Celebramos hoje o
Domingo de Pentecostes e com ele colocamos um ponto final no Tempo Pascal que
temos vindo a celebrar, tempo que após a celebração da Páscoa da Ressurreição
de Jesus nos fez tomar mais consciência desse mesmo mistério.
Ao concluirmos o Tempo
Pascal com a Solenidade do Pentecostes, com a comemoração da descida do
Espirito Santo sobre os apóstolos, tomamos igualmente consciência deste dom e
da sua realidade e significado na nossa vida de crentes e fiéis.
Antes de mais,
partimos da constatação que os textos bíblicos não tiveram uma tarefa fácil
para definir e apresentar aquele que no Credo dizemos que é a terceira pessoa
da Santíssima Trindade. Assim, o que encontramos são sempre imagens, metáforas,
que nos levam a um contacto, a um conhecimento, mas um conhecimento sempre
outro, sempre diferido, se assim podemos dizer.
Nas leituras que
escutámos, dos Actos dos Apóstolos e do Evangelho de São João, o Espirito Santo
é por um lado apresentado como fogo, línguas de fogo que pairam sobre as
cabeças dos Apóstolos, e por outro lado é apresentado como um sopro de Jesus
enviado sobre os Apóstolos.
Em outros textos bíblicos
além destas duas imagens encontramos também a imagem da água, da nuvem, da
pomba, do óleo, da luz, da mão, da unção, da força, um conjunto diverso de
realidades humanas e naturais que procuram exprimir aquele que afinal é
inefável, inexprimível.
Tal realidade não impede,
no entanto, que sejam apresentadas condições para o seu acontecimento, para a
sua realidade e presença entre nós, para a sua vinda, como podemos constatar na
leitura do Evangelho de São João.
A primeira condição
apresentada pelo texto, e reforçada pelas próprias palavras de Jesus no momento
da promessa do envio do Espirito Santo aquando da última ceia, é a unidade
entre os discípulos e dos discípulos com Jesus.
Antes da paixão Jesus
pediu aos discípulos que não se afastassem de Jerusalém, que se mantivessem
unidos apesar do que parecia um fim desastroso. Por isso os encontramos unidos,
encerrados em casa por medo, mas unidos no mesmo temor e na mesma expectativa.
Hoje, não podemos
pensar que esta condição esteja ultrapassada, pois continua a ser necessário
que haja unidade entre nós para que o Espirito Santo venha. Por isso quando
vemos discussões, movimentos, reclamações na Igreja e nas nossas comunidades
que conduzem à dispersão e fragmentação podemos e devemos interrogar-nos sobre
a fidelidade ao Evangelho e a existência de um substrato de unidade para que o
Espirito Santo se manifeste entre nós.
Apesar da diversidade
de dons e ministérios, como diz São Paulo aos Coríntios, não podemos esquecer
nem prescindir de que haja um só Espirito, e que seja o Espirito que Jesus
Cristo enviou aos seus Apóstolos. A pluralidade e diversidade eclesiais não
podem esquecer o princípio que pela unidade lhes transmite a vida necessária.
Nesta unidade que é condição
necessária para a vinda do Espirito Santo, a outra dimensão exigida é a da nossa
unidade eclesial e pessoal com Jesus, essa unidade expressa no gesto de Jesus
apresentar o lado e as mãos feridas. São as marcas da paixão, do pecado e da
morte, mas são igualmente as marcas da presença, as marcas da vida e do resgate
pago pela salvação de todos.
Ali todos estamos
unidos e reunidos e portanto nada nos pode separar senão a nossa própria
liberdade e decisão de não nos querermos unir, de não nos deixarmos unir, de
nos excluirmos.
A outra condição
exigida para a vinda do Espirito Santo, para que ele se faça presente em nós e
entre nós, é a paz, a paz que deve habitar nos nossos corações. Realidade difícil
de alcançar quando vivemos no medo, encerrados por temor, vazios de esperança e
de confiança.
O texto do Evangelho
mostra-nos um grupo de discípulos fechados por medo, por falta de confiança nas
palavras de Jesus, na sua promessa de que não os abandonaria apesar da tragédia
da morte. É a presença ressuscitada e a reafirmação da missão de envio que lhes
tinha sido entregue que os faz reaver a confiança e a ousadia do anúncio.
Também nós
necessitamos reaver e redescobrir a esperança e a alegria nas promessas de
Jesus, na promessa de que estará connosco na missão que nos confiou de
construirmos um mundo melhor apesar das dificuldades, das nossas limitações e
fracassos.
Unidos como um corpo, alicerçados
na Palavra que não passa, e confiantes de que o Senhor permanece connosco no
seu Espirito, podemos avançar para o combate de traduzir em todas as línguas a
única Palavra que salva e vivifica, a Palavra do Amor, e podemos avançar para a
edificação do Reino de Deus nesta história e neste mundo.
Ilustração: Pintura do
Pentecostes que se encontra no Museu do Tesouro da Catedral de Burgos.