segunda-feira, 20 de maio de 2013

Somos uma nota única

 
A significação de uma coisa diz-nos o que ela é, ou melhor, o que ela não é. Só Deus é Aquele que é. Mas esta coisa, pela sua existência emprestada é o que falta ao mundo para ser completo. Ela é esta nota única que só ela pode introduzir no concerto universal.
Carta da irmã Maria Inês do Sarmento a Paul Claudel

Ilustração: Campanário do Santuário de Santa Maria de Estíbaliz em Vitória.

domingo, 19 de maio de 2013

Carta de 1938 de José Nunes Martins para Frei Tomás Maria Videira

Tendo já abandonado o Seminário Dominicano de Mogofores há dois anos, José Nunes Martins mantém uma forte ligação ao seu antigo Superior o Padre frei Tomás Maria Videira. Ainda que a correspondência não seja frequente, como assume nesta carta, não deixa de reconhecer que ficaram marcas indeléveis na sua vida da amizade com o Padre Tomás e da sua passagem pela Ordem, e das quais esta carta é um testemunho eloquente.
 
Caxarias 17-7-938
Meu bom Padre
Ficará admirado ao ver esta minha carta, e com a máxima razão. Julgará talvez que me tinha esquecido de Vossa Reverência; mas ainda não.
É raro o dia em que labutando nos meus negócios, que me não venha à ideia os carinhos que me dedicou, e que eu estava bem longe de os merecer. Julgue que serão poucos os rapazes que tenham convivido com Vossa Reverência que se lembrem tantas vezes de quem tanto os amou, e lhe restem tantas saudades como eu. Foi Vossa Reverência a criatura de quem tive mais pena quando saí desse seminário.
Não o parece; pois nunca lhe tenho escrito. A luta constante da vida não me permite dispor do tempo para escrever; e além disso, também escrevo com muitas dificuldades; por isso queira-me desculpar. Nunca me arrependi de ter saído, porque vejo, hoje, mais do que nunca que me era impossível seguir.
Tenho a dar-lhe, meu querido Padre, uma notícia muito triste que nos junge imensamente. Foi o falecimento do meu Tio Padre que se encontrava em África. Era um dos entes mais queridos da nossa família, e que mais falta nos fazia.
Era para todos nós mais do que um verdadeiro pai. Foi ele que mandou educar as minhas irmãs e irmãos, e que pagou todas as despesas. Tanto assim, que tudo quanto angariava, quanto gastava para o bem da família e de todos os necessitados a quem ele pudesse fazer bem. Esteve na América do Norte; era a segunda vez que estava na África; correu Portugal quase todo, e por toda a parte onde passou foi sempre muito activo. Gostava de ver tudo em ordem.
Antes de ser padre, aprendeu vários ofícios; era principalmente um bom carpinteiro, e um bom sapateiro; pois quando começou a estudar tinha já 27 anos. Ordenou-se aos 37 e faleceu com 57. Teve apenas 20 anos de apostolado. Foi sempre recto e justo em tudo e por tudo; assim o justificam todas as suas boas obras por onde passou, e principalmente a sua santa morte. Faleceu no dia 5 de Junho, dia do Espirito Santo. Segundo se consta, quando guiava um automóvel se despenhou por uma ribanceira, ficando com a espinha quebrada, mas ainda com a faculdade dos sentidos.
Vendo que estava terminada a sua missão sobre a terra, rezou um Terço pelos pretos e o seu Breviário pela última vez; e disse: (morro em paz) e a sua alma tão pura e bela voou para junto de Deus. Faz-nos uma falta incalculável; mas já que Deus assim o permitiu, temos que nos conformar. Soubemos a notícia principalmente por um irmão do Espirito Santo que veio há poucos dias da África, o qual vinha identificado com o bem que ele tinha feito aos pobres pretinhos.
Soube pelo meu irmão que se viram obrigados a despedir por algum tempo os alunos por falta de recursos; o que não me admiro, pois sei o que as despesas são superiores às receitas.
Eu calculo quanto esse facto deve ter sido doloroso a todos, mas principalmente a Vossa Reverência que tantos e tantos sacrifícios tem feito para o bem da Ordem e de todos, e por isso só tenho a dar-lhe os meus sinceros sentimentos, lamentando imenso a amarga situação em que Vossa Reverência se encontra, pois desejo tanto bem à Ordem dominicana como se a ela pertencesse presentemente.
Meu irmão está resolvido a ir para onde Vossa Reverência o encaminhar, pois tem grande desejo em seguir, eu também gostava que ele viesse a ser um dominicano, pois sei que é o melhor caminho que ele pode seguir apesar de ser um rapaz que muita falta nos faz para nos auxiliar; mas cada qual deve seguir somente o caminho que Deus lhe traçou.

Afinal o irmão Domingos também saiu da Ordem, pois encontrei-o em Vila Nova de Ourem dias depois de ter saído. Fiquei admirado quando ele me disse que tinha saído; sempre julguei que ele nunca se viesse embora. Um dia, quando eu estava ainda na Ordem, lá na cozinha, diz o irmão António de paródia para o irmão Domingos: (este vai para férias e nunca mais volta) e responde o irmão Domingos: (isso é o que ele tem mais certo) e por Deus querer assim aconteceu; mas mal julgaria o irmão Domingos ao soltar aquela frase, que lhe estava reservada a mesma sorte. Por isso ninguém deve dizer: (esta água não beberei).
Meu querido Padre queria dizer-lhe muito mais coisas, visto que são raríssimas as vezes que lhe escrevo, mas não é por me faltar que dizer, mas sim o tempo que é escasso, e Vossa Reverência estará já aborrecido de ler tanta gafonhada, pois sei o que me torno importuno na maneira de escrever, mas desde já lhe peço que me desculpe.
Quando alguma vez passar nesta estação é favor avisar-me pois terei imenso gosto em o ver, caso me seja possível. Pensei que tivesse a consolação de o ver há poucos dias; mas qual não foi a minha surpresa quando soube que Vossa Reverência não passaria aqui nesta época.
Agora para terminar só lhe peço mais um favor; que nunca se esqueça se mim nas suas orações para que Deus me encaminhe sempre pela via da salvação.
Rogo-lhe que apresente os meus cumprimentos a todos os superiores e igualmente ao Agostinho e Joaquim Bento. E Vossa Reverência receba um saudoso abraço deste seu grande amigo que a bênção lhe pede, e que jamais o esquecerá.
José Nunes Martins  

 

Homília do Domingo de Pentecostes

Celebramos hoje o Domingo de Pentecostes e com ele colocamos um ponto final no Tempo Pascal que temos vindo a celebrar, tempo que após a celebração da Páscoa da Ressurreição de Jesus nos fez tomar mais consciência desse mesmo mistério.
Ao concluirmos o Tempo Pascal com a Solenidade do Pentecostes, com a comemoração da descida do Espirito Santo sobre os apóstolos, tomamos igualmente consciência deste dom e da sua realidade e significado na nossa vida de crentes e fiéis.
Antes de mais, partimos da constatação que os textos bíblicos não tiveram uma tarefa fácil para definir e apresentar aquele que no Credo dizemos que é a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Assim, o que encontramos são sempre imagens, metáforas, que nos levam a um contacto, a um conhecimento, mas um conhecimento sempre outro, sempre diferido, se assim podemos dizer.
Nas leituras que escutámos, dos Actos dos Apóstolos e do Evangelho de São João, o Espirito Santo é por um lado apresentado como fogo, línguas de fogo que pairam sobre as cabeças dos Apóstolos, e por outro lado é apresentado como um sopro de Jesus enviado sobre os Apóstolos.
Em outros textos bíblicos além destas duas imagens encontramos também a imagem da água, da nuvem, da pomba, do óleo, da luz, da mão, da unção, da força, um conjunto diverso de realidades humanas e naturais que procuram exprimir aquele que afinal é inefável, inexprimível.
Tal realidade não impede, no entanto, que sejam apresentadas condições para o seu acontecimento, para a sua realidade e presença entre nós, para a sua vinda, como podemos constatar na leitura do Evangelho de São João.
A primeira condição apresentada pelo texto, e reforçada pelas próprias palavras de Jesus no momento da promessa do envio do Espirito Santo aquando da última ceia, é a unidade entre os discípulos e dos discípulos com Jesus.
Antes da paixão Jesus pediu aos discípulos que não se afastassem de Jerusalém, que se mantivessem unidos apesar do que parecia um fim desastroso. Por isso os encontramos unidos, encerrados em casa por medo, mas unidos no mesmo temor e na mesma expectativa.
Hoje, não podemos pensar que esta condição esteja ultrapassada, pois continua a ser necessário que haja unidade entre nós para que o Espirito Santo venha. Por isso quando vemos discussões, movimentos, reclamações na Igreja e nas nossas comunidades que conduzem à dispersão e fragmentação podemos e devemos interrogar-nos sobre a fidelidade ao Evangelho e a existência de um substrato de unidade para que o Espirito Santo se manifeste entre nós.
Apesar da diversidade de dons e ministérios, como diz São Paulo aos Coríntios, não podemos esquecer nem prescindir de que haja um só Espirito, e que seja o Espirito que Jesus Cristo enviou aos seus Apóstolos. A pluralidade e diversidade eclesiais não podem esquecer o princípio que pela unidade lhes transmite a vida necessária.
Nesta unidade que é condição necessária para a vinda do Espirito Santo, a outra dimensão exigida é a da nossa unidade eclesial e pessoal com Jesus, essa unidade expressa no gesto de Jesus apresentar o lado e as mãos feridas. São as marcas da paixão, do pecado e da morte, mas são igualmente as marcas da presença, as marcas da vida e do resgate pago pela salvação de todos.
Ali todos estamos unidos e reunidos e portanto nada nos pode separar senão a nossa própria liberdade e decisão de não nos querermos unir, de não nos deixarmos unir, de nos excluirmos.
A outra condição exigida para a vinda do Espirito Santo, para que ele se faça presente em nós e entre nós, é a paz, a paz que deve habitar nos nossos corações. Realidade difícil de alcançar quando vivemos no medo, encerrados por temor, vazios de esperança e de confiança.
O texto do Evangelho mostra-nos um grupo de discípulos fechados por medo, por falta de confiança nas palavras de Jesus, na sua promessa de que não os abandonaria apesar da tragédia da morte. É a presença ressuscitada e a reafirmação da missão de envio que lhes tinha sido entregue que os faz reaver a confiança e a ousadia do anúncio.
Também nós necessitamos reaver e redescobrir a esperança e a alegria nas promessas de Jesus, na promessa de que estará connosco na missão que nos confiou de construirmos um mundo melhor apesar das dificuldades, das nossas limitações e fracassos.
Unidos como um corpo, alicerçados na Palavra que não passa, e confiantes de que o Senhor permanece connosco no seu Espirito, podemos avançar para o combate de traduzir em todas as línguas a única Palavra que salva e vivifica, a Palavra do Amor, e podemos avançar para a edificação do Reino de Deus nesta história e neste mundo.

 
Ilustração: Pintura do Pentecostes que se encontra no Museu do Tesouro da Catedral de Burgos.

Somos movimento

 
Tudo neste mundo é movimento e testemunha a agitação sagrada da criatura, sempre em estado de criação, incapaz de existir por ela mesma, de subsistir em presença do seu Criador imóvel.
Carta da irmã Maria Inês do Sarmento a Paul Claudel

Ilustração: Portaria do Mosteiro das Dueñas em Salamanca.

sábado, 18 de maio de 2013

Enxoval de José Nunes Martins no Seminário Dominicano de Mogofores

Entre o espólio da correspondência endereçada por José Nunes Martins ao Padre Frei Tomás Maria Videira encontra-se um rol da roupa que este jovem levou para o Seminário em Mogofores, o chamado enxoval que cada um tinha que levar.
Documento interessante, na medida em que nos revela um pormenor do quotidiano do Seminário, e nos dá conta da possibilidade financeira da família para satisfazer tais necessidades, de certa forma luxuosas para uma família portuguesa da época, 1934.

Roupa de José Nunes Martins, Nº 21

3 Cobertores
4 Lençóis
2 Cobertas
4 Fronhas pequenas
3 Fronhas grandes
4 Toalhas de rosto
5 Camisas
4 Camisolas
5 Pares de ceroulas
10 Lenços
12 Pares de meias
4 Guardanapos
2 Gravatas pretas
7 Colarinhos
1 Par de botas pretas
1 Par de sapatos pretos
1 Par de botas grossas
1 Par de sandálias usadas   
3 Fatos completos
2 Pares de calças além disso
1 Chapéu
1 Boina
3 Escovas = de fato, calçado e dentes
1 Sobretudo
2 Blusas

A Bíblia que nos liga

 
A Bíblia tem um significado particular e que é de ser o meio imediato de nos ligarmos a Deus pela raiz. É o sentimento de videira, essa continuidade ininterrupta desde Deus, até Cristo e até nós que se depreende da leitura da Bíblia.
Carta da irmã Maria Inês do Sarmento a Paul Claudel

Ilustração: Figura com livro em túmulo do claustro da Catedral de Burgos.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Carta de José Nunes Martins a despedir-se do Seminário

Após dois anos no Seminário Dominicano de Mogofores, 1934-1936, José Nunes Martins abandona o mesmo Seminário. Para tal decisão contribuiram as palavras do frei Tomás Maria Videira e a decisão do póprio face às mesmas e à sua situação.
A Carta que escreve ao Superior frei Tomás Maria Videira a comunicar a decisão é extraordinária pela humildade revelada e a compreensaõ manifestada, bem como pelo facto de ser dactilografada.
 
Caxarias – Pontes 28 de Setembro de 1936
Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Padre Videira
Certamente deve estar admirado com a minha demora e com razão. Entretido com o moinho tenho-me descuidado em escrever-lhe o que peço desculpa.
Contando aos meus pais os motivos que me impediam de continuar, embora tivessem grande desgosto, concordaram com a minha proposta, dizendo que fizesse o que entendesse, pois sabia melhor que eles se poderia voltar.
Pelo que Vossa Reverendíssima tem dito e principalmente a meu modo de ver resolvi não voltar visto me ser impossível continuar. Sinto muito desgosto em não poder seguir, mas visto que assim tem de ser, paciência!
Muito reconhecido tenho a agradecer-lhe os benefícios que me prestou enquanto aí estive.
Peço-lhe também que me perdoe das partidas e enumeras ofensas que lhe fiz.
Felizmente tenho passado umas férias agradáveis e o mesmo desejo a Vossa Reverência.
Então os outros alunos voltam todos? Oxalá que sim. O meu irmão está contente e resolvido a voltar com todo o gosto.
Finalmente termino pedindo-lhe se digne abençoar este seu infiel amigo que jamais o esquece.
José Nunes Martins