A primeira leitura que
escutámos apresenta-nos um conflito na comunidade cristã de Antioquia, um
conflito que obriga Paulo e Barnabé a subirem a Jerusalém para encontrarem uma
solução junto dos Apóstolos e dos Anciãos.
Este não é contudo o
único conflito, a única situação problemática, que o Livro dos Actos dos
Apóstolos nos transmite, pois encontramos outros, o que significa que o autor
do livro não teve qualquer vergonha, qualquer complexo ou medo, em relatar as
situações de dificuldade e conflito que a comunidade cristã nascente teve que
enfrentar.
Esta verdade da realidade
é para nós um desafio, pois também hoje nas nossas comunidades nos confrontamos
com dificuldades, com problemas e com conflitos, e portanto temos que
encontrar-lhes uma solução como fizeram Paulo e Barnabé e o grupo dos Apóstolos
e Anciãos em Jerusalém.
Neste sentido, é interessante
observar que a solução encontrada por aquele grupo de dirigentes da Igreja não
foi uma solução impositiva, uma posição de força, mas pelo contrário uma
solução de respeito, de conciliação, entre aquilo que era a vida da comunidade
e as suas realidades e os valores fundamentais da mensagem de Jesus.
Observamos assim que
as instruções enviadas desde Jerusalém vão no sentido de um combate da
idolatria, expresso nessa proibição da alimentação da carne e do sangue
sacrificado aos deuses e das relações imorais, sem que seja expresso o que
significam essas relações imorais.
O grupo dirigente de
Jerusalém acolhe assim o modo de vida da comunidade cristã proveniente do
paganismo, os seus valores e as suas virtudes, excluindo apenas a idolatria que
colocava em causa a fé em Jesus Cristo e as relações imorais que colocavam em
causa o testemunho, a verdade da vida face à fé.
Se tal acontece, se
esta solução pacífica é possível, é porque a comunidade dos Apóstolos e dos
Anciãos, com Paulo e Barnabé, percebe que o verdadeiramente central na fé não
está em causa, ou seja a comunidade cristã de Antioquia guardava a palavra de
Jesus, essa palavra de que nos fala o Evangelho de São João que escutámos.
Este era o verdadeiro
desafio para comunidade de Antioquia, como é ainda hoje para qualquer comunidade
que se afirma cristã. Como guardar a palavra de Jesus de modo a que aconteça a
habitação de Deus entre os homens?
A resposta encontra-se
no mistério da encarnação, nesse assumir por Deus da nossa natureza humana com tudo
o que ela tem de limitado e frágil. É na verdade da nossa realidade,
humildemente assumida, que Deus pode acontecer, que Deus se pode tornar amado e
palavra viva.
O fugir, o esconder, o
negar as nossas limitações e a nossa condição finita é inviabilizar a possibilidade
de Deus acontecer, de Deus se manifestar entre nós, em nós e connosco. O medo e
a perturbação face aos desaires, aos problemas, aos conflitos, são barreiras ao
permanecer de Deus connosco, são barreiras à sua luz.
Neste sentido, face
aos problemas e aos conflitos que nos podem sobrevir, não podemos deixar de ter
presente o apelo e convite de Jesus a não nos deixarmos perturbar, a manter paz
de coração, essa paz que ele mesmo nos oferece e se separa da paz que o mundo
oferece.
Procuremos pois
guardar a palavra de Jesus, porque só dessa forma saberemos e manifestaremos o
nosso amor por ele. Procuremos guardar a sua palavra conscientes que ela se fez
vida na nossa carne, na nossa condição humana e portanto só aí se pode
verdadeiramente realizar. Procuremos conservar a paz, a tranquilidade, a
liberdade de espirito, porque só dessa forma encontraremos as respostas
verdadeiras e justas para os desafios e problemas que se nos colocam em cada
dia.
Procuremos o Espirito
Santo porque, tal como Jesus nos promete, só ele nos recordará e ensinará o que
Jesus hoje seria e nos diria face às realidades do mundo.
Ilustração: Recanto de
paz no claustro do Mosteiro Dominicano de Santa Cruz, em Vitória, Espanha.