quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Processo de amadurecimento

 
A mensagem, de que me sinto profundamente obrigado a acreditar que Deus me confiou, amadurece lentamente em mim, até que, através de uma série de aproximações sucessivas, com a colaboração dos acontecimentos, do estudo e desta graça que não nos ultrapassa, chegue ao estado adulto.
Paul Claudel ao Padre Louis Barjon
 
Ilustração: Alameda para quinta privada em Vernier Genebra.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As ofertas possiveis a Deus

 
Que Deus me dê a força de o amar apenas a Ele e de amar esta miséria em que me encontro de virtudes e de méritos, pois não tenho mais que esta atroz esterilidade para lhe oferecer.
Paul Claudel a frei M. Barge

Ilustração: Fim do dia sobre campo coberto de neve na Suiça.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Os desafios do apostolado

 
Existe aí um apostolado bastante elevado. Como todo o apostolado ele tem os seus perigos, tem as suas dificuldades e não avança sem combates. Mas Deus sustenta os seus apóstolos, inspira-os e guarda-os. Os dons que lhes foram oferecidos preparou-os para uma obra concreta, e não é possível que renunciem ao trabalho.
Frei M. Barge a Paul Claudel
 
Ilustração: Asa do avião ao nascer do sol na viagem Lisboa Genebra do dia 7 de Fevereiro de 2013.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Uma grande alma

 
Uma grande alma domina as suas contingências, faz trabalhar a matéria, sujeita à sua inspiração os acontecimentos e os homens. Continue por isso a fazer passar o sopro do Espirito para o palco, no qual se sente tão raramente presente.
Padre M. Barge a Paul Claudel

Ilustração: Estátua de La Bagneuse com o jacto de água de Genebra

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Homilia do II Domingo da Quaresma

Há oito dias atrás, no primeiro domingo da Quaresma foi-nos apresentado o momento em que Jesus foi tentado no deserto. Hoje, segundo domingo da Quaresma, somos confrontados com o momento da transfiguração.
No Evangelho de São Lucas, que seguimos nestes domingos, há igualmente um período de oito dias que precede a transfiguração. Oito dias medeiam o anúncio da morte de Jesus, com o choque que tal anúncio acarreta, e o momento da transfiguração.
Estamos assim, numa e noutra circunstância, no ritmo das leituras da Quaresma e no caminho de Jesus com os discípulos, face a um acontecimento que tem esse objectivo último de animar, de fortalecer a caminhada, de oferecer um sinal de esperança face a tantos sinais contraditórios.
Neste sentido, não podemos deixar de imaginar o impacto das palavras de Jesus junto dos discípulos, do escândalo, de que os próprios Evangelhos nos dão conta, quando nos narram que Pedro tentou dissuadir Jesus do inevitável.
Não podemos deixar também de assumir o impacto que a narração das tentações de Jesus tem na nossa vida, como o confronto com esse acontecimento nos deixa muitas vezes desanimados, pois pensamos que se até Jesus foi tentado o que não acontecerá connosco e onde encontraremos forças para resistir.
É face a estes impactos, e aos problemas que eles podem causar e causaram junto dos discípulos, que Jesus se retira para um alto do monte para rezar. Jesus recorre assim ao grande elemento simbólico da montanha para conduzir os discípulos ao encontro com Deus, ao encontro com a vontade de Deus.
Este elemento simbólico é depois reforçado com o aparecimento de Moisés e Elias, duas figuras tutelares da tradição judaica que representavam na fé e no imaginário relações muito especiais com Deus, de grande intimidade, e cujos desaparecimentos estavam envoltos em um certo mistério. A incompreensibilidade da morte de Jesus pode começar assim a dissipar-se à luz do mistério de Moisés e Elias.
Esta dissipação é igualmente reforçada pela atitude que Jesus toma e que o pequeno grupo selecto dos discípulos pode contemplar. No alto do monte e num momento de oração, Jesus transfigura-se, muda de aparência, pois São Lucas não usa nunca a palavra transfiguração para falar do sucedido, como acontece com São Mateus.
Perante tal alteração os discípulos podem contemplar que a vida e a morte de Jesus já anunciada não são algo de estranho, desastroso, mas são reflexo consequente de uma intimidade, de uma relação tão pessoal e tão intensa que tem essa mesma capacidade de iluminar e transfigurar, de dar uma outra dimensão e luz aos acontecimentos, mesmo aos mais trágicos.
Face às dificuldades que se perspectivam, Jesus mostra aos discípulos e a cada um de nós que a intimidade com Deus, a nossa relação de fé e a oração podem de facto iluminar os nossos sofrimentos, os nossos desastres, podem conduzir-nos à vitória sobre as tentações, sejam elas de que espécie for.
É nesta circunstância, neste momento, que Pedro nos mostra, uma vez mais, a incompreensão dos discípulos, a dificuldade em perceberem o que se passava e estava em jogo. A proposta de Pedro para a construção de três tendas é um completo equívoco face ao que podem contemplar, pois não estão ainda no paraíso, como os elementos parecem indicar, mas testemunham de um diálogo em que a questão fundamental é uma libertação, é um êxodo que Jesus tem que operar e do qual eles vão participar.
A transfiguração de Jesus diante dos discípulos é assim um momento de visibilidade e de luz, de conforto face aos medos, mas é igualmente um momento de trevas, de invisibilidade, de cegueira. A transfiguração é um momento de ver, mas também um momento de ocultação, e por isso Moisés e Elias se retiram face à proposta de Pedro.
E esta duplicidade de situações, este equívoco, é extremamente importante para nós, vem afinal ao encontro das nossas necessidades, uma vez que nos retira do imediato e sensível, do visível, e nos coloca, como colocou os três discípulos, na órbita da Palavra.
Face à impossibilidade da contemplação da glória de Deus, da sua apreensão ou retenção, como desejava Pedro quando se oferece para construir três tendas, Deus vem ao nosso encontro através da Palavra feita carne, da oferta de Jesus Cristo seu eleito.
Assim sendo, a verdadeira tenda para o acolhimento de Deus é a nossa humanidade, é a nossa história, na qual pela intimidade com Deus, pela nossa filiação divina, podemos perceber como afinal Deus vai caminhando connosco, vai revelando pequenas maravilhas da eternidade.
A transfiguração de Jesus no monte Tabor é um convite à transfiguração do nosso quotidiano, ao encontro nas nossas realidades humanas e históricas da presença e acção de Deus, e de modo particular naquelas que nos podem parecer completamente alheias ou estranhas à ideia de Deus como foi a paixão e morte de Jesus.
Procuremos pois acolher com firmeza e fidelidade a Palavra do Pai na nossa humanidade, para que, como nos diz São Paulo, o nosso corpo miserável se transforme no corpo glorioso que nos foi possível vislumbrar na transfiguração de Jesus.
 
Ilustração: Ícone Bizantino da Transfiguração, Museu do Louvre.

A nossa fé que ilumina

 
Que se torne evidente, a toda a alma que pensa, que a nossa Fé ilumina tudo, que a graça tem energias únicas, que Deus não cessa de trabalhar o mundo para o purificar aproximando-o de Si.
Padre Frei M. Barge a Paul Claudel

Ilustração: Estátua de Rodin banhada pela luz do vitral no Museu de Arte e História de Genebra.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A oração e o desejo de ser melhor

 
Desde que tantas almas fraternamente rezam por mim, sinto um grande desejo de ser melhor e de fazer tudo pelo nosso mestre comum.
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge

Ilustração: “A Oração”, estátua de Jean-Daniel Guerry instalada num jardim de Genebra.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O bem que se pode fazer

 
É apenas devido ao seu pedido que tiro do silêncio estas coisas sagradas que é difícil de entregar ao público sem fazer violência ao pudor da alma. Mas o bem que podem fazer deve naturalmente passar à frente de toda outra consideração, e tenho tão pouca ocasião de o fazer!
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge
Ilustração: Nascer do sol sobre o lago Le Léman a caminho de Neuchatel.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pedi e recebereis (Mt 7,7)

Eis uma passagem do Evangelho que nos deixa inquietos entre a esperança confiante e o desalento decepcionante.
Com confiança acreditamos que Deus está do nosso lado, que Deus conhece o que nos faz falta e portanto vem ao encontro das nossas necessidades e dos nossos pedidos.
Por outro lado encontramos a decepção e o desalento resultantes do silêncio de Deus, da sua não resposta aos nossos pedidos, às nossas necessidades mais urgentes.
Balançamos então, sem saber se pedir alguma coisa ou deixar que tudo siga o seu curso normal e inevitável.
É nesta circunstância que se coloca a questão objectiva de sabermos se de facto sabemos o que que pedimos, se sabemos o que é verdadeiramente bom para nós.
Quantas vezes o que pedimos a Deus não é uma solução alienante da nossa condição humana, da consciência das nossas fragilidades e limitações, da nossa finitude enquanto obra?
E será isto bom? Será o que verdadeiramente nos realiza, nos conduz à plenitude? O que nos dignifica ou realiza?
Os nossos pedidos a Deus e o seu silêncio colocam-nos assim face à necessidade de um diálogo mais profundo, de uma conversa em que vamos percebendo o que queremos e o que Deus quer, o equilibro necessário entre os nossos desejos mais exteriores e as aspirações interiores que nos habitam e apenas se satisfazem em Deus.
Deus satisfaz as nossas necessidades, vem ao nosso encontro, mas tem a delicadeza e o amor de um pai para nos oferecer o que verdadeiramente nos realiza, o que nos conduz ou pode conduzir à plenitude.
No silêncio de Deus às nossas buscas, aos nossos pedidos, necessitamos assim confiar, prosseguir o diálogo, de modo a fazer-se luz sobre o que verdadeiramente necessitamos e sobre o que em verdade Deus já nos tem concedido.
 
Ilustração: “Culto da noite”, de Franz Skarbina, Colecção Particular.

 

Os relatos de conversão

 
Recebi a sua carta na qual me pede que lhe envie o relato da minha conversão. São experiências íntimas que preferimos em geral guardar para nós. Mas desde que pensa que este relato pode servir à salvação das almas, não me encontro mais no direito de o recusar.
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge
 
Ilustração: Gallus Platz em Saint Gallen no dia 9 de Fevereiro de 2013.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os cristãos são jovens

 
Parece-me que os cristãos de todas as idades são igualmente jovens, seja pelo ardor que eles devem ter, seja pela necessidade que eles sentem igualmente dum estímulo e dum magistério.
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge

Ilustração: Galeria dos espelhos no Palácio de Versailles.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Senhor sois o meu Deus


 
Foi esta a música que os alunos do 12º 1C trouxeram para a celebração e me deixou encantado.
Como me disseram que a podia encontrar no YouTube, e encontrei, aqui a partilho depois de a ter apreciado uma vez mais.
Espero que gostem também.

Ama as tuas rosas

A minha Quaresma deste ano vai ser bastante preenchida, com diversas actividades e compromissos que não me vão deixar muito tempo livre.
Entre essas actividades encontram-se as Celebrações da Palavra no Externato Marista de Lisboa, que iniciei hoje e me irão acompanhar quase durante toda a Quaresma.
Posso dizer que foi um bom princípio, pois logo às oito da manhã estava a celebrar com uma turma do sexto ano bastante compenetrada da sua celebração.
No final da celebração os alunos entregaram aos pais e aos convidados uma recordação de cujo texto retirei o mote para esta partilha.
É um texto de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, e que diz, “segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas, o resto é a sombra de árvores alheias”.
Depois do almoço voltei a celebrar, desta feita com a turma 1C do 12º ano, que no final também entregou uma recordação, um seixo do rio, no qual escreveram a frase que serviu de tema à celebração, e que eu pensava ser de Fernando Pessoa, mas afinal parece que não é. “Pedras no caminho? Apanho todas e vou fazendo um castelo”.
Duas celebrações distintas, a primeira de uma turma que ainda tem muito que aprender no Externato e a segunda de uma turma que está já de partida e por isso deve aferir do que viveu e aprendeu para poder partilhar no mundo.
Como há muito tem vindo a acontecer, para mim foi um momento de alegria, foi um momento para desfrutar de jovens que nos fazem sonhar com um mundo melhor, foi igualmente um momento de enriquecimento, espiritual e musical, pois fiquei a conhecer mais uma canção lindíssima que desconhecia.
Foi também um momento para encontrar uma serenidade, uma paz de espirito, que me começava a faltar, na medida em que pensava na quantidade de coisas que tenho para fazer e do tempo limitado de que disponho.
Foi assim o momento para descobrir a inspiração para amar as minhas rosas, para regar as minhas plantas, ou seja, para fazer o que tenho que fazer com amor, com muita paz, porque nesta Quaresma é isto que o Senhor me chama a viver, é desta forma que me convida a viver.
Nos meus sonhos existem outras pretensões, uma outra Quaresma, mas é esta que o Senhor me pede que viva, é esta que o Senhor me pede que ame, com tudo o que tem de trabalho, de preocupações, de limitações e muito possivelmente de uma ou outra frustração por aquilo que não farei.
Serão as sombras das árvores alheias, serão as pedras do caminho, mas que com amor serão também fonte de graça e de crescimento em fidelidade.
 
Ilustração: Fotografias das recordações das turmas 6ºD e 12º 1C.

 

A Eucaristia é alimento

 
Se embarco no estudo de assuntos tão tremendos, é porque acredito que a Eucaristia é o alimento indispensável da nossa vida não só moral, mas também intelectual, para todos, tanto para os leigos como para os clérigos.
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge

Ilustração: “Anjos com cálice e pala”, fresco no tecto da sacristia da Sé de Lisboa.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Entregar a melhor parte

 
O meu desejo mais profundo é de entregar à Igreja o que pude ter recebido dela de luzes e de talento, ou seja, a melhor parte. Se as minhas obras puderam agradar a corações religiosos, é uma grande consolação para mim e uma prova que elas não são infiéis ao espirito que as ditou.
Paul Claudel ao dominicano frei M. Barge
Ilustração: “Anjos com vela e castiçal”, fresco do tecto da sacristia da Sé de Lisboa.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Homília do I Domingo da Quaresma

Para muitos de nós este domingo é o início oficial da Quaresma, pois não tivemos oportunidade de participar na celebração da quarta-feira de cinzas, dia em que começa a contagem dos quarenta dias até à Páscoa da Ressurreição do Senhor.
E no início deste tempo de preparação para esse momento, todos temos experiência de como os grandes e importantes momentos se preparam com antecedência, a leitura do Evangelho apresenta-nos a narração das tentações de Jesus.
É um episódio de todos nós conhecido, pois todos os anos nos confrontamos com ele, mas ainda assim é um episódio que sempre nos convêm revisitar, pois em cada uma das tentações de Jesus nos encontramos com as nossas tentações pessoais.
Neste sentido gostava de partilhar convosco um pormenor que trespassa as três tentações de Jesus mas que na última adquire uma outra tonalidade, uma outra dimensão, pois Jesus conduz a justificação do seu comportamento, da sua resistência e vitória sobre as tentações, ao seu sentido último.
Assim, tanto na primeira como na segunda tentação, quando o demónio solicita a transformação da pedra em pão e no alto do momento oferece o poder sobre o mundo, Jesus responde com as palavras da Escritura, Jesus cita os textos bíblicos, justificando a sua não adesão à proposta do demónio com a necessidade de o homem viver com algo mais que o pão e de a adoração só se dever prestar a Deus.
Perante estas respostas, o diabo tenta Jesus pela terceira vez, mas fá-lo usando a inteligência, a sua astúcia, pois propõe a Jesus uma atitude que se insere e corresponde à mesma palavra bíblica que Jesus tinha utilizado. Ao tentar Jesus pela terceira vez o demónio utiliza expressões da Sagrada Escritura, serve-se da mesma justificação que Jesus tinha utilizado, só que desta feita o objectivo é o equívoco, é o engano. Afinal está escrito que podes fazer isto!
E é aqui, e perante este desafio, que Jesus assume a verdade das suas respostas anteriores até ao seu fim último, até às últimas consequências. Jesus tem uma atitude diferente, Jesus resiste às tentações, não porque está escrito que deve ser assim, não porque faz parte de um texto codificado, mas porque esse texto e essas palavras são palavras de Deus, e são palavras vivas e vivificantes.
Não é porque está escrito que se pode tentar a Deus, não é porque está escrito que se tomam determinados compromissos, que se fazem determinadas opções de vida, ainda que difíceis e algumas carregadas de sofrimento, mas porque as palavras de Deus nos implicam, interagem connosco e portanto nos colocam numa outra situação, num outro estádio.
Jesus inverte assim a proposta do demónio, ultrapassa a lógica da exterioridade de que enfermam as tentações e mostra-nos que o importante, o verdadeiramente importante é a vida que as palavras comportam e a plenitude à qual nos conduzem.
A palavra é performativa, a palavra é agente e é acção, e portanto devemos estar conscientes dela e do seu poder, da transformação que opera nas realidades e na nossa própria vida.
Neste sentido, podemos dizer que as tentações de Jesus, bem como as nossas tentações pessoais, são tentações contra a palavra e o seu poder, contra a vida que elas comportam. Pelo que um dos nossos exercícios desta Quaresma deveria ser um discernimento muito claro da atenção que damos às palavras, à forma como as colocamos na exterioridade ou pelo contrário como as percebemos como mecanismos de vida.
São Paulo na Carta aos Romanos e no trecho que escutámos neste domingo vem ao nosso encontro nesta perspectiva, pois alerta-nos para o facto de a palavra estar perto de nós, na boca e no coração, ou seja, ela vive dessa dupla situação de exterioridade e interioridade, e nós necessitamos conjugá-las para que sejamos salvos, como nos diz São Paulo, para que aconteça a vida de que as palavras estão prenhes.
Procuremos pois através da oração e da leitura da Sagrada Escritura, que nos são oferecidas neste tempo preparatório da Quaresma de modo especial, encontrar-nos com a vida que decorre da Palavra, com a vida que nos é oferecida, e que podemos igualmente oferecer aos outros através da nossa palavra alentadora e reconfortante.

 
Ilustração: “Tentação de Jesus no monte”, de Duccio de Buoninsegna, Colecção Frick, Nova Iorque.  

A possibilidade de amar a Deus

 
Considero, depois de o experimentar, que uma só coisa é intolerável, viver sem amar a Deus. Não é possível amá-lo cada dia, e em cada dia cada vez melhor? Creio que sim, porque se nós soubéssemos que amanhã seria o nosso último dia, nós tentaríamos amá-lo hoje.
Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: “A Fé”, fresco no tecto da Sacristia da Sé de Lisboa.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Jesus viu um publicano chamado Levi. (Lc 5,27)

Já faz parte do nosso mundo e da nossa cultura economicista encontrarmos homens e mulheres que se dedicam a procurar outros homens e mulheres que correspondam aos requisitos necessários para desempenhar determinada função ou profissão.
Desde o mundo do desporto às universidades sabemos que os contactos são importantes, que há um perfil a estabelecer, um curriculum-vitae a aperfeiçoar e a enriquecer. Desde o primeiro momento temos que partir com a melhor e mais completa bagagem.
Ao passar junto de Levi, e ao chamá-lo para a sua “empresa”, a lógica de Jesus afasta-se da nossa lógica capitalista e produtiva. Sabendo o que sabemos de Levi, que era um cobrador de impostos, uma pessoa cujo curriculum-vitae deixava a desejar, porquê chamá-lo, que lugar poderia ocupar na companhia de Jesus, que missão a desempenhar?
Na nossa lógica, segundo os nossos esquemas, Levi não tinha o perfil ideal para a tarefa e a missão, e assim automaticamente seria o primeiro a ser excluído da selecção, ou nem sequer o teríamos em conta.
Contudo, à luz do programa e da missão de Jesus, Levi é a pessoa ideal, é aquela que de facto se pode colocar no papel perfilado; Levi é um pecador, é um doente, é aquele que necessita da oportunidade de Jesus. E eis que ela se lhe oferece.
Este convite de Jesus, esta “contratação”, é para nós no início da Quaresma um alento, um incentivo, pois Jesus não vem procurar os mais dotados, os perfeitos, os que estão sãos, mas vem ao encontro daqueles que estão doentes, das ovelhas perdidas, dos que necessitam que se lhes estenda a mão e se lhes ofereça uma oportunidade.
O ponto de partida não é o mais brilhante, não é o mais famoso, temos muito que aprender e talvez poucas aptidões, mas é desta situação e desta realidade que Jesus nos chama.
Ao chamar-nos para o seguirmos, Jesus lança-nos num caminho de conversão, tal como lançou Levi, num caminho que nos leva a descobrir a misericórdia de Deus e o seu amor.
Ao tacteá-lo, ao experimentar vivê-lo vamos sendo testemunhas dessa mesma misericórdia e desse mesmo amor, face aos quais nos podemos perguntar: haverá profissão, missão, mais sublime?
 
Ilustração: “O chamamento de São Mateus”, de Theodor van Loon, Museu Nacional de Varsóvia.

A oração é um sim

 
Não diga mal da oração, nem você nem eu sabemos todo o seu valor; é um orvalho divino, é a paz do Sétimo Dia, é o “fiat” de Maria. Digamos com ela na Anunciação, com o Ecce Homo, no Pentecostes. É a vida eterna, o ritmo iniciado do Amor essencial.
Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: “A Esperança”, fresco no tecto da Sacristia da Sé de Lisboa.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os teus discípulos não jejuam? (Mt 9,14)

Fazer algo de diferente provoca inevitavelmente comentários, questões. Tal sucedeu com os discípulos de João Baptista que, ao verem que os discípulos de Jesus não jejuavam, se viram obrigados a perguntar porquê.
Jesus responde-lhes de uma forma que nos mostra que há um tempo para o jejum assim como há um tempo para a festa, há tempos diferentes que provocam situações diferentes.
Contudo, e apesar da diferença dos tempos e dos modos, há uma questão mais fundamental, uma questão que ultrapassa o jejuar ou não jejuar, e que é a questão do ser. Afinal ser ou não ser é a questão que se nos coloca.
Jejuar, enfastiar-se de comida, ou outras realidades, são questões de ser, são expressões da nossa interioridade e da liberdade que nela desenvolvemos ou vivemos.
Assim, o jejum e a oração que somos convidados a viver são expressões de um desejo, de uma falta que sentimos em nós e nos leva a confrontarmo-nos com ela própria, a fazê-la presente de uma forma quase palpável.
Pelo jejum e pela oração experimentamos as nossas limitações, a nossa incapacidade de agarrar nas mãos o Deus em que acreditamos, bem como a nossa própria pessoa nas suas fragilidades e incapacidades.
Vivemos uma história que nos escapa, pois na medida em que Deus está presente está também ausente, na medida em que sentimos as nossas forças e potencialidades reconhecemos também as nossas fraquezas e incapacidades.
Tal história pode conduzir-nos ao desalento, ao desânimo, a um sentimento de frustração, que não podemos deixar de reconhecer nos marca a todos de diversos modos, e infelizmente encontramos como uma desculpa para o abandono da vida da fé entre tantos cristãos.
Contudo, esta frustração não é um mal, não é uma condenação de um deus sádico, bem pelo contrário, deve ser vista como uma consciência, um desejo de mais e melhor que habita em nós e nos deve portanto mover a dar outros passos e mais passos no sentido da satisfação.
O jejum que somos convidados a viver é assim uma experiência de renovação do nosso desejo, da nossa vontade de sermos cada vez mais e melhores.
Colocamo-nos assim na linha das palavras de Jesus de que quem procura acha, e quem acha procura ainda mais porque sente mais desejo, sente mais fome.
Que nesta Quaresma o nosso jejum, a nossa oração e a nossa esmola aumentem em nós o desejo de ser, a fidelidade à condição de filhos amados de Deus.
 
Ilustração: Vitral da rosácea sobre a porta de entrada da Catedral de São Pedro de Genebra.

O que damos e receberemos

 
Nós não possuiremos no céu senão aquilo que tivermos dado aqui. E que podemos nós dar de melhor que o amor?
Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: “A Caridade”, fresco do tecto da Sacristia da Sé de Lisboa.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Paz a esta casa! (Lc 10,5)

Jesus envia os discípulos em missão, a sua primeira missão, e são enviados como cordeiros para o meio de lobos.
No meio das dificuldades e dos perigos, uma tarefa bastante concreta, levar a paz a cada casa e a cada um daqueles com os quais se cruzarem.
Ao olhar para a nossa realidade quotidiana, tanto a nível pessoal, como local e mundial, podemos interrogar-nos sobre esta mensagem de paz. O que lhe aconteceu, o que lhe acontece, porque não somos capazes de a ver, de a sentir de uma forma palpável.
O desafio mantém-se, contudo, acutilante na sua aparente precaridade e fragilidade. Que missão de paz nos está destinada?
E de repente descobrimos que Jesus diz aos seus discípulos no Evangelho de São João que a sua paz não é como a paz do mundo, a paz que nos oferece não é igual à paz que o mundo nos oferece.
A paz que levamos, a paz que somos convidados a transmitir, a oferecer a todos aqueles com os quais nos cruzamos é assim algo de diferente, algo de distinto do que estamos habituados no mundo.
E então percebemos que não é visível, que não é palpável, que não a vamos encontrar ao virar da esquina.
Apesar da sua invisibilidade estamos contudo convocados à missão, a levar e a oferecer a paz a todas as casas.
É uma missão que nos ultrapassa, porque divina na sua origem, na sua essência e no seu fim, mas que não deixa de nos implicar nem envolver no concreto do quotidiano, pois ali estamos para o transformar, para o colocar no âmbito do divino.
Que a paz que vem de Deus inunde o nosso coração e nos anime e fortaleça na missão de a levar aos outros, de a entregar aos outros, tal como Deus no-la entregou a nós.
 
Ilustração: Nascer do sol no dia 7 de Fevereiro visto da janela do avião.

Ser forte

 
Sede fortes, sede valorosos; não receeis nem tremais diante deles. O Senhor vosso Deus avançará convosco e não vos desamparará nem abandonará.
Livro do Deuteronómio, 31,6

Ilustração: “A Fortaleza”, fresco do tecto da Sacristia da Sé de Lisboa.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Teu Pai vê o que está oculto (Mt 6,…)

Podemos dizer que a Quaresma se inicia com um refrão, como um refrão de uma canção que nos fica no ouvido e vamos repetindo ao longo do dia, ao longo dos tempos, “teu Pai vê o que está oculto”.
Jesus não insiste com os seus discípulos sobre o jejum, a oração e a esmola, aliás práticas comuns às diversas grandes religiões, e que certamente os discípulos já praticariam dentro dos ritos judaicos. Não havia portanto necessidade de insistir sobre o já praticado.
Diante de cada uma dessas práticas, Jesus chama a atenção para a visibilidade, para a visibilidade aos olhos de Deus Pai, a qual se opõe à visibilidade aos olhos dos homens. O verdadeiramente importante é assim o que Deus vê e o que Deus conhece.
Neste sentido e face ao exercício da oração, de esmola e do jejum que a Igreja nos convida a viver na Quaresma, não podemos deixar de ter presente a insistência de Jesus, a visibilidade divina das nossas práticas.
Esta recomendação contrasta e confronta-se contudo com a imagem que tendencialmente construímos diante dos outros, sobre a reputação com que tantas vezes nos preocupamos, e que inevitavelmente nos condiciona na nossa liberdade.
A recomendação de Jesus à visibilidade divina é assim uma proposta de liberdade, uma oferta de libertação que nos pode e deve acompanhar nesta Quaresma.
Que o Senhor veja o que bem fizermos no nosso percurso de preparação a celebração da Páscoa.
 
Ilustração: Árvore coberta de neve no jardim junto à escola de Vernier, Genebra.

Um desejo de oração

 
Eu rezo consigo, sentindo-me cada vez mais pobre, cada vez mais despojado, com um desejo de estar com Deus e que queime as minhas jornadas cheias e a abarrotar de palha vã, sem um grão.
Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Plantas lacustres do jardim botânico de Genebra

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O nosso que é dos outros

 
Possa o ano que se inicia trazer ao vosso coração inquieto esse orvalho que cobria o velo de lã de Gedeão. Possa ele persuadir-vos a tirar do vosso espirito essas coisas de que tanta gente tem necessidade e que consequentemente lhes pertencem mais que a vós.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Centro de exposição multimédia do CERN em Genebra.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O dia de hoje em Genebra

Foi em Genebra, numa cidade coberta de neve, que passei o dia de hoje e recebi a notícia da resignação do Papa Bento XVI. Uma surpresa que fica associada à surpresa da neve e de que as imagens são testemunho.
Que elas nos ajudem a encontrar a luz de Deus que não deixa de estar presente em todos os acontecimentos.
 
 
Assim nascia o dia de hoje em Vernier, nos arredores de Genebra.
 

A igreja paroquial de São Filipe e São Tiago em Vernier, Genebra.


O monumento dos Reformadores no Promenade des Bastions em Genebra.


A catedral de Notre-Dame de Genebra neste dia de de neve.





O respeito infinito pela PALAVRA

 
A verdade é que é necessário fazer tudo o que fazemos o melhor possível e tratar em particular a Palavra com um respeito infinito, afastando tanto os ornamentos ingeniosos como a negligência condenável.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Púlpito numa das colunas do cruzeiro da Catedral de São Pedro de Genebra

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Homilia do V Domingo do Tempo Comum

As leituras que escutámos conduzem-nos ao chamamento que o Senhor faz a cada um de nós, à nossa vocação comum e particular.
Neste sentido não posso deixar de recordar que foi um comentário, uma meditação escrita à volta das palavras de Jesus a Pedro, e que escutámos no Evangelho, “faz-te ao largo”, que despertou em mim o apelo de Jesus, a minha vocação sacerdotal.
Para um jovem que na altura tinha vinte anos, esta ordem de Jesus soou como um convite a uma forma de vida diferente, a um compromisso que ia para além do comum e do que fazia parte dos sonhos da maioria dos jovens.
De um momento para o outro ficar junto à praia, sentindo a segurança da areia, deixou de fazer sentir, o coração sentia a necessidade de mais, de uma aventura que os esquemas familiares, patriarcais, e profissionais comuns não garantiam.
Contudo, se esta história pessoal se assemelha a muitas outras histórias de vocação específica, não podemos deixar de assumir que o apelo de Jesus se dirige a cada um de nós e a todos de uma forma concreta nas diversas circunstâncias em que nos encontramos.
O apelo de Jesus a fazer-se ao largo é um apelo vocacional, mas antes de mais e fundamentalmente é um apelo de radicalidade e confiança, um apelo à insatisfação face ao comum, um apelo a arriscar apesar dos resultados frustrantes.
Como nos diz o Evangelho, Pedro e os companheiros tinham passado a noite na pesca mas sem terem conseguido apanhar peixe algum. Voltavam portanto à margem desanimados e desolados face aos resultados dos seus esforços nocturnos.
É diante desse desalento, desse fracasso, que Jesus ordena que se façam ao largo e lancem as redes, que não desistam mas arrisquem uma vez mais confiando na sua palavra e na oportunidade que lhes é proporcionada.
Diante desta ordem descobrimos em Pedro, como no texto do profeta Isaías da primeira leitura e na carta de São Paulo, como nos centramos em nós, como descobrimos a nossa incapacidade e a nossa impureza, e como na recusa da oferta de Deus inviabilizamos a realização da missão a que o Senhor nos chama.
De facto, como Isaías somos homens de lábios impuros, como Paulo somos indignos, e como Pedro podemos estar desalentados face ao fracasso do nosso esforço pessoal, mas se acolhermos o apelo de Deus, o seu poder e a sua graça podem alterar essa situação, podem colocar-nos num outro nível que viabiliza a acção demandada.
Fazer-se ao largo é assim um apelo de Jesus a cada um de nós, mesmo àqueles que um dia sentiram esse apelo como um convite a uma vocação sacerdotal ou consagrada. Também para eles o apelo continua a fazer-se ouvir no dia-a-dia e na radicalidade da confiança que comporta.
É no nosso mundo do trabalho, quando o desânimo já aperta, que o Senhor nos convida a fazer ao largo, a renovar o empenho e a expectativa face aos objectivos; é na nossa vida familiar, quando o individualismo nos aprisiona, que o Senhor nos convida a fazer ao largo, a não desistir do outro apesar das suas falhas.
É no nosso mundo interior, na nossa relação com Deus, que o Senhor nos convida a fazer ao largo, a não desistir de o procurar na escuridão da noite da fé; é na nossa vida eclesial em que tantas vezes nos vemos indiferentes que o Senhor nos convida a fazer ao largo, a perceber e a viver a Igreja para além do nosso grupo ou da nossa paróquia.
O convite de Jesus é afinal um convite a reconhecer como Paulo que somos o que somos, muitas vezes indignos e infiéis, mas também que a graça de Deus não é inútil e por isso fizemos algumas coisas boas e podemos fazer muitas outras, assim nos disponhamos a aceitá-la e a arriscar em ir um pouco mais além do nosso comum.
Com a graça de Deus, purificados pela sua acção, poderemos responder a Deus como Isaías, “eis-me aqui, podes enviar-me Senhor”.

 
Ilustração: “A pesca milagrosa”, de Konrad Witz, Museu de Arte e História de Genebra.

As lições da vida corrente

 
Fico admirado ao ver quanto a vida corrente me faz aperceber a cada instante as fraquezas e os defeitos de que jamais teria conhecimento se tivesse vivido totalmente só num deserto no meio de cacos de garrafas e serpentes sibilantes.
Paul Claudel a Louis Massignon
 
Ilustração: Composição do Metro de Genebra na Place de Neuve

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O resultado que supera o esperado

 
Eu fiz o que pude, e temo que mais mal que bem, mas graças à bondade divina e à boa natureza dos meus filhos o resultado final foi, pelo que me parece, mais bom que mau.
Paul Claudel a Louis Massignon
 
Ilustração: demonstração de brinquedos telecomandados em exposição de miniaturas em Genebra.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Caridade sem atracção

 
Eu devo assumir para mim próprio que uma caridade exclusivamente filantrópica e da qual Cristo seja severamente excluído terá pouco de atractivo.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Lago Le Léman visto desde Promenade du Lac.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Enviou-os dois a dois (Mc 6,7)

Para que alguma coisa funcione bem tem que ser pensada, imaginada, ensaiada. Podemos ter como exemplo paradigmático a declaração de amor, o pedido de namoro, em que cada um imagina, pensa, ensaia como fazer e o que dizer para que tudo corra bem e chegue a bom termo.
No mundo profissional e dos negócios também as coisas assim funcionam e por isso quase todos os dias nos deparamos com reuniões para definir objectivos, estabelecer estratégias, avaliar resultados.
Jesus não foi muito diferente quando enviou os discípulos dois a dois a anunciar a Boa Nova do Reino, era necessário fazer um ensaio, uma primeira aproximação ao que os esperava no futuro. Assim, e como num primeiro mergulho na água da piscina, os discípulos são enviados dois a dois, com um conjunto de recomendações, poderíamos dizer com linhas estratégicas bem definidas.
Contudo, e olhando apenas do nosso lado humano, podemos questionar-nos sobre a eficácia da missão face às condições, à logística necessária, ou melhor dizendo, à sua ausência. Não levar dinheiro, não levar bagagem, sem qualquer suporte, que resultados se poderiam esperar?
Jesus coloca os discípulos na linha da sua pobreza, na linha da sua confiança total no Pai, que assegurará as condições necessárias para o bom prosseguimento e alcance dos objectivos da missão. Afinal os resultados não lhes dizem respeito, mas apenas a colaboração, a participação sincera, livre, e responsável na realização da missão. O essencial é afinal a confiança na acção de Deus nas nossas próprias realizações limitadas e frágeis.
Contudo, e porque nos poderíamos perder nesta confiança, porque poderíamos perder a esperança, Jesus enviou os discípulos dois a dois, enviou-nos em comunidade, porque dessa forma nos podemos apoiar, nos podemos animar e até ver a missão com outra objectividade. Duas cabeças pensam melhor que uma, e quatro olhos vêem melhor que dois.
O envio dos discípulos com as recomendações apresentadas por Jesus é assim um convite à confiança, à confiança em Deus, que não nos desamparará, e à confiança nos irmãos que nos enriquecem com a sua companhia.
Transportamos um tesouro em vasos de barro, mas na medida da nossa pobreza confiante no Senhor e nos irmãos esse tesouro terá uma força dinâmica que nos ultrapassa e que dará os seus frutos em devido tempo.

 
Ilustração:  “Jesus enviou-os dois a dois”, de James Tissot, Brooklyn Museum.