quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

As Chagas do Salvador

 
Onde poderá a nossa fraqueza encontrar um descanso seguro e tranquilo, senão nas chagas do Salvador? Nelas habito com segurança, porque sei que Ele pode salvar-me.
São Bernardo de Claraval
Ilustração: Crucifixo chamado de Santa Teresa no Convento de São Tomás de Ávila.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Para o que a Providência nos reserva

 
Persisto em acreditar que a Providência vos reserva e vos prova para grandes coisas. Não é possível que ela vos tenha dado para nada essas grandes faculdades, essa instrução imensa, esse conhecimento aprofundado das coisas. Um dia ou outro servirá para o maior bem da Igreja.
Paul Claudel a Louis Massignon
 
Ilustração: Museu Ariana visto desde o jardim, Genebra.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Jesus passou à outra margem (Mc 5,21)

O facto que São Marcos nos narra não tem nada de extraordinário, Jesus passa à outra margem do lago, uma vez que na região dos gerasenos lhe é pedido que se afaste, pois tinha provocado um grande prejuízo com os porcos precipitados no abismo.
Nesta margem Jesus encontra-se com uma multidão, com um chefe de sinagoga que vem pedir auxílio para a sua filha doente e uma mulher que por entre a multidão tenta a sorte da sua cura apenas pelo toque fugaz.
A passagem de Jesus de uma margem para a outra é assim a passagem da recusa para a procura, a passagem daqueles que não têm fé, que não querem acreditar nem mudar a sua vida, para um outro grupo no qual se destacam um homem e uma mulher que agem pela fé, que procuram uma alteração das suas vidas.
Neste sentido também nós somos convidados por Jesus a passar à outra margem, a fazer a travessia das águas da morte da indiferença e da falta de fé para a terra firme onde podemos viver de uma outra forma, com outra confiança, num nível superior de vida, em função da fé que possuímos.
A fé é assim motor de busca, fonte de criatividade, de um caminhar para uma terra onde nos está prometido leite e mel, de graça e sem necessidade de qualquer contrapartida ou pagamento.
E se passar à outra margem implica muitas vezes remar contra a maré, a certeza de que Jesus nos precede, iluminando a passagem, e nos acompanha, no nosso remar paulatino, deve dar-nos a confiança para avançar e continuar.
Como a mulher que sofria do fluxo de sangue, a nossa fé, a nossa confiança, deve levar-nos a aproximarmo-nos, a tentar um toque que ainda que leve ou fugaz nos pode alterar a vida, nos pode curar das nossas enfermidades.
 
Ilustração: “Jesus com Jairo e a mulher do fluxo de sangue”, no Palácio Edelmann, em Olomouc, Republica Checa.

 

A alegria da cruz de Jesus

 
Deus pregou-me a todas as amorosas exigências da sua graça há vinte e seis anos, forçando-me a sair de mim mesmo e a desejar a sua cruz com uma alegria que não é deste mundo.
Louis Massignon a Paul Claudel
 
Ilustração: Buganvília do Jardim Botânico de Genebra.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Não me atormentes (Mc 5,7)

Jesus passou à outra margem do lago com os seus discípulos, à região dos gerasenos, como nos diz São Marcos, e ali encontrou um homem possuído por uma legião de espíritos.
O autor do texto deixa perceber que desde o primeiro momento, desde que Jesus avista aquele homem que sofre no corpo e nos espirito existe o propósito de o libertar, de lhe restituir uma outra vida.
É face a este desejo de Jesus que nos encontramos com uma expressão, com um pedido por parte do homem e através dele por parte dos espíritos, que nos mostra o contraste entre a expectativa face a Jesus e a acção de Jesus.
O texto diz-nos que o homem se foi prostrar diante de Jesus logo que o viu, e que o reconheceu e confessou como Filho do Altíssimo, e em consequência de tal confissão lhe pediu que não o atormentasse.
Vemos assim, que a expectativa dos espíritos era a do tormento, a da condenação ao sofrimento que eles próprios infligiam àquele homem. A justiça divina deveria fazer-se sentir através da força e da violência, de uma condenação, de uma morte.
Contrariando esta expectativa e esta concepção, Jesus assume a verdadeira natureza de Deus, assume a sua missão salvadora e nesse sentido não condena os espíritos a um fim doloroso, mas permite-lhes que possam passar-se para os porcos.
Jesus concede a transferência para um outro corpo, uma outra realidade que não é sinónimo de condenação, ainda que depois os porcos se precipitem no abismo, lugar natural dos espíritos. Jesus permite portanto o regresso dos espíritos ao seu habitat.
Esta atitude de Jesus pode parecer-nos estranha, até contraditória da sua missão de vencer o mal, mas insere-se no coração da missão, bem no seu sentido mais profundo, pois revela, mesmo aos espíritos impuros e do mal, que Deus não é um Deus de condenações, nem de extermínios, mas um Deus de misericórdia, um Deus de conversão, que espera a oferece uma outra oportunidade a todos, até mesmo aos espíritos do mal.
Esta bondade de Deus, esta sua atitude, devia alimentar-nos e fortalecer-nos na nossa esperança, no nosso desejo de conversão e de busca no sentido de fazer as coisas de uma maneira melhor. Deus não desiste de nós, não nos condena, oferece-nos sempre uma oportunidade, que nós podemos aproveitar ou não.
Tal como os porcos se lançaram no precipício também nós nos podemos lançar na condenação ou na salvação, está na nossa mão acolher a oferta misericordiosa de Deus.

 
Ilustração: Pormenor de vitral sobre milagre de Jesus, em Kunstgewerbemuseum, Berlim.  

Santa Catarina de Ricci e os seus atributos iconográficos

Hoje a Ordem dos Pregadores celebra a memória de Santa Catarina de Ricci, falecida a 2 de Fevereiro de 1590 no Mosteiro de São Vicente, no Prato, Itália.
 
Nas diversas representações plásticas desta Santa Dominicana encontramos um conjunto de elementos iconográficos que dizem respeito a um acontecimento que se reporta a oito de Junho de 1541 e de que a imagem anexa é exemplo.
 
Pela vivacidade da narração, seguimos uma vez mais o texto do “Agiológio Dominico”, composto por frei Manuel de Lima, e publicado em 1709 em Lisboa na Oficina de António Pedroso Galrão.
 
Uma vez lhe falou uma imagem de Cristo crucificado, que tinha na cela, e hoje logra grande veneração daquelas religiosas. Sucedeu este caso a oito de Junho de 1541.
 
Estando orando depois de comungar, com o mesmo crucifixo nos braços, e pedindo-lhe a quisesse instruir nas coisas necessárias para a salvação da sua alma, o piedoso Senhor, despregando a mão direita a abraçou e lhe disse: “Esposa minha, a tua vida, e as tuas obras, me são agradáveis”.
 
Em outra ocasião, entrando na cela, depois de receber a sagrada comunhão, viu que a Santa Imagem despregada da cruz, a vinha receber ao encontro, e correndo ela a recolhê-la nos braços, sentiu lhe ordenava, que junta com as mais Religiosas o aplacassem da ira, com que estava contra os pecadores, e em particular fizessem três procissões para alcançar Misericórdia. Devoção que, principiada naquele tempo, dura até hoje neste Mosteiro.
 
Ficou a Serva de Deus arrebatada em êxtase, e abraçada com a milagrosa imagem despregada da Cruz, com um semblante tão terno, e devoto, que moveu todas as religiosas a muitas lágrimas.
Repetidas vez lhe apareceu o Anjo Custódio avisando-a de várias coisas, em muitas ocasiões viu na Hóstia consagrada a Cristo em diversas formas, hora de menino, hora de homem e em algumas lhe falou.
 
Ilustração: Santa Catarina de Ricci acolhida pelo crucifixo, de Girolamo Ticciati, Altar da igreja de São Vicente e Santa Catarina, em Prato, Itália.

 

Um servir completo a Deus

 
Um leão obedece a Deus não somente enquanto animal, mas também enquanto leão. E da mesma forma Massignon deve servir a Deus não somente enquanto homem e fiel, mas enquanto Massignon, com o conjunto das suas faculdades e dos seus conhecimentos, que lhe foram dados e consequentemente estão em divida.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Vista do Complexo do CERN a partir do painel informativo.