domingo, 31 de março de 2013

Homília do Domingo da Ressurreição do Senhor

A leitura do Evangelho de São João que escutámos neste Domingo de Páscoa, domingo da Ressurreição de Jesus, apresenta-nos as figuras de Maria Madalena, que indo de manhã cedo ao sepulcro o encontrou vazio, a figura de Pedro que correu para ver a novidade que Maria Madalena imediatamente tinha comunicado aos discípulos, e a figura do discípulo amado, que chegou antes de Pedro mas só entrou depois dele e foi o primeiro que acreditou.
Diante destas três figuras, destes três discípulos de Jesus, podemos perguntar-nos o que afinal viu o discípulo amado que lhe permitiu acreditar, enquanto Pedro e Maria Madalena viram exactamente a mesma coisa, a mesma realidade do túmulo vazio, e não souberam o que acreditar, não foram capazes de acreditar.  
Para compreendermos o mistério da fé do discípulo amado temos que percorrer a sua relação com Jesus, perceber os laços que se foram tecendo e permitiram acreditar na ressurreição do Mestre diante de um sepulcro vazio e dos restos da mortalha.
Antes de mais temos o primeiro contacto, um seguimento após João Baptista lhe ter indicado, a ele e a André, irmão de Pedro, que aquele que passava era o Cordeiro de Deus. Face a estas palavras, os dois discípulos de João Baptista deixam o mestre do Jordão e seguem Jesus.
Ao vê-los, Jesus, pergunta-lhes o que procuram e eles respondem-lhe com uma pergunta, “onde moras Mestre?”, manifestando desta forma um interesse de intimidade, de um morar com ele que mais nenhum outro discípulo manifestou.
Na celebração da última ceia vemos como esta intimidade, este morar junto, é já tão profundo que o discípulo amado está não só sentado ao lado do Mestre, mas, como nos diz o texto do Evangelho, repousa sobre o seio do Mestre. À semelhança de Jesus que habita o seio do Pai, também o discípulo amado habita o seio do seu Mestre.
O título de discípulo amado não se reduz assim a uma predilecção afectiva, a um grau superior de amizade, mas traduz um tipo de relação que assenta na partilha do conhecimento e da intimidade.
Na cultura rabínica o discípulo amado era aquele que estava encarregue de registar e tomar conta de todas as palavras do rabi, do mestre, de modo a que a sua memória se perpetuasse. O discípulo predilecto, amado, deveria incarnar a memória, permanecer como a testemunha autêntica de todos os gestos e palavras, de toda a doutrina.
Ao ser colocado ao lado de Jesus, com a possibilidade de repousar a cabeça sobre o seu seio, o discípulo predilecto do Evangelho de São João incarna a missão do discípulo rabínico, uma missão que lhe permite perguntar e identificar o traidor como também reconhecer e identificar o mestre quando lhes aparece nas margens do lago dias depois da ressurreição.  
Esta missão de perpetuador da memória do Mestre é neste momento explicitamente manifestada, quando Pedro, depois de confirmado na fé e na missão, interroga Jesus pelo discípulo amado, que o tinha reconhecido, e manifesta a Jesus a preocupação pelo seu futuro.
Diante de tal preocupação Jesus apenas responde a Pedro que o siga, porque o discípulo amado tem a sua missão, é afinal o depositário da memória e por isso poderá ficar até que Jesus volte.
Face ao percurso do discípulo amado no Evangelho de São João e à sua missão, fruto da relação de intimidade com Jesus, percebemos como no momento da ressurreição, quando se deparam com o túmulo vazio, ele é o primeiro a acreditar.
A sua relação com Jesus, o habitar no seu seio, com o que isso comporta de conhecimento dos sinais, como o bocado de pão molhado e entregue a Judas na última ceia, permite-lhe reconhecer e acreditar na ressurreição.
Neste sentido, também cada um de nós é convidado a viver a intimidade com Jesus, a procurar habitar no seu seio, a conhecer os sinais e a reconhecê-los à luz da Palavra que nos é comunicada, dos ensinamentos que nos são transmitidos.
Na medida da nossa relação e da sua profundidade poderemos encontrar-nos com o túmulo vazio, com o mistério da morte e da dor, mas ainda assim não deixaremos de acreditar, pelo contrário poderemos acreditar ainda mais, com uma fé mais convicta, porque os sinais vazios aos olhos estarão habitados pela presença de Deus.
A celebração da Páscoa, da memória da ressurreição de Jesus é afinal um incentivo, um despertar, para essa nova realidade em que somos convidados a viver, pois como diz São Paulo na Carta aos Colossenses a nossa vida está escondida em Deus e a vida de Deus está escondida em cada um de nós.

 
Ilustração: “Visão de Jerusalém de São João Evangelista”, Pormenor, de Alonso Cano, Wallace Collection.  

Ressurreição de Jesus


Na ressurreição de Jesus tem início uma nova condição do ser homem, que ilumina e transforma o nosso caminho de todos os dias e abre um futuro qualitativamente diverso e novo para toda a humanidade.
Bento XVI, Papa – Audiência de 27 de Abril de 2011
Ilustração: A Ressurreição de Jesus, de Jacopo Tintoretto, Scuola Grande di San Rocco, Veneza.

Votos de Santa Páscoa

VOTOS DE SANTA PÁSCOA



Na Alegria da Ressurreição de Jesus


Desejo a todos


Santa e Feliz Páscoa.




Ilustração: A Ressurreição, de Peter Paul Rubens, Catedral de Santa Maria de Antuérpia

sábado, 30 de março de 2013

Vigilantes aguardamos

 
Vigilantes aguardamos o brotar do lume novo, o fogo da aurora da nova humanidade.
 
"As trevas estão a passar e já brilha a verdadeira luz. Quem diz que está na luz e odeia o seu irmão, ainda se encontra nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e não há nele ocasião de pecado." (1Jo 2,8-10)
 
Ilustração: "Explosão de fogo e noite de luar", de Thomas Cole.

Onde os olhos se fixam

 
Tive sempre os olhos fixos na glória e na misericórdia de Deus num caminho que me levou através do mundo inteiro e através de todas as paixões humanas.
Carta de Paul Claudel a Alphonse-Marie Achard osb

Ilustração: Apoteose da Cruz na cúpula da igreja da Abadia de Saint Gallen.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sexta-Feira da Paixão


O crucifixo para ler

 
O meu grande livro, de onde hei-de receber daqui em diante, com maior cuidado e afecto, as divinas lições de suma sabedoria, é o Crucifixo. Tenho de me habituar a julgar os acontecimentos e toda a ciência humana segundo os princípios desse grande livro.
Papa João XXIII, Diário da Alma
 
Ilustração: Crucifixo em marfim do Convento do Bom Sucesso.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Homília da Missa da Ceia do Senhor

O Evangelista São João não narra a última ceia de Jesus, tal como a encontramos nos outros três Evangelhos e na Carta de São Paulo aos Coríntios que escutámos. No entanto, narra no contexto dessa última ceia, o extraordinário gesto de Jesus de lavar os pés aos discípulos quando eles estão sentados à mesa da festa.
Partindo do facto de ter chegado a hora de Jesus, essa hora que desde as bodas de Caná Jesus vinha esperando, São João apresenta o gesto extraordinário e inusitado de Jesus, justificando-o ainda antes mesmo de acontecer.
Assim, a lavagem dos pés aos discípulos é a manifestação do grande amor de Deus pelas suas criaturas, pelo homem; um amor que vai até ao extremo, até ao fim, até à pequenez do próprio homem.
Deus, nesse amor pelo homem, desce da sua glória divina e vem ao encontro do homem, desce à condição da finitude e da fragilidade do homem. Deus ajoelha-se diante do homem desde o primeiro momento do mistério da encarnação e na última ceia Jesus ao despir-se do seu manto, ao tomar uma toalha e ao ajoelhar-se diante de cada um dos discípulos manifesta de forma visível, experimental para aqueles homens ali presentes, o mesmo mistério de abaixamento de Deus, o chamado mistério da “kenosis”.
Ao prestar o serviço do servo, do escravo, Jesus oferece àqueles homens e a cada um de nós, que aceita este mesmo serviço pelo baptismo e pelo sacramento da reconciliação, a dignidade para se poderem sentar à mesa. Por isso, quando Pedro se recusa a aceitar o serviço de Jesus, um serviço e um gesto que contradizia as suas expectativas mais mundanas de glória e poder, Jesus lhe responde que se não se deixar lavar não poderá tomar parte com ele.
De facto, só Jesus nos pode fazer tomar parte, só Jesus nos pode dignificar para nos sentarmos à sua mesa; a nossa condição pecadora e finita jamais nos poderá alcançar tal graça, tal estatuto e tal dignidade. Ao ajoelhar-se diante de nós, de cada homem, Jesus reabilita-nos e restaura-nos na nossa condição de filhos. Tal como o filho pródigo somos revestidos de novas roupas e somos desposados com o anel da aliança de Deus para com a humanidade.
Contudo, o episódio da lavagem dos pés aos discípulos mostra-nos que há possibilidade de ficarmos de fora, de não estarmos todos limpos, tal como Jesus anuncia aos doze depois de lhes lavar os pés. “Vós estais limpos mas não todos.”
Judas é aquele que não está limpo, e tal acontece porque recusa o dom do amor, o dom da pura gratuidade, o dom sem contrapartidas.
E vemos esta sua recusa de uma forma explícita em casa de Lázaro pouco tempo antes, quando Maria unge e perfuma os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro. Diante desse gesto, também ele de amor gratuito, Judas mede, avalia, faz contas, toma posse e faz cálculos ao que considera um desperdício.
Tal atitude, tal recusa do dom, conduze-o à mentira, à falsidade, à duplicidade e ambiguidade de continuar a pertencer a um grupo e de seguir um Mestre para o qual afinal já fechou o coração, ao qual já deixou de acolher na sua oferta diferente.
Hoje, neste dia em que celebramos a instituição do sacramento da Eucaristia, o sacramento do banquete, a oferta do dom do amor, o Senhor chama-nos a atenção para a nossa auto-suficiência, para a tentação de também recusarmos o dom do amor, o dom que se serve humilde e em serviço.
Talvez porque esta tentação é forte, Jesus disse aos discípulos e a cada um de nós que nos deixava o exemplo, para que também nós aprendêssemos a lavar os pés uns aos outros, para que não tivéssemos medo do serviço humilde do servo.
Um serviço, um lavar os pés, que pode significar a solidariedade, a caridade, com aqueles que estão doentes, com os que estão presos, com os que são marginalizados e excluídos.
Mas um lavar os pés que não podemos deixar de aceitar e acolher quando temos também que descer ao erro do outro, às suas fraquezas e debilidades, à sua recusa do nosso próprio amor.
Lavar os pés é assim não deixar de acreditar no outro apesar dos seus erros, das suas falhas, é continuar a esperar, ainda que possa parecer inútil, um combate sem fim. Deus veio ao nosso encontro quando ainda eramos pecadores, e desceu da sua glória para vir ao nosso encontro, não se apresentando de forma extraordinária como se apresentou no monte Sinai ao povo de Israel, ou quando na noite de Páscoa passou pelo Egipto. Deus veio despojado e pobre, humilde e como servo disposto a servir livremente.
Se formos capazes de nos baixar para lavar os pés uns aos outros, como o fez Jesus, podemos ousar apresentar-nos à mesa, pois aquele que nos serve reconhecer-se-á em cada um de nós, reconhecerá os seus irmãos, os seus amigos, os mais pequenos em que nos desafia no seu amor.

 
Ilustração: “Jesus lava os pés aos discípulos”, de Palma Giovane, San Giovanni in Bragora, Veneza.

Fazer alguma coisa pela Igreja

 
Sentir que se pode fazer qualquer coisa pela Igreja, esta Igreja que tudo me deu, ou melhor dizendo, que me refez maternalmente dos pés à cabeça, e tantas vezes, com uma paciência incansável, retomou a sua obra em mim, que doce pensamento!
Carta de Paul Claudel citada por frei Humbert Bouëssé

Ilustração: Basílica de Notre-Dame de Genebra coberta de neve.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Era noite. (Jo 13,30)

É São João que no seu Evangelho nos diz que quando Judas abandonou a última ceia era noite. Podemos pensar num pormenor temporal, numa indicação que se complementa com os dados dos outros Evangelhos, pois por eles sabemos que Jesus celebrou a ceia ao final da tarde. Seria normal que face ao ritmo prolongado e tranquilo da ceia Judas tivesse saído já de noite.
Contudo, a verdade é que estamos diante de algo mais significativo e importante que um pormenor de tempo, uma descrição horária. A noite de que fala São João é afinal a imagem, a metáfora para apresentar o estado de espirito em que todos se encontravam.
Por um lado temos os discípulos, desconcertados com o gesto surpreendente de Jesus lhes querer lavar os pés, e com o anúncio de um traidor entre o grupo dos íntimos, daqueles que tinham partilhado a mesma mesa. Era a noite da incerteza, da desconfiança, da dor de se encontrarem com um traidor no seio do grupo.
Temos também a noite de Judas, a noite da liberdade de entregar o Mestre, da recusa da última oferta de Jesus, e a noite de Pedro que na sua prontidão em acompanhar e defender Jesus se vê confrontado com o anúncio de três negações.
E por fim temos a noite de Jesus, a noite daquele que desce até às profundezas das trevas do homem, às trevas de uma liberdade que causa a própria destruição. É a noite da solidão, da traição e do abandono, é a noite do desespero face à recusa do homem em acolher o dom que lhe é oferecido.
Mas eis que nesta noite, nestas trevas brilha uma luz, uma centelha que faz despertar a esperança. A misericórdia de Deus é capaz de superar a falta do homem, o abandono e a traição.


Ilustração: "Última Ceia", de Nikolai Ge, Museus Russos.

 

As almas têm necessidade de oração

 
As almas têm uma imensa necessidade de oração e baixando todas as barreiras permite-se-lhes ir a Deus directamente.
Carta de Paul Claudel a Henri Bremond
Ilustração: Escultura “A oração” de Jean Daniel Guerry em Genebra.

terça-feira, 26 de março de 2013

O discípulo amado

 
 
Ilustração: Última Ceia, (Pormenor), de Jacobo Tintoretto. 

A caridade projecta para longe

 
A caridade liga-nos, encadeia-nos e projecta-nos sempre mais longe do que nós queríamos. É o pressentimento desta lei que nos faz a todos resistentes à graça.
Carta de Monsenhor A. Bressolles a Paul Claudel
Ilustração: Árvore coberta de neve no jardim perto da igreja paroquial de Vernier.

segunda-feira, 25 de março de 2013

O perfume derramado por amor (Jo 12,3)

Sem que alguém algum dia o sonhasse,
Tu chegaste e ajoelhaste.
Marta servia os convidados, distraída da tua ausência,
Teu irmão brindava à vida, reavida.
E tu ali, aos pés de Jesus
Sem que ninguém suspeitasse do teu gesto,
Nem Jesus.

 
E partes o frasco, o perfume se derrama
Inunda a casa e os olhos te olham
Que loucura! Que loucura!
Uma libra de puro nardo, os teus cabelos como linho,
Os pés de Jesus ungidos, o teu gesto de ternura.

 
Os pobres, e os pobres, que desperdício!
Reclama aquele que se vendeu,
Incapaz de compreender o dom,
O dom sem medida do amor.

 
O amor é tudo dar, o melhor que há
Sem medida nem cálculo.
Porque a medida do amor,
É amar sem medida!

 
Maria do perfume de nardo,
Que profetisas o dom sem medida,
A morte do amor pelo amor.
O teu perfume derramado
É já sinal da vida entregue
É já vitória sobre a morte.

 
Ilustração: Conversão de Maria Madalena, de Paolo Veronese, National Gallery, Londres.
 

A resposta de Maria

 
Fidelidade, pureza, castidade, dom total de si, humildade infinita, eis tudo o que ressoa na resposta de Maria ao Anjo: “Eu sou a serva do Senhor, que se faça em mim segundo a tua palavra.
Alexandre Schmemann
 
Ilustração: Vitral da Anunciação na Catedral de Notre-Dame de Genebra.

domingo, 24 de março de 2013

Homilia do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

Estamos a dar início à Semana Santa, a semana maior do ano litúrgico, semana em que recordamos e comemoramos os acontecimentos que constituíram a Páscoa do Senhor e conduziram à nossa salvação.
Iniciamos esta semana também com um rito particular, uma celebração especial, constituída pela bênção e procissão dos ramos, imitando a multidão dos discípulos que aclamaram Jesus como Messias com palmas e ramos de oliveira.
A leitura do relato da Paixão que acabámos de escutar apresentou-nos os acontecimentos que marcam a semana que agora iniciamos, a última ceia de Jesus com os discípulos, a sua prisão e julgamento e por fim a sua execução na cruz e morte.
Nesta riqueza de elementos litúrgicos e textuais convém não perder o sentido da procissão dos ramos e do que verdadeiramente aconteceu e comemoramos quando nos dispomos a aclamar Jesus com palmas e ramos.
Neste sentido, convém ter presente que há uma discrepância entre o nosso imaginário e aquilo que Evangelhos sinópticos nos relatam e certamente aconteceu historicamente. A imagem e ideia que nós habitualmente temos de uma entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém é apresentada pelo Evangelho de São João, uma entrada que os outros Evangelhos apresentam numa versão mais comedida, mais circunstanciada aos discípulos e portanto mais verosímil historicamente.
Assim, no Evangelho de São Lucas que escutámos, encontramos Jesus ainda fora de Jerusalém, à distância de uma viagem permitida pelo sábado. São Lucas tem ainda o cuidado, para reforçar a localização do acontecimento, de registar que quando Jesus viu a cidade de Jerusalém, desde o alto do monte das oliveiras, chorou porque ela não era capaz de reconhecer aquele que vinha como o Messias anunciado.
Este acontecimento insere-se assim na última etapa da subida de Jesus para Jerusalém e por ele podemos perceber a missão profética e real de Jesus, o cumprimento das profecias messiânicas. Podemos perceber também que face aos acontecimentos dolorosos e frustrantes de Jerusalém, ao desenlace contra todas as expectativas, há a necessidade de alimentar a fé, de fornecer elementos que permitam acreditar para além do desastre.
Neste sentido a dimensão profética de Jesus é assinalada e manifestada pelo seu conhecimento do futuro. Tal como um profeta, Jesus tem conhecimento do que o espera, e por isso avisa já os discípulos do que se passará na aldeia com os donos do jumentinho e posteriormente com a sala onde comerão a última ceia. Jesus apresenta-se como senhor dos acontecimentos e os discípulos não devem perder essa confiança e essa perspectiva quando os acontecimentos mais dolorosos se perfilarem diante dos seus olhos.
Mas para além de profeta, Jesus é também um rei, um rei que vem à sua cidade santa e para dar cumprimento à profecia de Zacarias que promete a entrada do rei na cidade montado num jumentinho.
A requisição do jumentinho por parte de Jesus é assim a manifestação de uma prerrogativa real, pois desde o profeta Samuel que o rei é descrito como aquele que pode tomar os animais dos seus súbditos para os colocar a trabalhar para si.
Este jumentinho, montada do rei humilde e pacífico profetizado por Zacarias, opõe-se também à mula utilizada por Salomão aquando da sua coroação e entrada na cidade santa. Há assim uma oposição entre o rei sábio mas fruto do pecado e da violência, e o rei humilde e pacificador, fruto da acção de Deus e da pureza da virgem.
Face a estes sinais, os discípulos não podem deixar de acreditar e proclamar que Jesus é o Messias, é o rei de Israel. Contudo, a forma como o fazem é ainda limitada e denunciadora de uma visão desencontrada com a verdade dos acontecimentos e da missão de Jesus.
Assim, e comparando com o que se passou na noite de Natal, no momento do nascimento do Messias, o louvor dos discípulos distancia-se do louvor dos anjos, do anúncio feito aos pastores, pois enquanto os anjos cantavam “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens”, os discípulos cantam “paz no céu e glória nas alturas”.
A paz que os discípulos proclamam é ainda uma paz que se situa nos céus, fora ainda do alcance dos homens, uma vez que o rei ainda não tomou posse do seu trono, enquanto os anjos proclamam a paz na terra, a paz ao alcance de todos os homens num menino humilde e frágil, que tomou posse do seu trono que é a natureza humana.
Ao aproximar-se o fim da viagem e da vida de Jesus manifesta-se a sua identidade, que é assumida pelo próprio ao denominar-se “Senhor”, enquanto até aqui sempre se tinha apresentado e identificado como “filho do homem”.
A celebração da procissão dos ramos, com o que comporta de aclamação e louvor de Jesus que vem até nós, aparece-nos assim, no início da Semana Santa, como um alento, um recordar da identidade profética e real de Jesus, para que diante dos acontecimentos da Paixão não percamos a esperança nem desertemos como fizeram os discípulos.
Face à paixão e à morte ancoramos a nossa esperança e a nossa fé na aclamação dos anjos, na alegria dos pastores, a paz está já entre os homens, num menino que é rei e sobe ao trono em cada coração humano que o acolhe como salvador.
 
Ilustração: Entrada de Jesus em Jerusalém, Armadio degli argenti, Beato Angélico, Museu de São Marcos, Florença.

O método de Claudel

 
O meu método, como lhe chama, é simplesmente colocar-me diante de um texto que acredito divino, numa atitude de humilde receptividade, para extrair para meu uso pessoal tudo o que ele possa conter de sabor e de luz.
Carta de Paul Claudel a Amédée Brunot

Ilustração: Relevo com as tábuas da Lei na capela do Palácio de Versailles.

sábado, 23 de março de 2013

Que vos parece, virá à festa? (Jo 11,56)

A pergunta que muitos judeus, que tinham subido a Jerusalém para a festa da Páscoa, fazem sobre a vinda ou ausência de Jesus na festa, assemelha-se a uma pergunta de sondagem, a um estudo de opinião. Que vos parece, virá ou não virá?
Podemos imaginar a diversidade de opiniões e de comentários, as contradições e os boatos, os rumores e os desmentidos, a própria busca por entre os transeuntes, os desconhecidos que chegavam a cada momento à cidade.
Por este interesse e as diversas respostas e atitudes possíveis, podemos perceber como Jesus se tinha transformado num fenómeno, sobre o qual poucas certezas há mas sobre o qual todos têm opinião.
A incerteza abre a porta à manifestação das preocupações políticas e religiosas, às baixezas dos interesses mesquinhos, ao medo da perda dos lugares de poder e influência de muitos na cidade.
Se Jesus vem à festa que será dos sacerdotes, que será dos escribas, dos governadores, daqueles que se servem do poder religioso e político para satisfazer os seus apetites?
No fundo todos sabem que se Jesus vem à festa, haverá transformações, haverá algo novo porque Jesus tem mostrado que há algo novo a despontar, há um outro mundo que é possível instaurar.
Esta consciência da novidade e da diferença vai criando um fosso cada vez maior entre Jesus e aqueles que têm o poder, um abismo vertiginoso entre Jesus e os seus opositores.
Apesar de tudo, apesar do perigo eminente, Jesus sobe à cidade santa, sobe para a festa da Páscoa, sobe para dar início a um novo mundo, ainda que da forma mais insuspeita, inimaginável, para aqueles que temiam a sua vinda. Jesus caminha livremente para a sua paixão, livre face às hostilidades contra ele.
No momento em que nos preparamos para iniciar a Semana Santa, esta caminhada livre de Jesus para Jerusalém convida-nos a contemplar a grandeza da obra de Jesus, a responder à pergunta que faziam os judeus em Jerusalém.
Que vos parece, se Jesus vem à festa, estais dispostos a acompanhá-lo?

 
Ilustração: A conspiração dos judeus, de James Tissot, Brooklyn Museum.

Como Deus nos ensina a conhecê-lo

 
Para nos ensinar a conhecê-lo Deus serve-se das criaturas que criou e dos acontecimentos a que dá origem e dirige.
Carta de Paul Claudel a Amédée Brunot

Ilustração: Flores instaladas na fonte ao princípio da Rue Calvin em Genebra.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Tu sendo homem te fazes Deus (Jo 10,33)

Mais uma vez os ouvintes de Jesus apanham pedras para lhe atirar, mais uma vez a violência apresenta-se como resposta para uma situação.
Desta feita a violência aparece como solução para aquilo que consideram como blasfémia, um homem, um homem como eles, assume-se filho de Deus, assume-se como Deus.
A consideração deles sobre as palavras de Jesus, a acusação de blasfémia está no entanto trespassada de incoerência, de falsidade, porque já antes Deus tinha tratado os homens por deuses, os tinha equiparado a Deus. À luz dessas palavras de Deus Jesus podia considerar-se como Deus, mesmo que fosse apenas homem.
O juízo sobre as palavras de Jesus, a considerada blasfémia não é assim mais que uma manifestação de inveja, mais que a manifestação da mesquinhez daqueles que sabiam que podiam reclamar o estatuto de deuses mas não o faziam.
Contudo, como houve alguém que o fez e reclamou esse estatuto, com todo o direito de reclamar porque lhe era natural, eles não foram capazes de aceitar nem perdoar tamanha ousadia.
Estes homens enveredam assim pelo caminho da obstrução, da destruição, da violência, quando pelo contrário deveriam ter-se alegrado, deveriam ter rejubilado, pois aquele que reclamava o título e o estatuto apresentava obras que confirmavam o poder para essa reclamação.
Também hoje encontramos homens e mulheres que se refugiam na violência porque outros reclamam uma identidade diferente, um estatuto diferente. Também hoje encontramos homens que enveredam pela violência porque outros se reclamam filhos de Deus em Jesus Cristo e por Jesus Cristo. A perseguição aos cristãos em vários países do mundo é uma continuação do gesto daqueles homens que pegaram em pedras para assassinar Jesus.
Contudo, e apesar do perigo, da ameaça de vida, é fundamental que continuemos a anunciar a todos os homens que são deuses, que estão imbuídos duma dignidade divina que os convoca a uma outra vida, a uma plenitude das várias realidades que compõem a vida de cada homem e de todos os homens.
Abdicar desta missão será abdicar da sobrevivência da humanidade, será pegar também nas pedras e atirá-las a si próprio.
 
Ilustração: Jesus Cristo, de Heinrich Hofmann, Riverside Church, Nova-York.

Humildade face à Sagrada Escritura

 
A primeira disposição requerida é um espirito de profunda humildade, de reverência, de entrega total do coração e do espirito, de confiança absoluta nestes documentos sacrossantos. É Nosso Senhor que desejamos escutar e não a palavra dos homens.
Carta de Paul Claudel a Amédée Brunot
 
Ilustração: Torre sobre os telhados cobertos de neve da abadia de Saint Gallen.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O estudo da Sagrada Escritura

 
É necessário que o estudante (da Sagrada Escritura) se diga a cada linha: É Deus que fala, é Deus que me fala. É a mim que Ele escreve isto, do seu punho. Ele responde-me antecipadamente.
Carta de Paul Claudel a Amédée Brunot
Ilustração: Escultura do Evangelista São Mateus na fachada da igreja reformada de São Lourenço em Saint Gallen.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Se fosseis filhos de Abraão faríeis as obras de Abraão (Jo 8,39)

Depois do incidente com a mulher apanhada em adultério encontramo-nos no auge da polémica de Jesus com as autoridades religiosas do templo e da cidade de Jerusalém.
Face às suas palavras e aos seus gestos, como a cura do cego de nascença, alguns começam a questionar-se sobre este homem, este profeta que desafia as autoridades, que tem uma palavra que cativa e transforma.
Alguns começam mesmo a acreditar nele e regressam de alguma forma diferentes, como os guardas do templo que não foram capazes de o prender por causa das palavras com autoridade como nunca tinham escutado.
Outros no entanto radicalizam as discussões e as questões, e ainda que tendo aderido ao grupo de discípulos ficam profundamente incomodados quando Jesus os confronta com a necessidade de acreditar nele de maneira a modificarem as suas vidas.
Há a necessidade de permanecer na sua palavra, de não ficar apenas na satisfação do momento e do simpático, porque só através dessa permanência a palavra poderá operar uma verdadeira libertação, uma alteração da vida.
É face a esta liberdade, à libertação que se oferece, que alguns dos que tinham aderido a Jesus se revoltam e questionam e colocam em causa as suas palavras, pois afinal eles eram descendentes de Abraão e não se sentiam escravos necessitados de libertação.
Num desafio sem igual, Jesus confronta estes homens, que se consideravam livres, com a necessidade das obras de Abraão, de agirem como Abraão tinham agido, pois só dessas forma se poderiam considerar verdadeiramente livres.
Jesus recorre ao mais fundamental, ao elemento mais profundo da identidade do povo, a fé de Abraão, a sua resposta e adesão a uma proposta da parte de Deus completamente insuspeita, completamente nova e radical.
Afinal Abraão é convidado por Deus a deixar a sua terra, a sua família, o que conhece e lhe dá segurança, para partir para uma terra que desconhece e para uma promessa de descendência que pode não vir a acontecer.
Abraão acreditou na palavra e na promessa de Deus e afinal é isso que Jesus espera e pede àqueles homens, que acreditem na sua palavra, que confiem, que tenham fé, ainda que isso implique igualmente abandonar as seguranças do conhecido.
Permanecer na palavra, que não é um lugar físico como uma casa ou um oásis no meio do deserto, é afinal permanecer no dinamismo da fé, na aventura de quem arrisca confiante, é permanecer na fecundidade da promessa que é feita por quem não pode mentir nem se pode enganar.
Num mundo em que tantas ofertas de liberdade se nos apresentam, com as contrapartidas que todos conhecemos, Jesus oferece-nos ainda hoje a liberdade, a sua liberdade, uma liberdade que nasce da verdade de sermos homens chamados à plenitude acolhendo a condição de ser filhos de Deus.
 
Ilustração: Jornada de Abraão de Ur para Canaã, de József Molnár, Galeria Nacional da Hungria.

Sentidos da Bíblia

 
Há mais que um sentido em cada uma das palavras da Bíblia, uma vez que elas se dirigem a todas as situações, a todos os tempos e a todos os homens. Mas também não há mais que um único sentido e que é o do amor de Deus.
Carta de Paul Claudel a Amédée Brunot
Ilustração: Fachada da igreja da Santíssima Trindade em Genebra.

terça-feira, 19 de março de 2013

São José e a luz que vem ao mundo

A forma como o Evangelho de São Mateus nos apresenta o nascimento de Jesus deixa-nos perceber que a determinado momento José toma conhecimento do filho que Maria sua esposa prometida transporta já em si.
Surpresa no meio de um noivado que se perspectivava feliz, que se aprontava para ser íntima e verdadeiramente consumado como todos os noivados, como todos os projectos de amor entre um homem e uma mulher.
Esta novidade surge como uma traição, um abandono, como uma marginalização, pois o seu projecto de paternidade é ultrapassado e relegado por um outro projecto de paternidade. Os sonhos de um filho caiem assim por terra e como que põem fim a uma relação. José encontra-se na situação de alguém que foi superado, que passou à condição de inútil.
É o tempo do medo e da inquietude, da preocupação e da ansiedade, porque há que encontrar uma solução para que, aquela que José ama, verdadeiramente e do mais fundo do seu coração, não seja maltratada, não sofra a violência do castigo que a lei prevê para tal tipo de infidelidades.
No meio deste deserto, no meio do sofrimento, encontrada uma solução que é justa, José é convidado a participar do acontecimento. A infidelidade daquela que ama é-lhe oferecida como desafio de responsabilização, como uma outra oportunidade, uma verdadeiramente outra oportunidade.
José não deve repudiar em silêncio a mulher que ama, deve acolhê-la com toda a novidade, com tudo o de extraordinário que transporta, porque também a ele lhe está destinada uma missão extraordinária, uma missão que o ultrapassa, e que é a de dar o nome ao filho que não é seu.
Um nome que contêm em si uma dimensão e realidade messiânicas que por mais que fosse pai jamais poderia outorgar a qualquer dos filhos que pudesse ter. Por maior que fosse a sua descendência de David, a sua linhagem ancestral, não teria nunca condições para denominar o seu filho de Messias.
À extraordinária concepção do filho que Maria traz no ventre acresce assim para José a extraordinária possibilidade e missão de dar um nome e um título ao filho que acolhe como seu. É a ele que compete estabelecer intrinsecamente a linhagem com David, a filiação davídica e dá-la a conhecer a Jesus, compenetrá-lo dela e das suas consequências.
Por esta razão José aparece silencioso em todos os Evangelhos, a sua missão estava completa, e aparece em muitas representações pictóricas do nascimento de Jesus com uma lanterna na mão, simbolizando com tal luz a iluminação que lhe foi destinada realizar junto daquele mesmo que nasce e é Filho de Deus e de todos os que se aproximaram para ver a novidade extraordinária.
Também nós hoje somos chamados como José a acolher a novidade do Filho de Deus e a iluminar a nossa vida e a vida dos nossos irmãos com a luz eterna que nos traz.

 
Ilustração: São José, do painel da Natividade de Robert Campin, Museu de Belas Artes de Dijon.

Sereno São José

 
Que terno, tranquilo, suave, sereno é o pensamento de São José. No meio da minha persistente inapetência, pedi-lhe uma coisa: o verdadeiro espirito da vida interior, especialmente a graça de fazer bem a meditação e a sagrada comunhão.
Papa João XXIII, Diário da Alma

Ilustração: Vitral da Basílica de Notre-Dame de Genebra com a Sagrada Família.  

segunda-feira, 18 de março de 2013

Quem me segue não anda nas trevas (Jo 8,12)

Podemos perguntar-nos se a nossa vida, naquilo que ela tem de finitude, de fragilidade, não é uma longa marcha pelas trevas, pela noite escura, para usar uma expressão tão querida a São João da Cruz?
Quantas vezes, quantos dias, não fazemos essa experiência e temos essa impressão de estar rodeados de escuridão, das trevas do sem sentido de tantas realidades, da violência que nos alcança ou que apenas visionamos nos blocos noticiários, da doença, dos nossos defeitos e misérias?
E no meio dessas experiências, dessas realidades, continua a fazer-se ouvir o apelo de Jesus, “segue-me, quem me segue não anda nas trevas”.
Mas seguir-te para onde Senhor, se os teus passos se encaminham para Jerusalém, para um fim que não podemos deixar de perceber desde já como uma densa treva, uma noite atroz de sofrimento, de solidão e de morte?
A cruz é um desastre, um desastre terrível, onde sabemos já que se experimenta a humilhação mais vil, onde as trevas se fazem mais densas pela solidão e pelo abandono dos amigos, onde a morte é mais ignominiosa pela exposição sem pudor do corpo maltratado.
E continuas a dizer-nos que te sigamos, sem medo; continuas a convidar-nos sem qualquer malícia ou subterfúgio, porque na tua experiência da noite e das trevas te encontrastes com a vitória da ressurreição, te encontrastes com a luz do amor que oferecestes ao Pai e te salvou das trevas.
Depois da manhã de Páscoa deveríamos todos saber, de uma vez para sempre, que desde a tua cruz, desde o teu sacrifício, da tua entrega de amor, as trevas como a morte não têm já a última palavra neste mundo e na nossa história.
Na nossa vida, no nosso coração, devia brilhar a luz, a tua luz de amor, a luz pascal da vitória que alcançastes e nos ofereces quando decidimos seguir-te sem medo.
Que te sigamos Senhor, confiados da luz da tua vitória e confiantes da nossa vitória contigo.
 
Ilustração: Jesus carregando a cruz, de Mikhail Nesterov, Museus Estatais Russos.

O gosto da felicidade

 
O gosto da felicidade e da alegria, dito de outro modo “do ser”, é o fundamento da nossa natureza e todo o cristianismo é um apelo a este sentimento profundo e essencial.
Carta Paul Claudel a Henri Bremond
 
Ilustração: Figuras femininas do monumento a Ferdinand Hodler no jardim Promenade du Pin em Genebra.

domingo, 17 de março de 2013

Homilia do V Domingo da Quaresma

Neste quinto e último domingo da Quaresma, pois na próxima semana iniciaremos a Semana Santa com o Domingo de Ramos, abandonamos a leitura do Evangelho de São Lucas, que nos apresentou nestes domingos anteriores a figura de Jesus como Mestre, para nos encontrarmos com a narração do episódio da mulher adúltera do Evangelho de São João, um acontecimento no qual o estatuto de Jesus como Mestre é colocado à prova.
Antes deste acontecimento Jesus tinha estado sob vigilância, sob observação atenta, e os guardas do templo tinham sido mesmo enviados para o prender, ainda que não tivessem cumprido a missão de que estavam incumbidos por se terem deixado seduzir pelas suas palavras, como são acusados pelos escribas e príncipes dos sacerdotes do templo.
A apresentação da mulher apanhada em flagrante delito de adultério aparece assim desde o primeiro momento como uma armadilha, como um estratagema para apanhar Jesus, pois aqueles que a apresentam sabem perfeitamente a distância que Jesus tem mantido e desenvolvido face à lei de Moisés de que eles se vão servir.
Há assim o objectivo muito claro de colocar Jesus numa situação que o leve ao descrédito, se optar por condenar a mulher seguindo os preceitos da lei de Moisés consagrados no Deuteronómio e no Levítico, ou de o apanhar em flagrante ruptura com a lei, se assumir a misericórdia que tem defendido, como na parábola do filho pródigo, e não condenar a mulher.
Jesus desde o primeiro momento apercebe-se da armadilha, não só porque a questão a ser verdadeira deveria ser colocada às autoridades religiosas e judiciais instituídas, mas sobretudo porque esta questão e esta apresentação contradizem a opinião que ainda pouco antes tinham manifestado de Jesus.
Se na crítica à inacção dos guardas do templo tinham afirmado a não-aceitação de Jesus e da sua doutrina por parte de nenhuma das autoridades, como era possível que estivessem agora a recorrer à sua opinião, a dar-lhe um poder decisivo tão importante?
É face a esta incoerência, a este desastre de armadilha, que Jesus decide inverter a lógica dos adversários, e assim num gesto de libertação, expresso nessas palavras desenhadas no chão do templo, Jesus encosta os adversários à parede, confronta-os com a necessidade premente de pureza para se poder atirar a primeira pedra.
Diante da falta de consideração pela mulher, por ele próprio enquanto Mestre a que recorrem, Jesus mostra àqueles homens a falta de consideração pela mesma lei de que se arvoravam defensores, mostra-lhes como estavam em falta, pois não só não tinham trazido o cúmplice do crime, como tão pouco estavam isentos de qualquer falta para poderem exercer o papel de juízos e carrascos da falta da mulher. Os acusadores passam assim a acusados.
Face à interpelação de Jesus, de que atirasse a primeira pedra aquele que não tivesse pecado, os homens que trouxeram a mulher vão saindo discretamente, deixando-a sozinha face a Jesus. É o último painel de um tríptico, nos quais Jesus se abaixa, se levanta e volta a abaixar para se encontrar com a mulher pecadora, abandonada pelos acusadores.
Poderíamos dizer que nestes movimentos de Jesus se encerra todo o mistério da Incarnação, o processo do encontro de Deus com o homem na sua condição pecadora. Deus baixa-se até ao mais baixo do homem para lhe manifestar o perdão que ele próprio e os outros não podem manifestar.
Mas para além da manifestação do perdão de Deus, do convite de Jesus à conversão da mulher pecadora e de cada um de nós, este acontecimento manifesta uma outra realidade extremamente importante e sobre a qual não podemos deixar de estar alerta.
Denunciar uma situação, indignar-se com uma situação de injustiça, de violência, de violação dos direitos, em suma, denunciar o mal que existe, exige uma liberdade e uma idoneidade que não podem deixar de estar previamente presentes naqueles que denunciam.
Por isso, denunciar o mal, o erro, é uma missão extremamente difícil e exigente, uma vez que aquele que denuncia tem que estar livre de toda a culpa, de toda a falha, para que o mesmo mal denunciado não o alcance. Sem a libertação prévia do mal, do pecado, ninguém pode denunciar o mal do outro.
Neste sentido, e para alcançarmos a liberdade necessária, necessitamos confrontar-nos com o nosso próprio mal, com as nossas falhas e pecados, assumi-los e buscar o perdão que muitas vezes apenas Deus nos pode conceder. Necessitamos descer também até ao fundo, ao mais fundo de nós, para que nada fique escondido, nada fique sem luz e sem perdão.
Tal como acontece com Jesus face à armadilha que lhe montam com a mulher apanhada em adultério necessitamos descer, baixar, recolher-nos na verdade, para depois nos podermos erguer e enfrentar os desafios do mal e da mentira de olhos nos olhos.
Que este tempo da Quaresma sirva para este encontro, para este recolhimento, de modo a que com a vitória da ressurreição da Páscoa, com o erguer-se do vencedor da morte, possamos nós também enfrentar e vencer todos os males e mentiras.

 
Ilustração: A mulher adúltera diante de Jesus, de António Molinari, Museu Schloss Wilhelmshöhe, Kassel, Alemanha.

A santidade é a vontade de Deus

 
A santidade não está nem na alegria nem na desolação, está no cumprimento da vontade de Deus. Acredita que ganhará muitas almas prometendo-lhes a secura e a desolação, nem água nem pão, mas apenas a dura pedra?
Carta de Paul Claudel e Henri Bremond

Ilustração: Cacto na estufa fria do Jardim Botânico de Genebra.