sábado, 31 de agosto de 2013

Um conselho para o coração

 
Sei que é fácil dar conselhos, e como me disseste algumas vezes “não mandamos no nosso coração, mesmo que o fechemos como um punho". Mas cerra ainda e cerra durante alguns anos o teu coração, para que de seguida ele se descerre e se abra para acolher finalmente o amor perfeito e imperecível, o amor segundo os mandamentos de Cristo.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Querubins da fachada da igreja da Encarnação ao Chiado em Lisboa.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Não vos conheço! (Mt 25,12)

A história da parábola das virgens insensatas e prudentes termina com uma constatação terrível, uma resposta que nos deixa a todos apavorados uma vez que é uma resposta sem apelo, sem forma de conversão.
Quando as virgens insensatas regressam da sua busca de azeite para as candeias e batem à porta do banquete, a resposta do noivo é que não as conhece, fechando-lhes por isso a porta e deixando-as do lado de fora do banquete, entregues a si mesmas.
Podemos considerar que é uma atitude injusta, que a resposta não é a mais delicada ou compassiva face ao esforço daquelas virgens por encontrarem azeite para se manterem vigilantes enquanto o noivo não chegava.
Contudo, nesta história, o verdadeiramente grave é a constatação do noivo, é o desconhecimento que se manifesta face àquelas virgens insensatas. Neste sentido não podemos esquecer as palavras de Jesus no Evangelho de São João, “todos conhecerão que sois meus se vos amardes uns aos outros”.
Assim, nesta parábola é permitido adormecer, andar perdido na noite, ter mais ou menos azeite, o que não é permitido é não estar atento à voz do noivo, é desconhecer o que o noivo demanda, porque pelo que ele pede se torna conhecido e se dá a conhecer. É o amor de uns pelos outros que nos torna conhecidos de Deus, íntimos, de modo a ser-nos aberta a porta do banquete.
O convite final de Jesus a que estejamos vigilantes, porque não sabemos o dia nem a hora, é assim um convite a mantermos desperto o coração, a mantermos bem viva a chama do amor, a constituirmos uma reserva ou um tesouro no amor dos irmãos. Desta forma o Esposo reconhecer-nos-á porque o amor nos tornará seus conhecidos, já propriedade sua.
 
Ilustração: “As virgens insensatas e prudentes”. Pormenor das virgens insensatas. Pintura de Friedrich Wilhelm Schadow, Stadel em Frankfurt.

Confiar na Providência Divina

 
Permito-me dar-te um tímido conselho: sê mais confiante na Providência Divina. Mesmo uma provação desse género é necessário que a vivas menos intensamente, para que o teu coração possa suportar uma tão longa espera.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Banco com neve no jardim Eaux Vives em Genebra.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Herodes respeitava João sabendo que era justo e santo (Mc 6,20)

Diz-nos o Evangelho que Herodes mandara prender João Baptista porque o profeta se manifestava contra o facto de o rei ter consigo Herodíades, mulher de seu irmão, de a ter assumido como sua mulher.
Diz-nos também o Evangelho que, apesar dessa acusação e condenação, e apesar de temer as palavras de João Baptista, Herodes gostava de ouvir o profeta, escutava-o com prazer, e tinha por ele respeito, pois sabia que era um homem justo e santo.
Podemos dizer que a história de João Baptista, apesar da prisão, não estava mal, e que se o rei tivesse sido consequente com a satisfação que tinha em o ouvir jamais teria permitido que a vida do profeta fosse o preço de um momento de prazer.
Contudo, Herodes não foi consequente com a satisfação que tinha em ouvir o profeta, e por isso encontramos nesta tragédia esse contraste flagrante entre a fidelidade e a infidelidade à verdade, entre a coragem de assumir a verdade e a cobardia de se deixar vencer por outros interesses mesquinhos.
João Baptista, homem justo e santo, homem cheio de coragem e portador de uma palavra de verdade sobre a vida dos outros, paga o alto preço da vida por causa do ódio e das manobras iníquas de Herodiades sobre Herodes, que se mostra um fraco e um cobarde face à verdade, que se esquiva a olhar de frente a verdade que o profeta lhe apresenta sobre a sua situação irregular.
Neste sentido, não podemos deixar de assumir que a verdade coloca em causa, que a verdade nos coloca em causa e portanto nos obriga a olhar de frente as realidades que ilumina. A verdade desinstala-nos das nossas garantias tantas vezes fátuas, desinstala-nos dos nossos esquemas construídos sobre si próprios.
A verdade é assim algo que nos purifica, que nos liberta e que nos faz crescer, a verdade faz-nos avançar sempre no sentido da nossa realização plena e da nossa felicidade, a verdade conduz-nos a Deus que é a Verdade.
Ao longo da história muitos homens e mulheres entregaram a vida pela verdade, sofreram pela verdade proclamada por Jesus Cristo e vivida por João Baptista, a verdade que nos diz que o homem é filho de Deus e tem como projecto de realização plena a vida de fraternidade com os outros homens, a divinização da sua condição humana através do amor e da amizade para com todos e com o seu Criador.
Que Deus nos conceda a justiça e a santidade de vida de João Baptista para proclamarmos também com coragem e sem medos a verdade que nos salva.


Ilustração: “O banquete de Herodes”, de Peter Paul Rubens, Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo.

 

O que pode ferir mortalmente

 
Frequentemente basta uma pequena imprudência, a mais pequena negligência para que uma pessoa seja mortalmente ferida por essa falta de atenção, e seja mesmo induzida em tentação durante muito tempo.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Rosas de jardim em Vila Nova.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade! (Mt 23,28)

Os Evangelhos mostram-nos por vezes um Jesus animado por uma grande violência, com palavras e actos que soam estranhos face à sua misericórdia, à sua compaixão, à atenção que mostrava para com aqueles que se encontravam com ele.
O episódio que rapidamente nos vem à memória desta violência inusitada é o da expulsão dos vendedores do templo, mas não é o único, porque outros momentos houve, ainda que desta violência apenas nos tenham chegado as palavras, como as que dirigiu aos fariseus quando os chamou de hipócritas e sepulcros cheios de ossos mortos e podridão.
Podemos imaginar como teriam ficado estes homens, aqueles que se consideravam dignos, os que se achavam verdadeiramente cumpridores da lei e de todos os preceitos religiosos. Podemos imaginar a tensão que pairava no ar face a estas acusações e à impossibilidade de defesa face a tanta verdade e sabedoria, face à autoridade de Jesus que a multidão apreciava e reconhecia.
Contudo, face à violência de Jesus, não podemos deixar de ter presente que ela não é um gesto irreflectido, que ela não é uma consequência do seu egoísmo, um acto louco de quem já não tem outro poder de argumentação, mas pelo contrário uma manifestação de um amor e de um cuidado pelas realidades divinas que Jesus não suporta ver mal tratadas, despojadas da sua dignidade e portanto o comovem até ao ponto dessa violência.
A violência de Jesus parte dessa impossibilidade de aceitar que o coração do homem se mascare, se feche na mentira, que o espaço do diálogo com Deus se transforme num palco de teatro. A violência de Jesus deriva dessa incompatibilidade com o tráfico que tantas vezes tentamos estabelecer com Deus, dessa infelicidade que tantas vezes construímos por não enfrentarmos a verdade de nós próprios.
Percebemos assim que a acusação de Jesus face aos fariseus seja de que eles estão interiormente cheios de hipocrisia e maldade. Ainda que as suas vidas e acções sejam perfeitas e boas aos olhos dos outros homens, no interior do coração estão infectadas pela mentira e pela falsidade, é face a Deus que eles se mascaram e fingem.
Estas palavras de Jesus são para nós hoje uma profunda interpelação, porque nos situam face à nossa relação com Deus, às mascaras que também perante Deus colocamos, não nos confrontando com a verdade das nossas vidas que Deus ilumina e esclarece. Não se trata já das mascaras que colocamos face aos outros, mas das que colocamos face a Deus e de que necessitamos despojar-nos.

 
Ilustração: “Jesus e o fariseu”, figura em talha do altar do Sagrado Coração na igreja de São Vicente em Heiligenblut, Austria.

Não posso desejar partir

 
Não posso dizer que estou contente comigo próprio quando vejo passar as semanas e os meses. Há tanto a fazer e acabo por fazer tão pouco. Por vezes, penso que era melhor para o homem não viver até à velhice quando todas as capacidades diminuem. Por outro lado, ainda há tantas coisas para fazer, que não posso ter o desejo de partir sem ter realizado o dever imposto por Deus.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Neptuno dos jardins do Palácio de Queluz.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ai de vós hipócritas! (Mt 23,23)

Todos nós temos mais ou menos uma ideia do que significa ser hipócrita. Contudo, quando olhamos para a língua grega, na qual o texto do Evangelho de São Mateus foi escrito na sua origem, percebemos que afinal ser hipócrita significava um jogo de actores, uma expressão teatral. O hipócrita era aquele que colocava uma máscara para desempenhar um papel, para dar corpo e cara a um personagem.
Diante desta realidade da cultura grega e da circunstância em que Jesus fala aos fariseus e escribas da lei percebemos a alteração do tom de voz de Jesus, a reprimenda feroz face ao que aqueles homens viviam e convidavam os outros a viver.
A crítica e acusação de Jesus tem presente e parte desse pressuposto fundamental de que fomos feitos para o face a face, para nos olharmos nos olhos uns dos outros, para contemplarmos Deus face a face. E portanto, quando colocamos uma máscara, quando assumimos o papel de hipócritas, estamos a inviabilizar a nossa própria realização, a negar a nossa própria essência natural, o objectivo último da nossa existência.
A acusação de Jesus aos hipócritas é assim um apelo premente a que deixemos as máscaras, a que apresentemos o nosso rosto, mais belo ou mais marcado pelas feridas da vida, mas que verdadeiramente diz quem somos e nos revela ao outro como imagem de Deus.
E na medida em que vivermos também face a face com Deus, sem máscaras diante de Deus, o nosso rosto poderá ser uma fonte de luz, uma fonte de paz para aqueles que se encontram connosco e nos olham, pois a nossa face espelhará a luz interior que apreendemos do face a face com Deus.

 
Ilustração: “Moisés descalçando-se diante da sarça-ardente”, de Domenico Fetti, Kunsthistorisches Museum, Viena.

Do desespero à ressurreição

 
Nós devemos fazer absolutamente a experiência da nossa impotência total, alcançar o fundo do desespero, a fim de renascer para uma esperança nova e viver verdadeiramente a Ressurreição.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Jardins do Palácio de Queluz.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Que vale mais, a oferenda ou o altar que santifica a oferenda? (Mt 23,19)

Uma vez mais nos encontramos com o choque entre Jesus e os fariseus, aos quais Jesus não tem qualquer pudor em chamar hipócritas.
Esta acusação não parte da dissimulação que estes homens podiam viver, da falsidade de vida, mas da distorção dos valores, do que é fundamental na lei e no seu cumprimento.
Estes homens, no seu zelo, tinham invertido a lógica da lei, tinham colocado a lei ao serviço de si própria, quando ela devia estar ao serviço do homem e de Deus e da relação a estabelecer entre eles.
No seu zelo estes fariseus hipócritas tinham-se esquecido da misericórdia, do amor que a lei devia levar a viver. De facto, e como Jesus bem recorda, de que serve percorrer o mundo para fazer um discípulo se depois esse homem ou mulher não vive em liberdade, a liberdade dos filhos de Deus, mas pelo contrário vive como um escravo da lei.  
A crítica de Jesus aos fariseus e à sua hipocrisia atinge assim a razão da própria lei na forma como era vivida, lei que antes de mais devia orientar o homem para Deus, devia estar ao serviço do homem e da sua realização plena.
E atinge também os próprios rituais e preceitos religiosos, que apenas têm sentido e realizam a sua missão quando elevam o homem e o conduzem até Deus que é Pai e liberta os seus filhos.
Assim, e como Jesus diz, o mais importante não é o ouro do templo, nem o templo, o altar ou a oferenda colocada sobre o altar, mas Aquele que dá razão e sentido a todas essas realidades.
O culto, e as suas diversas componentes, existem e têm sentido na medida em que orientam o coração do homem para o seu verdadeiro fim, que é Deus.
Neste sentido podemos dizer que as nossas práticas religiosas são perfeitamente inúteis se não nos conduzem a Deus, se não sustentam uma verdadeira fé, se não nos ajudam na conversão e numa configuração mais perfeita com Deus.
Que o Senhor Jesus nos guarde da formalidade das nossas práticas, nos liberte da pretensão de sermos os comandantes dos nossos exercícios religiosos, e nos conceda a fé que nos garante que Ele é o princípio e o fim de tudo, e na medida em que Nele mantivermos os olhos fixos jamais nos poderemos enganar.

 
Ilustração: “O sacrifício de Noé”, atribuído a Francesco Castiglione, El Paso Museum of Art.

A recompensa do tempo dado

 
É estranho, sou velho, mas os jovens e mesmo as crianças pequenas amam-me, ao ponto de muitos deles quererem abraçar-me. É verdade que dei e que dou ainda muito do meu tempo e das minhas forças aos mais jovens.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Rosa do jardim da casa dos meus pais.

domingo, 25 de agosto de 2013

Homília do XXI Domingo do Tempo Comum

A questão que colocam a Jesus, no Evangelho que acabámos de escutar, sobre a quantidade daqueles que se salvam é uma questão que certamente algumas vezes nos interpela, nós que somos dados a contas, a estabelecer hierarquias, a querer garantias.
É uma questão que igualmente nos interpela quando somos confrontados, por alguns leitores mais literalistas do livro do Apocalipse, com o número dos cento e quarenta e quatro mil que estão diante do Cordeiro. Afinal, são muito poucos os que se salvam, e portanto somos convidados por esses leitores a tudo fazer para integrar esse número.
Estes leitores, e leituras, esquecem o que se diz imediatamente a seguir no livro do Apocalipse sobre os milhares de milhares que lavaram as suas túnicas no sangue do Cordeiro, bem como a resposta de Jesus à questão da quantidade reduzida dos que se salvam.
Face a uma questão numérica, contabilística, Jesus responde com uma proposta de acção, com uma missão que consiste em passar pela porta estreita, pois haverá muitos que o tentarão mas não o conseguirão, o que deixa desde já supor que a salvação ainda que conte com a nossa colaboração não está na nossa mão.
Esta noção de porta estreita torna-se paradoxal quando a confrontamos com o capítulo décimo do Evangelho de São João, no qual Jesus se assume como a verdadeira porta, a porta pela qual as ovelhas saem e entram no aprisco, pela qual têm acesso às verdadeiras pastagens.
Se Jesus é a porta, podemos e devemos interrogar-nos como ela se estreita, como ela se torna impossível de transpor, quando Jesus se nos oferece como passagem, como resgate da nossa vida e nosso salvador.
Temos assim que assumir que a porta se mantem larga e aberta, poderíamos dizer escancarada desde o momento que foi aberto o lado de Jesus no alto da cruz, e somos nós que a vamos encerrando e estreitando na medida da nossa infidelidade, do adiamento do nosso transpor verdadeiro da porta que se nos oferece.
A crítica de Jesus face àqueles que batem à porta e reclamam que comeram e beberam com ele, que o escutaram nas praças, mas ainda assim não foram capazes de abandonar a sua iniquidade, vem reforçar esta ideia de que a porta se estreita na medida em que nos recusamos ou negligenciamos a passagem verdadeira, a configuração com Jesus e com a sua palavra.
O problema do estreitamento da porta não se coloca assim do lado de Deus, que a todos se oferece e quer acolher, mas do nosso lado e na nossa fragilidade e preguiça em prosseguirmos perseverantes no caminho que o mesmo Jesus nos oferece.
Também nós poderemos um dia dizer que não faltámos a nenhuma Missa, que recebemos todos os sacramentos e rezámos todos os dias, que fomos até solidários com aqueles que passavam necessidade e socorremos, mas tal mostrar-se-á de pouca utilidade na medida em que tivermos estado ainda assim distantes de Jesus, na medida em que não nos tivermos colocado no caminho que leva à cruz e à sua aceitação, ao acolhimento amoroso da vontade do Pai do Céu.
Este caminho e este acolhimento passa obrigatoriamente pela aceitação das contrariedades e das dificuldades, das correcções paternas de que nos fala a Leitura da Epístola aos Hebreus. Não é que Deus deseje o nosso sacrifício e o nosso sofrimento, mas a nossa vontade conforma-se por vezes muito pouco com aquilo que nos convém e serve à nossa salvação.
De facto, é na medida em que nos vamos deixando moldar, corrigir, aperfeiçoar pelo amor paterno de Deus que nos vamos aproximando da soleira do Reino de Deus, que vamos transpondo a porta assemelhando-nos a ela. As dificuldades serão certamente muitas, os obstáculos a ultrapassar bastante duros, mas com fé e confiança no amor de Deus não serão inultrapassáveis.
É esta esperança que encontramos também manifesta na leitura do Profeta Isaías, quando nos diz que Deus reunirá todos os povos para contemplar a sua glória. Esta promessa também nos está dirigida e é por intermédio de Jesus que temo acesso a ela.
Procuremos pois com diligência e amor libertar-nos de toda a iniquidade e configurar-nos cada vez mais e melhor com Jesus, pois é só passando por ele, entrando por ele que possuiremos as chaves que abrem todas as portas, que nos alimentaremos da glória que Deus nos tem a todos destinada.

 
Ilustração: “Cristo e os pecadores arrependidos”, de Gerard Seghers, Rijksmuseum, Amesterdão.  

A verdade vencerá

 
Cada vez que escuto o rádio ou leio um jornal fico horrorizado com a selvajaria bestial e a crueldade dos homens. Mas basta. Ser pessimista não nos convém. Se não for na terra será no Reino a vir que veremos a vitória da verdade, e creio que essa vitória é inelutável. 
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Estátua da galeria da escadaria do Museu de Genebra.

sábado, 24 de agosto de 2013

Esperança de mudança radical

 
Podemos pensar que se a história humana se prolonga, possivelmente um dia haverá nos homens uma tal mudança radical que eles serão verdadeiramente irmãos e que dirão o PAI NOSSO sem falsidade.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Pináculo de uma das torres da Catedral de São Pedro de Genebra.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cristãos de Cristo?

 
Quando vemos muitas pessoas que ousam dizer-se “cristãos”, vem-me este pensamento: e Cristo chamá-los-á “seus”, um dia?
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Frontão da igreja da Encarnação ao Chiado.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sobre o crescimento espiritual

 
O que me consola é que aqueles que vivem aqui crescem espiritualmente, é visível. Eles adquirem experiência, conhecimentos teológicos, eles celebram bem, e todo o mundo os ama e aprecia; eles suportam corajosamente o conflito quotidianamente crescente entre os dois mundos tão diferentes da carne e do espirito.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Pátio de entrada ao Mosteiro das Dueñas de Salamanca.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A vida demencial

 
Defender o nosso estilo de vida não é fácil. E como me escreves tu mesmo, a vida tomou um ritmo demencial. Eu pensava que era apenas aqui que as pessoas estavam loucas de conforto, de automóveis, de máquinas de todos os tipos, de viagens… Mas vejo que também convosco, nesse lugar que era antigamente tão calmo e tão silêncio, acontece o mesmo.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Fonte de Baco no jardim do Palácio de Versalhes.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Condenar-se a si próprio

 
 
Perder a fé na Ressurreição é condenar-se a si próprio à morte. É por esta razão que as pessoas têm a impressão que vir ao mundo é um absurdo.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Botões de flores amarelas do jardim dos meus pais.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A ressurreição é um facto

 
 
A Ressurreição é um facto da existência. A coisa mais preciosa para o mundo é a pessoa humana. Se um átomo de hidrogénio vive eternamente, como a pessoa que é um milagre e um esplendor poderá morrer?
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Pormenor do Passo “Descida da Cruz” da Semana Santa de Vitória.

domingo, 18 de agosto de 2013

Homília do XX Domingo do Tempo comum

A leitura que escutámos do Evangelho de São Lucas deixa-nos uma imagem inusitada de um Jesus incendiário e revolucionário, uma imagem que nos custa a associar à mensagem de paz e justiça que Jesus anuncia, ao mandamento do amor a que somos convidados.
Para a compreensão das palavras de Jesus que escutamos neste trecho do Evangelho e desta imagem inusitada temos que inevitavelmente olhar para o contexto em que as mesmas são proferidas, ou seja para o início do capítulo doze deste Evangelho de São Lucas.
No início deste capítulo, e depois da polémica com os fariseus sobre a pureza ritual, Jesus tinha sido convidado para um banquete e não tinha cumprido o ritual das abluções, e da polémica com os doutores da lei sobre os fardos que colocam aos ombros dos outros com os preceitos morais, Jesus chama a atenção dos seus discípulos para o mal da hipocrisia, para o mal da falsidade de vida e da aparência do bem, para o fermento dos fariseus que os discípulos devem evitar.
Neste sentido, e neste contexto, quando Jesus anuncia que vem trazer um fogo à terra e que apenas deseja que ele se ateie e se espalhe por toda a terra, não podemos deixar de assumir que este fogo é o fogo da verdade, da verdade em todas as dimensões do homem e das suas relações.
Jesus deseja profundamente que o homem se encontre com a sua verdade, com a verdade da sua condição humana propensa ao mal mas também cativada pelo bem e pelo belo. Jesus deseja que o homem se encontre com a verdade da relação com Deus, com a verdade da fé e da religião, que não são elementos de obstrução à felicidade do homem mas meios para a sua realização plena. Jesus deseja que o homem se encontre com a verdade dos outros homens e pela partilha construam um outro mundo.
Contudo, Jesus tem também presente, e pela perspectiva que se abre de tragédia na sua vida, que este encontro com a verdade não é fácil, que é potencialmente gerador de conflito e divisão, não só porque a verdade obriga a abdicação de postos e posições mas sobretudo porque a verdade obriga a um caminhar conjunto, a um caminhar solidário no sentido do encontro da verdade que transcende cada um dos caminhantes.
Assim sendo, o projecto da verdade de Jesus exige um combate constante, ou utilizando as palavras da Epístola aos Hebreus, uma resistência até ao sangue, porque de facto não é fácil assumir a verdade com todas as suas consequências, não é fácil prosseguir numa busca que nos leva sempre mais longe e nos abre sempre novos desafios. Para Jesus tal compromisso com a verdade conduziu-o à morte ignominiosa na cruz.
Face ao combate que se apresenta diante dos nossos olhos, o autor da Epístola aos Hebreus deixou-nos como proposta e solução para as dificuldades do mesmo combate a fixação nos olhos de Jesus, a confiança naquele que assumiu levar a verdade até às últimas consequências.
Perante o desânimo, e para que não nos deixemos abater, somos convidados a procurar conforto e apoio pensando no próprio Jesus, no testemunho daquele que suportou todas as ignominias e todo o desprezo, que passou pela morte da cruz, mas está agora sentado à direita de Deus.
Diante destas realidades, percebemos que o capítulo doze do Evangelho de São Lucas, entre o primeiro aviso de Jesus relativamente ao fermento dos fariseus, e estas afirmações incendiárias de Jesus, se componha de parábolas e avisos sobre a necessidade de vigilância. Afinal a busca da verdade exige um vigiar contínuo, uma atenção constante às realidades que nos rodeiam e desafiam, uma resistência activa para que não nos deixemos enganar pelas meias-verdades e pelas aparências.
É esta vigilância e resistência que encontramos na vida de Jeremias, uma fidelidade à verdade que conduz à sua prisão, mas que desperta também num estrangeiro a solidariedade compassiva e a mesma fidelidade à verdade. A fidelidade à verdade arrasta consigo outros que desejam e buscam a mesma verdade, o que nos deve animar ainda mais nesta fidelidade.
Face à Palavra de Deus escutada neste domingo somos confrontados com a necessidade de lutarmos e vivermos pela verdade, enfrentando as suas dificuldades inerentes, mas confiantes, contudo, que aquele em quem colocámos a nossa esperança não nos abandonará pois prometeu estar connosco até ao fim dos tempos.

 
Ilustração: Pormenor de “Jesus diante de Pilatos”, de Mihály Munkácsy, Galeria Nacional da Hungria.

Da dor de alma nasce a força

 
 
A dor da alma é inevitável, mas é desta dor que nasce a força da oração. Os suspiros vindos das profundezas alcançarão as alturas da eternidade.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Jardim com fontes de água na cidade de Vitória

sábado, 17 de agosto de 2013

A oração não pode cessar

 
O meu destino é rezar pela paz, pela paz do mundo inteiro. Eu sei que a força da oração pode parar os imprudentes, mesmo no momento final. Mas se a oração do amor cessa, então nenhuma cultura, nenhuma ciência pode impedir a explosão.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark
Ilustração: Imagem de Nossa Senhora da Assunção em procissão ao final do dia 15 de Agosto em Vila Nova de Tazem. Fotografia da autoria da minha prima Juliana Mota.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O espirito não pode envelhecer

 
Não sou travado senão pelo meu corpo. É estranho, mas o espirito humano não é limitado pelo tempo, ele não pode envelhecer ainda que cresça. Quanto mais cresce mais alcança medida para a existência.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Rosa vermelha em botão do jardim de casa dos meus pais.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Homília da Solenidade da Assunção da Virgem Maria

Celebramos hoje a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, conhecida na Igreja Oriental como a Dormição da Virgem Maria. É uma festa já bastante antiga, pois encontramos já no século quinto referências à sua celebração festiva em Jerusalém. Contudo, é a sua proclamação solene por Pio XII em 1950 que dá a esta festa e convicção profunda da Igreja a expressão dogmática e universal que a caracteriza e identifica.
Assumindo uma expressão teológica de São João Damasceno, o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu exprime essa fé e convicção de que aquela que tinha concebido no seu seio o Filho de Deus, que tinha conservado a sua virgindade durante o parto, fosse preservada também da corrupção da carne natural a todos os corpos mortais.
A Virgem Maria é assim elevada ao Céu em corpo e alma, conservando integra e incorrupta a sua natureza humana, em virtude da missão e da união profunda com o filho gerado que é o Filho de Deus. Tal como escutávamos na Carta de São Paulo aos Coríntios, por Cristo Maria é restituída à vida, é a primeira a usufruir das consequências da pertença a Cristo.
Esta convicção e fé na Assunção da Virgem Maria ao Céu em corpo e alma é extremamente importante para cada um de nós, pois revela-nos num mistério o que nos está destinado, uma realidade futura que nos é garantida e que desde já começamos a viver e a delinear na medida da nossa união com Cristo.
Poderíamos assumir que a nossa alma está destinada à glória, à eternidade, e que pela morte física, pela destruição do nosso corpo biológico, seria elevada ao Céu, à fonte e plenitude da sua origem. Pelo contrário, o nosso corpo, constituído da matéria biológica, estaria condenado ao desaparecimento no pó do qual tinha sido retirado.
O mistério da Assunção da Virgem Maria mostra-nos que esta concepção dualista não faz parte dos planos de Deus, do mistério da participação futura na plenitude divina. A Assunção da Virgem Maria mostra-nos, tal como no próprio mistério da Encarnação do Filho, que Deus não despreza o corpo mas que o assume igualmente na glorificação do homem.
Esta realidade acarreta inevitavelmente um conjunto de consequências para o nosso próprio viver, para a nossa relação com o corpo que nos constitui e identifica como pessoas. É pelo corpo que somos e podemos estabelecer relações com Deus e com os outros. É pelo corpo que construímos uma história que nos leva à plenitude ou à frustração.
Assim sendo, e como vemos na visita da Virgem Maria a sua prima Isabel que nos é narrada pelo Evangelho de São Lucas, o nosso corpo com as suas mais diversas dimensões pode e deve ser um instrumento de encontro e de iluminação, um instrumento de revelação da própria acção salvadora de Deus em nós e na história.
A aproximação corporal de Maria a sua prima Isabel revela-lhe o mistério que transporta em si e ilumina o mistério que Isabel também transporta em si. O encontro de ambas é assim a oportunidade para o encontro com a acção de Deus na vida e na história de cada uma delas e da humanidade.  
Neste sentido podemos e devemos interrogar-nos sobre a missão do nosso corpo, sobre a sua dignidade, o reconhecimento assumido que é templo do Espirito Santo, razão pela qual todas as acções e relações corporais têm uma dimensão e um alcance divinos.
E na medida em que vivemos em união com Cristo, como pertença de Cristo pelo mistério da redenção, afinal fomos resgatados por alto preço, vamos desde já possibilitando a integração do corpo na realidade divina da vida gloriosa.
Celebrar a Assunção da Virgem Maria em corpo e alma ao Céu é celebrar a Paixão e Ressurreição de Jesus e contemplar no primeiro fruto, na primeira agraciada, a vitória sobre a morte que a todos nos está prometida pela união íntima com aquele que é o Filho de Deus que se fez homem como nós.

 
Ilustração: “Assunção de Maria”, de Wouter Pietersz Crabeth, Museu de Gouda.

O amor que esgota engrandece

 
Neste mundo o amor esgota o homem, mas no mundo a vir ele o engrandece ao cêntuplo.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark
Ilustração: Coroação da Virgem Maria na abóbada da sacristia da Catedral de Burgos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Eu estou no meio de vós! (Mt 18,20)

Há cinquenta anos, quando o Segundo Concílio Vaticano publicou a Constituição sobre a Liturgia, uma das referências evangélicas para falar da presença de Cristo enquanto a Igreja canta e reza foi esta passagem do Evangelho de São Mateus, “eu estou no meio de vós”.
Referência extremamente significativa no que representa de alegria e de confiança, de esperança e poder, pois afinal quando estão dois ou três reunidos em nome de Jesus ele está presente no meio deles, ele reza e canta com eles.
Neste sentido, de cada vez que nos reunimos para celebrar a Eucaristia, para rezar as Vésperas ou Laudes, quando nos reunimos para cantar ou rezar ao nosso Pai do Céu, o nosso coração devia exultar de alegria e confiança, a nossa convicção devia ser forte e firme, pois entre nós está aquele que reza continuamente ao Pai, está connosco aquele que apresentou a oferenda perfeita por todos nós.
Ainda que possam ser distintos os nossos espíritos e estados de alma, uns podemos rezar na tristeza enquanto outros rezam na alegria, todos devíamos estar marcados por esse sentido de que não estamos sós e partilhamos com Jesus as nossas palavras, a nossa dor ou a nossa alegria.
Jesus reza connosco ao Pai e as palavras que podemos formar no nosso coração e expressar nos nossos lábios são ecos produzidos pelo Espirito da oração que Jesus dirige ao Pai connosco e por nós. Portanto, que o medo de não saber o que dizer, como rezar, não nos impeça de nos aproximarmos daquele que reza no meio de nós.

 
Ilustração: “A bênção da mesa”, de Fritz von Uhde, Alte Nationalgalerie, Berlim.

Nisto está a nossa esperança

 
 
A vida nunca é fácil para um cristão, mas o bem semeado no meio dos sofrimentos, quando partirmos daqui de baixo, crescerá ao cêntuplo e mesmo infinitamente mais. Nisto está a nossa esperança, ela nos fortalece e nos inspira.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark
Ilustração: Jardins do Convento de Caleruega.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Se não vos tornardes como crianças… (Mt 18,3)

A proposta de Jesus, de nos tornarmos como crianças para podermos entrar no Reino dos Céus, não deixa de nos interpelar, assim como não deixa de nos questionar, com bastante sentido de humor, se o Reino dos Céus será algo parecido ao Portugal dos Pequeninos, esse famoso jardim de miniaturas dos monumentos nacionais existente em Coimbra.
As palavras de Jesus deixam supor que no Reino dos Céus os tectos são muito baixinhos, as casas e os castelos são como de brincadeira e por essa razão temos que nos abaixar, temos que nos fazer pequeninos para lá podermos entrar e habitar.
É assim que acontece no Portugal dos Pequeninos em Coimbra, mas nos Reino dos Céus esse abaixar-se e fazer-se pequenino tem um sentido muito mais profundo, muito mais radical porque não se trata de um tamanho físico, de um estado infantil, mas o assumir da atitude vital daquele mesmo que nos faz esse convite, Jesus Cristo.
Ao sermos convidados a tornarmo-nos pequeninos como crianças estamos a ser convidados à kenose, ao abaixamento que o próprio Filho de Deus assumiu e viveu para resgatar a humanidade. Ele que era Deus fez-se homem como nós e experimentou a morte no sentido do aniquilamento total para ser um como nós em tudo.
Quando todos nós aspiramos a ser os maiores, a ser os melhores, os maiores e melhores que os outros, Jesus revoluciona as nossas aspirações e deita por terra todos os nossos desejos e aspirações de grandeza. Afinal aquele que é grande é o pequeno, é aquele que é capaz de se fazer pequeno, de assumir a debilidade e a pequenez de todos os outros.
Ser o maior no Reino dos Céus é assim e antes de mais assemelhar-se àquele que nos dá a vida e potencia o crescimento da nossa pessoa na sua totalidade e integridade, é assemelhar-se dentro das nossas possibilidades e com a ajuda da graça divina ao mesmo Jesus Filho de Deus em que acreditamos, é acolher um processo de transformação que nos leva a ser semente que morre para que possa frutificar em plenitude.
Assumamos o desafio, porque como nos diz Jesus “não é da vontade do Pai que se perca algum destes pequeninos”, daqueles que se fazem como crianças e são transportadas às costas de Jesus como ovelha perdida e reencontrada.

 
Ilustração: “Las Gigantillas”, de Francisco Goya, Museu do Prado, Madrid.

O juizo de Deus

 
 
É assim que Deus julga: “Aquele que é o maior de todos seja o servo de todos”, como Ele, que veio para servir e dar a sua vida em resgate de todos.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark
Ilustração: Painel da “Agonia de Jesus no jardim das oliveiras”, que se encontra no deambulatório da Catedral de Burgos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O vosso Mestre não paga a didracma? (Mt 17,24)

É após o segundo anúncio da paixão que, ao chegarem a Cafarnaum, os cobradores de impostos do templo se dirigem a Pedro e lhe perguntam se o Mestre não paga a didracma.
Pergunta certamente embaraçosa para Pedro, habituado a um Jesus um tanto ou quanto marginal ao templo e ao culto, conhecedor de algumas posições de Jesus bastantes criticas em relação a essa instituição da fé do povo.
Talvez por isso, e pelo sentimento de desconforto que com quase toda a certeza gerou no seu coração, é imediatamente interrogado por Jesus ao entrar em casa. Pedro carregava uma dúvida que Jesus imediatamente desfaz, uma culpa que não lhe pertencia, uma vez que aos filhos não é devido nenhum tributo, nenhum imposto.
Contudo, e como Jesus comenta a Pedro, é melhor não provocar escândalo e portanto pagarão o imposto, servindo-se para tal de uma dádiva de Deus, uma moeda encontrada na boca de um peixe. Pedro pagará com essa moeda o imposto do Mestre e o seu, pagará pelos dois aquilo que não lhes é devido.
Pagamento surpreendente pelo que representa e anuncia, pois o tributo devido ao templo é dado pelo próprio Deus, é Deus que sustenta o templo, e depois pela união que estabelece entre Jesus e Pedro, a moeda encontrada na boca do peixe une-os no tributo pago.
Sem o saber, Pedro estabelece uma aliança de vida com o Mestre, une-se ao tributo que Jesus vai pagar e que será a entrega da sua própria vida. A moeda oferecida por sorte na boca do peixe é o símbolo da vida que o próprio Jesus vai oferecer em resgate por Pedro e por todos os homens.
A moeda para pagar a didracma manifesta assim a Pedro e a cada um de nós que Jesus paga o tributo por nós e connosco, manifesta uma unidade que nos liberta mas que também nos responsabiliza.
A forma de comparticipar no pagamento que Jesus efectua de uma vez para sempre realiza-se no testemunho desse mesmo pagamento já realizado e realizado de um forma livre e eterna. É o nosso testemunho da dádiva generosa e libertadora do Filho de Deus que nos faz participantes do tributo oferecido.

 
Ilustração: “São Pedro e o milagre do peixe”, pintura do século XVII da Escola Italiana, apresentado a leilão pela Sotheby’s em Nova-York em Janeiro de 2013.

O valor dos sacrifícios

 
 
Eu penso que o Senhor não olha à aparência dos sacríficos consentidos, mas aos seus resultados. Virá o tempo em que o amor, graças a vós multiplicado ao cêntuplo, se derramará sobre a vossa cabeça como uma torrente impetuosa, e nada nem ninguém vos lo retirará pelos séculos dos séculos. 
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark
Ilustração: Relicário do Santo Lenho no Mosteiro de Santa Cruz de Vitória.

domingo, 11 de agosto de 2013

Homilia do XIX Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Lucas que escutámos exorta-nos à vigilância, a estar preparados para a vinda do Senhor, pois não sabemos nem a hora nem o dia. Neste sentido, podemos assumir que o ser cristão, o ser discípulo de Jesus, é um modo de vigilância. A vida cristã está assente nessa necessidade de estar vigilantes e preparados face ao Senhor que vem.
Podemos também assumir que não é uma tarefa fácil, e certamente por essa razão muitos homens e mulheres abdicam de vigiar e esperar o Senhor, consideram até que tal exigência ou necessidade é uma espécie de escravatura.
Como posso afinal viver em constante estado de alerta, em constante vigilância, sacrificando a minha liberdade e até a minha autonomia numa espera que tantas vezes parece infrutífera, inalcançável, pois parece que o Senhor não vem?
A exortação evangélica à vigilância, e nomeadamente no texto de São Lucas que escutámos, está entrelaçada com a bem-aventurança, pois Jesus diz que são felizes aqueles que esperam a vinda do seu Senhor, são felizes aqueles que o Senhor encontrar vigilantes e administrando com justiça os bens que lhe foram consagrados.
A bem-aventurança, a felicidade, não está assim dependente da chegada do Senhor, não é uma recompensa dada à chegada do Senhor, mas é uma realidade e uma condição natural à mesma espera e vigilância. Aquele que vigia é já feliz.
Esta felicidade deriva da atitude de fé, dessa garantia dos bens que se esperam e da certeza das realidades que não se vêem, de que nos falava a Epístola aos Hebreus. Tal como Abraão, Isaac e Jacob acreditaram no que lhes tinha sido prometido, e nessa fé foram felizes, também a nossa caminhada e a vigilância face à expectativa dos bens futuros, ao cumprimento da promessa do senhor que vem , nos garante já a felicidade.
Esta vigilância feliz é possível na medida da fé, mas igualmente na medida em que aquele que vigia e espera reveste o seu coração do sentimento de amor que dá sem medida, sem esperar nada em troca, sem esperar nenhuma recompensa. A felicidade da vigilância está assim associada ao amor que não toma nada para si, ao amor desprendido, ao amor independente, ao amor do Senhor que vem.
O amor do Senhor, que vem sem que o saibamos quando, é assim a primeira e última razão da nossa espera e da nossa vigilância, o único suficiente para salvaguardar a nossa atitude e o nosso amor sem medida e sem condições. É este amor que alimenta a fé e nos faz viver a felicidade da bem-aventurança.
Felicidade que não resulta de uma atitude passiva, de um “dolce fare niente” enquanto se espera, mas bem pelo contrário, é o resultado de uma tarefa árdua de manifestação e desenvolvimento do próprio amor original através do amor aos irmãos.
A vigilância cristã é assim um serviço, um chamamento ao serviço dos irmãos, à semelhança do serviço que o próprio Senhor realizou pelo mistério da sua Encarnação. E por conseguinte é também uma boa administração dos bens que nos foram consagrados, um conjunto de bens e de dons de que não somos proprietários mas apenas administradores.
Na medida em que esses bens e dons são administrados na expectativa da vinda do Senhor, no desejo de lhe prestar o melhor serviço, a felicidade acontece pela própria realização da administração justa e misericordiosa, pela semelhança com a administração amorosa do Senhor.
A vigilância activa e bem-aventurada a que Jesus nos exorta e convida conduz-nos à experiência de uma outra realidade, muito mais geradora de felicidade, a essa experiência do encontro com o Senhor que já não nos trata por servos mas por amigos.
A vigilância cristã é assim um aprofundar da relação, um caminhar na amizade do amigo que vem, e como tal tudo se conjuga e realiza para a felicidade mútua, felicidade que se desfruta desde já na expectativa e na alegria do encontro a acontecer.

 
Ilustração: “Hoje chegou a salvação a esta casa”, desenho a carvão de Alexandre Bida, Walters Art Museum, Baltimore.  

Meio para preservar a memória

 
 
Nós temos um meio para que a nossa memória permaneça inquebrantável, a oração. E deste meio nenhuma força do mundo nos pode privar. 
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Coro das Monjas no Mosteiro de São Domingos de Caleruega.

sábado, 10 de agosto de 2013

O que faz o inolvidável

 
A nossa experiência mostrou-nos que neste mundo nada é imutável, tudo passa, tudo muda e envelhece. As nossas condições também mudaram desde que nos separámos. Mas nenhuma circunstância, nem psicológica nem física, atingiu o nível de profundidade do encontro que Deus nos proporcionou. É por essa razão que tudo permanece como antes, sois-me queridos e inolvidáveis.
Carta do Arquimandrita Sofrónio ao Padre Boris Stark

Ilustração: Taça de chá sobre a mesa do café do Museu de Arte e História de Genebra.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

As oficinas das peças de eleição

 
Deus muniu-se de oficinas para as peças de eleição: o trabalho de polimento é ali feito em série pelo choque directo das pedras umas contra as outras. Nos mosteiros, nos conventos de religiosas “maxima poenitencia vita communis”. As famílias são também oficinas do mesmo género.
Carta de L. Cristiani a Paul Claudel
Ilustração: Claustro e espadana da igreja do Mosteiro de Santa Cruz de Segóvia.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Feliz és tu, Simão, filho de Jonas! (Mt 16,17)

Jesus aproveita a passagem por Cesareia de Filipe para interrogar os seus discípulos sobre a sua pessoa. A terra helenizada, mais ou menos estrangeira e pagã, serve assim de quadro ou reserva ecológica a uma pergunta fundamental. Quem dizem os homens que eu sou?
Apresentadas as várias respostas possíveis e imaginárias, Jesus interroga directamente os discípulos, pois também eles devem saber dar uma resposta, devem saber dizer quem é Aquele que seguem.
É Pedro que toma a palavra para dizer em seu nome e possivelmente como porta-voz do grupo que Jesus é “Cristo, o filho do Deus Vivo”. Resposta correcta e que Jesus confirma, ressalvando no entanto, que não tinha sido a carne nem o sangue que lhe tinham dado aquele conhecimento mas o Pai que está nos Céus.
Esta ressalva de Jesus, o conhecimento dado pelo Pai do Céu, confronta-se no entanto com a forma como Jesus trata Pedro, ou mais correctamente, Simão o filho de Jonas. Uma vez mais Jesus relaciona-se com Pedro tendo presente a sua condição humana, a sua identidade terrestre, manifestando a distância e a proximidade em que se encontram.
E o mais surpreendente deste tratamento, desta nomeação, é que Jesus afirma a felicidade de Simão, filho de Jonas. Parece haver assim uma contradição entre a forma como Jesus trata Pedro, referindo-se à felicidade na sua natureza carnal, e o conhecimento divino que não é dado pela carne ou pelo sangue.
Este paradoxo das palavras de Jesus é ultrapassado quando assumimos que é na nossa condição humana que podemos e devemos buscar a verdade do conhecimento divino, conhecimento e verdade que nunca chegaremos a alcançar na nossa limitação e finitude humanas, mas que nos serão revelados pelo próprio Deus na carne e no sangue.
A felicidade encontra-se assim na nossa humanidade e nesse desejo de conhecimento, nessa busca árdua feita na carne e no sangue, nessa adesão à humanidade de Jesus que nos conduz à natureza e ao conhecimento divinos.
Simão, filho de Jonas, é feliz porque na sua condição humana e nas suas limitações se encontra com Jesus, segue Jesus, e em Jesus se encontra com a verdade que lhe é revelada pelo Pai do Céu de que ele é o Filho Amado.
Para nós podermos dar esta resposta necessitamos também seguir Jesus, encontrar-nos na nossa humanidade com a sua humanidade, e passar algumas vezes por essa terra estrangeira ou pagã, em que nos é colocada a pergunta, “e tu quem dizes que eu sou?”
Esta pergunta de Jesus obriga-nos a uma resposta, uma resposta que por não ser verdadeiramente nossa, porque é dada pelo Espirito, nos perturba, nos desinstala, nos faz avançar por outros caminhos, nos interpela a um outro compromisso mais fiel e verdadeiro.
Alegremo-nos pela interpelação e pela resposta transfigurante que o Espirito faz nascer em nós.

 
Ilustração: “São Pedro pregando”, de Masolino da Panicale, Capela Brancacci, Florença.