segunda-feira, 31 de março de 2014

Caminhada a Santiago dos Convívios da Paróquia

Este fim de semana passado, dias 29 e 30 de Março os Convívios de Cristo Rei fizeram a sua Caminhada a Santiago.
Um momento para sair dos ritmos quotidianos e encontrar a paz da natureza, a alegria da fraternidade e a presença de Deus que caminha connosco.
Ficam algumas imagens para recordar esses momentos.









 

A escuta humaniza

 
É pela escuta que nos tornamos humanos. A escuta que nos torna atentos aos outros, à criança que chora, à mulher aflita, ao homem inquieto… A escuta daquilo que não encontra o caminho das palavras para se dizer, mas que está lá e se pressente no cuidado da relação. Escuta silenciosa e orante do grito do mundo.
Véronique Margron

Ilustração: Ramo de rosas brancas oferecido pelo aniversário  

domingo, 30 de março de 2014

A Igreja é sinal


 
A Igreja não existe para se mostrar a si própria, mas para ser sinal do mistério de Cristo. Ela não se impõe mas propõe, e isso não é para que a vejam mas para indicar Jesus Cristo.

Enzo Bianchi,

Ilustração: Fachada neoclássica da Catedral de São Pedro de Genebra.

sábado, 29 de março de 2014

O testemunho visível

 
Jesus exige dos seus discípulos uma presença visível e um testemunho transparente da sua diferença face ao mundo, mas tal não autoriza em caso algum esperar a admiração dos homens.
Enzo Bianchi,
 
Ilustração: Remate de balaustrada no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A autoridade faz crescer

 
Desde o ponto de vista da etimologia, a autoridade consiste não em submeter mas em fazer crescer. Ela deriva antes de mais de uma origem e não de uma competência.
Fabrice Hadjadj,

Ilustração: Escadaria do jardim de Serralves no Porto.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Outros pediam um sinal do céu. (Lc 11,16)

As tentações que Jesus experimentou no deserto são uma síntese das tentações que sofreu ao longo de toda a sua vida e missão, são uma síntese das tentações de todos nós.
Podemos ver esta permanência das tentações cada vez que Jesus é interpelado no sentido de um sinal extraordinário, de um sinal do céu, como acontece quando expulsa um demónio mudo.
Mesmo após o milagre, aqueles que assistem e são testemunhas do acontecimento, pedem um sinal mais extraordinário, como se a palavra de alguém que era mudo não fosse já por si só um grande sinal, um sinal do céu e da Palavra que se tinha feito carne.
Estes pedidos de algo extraordinário, de um sinal do céu, esbarram sempre na persistência da humildade dos sinais de Jesus, assim como os nossos pedidos esbarram no grande sinal da cruz, na qual o despojamento total é o maior e mais verdadeiro dos sinais que Jesus nos dá.
É na cruz e no escândalo da sua pobreza e finitude que Jesus revela o incondicional amor de Deus por todos os homens, que se revela a vitória sobre o inimigo, pois Jesus despoja-o das suas armas, apresenta-se mais forte na sua humildade e obediência.
É na nudez despojada da cruz que Jesus vence as armadilhas do ter, do poder e do parecer com que o demónio desde Adão tenta afastar o homem do seu criador e do verdadeiro projecto de vida feliz que Deus oferece.
É por este sinal que o homem pode aceder à sua verdadeira dignidade, pode viver a sua realidade de filho de Deus.
Neste sentido, quando nos assalta a tentação de pedir um sinal a Deus, não podemos deixar de trazer à memória e ao coração, colocar até diante dos nossos olhos, que o sinal que Deus nos dá é a cruz de Jesus, a memória da sua misericórdia infinita, do seu amor por cada um de nós.
Que a Quaresma nos ajude a contemplar esta manifestação do amor de Deus e a assumi-la em cada dia como verdadeiramente propriedade nossa.

 

Ilustração: "Crucifixão", de Antoon Van Dyck, Igreja de São Zacarias, Veneza.    

Viver algo eterno

 
 
Não sei ao que se assemelha a vida eterna. O que sei é que sou chamado a viver desde já qualquer coisa de eterno, qualquer coisa daquilo que não pode morrer. E só o amor é eterno.
Philippe Maillard, Dominicano

Ilustração: Rosa do jardim da casa dos meus pais.

quarta-feira, 26 de março de 2014

As fontes da bem-aventurança

 
O amor e a humildade estão alicerçados na mais pura divindade, eles são as fontes dos rios da bem-aventurança.
Hildegarde de Bingen, Livro das Obras Divinas, VIII, 3

Ilustração: Fonte do Jardim de Serralves, Porto.

terça-feira, 25 de março de 2014

Obter o que é seu

 
Se queres obter o que é teu deves entregar-te completamente, com confiança, a Deus, para te converteres no que Ele é.
Hadewijch de Anveres, Carta II

Ilustração: Anunciação no pórtico românico da igreja do Santuário de Nossa Senhora de Estibaliz.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Jesus seguiu o seu caminho! (Lc 4,30)

Após as experiências do baptismo e das tentações no deserto, Jesus regressou a casa, à sua Nazaré querida, e como habitualmente entrou na sinagoga no dia de sábado e leu o texto do profeta Isaías para toda a comunidade.
Ao concluir a leitura afirma diante de todos que a palavra do profeta se cumpre ali, naquele dia, o que provoca imediatamente a murmuração de todos os presentes, pois todos eles estavam expectantes, também eles esperavam algo de extraordinário, um milagre, que os libertasse do conhecimento familiar que possuíam.
Todos os presentes o conheciam e a sua família estava também ali presente, pelo que era necessário algo verdadeiramente extraordinário para que pudessem acreditar nele, para que lhe pudessem dar o estatuto e a condição que Jesus reclamava para si face à leitura do profeta.
Diante desta incompreensão e exigência, Jesus socorre-se de dois exemplos, o profeta Elias que alimentou uma viúva de Sarepta, e o profeta Eliseu que curou o sírio Naaman, factos que provocam a ira dos presentes, ao ponto de projectarem a própria morte de Jesus.
No momento de maior tensão, no clímax da situação, Jesus passa pelo meio deles e segue o seu caminho, deixando-os entregues às suas dúvidas, à sua incompreensão e ao seu ódio. Não lhes vira as costas, como poderia pensar-se, mas assume a mesma atitude dos profetas chamados a testemunho, segue ao encontro daqueles que o acolham.
Diante da falta de fé daquela gente, Jesus segue o caminho, vai à frente, mostrando que nada o pode reter, nem mesmo a morte, porque a sua missão é ir à frente, é abrir o caminho, é realizar a missão que desde o primeiro momento tinha sido confiada ao povo eleito mas que nunca tinha sido realizada.
Tal como Elias salvou a viúva de morrer à fome, e Eliseu salvou Naaman de morrer leproso, ambos estrangeiros e portanto destinatários da missão redentora do povo eleito, também Jesus segue o seu caminho em direcção àqueles que são considerados estrangeiros, em direcção àqueles que são o objecto da sua vida, os homens que necessitam salvação.
Quando Jesus vem ao nosso encontro também o nosso homem velho se pode revoltar e recusar a acolhê-lo, pois está demasiado habituado a si próprio. Contudo, Jesus não se retrai nem se desvia, vem e passa e segue, abrindo-nos o caminho na provocação que nos deixa de o reconhecermos como o Messias esperado, o Filho de Deus.
Senhor que te saibamos reconhecer e acolher, e seguir no caminho que nos abres para a Páscoa da libertação.
 

Ilustração: “O profeta Elias e a viúva de Sarepta”, de Bernardo Strozzi.

A beleza

 
A beleza ignora-nos, ela é uma conversa entre dois anjos aos quais nós surpreendemos o riso.
Christian Bobin,

Ilustração: Pintura de Querubins com Missal no tecto da sacristia da Sé de Lisboa.

domingo, 23 de março de 2014

Homília do III Domingo da Quaresma

O Evangelho que escutámos, neste que é o terceiro domingo da Quaresma, apresenta-nos o encontro de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob, encontro inesperado e estranho, na medida em que, como nos diz o texto evangélico, acontece numa hora inusitada, na hora de maior calor, e entre pessoas que historicamente viviam de forma hostil, em conflito por causa do lugar de culto a Deus.
Este encontro é contudo extremamente significativo, não só porque nos mostra a forma pedagógica como Jesus conduz os seus interlocutores ao fundamental, ao verdadeiramente essencial, é um exemplo acabado do que foram os encontros pessoais com Jesus, e por isso mesmo nos interpela, mas também e sobretudo porque nos mostra o que Jesus nos oferece em cada um desses encontros pessoais, a água viva que jorra para a eternidade, a água viva que é o dom do Espirito Santo e que sacia a nossa sede profunda.
Neste sentido, não podemos deixar de nos centrar no que é o coração do diálogo entre Jesus e a samaritana e que se situa no pedido de Jesus de que a mulher vá chamar o seu marido. É uma parte do texto evangélico que as leituras abreviadas suprimem, mas que é fundamental na compreensão do diálogo e na afirmação posterior da mulher ao reconhecer Jesus como um profeta.
Se num primeiro momento do diálogo nos deparamos com uma incompreensão por parte da samaritana face ao que Jesus diz, ela pensa na água material que lhe pouparia imenso trabalho, enquanto Jesus fala do dom da vida divina, do Espirito Santo, a partir do momento em que a questão do marido entra em jogo há um alinhamento dos sentidos e portanto o diálogo torna-se compreensível para os dois.
O marido funciona assim como o ponto de encontro com a verdade, com a verdade histórica, com a verdade da mulher e com a verdade do próprio Jesus; e portanto a partir dali o diálogo pode seguir compreensível, pode prosseguir na medida em que cada um está diante da verdade do outro.
A mentira da samaritana, ao dizer que não tem marido, leva Jesus a confrontá-la com os maridos antepassados, maridos que à luz da história da Samaria correspondem aos ídolos que os povos estrangeiros trouxeram para a terra quando o rei da Assíria procedeu ao seu repovoamento.
Os cinco maridos que a samaritana já teve representam assim no diálogo as diversas possibilidades de desvio, de idolatria, de infidelidade, que os homens podem cometer e com as quais o encontro com Jesus nos confronta e faz tomar consciência. É a verdade da nossa busca de saciação nas outras fontes, nessas cisternas rotas de que Jesus fala em outra ocasião.
Mas para além destes maridos passados, a samaritana tem ainda um sexto marido, o marido actual, e que Jesus lhe revela que também não é dela, porque afinal também ele ainda não lhe deu a satisfação que ela busca. O marido que a samaritana tem no presente corresponde a esse conflito interior, a essa busca, que no diálogo se vai exprimir na questão do verdadeiro lugar de adoração.
Ultrapassados os ídolos, a mulher busca num lugar a sua relação com o Deus verdadeiro, lugar que o seu povo defende situar-se na sua terra enquanto outros, como os judeus, defendem encontrar-se em Jerusalém.
E é perante esta verdade, esta questão sincera da mulher, que Jesus lhe revela a sua verdade, a resposta de Deus Pai a todas as idolatrias e conflitos por causa de ritos ou lugares de culto: os verdadeiros adoradores são aqueles que adoram a Deus em espirito e verdade, são aqueles que estabelecem uma união com ele ao acolherem-no como o Messias e formam na fraternidade uma comunidade viva.
Revela-se assim à mulher que o seu verdadeiro marido é aquele desconhecido que se encontra diante dela, aquele profeta que sabe tudo da sua vida, que não a condena pelos seus erros passados, mas que lhe descobre a sua sede com um olhar de amor e lhe apresenta a fonte que brota no seu mesmo interior e lhe devolve a sua verdadeira grandeza de mulher.
A samaritana não tem assim mais necessidade de buscar uma fonte, ou um marido, porque é no seu coração, na verdade assumida da vida que ela e ele se encontram. Ela que tinha vindo por uma água material parte inundada da água viva, da água que a transforma em apóstolo junto dos outros, ela que não tinha marido parte agora unida com aquele que ama incondicionalmente.
Neste tempo de Quaresma somos também convidados a não ter medo de nos abeirarmos das nossos poços, do confronto com a nossa verdade, dos nossos passos infiéis ou idolátricos, porque é lá, sentado, que se encontra Jesus à nossa espera para nos restabelecer na verdade que nos liberta.
E se o peso das nossas faltas nos intimida, não podemos deixar de ter presente que tal como com a samaritana é Jesus que nos pede de beber, é ele que se faz mendicante da nossa sede, é esse o seu alimento, para que em verdade e para cada um de nós se possa cumprir as palavras que traduzem a realidade da crucifixão, ou seja, que tomou sobre si o peso dos nossos pecados.   
Quando Jesus nos pede de beber a única coisa que lhe podemos dar verdadeiramente nossa são os nossos pecados, mas sabemos que com eles Jesus cumpre a vontade do Pai que é o seu verdadeiro alimento. Que o medo não nos impeça da gozar da liberdade que Jesus nos alcança com o seu amor aos homens e obediência à vontade do Pai.

 
Ilustração: “Samaritana”, de Pietro Benvenuti.

A grandeza do homem

 
A grandeza do homem reside no poder de pensar a sua falta de poder, a sua impotência.

Leili Anvar,

Ilustração: Estátua “O Salvador”, na Avenida do Brasil, Foz, Porto.

sábado, 22 de março de 2014

Recuperar a visão

 
Nós estamos cegos pelos milhares de imagens que se abatem sobre nós. Para recuperar a vista, necessitamos pedir conselho aos recém-nascidos e aos moribundos, recuperar o esplendor de um copo de água que o sol trespassa, redescobrir um rosto que sofre e que se eleva ao céu como um balão de criança.
Christian Bobin,

Ilustração: Espelho de água do Jardim de Serralves

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um homem que sonha

 
Um homem que sonha está à beira de sentir um anjo bater-lhe nas costas.
Christian Bobin,

Ilustração: Arcanjo Rafael. Mosaico do altar de Nossa Senhora de Lourdes, na Basílica de Lourdes.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O incêndio dos olhos

 
Tudo o que amamos dá no invisível um passo na nossa direcção para se reanimar no incêndio dos nossos olhos.
Christian Bobin,

Ilustração: Pérgula do Jardim de Serralves ao final de tarde de Outono.

quarta-feira, 19 de março de 2014

São José guarda fiel

 
São José foi escolhido pelo Eterno Pai para guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros, o Filho de Deus e a Virgem Maria. Fidelissimamente desempenhou este ofício, e por isso lhe disse o Senhor: “Servo bom e fiel entra na glória do teu Senhor”.
São Bernardino de Sena,

Ilustração: Bodas da Virgem Maria e São José, pintura do Monastério de Las Dueñas, Salamanca.

terça-feira, 18 de março de 2014

A confiança em primeiro

 
Na oração de intercessão a dúvida não desaparece nunca, mas a confiança está sempre primeiro.
Geneviéve de Taisne,

Ilustração: Mar revolto junto à Foz do Douro em dia de inverno.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A alteridade de Deus

 
Compreender a alteridade radical de Deus é a ascese de toda a vida… por isso é necessário vigiar permanentemente a purificação da oração de intercessão.
Geneviéve de Taisne,

Ilustração: Ramo de loureiro em flor, do jardim do convento de Cristo Rei.

domingo, 16 de março de 2014

Homília do II Domingo da Quaresma

Neste segundo domingo da Quaresma a Liturgia da Palavra, através do Evangelho de São Mateus, convida-nos a contemplar o mistério da transfiguração de Jesus. Mistério que podemos situar na caminhada quaresmal como uma garantia para atravessarmos os momentos de sofrimento e dor da paixão e morte de Jesus. A transfiguração revela e anuncia já a glória de Jesus ressuscitado.
Contudo, se contemplarmos este mistério à luz do chamamento de Abraão, que a leitura do Livro do Génesis nos apresenta, e à luz do chamamento à santidade de que fala São Paulo na segunda Carta a Timóteo, não podemos restringir o mistério da transfiguração exclusivamente a Jesus. O mistério da transfiguração diz-nos respeito a todos.
Neste sentido importa antes de mais tomar consciência que o acontecimento do monte Tabor, a transfiguração, revela um homem, uma pessoa totalmente dada a Deus, pessoa que os três discípulos perceberam e puderam contemplar quando Jesus se colocou em oração.
Foi nesse momento e nessa experiência que se revelou a profunda união de Jesus com Deus Pai, que se manifestou a luz que irradia dessa mesma união, luz que certamente alguns de nós já experimentámos no brilho dos olhos e na alegria luminosa do corpo de alguém que reza verdadeiramente.
Esta experiência, que fazemos nas nossas limitações humanas, Jesus viveu-a em plenitude e totalidade, mostrando-nos através dela que é possível na nossa condição humana, nas nossas limitações, também chegar a vivê-la.
A transfiguração de Jesus no monte Tabor revela-nos assim o que o mesmo Jesus assumiu em outro lugar e depois São Paulo não deixou de reiteradamente assinalar, que o nosso corpo é templo de Deus, é habitação de Deus, e portanto é na nossa carne humana que se manifesta a glória de Deus.
O que aconteceu com Jesus na transfiguração é afinal a revelação do que é verdadeiramente o corpo humano, o corpo humano segundo os desígnios da criação divina, um espaço e um modo da habitação de Deus. Deus vive no homem, Deus criou o homem para a sua habitação mais perfeita.
A transfiguração não se trata assim apenas de um prodígio, de um mistério, mas da revelação do que somos à luz do projecto de Deus, do que é cada homem quando acolhe o convite de Deus e se assume como morada de Deus.
Neste sentido, o corpo humano é o que nos liga definitivamente a Deus, uma vez que o corpo humano de Jesus, o corpo que assumiu ao fazer-se homem como os homens excepto no pecado, foi habitado pela presença de Deus, foi presença de Deus entre os homens. E na transfiguração de Jesus todos os corpos humanos foram transfigurados, ou, usando uma linguagem moderna, foram reconfigurados com o seu programa inicial de serem habitação de Deus.
Esta condição, esta natureza, coloca-nos desafios e compromissos que não podem deixar de ser tidos em conta, como o cuidado com o nosso corpo, a atenção que lhe prestamos. Não um cuidado idolátrico, como se o nosso corpo fosse o nosso deus, mas como templo de Deus, e portanto digno de toda a veneração e atenção. Um cuidado exigente que conduz à manifestação da divindade que o habita e transfigura.  
Por outro lado, esta condição transfigurada do nosso corpo conduz-nos a uma santidade, como nos convida São Paulo, que não abdica do corpo e das suas potencialidades e fragilidades, a uma vida espiritual que não pode ser uma fuga do corpo ou do mundo, uma desencarnação.
Com a transfiguração, mesmo a dor e o sofrimento são possibilidades da manifestação gloriosa da presença de Deus em nós. E por isso São Boaventura num Sermão sobre Santa Maria Madalena diz que, se há algo que os homens podem oferecer a Deus, e os anjos amam ardentemente mas são incapazes de oferecer na sua natureza espiritual, são as suas lágrimas humanas.
Por outro lado, a transfiguração que a partir de Jesus nos transfigura possibilita-nos as oportunidades de sermos bênção para os outros, tal como Abraão foi para todos os povos. Pelo nosso corpo humano podemos abençoar e levar a bênção de Deus a todos aqueles que se encontram connosco, podemos ser medianeiros da presença viva de Deus.
Neste tempo da Quaresma, em que a Igreja nos convida à oração, ao jejum, e à esmola, procuremos viver essas mediações como formas de nos encontrarmos e nos consciencializarmos da habitação de Deus em nós e nos nossos irmãos. A esmola proporciona-nos a possibilidade de ser bênção, o jejum de tomarmos consciência das nossas idolatrias corporais, e a oração de purificar a presença da luz divina em cada um de nós.
Procuremos pois vivê-las de forma mais intensa e consciente das suas potencialidades transfigurantes.

 
Ilustração:
1 – “Transfiguração”, de Lodovico Carracci.
2 – Desenhos de Rafaello Sanzio para a Transfiguração.

Um exército em oração

 
Quando nós nos unimos para rezar juntas por uma intenção, nós somos como um exército que se dispõe em ordem de batalha.
Souer Marie-Bernard de Notre-Dame de Beaufort

Ilustração: Cúpulas douradas da Igreja Ortodoxa de Genebra.

sábado, 15 de março de 2014

Para a distribuição

 
Nós somos depositários do amor de Deus. É nossa função distribui-lo!
Souer Aleluia de Notre-Dame de Beaufort

Ilustração: Altar de São Vicente na igreja da cidade de Vitória.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Invisivel resistência

 
Num mundo cheio de imagens, o lado invisível representa para mim uma forma de resistência.
Anne-Claire,

Ilustração: Sol de outono nos jardins de Serralves.

quinta-feira, 13 de março de 2014

À escuta

 
Quanto mais nos colocamos à escuta do nosso desejo mais profundo, mais nos colocamos à escuta do desejo de Deus.
Frère Éloi Lecllerc,

Ilustração: Alameda em tons de outono em Vernier, Genebra.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Jonas foi um sinal! (Lc 11,30)

A multidão que em massa procura Jesus pede um sinal, pede sinais, uma exteriorização do seu poder e da sua pessoa. Não lhes bastava os milagres e as curas, os que andavam, os que viam, aqueles que diziam terem sido alimentados por Jesus. Aqueles homens e aquelas mulheres pediam mais, queriam algo de extraordinário.
E surpreendentemente Jesus apresenta-lhes Jonas, o profeta Jonas, como resposta aos seus pedidos e desejos. Jesus remete-os para Jonas como um sinal possível, como aquele que lhes poderia indicar uma resposta, que lhes poderia dar uma luz.
Sinal inusitado e estranho até, na medida em que Jonas não era propriamente um exemplo de obediência, de obediência pronta e imediata à Palavra de Deus. Pelo contrário, a sua história deixa ver um personagem um pouco ridículo, fraco, que se debate interiormente sobre o que fazer, quase sem grande personalidade, desertando face à missão que lhe é destinada.   
Jonas não era, pela sua vida e pelo seu exemplo, grande sinal, mas podia-o ser para aqueles que quisessem ver na medida da salvação de que tinha sido objecto, salvação “in extremis” operada por Deus, que pode salvar mesmo quando o homem lhe tenta escapar.
O sinal de Jonas é afinal o sinal de todas as nossas contradições, dos nossos medos e deserções, do nosso titubear face aos apelos de Deus, mas é também o sinal da acção de Deus, da salvação de Deus que vem ao encontro da fraqueza humana. Por isso Jesus não podia apelar para outro sinal mais eloquente para revelar quem era e qual era a sua missão.
Face a este sinal e ao que representa procuremos pois converter-nos, tal como se converteram os habitantes de Nínive, assumindo a nossa debilidade e fraqueza mas também a graça de Deus que nos é oferecida em cada tempo e lugar.

 
Ilustração: “Jonas saindo do ventre da baleia”, de Jacopo Tintoreto, Veneza.

A quem muito foi dado

 
Dar graças deveria conduzir-nos a reconhecer que o que nos foi dado não constitui uma possessão, um privilégio, ou um estandarte no qual nos podemos dispor para afirmar que somos melhores ou eleitos. “Àquele a quem muito foi dado mais lhe será exigido.”
Katell Berthelot

Ilustração: Flor de japoneira do jardim do Convento de Cristo Rei do Porto.

terça-feira, 11 de março de 2014

A exigência da graça

 
A graça pede uma acção: que o que foi recebido seja devolvido a Deus através da partilha com os outros.
Katell Berthelot

Ilustração: Paisagem da viagem de comboio entre Zurique e Genebra.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Quando foi que te vimos? (Mt 25,37)

O capítulo vinte e cinco do Evangelho de São Mateus é surpreendente, pois num bloco conciso é-nos apresentada a parábola das virgens loucas e sensatas, a parábola dos talentos e como conclusão o juízo final em que se faz a destrinça entre as ovelhas e os cabritos, entre aqueles que tiveram um gesto diferente para com os mais pequenos e frágeis e os que não foram capazes de tal gesto.
Mas se este juízo nos surpreende pela simplicidade dos gestos a que somos convidados, e pelos quais manifestamos a presença de Deus nos outros, não é menos surpreendente o ponto de partida que nos coloca em movimento e provoca, como é o olhar.
Por isso a admiração e a pergunta daqueles que estão a ser julgados, quando te vimos com fome ou sede, quando te vimos doente ou preso? A acção parte do olhar e do modo como se olha.
E na nossa sociedade e cultura este olhar é um desafio que se nos apresenta de forma inquietante, uma vez que tendemos a esconder aquele que sofre, aquele que está doente, aquele que é mais velho. Muitas das realidades de que nos fala o juízo do Evangelho tornaram-se hoje invisíveis.
O Evangelho aparece-nos assim uma vez mais como uma revolução, como uma subversão dos nossos princípios, dos valores com que nos orientamos e construímos a nossa sociedade e as suas relações.
Deus não só se coloca do lado dos mais frágeis, daqueles que menos podem, dos excluídos, como nos convida a todos a colocarmo-nos na sua óptica e do seu lado, partilhando a nossa fragilidade, ou força, com aqueles que são verdadeiramente frágeis.
Somos assim convidados, neste tempo da Quaresma, a ter os olhos mais abertos, a ver de outro modo, a reconhecer Deus presente naquelas realidades e pessoas que a nossa sociedade procura esconder, retirar da nossa vista.


Ilustração: “A Caridade”, fresco de Johann Michael Rottmayr, na Karlskirche, Viena.
 

Agradecer a Deus

 
Agradecer é “dar graças”, fazer “eucaristia” em grego. Agradecer a Deus por um acontecimento, por um familiar, pelo pão deste dia ou pela Sua presença nas nossas vidas, é virar-se para o Senhor e santificar todas as coisas por um movimento ascendente de oferta.
Katell Berthelot,

Ilustração: Torre da igreja da Abadia de Saint Gallen, Suíça.

domingo, 9 de março de 2014

Homília do I Domingo da Quaresma

Estamos a iniciar a Quaresma, este tempo litúrgico que a Igreja e Deus nos oferecem de preparação para a celebração da Páscoa da Ressurreição do Senhor.
E neste primeiro domingo, nesta primeira paragem da caminhada, os textos bíblicos convidam-nos a pensar e a meditar uma realidade profundamente intrínseca à nossa condição humana, as tentações, as diversas possibilidades de ruptura com Deus que nos podem conduzir ao pecado ou que nos podem fortalecer na fidelidade ao mesmo Deus.
O Evangelho de São Mateus que escutámos apresenta-nos as tentações de que Jesus foi alvo, quando depois do baptismo no rio Jordão se dirigiu ao deserto. São possibilidades de ruptura, ofertas à sua liberdade de opção, tentações que o desafiam na revelação que Deus Pai tinha feito no momento do baptismo, “Este é o meu Filho muito amado”.
A primeira tentação coloca-se ao nível da satisfação, da satisfação das próprias necessidades sem a colaboração de outrem. Como todos sabemos, na nossa autonomia e liberdade desejamos não depender de nada nem de ninguém, e é neste sentido que a tentação apresentada a Jesus de transformar as pedras em pão acontece.
É a possibilidade de ruptura com Deus, e até com os outros, no âmbito da confiança, da consciência da dependência mutua. Satisfazendo as nossas próprias necessidades, quer seja de pão, quer seja de amor, não necessitamos dos outros, e como tal vivemos sozinhos e só para nós próprios, negando que é a relação com o outro que nos constrói como pessoas.
Jesus é profundamente assertivo nesta questão e na resposta ao desafio tentador, pois face à tentação de auto satisfação contrapõe a necessidade da Palavra de Deus, de uma palavra e de uma relação. O homem não vive só de pão, mas da Palavra que sai da boca de Deus.
Esta tentação de satisfação pelos próprios meios e falta de confiança em Deus reflecte-se também no desejo de acumular, de ter mais que o necessário, de ter uma garantia e segurança para o dia seguinte, como aconteceu com o povo de Israel no deserto com o maná.
Contudo, e ainda que o povo apanhasse mais do que necessitava para se alimentar nada chegava ao dia seguinte. Tal circunstância tinha o objectivo de despertar no povo a total confiança em Deus, a confiança na sua protecção, mas tal não se veio a verificar, como tantas vezes também não se verifica na nossa vida.
A segunda tentação que se apresenta a Jesus, e que se coloca também a cada um de nós, continua no mesmo âmbito da confiança, mas agora no sentido do abuso de confiança, daquilo que podemos chamar de chantagem psicológica a Deus.
A tentação apresentada a Jesus considera a possibilidade de agir sobre Deus, de obter de Deus sob pressão o cuidado e o necessário em virtude da filiação divina ou do amor que Deus tem pelos seus filhos. Deus é colocado à prova no seu amor, no seu cuidado e atenção para com os homens, como se alguma vez pudesse deixar de estar atento ou descuidado.
Tal provocação não deixa de significar uma ruptura, uma vez que não só coloca em causa o cuidado e amor de Deus, mas sobretudo porque atribui a Deus uma dimensão de menoridade, de manipulação que lhe retira a dignidade inerente.
Jesus consciente da possibilidade desta ruptura assume com humildade a sua liberdade, a sua autonomia, e a transcendência de Deus, que cuida dos seus filhos, que os ama, mas que não é passível de ser manietado como um joguete ou usado como um kit de emergência.
Na impossibilidade de provocar a ruptura com Deus através da quebra de confiança, através da deturpação das que podemos chamar mediações, a última tentação vai directa ao coração da questão e desafia Jesus na recusa do divino, na negação de Deus e da sua paternidade.
É a mentira que encontramos desde a primeira tentação, o engodo que leva o homem a pensar que Deus é seu inimigo, que Deus lhe coarcta a sua liberdade, e portanto só pode ser verdadeiramente homem de costas voltadas para Deus, constituindo-se como deus. O culto que o homem recusa a Deus passa a ser prestado a si próprio ou a outras realidades inferiores.
Jesus recusa a oferta da idolatria, a oferta da sua autonomia longe do Pai, assumindo que só na total dependência do Pai encontra a sua realização, encontra o seu sentido existencial. Como filho necessita do pai e como homem necessita do seu criador como referentes para a sua existência.
A liturgia deste primeiro domingo da Quaresma apresenta-nos assim a raiz dos nossos pecados, a recusa da paternidade amorosa de Deus. Neste sentido, sempre que colocamos em causa a bondade de Deus, a sua misericórdia, a sua providência, sempre que perdemos a confiança na sua acção e protecção e nos deixamos dominar pelo medo e pela suspeita estamos a abrir a porta à tentação e à ruptura com Deus.
Necessitamos por isso estar atentos, vigilantes, e sobretudo cultivar em nós e naqueles que nos rodeiam um espirito de confiança, dessa confiança que fala São Paulo quando nos diz que pela justiça de um só nos chega a todos a justificação.
Que o Senhor crie em nós um coração puro e faça nascer em nós um espirito firme para proclamar os louvores do seu amor paterno.
 
Ilustração:
1 – “A tentação de Jesus”, de Carl Heinrich Bloch, Capela de Frederiksborg Palace, Copenhaga. 
2 – “A Tentação de Jesus”, de Nikolai Ge, Museus Russos.
 

Ir ao deserto com Jesus

 
Escolher comprometer-se nos passos de Jesus pelo deserto é aceitar não saber onde ele nos conduz, mas abandonar-se com confiança no caminho que ele nos abre e que será necessário prosseguir.
Jean-Baptiste de Fombelle,

Ilustração: Caminho calcetado de granito do Jardim de Serralves.

sábado, 8 de março de 2014

Deus fala mais tarde

 
Deus não fala durante as minhas orações, ele fá-lo mais tarde, por intermédio do meu próximo, pelos acontecimentos, ao desbloquear certas situações.
Michael Lonsdale,

Ilustração: Mosaico do baptistério da Igreja Dominicana de São Paulo em Genebra.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Rezar de verdade

 
Talvez não rezemos verdadeiramente senão quando o que é construído na cabeça está depositado no coração.
Michael Lonsdale,

Ilustração: Rocha batida pelo mar na Praia do Salvador, Porto.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Contacto íntimo

 
A oração é um contacto íntimo com o Senhor que sabe tudo de nós. Posso por isso dizer-lhe tudo.
Michael Lonsdale,

Ilustração: Flor de japoneira do jardim do Convento de Cristo Rei no Porto.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quaresma com destino

 
Se a Quaresma é sempre um tempo frutuoso e reconstituinte, é porque antes de mais ela nos põe em marcha. Os que marcham ou os peregrinos conhecem esta exigência de se colocar em caminho e de avançar em direcção a um objectivo. No caso da Quaresma, não sou eu que estabeleço o destino.
Jean-Baptiste de Fombelle,

Ilustração: Crucifixo suspenso no cruzeiro da Catedral de Notre Dame de Genebra.

terça-feira, 4 de março de 2014

A gratidão

 
Prazer de receber, alegria de estar alegre: gratidão. A gratidão não tem mais a dar que este prazer de ter recebido. Que virtude mais leve, mais luminosa!
André Comte-Sponville,

Ilustração: Flores de arbusto do Jardim de Serralves.

segunda-feira, 3 de março de 2014

A tua grandeza

 
 
Tu desejas mais do que acreditas, a tua grandeza ultrapassa a consciência do que conheces. Vive de acordo com esta grandeza; quanto mais fazes a experiência desta vida, mais te apercebes que és grande e esta grandeza é uma exigência.
François Varillon,

Ilustração: Brilho de outono no Jardim de Serralves.

domingo, 2 de março de 2014

Homília do VIII Domingo do Tempo Comum

Ao escutarmos estre trecho do Evangelho de São Mateus que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece, a primeira ideia que fixamos é que não podemos servir a Deus e ao dinheiro, certamente porque, a bem da verdade, mais ou menos todos vivemos esse conflito de não saber muito bem a quem servir.
Umas vezes pensamos e queremos servir a Deus, mas prontamente descobrimos que afinal não podemos deixar de servir o dinheiro, outras vezes servimos o dinheiro mas também rapidamente constatamos que não nos colma o desejo que profundamente habita em nós.
Desta forma, temos que assumir que inevitavelmente vivemos em conflito, um conflito interior, um conflito de interesses que se repercute exteriormente, que se repercute nas nossas palavras, nos nossos gestos, na própria forma como vivemos e construímos a nossa vida.
Muitos dos conflitos, das divisões e confrontos com que nos vamos deparando nas nossas mais diversas circunstâncias não são mais que o reflexo dos nossos conflitos e divisões internas, provocadas pela ambiguidade de servir a dois, ou até a mais, senhores.
Para que tal possa começar a ter um fim, para que possamos iniciar uma terapia, temos que assumir que Jesus ao dizer que não podemos servir a Deus e ao dinheiro não está a condenar o dinheiro, não nos está a privar do seu uso, mas a chamar-nos a atenção para a forma como nos relacionamos com o dinheiro, com a sua idolatria e absolutização.
Porque afinal é este o problema que está em causa, a absolutização do dinheiro, do lucro, que tantos estragos têm feito na vida de tantos homens e mulheres, de tantas famílias, uma vez que tudo se torna relativo e descartável face a esse mesmo lucro e dinheiro.
A absolutização e idolatria do dinheiro aproxima-nos da tentação de Adão e Eva, quando seduzidos pela serpente pensaram que comendo do fruto da árvore podiam ser como Deus. A idolatria do dinheiro e a sua absolutização dão-nos também essa sensação, essa esperança, e por isso muitos homens e mulheres vivem para o dinheiro como se ele lhes garantisse a imortalidade.
Contudo, para que o combate à idolatria do dinheiro e aos conflitos e divisões que provoca possa ser verdadeiramente eficaz, temos que assumir que à luz das palavras de Jesus há uma outra idolatria, menos óbvia, mas muito mais degradante da condição humana, uma idolatria que possibilita e potencia a idolatria do dinheiro.
Essa idolatria funda-se no distanciamento de Deus, é a idolatria da ausência de Deus, como se Deus não se interessasse mais pelo homem e pelas suas condições de vida.
É a idolatria que vemos subjacente na leitura do Profeta Isaías que escutámos, um profeta que face a esta mesma concepção se vê obrigado a dizer ao povo que tal como uma mãe não pode esquecer o seu filho também Deus não pode esquecer o seu povo, os homens, o objecto da sua predilecção.
Mas o profeta vai ainda mais longe, assume de forma mais radical o amor e a presença de Deus, ao dizer que se uma mãe é capaz de esquecer o seu filho, Deus não é capaz de tal atitude, de tal esquecimento, uma vez que o seu amor é permanentemente actual. Deus revela-se existente nesse mesmo amor, nesse cuidado e atenção para com a sua obra.
Quando o homem vive acreditando que Deus se ausentou, que Deus se desinteressou, é muito fácil cair na idolatria daquilo que nos parece dar a segurança, é muito fácil aceitar o dinheiro, o poder, ou a força como os meios de salvação e realização.
Para evidenciar este abismo idolátrico Jesus apresenta no Evangelho as imagens poéticas dos lírios do campo e das aves dos montes, que são vestidos e alimentados em magnificência e abundância por Deus. Se tal acontece com realidades tão frágeis e perenes, como é possível que não se acredite que também assim acontece com o homem, ou ainda de forma mais excelente com o homem quando este é o esplendor da criação divina?
O equilíbrio saudável entre a confiança na protecção de Deus e o uso do dinheiro para o que verdadeiramente é necessário conduz-nos à recomendação de Jesus de procurarmos antes de mais o Reino de Deus e a sua justiça, porque tudo o demais nos será dado por acréscimo.
De facto, quando confiamos em Deus e procuramos a justiça do Reino de Deus, a justiça da fraternidade da filiação divina, o dinheiro, o poder ou a força são colocados nos seus devidos lugares de meios, de instrumentos, para a prossecução da felicidade e realização de todos.
Procuremos pois, como São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, ser administradores fiéis de tudo o que somos e recebemos, confiantes da ajuda e colaboração de Deus, a quem única e verdadeiramente serão prestadas todas as contas da administração recebida.  

 
Ilustração:
1 – “Os contadores de dinheiro”, Museu de Belas Artes de Nancy.
2 – “A jovem mãe”, de Paul Seignac, Dorotheum.