quarta-feira, 31 de julho de 2013

O homem comprou aquele campo (Mt 13,44)

Terminada a explicação da parábola do trigo e do joio, Jesus volta ao tema do Reino de Deus através de duas novas parábolas, a do tesouro escondido no campo e a da pérola preciosa.
Se o encontro do tesouro escondido no campo se inscreve numa acção de sorte, de surpresa, pois o homem não esperava encontrar um tesouro, a pérola preciosa que o comerciante compra é já o resultado de uma actividade, de um esforço continuado a partir do desejo.
Contudo, e apesar das diferenças de circunstância, o procedimento que provocam é semelhante, pois os dois homens vendem tudo o que possuem para se apoderarem do objecto encontrado, tesouro ou pérola.
Esta atitude não deixa no entanto de nos surpreender, e ainda mais quando a olhamos com os nossos olhos e valores de segurança, com os nossos princípios economicistas e financeiros actuais. Afinal que ganha o homem em comprar um campo no qual está escondido um tesouro? E que ganha o homem ao comprar uma pérola, desfazendo-se para isso de tudo o que possui, até de todas as outras pérolas finas que já possuía?
De certa forma estamos diante de um desperdício, de um comportamento que poderíamos considerar luxuoso, pois o que alcançam parece apenas servir de objecto de deleite, de satisfação pessoal, e nada mais. Nem o homem pensa vender o campo depois de retirado o tesouro nem o comerciante pensa vender a pérola para daí tirar algum lucro.
As parábolas vão no entanto mais longe e o seu sentido está para além do económico ou comercial. Afinal o campo e a pérola que os dois homens adquirem representam as escolhas radicais, escolhas que muito frequentemente passam aos olhos do mundo como perdas, como sem sentido, como um empobrecimento, mas para aqueles que as assumem como uma riqueza incomensurável.
As parábolas sobre o Reino convidam-nos assim a escolhas radicais, a tudo arriscar para encontrar e possuir o verdadeiro tesouro, aquele tesouro que como nos diz a parábola provoca uma alegria enorme, um contentamento tremendo, o tesouro que é o próprio Jesus Cristo que nos oferece a vida pela sua morte, o ganho através da perda.
 
Ilustração: “Parábola do Tesouro Escondido”, atribuído a Rembrandt, Museu de Belas Artes de Budapeste.

Novena a São Domingos - Segundo Dia

Acto de Contrição
Meu Deus do meu coração, da minha Alma, da minha vida, e das minhas entranhas; conheço Senhor que pequei, e já reconheço que fiz mal na face dos Céus e da terra, afastei-me da vossa Lei, dei as costas à vossa Graça, e adorei a vossa ofensa. Mas, Senhor, agora me quero emendar; agora desejo quebrar a dureza do meu coração com uma verdadeira dor de ter alanceado esse amante Coração.
Ah Senhor, quem fora tão ditoso, que cegara para todas as coisas do Mundo, e só vira o muito que devo a um Deus tão sofredor! Cortai, Senhor, cortai com a espada da vossa omnipotente valentia todas as prisões, que me arrastam, todas as raízes que me prendem e todos os espinhos em que se ateia o fogo dos meus afectos.
Proponho Senhor, emendar a vida com a vossa raça, proponho confessar as culpas, perseverar na emenda, perdoar agravos, esquecer de injúrias, aborrecer os vícios, restituir como posso, e satisfazer como devo aos vossos Mandamentos.
Valha-me Senhor o vosso Sangue, valham-me os merecimentos de meu Patriarca São Domingos; concedei-me Senhor que, lavada a minha Alma com o vosso Sangue, consiga na vida a bênção de meu Santíssimo Patriarca, para depois na morte ir gozar de sua deliciosa companhia.
 
Excelência II – São Domingos excessivo no amor do Próximo
 
Meu amabilíssimo Patriarca, vós, que nas chamas da caridade tivestes o berço, pois já no ventre materno éreis uma viva chama, em que queríeis abrasar o mundo;
Vós, que cortastes pelo sustento, sono, e descanso para remediar os pobres, e vos queríeis vender para remir os cativos;
Vós em quem não descansavam as lágrimas de correr a buscar o remédio das almas perdidas, e com tal ímpeto corriam, que até aos infernos chegavam as vossas mágoas;
Alcançai daquele Senhor, que é a mesma caridade, que abrasado o meu coração nas chamas do amor do próximo, possa conseguir o prémio a que me convida o vosso exemplo.
 
Depois de alguma pausa reze nove Padre Nossos e nove Ave-Marias
 
Oração
 
Altíssimo Senhor dos Céus e da Terra, se toda a vida de vosso Servo Domingos foi um continuado desvelo com o Próximo, ou para lhe dar luz com o exemplo, ou para o amparar com o patrocínio, concedei-nos que aproveitando-nos das luzes, e seguindo-lhe os exemplos caminhemos todos para a Pátria em que el goza o prémio das suas virtudes. Ámen.
Depois reze a Ladainha de Nossa Senhora

 
Ilustração: Modos de Rezar de São Domingos. Mosaico do Padre Iturgaiz na cripta da Igreja de São Domingos em Caleruega.

Aproveitar a indecisão para o crescimento da alma

 
Tira proveito deste período de indecisão e de angustia para o progresso da tua alma tornando-a mais suave e mais obediente, pronta para tudo o que Deus quiser, o que quer que seja, pronta para essa vontade de Deus que ignoras ainda e que se manifestará um dia tal como é.
Carta do Padre Foucault para Louis Massignon
 
Ilustração: Cúpulas douradas da Catedral Ortodoxa por entre os telhados de Genebra.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Novena a São Domingos - Primeiro Dia

Acto de Contrição
Meu Deus do meu coração, da minha Alma, da minha vida, e das minhas entranhas; conheço Senhor que pequei, e já reconheço que fiz mal na face dos Céus e da terra, afastei-me da vossa Lei, dei as costas à vossa Graça, e adorei a vossa ofensa. Mas, Senhor, agora me quero emendar; agora desejo quebrar a dureza do meu coração com uma verdadeira dor de ter alanceado esse amante Coração.
Ah Senhor, quem fora tão ditoso, que cegara para todas as coisas do Mundo, e só vira o muito que devo a um Deus tão sofredor! Cortai, Senhor, cortai com a espada da vossa omnipotente valentia todas as prisões, que me arrastam, todas as raízes que me prendem e todos os espinhos em que se ateia o fogo dos meus afectos.
Proponho Senhor, emendar a vida com a vossa graça, proponho confessar as culpas, perseverar na emenda, perdoar agravos, esquecer de injúrias, aborrecer os vícios, restituir como posso, e satisfazer como devo aos vossos Mandamentos.
Valha-me Senhor o vosso Sangue, valham-me os merecimentos de meu Patriarca São Domingos; concedei-me Senhor que, lavada a minha Alma com o vosso Sangue, consiga na vida a bênção de meu Santíssimo Patriarca, para depois na morte ir gozar de sua deliciosa companhia.
 
Excelência I – São Domingos singularíssimo na veneração de Maria Santíssima
 
Esclarecido Patriarca, vós, em cujo nascimento apareceram no céu três sóis, porque parece quis Deus acrescentar os olhos ao Céu, para que visse um homem tão grande, que logo no baptismo deu com a cabeça nas estrelas;
Vós, que do ventre materno saístes a descansar nos braços de Maria Santíssima, bebendo em seus virginais peitos aquele alento, com que adulto defendeste o seu crédito;
Vós, que na campanha deste mundo, tendo nas mãos um raio do céu, (qual era o Rosário) prostrastes as heresias, que intentavam macular a virginal pureza, com tal espirito e zelo, que aqueles a quem o fogo da contrição não desfez em lágrimas o fogo material os tornou em cinzas;
Vós, que vendo durar a contumácia herética, esgotastes os alentos com disciplinas, até cairdes por terra superado da vossa mágoa, restituindo-vos aqui a Rainha do Céu os alentos com o néctar dos seus peitos;
Alcançai dessa clementíssima Senhora que meditando eu os mistérios, que pregastes, conheça o que lhe deve a minha alma resgatada, e o que lhe espera de ver gloriosa.
 
Depois de alguma pausa reze nove Padre Nossos e nove Ave-Marias
 
Oração
 
Altíssimo Senhor dos Céus e da Terra, se toda a vida de vosso Servo Domingos foi um continuado desvelo com o Próximo, ou para lhe dar luz com o exemplo, ou para o amparar com o patrocínio, concedei-nos que aproveitando-nos das luzes, e seguindo-lhe os exemplos caminhemos todos para a Pátria em que el goza o prémio das suas virtudes. Ámen.
Depois reze a Ladainha de Nossa Senhora
 
Ilustração: Sonho da Beata Joana. Mosaico do Padre Iturgaiz na cripta da Igreja de São Domingos em Caleruega. 

Sobre a incerteza

 
A incerteza significa frequentemente que Deus quer para nós o status quo até à indicação em contrário.
Carta do Padre Foucault para Louis Massignon
Ilustração: Estátua do Rapto de Prosepina nos Jardins do Palácio de Queluz.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Marta saiu ao encontro de Jesus (Jo 11,20)

A imagem que os Evangelhos nos dão das duas irmãs de Lázaro, Marta e Maria, é verdadeiramente surpreendente pela similitude das descrições. Tanto o Evangelho de Lucas como o Evangelho de João nos colocam as duas irmãs em contraste, numa diferenciação de atitudes face a Jesus.
Assim, se no Evangelho de Lucas vemos Marta a reclamar junto de Jesus a inactividade da irmã, no Evangelho de João vemos a mesma Marta a correr ao encontro de Jesus enquanto Maria permanece tranquilamente em casa esperando o Mestre.
Esta oposição, este antípoda de atitudes, não denuncia uma crítica ou uma verdadeira oposição, mas pelo contrário ilumina a realidade de uma e outra irmã, que definitivamente não se compreendem uma sem a outra.
Neste sentido as duas irmãs revelam-nos e convidam-nos ao humilde reconhecimento e aceitação do outro e da sua diferença. Marta e Maria libertam-nos de todo o ciúme, de toda a inveja, que nos conduz a julgar, a comparar e a avaliar o outro.
Marta e Maria convidam-nos a assumir a atitude humilde do servo que realiza o seu serviço, a atitude do serviço que nos foi pedido e entregue, sem qualquer outra preocupação que a sua perfeita realização.
Marta e Maria não quiseram ser outra coisa, não quiseram colocar-se no papel e no lugar da outra, mas pelo contrário cada uma viveu à sua maneira aquilo que era e a relação que tinha com Jesus.
No fundo o que é verdadeiramente importante é Jesus, é a relação que cada um de nós mantém com ele e a confiança que depositamos nele e nos liberta de toda a agitação inútil.
Marta e Maria mostram-nos que cada um é convidado a permanecer ao serviço do único que verdadeiramente conta, Jesus Cristo, a viver o serviço pedido, qualquer que ele seja, como um rosto de Cristo a apresentar ao mundo, um farol para iluminar as realidades que nos cercam.
 
Ilustração: “Marta com Jesus”, de Nicolas Froment, Galeria dos Uffizi, Florença.

 

Os doentes prestam-nos um grande serviço

 
Todo o doente nos recorda que também nós somos frágeis e podemos adoecer, que adoeceremos e que como ele, como ela, passaremos dias e semanas, ou inclusive meses e anos, amarrados a uma cama. O doente não é então simplesmente um outro, um pobrezinho que tem que se ajudar, mas eu próprio, uma prefiguração muito expressiva da limitação e caducidade pessoais.
Pablo d’Ors

Ilustração: Escultura de São João de Deus do pórtico da igreja do Convento de Mafra.

domingo, 28 de julho de 2013

Perspectivas de compra da Quinta do Ramalhão

Corria o ano da graça do Senhor de 1941 quando as Dominicanas de Santa Catarina de Sena compraram a Quinta do Ramalhão em Sintra. Aos 8 dias de Setembro desse ano chegavam as primeiras irmãs do futuro Convento e Colégio do Ramalhão.
Uma carta de 24 de Junho de 1941 da Irmã Maria Teresa Catarina d’Almeida Correia de Sá para o Padre frei Tomás Maria Videira dá-nos notícias das primeiras diligências para a compra dessa quinta e palácio. Pelo tempo que medeia uma e outra circunstância percebemos que o negócio foi verdadeiramente rápido.
Para além do preço pedido pela quinta, da disponibilidade financeira das irmãs para a comprarem, podemos encontrar também nesta carta algumas questões pessoais, familiares, e espirituais, que nos revelam o perfil de uma mulher verdadeiramente singular, nascida no seio da casa Lavradio e consagrada à missão da Ordem Dominicana.
 
Braga. 24 Junho [1941]
Lisboa. Rua Angra do Heroísmo. 2.
Meu Reverendíssimo Padre
Escrevo-lhe desta balbúrdia de Lisboa num intervalo de “ver casas” que é a nossa faina agora! Ontem fomos ver a Quinta do Ramalhão, perto de Sintra, e creio, será essa a que escolheremos. A casa é enorme e a mata e pinhal grandes, fechados, recolhidos. Não se vê ninguém e ninguém nos pode ver!
Dum lado da casa vê-se a serra de Sintra, do outro lado um grande descampado e o mar ao longe. Só lhe digo que rezei lá Vésperas num recolhimento como se estivesse numa igreja solitária.
Queria dizer a Vossa Reverência o que sinto mas não sei bem definir. Sentimentos variados e diversos entre os quais predomina uma grande gratidão para com Nosso Senhor de me ter tirado desta vida que agora me cerca por todos os lados. Vejo tanta futilidade! Tanta inutilidade em toda esta variadíssima gente que vem ver-me! Tenho estado várias vezes em Lisboa, mas nunca me aborreceu como agora. Acho que estou a envelhecer muito (o que detesto) para não gostar do quem dantes tanto gostava.
No meio disto gosto bem de ver o Pai e os manos e, graças a Deus achei o Pai muito muito melhor. Isto quanto ao físico, pois que o resto não sei, nem ouso indagar. Sei que leva uma vida ultra mundana e – mais nada! Mas está muito bem disposto e é sempre o mesmo “charmeur”. Da “outra pessoa” não sei, mas só oiço falar nos irmãos, pois um é médico assistente da minha irmã que está em tratamento e o outro é professor e grande amigo d’outra das minhas irmãs! Partidas que Jesus prega! Se fosse aqui há uns 2 meses era pior. Hoje quase não sinto nada. Digo quase porque quando oiço esse nome tenho sempre uma comoção.
Trouxe o S. João da Cruz – vamos a ver se entro com ele. Mas não estou muito para leituras. Também pouco tempo tenho para isso. Temos saído, e continuamos a sair, sempre. Hoje vamos perto de Torres Vedras. Amanhã talvez outra vez ao Ramalhão, depois a Madre Geral começará em falas com o dono, o que vai levar tempo, pois ele quer 800 contos e já se vê nós não podemos dar senão a metade dessa quantia pois a casa tem muitas obras a fazer, luz, água, concertos, etc… Peça para que isto se possa fazer, sim?
No meio disto tudo tenho apanhado tantas descomposturas da Madre Cecília! Acho que ela tem muito medo que eu me envaideça por andar com as Madres e então dá-me para baixo com toda a força. Eu não me rala muito, mas às vezes dói o que ela diz pois é muito seca na maneira de dizer as coisas. Mas suponho que é bom que seja assim…
Vou terminar pois acabou o tempo.
27 – Afinal não pude acabar, e só hoje o venho fazer. Estamos nos falatórios para a compra do Ramalhão, o que é sempre coisa demorada e aborrecida. Mas penso que chegaremos a um acordo, estou tão cansada de Lisboa, de ver gente, de ouvir notícias! E estou morta por voltar para o sossego de Braga. Mas não sei quando isso será… Sabe, gosto bem de S. João da Cruz. Não é nada o que eu pensava. Ontem tive um dia mais sossegado pois estava cheia de dores de cabeça e passei a tarde estendida sobretudo por causa das costas, então pude “entrar” um bocado cá dentro. Mas foi só durante as horas de maior calor, pois depois começaram logo a vir as visitas, etc… Hoje vem o médico ver-me, pois não estou muito bem. Nosso Senhor é capaz de me querer outra vez estendida um tempo sem fazer nada. Da outra vez custou-me horrivelmente. Desta (se for) talvez não me custe tanto, mas a ideia da inacção assusta-me sempre. Veremos o que Ele manda. E Vossa Reverência está melhor? E de casa o que há?
Peço se digne abençoar-me, e não me esqueça diante de Nosso Senhor, por caridade.
Muito humilde irmã em Nosso pai São Domingos
Irmã Maria Teresa, OP
Se me escrever, é melhor para Braga.   
 
Ilustração:
Alameda da Quinta do Ramalhão
Páginas da Carta da Irmã Maria Teresa Catarina nas quais figura o escudo da Ordem Dominicana.

 

Homília do XVII Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Lucas que escutámos começa por nos dizer que os discípulos ao encontrarem Jesus em oração se sentiram impelidos a pedir-lhe que os ensinasse a rezar. O pedido tem como referência João Baptista, é o exemplo que Jesus é convidado a imitar, mas não podemos deixar de assumir que foi certamente a experiência orante e extraordinária de Jesus que levou os discípulos a fazer este pedido.
Tal como acontece com os discípulos, também nós pedimos muitas vezes que nos ensinem a rezar, que nos ajudem a ultrapassar as dificuldades de uma oração que tantas vezes se distrai, que tantas vezes é rotineira, que tão frequentemente é inconstante ou intermitente.
A resposta de Jesus ao pedido dos discípulos e aos nossos é a oração do Pai-Nosso, é o convite a dizer antes de mais Pai que és nosso. Não é uma fórmula mágica, um enunciado de palavras, mas uma proposta, um incentivo a perceber e a viver antes de mais uma relação. A oração de Jesus é uma experiência de intimidade, de confiança, de relação filial amorosa.
A oração que Jesus ensina distancia-se assim da oração que encontramos na boca de Abraão quando pede pelos justos das cidades de Sodoma e Gomorra e da oração que tantas vezes colocamos nos nossos lábios e nasce do nosso coração mas não é ainda fruto do Espirito Santo.
É inegável que a oração de Abraão pelos justos das cidades de Sodoma e Gomorra é um pedido solidário, fraterno, justo, mas também é inegável que a afirmação de Deus de que parte o pedido de Abraão não encerra nenhuma condenação, nenhum extermínio. Deus propõe-se apenas descer às cidades para verificar o clamor que subiu até ele.
Neste sentido, os diversos pedidos de Abraão manifestam antes de mais o drama interior que o aflige e aflige todo o homem enquanto não vive a dimensão filial da oração do Pai-Nosso. Os diversos pedidos de Abraão, face aos justos que podem existir nas cidades, manifesta o drama da fé na fidelidade de Deus. Abraão está preocupado com os justos de Sodoma e Gomorra porque não sabe até onde pode ir a fidelidade de Deus, a capacidade de perdão de Deus, que inevitavelmente o atingirá também a ele como homem que não é perfeito e pode ser injusto.
A oração que Jesus ensina aos discípulos ultrapassa e vence este drama, a oração deixa de estar vinculada a essa expectativa face à fidelidade de Deus sobre os inimigos e sobre o mal. Jesus elimina o medo, o temor face à fidelidade de Deus, e apresenta uma oração que se alicerça na relação confiante e mutua. O homem que reza pode confiar em Deus porque Deus confia no homem.
Esta confiança esbarra contudo, e muito frequentemente, naquela que parece ser o silêncio de Deus face aos nossos pedidos, à nossa oração. Muitos homens e mulheres deixam de rezar porque em determinada situação não encontraram a resposta que solicitavam e esperavam de Deus. Parece que a fidelidade de Deus não corresponde à confiança que se deposita nele.
A parábola do amigo impertinente que Jesus conta aos discípulos depois da oração mostra que a oração do homem nunca deixa de ser escutada, ainda que não nos seja concedido aquilo que pedimos tão insistentemente na oração. Jesus assegura a resposta de Deus, a sua fidelidade, ainda que de uma forma que nos ultrapassa e se nos torna incompreensível.
Percebemos esta incomensurável e incompreensível resposta de Deus quando nos confrontamos com o final da parábola e Jesus nos diz que o amigo se levantará pela insistência ou pela amizade para dar ao outro tudo o que precisasse. Não se trata já de três pães necessários mas de tudo o que fizer falta.
Esta prodigalidade de Deus, esta generosidade, revela-nos que não só Deus não deixa de nos escutar, que há uma resposta abundante de Deus, mas sobretudo revela-nos que mais importante que o obtido, que o alcançado, é aquele que nos alcança e nos oferece. Deus é infinitamente mais precioso, mais valioso, que qualquer dom que nos alcance.
Neste sentido a nossa oração, a oração que Jesus nos ensinou a rezar, é uma participação, é uma configuração filial com Aquele a quem nos dirigimos. Rezar não é mais pedir, ainda que as petições componham o Pai-Nosso, mas é permanecer na presença de Deus, permanecer em íntima união com Ele.
Então o Espirito Santo habitará em nós, e a nossa oração não será mais que o sussurro do amor e a aceitação da vontade do Pai e do bem que nos oferece em cada momento.

 
Ilustração: “Jesus em oração no jardim das oliveiras”, de Sebastiano Conca, Pinacoteca Vaticana.

 

Não pude partir sem deixar-me ajudar

 
Dediquei a minha vida a ajudar os outros, mas não pude partir deste mundo sem deixar-me ajudar por eles. Deixar-se ajudar supõe um nível espiritual muito superior ao do simples ajudar.
Pablo d’Ors
Ilustração: Anjos com tocheiro e vela do tecto da sacristia da Sé de Lisboa.

sábado, 27 de julho de 2013

Ramalhão – In Memoriam?

A investigação da história dominicana em Portugal colocou-me nas mãos uma carta que necessitei datar. Por casualidade, a necessidade de encontrar uma data para a mesma, conduziu-me ao poema da Madre Teresa Catarina d’Almeida Correia de Sá que se encontra no livro “Memória das Datas 1866-2002”, página 99.
Ao ler o último verso não pude deixar de sentir uma tristeza imensa, uma dor enorme, pois profetiza o inacreditável da perda do Ramalhão e consequentemente o sofrimento e as lágrimas nos olhos das irmãs que hoje mesmo pude testemunhar ao passar pelo Convento.
Face a esta partilha, uma grande amiga dir-me-á que é já uma batalha perdida e pela qual não vale a pena lutar. É possível, é o mais provável, mas pelo carinho e fraternidade que devo àquelas irmãs que choram ou não têm um ombro no qual chorar, não posso deixar de partilhar o seu sentimento, nem de acalentar uma réstia de esperança servindo-me para tal das palavras da Madre Fundadora Teresa de Saldanha:
Por isso temos que viver na esperança e continuar, esperando contra toda a esperança, avançando na nossa obra. Se pudesse calcular o prazer que me dá ao ver quanto bem se pode fazer através das nossas escolas, compreenderia imediatamente porque é que eu começo a ficar completamente resignada ao meu destino de trabalhar aqui enquanto Deus continua a falar-me dessa grande felicidade tão desejada de ser exteriormente sua esposa verdadeira.”
Carta de Teresa de Saldanha de 8 de Novembro de 1867 ao Director Espiritual.

 
Recordando

 
Quando um dia mais tarde e sendo já velhinha
Ouvires, ao recreio, falar do Ramalhão,
Recordarás o tempo em que, amimadinha,
Vivias no aconchego do velho casarão…

 
Quantas coisas então te virão à memória
E que, já esquecidas, te lembram nesse dia.
Tantas Irmãs e Madres… e tanta velha história…
E tanta amizade… e tanta alegria…

 
Pouco a pouco o passado, como ressuscitando,
Fará de ti, velhinha, noviça outra vez.
Parecer-te-á de novo estares ainda estudando
As Constituições, Escritura ou Francês!

 
Verás o Ramalhão com a sua velha entrada
Lá está a portaria, a sala, o dormitório
Tornarás a rezar junto ao “Pai da escada”
E entras, como dantes, no grande refeitório.

 
Indo depois ao Coro, como em tempos passados,
Começas, tu também, de novo a salmodiar…
Pela capela abaixo, com passos apressados,
Vês vir a sacristã, contas a tilintar.

 
Saindo ao terraço no alto das escadas
Verás que o recreio ainda ali se faz
E ouvirás, de novo, alegres gargalhadas
Como davas também, tantos anos atrás.

 
Ainda é o mesmo sino, apesar de antigo,
Que chama lá da torre, para irem rezar.
Ao ouvir o seu som, será como um amigo
Que após muitos anos, tornas a encontrar…

 
Como folhas dum livro passa na tua mente
A vida de noviça, como bela visão…
E quando te falarem, verás que, de repente,
Te custará a crer não estares no Ramalhão!

Poema da Madre Teresa Catarina d'Almeida Correia de Sá

Somos dependentes uns dos outros

 
Se alguma vez pararmos, ainda que seja só um pouco, descobriremos precisamente isto: que a autonomia ou auto-suficiência com que sonhamos é uma quimera, que na realidade Deus, ou a vida, ou como queiramos chamar, nos fez dependentes uns dos outros.
Pablo d’Ors

Ilustração: Vasos esculturas da escadaria principal do Museu de História e Arte de Genebra.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Confiança em Deus

 
Tenho necessidade de uma confiança infinita e verdadeiramente louca na graça do Bom Deus para não perder o coração quando meço a minha miséria mole.
Carta de Jean Massin a Paul Claudel
Ilustração: Nascer do sol em voo de avião.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A verdadeira ascese

 
A verdadeira ascese parece-me consistir num esquecimento igualmente completo de nós próprios, num entusiasmo direccionado a Deus, e num desinvestimento da nossa superioridade e embelezamento pessoal.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin

Ilustração: Papoilas do jardim de Santo Tomás de Ávila

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Saiu o semeador a semear. (Mt 13,3)

É sentado na barca, junto às margens do lago, que Jesus apresenta a parábola do semeador, desse semeador que lança a semente sem olhar aos terrenos, sem se preocupar onde cai a semente.
E sem que o diga, ou assuma claramente neste momento, Jesus é o grande semeador, pois deita à terra dos ouvintes a sua palavra, os seus ensinamentos. Como o semeador da parábola não se preocupa com o terreno, com a fidelidade dos ouvintes, apenas se preocupa em se fazer ouvir, em lançar a palavra.
Não é portanto estranho que diante de tamanha multidão tenha subido à barca e desde aí se tenha posto a ensinar a multidão. Sentado, como um mestre, Jesus dirige a palavra àqueles que o querem ouvir.
Mas ele não é apenas o semeador é também a semente, a semente lançada à terra desde o Céu e pelo Pai. O mistério da encarnação, do Filho de Deus que se fez homem, é esta sementeira, e portanto espera-se que a produção seja abundante.
Assim, a terra que somos deve acolher a semente da doutrina, mas deve acolher igualmente aquele Jesus de Nazaré que é o semeador e a semente, a pessoa humana com a qual se pode estabelecer uma relação.
Deus vem generosamente ao nosso encontro semeando e fazendo-se semente, pelo que nos cumpre acolher e procurar produzir o que está de acordo com as nossas capacidades. Nem mais nem menos, mas o que cada um pode segundo as suas possibilidades.
Acolhendo o semeador que é também a semente descobrimos que não há terreno nenhum que não se possa converter, que não possa alterar a sua capacidade de produção. Um solo ingrato e pobre pode transformar-se num solo rico e produtivo.
O semeador saiu a semear e vai lançado a semente, saibamos preparar o nosso coração para a acolher e para germinar para além de toda a nossa expectativa ou medo. A produção consentida por nós é fruto da graça da acção de Deus, e portanto a abundância da produção é sempre uma realidade do Reino.
 
Ilustração: “ Semeador ao por do sol”, de Vincent Van Gogh, Museu VanGogh em Amesterdão   

Ser perfeitos é vigiar

 
Sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito, coloca o acento sobre uma contínua vigilância de nós próprios, sobre um espirito constante de análise, de comparação e de correcção.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Gerânios lilases da casa dos meus pais.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Permanecei em mim que eu permaneço em vós (Jo 15,4)

Em apenas quatro versículos Jesus utiliza por oito vezes o verbo permanecer, numa quase simetria entre aquele que é convidado a permanecer e aquele que já permanece por sua livre vontade.
Os discípulos são convidados a permanecer, a permanecer na palavra, a permanecer no amor, a permanecer numa ligação vital com Jesus. Essa ligação e essa permanência permitem a produção do fruto, permitem a vida que impede a eliminação pela morte.
Por seu lado Jesus oferece-se como aquele que já permanece, como uma permanência sem intermitências, oferece-se como dom perene para que os que aceitem permanecer tenham a vida que lhe oferece.
Pelo convite a permanecer em Jesus somos todos convidados a aceitar e a acolher o dom que o próprio Jesus nos faz da sua permanência. É o movimento do dom e do contra dom, da reciprocidade face àquele que se oferece.
Deus oferece-nos a sua amizade, uma amizade que permanece para além de qualquer perturbação, de qualquer infidelidade, porque Deus não pode deixar de se oferecer nem de permanecer.
Tal como é dito no Livro dos Provérbios (8,13) a delícia da Sabedoria que é Deus é habitar entre os homens, é permanecer entre os filhos dos homens e gozar da sua companhia.
Em cada celebração da Eucaristia também este convite e esta oferta de permanecer nos é feito, pois vivemos as palavras de Jesus “aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6,57).
Procuremos pois acolher a oferta de Deus, as diversas possibilidades que nos apresenta da experiência da sua permanência, para permanecermos também nele e vivermos a graça dos frutos da vida.
 
Ilustração: “Cristo e São Bernardo”, de Francisco Ribalta, Museu do Prado, Madrid.

 

A cruz toda inteira

 
A cruz toda inteira e não apenas uma das suas duas partes. A linha vertical é a fé nua, a ascensão rectilínea, a unidade. A linha horizontal, que se eleva sobre esta relação, é a necessidade da posse total para o sacrifício total.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Pintura da Crucifixão que se encontra no Museu de Arte e História de Genebra.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Levaram o meu Senhor (Jo 20,13)

A celebração da Memória de Santa Maria Madalena é uma oportunidade para nos encontrarmos com a tristeza e a alegria de uma mulher que soube permanecer, que soube confiar, e por causa dessa esperança e confiança passou da condição daquela que procura àquela que foi encontrada, daquela que deseja possuir àquela que é já propriedade.
Na manhã de Páscoa Maria Madalena corre ao sepulcro e sem o suspeitar encontra-se com um vazio, um vazio preenchido pela presença divina e que os dois anjos assinalam tal como os querubins que ornavam a Arca da Aliança.
Perdida no seu sofrimento Maria Madalena é incapaz de ver a presença na ausência, apenas a sua dor e a perda do Mestre amado a guiam, ainda que a conduzam ao vazio.
O apelo e a pergunta dos anjos descobrem a perda de Maria Madalena e o seu sentimento de posse: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. Maria Madalena considera o Mestre como seu, como um património pessoal. Mas tal não era para menos desde o momento que em casa de Simão o tinha ungido com perfume de nardo puro.
Tal como a Amada do Cântico dos Cânticos canta o diadema com que Salomão foi coroado por sua mãe, assim Maria Madalena cantava o perfume com que tinha ungido o seu rei, a cabeça do seu amado Mestre.
Nem a presença do jardineiro a desperta da sua dor e do seu sentimento de posse defraudado, somente o nome “Maria”, a traz à realidade e ao encontro, à visão daquele que ela buscava e tinha estado sempre ali.
“Não me prendas”, pede Jesus, “porque ainda não subi para o meu e vosso Pai, para o meu e vosso Deus”. É a liberdade necessária, a liberdade de uma relação, a liberdade expressa no nome que é igualmente um título de posse.
Maria parte a anunciar que vira o Senhor, não apenas o seu Senhor, aquela que considerava seu, mas o Senhor de todos, aquele que tinha subido para o Pai de todos. Maria Madalena perde a posse do seu “Rabouni”, para ser propriedade daquele que sobe para os céus.
A voz de Cristo, o primeiro vivente, desperta-nos e liberta-nos, mas para tal é necessário permanecer e confiar, estar atento à sua presença discreta de jardineiro que desce até ao nosso jardim.
 
Ilustração: “Noli me tanger”, de Lambert Sustris, Apartamento do Rei, Palácio de Versalhes.

Com Deus sou eu próprio

 
Tenho necessidade de Deus para ser eu próprio, não posso prescindir de uma coabitação contínua com a minha Causa, que é a causa de tudo.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Escultura de dominicano no Túmulo do Mestre da Ordem em Caleruega.

domingo, 21 de julho de 2013

Homília do XVI Domingo do Tempo Comum

O episódio da hospedagem de Jesus em casa de Marta e o diálogo travado entre os dois por causa de Maria, irmã de Marta, é de todos nós bastante conhecido. Uma das razões para este conhecimento comum prende-se com a aparente hierarquização que Jesus faz da vida e da relação com ele, quando diz a Marta que Maria escolheu a melhor parte ao ficar sentada a escutá-lo.
São palavras que levaram em alguns momentos a uma valorização e preferência da vida mística, da vida de oração contemplativa, em detrimento da vida activa, da vida ministerial de apostolado, que como todas as opções radicais e desequilibradas não deixaram de ter os seus resultados desastrosos.
Por outro lado é também extremamente fácil perceber que a opção oposta, a da vida activa que facilmente se deixa contagiar de activismo, não é uma solução melhor e as palavras de Jesus são de certa forma bastante críticas em relação a esta realidade.
Mas para uma melhor compreensão do acontecimento e das palavras de Jesus não podemos deixar de ter presente que, anteriormente à hospedagem em casa de Marta, Jesus apresenta ao fariseu a parábola do bom samaritano, a parábola da misericórdia e um exemplo concreto do mandamento do amor ao próximo. A atitude e a circunstância de Marta e da hospedagem de Jesus inserem-se assim nesta linha do amor ao próximo, num paradigma da verdadeira hospedagem que é necessário praticar à luz do acolhimento praticado pelo próprio patriarca Abraão. 
Contudo, e ainda que dando corpo ao mandamento do amor ao próximo, Marta não o está a viver em plenitude, na sua verdade, e o sinal dessa incoerência transparece quando diante de sua irmã se dirige a Jesus para se queixar e solicitar a sua intervenção como mediador na ajuda necessária da irmã. Marta procura junto de Jesus o juiz que em outra passagem do Evangelho ele próprio diz que não é.
Marta estava centrada no acolhimento que era devido aos hóspedes, mas não tinha deixado de se centrar nas suas necessidades, no seu amor-próprio, e sobretudo não tinha abdicado do seu orgulho de modo a ser capaz de pedir directamente à irmã a ajuda que necessitava para receber os convidados.
É a esta situação que Jesus dá resposta quando diz a Marta que Maria tinha escolhido a melhor parte. A melhor parte é de facto Jesus, é o escutar a sua palavra, mas é igualmente dar sentido a tudo o que se faz por causa dele, é perceber que o outro que está ao lado é uma interpelação, é uma imagem de Deus de que não se pode abdicar.
Podíamos dizer que Jesus retoma o fio da conversa sobre os mandamentos com o fariseu e que depois da explicitação do mandamento do amor ao próximo conduz esse mesmo mandamento à sua causa e ao seu fim que é o amor a Deus. 
Não estamos assim face a opções que se opõem, a uma vida contemplativa que descarta uma vida activa, e vice-versa, mas face a uma realidade que se conjuga em comum, que são de tal modo interdependentes e complementares que uma sem a outra se torna inútil. Percebemos assim que a vida contemplativa monástica tenha um horário diário no qual se inclui o trabalho manual e que a vida activa sem o seu momento de oração e de encontro com Deus se esvazie num voluntarismo estéril.
Esta complementaridade e interdependência vão parecer expressas imediatamente a seguir na oração que os discípulos pedem a Jesus, traduzidas nas diversas petições que compõem a oração que é o Pai-Nosso e Jesus ensina aos discípulos.
Podemos assim dizer que a questão do fariseu sobre o maior dos mandamentos levou à explicitação da semelhança e complementaridade dos mandamentos do amor, e que a parábola do bom samaritano e a resposta de Jesus a Marta se sintetizam na oração que depois Jesus ensina aos discípulos.
O amor a Deus e o amor aos irmãos são realidades práticas, realidades muito concretas, e realidades que se iluminam mutuamente, pelo que escolher a melhor parte que é Jesus implica inevitavelmente escolher o homem e a mulher nossos irmãos que o mesmo Jesus veio salvar.
 
Ilustração: “Jesus em casa de Marta e Maria”, de Alessandro Allori, no Kunsthistorisches Museum.

Tudo é para Deus

 
Nada existe, nada é proposto ao nosso conhecimento, que não seja para que o sacrifiquemos a Deus no amor e na preferência.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Torreão dos Guzman em Caleruega.

sábado, 20 de julho de 2013

A caridade que é os braços da cruz

 
Dissipar e absorver, respirar toda a obra de Deus, toda a cristandade, toda a necessidade humana, reunir tudo isso no seu espirito e no seu coração é a fórmula da caridade cristã, esses dois braços da Cruz que são um prolongamento dos nossos pulmões.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Cruz de madeira no largo de Vernier, Genebra, no inverno passado.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cheios de nós recusamos Deus

 
Aprendei a compreender que não sois interessantes, e que dando-vos qualquer importância que seja, permanecendo cheios de vós próprios, é espaço que recusais ao desconhecido, ao novo, ao real, ao vivente, ao inaudito, a Deus.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Fonte do Macaco nos jardins do Palácio de Queluz

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Amor de Deus consciencializa

 
O Amor de Deus torna-nos imediatamente conscientes e intolerantes face a qualquer defeito, a qualquer imperfeição que se constitua obstáculo.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Rosas vermelhas no meio de jardim abandonado

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Fomos adquiridos por Deus

 
Recordai-vos que o nosso título de cristãos é, como diz São Pedro, de ser um povo de aquisição, é por uma aquisição contínua que permitimos a Deus de nos adquirir. É não sendo nada que nós adquirimos tudo.
Carta de Paul Claudel a Jean Massin
Ilustração: Campo coberto de neve perto de Neuchatel na Suíça

terça-feira, 16 de julho de 2013

Jesus começou a censurar as cidades (Mt 11,20)

Não é uma imagem habitual a que nos apresenta o texto do Evangelho de São Mateus quando nos diz que Jesus começou a censurar as cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum. A censura e a crítica não são uma atitude comum em Jesus.
Contudo percebemos que assim tenha acontecido, e que essa censura tenha perpassado pelos lábios de Jesus, quando nos deparamos com a razão da censura, com os motivos que levaram Jesus a essa atitude tão inusitada nele.
De facto, face aos milagres que Jesus realizou naquelas cidades, como foi possível que não tivesse havido alguma manifestação de conversão, que não tivesse havido um outro tipo de atitude face ao mesmo Jesus que realizava aqueles milagres?
Jesus compara estas cidades com Tiro e Sidónia, cidades helenizadas e à luz da ortodoxia judaica paganizadas, mas nas quais Jesus acredita que encontraria um outro acolhimento, uma outra atitude face à sua acção, face aos seus milagres.
Esta censura de Jesus vem no entanto ao nosso encontro e aos desejos que tantas vezes manifestamos de um milagre, de um acontecimento extraordinário nas nossas vidas. Da censura de Jesus às cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, subjaz essa censura a esse nosso desejo de milagres, à operatividade mágica.
Percebemos pelas palavras de Jesus que o milagre não tem a força e a capacidade transformadora das nossas vidas, mas pelo contrário é a conversão, é o desejo e a iniciativa da transformação que nos pode alterar e colocar numa outra realidade.
O milagre, os efeitos visíveis do milagre, é assim uma consequência da transformação interior, desse acolhimento e configuração à pessoa e à palavra de Jesus. É o nosso desejo, o nosso acolhimento, a nossa disponibilidade, a adequação à vontade de Deus e ao seu amor por nós que transforma a nossa vida.
Neste sentido pouca importância têm os milagres, o que verdadeiramente conta e nos converte, o que nos transforma e altera é a convicção de nos sabermos amados por Deus em todas e quaisquer circunstâncias.
 
Ilustração: Pormenor de Jesus Cristo no quadro a “Oração da Comida” de Fritz von Unde, Galeria Nacional, Berlim.