sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Luar de Agosto a dar no Rosto

O mês de Agosto deste ano de 2012 acabou por ter duas noites de lua cheia, como a de hoje, último dia do mês, facto que vai levar vários anos até voltar a acontecer.

No meio da cidade é difícil apreciar devidamente a noite das estrelas e o brilho do luar. Contudo, e como à volta deste convento nos encontramos ainda com algum espaço verde selvagem e umas quantas árvores que já plantámos para nos protegerem do ruido, aproveitei um bocadinho do tempo a seguir ao jantar para tirar umas quantas fotografias a este momento único e de rara beleza.


Deixo-as aqui, as poucas aproveitáveis, fazendo jus ao ditado que diz que o luar de agosto lhe dá no rosto, neste caso no rosto de lioz que cobre a parede da sacristia.
 



 

 





 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Um só é o vosso Mestre (Mt 23,8)

A recomendação de Jesus aos seus discípulos, de não chamarem nem se deixarem tratar por pai, mestre ou doutor, não pode deixar de ser situada na discussão que Jesus desenvolve com os fariseus sobre o proselitismo e a complexidade do cumprimento da Lei de Moisés.
Por esta razão, não é estranho que São Paulo na Primeira Carta a Timóteo se intitule “doutor dos gentios” e que nas primitivas comunidades monásticas da Palestina e do Egipto se tratasse os monges como “mestre” ou “pai”. Tanto numa como noutra situação não está a negação da recomendação de Jesus.
A recomendação de Jesus aos seus discípulos prende-se com a vaidade, com o orgulho, tantas vezes patentes nos fariseus e escribas da Lei, que cultivavam uma religião exterior, para ser vista pelos outros, e por isso alargavam as filacteras e multiplicavam as borlas, gostavam de ser saudados nas praças e ocupar os primeiros lugares nos banquetes.
A autoridade que exibiam era apenas isso, uma exibição, uma encenação para que os outros pudessem ver e por isso ser elogiados, procurados, considerados como importantes. As suas atitudes ficavam assim apenas no externo e sem qualquer referência fundamental à verdade que diziam representar.
Quando a Igreja, e nomeadamente São Paulo, quebra a recomendação de Jesus, está a desenvolver uma outra lógica, uma lógica que se prende com a identidade e a tentativa de semelhança, de busca da perfeição que é apresentada no horizonte do próprio Deus.
De facto, para os “pais”, os “mestres”, e os “doutores” da Igreja, como Santo Agostinho que hoje celebramos, ser mestre, ser pai ou ser doutor não significa colocar-se no lugar de Deus, não significa a realização da missão correspondente a Deus, mas uma tentativa de tradução nas realidades humanas e históricas da acção fundamental de Deus.
Estes homens e mulheres, que foram considerados mestres, pais ou mães, ou doutores, mantiveram uma íntima e profunda relação com Deus, perceberam nas suas vidas a acção de Deus e consequentemente sentiram necessidade de a explicitar à sua medida junto dos seus irmãos.
Sem perderem a fonte e a sua relação com ela procuraram curar as feridas dos seus irmãos, procuraram ser luz, procuraram traduzir em palavras o amor que experimentavam de Deus, procuravam fazer crescer nos seus irmãos a mesma necessidade filial, em suma, procuraram testemunhar das mais diversas formas e nas diversas circunstâncias o amor que viviam em Deus.
É esta associação, esta explicitação íntima da relação com Deus enquanto Pai, Mestre e Doutor que todos somos chamados a viver. À imagem e semelhança de Deus não podemos deixar de ser também mestres, pais e doutores junto dos nossos irmãos; sem prejuízo, contudo, da verdade de que quem verdadeiramente cura, quem verdadeiramente ensina e quem verdadeiramente gera é Deus. Nós somos apenas meros cooperadores da acção divina, que mais se realiza quanto maior é a nossa humildade, quanto maior for o aniquilamento do nosso orgulho.
 
lustração: “Cristo confortando um pobre”, majólica de Luca della Robbia, Museu do Louvre, Paris.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! (Mt 23,13)

O homem enquanto homem é um animal de ritos, de símbolos e de normas. Não se pode compreender o homem sem essa ordem que o ajuda a compreender e a reconstruir o mundo à sua semelhança.
Neste sentido, não podemos deixar de admitir que o ritualismo, o puro formalismo da prática, o hábito, quer social, quer cultural, quer religioso são uma constante, ou uma ameaça constante. Todos podemos cair nesse pecado, sucumbir a esse perigo.
Jesus ao confrontar-se com os fariseus e os escribas da Lei confronta-se também com esta realidade e com esse perigo, e por isso a acusação de hipocrisia, uma palavra cujo sentido primário se refere à comédia, pois o hipócrita era o actor que desempenhava um papel.
Jesus acusa assim os fariseus e os escribas de desempenharem um papel, de construírem uma fachada que não corresponde à realidade, pois as suas práticas, os seus rituais, os seus escrúpulos face às normas da Lei estão apenas em função da visibilidade perante os outros. Há assim um hiato, um abismo entre aquilo que se pratica e demonstra viver e a realidade vivida, a verdade intrínseca da vida.
Neste confronto com os fariseus e escribas da Lei Jesus assume uma linguagem apocalíptica e condenatória dessas mesmas práticas e vivências, pois elas não só eram um equívoco para aqueles que as praticavam mas também para aqueles a quem eram ensinadas. E por isso são cegos a conduzir outros cegos.
Face a esta situação, a este perigo, Jesus apela à verdade, a uma vida de verdade, em que a linguagem seja sim ou não, sem necessidade qualquer de juramento sobre outras realidades externas e de valor religioso ou divino. A verdade deve ser suficiente para acreditar a vida e as práticas, quaisquer que elas sejam.
Se hoje nos libertámos da necessidade de jurar, e a nossa linguagem seja cada vez mais assertiva, não nos libertámos contudo da necessidade de viver de acordo com a verdade. Bem pelo contrário, na medida em que as tecnologias nos permitem cada vez mais máscaras, necessitamos cada vez mais da verdade e de viver de acordo com a verdade.
Necessitamos abandonar as máscaras em que nos protegemos e escondemos, abandonar a cumplicidade com a mentira e a falsidade da hipocrisia, para que, como nos promete Jesus no Evangelho de São João, possamos viver livres. “A Verdade vos tornará livres!”
Que o Senhor nos conceda a coragem e a fortaleza de não claudicar face às exigências da verdade, de assumirmos as nossas faltas e fragilidades que sempre serão alimento para o futuro à luz da verdade em que se assumem.
 
Ilustração: “Alegoria do Tempo revelado a Verdade”, Jean François de Roy, National Gallery, Londres

domingo, 26 de agosto de 2012

Homilia do XXI Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho deste domingo é a conclusão do capítulo sexto do Evangelho de São João, um capítulo que temos vindo a acompanhar nos últimos domingos e que se inicia com o milagre da multiplicação dos pães.
Encontramo-nos assim, ao finalizar o capítulo, com um contraste tremendo entre a multidão de mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, que foram alimentadas pelo pão do milagre, e um pequeno grupo que permanece depois da apresentação de Jesus como o verdadeiro pão que pode saciar os homens.
Se após a multiplicação dos pães procuram Jesus para o fazer rei, uma vez que lhes tinha saciado a fome física que transportavam, após a apresentação do verdadeiro Pão do Céu e da exigência de conversão de vida que tal alimento implicava essa mesma multidão vira as costas a Jesus.
Como nos diz o Evangelho eram palavras duras, palavras que provocaram o escândalo, porque jogavam com realidades que se apresentavam diante de todos eles, como a humanidade de Jesus e o conhecimento da sua família, e entravam em conflito com as palavras de Jesus, como o anúncio da sua identidade divina e missão salvadora.
E é perante este desafio, esta pedra de tropeço, que Jesus assume na sua totalidade e radicaliza ainda mais com a referência à elevação do Filho do homem, e que não podemos deixar de associar à morte na cruz, que aparece a questão fulcral do seguimento: “também vós quereis ir embora?”
À oferta de Jesus, à apresentação do dom do Pão da Vida, corresponde assim a necessidade de uma resposta, de uma adesão, de um acolhimento. E perante o abandono de muitos dos seus discípulos Jesus coloca a questão ao grupo restrito dos doze. É necessário saber se também para eles o anúncio tinha sido escandaloso, se tinha abalado a sua fé.
Ao longo da história da salvação descobrimos como afinal essa tem sido muitas vezes a pergunta de Deus aos homens, se a forma como Deus se tem revelado provoca no homem o escândalo e a rejeição, quando naturalmente deveria provocar a alegria e a expectativa face ao Deus que se apresenta e dá a conhecer.
Deus apresenta-se, revela-se e dá-se a conhecer e espera que o homem criado à sua imagem e semelhança seja capaz de o reconhecer e de o acolher, de sentir que não tem diante de si um inimigo nem um adversário, mas alguém que ama profundamente a sua obra.
E neste processo, a liberdade do homem, de cada homem e da humanidade, é um valor inalienável, imprescindível, porque de contrário o homem deixaria de ser imagem e semelhança de Deus. É a liberdade de uma resposta positiva ou negativa que constitui o homem diante de Deus como uma entidade passível de uma relação.
Jesus, como Filho de Deus, não pôde deixar de se colocar na mesma base de princípios e por isso a pergunta, certamente desalentada, aos doze, se queriam continuar ou ir-se embora como os outros. E tal como aos doze, Jesus continua a fazer a mesma pergunta a cada um de nós, na expectativa que a nossa resposta seja como a de Pedro, “ a quem iremos Senhor, se tu tens palavra de vida eterna”.
Esta resposta, humilde e comprometida de Pedro, não pode deixar de ser vista como um verdadeiro salto na fé, um apostar num desconhecido, que só pela graça do Espirito Santo é possível. E isto, porque Pedro conclui a sua adesão a Jesus manifestando a fé numa realidade que humanamente lhe era impossível afirmar, “tu és o Santo de Deus”.
Podemos por isso dizer que o capítulo sexto de São João e o drama entre a deserção dos que se escandalizam e aqueles poucos que permanecem se joga nessa expressão e neste título cristológico.
Jesus começa por se afirmar como “Filho do Homem”, depois diz-se “Enviado do Pai”, afirma-se “Pão da Vida”, e por fim “Filho do Pai”. Jesus apresenta-se como dom, como possibilidade de relação, oferece-se na sua identidade possível ao conhecimento e à realidade humana. Aqueles que o acolhem e aceitam nessa possibilidade de relação adquirem a capacidade de o poder reconhecer como “Santo de Deus”, de o poder identificar e dizer com o título supremo de todos os títulos, aquele que pertence a Deus em exclusivo.
Estamos assim face a um processo no qual todos estamos envolvidos, ou somos convidados a envolver-nos, ou seja, de na nossa liberdade acolher Jesus Cristo como o Pão da Vida, como aquele que pode saciar a nossa fome e o nosso desejo mais profundo e íntimo, confiantes que tal acolhimento nos conduz ao fim supremo e à essência mais envolvente de Deus que é a sua própria santidade.
 
Ilustração: “Jesus institui a Eucaristia”, de José Teófilo de Jesus, Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

De onde me conheces? (Jo 1,48)

Natanael é um bom israelita, como diz Jesus, “um verdadeiro israelita no qual não se encontra fingimento”. Como verdadeiro israelita espera a vinda do Messias, procura Deus nas Escrituras, na Lei que conhece desde o berço e que procura viver com fidelidade.
Poderíamos dizer que é um sábio de Israel, um daqueles homens que a Escritura tanto louva pela sua fidelidade e busca do Senhor.
Contudo, não é ele que encontra o Messias, mas é o Messias que o encontra a ele, primeiro no anúncio de Filipe e depois no encontro face a face. Deus vem ao seu encontro, em resposta da sua busca, e vem de uma forma inusitada, inesperada.
E como se a situação não fosse já só por si estranha, o Messias é o filho de José de Nazaré, ao encontrarem-se pela primeira vez, aquele Jesus manifesta-lhe um conhecimento da sua pessoa e da sua vida que ninguém podia possuir.
Em contrate com todo o conhecimento que Natanael possuía sobre o Messias, sobre a pessoa e a missão do prometido, Jesus revela-lhe um conhecimento superior da sua intimidade, da sua pessoa, um conhecimento que desarma Natanael e arrasa as suas questões sobre a natureza de Jesus.
Natanael conhecia o Messias prometido pela letra da lei e da leitura dos profetas, Jesus conhecia Natanael pela natureza da sua busca e pela sua fidelidade. Um conhecia de ouvir falar ou de ler, enquanto o outro conhecia o coração e o desejo.
E é perante o conhecimento manifestado por Jesus que Natanael se vê obrigado a reconhecer a sua ignorância, a sua falta de conhecimento verdadeiro do Messias que esperava. Ao conhecimento da inteligência Natanael é convidado a juntar a sabedoria do coração, a converter a palavra morta dos pergaminhos em palavra viva do coração.
Tal como aconteceu com Natanael também Jesus vem ao nosso encontro, vem dar resposta às nossas buscas. Devemos perguntar-nos se estamos dispostos, se aceitamos que também a nós ele nos diga que nos conhece na nossa intimidade, porque aceitar tal conhecimento implica olhar de frente as nossas fidelidades e infidelidades e proclamar como Natanael “tu és o filho de Deus”.
Ousemos portanto o encontro com Jesus, a manifestação do seu conhecimento de nós próprios, para podermos encontrar-nos com a verdade da sua divindade e da sua obra salvadora em nós.
 
Ilustração: “São Bartolomeu”, de Rembrandt, Museu Paul Getty, Los Angeles.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

De uma carta de Santa Rosa de Lima

“Oh se os mortais conhecessem
o que é a graça divina,
como é bela,
nobre e preciosa,
quantas riquezas encerra,
quantos tesouros,
quantas alegrias e delícias em si contém”.

 
Da Carta de Santa Rosa de Lima ao médico Castillo.

 



Ilustração: “Santa Rosa de Lima”, de Anton Insam-Galina, no altar de Nossa Senhora do Rosário da igreja de Santo Ulrich, em Groden.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Serão maus os teus olhos porque eu sou bom? (Mt 20,15)

As parábolas de Jesus vão sempre para além do imediato da leitura e por isso exigem uma atenção profunda. Tal como explicou aos seus discípulos elas funcionam como um meio em que vendo se não vê e ouvindo se não ouve. É necessária uma circunstância especial para a sua cabal compreensão, como é a relação de amizade com Jesus.
A parábola dos trabalhadores da vinha é neste sentido um desafio acumulado, pois encerra em si em conjunto de realidades que só a relação e a amizade com Jesus podem fazer compreensíveis, como é o caso flagrante e mais escandaloso do pagamento uniforme a todos os trabalhadores.
Para uma compreensão desta aparente injustiça não podemos deixar de ter presente que, ao contrário de outras parábolas, em que Jesus utiliza a figura do senhor e do rei, aqui Jesus fala de um pai de família. É o pai de família que sai a contratar e convidar para o trabalho na sua vinha.
Estamos assim perante a paternidade e o amor paterno, a necessidade de colaboração na vinha do pai, ainda que sejam estranhos os que são convidados. E o amor paterno, a expectativa da colaboração, não tem limites, não se impõe escalas nem medidas e portanto pagamentos diferenciados.
Um pai ou uma mãe não ama mais um filho que outro, ainda que os ame de forma diferente, pois cada um é diferente, cada um faz parte de uma hora distinta. Contudo, o amor por um ou por vários é o mesmo, o mesmo amor paterno.
A parábola revela-nos assim essa igualdade do amor de Deus por todos aqueles que convida e contrata a trabalhar, a colaborar na sua obra, e desafia-nos na forma como olhamos esse amor e essa colaboração, na forma como acolhemos a bondade de Deus para com todos os seus filhos, os que fazem parte da primeira hora e os que chegam mais tarde.
A pergunta deixada ao trabalhador que reclama do salário recebido, ainda que justo pelo contratado, é um convite à transformação do nosso olhar e do nosso coração, pois como disse Jesus um dia aos fariseus não é o que está fora que contamina o homem mas o que lhe nasce no coração.
Jesus convida-nos assim a acolher a sua bondade, o seu amor paternal, no nosso coração, e a olhar e apreciar todas as realidades através do prisma desse amor e dessa bondade. Se o fizermos certamente poremos fim a muitas invejas, a muitos sentimentos de inferioridade, a muitas inimizades e competições que nascem apenas pela ausência dessa bondade divina no nosso coração humano.
Procuremos pois acolher a bondade de Deus, uma bondade que nos precede e nos foi oferecida de antemão, para podermos apreciar de uma forma diferente todas as realidades que se nos apresentam no nosso dia adia.

Ilustração: “A Parábola dos trabalhadores da vinha”, de Jacob Wet, Museu de Belas Artes de Budapeste.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Que recompensa teremos? (Mt 19,27)

Após a retirada do jovem rico, que apesar do desejo de uma maior radicalidade de vida, não é capaz de acolher a proposta de Jesus por ter demasiados bens, proporciona-se a oportunidade de Jesus anunciar aos seus discípulos a dificuldade que a riqueza acarreta face ao desejo de entrar no Reino dos Céus, e a impossibilidade humana de salvação sem a intervenção de Deus.
Pedro toma então a palavra e, diante do quadro traçado por Jesus, pergunta pela recompensa que espera juntamente com os outros, eles que deixaram tudo o que tinham para seguir Jesus. Pedro manifesta assim a sua preocupação face às palavras de Jesus, à interpelação que tinha formulado face à riqueza do jovem que o tinha procurado, bem como as mais íntimas aspirações de poder e riqueza que todo o grupo acalentava ao seguir Jesus. No fundo todos aspiravam a um lugar no governo e a uma melhor posição na vida.
Conhecedor destas aspirações e desejos, e de como elas são profundamente humanas e marcam quase toda a actividade do homem sobre a terra, Jesus não condena nem recrimina Pedro, bem pelo contrário vai ao seu encontro numa resposta de satisfação e também de radicalidade, de ultrapassagem dessas aspirações.
Assim, às aspirações de Pedro e do grupo diz-lhes que eles se sentarão em doze tronos para julgar as tribos de Israel, no mundo renovado terão um lugar de governo e de prestígio. Contudo, tudo isso será irrelevante face àqueles que tiverem abandonado casa, pai, mãe, irmãos e propriedades por Jesus, e que serão recompensados cem vezes mais pelo deixado para trás.
Jesus coloca assim Pedro e o grupo dos discípulos face à radicalidade do seguimento, face à necessidade de abandonarem as suas expectativas e aspirações, o seu desejo de glória e poder, porque só na medida desse abandono terão direito àquilo a que aspiram pelo seguimento do Mestre.
Só aqueles que deixarem tudo, só aqueles que se abandonarem à liberalidade e ao amor de Deus, que confiarem na protecção e cuidado vigilante de Deus, receberão o que lhes faz falta e o que verdadeiramente satisfaz as aspirações mais profundas.
Tal como Pedro e os discípulos também nós somos convidados por Jesus a caminhar neste sentido da purificação e libertação das nossas aspirações e desejos mais humanos, de modo a que a riqueza, a glória ou o poder que possamos possuir ou alcançar, não nos impeça de ver o valor inestimável da recompensa mais gratificante que nos é oferecida, o próprio amor vivificante de Deus.
Esta riqueza nem traça nem ferrugem alguma corromperá, não se esgotará em momento algum, mas bem pelo contrário, pelo seu poder inerente multiplicar-se-á infinitamente. Procuremo-la pois de coração sincero e humilde.

Ilustração: “Adoração dos Magos, de Georges Lallemant, Museu do Hermitage.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Tudo isso tenho eu guardado. (Mt 19,20)

Um jovem vem ao encontro de Jesus, um jovem que parece procurar algo mais na vida, pois quer saber o que de bom pode fazer para possuir a vida eterna.
A conversa com Jesus mostra-o já no bom caminho, pois, à apresentação dos mandamentos da lei por parte de Jesus, contesta que tudo isso tem guardado, que tem sido um fiel cumpridor da lei.
Ainda assim aspira a mais, sente que há qualquer coisa que lhe falta ainda, e perante tal desejo Jesus não pode deixar de lhe apresentar o seu projecto, a novidade do seu projecto, “vai vender o que tens, dá-o aos pobres e segue-me”.
A proposta de Jesus não teve no entanto acolhimento, apesar do desejo de mais, de algo de diferente por parte do jovem. Diz-nos o evangelista que o jovem se retirou porque era muito rico, tinha muitos bens.
Podemos interrogar-nos sobre a natureza da riqueza deste jovem, se era uma riqueza verdadeiramente material, ou pelo contrário uma riqueza resultante da sua auto-suficiência, da auto-suficiência do cumprimento da lei e dos mandamentos.
A proposta de Jesus, a oferta que ele faz ao jovem e a cada um de nós, é uma proposta que vai para além da lei, do cumprimento dos mandamentos. A proposta de Jesus é uma proposta de vida e por isso em outro momento e outra conversa Jesus dirá que não veio abolir a lei mas completá-la.
De facto não interessa a Jesus o fiel cumprimento dos mandamentos, a sua perfeita execução, quando lhes falta a vida, quando lhes falta o amor. Os mandamentos vividos dessa forma serão apenas uma fachada, um proforma, um exercício que conduz à tranquilidade da consciência e da auto-suficiência. Eu fiz, eu cumpri.
A proposta de Jesus exige um abandono da segurança, o abandono de uma contabilidade que leva à suficiência e à justificação. A proposta de Jesus exige a liberdade da vida, o amor pela causa ou pela obra, uma segurança que não nos é dada por nós mas pela graça de Deus, pela certeza da sua presença e do seu apoio face à nossa pobreza e humildade.
Procuremos pois libertar-nos do espirito de contabilidade e suficiência do cumprimento dos mandamentos, e viver na nossa pobreza e fragilidade, nas nossas limitações humanas, a radicalidade da liberdade e do amor que Jesus nos oferece como caminho para a vida perfeita.
Ilustração: “Baptismo de Vajk, Estevão I da Hungria”, de Gyula Benczur, Galeria Nacional da Hungria.

domingo, 19 de agosto de 2012

Homília do XX Domingo do Tempo Comum

No final do dia de Páscoa, quando os outros discípulos contam a Tomé o encontro com Jesus ressuscitado, este não deixa de manifestar as suas dificuldades em acreditar em algo tão extraordinário. Será necessário o encontro pessoal com Jesus e o salto do desafio da fé para que o inacreditável se transforme em verdade crível.
A leitura do Evangelho de São João que escutámos, e que nos conta o encontro de Jesus com os judeus em Cafarnaum e o chamado discurso do Pão da Vida, apresenta-nos as mesmas dificuldades em acreditar numa realidade igualmente extraordinária. Também aqui e uma vez mais será necessário ultrapassar o desafio da fé.
Desafio que continua a colocar-se a cada um de nós e a toda a humanidade, razão pela qual não nos pode estranhar que tantos homens e mulheres se interroguem e coloquem em dúvida aquilo que para nós é uma verdade fundamental, uma verdade de fé.
As perguntas sobre a incarnação de Deus, sobre a possibilidade de Deus se rebaixar à nossa humanidade e mortalidade, sobre a sua morte como libertação e redenção da humanidade, são afinal as perguntas e as dificuldades com que o próprio Jesus se enfrentou na sua vida e na sua pregação.
São questões fundamentais, questões que obrigam a uma resposta que apenas o encontro pessoal com Jesus e a consciência de que a sabedoria humana esbarra nos mistérios que ele mesmo comporta, pode alcançar. É necessária a luz da sabedoria divina e o dom da fé para encontrar a resposta correcta e verdadeira.
Neste sentido, e para um encontro mais fácil, não podemos deixar de ter presente que quando Jesus oferece a sua carne em alimento, como comida, não está a oferecer a materialidade do seu corpo, a sua carne humana. Tal era completamente incompreensível para os seus ouvintes, totalmente inaceitável.
De facto, de cada vez que Jesus se refere à sua carne, em perfeita sintonia com a cultura e tradição bíblica, Jesus está a referir-se à totalidade da sua pessoa, ao seu ser enquanto homem total. Pelo que comer a sua carne, aceitar o convite de alimentar-se dele, significa aderir à sua palavra e à sua vida, significa acreditar nele.
Contudo, esta adesão e este acreditar nele não é apenas unilateral, não se desenvolve apenas naquele que adere e acredita, porque como Jesus diz aquele que o incorpora é igualmente incorporado, aquele que acredita é também acreditado. Comer o Pão do Céu que é o Filho de Deus é ser assumido pelo Filho, é transformar-se igualmente em pão para Deus.
Santo Agostinho meditando sobre este mistério e a Eucaristia não deixa de assumir que de facto na comunhão do corpo de Cristo não somos nós que assimilamos a Cristo mas é Cristo que nos assimila em si, nessa lei da lógica de que o mais pequeno não pode conter o maior, a criatura não pode apossar-se do seu criador.
E para que não ficasse qualquer dúvida sobre a natureza da carne que oferecia aos seus ouvintes, Jesus diz que é a carne que dará pela vida do mundo a que oferece como alimento. Ou seja, sem qualquer ambiguidade nem possibilidade de equívoco Jesus remete já para o sacrifício da sua vida, para a morte na cruz e para essa carne que será encontro e possibilidade de alimento.
Desta oferta, e desta radicalidade, derivaram os murmúrios contra as palavras de Jesus e a deserção de muitos daqueles que o seguiam e que consideraram as palavras de Jesus extremamente duras e de difícil aceitação.
Dificuldades que não estão relacionadas com nenhuma questão de antropofagismo, como à primeira vista podem parecer, mas com a afirmação da origem divina de Jesus, da dádiva de vida ao mundo, algo só possível a Deus, e da necessidade escandalosa da morte para que isso pudesse acontecer.
Aqueles homens judeus não são capazes de ultrapassar o conhecimento mais imediato que têm de Jesus e por isso diante daquelas palavras e da oferta do dom de Deus, apenas vêem e reconhecem o jovem carpinteiro de Nazaré de quem eles conhecem também a família e a história.
Face ao escândalo e a este conhecimento Jesus não apresenta qualquer explicação ou justificação, qualquer clarificação, deixando o desafio como algo inevitavelmente presente e necessariamente obrigatório.
Comer o Pão da Vida, receber a vida divina, implica assim a adesão e o acolhimento da humanidade de Jesus, da encarnação como caminho a ser percorrido para alcançar a vida, bem como a adesão e o acolhimento da sua morte. A nossa união com o Filho é o acolhimento da vida, e a união na morte é o acolhimento da imortalidade na nossa mortalidade.
A Eucaristia que celebramos é assim a memória desta oferta do Pão da Vida, mas igualmente a actualização do dom, para que nunca nos esqueçamos de como a vida está ao nosso alcance, mais próxima de nós que de Adão estava a árvore da vida no paraíso.

Ilustração: “São Carlos Borromeu distribuindo a comunhão às vítimas da peste”, de Tanzio da Varallo, Domodossola.


sábado, 18 de agosto de 2012

Apresentaram a Jesus umas crianças (Mt 19,13)


Encontramo-nos hoje com umas das cenas mais doces e comoventes dos Evangelhos, Jesus é convidado, certamente pelas mães das crianças, a impor as mãos sobre elas e a abençoá-las. 
É um momento terno, desprovido de qualquer drama, de qualquer perigo ou ameaça para Jesus, e contudo, é o momento em que os discípulos se apresentam como os maiores defensores de Jesus, os mais zelosos pelo seu bem-estar e tranquilidade.
Em outros momentos, em grandes discussões e até em momentos de perigo quase se anularão, desaparecerão, mas ali e face àquelas crianças procuram demonstrar o seu poder impedindo-lhes o acesso a Jesus, à acção mais simples da bênção.
Certamente por serem crianças, e representarem por isso um movimento insignificante face às suas expectativas, actuam desta maneira. Com outros actuariam de forma diferente, seriam mais benévolos ou até cooperantes, como foram no caso daqueles gregos que queriam ver Jesus e foram solicitar a intervenção de André e Filipe.
Também nós muitas vezes nos deixamos levar por estas mesmas atitudes, e consideramos que o trabalho que realizamos ou as pessoas que nos foram afectadas como colaboradoras são insignificantes, merecíamos mais e melhor. A nossa vaidade e orgulho parecem sempre desprestigiados com qualquer coisa mais simples que fazemos.
E contudo, é na simplicidade que Jesus se manifesta, é às crianças que Jesus proporciona a sua bênção e é àqueles que se assumirem como crianças que está destinado o Reino dos Céus.
Acolher o insignificante, o simples, o mais pobre, é a oportunidade de deixarmos Jesus vir ao nosso encontro com a sua bênção e a imposição das suas mãos, é a oportunidade de o acolhermos na simplicidade da sua acção em nós, no perdão e na cura das nossas fragilidades e faltas.
Ilustração: “Jesus e as crianças”, de Marie Ellenrieder.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Foi por causa da dureza do vosso coração (Mt 19,8)

Trata-se de um debate sobre o direito de repudiar uma mulher, um debate promovido pelos fariseus que, mais que encontrar a verdade, estão interessados em apanhar Jesus numa armadilha.
Jesus responde à provocação confrontando os fariseus com o fundamento da Lei, com os princípios ancestrais e anteriores à mesma Lei, os princípios da obra da criação patentes no livro do Génesis. “O homem e a mulher deixarão pai e mãe para se unirem e formarem uma só carne”.
Mas como face à justificação apresentada os fariseus contrapuseram a autoridade do instituidor da Lei, Moisés, Jesus viu-se obrigado a confrontá-los com a verdade que interiormente se recusavam a enfrentar e aceitar, e de que o debate era mais uma manifestação. “Foi a dureza de coração que levou à instituição da Lei”.
Esta resposta e constatação de Jesus contínua actual e suficientemente abrangente para ficarmos indiferentes perante ela, porque se tinha sido a dureza de coração que tinha levado Moisés a instituir uma lei de repúdio, hoje continuamos a escudar-nos no cumprimento de leis e normas para escondermos a dureza do nosso coração, para não nos arriscarmos no desafio da liberdade e da responsabilidade do amor.
Podemos e devemos perguntar-nos sobre muitas coisas que fazemos por mero cumprimento da lei, da obediência a princípios que estabelecemos para não arriscarmos num desconhecido, por medo do desconhecido que se apresenta para lá das normas e preceitos, porque o nosso coração se endureceu e não é já capaz de viver na paixão e na radicalidade do desafio.
Peçamos portanto a Deus o cumprimento da promessa feita através do profeta Ezequiel, que nos liberte do coração de pedra e nos conceda um coração de carne, um coração capaz de amar e arriscar na radicalidade da novidade do outro e do projecto de Deus.

Ilustração: “Rapariga lendo uma carta”, de Johannes Vermeer, Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Um rei quis ajustar contas com os seus servos (Mt 18,23)

Nada nos parecerá mais normal e correcto, que um rei, um senhor, um proprietário, queira ajustar contas com os seus servos. Se os bens são seus, se a propriedade é sua, é normal e justo que queira aferir dos rendimentos, que queira acertar as contas com aqueles que lhe estão subjugados ou são dependentes.
Jesus, face à pergunta de Pedro sobre o perdão, compara o reino de Deus a um rei que quis ajustar contas com os seus servos e portanto mandou vir à sua presença todos aqueles que lhe deviam. Tendo presente o contexto, a pergunta de Pedro e a resposta de Jesus, é interessante ver como Jesus insere, incorpora o perdão na realidade do Reino, como identifica o Reino com a possibilidade de perdão, o que nos deixa já só por isso um conjunto de reflexões e desafios importantes para a nossa vida.
Mas continuando com a parábola, que Jesus conta para ilustrar esta identificação do Reino com o perdão, vemos como um dos primeiros servos trazido à presença do rei tem uma grande dívida, dez mil talentos, que apenas a venda das suas propriedades e do conjunto família poderá cobrir. Face à divida contraída junto do rei, só mesmo a venda de tudo, e a consequente perda desse tudo, poderá liquidar o montante em causa.
É perante esta desgraça, este aniquilamento cujos contornos são verdadeiramente significativos, pois não são só as propriedades que estão em causa mas também a família, algo verdadeiramente importante para um judeu, que o rei mostra a sua benevolência e generosidade extraordinárias face ao pedido de clemência.
Ao pedido de um prazo e à promessa de pagamento, o rei concede não só a liberdade àquele servo mas perdoa-lhe a própria dívida. O rei faz confiança na palavra daquele que lhe deve, acredita na recepção agradecida da generosidade manifestada, mas que de facto não existe.
E a não existência do reconhecimento do dom e do perdão alcançado manifesta-se imediatamente, quando aquele que estava em dívida para com o rei se encontra com alguém que está em dívida consigo e não é capaz de ter a mesma atitude, ou pelo menos até aproximada.
Também nós funcionamos assim muito frequentemente, sendo para com os outros menos benévolos e generosos do que os outros foram para connosco, do que Deus foi para connosco quando nos ofereceu e oferece o perdão das nossas faltas.
Deus é um rei, um proprietário, que não se importa com a falência e a delapidação do seu património, desde que tal sirva para a descoberta e o encontro com alguém que é mais que um rei, mais que um proprietário ou senhor, é um Pai e um Amigo.
O perdão de Deus das nossas faltas, a misericórdia de Deus para connosco, não prejudica Deus em nada, mas bem pelo contrário possibilita e viabiliza aquilo que de facto enriquece e glorifica Deus, a amizade do homem, o homem vivo que agradece a Deus o seu amor e o seu perdão.
O perdão que vivemos fraternamente, numa semelhança pálida com o perdão de Deus, manifesta a consciência e o reconhecimento do perdão alcançado de Deus. Procuremos pois nas mais diversas situações vivê-lo de modo a manifestar o dom alcançado e a constituir os meus tipos de laços de amizade que Deus estabeleceu connosco ao perdoar-nos.

Ilustração: Jean Corbechon apresenta a tradução do “Livro das Propriedades das Coisas” a Carlos V de França. Iluminura do Livro das Propriedades das Coisas, Biblioteca de França.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Homília da Solenidade da Assunção da Virgem Maria

Ao celebrarmos a Solenidade da Assunção da Virgem Maria ao céu não podemos deixar de associar este mistério da história da salvação ao que nos é relatado pelo Primeiro Livro das Crónicas, quando nos conta a trasladação da arca da Aliança para o lugar preparado por David, e que pudemos escutar na celebração da Vigília desta Solenidade.
A leitura do Livro do Apocalipse, que escutámos como primeira leitura desta celebração do dia, faz também essa associação e assim imediatamente ao aparecimento da arca no templo se liga o sinal grandioso da mulher revestida de sol e com a lua debaixo dos pés.
Esta associação, e invocação como encontramos na Ladainha de Nossa Senhora, é de facto significativa, porque se na caminhada no deserto a arca encerrava e transportava em si as tábuas da Aliança que Deus tinha estabelecido com o povo que tinha libertado do Egipto, no seio de Maria foi também transportada a tábua da Nova Aliança, a prova irrefutável da solicitude de Deus para com a humanidade.
E se a prova documental, se assim se pode falar, da Aliança de Deus com o povo de Israel era uma realidade material, inerte, e portanto possível de ser transportada numa outra realidade também material e inerte como a arca, o testemunho da Nova Aliança de Deus como vida e potencialidade de vida somente podia ser transportada em outra realidade viva como o seio de Maria.    
Consequentemente, se a Arca da Aliança, com as tábuas da Lei, ao ser tocada provocava a morte daqueles que lhe tocavam, ainda que fosse de forma acidental como aconteceu com Uzá, a arca da Nova Aliança é potenciadora de vida, é facilitadora de vida àqueles que lhe tocam por acidente ou por devoção.
São Paulo na Carta ao Coríntios não deixa de nos colocar diante deste mistério vivificante quando diz que “se todos morreram em Adão também todos são restituídos à vida em Jesus Cristo”. A vida de Jesus, o seu potencial vivificador alcançou a Virgem Maria no momento em que aceitou o convite para ser mãe do Filho de Deus, e portanto um e outro estão interligados inseparavelmente na vida gerada, e na oferta de vida feita aos homens por parte de Deus.
Por causa desta vida que transporta em si, quando a Virgem Maria visita a sua prima Isabel o menino que será o profeta João exulta no seio de sua mãe, alegra-se pela vida que vem ao seu encontro e do qual também ele será beneficiário.
Ao celebrarmos hoje com alegria o mistério da Assunção da Virgem Maria ao Céu associamo-nos e partilhamos a alegria de João quando exultou no seio de sua mãe, mas igualmente a alegria de David quando introduziu a Arca na cidade da Jerusalém. Não é já um objecto que nos intimide, como intimidou David quando Uzá tocou a arca e foi ferido de morte, mas uma pessoa que participa e partilha da vida que nos foi oferecida e portanto nos dá confiança e esperança.
A assunção da Virgem Maria ao céu é o sinal e a garantia de que a vida recebida da fonte da Vida, a vida vivida em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, é irrevogável, é imparável, não é passível de corrupção ou degradação, e portanto todos os que dela e nela vivem estão destinados à assunção ao céu, à partilha da vida divina na eternidade.
Neste sentido, não podemos deixar de assumir que tal como a Virgem Maria estamos igualmente convocados e convidados a ser outras Arcas de Aliança, a viver de tal modo em união e intimidade com Deus que possamos ser veículos de esperança e confiança na vida para os homens que se encontrem connosco.
Que a Virgem Maria interceda por nós, para que tal como ela possamos cantar, “ o Senhor fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome”.

Ilustração: “Assunção da Virgem Maria”, de Mateo Cerezo, Museu do Prado, Madrid.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Se não vos tornardes como as crianças não entrareis no Reino do Céu. (Mt 18,3)

A uma pergunta ousada da parte dos discípulos, de alguma forma até uma pergunta interesseira, Jesus responde surpreendentemente com uma humilde criança que coloca diante dos discípulos. Se alguém quiser ser grande no Reino do Céu deve ser como uma criança.
Proposta inusitada, envolta num certo enigma, porque a criança não é ninguém, é um sem direitos e um sem estatuto. Como apresentar como modelo para entrar no Reino do Céu uma criança?
E se temos em conta a perversidade, uma certa maldade que encontramos nas crianças, e que tantas vezes nos deixa perplexos, como aceitar ser como uma criança para entrar no Reino do Céu?
Contudo, à pergunta dos discípulos é uma criança que Jesus apresenta, é um ser criança que Jesus propõe como caminho e processo.
Um ser criança que não significa ser infantil, inconsciente, irresponsável, mas um ser criança na sua autenticidade, na sua espontaneidade, na alegria de se saber amada e amar. Um ser criança que está atenta, é curiosa, vive sedenta de experimentar e conhecer.
Um ser criança à semelhança do próprio Jesus, que de coração simples e humilde reconhece a dependência e o amor do Pai, que vive em íntima união com o Pai, que deixou tudo para ser amigo e irmão dos homens, para alcançar uma família mais alargada.
Tornar-se como criança, como a criança que Jesus apresenta, é tornar-se como ele, é assumir em humildade a filiação divina, uma missão junto dos irmãos, uma existência sem sentido fora da órbita do amor do Pai.
Neste sentido, Jesus precede-nos no ser criança, mostra-nos como devemos em verdade ser crianças para entrarmos no Reino do Céu. E para tal, inevitavelmente, necessitamos converter-nos, necessitamos alterar bastantes coisas na nossa vida, abrir o nosso coração pequenino ao dom de Deus que nos transforma.
Um coração aberto, humildemente entregue ao amor e ao que ele pode fazer, é assim o desafio do ser criança. Peçamos ao Senhor a graça de o ser.


Ilustração: “Jesus e a criança”, de James Tissot, Brooklyn Museum.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

De quem recebem os reis da terra impostos ou tributos? (Mt 17,25)

Ao lermos o episódio do encontro de Jesus e dos seus discípulos com os cobradores de impostos em Cafarnaum e a ordem dada a Pedro de pagar a didracma por ele e por Jesus, não podemos deixar de nos maravilhar com a condição e o estatuto em que Jesus nos coloca.
A didracma era um imposto religioso, uma contribuição que todo o varão do povo de Israel devia liquidar para a sustentação do templo de Jerusalém. Um imposto que era devido não só aos que habitavam no país, mas igualmente àqueles que viviam no estrangeiro, um imposto que funcionava portanto como um meio de identificação e relação.
Pedro, ao ser abordado pelos cobradores sobre o pagamento do imposto por parte de Jesus, está a servir de veículo para a inclusão de Jesus no sistema estabelecido, na identificação e na relação com as estruturas de identidade. O pedido do imposto funciona assim como um mecanismo de subjugação da pessoa de Jesus à normatividade da lei.
E é face a esta manobra, e na sequência da transfiguração que tinha acabado de acontecer, que Jesus coloca a Pedro a questão da obrigatoriedade do pagamento de impostos e contributos. Depois de terem contemplado a transfiguração no monte Tabor, de Jesus lhes ter anunciado que o Filho do Homem deveria ser entregue nas mãos dos homens mas ressuscitaria ao terceiro dia, que obrigação tinha ele de pagar o imposto?
Face ao que tinham contemplado e ao que lhes tinha sido anunciado, o imposto era totalmente obsoleto, estava completamente fora de questão. Contudo, e como Jesus bem diz a Pedro, é preferível pagá-lo para que não se escandalizem.
E numa construção simbólica do que verdadeiramente estava em jogo, e do alto preço a pagar, Jesus ordena a Pedro que vá pescar e procure na boca do primeiro peixe a moeda para pagar a didracma pelos dois.
O peixe e a moeda remetem inevitavelmente para o profeta Jonas e para os três dias que tinha estado no ventre da baleia, e analogicamente para a morte de Jesus e a ressurreição que há-de acontecer e ser o verdadeiro pagamento. Jesus pagará o imposto devido por si e por Pedro, por toda a humanidade, ele é a verdadeira moeda de pagamento.
A pergunta que Jesus coloca a Pedro sobre o dever de pagamento, e a identificação da verdadeira moeda do pagamento, interpelam-nos na forma como nos relacionamos com Deus, e na imagem que construímos de Deus.
De facto, o Deus em que acreditamos e com o qual nos relacionamos é um cobrador de impostos, um opressor que reclama os seus direitos, ou pelo contrário um Deus que é Pai e pagou já no seu Filho muito amado todas as nossas dívidas e contribuições? Se acreditamos num Deus fiscal nunca chegaremos a pagar o que lhe é devido, os impostos crescem cada dia, mas se acreditamos num Deus que nos afiança podemos caminhar tranquilos quanto ao pagamento.  
Jesus Cristo é o nosso fiador diante do Pai e por isso espera apenas que administremos com responsabilidade as riquezas e tesouros que nos pertencem, que nos foram deixadas da herança para que produzam e se multipliquem. Necessitamos por isso esforçar-nos para tal.

Ilustração: “Pormenor do pagamento do tributo”, fresco de Masaccio, na Capela Brancacci, Florença.

domingo, 12 de agosto de 2012

Os Dominicanos e os Jogos Olímpicos

No dia em que terminam os Jogos Olímpicos de Londres de 2012 acabo de ficar conhecedor de mais uma história surpreendente em que os dominicanos estiveram envolvidos, a história dos próprios Jogos Olímpicos.
Já tinha escutado outras, faz parte da iniciação na mística e no “glamour” da Ordem de São Domingos, mas tenho que confessar que desconhecia completamente esta, e me dá imenso gozo, nomeadamente pelo prazer que desfrutei em alguns dos últimos dias vendo as transmissões de diversas provas olímpicas.
E como tudo começa num princípio, tudo começou em 1832, perto de Grenoble, no Seminário Menor de Rondeau. Ali, nesse também ano bissexto, foram recriados os jogos olímpicos antigos, através de provas desportivas que procuravam colocar em valor a cultura clássica grega.
Organizados pelos alunos do Seminário, os jogos possuíam já um Código Olímpico, uma cerimónia de abertura e outra de encerramento, provas individuais e entrega de medalhas aos melhores classificados. E de quatro em quatro anos voltavam a realizar-se.
Em 1855 um jovem aluno destaca-se pelo seu espirito olímpico e pelo conjunto de vitórias e medalhas alcançadas. Chamava-se Henri Didon, tinha quinze anos, e no ano seguinte de 1856 receberia o hábito na Ordem dos Pregadores.
Ordenado padre torna-se um pregador conhecido e reconhecido, amigo de Flaubert, Maupassant e Pasteur, figuras de proa da cultura francesa do século XIX. Algumas ideias do seu pensamento e da sua pregação não são aceites pela hierarquia da Igreja francesa, o que lhe provoca o exílio durante um ano na ilha de Córsega.   
Em 1890, ano da publicação do seu best-seller internacional “A Vida de Jesus”, foi nomeado Director da Escola Dominicana de Arcueil, perto de Paris e ali instaura os jogos que tinha conhecida na sua juventude no Seminário de Rondeau.
No ano seguinte, 1891, encontra-se com Pierre de Coubertin que lhe pede a colaboração na organização de um torneio desportivo entres escolas católicas e laicas.
O Padre Didon lança-se então na aventura das competições e nesse mesmo ano e para o primeiro torneio cria a divisa que ainda hoje marcam os Jogos Olímpicos, “citius, altius, fortius”, “mais rápido, mais alto, mais forte”.
É uma divisa que se aplica bem ao desporto e aos atletas, à vida intelectual e aos investigadores, mas sobretudo aplica-se perfeitamente àquele que acredita e deve buscar sempre e mais a plenitude da sua fé.
A divisa criada pelo Padre Didon foi a divisa do primeiro Congresso Olímpico celebrado em 1894. Em 1896, no Congresso Olímpico de Atenas, na celebração da Eucaristia, o seu génio oratório inspirou-o a proferir a famosa expressão, “o importante não é ganhar, mas é participar”.
Até à data da sua morte em 1900 foi um incansável viajante e um apóstolo dos seus princípios pedagógicos. Aos pais dos alunos dizia: “ se preferis um sistema de educação passiva, não esqueçais as suas insuficiências, e recordai-vos que há mais glória em formar um homem livre e de forte iniciativa que cem homens dóceis e incapazes de se conduzirem por si mesmos”. Aos jovens atletas dizia: “na vida não são as pernas que vos poderão trair mas a falta de ambição”.
Pierre de Coubertin guardará da colaboração com o Padre Didon, frade dominicano, educador vigoroso e pouco convencional, um projecto audacioso de formação humana que passa pelo desporto e a competição, mas ao qual não pode faltar nem a liberdade, nem a criatividade, e nem o encontro para lá de todas as fronteiras.
Ao visionar a cerimónia do encerramento dos Jogos Olímpicos, com tanta cor e alegria, tantos atletas e bandeiras das mais diversas representações, como não ficar emocionado sabendo que num determinado momento da história estivemos ali marcando a diferença e colaborando na construção de um mundo melhor.
Ao contemplar os cinco anéis coloridos, que desde os Jogos de Anvers de 1920 simbolizam o ideal olímpico, como não orgulhar-se por também ali estar presente o espirito de São Domingos.
Afinal os Jogos Olímpicos também são Dominicanos!  

Ilustração:
1 – Fotografia do Padre Frére Henri Didon.
2 –Fotografia da tatuagem de atleta dos Jogos Olimpicos de Londres de 2012 com a divisa “citius, altius, fortius”.

Homilia do XIX Domingo do Tempo Comum

O Evangelho deste domingo começa com a notícia de que os judeus começaram a murmurar depois de Jesus ter dito que era o Pão descido do Céu.
Não nos pode surpreender esta murmuração, porque de facto as palavras de Jesus são provocadoras, têm todas as condições e ingredientes para provocar uma polémica.
Por outro lado a atitude dos judeus, e no contexto da narração do Evangelho de São João, não é nenhuma novidade, bem pelo contrário, é como que uma extensão, um prolongamento, ou repetição de algo que já tinha acontecido no passado.
Para compreendermos a murmuração dos judeus não podemos deixar de ter presente o contexto do milagre da multiplicação dos pães, a explicação dada por Jesus e a relação fundamental que ele mesmo estabelece com o acontecimento do maná no deserto.
A murmuração dos judeus face a Jesus é afinal uma repetição da murmuração dos israelitas que tinham saído da terra do Egipto e que rapidamente começaram a murmurar contra Moisés pela falta das panelas de carne e das cebolas do Egipto. E nesse acontecimento a murmuração atinge o próprio Deus por quem Moisés tinha actuado.
A murmuração é uma falta de reconhecimento, uma rejeição da solicitude de Deus para com o povo, e ao murmurar diante das palavras de Jesus, da oferta do pão da vida, a rejeição repete-se, bem como a falta de reconhecimento pelo dom apresentado.
Neste sentido, ao aplicar esta expressão, ao descrever a forma como os judeus reagiram às palavras de Jesus, São João está a colocar em evidência o grande mal-entendido entre Jesus e os seus ouvintes, a polémica que as suas palavras tinham criado e como a multidão não é capaz de ultrapassar esse mal-entendido ainda que confrontada com a palavra dos profetas.
Esta murmuração e mal-entendido noticiado adquirem uma dimensão ainda mais grave na medida em que todos conheciam as palavras dos profetas, a promessa feita por Deus ao povo, pois em cada sinagoga e em cada sábado os elementos do movimento fariseu aplicavam-se a ler e a proclamar essa mesma palavra dos profetas a todo o povo.
Apesar disso, a multidão e os ouvintes de Jesus esbarram no conhecimento imediato que têm diante de si, nesse conhecimento dos membros da sua família e do lugar da sua origem, deixam-se condicionar, face ao desafio da palavra revelada, pela humanidade histórica de Jesus, pelo homem que conhecem de Nazaré e portanto não pode ter descido do céu.
E a palavra de Jesus é apenas a afirmação do dom de Deus, do dom do Pai que oferece aos seus filhos uma nova oportunidade. Jesus não se apresenta como alimento, como Pão da Vida, por vontade ou iniciativa própria, mas como materialização da vontade do Pai.
É Deus que envia aos homens um alimento, que oferece uma nova oportunidade de vida, e o Filho Jesus na sua humildade obedece ao Pai, aceita ser esse alimento, aceita assumir uma carne que possa dar vida.
Esta é afinal a chave do mistério do Pão que desce do Céu, da vida de Jesus, pois não há possibilidade de dom, e de dom de vida, se não a partir do Céu, a partir do Pai. Como diz em outro momento da sua pregação, Jesus nada faz por si mesmo mas tudo por vontade do Pai, em íntima unidade e comunhão de vida com o Pai.
Este dom necessita no entanto ser acolhido, recebido na sua dimensão de incompreensibilidade face às nossas construções racionais e lógicas, como um mistério cujo acolhimento exige um outro dom. Se Deus se oferece como alimento de vida nós devemos oferecer-nos como esfomeados de vida, à oferta de Deus deve corresponder a nossa fé.
Na história da Salvação, Abraão e a Virgem Maria são para nós exemplos paradigmáticos e desafios deste acolhimento do dom de Deus, do poder da fé diante do dom de Deus, e da potencialidade geradora e transformadora desse mesmo acolhimento do dom. Pelo acolhimento humilde da oferta de Deus, um e outro puderam ser fonte de vida, alimento para outras vidas, Pai na Fé e Mãe do Filho de Deus.
Como discípulos de Jesus Cristo, ouvintes da sua Palavra que procuram entre os escolhos do caminho alimentar-se do Pão da Vida, não podemos deixar de disponibilizar a nossa abertura e acolhimento ao dom, para que o Espírito nos conduza à plenitude, e reconhecer agradecidos o dom já recebido para não sermos acusados de murmuração.
Que o Espírito Santo nos instrua e nos atraia cada vez mais ao dom de Deus.

Ilustração: “A Última Ceia”, fresco na Catedral da Transfiguração, Mosteiro de Valaam, Russia.

sábado, 11 de agosto de 2012

Senhor tem compaixão do meu filho (Mt 17,15)

Como é bela e rica a fé dos homens simples, daqueles que são capazes de se ajoelhar diante de Jesus e pedir compaixão, por si ou pelos outros. Neste caso é um pai que pede a Jesus pelo seu filho epiléptico.
Um filho que frequenta acidentalmente os elementos da morte como a água e o fogo, nos quais corre o perigo de se perder para sempre. Simbolicamente este filho é já quase um morto, um perdido sem salvação, de que a etiqueta de possesso é apenas uma reverberação.
E o pai, na sua humildade e pobreza, na sua necessidade recorre a Jesus, depois de ter pedido a ajuda dos discípulos e estes não terem feito nada. A fé do pai, a fé do que pede compaixão, não tinha equivalência à fé daqueles a quem recorria, aos discípulos que ainda tinham muito que aprender e crescer.
Jesus é implacável com eles, com a sua incredulidade e perversidade, com a falta de fé que lhes impede e inviabiliza a realização das coisas impossíveis. Eles que aspiravam a tantas coisas não tinham fé, nem do tamanho de um grão de mostarda.
Como poderiam chegar ao que desejavam, mesmo que turvados pela avareza do poder, se não tinham fé, se não acreditavam que o pouco e miserável que desejam era possível e estava ao alcance.
E como num reverso de medalha Jesus responde ao pedido daquele pai, tem compaixão dele e do seu filho, pois na sua simplicidade e na sua desgraça acreditara que Jesus lhe podia fazer alguma coisa, mesmo que pequena. Jesus podia ter compaixão do filho quase morto.
Também nós necessitamos ajoelhar-nos diante de Jesus, com simplicidade e humildade, confiantes, e na nossa ainda pouca fé pedir-lhe: “tem compaixão Senhor”, cura-nos das nossas fraquezas e fragilidades, liberta-nos das regiões da morte onde perece a vida que nos destes. Tem compaixão Senhor!

Ilustração: “Cristo chorando por Jerusalém”, de Ary Scheffer, Walters Art Museum.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Quem ama a sua vida perdê-la-á. (Jo 12,25)

Paradoxo desafiante aquele que Jesus nos coloca e colocou aos seus discípulos depois de ter entrado de forma gloriosa em Jerusalém, “quem ama a sua vida perdê-la-á e quem despreza a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna”.

Não é Senhor a vida o nosso maior dom? Não é pela vida que lutamos? Não é a vida o nosso dom mais precioso? E contudo, Senhor, convidas-nos a perdê-la, a desprezá-la… Como é possível Senhor que nos peças tal coisa?

Perder a vida para a ganhar, perdê-la a partir da forma que mais nos apetece, que nos aprisiona a uma única dimensão física e histórica, para ganhá-la em ti e por ti.

Perder a vida, porque recusar esta morte de nós próprios é viver de alguma forma uma vida mutilada, é viver uma vida pobre, limitada a um único modo.   

Perder a vida como tu a perdestes, entregando-a nas mãos do Pai, do verdadeiro Senhor da Vida, perder a vida em oferta de amor, renunciando a uma posse para a transformar em dom.

Perder a vida limitada, frágil, condicionada a tantas realidades, para a viver de forma plena em ti, no dom que fizestes da tua própria vida eterna a cada um de nós.

Perder a vida como o grão de trigo, que se desintegra na escuridão da terra, se desfaz em si mesmo no féretro do pó, para germinar e crescer, libertar a força que o habita e dar origem a uma nova planta e a novos frutos, outros grãos para a vida.

Não é fácil Senhor, porque esta vida que conhecemos nas suas limitações e fragilidades é ainda assim apetecível, dá-nos ainda a ilusão de um futuro e alguma construção, um fruto ilusório que depende das nossas mãos.

Vem Senhor em nosso auxílio, libertar-nos desta ilusão e destes apetites, conduzir-nos à vida plena que nos ofereces, seduzir-nos no nosso desejo de viver.


Ilustração: “Ecce Homo”, de Caravaggio, Palazzo Rosso, Génova.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

As nossas candeias estão a apagar-se (Mt 25,8)

A parábola das dez virgens regressa ciclicamente ao nosso encontro e de cada vez coloca-nos face a esse desaire das cinco virgens que ficam fora da sala do banquete, que não são reconhecidas pelo Esposo quando batem à porta.

E contudo não estão ali atrasadas por preguiça; talvez um pouco por desleixo, um descuido, mas igualmente por um esforço de superar esse desleixo, que infelizmente não produziu os melhores resultados.
Face a este desaire não podemos encontrar melhor explicação que as palavras dirigidas ao Anjo da Igreja de Éfeso no livro do Apocalipse: “tenho uma coisa contra ti, abandonastes o teu primitivo amor” (Ap 2,4).
Por causa deste abandono é que o Esposo as não conhece ou reconhece, por causa deste abandono é que na noite as candeias se começaram a apagar por falta de azeite. E como se isto não bastasse, foram ainda pela noite à procura de alguém que lhes fornecesse o azeite em falta, o amor perdido.
A recusa à partilha do azeite, por parte das outras cinco virgens, não é assim uma falta de caridade, uma demonstração de egoísmo, mas apenas a explicitação de que o amor primeiro é único, pessoal, intransmissível. Ainda que chamado a iluminar na noite, a iluminar o caminho do outro, não pode ser partilhado senão nessa mesma luz, o brilho que produz.
E neste sentido, podemos perguntar-nos se aquelas cinco virgens insensatas não teriam entrado no banquete se não se tivessem afastado, se não teriam lucrado em permanecer, ainda que sem azeite mas iluminadas pela luz do azeite das outras cinco virgens.
Um pergunta que não tem resposta possível face à mensagem da parábola, que apenas nos quer colocar em sentido face ao amor primeiro e à necessidade de permanecer nele e o cuidar.
Tarefa verdadeiramente urgente e necessária, face às palavras da mensagem ao Anjo da Igreja de Éfeso: “conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância; sei também que não podes tolerar os malvados e que pusestes à prova os que se dizem apóstolos, mas não o são, e os achastes mentirosos; tens constância, sofrestes por causa de mim e não perdeste a coragem; mas no entanto abandonastes o teu amor primitivo”.
Tudo se pode suportar, todas as obras se podem fazer, mas sem o amor primeiro, o amor que dá razão e sentido a tudo, nada vale, tudo é como candeias sem azeite que ilumine a noite e a espera.

Ilustração: “Parábola das dez virgens”, de William Blake, Tate Galery, Londres.