sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Perceber o outro

 
Perceber o outro não é antes de mais tocar o seu corpo ou experimentar alguns sentimentos pelo seu contacto, é perceber a sua vontade. Perceber o que o outro quer, para que seja possível dar-se-lho, porque é bom, apesar do que nos possa custar.
Dom Samuel
Ilustração: Comedor para pássaros em árvore do jardim do Museu Ariana em Genebra.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ele começou a divulgar o sucedido (Mc 1,45)

O Evangelho conta-nos que um leproso veio ter com Jesus, um excluído por razões sanitárias tem a ousadia de chegar até de junto de Jesus, de sobrepor-se ao interdito que o proibia de se aproximar dos outros.
Face ao pedido de cura por parte do leproso, Jesus na sua compaixão toca-o, e dessa forma restabelece-lhe a aúde, integra-o no povo, pagamento por também essa ousadia o preço da exclusão e da marginalidade, pois todo o que tocava um leproso ficava igualmente excluído.
Não podemos por isso surpreender-nos que o Evangelista diga que depois do milagre, depois desta cura, Jesus já não podia entrar abertamente nas cidades e aldeias. Se o autor do Evangelho nos diz que tal acontece devido à popularidade de Jesus, também temos que assumir que pelo seu gesto estava igualmente interdito de entrar.
Este milagre coloca-nos assim, e uma vez mais, face ao mistério da incarnação, ao amor de Deus que assume as nossas fragilidades, as nossas doenças e exclusões, ficando fora para que nós possamos entrar, possamos participar da família divina. Deus marginaliza-se em Jesus para que os marginalizados possam ser integrados.
Este mistério e a forma como ele se repete na nossa vida e nas várias circunstâncias do nosso quotidiano devia-nos provocar na atitude do leproso. Quantas vezes nos prostrámos já diante de Deus para lhe pedir uma cura, a libertação de um mal, a solução de um problema, nosso ou de alguém que conhecemos?
E depois, como agimos ou reagimos? E já não penso na nossa acção de graças, no nosso agradecimento, mas na divulgação do sucedido, na publicidade à acção e graça de Deus nas nossas vidas.
Depois de curado, e apesar da proibição de Jesus, o leproso não deixou de anunciar o que lhe tinha acontecido, impedindo mesmo por causa disso o acesso de Jesus às aldeias. Não se tratou, nem trata de uma publicidade barata, mas de um testemunho, de um dizer eficaz da acção da graça de Deus.
Ao contrário do pedido por Jesus, que se apresentasse ao sacerdote do templo, o leproso apresentou-se àqueles que o rodeavam, aos desconhecidos, àqueles que não tinham autoridade nenhuma reconhecida, mas que pela sua palavra e pelo seu testemunho podiam acudir ao mesmo Jesus e ser também curados.
À revelia da ordem e vontade de Jesus o leproso serve de catalisador para que a sua bênção se estenda e chegue a muitos mais homens, a homens que de certa forma também estavam excluídos e marginalizados, pois não tinham poder nem autoridade religiosa.
E este é afinal o desafio que se nos coloca, conseguir fazer chegar a graça de Deus a homens e mulheres que se sentem excluídos, que esperam a integração apesar das suas dúvidas, das suas infidelidades, daquilo que dizem que não têm, fé.
Como vimos, Deus quer a nossa cura, estende-nos a mão e toca a nossa enfermidade; cabe a cada um de nós levar o testemunho desta mão estendida a todos os nossos irmãos e irmãs.
 
Ilustração: “Jesus curando um leproso”, Vitral da igreja Luterana de São Mateus de Charleston, Carolina do Sul, EUA.

Um caminho de coragem

 
Na vida com Deus não há nascimento sem dor. Não conduzamos portanto o raciocínio até ao extremo. Se o caminho é escarpado, a porta estreita, a subida rude, trata-se de um caminho de felicidade. Coragem!
Dom Samuel
Ilustração: Jardim Promenade du Pin em Genebra.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Jesus retirou-se para rezar (Mc 1,35)

Os primeiros dias de Jesus passados em Cafarnaum são apresentados por São Marcos como dias de muita actividade, pois não só na sinagoga expulsa o espirito impuro de um homem que estava possesso, como pouco depois na intimidade da casa dos seus primeiros discípulos é solicitado a fazer outras curas e milagres à multidão que se acumula à porta.
Encontramo-nos assim com uma figura popular, com um Jesus altamente requisitado e valorizado por aqueles que o procuram, uma figura mediática que parece não ter tempo para si, não ter direito à privacidade e ao sossego.
E nesta circunstância, bem cedo, pela madrugada, Jesus retira-se para orar num lugar isolado, num ermo, obrigando por esse motivo os discípulos a procurá-lo durante algum tempo.
Podemos perguntar-nos sobre a oração de Jesus, ainda que face aos acontecimentos não possamos deixar de assumir que a sua oração se centrou sobre o sentido da missão, sobre o perigo do desvio face à missão a que estava destinado.
De facto, e diante daquela multidão que o procurava e que o reconhecia, Jesus podia ter enveredado por uma outra missão, podia ter acolhido a popularidade e viver de acordo com as expectativas daqueles que o rodeavam. Podemos dizer que nesta noite de oração Jesus se viu obrigado a enfrentar a oferta de popularidade que no deserto o diabo lhe havia feito.
Confrontado com a sua missão, com o objectivo fundamental da sua missão, Jesus não podia continuar ali, não podia ceder à tentação do populismo e com ele inviabilizar a missão que lhe tinha sido destinada pelo Pai. Por esta razão, quando os discípulos o encontram, a primeira palavra é uma ordem de partir, deviam ir a outros lugares, povoações e anunciar ali a Boa Nova do Reino, porque para isso tinha vindo.
Diante desta decisão e da oração que a gerou, somos convidados a assumir que a oração ajuda ao discernimento das realidades em que nos encontramos envolvidos e que a nossa vida cristã e a construção da sua fidelidade se processa sempre num ir mais além, num partir para uma terra estranha.
Jesus desafia-nos na nossa missão a ser exploradores, desafia-nos a ir sempre mais além, a procurar o que está para lá do visível, as paisagens insuspeitas que se ocultam por detrás do mistério de cada homem e de cada momento histórico.
E se o medo nos ataca, o temor de nos perdermos nesses mistérios, não podemos esquecer que não só temos como guia a Jesus, mas que na exploração e na aventura ele nos acompanha, ele está connosco. O mistério da incarnação assim nos abaliza.
Procuremos pois partir, procurar os novos horizontes da missão que a oração nos faz vislumbrar e que Jesus já percorre à nossa frente como o primeiro caminhante.
 
Ilustração: “Jesus no jardim das oliveiras”, de Sebastiano Conca, Pinacoteca Vaticana.

Sem ilusões a cruz é o modelo

 
Aquele que se compromete no caminho da oração de longa duração fará bem em não se iludir sobre o que o espera. A pedagogia tem a sua lógica e a sua coerência, a Cruz continua a ser o modelo universal.
Dom Samuel
Ilustração: Torre da igreja da Santíssima Trindade em Genebra.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Eu sei quem tu és! (Mc 1,24)

O encontro de Jesus, na sinagoga de Cafarnaum, com um homem possuído por um espirito impuro, não deixa de nos surpreender, de nos questionar na nossa fé e relação com Jesus.
Aquele homem, e o seu grito no meio da assembleia reunida para escutar a Palavra de Deus, recorda-nos o brutal antagonismo que habita o coração do homem desde que a “luz veio ao mundo mas o mundo não a quis receber”.
Neste homem podemos ver que ele sabe bem quem tem diante de si, o “Santo de Deus”, mas ao mesmo tempo desconhece aquele que tem diante de si. Ele sabe e não sabe nada.
Ele é capaz de reconhecer em Jesus de Nazaré, naquele que passava quase despercebido como homem, o Filho de Deus, o “Santo de Deus”, mas é incapaz de reconhecer a sua missão salvadora, é incapaz de reconhecer que diante de Si não tem apenas a santidade de Deus mas igualmente a salvação de Deus.
E neste antagonismo joga-se afinal o encontro e o desencontro com Jesus, pois não só somos chamados a reconhecê-lo e a acolhê-lo como Filho de Deus, o Santo de Deus, o que poderíamos dizer pouco nos alteraria na nossa situação, mas também a reconhecê-lo e a acolhê-lo como nosso libertador, o que nos altera profundamente.
Ao libertar este homem do espirito impuro que o habitava Jesus coloca-se no centro e no coração da sua missão, da sua acção, que não tem outro objectivo que libertar o homem de todos os condicionalismos e escravaturas de modo a poder partilhar da santidade de Deus.
Neste sentido, também nós e hoje somos convidados a reconhecer o Filho de Deus e neste reconhecimento a aceitar que ele vem até ao homem para o libertar, para o salvar, o que inevitavelmente exige alterações, provoca alterações, nos tem que obrigatoriamente deixar outros.
Aceitemos pois a mudança que a vinda de Deus até nós provoca e as dores que nos podem causar os cortes com as trevas em que nos podemos encontrar.
 
Ilustração: “Cristo com pecadores arrependidos”, de Gerard Seghers, Rijksmuseum, Amesterdão.

Disciplinar a sensibilidade

 
Disciplinar a nossa sensibilidade é torná-la livre de toda a atracção que a afaste da frequência regular de Deus; é também torná-la atenta a toda a atracção que reaproxima dele.
Dom Samuel
Ilustração: Miniatura de capela em exposição de casinhas de bonecas em Genebra.