quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Quem traz uma lâmpada para a colocar debaixo da cama? (Mc 4,21)

A forma como Jesus ensina as multidões através das parábolas, fazendo referência a realidades do quotidiano e do conhecimento de todos, é verdadeiramente surpreendente, assim como é surpreendente a forma implicativa e interactiva, pois Jesus não deixa os seus ouvintes na passividade, exige-lhes uma resposta, um compromisso.
Podemos ver esta interacção no momento em que Jesus interroga os seus ouvintes sobre o lugar da luz, sobre a naturalidade do lugar em que se coloca a luz, confrontando-os com um exemplo que é um completo disparate, pois ninguém acende uma luz para a esconder debaixo do alqueire ou da cama.
Habituados como estamos à iluminação eléctrica, a termos nos nossos espaços habitacionais diversos pontos de luz, como candeeiros no tecto, nas secretárias, na mesinha ao lado do sofá, muitas vezes nem nos apercebemos da importância do lugar em que a fonte de iluminação é colocada. Contudo, todos temos muito claro que não acendemos nenhum candeeiro para o colocar debaixo da cama ou o deixar aceso no roupeiro.
Tomando como ponto de partida esta evidência, Jesus confronta os seus discípulos e ouvintes com a necessidade de serem e sermos luz que brilha, uma luz que dá forma e cor aos corpos que nos rodeiam, tal como o faz qualquer fonte de luz, e portanto de nos reconhecermos como colocados num ponto elevado, evidente, de forma a iluminar verdadeiramente.
Não sendo nós a fonte da luz, pois a luz verdadeira é Cristo, somos chamados a reflecti-la de tal maneira que tudo à nossa volta seja inundado da luz, ganhe as formas e as cores que lhes são naturais e que a luz revela na sua perfeição ou imperfeição. Somos chamados a ser porta-luz, lâmpadas que se deixam incendiar para que outras sejam igualmente incendiadas.
Esta iluminação, este irradiar, passa hoje, e como passou sempre ao longo dos tempos, por uma presença cheia de alegria, por opções e palavras cheios de esperança, por gestos que ainda que insignificativos estão fundados na caridade e na amizade.
É esta vida iluminada por Jesus que somos convidados a viver e através dela a iluminar as sombras que nos rodeiam, ou que ainda preenchem o nosso interior, como tantas vezes acontece. Que a luz de Cristo brilhe sobre nós e nos conceda a paz para podermos e sabermos iluminar sem nenhuma quebra de corrente.
 
Ilustração: “Vorozhinnia”, de Mykola Pymonenko, Pintura Ucraniana.

Tudo está ao serviço da santificação

 
Não há nada que não tenhamos recebido e que não deva servir. O Evangelho diz a cada cristão que tome a sua cruz, a sua cruz própria, ou seja, a sua profissão, a sua vocação, o seu papel, aquilo que não escolheu, mas que lhe foi colocado sobre os ombros e que por isso mesmo é um bem melhor meio de mortificação que aquele que teria escolhido para si mesmo.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Monumento a Albert Thomas junto à OIT em Genebra.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Veio uma enorme multidão até junto de Jesus (Mc 4,1)

A novidade atrai sempre a atenção das pessoas e sabemos por experiência própria como nos deixamos encantar por alguma coisa que desconhecíamos, de que não fazíamos ideia.
Jesus foi também uma novidade para os homens e mulheres do seu tempo, para aqueles que no marasmo do quotidiano se encontraram com alguém que era diferente, que não só falava com autoridade mas agia também com autoridade e poder.
Por esta razão o encontramos muitas vezes e em diversas circunstâncias apertado pela multidão que o procura, que lhe quer tocar, que quer ser curada, uma multidão frequentemente atraída por uma exterioridade que não conduz ao verdadeiro encontro mas ao desencontro.
Num desses momentos de aperto Jesus é mesmo obrigado a subir para uma barca e desde aí a falar à multidão. Face a tão numerosa assembleia nada era mais necessário que falar de sementeira, que falar de um semeador que sai a semear e encontra vários tipos de terrenos que produzem diversos tipos de resultados.
Também nós nos aproximamos de Jesus, e muitas vezes como aquela multidão deixamo-nos subjugar às manifestações exteriores, ficamos pela superficialidade do encontro, não arriscando um encontro em que nos temos que confrontar com o terreno que somos, a semente que Deus lança e nós e os frutos que estamos a produzir.
É sempre mais fácil seguir a multidão, deixar-se levar pela massa que não nos compromete profundamente e muitas vezes nos desresponsabiliza, embora Jesus nos convide sempre à intimidade e a uma encontro pessoal, a uma conversa que passa por perguntar “onde moras” e uma resposta que se resume a “vem ver”.
Hoje parece que a novidade de Jesus se diluiu, que já não tem nada de novo para nos dizer, ou já nem lhe encontramos autoridade que nos surpreenda e portanto nos faça procurá-lo. Face a tal realidade necessitamos sair da massa, abandonar os esquemas da multidão, o exterior, e avançar para um encontro pessoal, um encontro que na noite da vida nos pode conduzir à luz e a um novo nascimento, como aconteceu com Nicodemos.
Mostra-nos Senhor onde moras, o aposento do teu repouso, para aí te buscarmos e nos encontrarmos no sossego da intimidade contigo.
 
Ilustração: “Ave Maria bei der Uberfahrt”, de Giovanni Segantini, Suíça.

A santificação é um negócio

 
A santificação é um processo de colaboração entre Deus e o homem, no qual cada um deve dar de uma forma leal tudo o que pode e servir-se de tudo o que tem, uma vez que não há nada que não se “deva” e de que um dia não se terá que dar contas.
Paul Claudel a Louis Massignon
 
Ilustração: Vista nocturna da Catedral de São Pedro de Genebra.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quem é minha mãe? (Mc 3,33)

O início da vida pública de Jesus, à luz daquilo que sabemos pelos Evangelhos, e que é pouco, não deve ter sido fácil para a família e sobretudo para a sua mãe.
Criado num ambiente familiar, com relações profundas com a comunidade onde cresceu e se fez homem, Jesus aparece subitamente envolvido em questões religiosas, em disputas que o colocam em perigo, que o confrontam com o estabelecido e aceite por todos como o normal.
É nestas circunstâncias que a família parte de Nazaré no sentido de o trazer de volta a casa, de o proteger das ameaças e perigos que se vislumbram já ao longe. Partem e encontram-no em Cafarnaum rodeado de uma multidão que lhes veda o acesso, que lhes impossibilita a missão a que vinham destinados.
Face ao anúncio de que a sua família o procura, que sua mãe o espera para além da multidão que o rodeio, Jesus pergunta àqueles que lhe anunciam a chegada e que o rodeiam, quem é a sua mãe?
Pergunta dolorosa para sua mãe e certamente para os seus irmãos que a acompanhavam, mas pergunta profunda necessária face à multidão que o ouve e à atitude totalmente oposta da família que o procura e o quer silenciar.
O grande místico dominicano Mestre Eckhart num sermão sobre esta passagem do Evangelho comenta que “todo nós somos feitos para ser mãe de Deus, pois Deus necessita todos os dias nascer para o mundo”.
Este é afinal o desafio que Jesus deixa a sua mãe, aos seus irmãos, àqueles que o escutam e a cada um de nós, necessitamos cada dia dar à luz Deus para o mundo, dar um corpo presente a Deus neste tempo e neste lugar, aqui e agora.
Maria que tinha acolhido a palavra, que a tinha deixado colher corpo no seu seio, é agora convidada a acolher uma palavra que não nasce apenas num tempo determinado, que não é fruto de uma gestação de nove meses, mas continua a nascer em cada dia e por isso necessita ser acolhida, ser gerada em cada dia para adquirir um novo corpo.
Face às diversas realidades do mundo e da história em que nos encontramos necessitamos encarnar a Palavra de Deus, necessitamos ser mães do Filho de Deus que se faz presente nesta nossa história, que se faz um de nós. Deus continua a necessitar de nós para se encarnar e poder partilhar da vida e da dor homens.
Procuremos pois abrir o nosso coração à Palavra, sentir como o mundo necessita de Jesus encarnado, hoje, e como a nossa resposta amorosa e confiante pode fazer acontecer esse mesmo nascimento.
 
Ilustração: “Jesus despedindo-se de sua mãe”, de Lucas Cranach o Velho, Kunsthistorisches Museum.

As riquezas são para se utilizarem

 
Não faço mais que um voto, que a Providência encontre enfim o meio de utilizar as grandes riquezas que dormem em si para o bem dos seus irmãos.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Orquídeas em florista de Genebra.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

São Tomás de Aquino sal e luz para o mundo

Fazemos hoje memória e celebramos com alegria São Tomás de Aquino, Santo da Ordem dos Pregadores e Doutor da Igreja; e ao fazê-lo recordamos as palavras do Evangelho nas quais Jesus diz aos seus discípulos que são sal da terra e luz do mundo.
São Tomás de Aquino viveu de forma plena estas duas dimensões do ser discípulo de Jesus e por isso aparece-nos como alguém que dá sabor e conserva, como o sal, e alguém que ilumina e orienta, como a luz colocada no candelabro.
Como luz colocada no candelabro para iluminar não podemos deixar de referir o seu trabalho imenso de reflexão da fé, das questões da fé, o seu estudo metódico e o seu recolher das diversas tradições e definições filosóficas e teológicas para encontrar uma formulação que fosse verdade, que fosse espelho da verdade eterna.
Não podemos esquecer também a sua luta diária com o texto da Sagrada Escritura que comentou com todos os instrumentos que lhe estavam ao alcance, como os textos originais gregos e hebraicos e os comentários dos Padres da Igreja.
Neste sentido, São Tomás de Aquino procurou facultar aos seus discípulos e irmãos e à Igreja em geral um conjunto de instrumentos que conduzissem o homem ao encontro da verdade, que o orientassem nos diversos caminhos possíveis para esse encontro.
Como luz de referência ficou-nos também o seu exemplo de trabalho e estudo ordenado, um estudo que é ascese, que é purificação e conversão do coração e da inteligência. São Tomás não se dedicou ao estudo por vaidade, por desejo de títulos, por uma carreira académica, ainda que lhe tenha sido possibilitada, mas pelo grande desejo que orientou São Domingos no momento da fundação da Ordem dos Pregadores, a salvação das almas. Tudo está orientado a esse fim.
A luz que imana de São Tomás, e conta-nos a tradição que uma noite já não tendo azeite para se alumiar ergueu os dedos e eles se acenderam em chama para que pudesse continuar a escrever, é assim reflexo da verdadeira luz que ele contempla e estuda, luz que busca a salvação do homem, luz que lhe confirmará um dia que escreveu bem apesar do abismo entre o escrito e a realidade plenamente contemplada.
Mas São Tomás de Aquino é também sal que conserva e dá sabor, e tal acontece quando na sua reflexão, nas propostas que apresenta aos irmãos não abdica da condição do homem, não deixa de o colocar no centro da relação com Deus e não deixa de salvaguardar a liberdade.
São Tomás de Aquino conserva o homem na sua integridade e na sua bondade original e portanto dá um sabor diferente à vida do homem e à sua possibilidade de relação com Deus. O homem de São Tomás de Aquino, a criatura humana, não é um condenado, um exilado, mas um potencial chamado à realização e à plenitude.
Por esta razão, as propostas, os conselhos que São Tomás deixa são sempre marcados pela esperança, por uma alegria e por um amor tremendo, por uma misericórdia de Deus que vem ao encontro das fraquezas e fragilidades do homem.
Num momento histórico de encruzilhada, em que se nos apresentam tantas e tão dispares ideias e concepções, necessitamos regressar a São Tomás, recuperar a sua bondade face ao homem e a sua esperança face ao futuro que podemos construir na medida em que nos sentimos todos cooperadores da felicidade uns dos outros.
Que São Tomás de Aquino interceda por nós e nos ajude também a iluminar o nosso caminhar conjunto em direcção ao amor do Pai.
 
Ilustração: São Tomás de Aquino, de Juan de Peñalosa, Museu de Belas Artes de Córdova.

 

Defesa do estudo dos religiosos

 
A vida dos religiosos está ordenada principalmente à contemplação. Ora bem, a leitura é parte da contemplação como diz Hugo de São Victor. Por conseguinte, os religiosos devem dedicar-se ao estudo.
São Tomás de Aquino, Contra Impugnantes dei Cultum et Religionem
Ilustração: São Tomás de Aquino Protector da Universidade de Cuzco, Museu de Arte de Lima, Peru.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Homilia III Domingo do Tempo Comum

As leituras do Livro de Neemias e do Evangelho de São Lucas que acabámos de escutar oferecem-nos relatos que se prendem antes de mais com a materialidade do livro e da sua leitura.
No Livro de Neemias escutávamos como foi encontrado um livro, da lei do povo de Israel, que se desconhecia ou considerava perdido, e como a sua leitura foi um momento de profunda manifestação e adoração, por parte do povo, da palavra que nele se encontrava e escutava.
O Evangelho de São Lucas narra-nos a leitura que Jesus fez do livro do profeta Isaías aquando da primeira visita à sua terra de Nazaré e como Jesus assumiu para si a leitura que realizava.
Contudo, antes deste relato, a leitura que escutámos apresenta-nos o trabalho e os esforços do autor do texto evangélico para recolher as mais fidedignas informações relativamente à vida de Jesus, de modo a fortalecer a vida e a fé daquele para quem escreve, Teófilo.
Estamos assim, nestas três circunstâncias perante o processo da materialidade de uma história, de uma história que se redige e compõe, mas que ultrapassa a mera materialidade e composição.
Não é um simples texto, uma simples composição histórica ou legislativa, uma narração de acontecimentos, uma biografia, mas é um texto que transmite vida, que é vida e coloca os seus leitores face a um desafio de vida. O texto adquire assim uma dimensão transcendental e transversal entre o narrado, o acontecimento da história, e o leitor, aquele que se confronta a sua vida com o texto.
Neste sentido, aquilo que Jesus faz na sinagoga de Nazaré não é nada de extraordinário, mas é uma vez mais a realização da dinâmica da palavra divina plasmada num texto humano, da palavra que nos transcende mas também nos engloba e assimila, que se faz vida na leitura e na resposta à leitura.
Ao ler o texto de Isaías, Jesus reconhece-se nas palavras do profeta, reconhece que lhe são dirigidas e por isso não pode deixar de afirmar que naquele dia se cumpriam as mesmas palavras do profeta. Ele que tinha já experimentado a eleição do Pai aquando do baptismo no rio Jordão, que tinha já experimentado a força e o poder da sua acção salvadora junto dos homens, quando curava e expulsava os demónios, reconhece a promessa como actualidade, como actuando em si e por si.
É também este princípio, esta dinâmica que leva o Evangelista Lucas a procurar para Teófilo todas as informações acerca de Jesus, as informações mais fidedignas junto das testemunhas mais credenciadas. E este objectivo não é por razões científicas ou históricas, por uma curiosidade coscuvilheira, mas para que Teófilo possa viver a sua fé em Jesus Cristo de uma forma mais autêntica, mais fundamentada, vida vivida.
Afinal, o objectivo do Evangelho não é contar uma história, fazer uma recolha historiográfica, mas apontar acontecimentos e ensinamentos que conduzam à vida de Jesus, uma vida que nos alcança, que tem actualidade em nós e portanto deve transformar a nossa vida.
De alguma forma, somos convidados pelo Evangelho a proferir as mesmas palavras de Jesus, “hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura em mim”, hoje estas palavras são vida para mim, transformam a minha vida, fazem-me tomar consciência da sua transcendência e eternidade.
E porque face a esta relação com a palavra podemos cair na sua idolatria, na leitura fundamentalista literalista, somos convidados, à luz da mesma palavra que escutámos na leitura do Livro de Neemias, a manter uma relação de equilíbrio entre a veneração do texto e a vida que não deixa de ser perfeitamente normal e quotidiana.
Assim, quando a leitura do livro da lei terminou e todos o puderam venerar e adorar, o povo foi convidado a regressar a suas casas e a comer e beber e a partilhar com aqueles que não tinham nada para comer ou beber. A leitura e a veneração da palavra do texto necessitavam transformar-se em vida, enquadrar o quotidiano em novas dimensões, tal como ainda hoje se torna necessário que aconteça.
E por isso nos reunimos para celebrar a Eucaristia e nela escutamos as várias leituras que a liturgia da Palavra nos oferece, porque necessitamos venerar a Palavra de Deus, que é vida, mas também porque necessitamos que ela se traduza nas nossas vidas, se faça vida em cada um de nós.
São Paulo na Carta aos Coríntios apresenta-nos como membros de um mesmo corpo, do corpo ressuscitado de Jesus Cristo que é a Igreja, e apresenta a relação de interdependência que existe entre todos. Face a esta relação podemos dizer que a palavra que escutamos e veneramos, que o texto da Sagrada Escritura, é o alimento que individual e comunitariamente nos conduz à realização da missão e nos mantém unidos num mesmo corpo transcendental.
Procuremos pois aproximar-nos da Palavra de Deus com a veneração e o respeito que lhe são devidos e acolhendo-a no nosso coração e na nossa inteligência transformá-la em vida na vida do nosso quotidiano.
 
Ilustração: “Os Quatro Evangelistas”, de Jacob Jordaens, Museu do Louvre, Paris.

É necessário escolher

 
É necessário escolher, e julgar! Nós não discutimos indefinidamente, numa eternidade abstracta, a nossa vida está em declive, a história está orientada, é necessário colocar-se com Deus ou contra Deus. Reze caro amigo para que tenha a força de ir até ao fim.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel
Ilustração: Candeeiro do jardim do Quai du Mont Blanc em Genebra.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ide, eu vos envio. (Lc 10,...)


Trabalhar e servir por Jesus

 
Todos os perigos da hora presente mais não fazem que aumentar a minha alegria em Lhe servir, e a insegurança total não faz mais que animar-me a trabalhar ainda mais, uma vez que é por Ele, e Ele não pode abandonar-nos. Foi na hora da sua maior impotência que Nosso Senhor salvou o mundo.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel
Ilustração: Crucifixo da Basílica de Notre-Dame de Genebra.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Esse homem é o instrumento escolhido por mim (Act 9,…)

Após a ressurreição Jesus envia os seus discípulos a anunciar a Boa Nova a todos os povos e por toda a terra.
Mandamento um tanto ou quanto megalómano, despropositado, na medida que sabemos que Jesus não se afastou muito dos seus lugares conhecidos, que levou uma vida à volta do lago de Tiberíades, de Jerusalém, e pouco mais.
Perguntamo-nos assim como foi possível aquele mandamento, aquela tarefa tão extraordinária, um peso extremamente implacável para um conjunto de seguidores que pouco mais conheciam que aquela região em que tinham vivido com Jesus.
A resposta para esta questão e para a compreensão do que encerra de extraordinário não pode deixar de ser encontrada no momento da vocação de cada um dos apóstolos e no momento da outorga do mandamento.
Assim, temos que ter presente que Jesus chama cada um dos apóstolos pessoalmente, individualmente, o que acarreta uma selecção, uma escolha fundamentada na missão a realizar por aquele que é escolhido e chamado.
Por outro lado, temos a convocação para a missão após a ressurreição, ou seja num momento histórico, ou da economia da salvação, em que é já a luz e a força do espirito que conduz as acções. Os apóstolos são enviados por Jesus mas é o Espirito Santo que os faz tomar consciência desse envio e da sua necessidade urgente. O que tinham vivido, experienciado, não podia ficar silenciado, por dar a conhecer aos outros homens.
Este mesmo processo se encontra em São Paulo, cuja conversão hoje celebramos. Quando Ananias é convocado por Deus a ir ter com Paulo, aquele desculpa-se com a violência e a perseguição de Paulo e portanto o desastre que se perspectiva face a tal encontro.
Diante desta justificação de Ananias, Deus revela-lhe que Paulo era já um instrumento escolhido por Deus, que no processo e na violência da perseguição Paulo já se tinha encontrado com Jesus, já se tinha confrontado com o próprio Espirito Santo e portanto estava apto a receber a visita e o acolhimento para a missão.
Face a esta história de Paulo e dos outros apóstolos não podemos deixar de nos interpelar pelas mesmas, pois também nós, cada um de nós, é um instrumento escolhido por Deus, e um instrumento para a realização de uma missão.
Como nos sentimos nessa situação? Como vamos percebendo que cada uma das nossas quedas, das nossas lutas para a exterminação do movimento cristão interno e pessoal, é afinal uma oportunidade que Deus nos oferece para nos encontrarmos com o seu amor, com a escolha que fez com cada um de nós?
Também cada um de nós é um instrumento escolhido de Deus, e necessitamos por isso entregar-nos à missão que tal escolha representa, à missão que nos desafia diante de um mundo que nos ultrapassa mas que na nossa humildade reconhecemos como ao alcance da nossa mão apoiada na mão de Deus.
Ilustração: “A conversão de São Paulo”, de Caravaggio, Capela Cerasi em Santa Maria del Popolo, Roma.

A nossa dupla história

 
Relembremos frequentemente a dupla história de graças que Deus nos fez, e das nossas infidelidades. É necessário lembrar as duas: só as graças conduzem ao orgulho, só as infidelidades ao desespero; mas a dupla história completa-se perfeitamente para a alma que se humilha.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel
Ilustração: Gerberas brancas em florista de Genebra.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Veio uma multidão por ouvir contar o que Jesus fazia (Mc 3,8)

O Evangelho de São Marcos diz-nos que veio ao encontro de Jesus uma grande multidão das várias regiões vizinhas de Cafarnaum, uma multidão atraída pelo que tinha ouvido contar dele.
Ainda hoje, e passados dois mil anos, nos deparamos com estes tipos de movimentações, de grupos e massas humanas que se movimentam por causa de alguma coisa que ouviram contar, que lhes foi dito por outros. O homem continua a ter uma atracção tremenda pelo extraordinário, pelo sensacional, pela novidade que surpreende.
O episódio que São Marcos nos narra no Evangelho está marcado por esta atracção do homem, por uma avidez de sensacionalismo que Jesus não promove nem sustenta, mas pelo contrário combate e recusa a sustentar.
E não pode deixar de o fazer, porque esta busca da multidão está equivocada, está mal direccionada no seu fim, porque o mais importante não é o que Ele faz mas o que Ele é, algo que a multidão deve descobrir e com o qual se deve confrontar.
De facto, os vários milagres de Jesus, as várias curas são apenas portas de acesso, sinais para um encontro com a plenitude que nele se encontra, com a vida e a saúde que Ele próprio é. A multidão que o aperta é assim uma multidão que necessita passar do imediato do visível para o encontro com o eterno e o invisível.
Neste sentido, e nesta necessidade que nos atinge igualmente, estamos contudo um pouco mais à frente, um pouco mais avançados, pois conhecemos o mistério da ressurreição, que aquela multidão desconhecia.
É a ressurreição de Jesus que revela em plenitude a sua dimensão divina, que ilumina todos os milagres e curas como sinais projectantes para o grande milagre que é a redenção da humanidade. Todos os milagres e curas ganham assim sentido revelador à luz da morte e ressurreição de Jesus, que opera a verdadeira cura.
Tal como a multidão do Evangelho também muitos de nós ainda procuramos Jesus pelo que ouvimos contar, pelo que nos foi dito por outros. Necessitamos encontrar-nos com Jesus por Ele próprio, pela sua pessoa, com Ele próprio, e para isso não podemos fugir nem esconder a dor da morte e a alegria da ressurreição. Numa e noutra face do mistério revela-se afinal a maravilha da acção terapêutica de Deus, a cura e o milagre que Jesus opera.
Procuremos pois Jesus por ele próprio, e por nós próprios enquanto campo da acção Ele que pode realizar connosco e em nós.  
 
Ilustração: “Jesus pregando no mar da Galileia”, de Jan Brueghel, o Velho, Rijksmuseum, Amesterdão.  

Ser instrumento de Deus

 
 
Quando se aceita ser, ser meramente instrumento, é o milagre que se concretiza. Deus preenche até ao topo aquele que se sente vazio.
Carta do Padre J. Cussat Blanc a Paul Claudel
Ilustração: São Francisco de Sales em vitral da Basílica de Notre-Dame de Genebra.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Um homem com uma das mãos atrofiada (Mc 3,1)

Jesus entrou na sinagoga e encontrou um homem com uma das mãos atrofiadas. Os fariseus expectantes esperavam, com o intuito de obterem uma acusação, pois era sábado e suspeitavam que Jesus não passaria ao lado daquela desgraça.
Este episódio da vida de Jesus, este milagre, não pode ser entendido, nem nos pode ajudar a viver a nossa fé, se não o relacionarmos com o acidente ocorrido no paraíso, quando Adão estendeu a mão e apanhou o fruto da árvore proibida.
Desde esse momento podemos dizer que o homem se deixou atrofiar, que a sua mão ficou paralisada, pois atentou não só contra a ordem do seu criador como também desvirtuou a primeira função da mão.
A mão, como obra de Deus, estava destinada à oferta, a ser instrumento de doação e recepção, e não a ser instrumento de roubo, de incumprimento de ordens dadas. A mão, criada para cooperar com a obra criadora de Deus, pelo pecado da desobediência, tinha-se tornado um instrumento de morte, de finitude. Desde aquele momento a mão perdeu a sua dignidade.
Ao entrar na sinagoga e ao ver aquela mão Jesus recordou-se de todos os homens e da perda original, de como o homem necessitava ser restabelecido, restaurado, na própria dimensão física. E por isso, antes da cura a ordem para que o homem enfermo se levantasse e se colocasse no centro.
Jesus queria dar uma nova dignidade à mão e por isso traz o homem para o centro da acção, expressando com essa ordem a nova criação, a nova oferta que era feita aos homens. A partir daquele momento o homem já não estava proibido de estender a mão, mas pelo contrário recebia a ordem para o fazer.
Neste sentido é bom que nos interroguemos sobre o obrar das nossas mãos, sobre as suas acções e como elas se estendem aos outros e às coisas. Serão as nossas mãos bandejas de oferta ou pelo contrário garras de aprisionamento e avareza?
De que forma nos sentimos hoje convocados por Jesus a estender as nossas mãos atrofiadas pelo egoísmo, pela violência, de modo a serem também elas curadas? De que modo servem as nossas mãos ao crescimento e ao erguer do outro, ao serviço da promoção do outro enquanto nosso irmão e filho de Deus?
Jesus cura-nos dos nossos males, das nossas paralisias, e toma a iniciativa nesse mesmo sentido. Contudo, não podemos deixar de estender a mão, de lhe colocar e nos colocar diante dele com aquelas realidades que nos prendem e atrofiam. Jesus não prescinde da nossa acção, da nossa colaboração, e a restauração das mãos é uma expressão desse mesmo desejo de retomarmos a obra de Deus para a transformarmos e fazermos chegar à plenitude.
Que o medo não nos paralise nesta necessidade de estender-lhe a mão para que nos cure.

Ilustração: Detalhe do braço e mão da estátua “Atena do Pireu”, Museu Arqueológico do Pireu, Atenas

Que toda a vida seja uma Missa

 
Em uma palavra, nós não queremos refazer uma França que vá à missa, mas uma França para a qual toda a vida seja uma missa. Nós somos bastante jovens ainda e conhecemos pouco o mundo, mas parece-nos que é disto que há necessidade, que é isto que se espera de nós.
Padre Louis Blanchet a Paul Claudel
Ilustração: Base e Sacrário da Basílica de Notre Dame de Genebra.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O sábado foi feito para o homem (Mc 2,27)

O sábado era para o povo de Israel o dia do repouso, um dia que recordava e fazia memória do sétimo dia da criação, o dia em que Deus criador repousou da sua obra.
Com o passar dos anos, e como acontece com tantas realidades da nossa vida, a rotina foi-se apoderando da memória, dos rituais que marcavam esse dia e que sequestrados na sua própria estrutura perderam o sentido.
Assim, o dia de repouso, o dia da memória da libertação, tornou-se um dia de escravidão e subjugação, um dia em que o homem se via coarctado na sua liberdade pela obrigação dos ritos e dos preceitos religiosos.
Num dia de sábado, caminhando pelas searas, Jesus e os discípulos violaram os preceitos religiosos daquele dia na medida em que começaram a apanhar espigas. Desta forma, não só violavam o preceito de não se fazer qualquer trabalho nesse dia como também de não se andar mais que o estipulado pela lei.
Neste incidente não podemos deixar de olhar para o lugar em que decorre, a seara, símbolo do povo e da própria obra de Deus, pelo que a crítica e acusação dos fariseus é ainda mais insidiosa, denotando um desprezo pela obra de Deus e pela colaboração do homem nessa mesma obra.
Contudo, Jesus não se deixa intimidar pela crítica e a acusação, mas aproveita-a para reconduzir os corações dos homens ao verdadeiro sentido do sábado, porque ele é Senhor do sábado, ele é também Senhor do descanso do homem.
Neste sentido, Jesus revela que acima da lei está o homem, que ele não veio para salvaguardar a lei, para salvar a lei, mas para salvar o homem e salvar a qualidade da sua vida perdida com o pecado e a liberdade extraviada do seu fim último.
A sua vida, o mistério da encarnação, a sua paixão e morte, não são para salvar a lei, para controlar o homem sob um código, mas para o libertar das redes opressoras e conduzi-lo à verdadeira liberdade, ao encontro do descanso que Deus oferece.
Deus descansou no sétimo dia da sua obra para a contemplar e ver como era boa, como era bela, e ao oferecer ao homem o dia de descanso é para que também ele contemple a beleza da obra de Deus e a beleza da obra das suas mãos quando é feita com amor, com justiça e com verdade. O dia do descanso é o dia da consciência da colaboração na obra divina.
Neste sentido, devemos não só perguntar-nos sobre a forma como vivemos o nosso dia de descanso, como ele é ou não um momento de libertação, mas também se a nossa conduta, as nossas acções são orientadas como a acção de Jesus para o encontro com a verdade e a liberdade que Deus nos oferece no seu projecto e na sua obra.
Como filhos de Deus estamos também chamados a levar a liberdade aos nossos irmãos, a dar a vida pela verdade e a beleza do amor de Deus pela sua obra.
 
Ilustração: “Sonhos”, de Vasily Polenov, Museus Estatais Russos.

O lado sublime do escritor

 
O senhor reconciliou-me com as letras mostrando-me o lado sublime do escritor: ser arauto do Verbo, cantar a glória de Deus espalhada pelo mundo e a glória do homem transfigurado pelo dom inefável. Esta é uma função vizinha do ministério sacerdotal que é a de oferecer a Deus o louvor perfeito. Amando as letras sob este aspecto parece-me que não me afasto da vocação sacerdotal.
Padre Louis Blanchet a Paul Claudel
Ilustração: Vitral de Santo Alberto Magno na Basílica de Notre Dame de Genebra.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Para vinho novo, odres novos! (Mc 2,18)

Ao atravessarmos as ruas antigas de Lisboa, ou de qualquer outra cidade, facilmente deparamos com os andaimes que restauram as fachadas das casas antigas, dos antigos prédios pombalinos, no caso específico de Lisboa, dando-lhe um brilho e uma frescura que nos agrada ver.
Tal como estas obras de recuperação de fachadas, muitas vezes pensamos que a nossa relação com Deus se processa do mesmo modo, que o nosso processo de conversão a Deus se concretiza num limpar de fachadas, numa limpeza primaveril que nos dá um novo brilho e uma outra frescura.
As palavras de Jesus, “para vinho novo odres novos”, mostram-nos como estamos enganados, como tal ideia é uma ilusão que nos distancia do projecto de Deus e da sua proposta, que é muito mais uma proposta de criação, de imaginação, de gestação de algo verdadeiramente novo, inédito e extraordinário.
Basta olhar o mundo à nossa volta, as cores dos pássaros e das flores, os milhões de estrelas que iluminam a noite, o vento que passa sempre de maneira diferente, as nossas faces que não se repetem, ainda que digamos que somos parecidos com o pai ou com a mãe. Deus é criativo, é sempre novo e quer-nos criativos e a inovar.
Por isso, na nossa relação com Ele, no nosso processo de conversão ao seu amor, não podemos querer enfiar o novo no velho, não podemos querer cozer um remendo novo sobre um pano velho. Necessitamos novos panos, novos odres, novas realidades que nos enquadram na novidade que Ele próprio é.
Necessitamos criatividade, necessitamos inovar e ousar, aceitar e acolher a diferença do novo que se pode gerar, ainda que isso nos assuste e faça vacilar face aos passos a dar. Nesses momentos de dúvida não podemos esquecer que Deus se oferece a cada um de nós e a toda a humanidade como uma criança, como um esposo, afinal sempre uma novidade e uma esperança de diferença e de futuro.
A nossa fé, a nossa esperança, o nosso amor necessitam odres novos, novos espaços e modos de se exercitarem, de se tornarem realidade, e realidade transfigurante do mundo e de nós próprios.
Peçamos ao Senhor a graça da inspiração do Espirito Santo o verdadeiro vinho novo que nos pode renovar, a verdadeira força que faz tudo de novo como no princípio.
 
Ilustração: “Noite de estrelas sobre o Ródano”, de Vincent van Gogh, Museu d'Orsay, Paris.

O melhor meio para chegar a Deus

 
Tenha a certeza que não há melhor meio para chegar a Deus que a Palavra de Deus. Mas esta palavra necessita que se lhe dê tempo e se tenha a paciência para a escutar, num espirito profundo de humildade.
Paul Claudel ao padre Daniel Busato
Ilustração: Igreja da Santíssima Trindade em Genebra.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Homilia do II Domingo do Tempo Comum

Ao escutarmos a narração das bodas de Caná não podemos deixar de sorrir e de comentar que para um banquete de casamento a situação não era muito agradável. Teria faltado organização? Teriam sido imprevidentes face ao necessário e ao número elevado de convidados? É uma situação que no mínimo nos deixa bastante desconfiados sobre as razões do desastre.
Por outro lado, e tendo presente que no Evangelho de São João este é o primeiro acto público de Jesus, depois do chamamento dos apóstolos, podemos dizer que para começar não podia ter sido pior, que as circunstâncias não eram as mais favoráveis a um debutar social. Afinal o convidado vê-se envolvido num desastre de que não tem culpa nenhuma, e por isso a pergunta de Jesus a sua mãe, “mulher que temos nós com isso”.
Mas se no imediato e na materialidade Jesus não tem nada com o desastre, na sua dimensão simbólica, na dimensão reveladora do que ele significa realmente, Jesus já tem muito que ver, Jesus já tem um papel muito importante e uma grande responsabilidade.
Neste sentido encontramo-nos no desastre com um conjunto de elementos materiais, objectos do quotidiano, que fazem referência a realidades religiosas, a questões fundamentais do credo da fé judaica, que estão perdidas e sem sentido e portanto necessitam ser renovadas ou transformadas.
São João ao narrar a acção de Jesus, o envolvimento de Jesus no desastre, começa por salientar que havia ali seis talhas de água para a purificação que levavam duas a três medidas e que estavam vazias. Ao estarem vazias, apesar de cada uma delas poder levar cem litros de água, estamos perante o vazio do rito judaico, face à incapacidade dos procedimentos rituais para realizarem o que significavam. A purificação estava portanto ultrapassada, vazia de sentido.
Por outro lado, os seiscentos litros de água que as talhas podiam comportar fazem referência inevitável ao conjunto dos preceitos e mandamentos que compunham a lei judaica, e que, ainda que sendo muitos e belos, não proporcionavam a felicidade que se esperava, não satisfaziam o homem e a sua relação com Deus.
Assim, o desastre da falta de vinho neste banquete nupcial é a explicitação do desastre da aliança de Deus com o povo, uma aliança que tinha sido concebida e apresentada, como pudemos constatar na leitura do profeta Isaías, como uma boda nupcial. Deus tinha escolhido o povo de Israel como uma noiva, mas o sequestro da relação em preceitos invioláveis tinha conduzido ao desastre dessa mesma relação.  
É face a este desastre que Jesus é chamado a intervir; e se no primeiro momento não responde ao pedido de sua mãe, imediatamente toma a acção e age sobre os elementos, mostrando dessa forma que a sua resposta não se deve ao pedido circunstancial dos homens, mas à sua vontade primogénita e à sua missão redentora. Ele está ali para restaurar a aliança, para devolver à alegria das bodas nupciais com Deus o homem aflito e envergonhado pelas faltas cometidas.
Neste sentido, a acção de Jesus, o milagre que realiza, conduz não só a um vinho de alta qualidade mas a uma produção abundante. Da falta desastrosa anterior passamos a uma quantidade e a uma qualidade superiores, a uma resposta cuidada e qualificada que oferece satisfação aos convidados.
A imagem superlativa da qualidade e da quantidade do vinho novo coloca diante dos nossos olhos a superabundância do amor de Deus, da acção de Deus sobre a humanidade e cada um de nós. Uma superabundância que se reflecte nos dons do Espirito Santo de que fala São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios.
Há um só Espirito, e é o mesmo Espirito que se oferece a cada um; mas também a cada um se oferece de modo particular, com um dom próprio para que se possa realizar, para que possa levar a cabo a missão que lhe está destinada.
Tal pressuposto deveria levar-nos a olhar com outros olhos não só o nosso dom, o que o Espirito colocou em nós para a realização do bem comum, mas também para os dons dos nossos irmãos, dos homens e mulheres que vivem connosco. O Espirito proporciona uma complementaridade, um conjunto que se complementa e completa nos dons dos outros.
Deveríamos por isso estar muito atentos não só ao nosso egoísmo, ao nosso egocentrismo, como se nada funcionasse sem nós, mas também à nossa inveja, a esse reconhecimento negativo dos dons dos outros, que não leva a apreciá-los mas a desejá-los, a não deixar que eles se desenvolvam e realizem.
O vinho que Jesus ofereceu nas bodas de Caná é o vinho do Espirito, o vinho da nova Aliança, que nos é oferecido em abundância e em qualidade superiores. Deveríamos procurar apreciá-lo para que não se desperdiçasse e para que nos inebriasse de modo a que a nossa vida e a vida dos nossos irmãos e irmãs connosco fosse uma verdadeira festa, um banquete em que nos sentimos e sabemos todos membros do mesmo corpo, todos convidados à alegria comum da festa.
Que o Espirito Santo nos transforme para que possamos ter uma melhor qualidade de vida e de serviço, para que possamos ser o melhor que é oferecido a todos os convidados do banquete do Reino.
 
Ilustração: “Bodas de Caná”, de Bartolomé Esteban Murillo, The Barber Institute of Fine Arts, Inglaterra.   

 

A arte do consentimento

 
Consentir é sentir com, é conduzir-se por um movimento de afectividade espiritual em direcção ao que Deus propõe ou dispõe, e que pode agradar à sensibilidade ou desagradar-lhe. A arte de consentir àquilo que Deus quer para nós, aos acontecimentos, ao que nos chega e àquilo que somos, sem desvios nas atitudes fiéis da vida cristã, parece ser o ápice de quem se dá à oração.
Dom Samuel
Ilustração: Cúpulas douradas da Catedral Ortodoxa Russa de Genebra.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Viu Levi sentado no posto de cobrança (Mc 2,14)

É numa passagem fugaz pelo posto de cobrança que Jesus se cruza com Levi, um jovem sentado à sua mesa de trabalho de cobrador de impostos. Sem qualquer apresentação, sem qualquer troca de palavras, Jesus ordena-lhe que o siga, e Levi levantou-se e seguiu Jesus.
Caravaggio representou picturalmente na igreja de São Luís dos Franceses em Roma esta cena evangélica, construindo um ambiente em que a oposição do claro e do escuro é notória.
Do fundo escuro, quase que meio escondido por outra figura, Jesus aparece estendendo a mão a Levi, num gesto de apelo que os lábios entreabertos não deixam duvidar. “Tu segue-me”.
No lado oposto, banhado por uma luz que vem de fora do quadro e passa por cima da figura de Jesus, encontra-se Levi, recolhido no seu ofício, alheio à presença de Jesus e ao seu chamamento.
Contudo, se Caravággio representou Levi alheado da presença e do chamamento de Jesus, as figuras que compõem o quadro não se encontram na mesma situação, e assim para além da mão estendida de Jesus em direcção a Levi encontramos também outras duas mãos e a surpresa das duas figuras mais jovens e sentadas à mesa de Levi.
Nelas perpassa a interrogação sobre o chamamento de Jesus, interrogação que abala o coração do próprio Levi. É a ele que estás a chamar? É a mim que me estás a chamar?
E podemos imaginar o que corre veloz nos corações e pensamentos daqueles homens, que no mínimo pode ser a dúvida de um equívoco. Como pode este Jesus estar a chamar este homem, um ladrão, um homem que explora o povo e se aproveita do que arrecada para os opressores e invasores do país?
Levi questiona-se se não será tudo um erro, se Jesus não se terá enganado na pessoa, porque ele não é a pessoa indicada, isenta para ser chamada a um seguimento. A sua honestidade é reduzida e a bolsa que esconde debaixo da mesa prova-o. Se Jesus conhecesse um pouco da sua vida certamente não o chamaria nem se aproximaria dele.
Mas apesar de tudo isso Jesus estende-lhe a mão e chama pelo seu nome desde o fundo escuro da sua vida. Sem saber, sem ter consciência, realiza-se aquilo que Jesus jogará mais tarde à cara dos fariseus em sua casa. “Eu vim chamar os pecadores, eu vim para os que estão doentes”.  
Neste sentido, não podemos pois esquecer que Jesus vem ter connosco aos nossos lados escuros da vida, vem até às nossas doenças e infidelidades, e desde aí nos chama a segui-lo. E como com Levi, sempre a partir da nossa banca de trabalho, da nossa realidade quotidiana.
E se no nosso coração se levanta a dúvida de Levi, a resposta de Jesus não é outra senão: “por isso mesmo, por tua causa, pela própria miséria em que te encontras e da qual te quero libertar”.
Jesus não se engana nos apelos que nos faz de seguimento, ele quer sempre a nossa liberdade, a possibilidade do acolhimento para o banquete a celebrar em nossa casa; nós é que nos enganamos quando silenciamos uma resposta ou nos deixamos permanecer nos nossos lugares.
 
Ilustração: “A vocação de Mateus”, de Michelangelo Merisi da Caravaggio, Igreja de São Luís dos Franceses, Roma.

As graças de Deus

 
Deus dá-se a conhecer pelas graças que nos faz, mas estas graças são quase sempre insensíveis; elas mudam o curso da nossa existência, por vezes radicalmente, e não podemos duvidar disso, mas estas graças não são sentidas e nem Deus mesmo.
Dom Samuel
Ilustração: Barco de transporte de passageiros no lago Le Léman em Genebra.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Trouxeram um paralítico transportado por quatro homens (Mc 2,3)

A cena é extraordinária, o suficientemente inusitada para não passar despercebida, nem àqueles que estavam presentes nem a cada um de nós que hoje nos confrontamos com o seu relato.
Face à impossibilidade de entrar até junto de onde Jesus se encontrava, os quatro homens que transportavam um paralítico para que Jesus o curasse, sobem ao telhado e fazendo uma abertura introduzem o homem até junto de Jesus.
Diz-nos São Marcos que, ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: “os teus pecados estão perdoados”.
Para além de tantos outros elementos que nos poderiam fazer meditar, esta manhã, ao ouvir a leitura do texto evangélico, não pude deixar de pensar naqueles quatro homens e na sua acção. Eles não pediram nada, não há qualquer palavra nem deles nem do paralítico, e contudo Jesus perdoa os pecados daquele homem e cura-o da sua enfermidade.
Diante deles e da sua acção pensei na nossa oração comum, na oração em que pedimos a Deus pelos nossos irmãos, por aqueles que também não dizem uma palavra, não formulam um pedido, mas que ainda assim nós apresentamos ao Senhor, introduzimos junto do lugar onde Jesus se encontra.
Era grande a fé daqueles homens, assim como deve ser grande a nossa fé quando rezamos por alguém, quando pedimos a Deus por alguém, porque a nossa oração terá certamente as mesmas consequências que teve junto daquele paralítico a acção dos seus amigos, Jesus perdoou-lhe os pecados e depois curou-o.
Este pensamento, esta esperança, levou-me hoje a meditar um pouco mais seriamente sobre a oração de petição pelos meus irmãos e irmãs, pelos homens e mulheres que se encomendam à minha oração, por aqueles que não conheço e nem me conhecem, mas pelos quais também rezo, pelo alcance insuspeitado da oração de cada um de nós.
Ao introduzi-los na presença de Deus com a minha oração estou a proporcionar-lhes a graça do perdão, ainda que nem eu, nem eles, a sintamos materialmente, pois a acção de Deus é sempre invisível, impossível aos sentidos corporais. E posteriormente, com esta graça, chegará também a cura das suas enfermidades, das suas debilidades e infidelidades.
Perdoados dos seus pecados poderão erguer-se para acolher a cura, para tomar em mãos a sua enxerga e caminhar pelos seus pés para casa, para a verdadeira casa que é a casa do Pai do Céu.
Que alegria e que conforto saber que podemos levar o perdão de Jesus aos nossos irmãos, que de longe podemos influir nas suas vidas e na relação com Deus através da nossa oração, que podemos ser instrumentos e canais para a graça salvadora de Deus. E ao mesmo tempo que responsabilidade, que exigência para a nossa oração e para a nossa fraternidade.
Tal como aqueles quatro homens do Evangelho, que saibamos encontrar os modos e o tempo para subir aos telhados e introduzir os nossos irmãos junto de Jesus.
 
Ilustração: “O paralítico descido pelo telhado”, de James Tissot, Brooklyn Museum.