Como todos sabemos, no
tempo de Jesus não havia jornais, nem televisão, nem internet, meios que hoje
nos fazem aceder imediatamente à informação. Contudo, e apesar dessas faltas, a
informação circulava e é por isso que vemos Jesus confrontado com a notícia da
morte de um grupo de Galileus, morte ordenada por Pilatos aquando da celebração
de um sacrifício.
É uma notícia que
poderíamos considerar banal face ao conhecimento histórico que temos da acção
repressiva de Pôncio Pilatos enquanto governador daquela região do império romano;
mas deixa de o ser, e adquire relevância, na medida em que essa notícia, e a
sua leitura de modo particular, interfere com Jesus e com a sua vida.
De certa forma,
estamos já diante de uma possível leitura da morte de Jesus, pois também ele é
Galileu e também ele será morto por intermédio da acção e do poder de Pilatos.
A pergunta que subjaz à notícia da morte dos galileus pode aplicar-se a Jesus,
ou seja, que pecados teriam cometido para sofrerem tal morte e portanto tal
castigo da parte de Deus? Os galileus e Jesus!
Numa leitura
estratégica poderíamos dizer que Jesus se antecipa à questão face à sua morte
ignominiosa, e clarifica a morte dos galileus para que a sua morte não seja
interpretada da mesma maneira. Jesus sente-se na urgência de alterar os princípios
de leitura dos acontecimentos e para tal é necessário converter a imagem de
Deus, de abolir as falsas imagens de Deus.
Esta necessidade é
ainda mais urgente na medida em que o massacre ordenado por Pilatos ocorre
durante a celebração de um sacrifício, ou seja, durante um acto que à partida é
uma tentativa de restabelecimento da relação com Deus. A morte nesse contexto
denuncia uma recusa total da parte de Deus, um bloqueio ao reatamento das
relações com o divino, uma insensibilidade de Deus face às fraquezas do homem.
É para alterar esta
imagem que Jesus conta àqueles que lhe trouxeram a notícia, e estavam
infectados de uma imagem errada de Deus, a parábola da figueira estéril durante
três anos.
Nesta parábola Jesus
joga com a falsa imagem de Deus, assumida pelo proprietário que ordena o corte
da árvore, e a verdadeira imagem veiculada pelo vinhateiro que apesar da
esterilidade da figueira oferece ainda uma nova oportunidade.
É uma parábola
perfeitamente perceptível para os seus ouvintes, uma vez que para a tradição a figueira,
como a vinha e a romãzeira significavam a felicidade da terra prometida. A
vinha simbolizava a alegria, a figueira simbolizava a doçura e a romãzeira a
fertilidade.
A atitude do
vinhateiro, com a proposta de uma última oportunidade, é uma atitude que se
insere na longa tradição profética e na história da salvação, nas quais se
encontra essa benevolência de Deus para com o povo, a intercessão para uma nova
oportunidade, para uma não ruptura das relações de aliança.
Jesus vai assim ao
encontro das palavras do Salmo 144, no qual é dito que Deus é lento para a ira
e cheio de amor para com os seus fiéis, e da experiência de Moisés diante da
sarça-ardente, quando Deus se lhe revela e revela a preocupação pelo seu povo
escravo no deserto, como pudemos escutar na leitura do Livro do Êxodo.
Neste terceiro domingo
da Quaresma, e face a esta leitura do Evangelho de São Lucas, somos assim,
também nós, convidados a alterar a nossa imagem de Deus, as imagens de Deus
tantas vezes distorcidas pelos acontecimentos trágicos e dolorosos da nossa
vida e da nossa condição finita.
Quantas vezes, face a
determinados acontecimentos, como uma morte prematura, um acidente, uma doença
prolongada, um acto de injustiça contra nós, não nos deixamos vencer por essa
ideia e imagem de um Deus que não se interessa por nós, de um Deus que no seu
sadismo se satisfaz com o nosso sofrimento e a nossa angústia?
Quantas vezes, face ao
recalcitrar do nosso pecado, das nossas situações de infidelidade e fraqueza,
não cruzamos os braços desesperando da misericórdia de Deus, de uma nova
oportunidade para fazer diferente?
A parábola da figueira
e a vida de Jesus, com o que comporta de sofrimento e injustiça, bem como a
história da Aliança de Deus com o povo eleito, mostram-nos que o nosso Deus é
um Deus sensível, é um Deus que se preocupa e nos acompanha nas nossas
dificuldades, um Deus que não espera apenas o regresso dos seus filhos perdidos
pelo mundo, mas amorosamente vai ao seu encontro para os trazer aos ombros.
A nós, a cada um de
nós, compete essa atenção e essa responsabilidade face ao momento que é hoje,
que acontece aqui, à nova oportunidade que Deus nos oferece neste momento
histórico e nesta circunstância.
Tal como Moisés, face
à revelação da preocupação de Deus pelo seu povo, não podemos deixar de nos
oferecer para ir ao encontro dos nossos irmãos, para a luta pela libertação de
toda a escravidão, nomeadamente a escravidão dos falsos deuses, desses deuses
que não são capazes de morrer.
Ilustração: Plátano
coberto de neve na cidade de Gossau, Suíça.