sábado, 30 de junho de 2012

Primeiros passos entre Valença do Minho e Tuy

Primeiros passos entre Valença do Minho e Tuy.
Tuy vista da ponte sobre o rio Minho.

Partida para o Caminho Português a Santiago

Fazer uma mochila para o Caminho de Santiago não é fácil, ainda que já tenhamos experiência e sigamos as regras que a mesma experiência nos ditou. Fazer duas mochilas, a própria e a de um adolescente com treze anos, é duplamente mais difícil.
E nesta dificuldade não incluo a luta por qualquer uma dessas tecnologias que um adolescente hoje não dispensa. Desde o primeiro momento que ficou claro que íamos levar apenas o mínimo e o indispensável, e portanto não havia espaço para “tablets”, portátil ou playstation.
Vamos fazer a experiência de um caminho medieval e portanto vamos ouvir a natureza, vamos conversar uns com os outros, vamos partilhar a vida e o caminho e portanto não podemos estar isolados, fechados sobre nós próprios ou sobre as imagens e sons que a tecnologia nos oferece.
Nas mochilas, para além do básico delineado na lista do equipamento, e que rapidamente preencheu o espaço disponível, colocámos também alguns produtos para a higiene e uma pequena caixa de primeiros socorros, na qual não falta inevitavelmente a agulha e a linha, no caso de aparecer alguma das célebres bolhas. Não esquecemos também o papel higiénico, porque o iremos necessitar num momento em que menos esperamos.
Na minha mochila coloquei ainda o hábito dominicano para poder celebrar a Eucaristia em cada dia do Caminho e depois ao chegar a Santiago. Agora tudo está pronto e apenas necessitamos descansar um pouco para a partida que se fará bastante cedo, pois para chegar a Valença do Minho ainda temos que apanhar um comboio e um autocarro.
Na medida do possível, ou seja do encontro com as ofertas das novas tecnologias de comunicação, iremos dando notícias, porque sabemos quantas pessoas nos acompanham. E a elas, e a todas as outras, não esqueceremos nas nossas orações, de modo muito particular junto ao túmulo de Santiago.
Que o Senhor nos proteja e abençoe a todos.

Oh Deus, que tirastes o teu servo Abraão da cidade de Ur dos Caldeus, guardando-o em todas as suas peregrinações, que foste o guia do povo hebreu através do deserto: nós te pedimos que te dignes guardar estes peregrinos que por amor do teu nome vão a Compostela. Sê para eles companheiro na marcha, guia nas encruzilhadas, alento no cansaço, defesa nos perigos, albergue no caminho, sombra no calor, luz na escuridão, consolo no desalento e firmeza nos seus propósitos. Que por tua orientação cheguem incólumes ao fim do seu caminho, e enriquecidos de graça e virtudes, voltem de regresso a suas casas, que agora sentem a sua ausência, cheios de perene alegria. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Ilustração: “São Tiago Peregrino”, pintura na igreja do Convento de São Domingos de Pamplona. Caminho de Santiago, 2 de Maio de 2010.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pedro tomou a palavra e disse “Tu és o Messias” (Mt 16,16)


Face à pergunta de Jesus aos discípulos sobre quem achavam eles que ele era, Pedro tomou a palavra e respondeu, “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Resposta surpreendente uma vez que proclama a verdadeira identidade de Jesus, a identidade que será manifestada apenas depois da ressurreição.
Diante de tal resposta Jesus revela a Pedro e aos outros discípulos que tal afirmação, tal verdade, não podia ser alcançada pela carne, pelo esforço humano, mas era fruto e dom do Espírito Santo.
Desta forma Jesus retira do coração dos discípulos a possibilidade da tentação da inveja sobre Pedro, porque afinal não tinha sido ele que tinha proclamado a verdade mas o Espírito por seu intermédio.
A palavra de Pedro, a sua afirmação da divindade de Jesus, é algo que o ultrapassa, que está para além dele e para além de cada um de nós. Pedro fala e proclama o Filho de Deus pela inspiração do Pai, o único que verdadeiramente conhece o Filho e o pode dar a conhecer.
Esta dimensão que ultrapassa aquele que proclama e anuncia o Verbo de Vida está também presente em São Paulo, e por isso, quando escreve aos Gálatas, não se envergonha nem coíbe de dizer que não foi por nenhuma inspiração humana que anunciou o Evangelho, mas porque o recebeu por meio de uma revelação de Jesus.
Tanto Pedro como Paulo são apenas instrumentos da Palavra, veículos de que o Pai se serve para revelar e comunicar o Filho, o dar a conhecer.
Esta constatação coloca-nos um desafio e deixa-nos um ensinamento precioso, pois ficamos a saber que o testemunho que damos ou possamos dar de Jesus é sempre um testemunho que nos ultrapassa, que está para além de nós.
Neste sentido, somos desafiados a estar atentos, a conhecer para poder dar uma resposta, mas também a não ter medo, a não ter vergonha do pouco que possamos saber ou comunicar, porque nunca será em vão o que dissermos ou anunciarmos.
A nossa fé, a nossa experiência de Deus é sempre um pouco do possível, e na medida em que a partilhamos e comunicamos acaba sempre por iluminar misteriosamente os que connosco caminham na vida.

Ilustração: “São Pedro e São Paulo”, ícone do século XIII da igreja de Belozersk. Museus da Rússia.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Equipamento para o Caminho de Santiago

Como já me referi anteriormente à mochila e às botas, duas peças imprescindíveis do equipamento para o Caminho de Santiago, não vou tratar hoje delas. Vou apenas abordar o que vamos colocar dentro da mochila, aquilo que de facto faz falta e nos facilita o caminhar.
Antes de mais temos o saco cama, pois, apesar de os albergues de peregrinos habitualmente terem colchões de espuma, quer em beliches quer no chão, necessitamos de uma protecção para a noite, uma vez que não vamos encontrar nem lençóis nem cobertores.
Há quem leve também um lençol para cobrir o colchão e ocultar uma ou outra sujidade que em alguns lugares se encontra. Nos anos anteriores nunca senti essa necessidade, não encontrei situações graves de falta de higiene e por isso não costumo levar.
Face à perspectiva de fazermos o Caminho com calor, pois estamos no verão, o mais aconselhável é um saco cama ligeiro, leve, de simples fibra. Para quem optar por fazer o Caminho no inverno um saco mais quente é preferível, pois são raros os albergues com aquecimento.
Face à existência dos albergues municipais, das associações de amigos ou paroquiais, qualquer proposta de carregar com uma tenda é uma loucura e um peso completamente dispensável.
Também a proposta de carregar com equipamento para cozinhar é dispensável, pois não só encontramos nos albergues algum equipamento para preparar ou aquecer alguma refeição, como habitualmente acabamos por ir comendo pelo caminho ou então encontrar um grupo ao qual nos juntamos e terminamos por partilhar o jantar.
Contudo, isto não dispensa um pequeno canivete, para a fruta ou o pão, e um pequeno garfo plástico para tirar as sardinhas de uma lata. Um canivete suíço nestes casos é bastante útil.
Se pensarmos fazer alguma etapa ainda de noite, pelo escuro da madrugada, e isso pode acontecer devido ao calor, é imprescindível uma pequena lanterna. Dá também jeito durante a noite se necessitarmos ir à casa de banho, pois não se acendem as luzes nem se perturba o sono daqueles que descansam.
No âmbito dos acessórios dão jeito também três ou quatro molas da roupa, pois necessitaremos delas para prender a roupa que lavarmos ao fim da jornada nos albergues, ou pendurá-la na mochila se não tiver secado até voltarmos a andar.
Em termos de vestuário vamos ter presente que estamos no verão e não vamos para nenhuma festa de gala. Assim, optamos pelo mínimo e pelo mais simples e confortável.
Levamos 3 camisetas, t’shirts, de algodão. Uma para usar durante a caminhada, outra para os momentos de descanso, e uma terceira para a noite, se necessitarmos. Como nos albergues se pode lavar a roupa, a camiseta da caminhada será lavada e estendida cada dia para que no dia seguinte esteja operacional. Poupamos assim no peso.
Faremos o mesmo com a roupa interior, e assim teremos uma muda para a caminhada e outra para o tempo de descanso. Para a noite poderemos usar um calção de pijama ou do género, sempre leve. No caso de uma emergência sempre se poderá comprar qualquer coisa numa loja no caminho.
Para a caminhada usaremos um calção multi-bolsos, o que nos permite alguma arrumação extra. No caso de ser possível uma daquelas calças que se podem transformar em calção, melhor, porque em algum momento da madrugada ou do sol mais intenso poderemos necessitar alguma protecção extra para as pernas. Outro calção seguirá dentro da mochila para os momentos de repouso ao final de cada jornada.
Uma camisola ou casaco leve de malha polar também serão necessários para o tempo fresco da madrugada ou para os mais friorentos. Outra opção é um casaco tipo corta-vento, que facultará alguma protecção contra o frio e contra a chuva.
Imprescindível é a toalha para o banho, e neste caso optamos por uma toalha de microfibra pois não só ocupa pouco espaço como é facilmente lavável. Não esquecemos, obviamente, o chapéu para o sol.
E por fim as meias grossas, de algodão, para um maior conforto do pé dentro da bota ou na sandália. Levaremos três pares, já contando que um par se possa molhar ou não seque para o dia seguinte e portanto necessitemos de nos socorrer da reserva. Este número supõe a lavagem diária das meias usadas durante a caminhada.
Com isto, e sem quase darmos conta, já temos a mochila praticamente cheia.

Ilustrações: Aspectos do albergue de peregrinos de Navarrete. Caminho de Santiago. 6 de Maio de 2010.

Estava fundada sobre a rocha (Mt 7,25)

Em qualquer casa que visitamos, inevitavelmente deparamos com o que está à vista, as paredes mais ou menos bem pintadas, as portas e as janelas que nos dão a sensação de segurança, o telhado vermelho, um ou outro pormenor que a embelezam e tornam única.
Poucas vezes, e ainda que seja para fazermos dela nossa propriedade, nos preocupamos com os fundamentos, com os alicerces sobre os quais está construída, e isto certamente porque são, da construção, um dos elementos que ficam ocultos ao nosso olhar.
Ao ensinar os seus discípulos Jesus não deixa passar despercebido este elemento e chama a atenção, não só para a sua necessidade como para a sua importância. É sobre o alicerce que assenta a casa, é ele que lhe permite a estabilidade e a resistência.
Neste sentido, e face a tantos elementos da nossa vida que se tornam visíveis aos olhos dos outros, como a piedade, a oração comunitária, as obras de caridade ou solidariedade, paredes e telhados da nossa casa, Jesus convida-nos a lançar os alicerces, a não descurar esse elemento da nossa construção que fica vedado aos olhos dos outros mas não os olhos de Deus.
É esse elemento que vamos construindo no interior do nosso quarto, depois da porta fechada, na intimidade com Deus e que nos permite depois enfrentar todos os desafios, todas as tempestades. As paredes e o telhado alicerçados nessa intimidade e nessa relação terão força e resistência para todos os embates.
Para além deste elemento, Jesus convida-nos ainda a escolher o terreno onde assentamos o alicerce, pois existem vários tipos à nossa escolha, como a areia ou a rocha. E se ele nos recomenda a rocha é porque simplesmente é o elemento da natureza com maior resistência, com maior capacidade de sustentabilidade.
E na vida espiritual, na construção do nosso projecto de homens e filhos de Deus, é Jesus que é o único ponto de sustentação e construção. É ele como verdadeiro Deus e verdadeiro homem que nos pode dar a resistência e a estabilidade para a nossa construção. Ele é a verdadeira e total construção que somos convidados a seguir na construção da nossa casa.
Que em cada momento saibamos colocar as pedrinhas e o cimento que fortalecem e fazem solidificar o nosso alicerce em Jesus Cristo.

Ilustração: As construções de pedras do Caminho, chamadas catedrais do peregrino, entre Los Arcos e Torres del Rio. Caminho de Santiago. 5 de Maio de 2010.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Umas botas para o Caminho de Santiago

Podemos dizer que o calçado é a peça fundamental do equipamento para fazer o Caminho a Santiago, pois são os pés que vão suportar o maior esforço, e portanto convém que estejam não só protegidos mas confortáveis.
As prateleiras do Albergue de Santo Domingo de la Calzada em Maio de 2010, como se pode ver pela fotografia, apresentavam um conjunto bastante diversificado de botas de peregrinos. Como estávamos ainda em plena primavera, as temperaturas não eram muito elevadas e o caminho se encontrava com bastante barro e lama, as botas eram de facto o melhor calçado para usar.
Contudo, quando avançamos para o verão, no qual as temperaturas são mais elevadas, as botas de caminhada podem perfeitamente ser substituídas por umas boas sandálias de caminhada ou montanhismo, ainda que estas representem uma maior fragilidade para a articulação do tornozelo, que é necessário acautelar.
Posso partilhar que no meu primeiro Caminho a Santiago, em Agosto de 2000, ao fim de uma semana já não conseguia calçar as botas, apesar de ter andado alguns meses com elas antes de partir para o Caminho. Fiz por isso o Caminho desde Logroño a Santiago de Compostela com as sandálias que tinha levado para os momentos de descanso, o que me permitiu chegar sem mais qualquer problema.
Em termos de sandálias, posso partilhar também que nesse ano, em Fromista, cheguei mesmo a encontrar uma peregrina brasileira de São Paulo, Cidinha, que caminhava com havaianas, pois as botas já tinham feito muitos estragos nos pés devido ao calor do verão.
Também com a Cláudia, em 2004, as botas fizeram os seus estragos, embora desta vez porque tinham sido compradas de propósito para fazer o Caminho. Este é o erro mais frequente e aquele que mais obriga a regressar a casa sem ter chegado a Santiago.
Assim, nunca se deve estrear umas botas no Caminho, deve-se já ter feito uns bons quilómetros com elas, e no caso disso ser impossível deve procurar-se levar o calçado mais usado e confortável que se tenha, aquele a cujo pé esteja já bastante habituado para não causar problemas, e que em ultimo caso possa ser deitado fora ao chegar a Santiago.
Outra questão que se coloca com as botas é a da sua qualidade e neste sentido vale a pena fazer um pequeno investimento, sobretudo se pensamos repetir a experiência ou fazer outro tipo de caminhadas. Em 2010 a fraca qualidade de fabrico das minhas botas causou-me alguns problemas, pois ainda não tinha feito metade do Caminho Francês e já deixavam ver as meias e entrar a água da chuva. Inevitavelmente tive problemas.
Para além das botas ou sandálias de caminhada, seja verão ou seja inverno, convêm levar também umas sandálias mais leves, ou chinelas, de modo a que nos períodos de descanso o pé possa respirar e relaxar.
Desejo que tenham uma boa caminhada e com os pés sempre impecáveis.

Ilustração: Prateleiras de botas no Albergue de Santo Domingo de la Calzada. 7 de Maio de 2010.

Entrai pela porta estreita (Mt 7,13)


De acordo com as palavras de Jesus o acesso à vida faz-se por uma porta estreita e um caminho apertado, mas apesar disso, Jesus deixa-nos o convite de não desistirmos, de apesar das dificuldades continuarmos a tentar avançar e passar.
E esta passagem torna-se estreita na medida em que está estruturada nesse princípio de que tudo o que quisermos que os homens nos façam, nós o devemos fazer primeiro, pois nisso consiste a Lei e os Profetas.
É o amor e a fraternidade, a justiça e a misericórdia, com as suas dificuldades inerentes que vão estreitando a passagem, que vão fazendo com que a porta seja estreita e o caminho apertado.
Por isso quando Jesus se apresenta como a porta por onde passam as ovelhas, ou o caminho para alcançar a verdade e a vida, está a apresentar-nos e a colocar à nossa mão a sua vida e o seu exemplo como possibilidades.
É porque é o amor, porque vive na verdade e na justiça, porque é a misericórdia de Deus Pai, que Jesus se pode apresentar como porta e caminho. Porta e caminho estreitos porque viver no amor e na justiça, com a verdade e a misericórdia implica abdicar de si e da sua vontade, fazer-se nada para ser tudo em Deus.
Ao longo da nossa existência vamos no entanto encontrando portas largas e caminhos amplos, caminhos de fácil acesso e que nos conduzem a uma satisfação e a um prazer imediatos.
Contudo, quantas desilusões e tristezas por esses caminhos percorridos e nos quais nos perdemos, quanta insatisfação face ao desejo íntimo de realização que nos habita.
O caminho apertado e a porta estreita oferecem-se a cada um de nós, e se são poucos os que os atravessam, como diz Jesus, esses poucos podem trazer outros, podem servir de luz ou de fermento na massa da humanidade.
O pequeno passo, a pequena passagem, podem ser como o grão de mostarda, pequenos mas cheios de poder para crescerem em passos maiores.
Que o Senhor nos guie e ajude a passar por todos os caminhos e desafios do seu seguimento.

Ilustração: Pórtico de entrada ao Claustro dos Reis do Convento de São Tomás de Ávila.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma mochila para o Caminho de Santiago

Ao pensarmos fazer o Caminho de Santiago, seja o mais longo, o Caminho Francês, para o qual necessitamos de um mês, seja o mais curto, o Caminho Português, para o qual necessitamos de uma semana, uma das questões que se colocam em termos de preparativos é a da escolha da mochila.
Antes de mais não podemos esquecer que é nela que vamos transportar o necessário para o Caminho, mas também que vai ser a nossa companhia de cada quilómetro andado e a andar e por isso é inevitavelmente necessário que se faça uma boa escolha.
Um dos primeiros aspectos a ter em conta é o seu peso e a sua capacidade. Naturalmente tenderemos a escolher uma mochila com bastante capacidade, pois imaginamos que vamos precisar de levar muita coisa, ou então queremos fazer do caminho uma experiência luxuosa, quando afinal é também um desafio à nossa capacidade de viver com o mínimo indispensável.
Assim sendo, a mochila não deve exceder em capacidade dez por cento do nosso peso corporal, o que em si representa já alguma dificuldade para a caminhada, e depois não podemos querer enchê-la até ao limite da sua capacidade.
Outro aspecto a ter em conta é a sua resistência e adaptabilidade ao corpo, ou seja, o desenho ergonómico, porque também isto é importante. Assim, ao escolher a mochila convém ter em atenção não só as alças, que devem ser resistentes e almofadadas para evitar irritações nos ombros, mas também o chamado cinto, que prende a mochila à cintura.
Ao caminhar, quanto mais moldada e presa for a mochila ao nosso corpo menos dificuldades provoca ao andamento, bem como possibilidades de acidentes por desequilíbrio. Deve por isso o cinto ir fechado e à medida da cintura da pessoa, as alças com a devida folga, e a correia junto ao peito igualmente fechada.
Um último aspecto são os diversos compartimentos e divisões que possa ter, os bolsos onde se podem guardar as pequenas coisas. De facto dão jeito, e servem para guardar pequenos objectos como a bolsa de higiene, a farmácia, ou o rolo de papel higiénico, mas não devem ser demasiados, pois em alguns modelos têm mais função decorativa que utilitária e acabam por aumentar apenas o peso da mochila e ter pouca utilidade.
Ao comprar a mochila devemos por isso fazer uma boa escolha, optando por uma mochila leve, adaptada ao nosso corpo e capacidade física e que não dificulte a caminhada.

Ilustração: Mochila à entrada da capela do “Ecce-Homo”, em Valdeviejas, Astorga. Caminho de Santiago, Maio de 2010.

sábado, 23 de junho de 2012

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6, 24)

Num momento em que atravessamos uma crise económica com as consequências que todos conhecemos de desemprego, de famílias que não têm que comer, de consumo reduzido e consequente quebra de receitas fiscais, a qual coloca em questão o próprio estado social que ainda ajuda tanta gente a sobreviver, as palavras de Jesus de que não podemos servir ao dinheiro deixam-nos constrangidos, na medida em que apelam a uma outra atitude que ainda estamos longe de viver.
Quer queiramos quer não, estejamos de acordo ou sejamos críticos, o facto é que construímos um estado e uma forma de vida assentes no dinheiro, um conjunto de relações laborais, comerciais e até sociais, nas quais o dinheiro é essencial. Hoje não podemos viver sem recorrer ao dinheiro, o qual nos permite o acesso a serviços ou produtos como este mesmo texto ou a algo tão essencialmente básico como o pão.
Jesus pôde fazer também esta experiência, ainda que em termos mais rudimentares e não tão comprometedores como hoje, e por isso alertou os seus discípulos, e cada um de nós que lemos e procuramos viver a sua palavra, para a necessidade de uma relação diferente com o dinheiro.
Uma relação que não parte da sua negação, da rejeição, ainda que uma leitura imediata nesse sentido se possa depreender das palavras de Jesus, mas uma relação que assenta na valor relativo do dinheiro face ao homem e como tal face a Deus.
Neste sentido temos que ter presente que a reclamação de Jesus se apresenta como conclusão da necessidade de acumular tesouros no céu, onde a traça os não corrompe e a ferrugem os não corrói. O dinheiro deve estar ao serviço desse objectivo, desse tesouro celeste, o qual se alcança na medida em que olhamos os outros como oportunidade de fraternidade, como desafio à minha desapropriação, como possibilidade de partilha para um enriquecimento e crescimento mútuos.
Idolatrizar o dinheiro ou desprezá-lo são afinal um mesmo insulto a Deus, porque se pela idolatria colocamos o dinheiro no lugar de Deus, pelo desprezo inviabilizamos o poder de realização que Deus nos ofereceu, enterramos o talento recebido não o fazendo render.
Jesus convida-nos assim a uma clarificação, a uma purificação, das nossas atitudes quotidianas, dos pequenos gestos de partilha ou açambarcamento, a um balanço do tesouro que estamos a acumular no céu.
E se a opção fundamental é óbvia, porque de alta rentabilidade, necessitamos cada dia investir no equilíbrio do exercício, nas pequenas aplicações, como confiar em Deus, em nós e naqueles que ajudamos, para que a opção não seja um sonho ou uma miragem que se desvanece.
Necessitamos pois, todos juntos, de dar as mãos nesse esforço de procurar o reino de Deus e a sua justiça porque por ele nos chegará o que nos é devido por acréscimo.

Ilustração: “O cambista e a sua mulher”, de Quentin Matsys, Museu do Louvre.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fazer o Caminho Português de Santiago

Foi com alguma surpresa que ouvi da minha mãe o comentário que o meu sobrinho, com treze anos, queria fazer o Caminho de Santiago comigo. Fiquei sem saber o que responder, porque nunca tínhamos conversado sobre isso, ele nunca me tinha manifestado esse desejo, ainda que já por várias vezes tivéssemos visto as fotografias dos Caminhos que fiz em 2000, 2004 e 2010.
Assim, da última vez que estivemos juntos, abordei a questão e, face à confirmação do desejo dele e à autorização dos pais, decidimos fazer o Caminho Português a Santiago, que neste momento é o que se apresenta mais viável.
Vamos fazer o Caminho Português a Santiago a partir de Valença do Minho, com tranquilidade, sem grandes pressas, para desfrutar do caminho e da experiência de viver uma semana fora dos nossos ritmos normais.
Neste sentido, organizámos já as etapas, que não vão ser muito longas, para não serem cansativas, mas sobretudo para termos tempo de apreciar a paisagem e os monumentos. O importante no Caminho de Santiago é a experiência do caminhar, a possibilidade de se encontrar consigo próprio e com Deus no silêncio, na beleza da natureza, nos outros peregrinos, na arte e na cultura que bordeiam os trilhos ou as estradas.
Partiremos de Valença do Minho no dia 30 de Junho e passaremos a Tuy. Uma pequena etapa de sete quilómetros para aquecer os músculos. No dia 1 de Julho iremos até Porriño e no dia 2 até Redondela. Duas etapas sem grande esforço. No dia 3 de Julho passaremos a Pontevedra e dali a Caldas de Rey no dia 4. No dia seguinte, 5 de Julho, chegaremos a Padrón e dali até Santiago de Compostela no dia 6 de Julho.
Em Santiago, no sábado dia 7, poderemos cumprir todos os rituais como abraçar o Santo e participar na celebração da Eucaristia em que se pode apreciar o “Botafumeiro”, bem como conhecer um pouco da cidade.
Como é uma peregrinação, e não meramente um passeio, teremos cada dia a celebração da Eucaristia e um momento de oração ou reflexão. Como peregrinos carregaremos também com a nossa mochila, faremos a experiência do peso das nossas tralhas, pois não teremos carro de apoio.
Face a isto, e porque há amigos que já manifestaram o desejo de nos acompanhar, nos próximo dias irei apresentando mais algumas informações, nomeadamente no que diz respeito ao equipamento, pois há que ter muito cuidado com o peso.

Ilustração: “Partida dos peregrinos do albergue de Pontevedra”, 5 de Abril de 2004.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pai-Nosso (Mt 6,9)

Não é raro encontrarmos pessoas que nos dizem que não rezam, que não sabem rezar, que não sabem o que dizer ou até que já se esqueceram das orações que aprenderam em pequenos, muitas vezes ao colo da mãe ou da boca da avó.
Encontramos situações diversas, e perante elas não podemos responder de outra forma senão com as palavras de Jesus: “quando orardes não digais muitas palavras, porque o vosso Pai sabe bem o que precisais”.
E ainda que estas mesmas palavras nos levantem dificuldades, porque se Deus já sabe para quê recordar lhe, a verdade é que nós necessitamos de ser recordados, necessitamos ser colocados em presença da grande realidade que nos envolve, derivando daqui a resposta àqueles que não sabem já rezar ou não encontram as palavras.
De facto, não são necessárias muitas palavras, por vezes o silêncio é suficiente, mas mesmo aí nesse silêncio encontramo-nos com a grande circunstância em que nos movemos e que Jesus nos revelou, a paternidade divina.
Neste sentido a nossa oração é um situar-se face ao Pai, é reconhecer-se filho, é sentir os homens e as mulheres que nos rodeiam como irmãos, é constituir uma família, porque é esse o grande mistério de Deus e a oferta que nos faz enquanto imagens suas.
Pai é afinal a primeira e a última palavra da nossa oração, o princípio de onde partimos e o fim a que nos dirigimos. Pai é o caminho que vamos fazendo, descobrindo em cada passo a sua força e nos irmãos que nos acompanham a sua presença confortante.
Pai é a palavra que nos coloca em relação, que não nos deixa sós e entregues a nós próprios, que nos faz encontrar a verdade da nossa própria natureza e identidade.
Pai porque somos filhos, nosso porque somos irmãos, e tudo com Jesus Cristo e por Jesus Cristo.

Ilustração: “Criança a rezar nos joelhos da mãe”, desenho a lápis com aguarela de Pierre Édouard Frére, Walters Art Museum.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando rezares entra no teu quarto (Mt 6,6)

A oração é o dom mais precioso que Deus nos faz. Por essa razão, e pela sua experiência pessoal, Jesus exorta os seus discípulos e ouvintes a não desperdiçarem esse dom, a darem-lhe verdadeiramente atenção, de modo a que possa frutificar como todos os outros dons de Deus.
Neste sentido, toda a oração feita hipocritamente para chamar a atenção dos outros, para mostrar uma grande piedade, para dar uma imagem devota, acaba por negar o verdadeiro sentido da oração e a dimensão do dom que ela comporta.
A oração é antes de mais a certeza de que eu posso falar a alguém e que esse alguém me escuta. Deus apresenta-se como o ouvinte, o interlocutor, ao qual tudo pode ser contado, desde as maiores alegrias até às maiores infidelidades.
Deus está presente na minha vida nos momentos de maior felicidade bem como nos momentos mais dolorosos ou humildes do meu quotidiano e por isso pode participar de tudo e pode conhecer tudo.
Contudo, tanto nos momentos de dor como nos momentos de alegria, e a maior parte das vezes nestes, esquecemos que podemos ter esse diálogo, que temos alguém que nos escuta e com quem podemos partilhar a nossa dor, o nosso desespero, ou a nossa alegria.
Por isso, quando Jesus nos convida a entrar no nosso quarto e a fechar a porta para rezar no silêncio a Deus, não nos convida a outra coisa senão a tomarmos consciência de como Deus está já presente no íntimo da nossa vida e do nosso coração e como necessitamos escutá-lo, estabelecer um diálogo com ele.
A oração transforma-se assim em uma experiência de alegria, em um encontrar-se com uma presença constante, mas que tantas vezes passa em silêncio devido à nossa distracção, ao nosso desejo de tudo controlar, ao facto de contarmos apenas só connosco e com as nossas forças.
A oração é assim o dom de Deus que nos abre à transformação, que ilumina cada uma das nossas realidades, que nos faz encontrar com o que somos, fizemos e estamos chamados a ser. Como o fermento na massa, ou como a luz no candelabro, a oração ilumina e faz crescer.
Mas tal acontece, e é possível porque a oração é o gemido do Espírito em nós, é como o choro do bebé que busca o calor do corpo da mãe, o rebento da semente que procura o sol para crescer e frutificar.
Hoje, em qualquer momento e em qualquer lugar, procuremos entrar no nosso interior, fechar a porta do exterior, e dizer a Deus o que nos vai no coração, escutando nesse dizer como crescemos e nos iluminamos, como Deus se faz resposta à nossa busca.

Ilustração: “Oração”, de Josep Kinzel.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Pai dos céus faz nascer o sol sobre bons e maus. (Mt 5, 45)

É muito fácil colocarmos etiquetas, dividirmos em grupos ou facções, para sabermos com o que lidamos, que abordagem desenvolver na nossa relação.
Temos assim aqueles que nos são próximos e os que nos são distantes, os vizinhos do lado e os do último andar, o colega da secretária e a amiga com quem vamos tomar café no intervalo da manhã.
Temos os irmãos, a família, os amigos, os conhecidos e os desconhecidos, e agora no mundo cibernético temos a possibilidade de ter amigos que nunca vimos, cuja proximidade se estabelece por um “like”, por um “aceito”.
A lei que organizava o povo de Israel e as suas relações com os povos vizinhos estava também estruturada nestas categorias de proximidade e distância. Era assim obrigatório amar o próximo e possível odiar o inimigo, ainda que este inimigo pudesse ser próximo.
A diversidade das situações que a lei abarcava deixa perceber que não era fácil etiquetar e definir o inimigo, e por isso qualquer israelita devia obrigatoriamente conduzir o boi perdido a casa do dono, fosse ele amigo ou inimigo.
Face a esta ambiguidade e diversidade, Jesus apela ao primordial, coloca diante dos seus ouvintes o que era verdadeiramente fundamental, a igualdade de todos face a Deus, porque para Deus não há bons nem maus, Deus para todos faz nascer o sol e cair a chuva, ou seja, dá uma oportunidade de existir, uma possibilidade de relação.
E é neste sentido que Jesus convida os seus discípulos e ouvintes a ser perfeitos, a não saudarem apenas aqueles que os saúdam, a não viverem apenas com os amigos, mas a reconhecerem em cada situação a oportunidade de estabelecerem uma relação, a encontrar-se com Deus no outro e na sua diferença.
Tarefa difícil, na medida em que, ao prescindirmos das etiquetas, ao optarmos pelo acolhimento sem preconceitos, iniciamos um processo cujo fim desconhecemos, cujo controlo não nos pertence, cuja novidade constante nos pode desconcertar e abalar.
Contudo, o Senhor deixa-nos esse desafio, lança-nos esse repto de irmos ao encontro do outro para nele nos encontrarmos connosco próprios enquanto filhos de Deus e com o outro enquanto imagem do Pai.

Ilustração: Saída de Burguete. Caminho de Santiago. 1 de Maio de 2010.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Olho por olho e dente por dente? (Mt 5,38)

O capítulo quinto do Evangelho de São Mateus, na sua dimensão programática da vida da comunidade dos discípulos não podia deixar de fora a lei de talião e por isso a vemos abordada por Jesus no discurso da montanha.
A lei de talião, enunciada no livro do Deuteronómio, é já em si mesma uma regulamentação da violência, um combate à violência desproporcionada, que o livro do Génesis nos apresenta quando Lamec jura vingança. “Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta vezes sete.”
Ao trazer o tema para o seu discurso, Jesus não procura dar-lhe uma nova regulamentação, reformar a lei no seu enunciado, mas apelando à sua origem, ao que lhe estava subjacente, a própria violência desmesurada, aponta aos discípulos qual deve ser a sua atitude.
Assim, à lei do dente por dente, do olho por olho, ao equilibro justo, Jesus opõe a violência do amor, o despropósito e a desproporção da não-violência e da caridade. Não basta agir justamente face à violência, a qualquer violência, é necessário inverter o mecanismo, é necessário contrapor a liberalidade e a boa vontade, é necessário inviabilizar qualquer possibilidade, mesmo que seja mínima.
E por isso a oferta da outra face, a oferta do manto face ao pedido da túnica, o outro quilómetro para além do já andado, o dom livre e generoso que desarma e potencia a paz e a partilha.
Não é fácil, e todos vamos fazendo essa experiência todos os dias, pois custa-nos menos o equilibro da justiça e mesmo a violência da resposta, mas necessitamos aceitar o desafio de Jesus e procurar viver essa liberdade do dom, a desproporção da oferta que desarma.
Que o Senhor nos liberte do medo e nos conceda a graça da liberalidade e da paz.

Ilustração: “Luta de camponeses”, de Adriaen Brouwer, Alte Pinakothek Munique.

domingo, 17 de junho de 2012

Homilia do XI Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Marcos que escutámos termina dizendo que Jesus pregava a palavra de Deus com muitas parábolas, conforme eram capazes de entender, e que não lhes falava de outro modo, mas em particular tudo explicava aos discípulos, que muitas vezes pouco conseguiam entender e por isso a necessidade de uma explicação.
Este desajuste da pregação de Jesus e da sua compreensão não pode deixar de nos interrogar, pois confrontamo-nos com um processo que parece contradizer-se nos seus elementos. Como é possível anunciar a palavra, transmitir uma mensagem, usando um método que depois não permite a cabal compreensão da mensagem, da palavra?
Antes de mais, temos que ter presente que as parábolas não eram um monopólio de Jesus, que era um método comum no mundo semita e que já em outros momentos da história do povo de Israel tinha sido utilizado e com bastante poder comunicativo.
Um dos exemplos mais perfeitos deste passado histórico e poder comunicativo encontra-se na história do rei David, pois o profeta Natan serve-se de uma pequena história de uma ovelha de um pobre para fazer tomar consciência ao rei do pecado que tinha cometido quando habilmente fez desaparecer Urias para tomar Betsabé como esposa. O profeta não ataca directamente o rei, nem o acusa do seu crime, mas através de uma história coloca-o face a face com a consciência e o crime e pecado cometidos.
A parábola é assim um processo pedagógico, uma narração construída sobre elementos concretos e conhecidos, e no caso do texto do Evangelho de hoje em elementos do mundo da agricultura, portanto familiares aos ouvintes, para veicular a esses mesmos ouvintes uma mensagem, que obrigatoriamente necessita uma interpretação, uma descodificação.
O objectivo comum de todas as parábolas é convidar-nos a uma mudança de olhar e de comportamento, a um outro posicionamento face às realidades que a própria história evoca. Para compreender a parábola torna-se assim necessário colocar-se em causa, aceitar deixar-se interpelar pela história contada.
De aspecto simples, quase banal, as parábolas encerram uma lição exigente, um gérmen de revolução, e por isso quando Jesus é condenado pelos tribunais de Jerusalém não é só uma questão de filiação divina que está em causa, é também um conjunto de histórias, um conjunto de parábolas, que ainda que agradáveis e simpáticas colocavam em causa verdades instituídas.
Para além da dificuldade de compreensão, inerente às parábolas enquanto interpelação e alteração de olhares, as parábolas de Jesus sofreram ainda de uma dificuldade acrescida, pois ele serve-se das parábolas para falar de um objecto, de uma realidade, que não é descritível, que escapa à demonstração, como é o reino de Deus.
A linguagem metafórica, com o que comporta de comparação e de representação, é a única linguagem possível para tentar dizer um dinamismo que escapa à descrição, que só se pode enunciar por outras palavras, porque o reino de Deus é e não é, está a ser mas ainda não é.
Neste sentido, devemos perguntar se depois de lermos as parábolas do reino podemos dizer concretamente o que é o reino de Deus. E a bem da verdade, temos que responder que não, porque as parábolas não nos impõem uma conclusão, uma determinação sintética, mas abrem-nos para outra realidade, para um mistério.
As parábolas, e nomeadamente as parábolas do reino que Jesus conta, querem colocar-nos em caminho, em direcção a um desconhecido que se vislumbra, querem elevar-nos da realidade e da materialidade para outra coisa mais.
E neste sentido as parábolas que hoje o Evangelho nos apresenta são paradigmáticas, pois tanto a parábola da semente que cresce sem qualquer intervenção do homem, como a parábola do grão de mostarda que tem uma força geradora tão grande, querem manifestar uma fragilidade e um poder que são inerentes ao reino e ao seu dinamismo, uma acção que é anterior e exterior ao homem.
Assim, e tendo presente a parábola da semente que cresce sem qualquer intervenção do homem, percebemos que o reino de Deus é uma vida, um acontecer, um dinamismo que parte de si mesmo, do seu poder e força internas. É Deus, na palavra que é semente, que vai agindo, que vai fazendo crescer e ao homem compete-lhe apenas ser boa terra, predispor-se a ser boa terra para acolher a semente como nos é dito em outra parábola.
Não podemos por isso dizer que o reino de Deus é isto ou aquilo, é esta realidade ou aquela. Apenas podemos identificar elementos do desenvolvimento desse reino, um germinar, uma planta, um fruto que parece despontar nas acções do homem que coopera.
A oração, a fraternidade, os méritos do nosso trabalho, a justiça que praticamos e tantas outras realidades, enquanto manifestações do reino, não são acções nossas mas daquele que vai agindo, que vamos permitindo que actue em nós e por intermédio de nós.
Por outro lado, a parábola da semente de mostarda mostra como da fragilidade pode nascer a força e a transformação, como uma pequena semente, a mais pequena das sementes, encerra em si um potencial tão grande de realização.
Assim, somos convidados a não nos deixarmos vencer, nem a desanimar, face àquilo que nos parece irrisório, frágil, minúsculo, porque não sabemos verdadeiramente o seu poder transformante, multiplicador, o seu potencial.
A mais pequena palavra de solidariedade, a mais breve oração, um qualquer gesto de caridade pode de facto transformar-se, pode tornar-se numa grande obra à sombra da qual outras se podem acolher, com a qual outros homens e mulheres podem colaborar.
Face às parábolas que escutámos no Evangelho de hoje deixemo-nos pois interpelar por elas, observemos com atenção o que elas nos apontam, nos desvelam da mensagem de Deus e do reino a viver entre nós, conscientes que caminhamos na fé e sem uma visão clara, como diz São Paulo aos Coríntios, mas ainda assim, confiantes que a acção de Deus, a sua força germinal, é inerente a este mesmo caminhar.

Ilustração: “A umbrela vermelha”, de Franz von Lenbach, Kunsthalle Hamburgo.
(À sombra da umbrela, no meio de campos maduros, uma vida que se desenvolve)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A verdade possível sobre o encerramento do Seminário Dominicano de Fátima

Face à notícia do encerramento do seminário dominicano de Fátima, o Prior Provincial, frei Raul de Almeida Rolo, escreveu ao jornal A VOZ um carta de esclarecimento que foi publicada no dia 14 de Agosto de 1967.
Nesse mesmo dia, e na primeira página do jornal, aparecia em caixa o destaque sobre a abertura em Lisboa do Centro de Estudos Eclesiásticos.

Os Dominicanos restabelecem a verdade explicando o que realmente se passou
O reverendíssimo Dr. Frei Raul de Almeida Rolo, Provincial da Ordem de São Domingos em Portugal, vice-presidente da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos e presidente da Comissão Instaladora, eleito pela Assembleia Geral dos Provinciais federados para a fundação de um Centro de Estudos Eclesiásticos, comum a diversos institutos religiosos, enviou-nos com pedido de publicação, uma carta esclarecimento a uma notícia publicada no nosso jornal e já por nós rectificada.
Eis o esclarecimento do insigne Provincial, por nós solicitado, logo que tivemos conhecimento do equívoco:
… Senhor Director do jornal «A Voz» Lisboa.
Senhor, Digne-se Vossa Excelência aceitar os meus respeitosos cumprimentos.
Fiquei profundamente impressionado e com o sentimento da mais viva repulsa pela falsa e caluniosa notícia enviada ao nosso jornal e neste publicada no dia 11 do corrente mês sob a epígrafe – Encerramento de um Seminário Dominicano – seguida ainda de breve mas tendenciosa e malévola interpretação.
Como efectivamente o Estudo Dominicano de Filosofia e Teologia se suspende agora em Fátima – porém, muito ao contrário do que supunha o vosso informador, por motivos que muito o acreditam e honram – creio ser de pura ética e de elementar justiça esclarecer de quanto segue os respeitáveis leitores do conceituado jornal que Vossa Excelência tão superiormente dirige:
1 – O Estudo dominicano de Fátima é centro de formação filosófica e teológica para os alunos dominicanos, carmelitanos, missões da Consolata e da Sociedade do Verbo Divino. Nele ensinam professores dominicanos e carmelitas.
2 – Em virtude dos resultados positivos desta colaboração, e de a maior parte dos institutos religiosos em Portugal ainda não ter resolvido o problema dos estudos de filosofia e de teologia, o Provincial dos dominicanos, juntamente com os Provinciais dos institutos que formam o Estudo de Fátima, propuseram na Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos, celebrada em 24 de Abril último, ampliar a experiência de Fátima por uma cooperação mais vasta dos institutos religiosos no campo da formação.
3 – Aderiram a esta proposta quinze institutos religiosos, reunindo-se os respectivos Provinciais na tarde desse mesmo dia para iniciar o projecto de execução.
4 – Por resolução unânime, determinou-se que o Centro de Estudos Eclesiásticos se estabelecesse em Lisboa, para facilitar uma cooperação mais íntima com a futura Universidade da Igreja, por parte dos institutos religiosos.
5 – Este Centro de Estudos Eclesiásticos está em vias de organização, esperando-se poder abrir já no próximo ano lectivo de 1967-1968.
6 – Em vista do acolhimento da proposta feita em 24 de Abril e do bom andamento para a sua realização, o Conselho Provincial dos Dominicanos, nas suas reuniões celebradas em 26 de Maio e 4 de Julho, votou um súplica a dirigir ao seu reverendíssimo Mestre Geral, no sentido de ser autorizada a cooperação plena e a consequente integração do Estudo de Fátima no Centro de Estudos Eclesiásticos de Lisboa.
7 – Para presidente da Comissão Instaladora do novo centro de Estudos, formada por Provinciais e professores, foi eleito o Provincial dos Dominicanos. Para presidir à secção dos professores foi eleito também o dominicano Frei Raimundo Duarte de Oliveira, director do Estudo de Fátima.
8 – Todos os professores dominicanos portugueses que ensinam em Fátima são professores efectivos do Centro de Lisboa, excepto um, por ter sido convidado pelo Instituto Teológico de Otava (Canadá), para aí reger um curso de teologia.
9 – É, pois, em virtude de um gesto de confiança de um maior número de institutos religiosos pela experiência realizada no Estudo Dominicano de Fátima que esta experiência se amplia transferindo-se para Lisboa.
Reiterando os meus melhores cumprimentos, me subscrevo de Vossa Excelência Atento e Venerando.
Padre frei Raul de Almeida Rolo, OP, Prior Provincial
Fátima, 12 de Agosto de 1967
Convento dos Padres Dominicanos. Fátima.

Muito nos apraz este esclarecimento e agradecer a gentileza das palavras do venerando Provincial. Seria caso, noutras circunstâncias menos penosas, para dizer que há males que vêm por bem…
Apenas um breve reparo: «a breve mas tendenciosa e malévola interpretação a que se refere o ilustre superior religioso tinha apenas a intenção de explicar o motivo do suposto encerramento disciplinar.
Como se vê as aparências iludem quase sempre os incautos. A verdade é que a ordem dominicana acaba de ser honrada mais uma vez e de forma tão notável, com o que muito nos regozijamos.”

A bem da verdade histórica, há que assumir que a interpretação tendenciosa e malévola, não era tão tendenciosa e malévola como se fez crer, que a fonte da notícia estava verdadeiramente bem informada da vida dominicana, e que o projecto do Centro de Estudos Eclesiásticos foi uma solução bastante digna para uma situação extremamente difícil de que a correspondência com o Mestre da Ordem Aniceto Fernandez é testemunha documental.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Encerramento do Seminário Dominicano de Fátima. Notícia falsa?

O jornal “A Voz”, no dia 11 de Agosto de 1967, publicava quase despercebida na sua página 2 a seguinte notícia:
Encerramento de um seminário dominicano
De fonte eclesiástica portuguesa geralmente fidedigna (como dizem as agências), consta-nos que o mestre geral da Ordem de São Domingos mandou encerrar o seminário dominicano de Fátima e dispersar o corpo docente e discente. Supõe-se que o motivo são os estragos do ‘progressismo’ nesta era pós conciliar.”

Face a tal notícia, no dia seguinte, o Prior Provincial frei Raul de Almeida Rolo viu-se obrigado a escrever ao jornal a solicitar a publicação de uma carta, pois “é uma instituição veneranda pelo passado e honesta no presente que foi gravemente afrontada por um informador leviano e sem escrúpulo”.

Ainda nesse mesmo dia, 12 de Agosto, Diniz da Luz da parte do jornal envia um telegrama ao Prior Provincial frei Raul Rolo: “Ausência Director apresento desculpas, jornal informando sairá longa nota lastimando equívoco amanhã, mal imagina vossa reverendíssima fonte notícia, creia nos desolados penitentes, nada género se repetirá bem vinda qualquer nota sua.”

No dia 13 de Agosto e tal como prometido por Diniz da Luz era publicado o desmentido

Notícia Felizmente sem Fundamento
A do Encerramento de um Seminário Dominicano
Anteontem, neste mesma secção, embora sem qualquer relevo, publicámos a seguinte local:
«De fonte eclesiástica portuguesa geralmente fidedigna (como dizem as agências), consta-nos que o mestre geral da Ordem de São Domingos mandou encerrar o seminário dominicano de Fátima e dispersar o corpo docente e discente. Supõe-se que o motivo são os estragos do PROGRESSISMO nesta era pós conciliar.»
Apesar de termos como fidedigna e certa a notícia, publicámo-la com as costumadas reservas das agências noticiosas. Não fosse o Diabo tecê-las e dispará-las…
Pois foi o que sucedeu – e felizmente. Isto é, a notícia não correspondia à verdade.
No mesmo dia à noite, teve a bondade e paciência de nos telefonar de Fátima o ilustre e venerando provincial dos dominicanos portugueses, reverendo Dr. Raul de Almeida Rolo, a esclarecer-nos de que não tem qualquer fundamento a notícia que déramos, embora com certa reserva.
Devemos, pois, uma palavra de desculpa e explicação ao seminário assim visado injustamente e também aos nossos leitores. E até a nós próprios.
Agimos com boa fé, como a que admitimos e sabemos em quem nos informou e demos a notícia sem qualquer realce e – insistimos – com as devidas cautelas da redacção (pelo sim pelo não).
Da mesma fonte – podemos afirmar – e durante longos anos, quase um quarto de século, nos têm chegado informes nunca até hoje desmentidos. Alguma vez havia de ser o percalço – e com ele, desta vez sem exemplo, nos regozijamos, em homenagem à verdade.
Não é literatura de desculpa: nós próprios nos espantamos de como poderá ter nascido esse boato que nos chegou com foros de notícia certa e por via límpida. Tratou-se certamente, na origem da informação, de um mal entendido, lastimável sem dúvida.
Como está em voga a crise dos seminários – e o encerramento de alguns, no estrangeiro ao menos – a notícia que penosamente tivemos por fidedigna não obteve o nosso silêncio, o que foi pena, desta vez. Cavacos de oficio espinhosos, nesta era pós conciliar…
Insistimos. Nunca nos passou pela cabeça dada a nossa habitual confiança na referida fonte informativa, que pudesse não ser de todo exacta a notícia ao fim e ao cabo infeliz. E como sabemos da crise que existe nos seminários (e a ela nos temos referido algumas e muitas vezes) e não vemos vantagem numa «coutada» de silêncio na Igreja portuguesa (isto é, a respeito dos acontecimentos religiosos em Portugal), cedemos ao interesse aparente da notícia.
Às vezes, quem sabe? no melhor pano branco dominicano podia ter caído a nódoa do nosso tempo. Assim não foi e assim não é, pelos vistos.
Felizmente, a notícia que demos não foi uma «caixinha» jornalística: foi o que se chama um «caixão». E antes assim, sinceramente.
Esperemos a justiça de se admitir que ao darmos a notícia inexacta, nenhuma animosidade nos moveu contra aquela escola de formação religiosa e muito menos contra a Ordem de São Domingos a cuja feliz restauração em Portugal, na medida das nossas informações e possibilidades, temos feito sempre, e sem favor, as melhores e justas referências. Todos, na verdade, sabemos o que Portugal, através da história e em nossos dias outra vez, deve aos dominicanos.
Mesmo que fosse verdade – e não é – o que informámos, nem na informação haveria qualquer intuito de agravo ou melindre, como não há quando, a bem dizer dia a dia, se dá e damos conta de certos sinais dos tempos. Notícias exactas não são agravos, o que felizmente não é agora o caso. O «infelizmente» é apenas a respeito da nossa informação errónea.
Apresentamos todas as desculpas ao seminário visado e todas as felicitações e votos pelo seu progresso ao serviço de um Ordem egrégia. E que benignamente São Domingos nos perdoe – e também o insigne Provincial, a quem, até aqui, na medida embora da nossa fraqueza, temos procurado ajudar a levar a «cruz» luminosa e salutar do seu mandato.”

Face à notícia e ao pedido de desculpas podemos interrogar-nos se houve de facto um mal entendido, ou pelo contrário, se a fonte jornalística estava na posse de conhecimentos bem fundamentados da vida privada dominicana.


Se a vossa justiça não superar a dos escribas… (Mt 5,20)

Jesus está reunido com os seus discípulos e a multidão num monte. É um encontro ocasional, mais um entre tantos outros, mas Jesus aproveita o momento para lançar um desafio àqueles que o ouvem. Um desafio surpreendente na medida em que aqueles que o escutam são gente simples, gente do povo.
“Se a vossa justiça não superar a dos escribas não entrareis no reino dos céus.”
Como é possível tal afirmação, tal desafio para aquela gente? Como podem superar o cumprimento da lei e a justiça dos escribas quando são eles que conhecem a lei, são eles que a estudam e a traduzem para os outros?
O desafio de Jesus é de facto surpreendente, pois retira de alguma forma o poder de exclusividade de interpretação da lei ao grupo que se tinha arrogado esse poder. As interpretações que os escribas faziam não eram um serviço que lhes estivesse reservado, mas era uma oferta feita a todo o povo.
Por outro lado, com este desafio, Jesus opõe à exigência da lei o dinamismo do amor, ao mecanismo da resposta predefinida a liberdade da resposta do desejo. Assim, já não há um julgamento ou uma retribuição apenas para os actos cometidos, sejam eles bons ou maus, mas tudo se joga na intenção do coração, no princípio que precede o mesmo acto.
Desafio radical e transformante daqueles que o aceitam viver, pois todos os gestos, todas as palavras, todos os actos, passam a necessitar estar fundamentados numa justiça fundamental que possibilita e faculta toda a liberdade.
Desafio igualmente radical e transformante na medida em esta justiça e liberdade não abdicam de tudo fazer e tudo perceber em relação com um outro. O outro é sempre objecto de um acto, de uma palavra, de uma atitude, de um desejo.
E por isso Jesus confronta os seus ouvintes com a necessidade de reconciliação face à apresentação dos dons no altar, pois diante de Deus ninguém aparece nem de mãos vazias nem sozinho. “Onde está o teu irmão?”, foi a pergunta que Deus fez a Caim.
Que o Senhor ilumine o nosso coração e nos ajude cada dia a superar a nossa justiça normalizada para vivermos a justiça verdadeira que nasce do amor que Deus coloca nos nossos corações.

Ilustração: “Sermão da montanha”, de Ivan Makarov.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ide… (Mt 10,7)

A missão que Jesus entrega aos discípulos é algo verdadeiramente surpreendente, uma missão na qual as forças humanas não podem ser o ponto de partida, pois de contrário tudo esbarraria numa impotência frustrante.
A missão começa por ter uma dimensão activa, pois os discípulos não são somente enviados a anunciar que o reino dos céus está perto, mas também a curar os enfermos, a ressuscitar os mortos, a sarar os leprosos e a expulsar os demónios.
Poderiam e poderemos fazer isto apenas fiados nas nossas forças? Não está subjacente a esta missão a confiança num poder que os supera, que está para lá de nós e ao qual devemos recorrer para tentar cumprir a missão?
E se as realidades da confiança e da fé não estivessem muito claras, Jesus ordena aos discípulos que não adquiram ouro nem prata, que não levem alforge para o caminho, nem duas túnicas ou sandálias, ou até um cajado. Porque o trabalhador merece o seu salário.
Jesus convida desta forma os discípulos à confiança total, a acreditarem que há uma paga, não só divina mas também humana. Jesus convoca assim os discípulos para a gratuidade e para a generosidade, para a hospitalidade. Procurai alguém digno e ficai em sua casa, e se a casa for digna a vossa paz permanecerá sobre ela.
É no âmbito das relações que a mensagem e salvação de Jesus pode ser veiculada, mas para isso é necessário estar aberto, ser generoso e acolher também o dom e generosidade do outro, acolher a paz que constrói as relações.
A missão dos discípulos não é assim uma missão mimética da missão de Jesus, eles não vão repetir os gestos de Jesus, tal como nós não somos chamados a repetir os gestos de Jesus. A missão do discípulo realiza-se na identificação com o centro que constituía a missão de Jesus e portanto podemos ter gestos parecidos, porque assumimos a paz e o bem que Jesus veio trazer a todos os homens, o dom de Deus oferecido.
A missão dos discípulos, de todos os discípulos, é assim fazer presente no meio de nós a vida de Deus, tal como Jesus o fez no seu tempo.

Ilustração: Cajados de peregrinos no Albergue O Tear em Hospital da Condesa. Caminho Santiago. 21 de Maio de 2010.

domingo, 10 de junho de 2012

Homilia do X Domingo do Tempo Comum

A origem dos Evangelhos prende-se com a questão “quem é Jesus?”, e na sua diversidade e complexidade cada um dos evangelistas procurou responder a essa questão.
Questão que o mesmo Jesus colocou um dia aos discípulos, “quem dizem os homens que eu sou”, e à qual Pedro respondeu que Jesus era o Messias, o Filho de Deus.
O trecho do Evangelho de São Marcos que hoje lemos apresenta-nos também duas respostas a esta mesma pergunta; uma por parte da família de Jesus, que o considera “fora de si”, um louco, e outra por parte dos escribas vindos de Jerusalém, que consideram Jesus “possesso de Belzebu”, portanto um demónio.
São Marcos reuniu no mesmo contexto, na mesma circunstância, as duas imagens de Jesus, ainda que de grupos opostos, porque ambas enfermam da mesma visão exterior, ambas se ligam ao mal, ainda que no caso da família a visão seja a de Jesus afectado pelo mal, e no caso dos escribas seja a de Jesus como agente do mal.
Na crença popular ao tempo de Jesus, Belzebu era o rei do reino do mal, um reino que se dividia em vários extractos e cujo extracto mais baixo era o dos espíritos que provocavam as doenças, os estados de possessão e similares.
A acusação e afirmação dos escribas vindo de Jerusalém colocam Jesus nestes extracto, uma vez que ele lida com doentes, com possessos, com gente socialmente e religiosamente excluída e marginalizada. Jesus é como um agente do mal e por isso se integra nesta franja de marginalidade.
A resposta de Jesus a esta acusação é por demais evidente e irrefutável, uma vez que ao combater o mal, as doenças, a marginalização, ele não pode pertencer ao mesmo grupo daqueles que lhes dão origem. Jesus está de facto nos antípodas da visão e acusação feita pelos escribas.
E é neste sentido que Jesus lança um desafio, uma ameaça de condenação que de alguma forma permanece enigmática quando diz “quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão”, mas que se esclarece imediatamente a seguir quando ela dirigida àqueles que dizem que Jesus está possesso de um espírito impuro.
O pecado contra o Espírito Santo é assim a recusa da aceitação e do reconhecimento de Jesus como agente do bem, como salvador, como integrador do homem na sua dignidade original. Toda a acção de Jesus quando curava, quando perdoava, quando entregava a sua vida em expiação dos pecados dos homens, visava essa integração, essa restauração da familiaridade com Deus.
E é face a esta integração, a este objectivo de vida, que a visão por parte da família e a sua atitude se opõem, se apresentam em contraposição, expressa de forma parabólica na redacção do texto pela espacialidade dos actores.
Assim, vemos que a família que vem à procura de Jesus o considera “fora de si”, fora dos esquemas tradicionais do grupo e da tribo. Face aos vários comentários que circulam, a família vem à procura de uma reintegração no grupo familiar, nos parâmetros habituais do clã, vem à procura de alguém que parece afectado pelo mal e portanto é necessário proteger.
Contudo, a realidade é bem diferente, Jesus pertence já a um outro grupo, a uma outra família, e São Marcos expressa isso de forma magistral quando coloca a família fora do espaço e local onde se encontrava Jesus com aqueles que o escutavam. Os laços de sangue impediam-lhes o acesso a Jesus, enquanto que a escuta da sua palavra a facultava.
Neste contexto há que ressalvar a pessoa de Maria que se dilui no grupo da família, e que São Marcos não deixa igualmente de ressalvar e excluir apresentando-a apenas como sua mãe. Maria enquanto mãe afigura-se como a expectativa messiânica do povo, a maternidade que necessitava passar à filiação.
E por isso, quando é dito a Jesus que a sua família, mãe e irmãos, estão lá fora à procura dele, Jesus responde que verdadeiramente seus irmãos e sua mãe são aqueles que cumprem a vontade de Deus.
Nesta resposta insere-se o reconhecimento de Jesus como aquele que é o primeiro a cumprir a vontade de Deus, e por essa razão é fonte de bem e salvação, é o agente da integração do homem na órbita e na relação com Deus. Jesus não está na órbita do mal, mas na órbita de Deus.
À luz das palavras de Jesus necessitamos por isso de estar muito atentos ao cumprimento da vontade de Deus nas nossas vidas, à fidelidade aos seus mandamentos, conscientes de que sempre estamos convocados a dar uma imagem verdadeira de Deus, mas muitas vezes essa mesma imagem é mal interpretada por outros.
Contudo, e como diz São Paulo aos Coríntios, não podemos deixar-nos desanimar, não podemos abdicar, porque cada tentativa e cada esforço são uma potencialidade de graças mais abundantes e de maior glória para Deus.

Ilustração: “As tentações de Jesus”, de Alexander Andreyevich Ivanov. Galeria Tretyakov, Moscovo.

sábado, 9 de junho de 2012

Uma pobre viúva deitou duas moedinhas (Mc 12,42)

Jesus está no templo a ensinar e chama a atenção dos seus discípulos para a vaidade, para a vã glória do mundo que os fariseus procuram quando se sentam nos primeiros lugares dos banquetes ou procuram exibir as suas longas vestes e orações públicas.
Se tal acontece com os fariseus não deve acontecer com os seus discípulos e por isso Jesus vai ao encontro de um testemunho, de um gesto que possa servir de paradigma aos seus discípulos na questão da humildade e da discrição.
Sentado frente à arca do tesouro, Jesus descobre a pobre viúva que vem entregar a sua pobre esmola, duas pequenas moedas. Silenciosamente aparece no conjunto da multidão, sem dar nas vistas, tal como no Evangelho no qual ocupa apenas três breves versículos.
Contudo, Jesus reparou nela, tal como a Igreja e os primeiros discípulos ao testemunharem o acontecimento no Evangelho. Aquela pobre viúva era um exemplo vivo e por isso Jesus a fez aparecer do anonimato e o Evangelho a fixou para a eternidade.
Nas duas pequenas moedas que entregou no tesouro do templo a viúva entregou toda a sua vida, tudo o que possuía, sem alarido nem queixumes. Era o que tinha, foi o que deu; pouco aos olhos dos fariseus mas muito aos olhos de Jesus, pois foi com total liberdade e confiança que foi dado.
Ao evidenciar o gesto da viúva Jesus chama a atenção não só para a humildade e discrição da mulher que faz a sua oferta, mas sobretudo coloca em evidência a pessoa face ao dom. Mais do que o oferecido o importante é aquele que oferece.
Este episódio lança-nos assim um desafio sobre a forma como nos situamos face ao dom, face às ofertas que recebemos ou ofertamos, sobre a importância que lhes atribuímos. Para Jesus o verdadeiramente importante é a pessoa humana.

Ilustração: “O óbulo da viúva”, fresco da Basílica de Ottobeuren.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A multidão escutava com prazer o que Jesus dizia. (Mc 12,37)

Várias passagens dos Evangelhos, e em várias circunstâncias, dizem-nos que a multidão escutava Jesus.
Umas vezes é porque Jesus fala com autoridade e por isso a multidão reconhece que é um profeta, alguém com mais sabedoria que os doutores da lei e os escribas.
Outras vezes, como no caso desta passagem do Evangelho de São Marco, o povo escutava com prazer, o que não é estranho uma vez que tinham diante de si a Palavra feita carne.
Este prazer de escutar desafia-nos hoje, não só porque nos custa escutar os outros, não temos tempo, não temos paciência, mas sobretudo porque necessitamos escutar aquilo que Deus nos vai dizendo.
Necessitamos parar, fazer silêncio, para escutar a Palavra, e perceber como diz São Paulo a Timóteo que a Escritura pela fé em Cristo Jesus é útil para ensinar, para persuadir, para corrigir e para formar segundo a justiça.
Pela escuta atenta da Palavra poderemos preparar-nos para todas as boas obras e alcançar a perfeição que corresponde ao homem de Deus, como também diz São Paulo a Timóteo.
Procuremos pois escutar a Palavra de Deus, a Escritura Sagrada, mesmo quando ela se nos apresente enigmática, questionável, porque nela alcançaremos a sabedoria que conduz à salvação.

Ilustração: “Santo Agostinho lendo as Epistolas de São Paulo”, fresco de Benozzo Gozzoli.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Homilia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

Até daqui a cinco anos é a última vez que celebramos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo neste dia, numa quinta-feira. No contexto da crise económica em que vivemos, a produtividade sobrepôs-se a esta festa e assim durante cinco anos ficará suspensa a sua celebração tradicional e histórica. Depois veremos.
Face ao peso histórico desta festa a nível nacional e a algumas vozes contestatárias da sua suspensão, um jornalista perguntava a um dos nossos bispos se a Igreja com esta decisão não se tinha subjugado às leis do mercado, ao jugo economicista que cada vez mais nos oprime, ao que o prelado respondeu que era uma obrigação moral para a Igreja.
Compreendo a resposta deste prelado da Igreja portuguesa, compreendo e concordo que devemos estar do lado e de mãos dadas com os esforços no sentido de combater esta crise, é um imperativo moral que radica do próprio mandamento do amor; mas interrogo-me igualmente se esta é a resposta mais correcta, se a Igreja não devia ter defendido, apostado, por um outro imperativo moral que me parece mais fundamental que é o da dignificação do trabalho e do descanso, da colaboração do homem na obra da criação através do trabalho gratificante e do descanso merecido e necessário.
E neste sentido, a leitura do Evangelho de São Marcos apresenta-nos duas questões que de alguma forma lançam luz sobre estas duas realidades, as quais estão também presentes na celebração desta Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, pois o que apresentamos a Deus para a transformação pelo Espírito Santo, para o corpo e o sangue de Cristo, é fruto do trabalho das nossas mãos e da generosidade da terra.
A primeira questão é colocada pelos discípulos, quando perguntam a Jesus onde deseja que se façam os preparativos para a Páscoa. Podemos assumir que nesta pergunta está subjacente o trabalho do homem, a necessidade da colaboração do homem para a celebração da Páscoa, da passagem para Deus das diversas realidades humanas.
E ainda que muitas vezes vejamos o trabalho como condenação pelo pecado, assim nos é justificado no relato do pecado de Adão, não podemos deixar de ter presente que nesse mesmo relato do Livro do Génesis, e após a sua criação, o homem é convidado a colaborar na multiplicação e preservação da demais obra de Deus.
O homem está assim pela sua natureza implicado na preparação das condições para a celebração da Páscoa, ou seja, deve conduzir todas as realidades ao encontro com Deus, deve propiciar a passagem para o divino, pois Páscoa significa passagem, e para os cristãos passagem da morte à vida.
A outra pergunta que o texto do Evangelho de São Marcos apresenta é formulada por Jesus através dos discípulos que são enviados à cidade para tratar dos preparativos, “onde está a sala em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?”.
Na cidade há uma sala que espera pelos convivas, há um espaço no qual se celebrará a Pascoa, um espaço que vem ao encontro daquele que deseja comer a Páscoa, o próprio Deus no seu Filho Jesus. Neste caso a iniciativa está já do lado de Jesus, de Deus, pois é ele que deseja comer a Páscoa com os seus discípulos, é ele que deseja celebrar a passagem.
Esta sala na cidade, alcatifada e pronta, pode ser entendida como o domingo, como o dia em que Deus se faz de modo particular presente, anfitrião, através da Eucaristia, que é memória desta ceia e Páscoa celebrada por Jesus com os seus discípulos primeiros. É também a memória daquele primeiro dia de descanso depois da criação, quando Deus viu que era tudo muito bom e podia descansar. E Jesus pergunta por ela, essa sala que é tempo, necessita dela para a celebração da passagem e o encontro com o homem.
A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo que celebramos evidencia a importância da Eucaristia como presença do Corpo e Sangue de Cristo, mas realça também essa necessidade do tempo para a celebração, para o encontro e para a passagem.
O homem não é meramente uma máquina de trabalho, um escravo da produção e do consumo, o homem é um colaborador da obra divina, que é feita de trabalho e de descanso. E neste sentido, quando um conjunto de forças parece querer que o homem perca esta nobreza e dignidade, esta colaboração consciente na obra divina, é necessário e urgente redescobrir e valorizar o dia do domingo e a celebração da Eucaristia.
A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é uma oportunidade para esta descoberta e valorização, pois como canta São Tomás, num hino do Oficio que lhe foi pedido para esta festa, “aos fracos e esfomeados deu o seu Corpo a comer, e aos tristes, fonte de vida, deu o seu Sangue a beber”.
Num outro hino canta o mesmo São Tomás “um menino nos foi dado, veio aos servos o Senhor, foi na terra semeado o seu verbo salvador”. Saibamos nós com a luz do Espírito Santo apreciar e viver este dom que o Senhor nos deixou como memória do seu amor por cada um de nós e toda a humanidade.

Ilustração: São Tomás escrevendo o Oficio Divino para a festa do Corpus Domini assistido pelos anjos”, de Guercino. Bolonha, Basílica de São Domingos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ele não é um Deus de mortos mas de vivos! (Mc 12,27)

A parábola dos vinhateiros assassinos continua a provocar reacções e assim encontramos um grupo de saduceus a interrogar Jesus sobre a ressurreição. Eles que não acreditavam na ressurreição, apresentam a Jesus uma história, um caso de escola por demais rocambolesco, pois é pouco provável que sete irmãos casassem com a mesma mulher.
Esta história e a armadilha que comporta são a oportunidade para Jesus apresentar e confrontar aqueles homens com uma verdade inquestionável. O Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob, o Deus em que diziam acreditar era um Deus de vivos, ao contrário do que eles queriam fazer crer com aquela história considerando-o como um Deus de mortos, ou para a morte.
Esta verdade que Jesus apresenta é extremamente importante e tem inevitavelmente repercussões na nossa vida, ou melhor, na forma como nos situamos na vida e face à vida, pois ela transforma-se numa realidade que exige qualidade.
E ao falarmos de qualidade de vida não nos estamos a referir à qualidade de vida material, a uma vida boa, ainda que também seja necessária e no contexto social e económico em que nos encontramos se apresente como um grande desafio.
Ao falarmos de qualidade de vida estamos a falar da sua plenitude, numa necessidade de realização enquanto homens e mulheres de forma plena. Ao acreditarmos que Deus é um Deus de vivos não podemos deixar de buscar na nossa vida o máximo do que ela encerra.
E ainda que a morte se nos apresente como inevitável, ela perde todo o seu carácter trágico, fatal, na medida em que a vida foi vivida em plenitude, foi uma manifestação de uma outra vida superior que fundamenta todos os gestos, todas as atitudes e todas as palavras. É a vida divina em nós que dá sentido e transforma a vida física e histórica.
Neste sentido, mesmo aqueles que consideramos mortos não morreram se viveram em plenitude a sua vida, se acreditaram que a sua vida fazia parte da grande vida de que Jesus ressuscitado é a grande testemunha, se pelo amor com que amaram manifestaram o Deus dos vivos. Tudo vive naquele que é a vida.
Procuremos pois em cada gesto do dia a dia, em cada palavra e em cada sentimento manifestar a vida que nos habita, a plenitude a que somos convidados, a eternidade do amor de Deus que nos abraça e nos sustém vivos.

Ilustração: Monumento funerário de peregrino de Málaga falecido entre Castrojeriz e Puente Fitero. Caminho de Santiago. 11 de Maio de 2010.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Mestre, sabemos que és sincero. (Mc 12,14)

Alguns fariseus e partidários de Herodes aproximam-se de Jesus com intenção de lhe armarem uma cilada, de o apanharem de modo a poderem acusá-lo e dar-lhe a morte.
Aproximam-se com segundas intenções, com a mentira no coração, mas apesar disso com a verdade nos lábios.
Aproximam-se reconhecendo não só Jesus como Mestre, mas sobretudo que vive na verdade, que é sincero e não se deixa influenciar nem faz acepção de pessoas.
Ainda que armadilhada a afirmação não deixa de ser um grande elogio para Jesus, não deixa de ser a confirmação daquilo que Jesus dirá de si próprio “eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Tal como estes homens também nós algumas vezes nos aproximamos de Jesus com palavras suaves, com uma segunda intenção no coração, uma vez que não é fácil enfrentar a verdade e a sinceridade de Jesus, a verdade e a sinceridade que nos pede.
Quantas vezes a nossa concepção do seguimento de Jesus não se deixa obscurecer por uma fuga das exigências desse mesmo seguimento, enquanto que outras vezes está no lado oposto do que verdadeiramente significa seguir Jesus.
E neste sentido, temos que ter presente que a moeda que Jesus pede àqueles fariseus, e a referência à imagem nela cunhada, nos convida a um sentido verdadeiro do seguimento, a uma compreensão mais perfeita do que significa ser cristão.
De facto, o que está em causa é a verdade da imagem, porque estamos chamados a ser verdadeira imagem de Deus, a desenvolver em nós um coração grande e misericordioso como o de Deus Pai, uma sinceridade pura que permita reconhecer a verdade dos outros enquanto imagens de Deus.
Tal como nos diz São João na sua Primeira Carta (5,20) “em Cristo Jesus nós estamos naquele que é a verdade”, o verdadeiro, e por isso todo o nosso esforço desse consistir em permanecer nele.
Que o Espírito Santo nos ilumine o coração e nos fortaleça nesse desejo de permanecer sempre em perfeita união com Deus e com os irmãos.

Ilustração: “O tributo a César”, de Jacek Malczewsli, pintor simbolista polaco.