À medida que nos
aproximamos da Páscoa vamos percebendo pelas leituras do Evangelho que a trama
contra Jesus vai subindo de intensidade, vai ganhando contornos mais definidos,
as decisões para a sua prisão e morte vão sendo cada vez mais óbvias, mais
concretas e assumidas.
Apesar deste adensar
do drama e da situação de perigo Jesus continua a sua missão e continua a
dirigir-se ao templo para aí ensinar as multidões, infringindo as normas do
templo que o proibiam de ensinar e desafiando as autoridades com a sua palavra
e ousadia.
Tal atitude e
provocação não pode deixar de gerar discussão, debates, e por isso nos
encontramos com opiniões diversas, com uma divisão geral sobre a sua pessoa e a
sua procedência.
Uma vez mais está em
causa o conhecimento que possuem de Jesus, o conhecimento do lugar do seu
nascimento, da sua vida e até da genealogia familiar. Discutindo os lugares e
os nomes da proveniência do Messias aqueles homens esquecem-se do
verdadeiramente fundamental, que afinal o Messias vem antes de mais de Deus, é
um enviado de Deus.
É neste contexto,
neste ambiente de discussão, que aparecem os soldados enviados pelos chefes do
templo, um conjunto de homens que se vão encontrar nas melhores condições para
discernirem a resposta verdadeira face à questão das origens de Jesus.
Os soldados estão ali
para cumprir uma missão, uma tarefa solicitada por aqueles que sobre eles têm
autoridade. Estão ali sem qualquer preconceito, sem qualquer interesse na
discussão, que aliás deixam para os profissionais da matéria, os sacerdotes do
templo e os escribas.
E para não provocarem
qualquer tumulto vão observando Jesus, vão escutando, vão indiferentemente
deixando-se envolver pela palavra e pelo espirito daquele que escutam e
observam.
A palavra de Jesus e
os seus gestos podem descer sobre eles, podem germinar nos seus corações,
porque não estão cegos nem encerrados nos preconceitos e nas ideias formadas,
não são uma parte interessada na discussão e na aniquilação do outro que afecta
o status-quo estabelecido.
Por esta razão quando
regressam para junto dos seus superiores, daqueles que os tinham enviado e são
questionados sobre o não cumprimento da missão, a resposta é que nunca ninguém tinha
falado como aquele Jesus. Tal como dizem os príncipes dos sacerdotes e os escribas,
tinham-se deixado seduzir, tinham acolhido o enviado de Deus.
A pergunta dos
sacerdotes sobre o motivo porque o não trouxeram e a resposta dos soldados
porque o não tinham trazido encerra contudo um paradoxo tremendo, porque se os
soldados chegam de mãos vazias, chegam sem aquele Jesus sobre o qual se
discutia a origem, chegam no entanto com o Messias no coração, seduzidos por
uma palavra que se opunha e contrastava com a que lhes tinha sido ordenada.
Aquele Jesus que eles
não tinham sido capazes de prender tinha-os prendido a eles, aquele homem que
lhes tinha escapado tinha-os arrastado com ele, e não pela força ou pela violência,
por qualquer mandato da autoridade superior, mas pela sedução, pelas palavras carregadas
de amor como nunca ninguém tinha proferido.
Este paradoxo
mostra-nos como de facto, e nos recorda também São Paulo, a Palavra não se
deixa prender, como o Messias Jesus vai e está para além dos nossos esquemas,
das nossas concepções, e por outro lado tem o poder e a capacidade de nos
prender a nós, de nos seduzir.
Tal circunstância
provoca-nos no sentido da liberdade do acolhimento, da libertação de ideias
preconcebidas e juízos, pois só nessa liberdade a Palavra pode ser acolhida em
nós e transformar o nosso coração e a nossa vida.
Necessitamos receber a
Palavra, acolhê-la em toda a sua novidade, como alteração provocante, para que
através de nós chegue também sedutora aos outros homens.
Ilustração: Mas não
lhe deitaram a mão, de James Tissot, Brooklyn Museum.
