e das armas do seu amor por nós podemos entrar na arena e alcançar a vitória da própria acção de Deus em nós.
Como David e como o homem da mão atrofiada não tenhamos medo do campo de combate nem do meio do círculo, entremos e corramos confiantes que a vitória já nos foi alcançada por aquele mesmo que nos colocou em combate.

Ilustração: “David e Golias”, carvão e sanguínea, de Cavalier d’Arpino, Museu de Belas Artes de Lille.

Os alunos dominicanos de Mogofores passados aos Seminários Espiritanos

O encerramento da Escola Apostólica Dominicana em Mogofores, devido à falta de condições de sustentabilidade económica e à dispersão dos padres por causa do apostolado, obrigou os Superiores e responsáveis da pequena presença dominicana em Portugal a encontrar uma solução para os jovens estudantes que ali se encontravam.
Graças à generosidade da Congregação Missionária do Espírito Santo, que acolheu os jovens estudantes dominicanos, puderam estes continuar a sua formação preparatória e escolar em ordem a ingressar mais tarde no noviciado dominicano.
Em Outubro de 1939 o pequenino grupo de estudantes, disperso por vários Seminários dos Padres Espiritanos e antes de regressar aos mesmos terminadas as férias, encontrou-se no Porto com frei Gil Maria Nunes Alferes, o Superior dos dominicanos em Portugal.
Frei Gil aproveitou a oportunidade para lhes dirigir as melhores palavras de conforto e incitamento à perseverança na vocação dominicana. E para testemunhar a profunda gratidão a todos os benfeitores que apoiavam a sua formação tirou a fotografia na qual aparecem ao seu redor os diversos estudantes espalhados pelos Seminários Espiritanos.
Eram eles:
Joaquim Vieira, Agostinho Nunes Martins, João D. da Silva e Domingos D. de Oliveira, os quatro mais adiantados e que foram para o Seminário de Fraião, Braga.
Antero S. Micaelo, Albino da S. Tavares, Raul de Almeida Rolo, Diamantino G. Ramos, e António P. da Silva, que foram para o Seminário de Godim, na Régua.
Os três mais novos, Pompílio S. Micaelo, Jaime T. Vilar e José Maria F. de Azevedo, que foram para o Seminário da Silva, em Barcelos.
Devido a esta dispersão, deste pequenino grupo apenas uns poucos chegaram a ingressar no noviciado dominicano. Foram tempos difíceis e certamente de muito sofrimento, quer para estes jovens quer para os padres dominicanos que se viam obrigados a entregá-los aos cuidados, ainda que dedicados, de outros religiosos.
Por tudo o que fizeram por eles, e neles por nós, temos ainda hoje uma grande divida de gratidão para com os Padres Espiritanos. Que o Senhor os recompense por tudo.
Fotografia do Frei Gil Alferes com o grupo dos doze alunos dominicanos enviados para os Seminários da Congregação dos Missionários do Espírito Santo.
É possível reconhecer na fila de trás, o futuro frei Raul de Almeida Rolo, o segundo a contar da esquerda; o futuro frei Alberto Maria Vieira, o terceiro; e mesmo atrás do frei Gil Alferes, o futuro frei Domingos Nunes Martins, o quarto a conta da esquerda.

Os Dominicanos canadianos em Portugal ainda antes de chegarem

Em 1938 a revista dirigida pelos dominicanos portugueses “Rosa Mística”, no seu número de Dezembro, dava uma notícia sobre o apostolado intelectual dos padres dominicanos no Japão.
Nela se diz que os Padres de São Domingos do Canadá, encarregados há tempos da diocese japonesa de Sendai, fundaram aí um Secretariado da Imprensa Católica, através do qual prestam um grande serviço ao apostolado missionário.
No âmbito deste apostolado há quatro anos que publicam uma revista mensal ilustrada intitulada “Taimatsu”, que significa “O Facho”. Editada totalmente em japonês tinha passado a ter desde Janeiro deste mesmo ano de 1938 um suplemento em francês “Oriens”, “Oriente”.
A revista era dirigida pelo Padre Pouliot e redigida principalmente por M. José Naosuka Satow, e enquanto que a versão japonesa procurava dar a conhecer a marcha progressiva da Igreja Católica no Oriente, através de artigos cuidadosamente ilustrados e informações documentadas, a versão francesa visava dar a conhecer aos católicos europeus e americanos os resultados do trabalho missionário e algum conhecimento das belezas da cultura, história, arte e costumes do Japão.
Esta iniciativa dos dominicanos canadianos tinha sido aprovada e incentivada pelo bispo de Sendai, Monsenhor Lemieux, também ele dominicano, e elogiada pelo Mestre da Ordem o Padre Gillet aquando da sua passagem pelo Japão na visita canónica aos conventos do Oriente.
Concluindo a notícia é pedido aos leitores da “Rosa Mística” que roguem a Deus pela bênção deste apostolado numa terra que desde o primeiro momento da sua evangelização deu mártires à Igreja.
Quem transcreveu esta notícia para a “Rosa Mística” mal podia imaginar que passados dez anos, não só uma outra publicação dos frades portugueses iria assumir o nome da revista japonesa, “O Facho”, como estes mesmos dominicanos canadianos chegariam a Portugal para colaborar na almejada restauração da Província Portuguesa da Ordem de São Domingos e que ainda o mesmo Bispo Lemieux contribuiria grandemente para essa obra.

Face à existência no Arquivo Histórico Dominicano Português de fotografias do Convento de Sendai divulgamos esse fundo documental.
Convento de Sendai, fachada principal em 1940.
Convento de Sendai, fachada oriental em 1940.
Convento de Sendai, fachada ocidental em 1940.
Convento de Sendai visto do jardim em 1940.
Convento de Sendai visto do jardim com neve em 1940
Convento de Sendai, jardim com neve em 1940
Convento de Sendai, refeitório em 1940
Convento de Sendai, altar do coro em 1940
Convento de Sendai, coro dos frades em 1940
Convento de Sendai, claustro maior em 1940
Convento de Sendai, claustro menor em 1940



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Senhor vê o coração (1 Sm 16,7)

O Senhor Deus enviou Samuel a casa de Jessé em Belém para ungir aquele que deveria ser o futuro rei de Israel. Como acontece com todos nós em tantas outras situações, deixou-se impressionar pelo bom aspecto do filho mais velho de Jessé, pela sua estatura e força. Samuel fez a sua escolha fundado na força, na beleza, nas capacidades humanas necessárias a um bom governante do povo.
Contudo, o Senhor Deus diz-lhe que não é aquele o escolhido, não é nenhum daqueles filhos maiores que o pai Jessé lhe apresenta. A escolha de Deus vai para o mais pequeno, para aquele que humildemente guardava os rebanhos e junto deles aprendia a verdadeira arte de governo que lhe seria necessária.
A opção de Deus por David, pelo filho mais pequeno de Jessé, é apresentada a Samuel em função da verdade que se opõe à aparência, do coração do homem onde tudo se guarda e revela. Deus vê o coração do homem e nele é possível ver toda a verdade desse mesmo homem, enquanto que a imagem exterior pode ser apenas uma máscara.
Esta afirmação de Deus devia provocar em nós um santo temor, uma atenção e um cuidado muito especial relativamente ao que guardamos no nosso coração. Um temor que não pode ser fundado no medo, porque o medo apenas conduz ao desespero, mas um temor fundado no amor, nesse desejo íntimo de pureza para que se possa ver a Deus.
Como nos diz Jesus nas “Bem-Aventuranças” os puros de coração verão a Deus e serão felizes por isso, razão mais que suficiente, portanto, para guardarmos o nosso coração de toda a impureza, de todo o mau desejo ou sentimento.
Deus diz a Samuel que vê o coração de cada homem, e Jesus diz-nos que o coração puro tem a capacidade de ver a Deus. Procuremos pois purificar o nosso coração, de modo a que se possa como num espelho ver aí reflectida a imagem de Deus.

Ilustração: “O jovem David”, de Guido Reni, Museu Kunsthistorisches de Viena.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Para vinho novo, odres novos. (Mc 2,18)

A afirmação de Jesus é peremptória e inequívoca, “para vinho novo odres novos”, ou seja, face ao que é novo tudo o que pertence ao passado está caduco, ultrapassado, é obsoleto.
Esta afirmação radical de Jesus choca constantemente com a nossa vida e os nossos projectos e propósitos de conversão, pois custa-nos a deixar o passado, a largar os ritmos e os hábitos a que já nos acostumámos.
Vivemos ou tentamos viver uma situação de conciliação, um equilíbrio entre a novidade e o antigo, entre a torrente que desponta e os canais já ressequidos pelas águas já passadas.
E diante da novidade de Jesus não há conciliação possível, não há equilibro, uma vez que estamos diante de uma criação, de um novo mundo, uma nova história, um desafio sem limites.
Face ao impasse, à possibilidade de soçobrarmos diante de tão grande desafio, resta-nos recorrer à graça do Senhor, à força do Espírito Santo, para que vá consumindo em nós pelo fogo do amor aquelas realidades que estão já ressequidas e velhas, de modo a termos espaço e modo para acolher a novidade do vinho ou do vestido novo da filiação divina.

Ilustração: “São Jerónimo Penitente”, de Jacques Blanchard, Museu de Belas Artes de Budapeste.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Homilia do II Domingo do Tempo Comum

As leituras deste domingo apresentam à nossa consideração um tema bastante importante na reflexão sobre o divino e a nossa relação com ele, o tema da habitabilidade de Deus.
Assim, na leitura do Primeiro Livro de Samuel vemos como este profeta, ainda criança, habita no interior do templo onde se encontra a arca do Senhor. Há um viver quotidiano junto da presença de Deus, no qual se inclui o próprio dormir no interior do templo.
Graças a esta habitação, a esta partilha da casa e da intimidade, o jovem profeta pode escutar o apelo de Deus, pode ouvir o chamamento de Deus, ainda que para o compreender tenha que ser instruído por Eli, aquele que era mais velho e tinha mais experiência.
Ressalta desta narração, para além desta necessidade de aprender, de haver alguém que guie na experiência de Deus, o chamamento pessoal e a perseverança de Deus nesse mesmo chamamento. Deus não desiste de chamar Samuel, apesar dos seus equívocos quanto àquele que o chama, nem deixa de chamar Samuel pelo seu próprio nome.
É uma realidade que encontramos ao longo de relação de Deus com os homens, este chamar pelo nome, esta individuação do chamamento, uma vez que o nome suporta toda a história e todo o ser pessoal. Deus não chama em abstracto, não convida ninguém a segui-lo sem a sua carga histórica e todas as suas características e dimensões. É o homem, um homem ou uma mulher em concreto, que Deus chama e Deus quer no seu encalço.
Por outro lado, o chamamento de Samuel, bem como tantos outros chamamentos ao longo da história de Deus com os homens, mostra-nos que Deus é persistente e insistente apesar dos nossos equívocos e certamente até das nossas tentativas de surdez ao seu chamamento.
Na medida em que nos está reservada uma missão, e podemos assumir que toda e qualquer missão a que Deus nos chama é sempre uma missão de amor, ainda que possa ser trespassada de dor e sofrimento, o Senhor não deixa de chamar, não deixa de nos convocar e convidar a assumir essa missão, a partilhar do seu projecto. Afinal de contas é sempre para uma experiência amorosa que Deus nos chama e como fonte do amor não pode deixar de o fazer.
Por esta razão, quando os dois discípulos de João seguem Jesus e lhe perguntam onde mora, ele responde “vinde ver”. Ou seja, vinde fazer a experiência amorosa de viver comigo, vinde experimentar a nova habitação de Deus entre os homens. Nem é já um templo, uma arca, mas é o próprio Filho de Deus, que está entre os homens, e isso é necessário experimentá-lo, vivê-lo, para que se possa testemunhar e mudar de parâmetros da habitabilidade de Deus.
É sintomático que ao apelo e consideração de Jesus como Mestre, por parte dos dois discípulos, Jesus os tenha convidado a irem ver. Um mestre em Israel era aquele que passava o dia ensinando os seus alunos, mostrando-lhes os meandros da Lei. Era como que algo externo, ao qual Jesus se opõe com este convite de ver. Não bastava saber o que o Mestre dizia, qual era a sua doutrina, era necessário partilhar da sua vida, da sua intimidade para perceber e acreditar nessa presença nova de Deus entre os homens.
O facto de na sequência desta experiência André ter ido chamar o seu irmão Simão, mostra a profundidade e a radicalidade do vivido. A experiência da vida íntima com Jesus conduz ao testemunho, ao anúncio e a essa outra realidade patente na alteração de nome de que Pedro é objecto, ainda que sem ter experimentado a intimidade da vida com Jesus. A presença de Deus entre os homens através do Filho Jesus provoca no contacto a alteração de nome, um nome novo que significa uma outra história de vida, e a alteração de estatuto, pois obtêm-se o estatuto de filho de Deus. Mas não só, porque se adquire ou edifica também um novo espaço de relação com Deus, o próprio corpo que o Verbo assumiu no mistério da encarnação.
Por isso São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios nos alerta para a dignidade do corpo, uma vez que somos membros do corpo de Cristo e templos do Espírito Santo. Ou seja, somos habitação de Deus depois que o Filho de Deus habitou no nosso corpo.
Esta habitabilidade de Deus em nós, no nosso corpo tem inevitavelmente consequências, pois à semelhança do antigo Templo de Jerusalém estamos convocados a ser espaço de acolhimento e reunião, um outro modo de louvor de Deus, e à semelhança do mistério da encarnação do Verbo de Deus em Jesus estamos chamados a ser alimento e fonte de vida e amor.
O nosso corpo, com o que encerra de potencialidades e fragilidades, é assim transformado em plataforma de relações, um novo modo de aliança com Deus e com os irmãos. E por isso o cuidado, como nos diz São Paulo, relativamente à imoralidade do corpo, uma vez que podemos falhar e faltar a essa aliança, à construção das relações, e dessa forma inviabilizamos e negamos a presença de Deus e a sua manifestação entre nós e aqui e agora.
Procuremos por isso, como nos convida São Paulo, glorificar a Deus no nosso corpo, através das relações que manifestam a sua presença em nós, e a nossa disponibilidade para ser pão e perdão para todos os que comungam da nossa corporeidade.

Ilustração: “Adoração do Cordeiro de Deus”, de Jan van Eyck, Retábulo de Ghent, Bélgica.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Porque motivo é que ele…? (Mc 2,16)

Jesus convida Levi, filho de Alfeu, a segui-lo e este convida Jesus a comer em sua casa. Um banquete para o qual são muitos os convidados, e a maior parte deles pessoas pouco recomendáveis segundo os critérios sociais do bem receber. Publicanos, pecadores, gente ligada ao império opressor, com vidas e histórias que não são para se contar à mesa.
Contudo, entre os convidados, ou pelo menos entre as testemunhas do banquete, alguns fariseus, alguns escribas, que certamente com um pouco de desprezo se interrogam sobre o motivo de Jesus se juntar àquela gente, ter aqueles comportamentos um tanto ou quanto anti-sociais.
No comportamento de Jesus e na sua estranheza procuram um motivo, uma razão, como se não houve coisas sem razão e sem motivo, como se não houvesse o amor que como a rosa floresce sem porquê.
E tal como eles, como estes escribas fariseus inquietantes e preconceituosos, também nós muitas vezes questionamos o motivo e as razões, nomeadamente daquilo que não se encaixa nas nossas expectativas, nos nossos desejos e parâmetros de valor. Porquê isto e porquê aquilo, qual o motivo disto e a razão daquilo?
Neste comportamento esquecemo-nos da vida de Jesus e da sua abertura a todas as situações, exceptuando a situação do pecado como é óbvio. Quantas vezes ele podia perguntar pelo motivo, pelas razões e não o fez, bem pelo contrário abriu-se à vontade do Pai revelada nessas mesmas situações, nos comportamentos infiéis daqueles mesmos que o seguiam desde o primeiro momento.
Podia ter perguntado a Judas o motivo da traição, a Pedro a razão da negação, a Marta a razão da reprimenda a sua irmã Maria. Não o fez, apenas aceitou a diferença e a vontade dos outros, abrindo-se livremente ao insuspeitado que cada um reclamava.
Peçamos ao Senhor essa liberdade e esse espírito de acolher o outro e as suas diferenças sem qualquer juízo e sem buscar qualquer razão ou motivo, apenas com amor.

Ilustração: “Madalena na casa do fariseu”, de Jean Béraud, Museu d’Orsay, Paris.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa. (Mc 2,11)


Jesus está de volta a Cafarnaum e perante uma multidão que se aglomera diante da porta quatro homens introduzem um paralítico pela cobertura da casa. Um acontecimento inusitado, uma extravagância, um comportamento no mínimo passível de crítica e condenação. Mas a fé daqueles homens é bastante para se arriscarem ao vexame de tal entrada e à introdução do paralítico no meio da cena e diante de Jesus.
Para Jesus, e face a tal ousadia, é a oportunidade de revelar o sentido da sua missão, da sua acção e palavra. Ele não é mais um curandeiro que aparece entre os homens, é a verdadeira cura para todos os males que afectam o homem. Males esses que brotam dessa realidade que se chama pecado, realidade que paralisa o homem, que o verga ao peso da sua própria carga.
Por isso, e ainda que não houvesse qualquer juízo por parte dos assistentes fariseus, Jesus não podia deixar de dizer àquele homem, “levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa”. Jesus não podia deixar de o erguer da sua condição de paralisado, de condenado a suportar a distância de Deus na sua mesma condição humana.
Tal como aconteceu ao primeiro homem, que Deus levantou do pó da terra para lhe dar a vida e entregar toda a criação, também com este paralítico, e nele toda a humanidade, se ergue um novo homem, uma nova humanidade. A ordem é para se levantar para a filiação, para a nova condição de filho de Deus.
E nesta condição, sabendo-se e sendo filho de Deus, pode carregar com a sua enxerga e voltar para casa. Casa paterna, para onde se pode regressar depois do Filho verdadeiro ter aberto a porta e nos ter ensinado o caminho.
Regressamos à casa paterna carregando a enxerga da nossa própria condição humana resgata e redimida por Jesus Cristo. Não há outra forma, nem outro caminho, porque sem a enxerga da nossa humanidade não há caminho possível, nem a fazer. Nesta terra e neste mundo, esta é a nossa condição, é a via de acesso à casa do Pai.
Levanta-nos Senhor com a tua graça das nossas paralisias, das nossas cadeias e grilhões, e ajuda-nos a carregar a nossa condição nos seus limites e fragilidades, nas tentativas de fidelidade e nas incoerências, esta enxerga que o tempo vai desfazendo e remoendo, para que o caminho de regresso a casa seja suave e ligeiro, expectante do encontro nos teus braços.

Ilustração: “Mudança de casa”, de Viktor Vasnetsov, Galeria Tretyakov, Moscovo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O leproso prostrou-se de joelhos e pediu a Jesus (Mc 1,40)

O primeiro encontro de Jesus, após a saída de Cafarnaum, é com um leproso, um homem que sofre de uma doença que o exclui da sociedade e do grupo, e que se dirige a Jesus para ser curado, infringindo assim todas as leis preceituadas para a sua situação.
São Marcos conta-nos que o leproso ao chegar ao pé de Jesus se prostrou de joelhos e lhe suplicou que o curasse. Atitude de penitência, de súplica, que encontramos em outros momentos e outras situações. Pedro, quando nos Actos dos Apóstolos ressuscita a mulher em Jope ajoelha-se também para rezar, e Paulo ajoelhava-se para rezar com as suas comunidades.
Nos primeiros séculos do cristianismo não era uma postura habitual para a oração e o Concilio de Niceia chegou mesmo a proibir a sua prática nos domingos e tempo pascal, ficando reservada apenas para os dias penitenciais. Contudo, e tendo em conta a proibição conciliar de Niceia, não é descabido pensar que havia uma prática, que de alguma forma tinha ultrapassado o razoável e por isso era necessário controlar.
Na Idade Média o ajoelhar-se passou a ser uma postura comum, e de tal modo se vulgarizou que na celebração da Eucaristia adquiriu uma preponderância que retirou lugar e visibilidade a outras posturas também necessárias e exigíveis face ao momento da celebração. Para evitar esses abusos, hoje em dia a Instrução Geral do Missal Romano determina os momentos em que se deve ajoelhar, ou seja no momento da consagração, quando o sentido de veneração e adoração pelo mistério se torna mais premente.
Na oração pessoal esta é no entanto a postura física mais comum e certamente também aquela com a qual nos sentimos mais familiarizados, ainda que hoje em dia outras posturas se tenham introduzido e nos ajudem a interiorizar e a recolher o espírito para o encontro com Deus. Convém, contudo, não perder o sentido desta experiência física e neste sentido pode ajudar-nos algumas palavras de Etty Hillesum:
“Ontem à noite, pouco antes de me ir deitar, dei por mim de repente ajoelhada na alcatifa, no meio desta sala grande, por entre as cadeiras de metal. Assim sem mais nem menos. Puxada para o chão por algo mais forte do que eu. Algum tempo atrás, tinha dito para mim mesma: ‘vou exercitar-me a ajoelhar’. Ainda tinha demasiada vergonha deste gesto que é tão íntimo como os gestos amorosos, acerca dos quais ninguém consegue falar a não ser que seja um poeta” (Diário, 155).
“Quando hoje caminhava pelos corredores a abarrotar, senti de repente uma enorme necessidade de me ajoelhar ali, no chão de pedra, no meio de toda a gente. O único gesto de dignidade humana que ainda nos resta neste tempo: ajoelhar perante Deus” (Diário, 267).
Façamos esta experiência, mostremos a nossa humildade diante de Deus, adoremos o mistério em que estamos envolvidos, recuperemos a dignidade que perdemos e como amantes manifestemos o acolhimento do amor que vem até nós.

Ilustração: “Homem doente", de Vassily Maximovich Maximov, Galeria Tretyakov, Moscovo.