segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um servir completo a Deus

 
Um leão obedece a Deus não somente enquanto animal, mas também enquanto leão. E da mesma forma Massignon deve servir a Deus não somente enquanto homem e fiel, mas enquanto Massignon, com o conjunto das suas faculdades e dos seus conhecimentos, que lhe foram dados e consequentemente estão em divida.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Vista do Complexo do CERN a partir do painel informativo.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Homilia do IV Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Lucas que escutamos neste domingo continua a relatar-nos a visita de Jesus à terra da sua infância e juventude, Nazaré, uma visita que começa bem mas termina de uma forma abrupta e marcada pela violência.
Quando lemos o relato no seu conjunto, pois a liturgia dividiu-o entre o domingo anterior e hoje, percebemos como esta visita de Jesus coloca os seus conterrâneos, e cada um de nós, face ao desafio da sua pessoa e da sua missão. Jesus exige uma resposta, uma opção, ou sim ou não.
Este desafio e esta exigência passam antes de mais pela afirmação de Jesus ao terminar a leitura do profeta Isaías, “hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura”. Estamos assim diante da afirmação de uma verdade, de um dado inalienável que exige uma aceitação ou uma recusa.
Para os habitantes de Nazaré seus contemporâneos, expectantes face a Jesus regressado ao seu ambiente familiar, esta exigência e uma resposta positiva esbarraram no conhecimento histórico e físico que tinham de Jesus, e por isso os vemos questionar-se sobre a família de Jesus e a sua pertença ao grupo que conhecem e dominam.
Jesus não era um estranho, bem pelo contrário, mas tinha-se manifestado e tinha agido de tal forma que o conhecimento que possuíam se mostrava confuso, contraditório. A exigência de fazer ali os mesmos milagres que Jesus tinha realizado em Cafarnaum vai nesse sentido de um esclarecimento, de uma oferta de matéria para a aceitação.
Contudo, Jesus recusa essa possibilidade, corta com a pretensão de conhecimento, e coloca os seus conterrâneos e familiares face ao inusitado da acção de Deus, apelando a dois exemplos históricos da acção exorbitante de Deus como foram Elias e Eliseu.
Ao fazer tal apelo, ao apresentar tais exemplos e milagres realizados pelos dois profetas, Jesus convida os seus ouvintes, familiares e conterrâneos, a deixarem a terra que conhecem, o que sabem, e a transitarem para um papel de estrangeiros que nada têm, que nada são, e por isso podem ser beneficiários da acção e da misericórdia de Deus.  
Este desafio continua a colocar-se a cada um de nós, porque tal como os actores deste acontecimento em Nazaré necessitamos sair de nós próprios, dos nossos conhecimentos e das nossas seguranças para nos encontrarmos com a verdade de Jesus e a misericórdia de Deus, para dizermos sim ou não à verdade de Jesus.
Neste sentido, podemos perguntar-nos em que medida temos Jesus aprisionado aos nossos esquemas? Em que medida temos a acção de Deus condicionada aos nossos esquemas mentais, à nossa formação catequética, a um conjunto de tradições que não são incarnação da nossa experiência pessoal?
Quantas vezes exigimos de Deus milagres como se fossem puras acções comerciais ou mecânicas, como se não fosse necessário um grande amor e uma grande participação da nossa parte para que esses milagres se realizem!
Jesus continua hoje a desafiar-nos numa resposta de confiança, ou acreditamos ou não acreditamos, ou acreditamos que ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nosso redentor, ou não acreditamos, e portanto não passa de mais uma figura histórica pela qual sentimos simpatia.
Muitos dos nossos irmãos na fé preferem esta simpatia, uma vez que desta forma lhes é mais fácil viver com a realidade de que São Paulo fala na Primeira Carta aos Coríntios depois do grande hino da caridade, “por agora conhecemos de modo imperfeito mas um dia o imperfeito desaparecerá e conheceremos de modo perfeito”.
De facto, o nosso conhecimento de Jesus e de Deus é imperfeito, é um tanto confuso, uma vez que a nossa inteligência e os nossos sentidos finitos e mortais não podem abarcar nem compreender o infinito e o eterno. Conhecemos na medida das nossas próprias limitações e portanto muito pouco.
Contudo, e como diz São Paulo devemos aspirar sempre a valores mais elevados, a um conhecimento mais perfeito, devemos desejar o conhecimento pleno, que vamos alcançando na medida do nosso amor, do amor que colocamos nas coisas que fazemos.
Se o nosso desejo não estiver marcado pelo amor, se o nosso estudo não estiver marcado pelo amor, se a nossa própria oração não estiver marcada pelo amor, se todas as nossas diversas realidades não estiverem marcadas pelo amor, muito dificilmente encontraremos a plenitude a que aspiramos, o conhecimento perfeito que desejamos, pois Deus é amor como nos diz São João.
Necessitamos assim cunhar todas as nossas realizações com o amor para que elas não sejam vãs, para que não estejam vazias, necessitamos plenificar a nossa fé com o amor para que nos permita alcançar o que somos, como somos e o que estamos destinados a ser.
São Paulo diz-nos que este é um caminho de perfeição que ultrapassa tudo, que ultrapassa todas as outras possibilidades. Procuremos pois vivê-lo cada dia sabendo que tudo desaparecerá e que só permanecerá a fé, a esperança e o amor, e este mesmo para além do fim das outras duas pois é a natureza de Deus em que tudo se realiza.
 
Ilustração: “Cristo Salvador como jardineiro”, de Ticiano, Museu do Prado, Madrid.

Um pensamento para o dia

 
Como escrevi em árabe para me exortar a mim próprio, “para a última guerra santa, um só combatente, tu mesmo”. Como me legou o querido Padre Foucauld, “para cada dia o pensamento que tu morrerás esta noite, mártir”.
Louis Massignon a Paul Claudel
 
Ilustração: Escudo de canhão usado na defesa de Genebra.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Levaram Jesus para o apresentarem ao Senhor (Lc 2,22)

Passados quarenta dias eis que Maria e José sobem a Jerusalém para cumprir o preceito da lei de apresentarem o primeiro filho. Passaram os quarenta dias da purificação, um tempo afinal para se poder dizer sim ou não, o tempo da preparação para a opção a tomar.
Há quarenta dias nascia o menino, Deus oferecia-se aos homens num filho, hoje esse menino é oferecido ao Pai, é consagrado a Deus. Do seio do Pai saiu e de certa forma ao coração do Pai hoje regressa.
A apresentação no templo, a entrada no templo, é de certa forma a introdução no mistério sacerdotal de Jesus. Apresentado no templo é a oferta dos seus pais, é a nossa oferta, mas é também o seu ministério, o princípio do seu ministério sacerdotal, pois entra no santuário que lhe pertence.
A oferta que Deus nos fez é-lhe agora consagrada, é colocada sob a sua protecção, se ainda fosse caso para isso; mas como não é necessário o menino é a nossa adoração, o nosso reconhecimento desde já pelo dom oferecido.
Tal como Jesus também nós necessitamos apresentar-nos como oferta, reconhecer e oferecer o que Deus nos oferece, a sua presença na nossa vida e na nossa história. Tudo de Deus vem e tudo a ele deve voltar. A consagração, a oferta, é a abertura a esse regresso.
E pelo baptismo em Cristo também nós podemos exercer livremente o ministério sacerdotal, também nós podemos entrar no santuário e apresentar a nossa oferta, fazer a nossa libação de acção de graças.
As velas que acompanham a nossa festa, a nossa celebração, recordam-nos que tal como Jesus, luz do mundo que se revelou a Simeão, também nós devemos ser luz do mundo, luz para os outros homens e mulheres.
A nossa vida deve iluminar pelo dom que dela fazemos a Deus.
 
Ilustração: “Apresentação de Jesus no templo”, de Philippe de Champaigne, Museu de Arte de Ponce.

Sobre quem ama e o amor

 
Quem ama recorda-se, quem se recorda deseja a presença, quem tem a Presença pede para escutar a Sua voz, e quem escuta a voz deseja responder-lhe. Mas como responder se o meu coração não estiver repleto por ele da mesma medida de amor que preenche o seu por nós?
Louis Massignon a Paul Claudel,
 
Ilustração: Vitral da Última Ceia na Capela dos Macabeus da Catedral de Genebra.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A semente germina e cresce sem o semeador saber como. (Mc 4,27)

A parábola de Jesus, que compara o Reino de Deus a uma semente que germina e se desenvolve sem que o homem saiba como, pode levar-nos a uma atitude de despreocupação, de desinteresse face ao Reino, pois afinal o homem pouco ou nada pode fazer para o crescimento e desenvolvimento desse Reino.
Neste sentido, podemos e devemos perguntar-nos se as palavras de Jesus nos conduzem a um pacifismo, a um desinteresse, se implicam um cruzar dos braços e deixar acontecer pois tudo cresce naturalmente.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento de jardinagem, já não é preciso de agricultura, dir-nos-á imediatamente que tal atitude é completamente errada, pois se não podemos alterar o desenvolvimento natural das plantas há cuidados a ter que são indispensáveis, como o arranque das ervas daninhas ou o adubamento.
Estamos assim envolvidos no crescimento do Reino de Deus, temos uma missão que passa por esse cuidado e por um outro, prévio, que é o da preparação do terreno para que a semente ao ser lançada não caia entre espinhos ou pedras mas em terreno preparado para frutificar a cem por cem.
As palavras de Jesus deixam-nos contudo uma outra realidade, um outro apelo, que se prende com a dinâmica interna do próprio Reino de Deus. Assim, temos que ter presente que o Reino não se confina aos nossos esquemas, à nossa métrica, aos nossos desejos de controlo e poder.
O Reino de Deus é uma realidade extremamente vasta, inabarcável e por isso mesmo também pouco identificável. Como dizia alguém, um dia numa conferência a que assisti, o Reino de Deus é um sintagma vazio, que permite por isso as mais diversas realidades inimagináveis.
Esta realidade coloca-nos grandes desafios face aos nossos projectos apostólicos, às nossas missões eclesiais, que tantas vezes tentamos controlar e assegurar, medir pelas nossas expectativas e padrões, esquecendo o quanto nos ultrapassa e é invisível aos nossos olhos a acção verdadeira e interior de Deus.
Somo assim convidados por Deus a colaborar, a fazer o nosso melhor, a usar a nossa inteligência e criatividade, a preparar o terreno e a cuidá-lo, mas o crescimento da semente e os seus frutos são da responsabilidade e acção de Deus. É Deus que faz o caminho andar, como cantava poeticamente o frei José Augusto Mourão, a nós resta-nos a confiança.
 
Ilustração: “Semeador ao Pôr-do-Sol”, de Vincent van Gogh, Sammlung E. G. Buhrle, Zurique.

 

Fazer o melhor

 
A partir do momento em que fazemos tudo A.M.D.G (ad majorem Dei gloria) nós devemos fazer o melhor que podemos. Nada é demasiado bom nem para Deus nem para os nossos irmãos.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Vista exterior da Capela dos Macabeus da Catedral de São Pedro de Genebra.