quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aniversário da Primeira Missa sete anos depois

Se ontem celebrei o sétimo aniversário da minha ordenação sacerdotal, hoje celebro o aniversário da minha Primeira Missa, da minha primeira presidência da Celebração da Eucaristia.
Se há sete anos celebrei aqui no convento, rodeado da comunidade que se alegrava comigo, hoje celebrei na Sé de Lisboa, para um pequeno grupo de fiéis e turistas que desconhecia o aniversário.
Não era este o meu plano para este dia, mas a necessidade de socorrer o Cónego Luís Manuel conduziu-me até à centenária Sé de Lisboa. Como diz o refrão popular, o homem põe e Deus dispõe.
Ao celebrar este aniversário não posso deixar de ter presente umas palavras que o Padre Pie Jougla, Vigário para a Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores, escreveu ao recém-ordenado frei Tomás Videira a 16 de Novembro de 1930.
“Vivez de plus en plus en union avec N.S. soyez vraiment X avec lui et comme lui par votre esprit de sacrifice. N’oubliez pas que dans le saint sacrífice de la messe il est prête et victime. Apprenez chaque jour à parfaire son immolation à y ajoutant votre part la plus large en pleine conformité à la volonté divine.”
Viver cada vez mais em união com Nosso Senhor de modo a ser verdadeiramente outro Cristo com ele e como ele pelo espirito de sacrifício.
Não esquecer que no Santo Sacrifício da Missa Ele é sacerdote e vítima.
Aprender cada dia a completar a sua imolação acrescentando a nossa parte mais generosa em plena conformidade com a vontade divina.
É um programa de vida, um programa que se apresenta como desafio para a vida pessoal, pois não é fácil adequar a nossa vontade à vontade de Deus e o sacrifício não é de fácil aceitação. Mas também um programa que se apresenta como um desafio para a nossa celebração litúrgica da Eucaristia, que deve ser cada vez mais presença real do divino e do humano que celebramos.
Após sete anos de celebração diária da Eucaristia, os poucos dias que não celebrei foi por me encontrar de viagem, canto de alegria e dou graças a Deus por me ter chamado ao seu serviço ministerial, por me ter admitido à sua presença para o servir nestes santos mistérios.
 
Ilustração: Celebrando a Eucaristia na Catedral de Santiago de Compostela em Julho de 2012.

 

Porque me viste, acreditaste! (Jo 20,29)

O Apóstolo Tomé não deixa de nos cativar, de nos conquistar uma simpatia especial, uma vez que se parece tanto connosco. Também nós gostaríamos de ver Jesus, ainda que não necessitássemos de o tocar, bastava um vislumbre, uma pequena visão.
E contudo, Jesus diz a Tomé como nos diz a cada um de nós que a felicidade não está na visão, que a fé não deriva da visão, ou dos resultados dos sentidos. A felicidade e a fé são fruto da relação, são uma consequência do caminhar com Ele.
Assim, a falta de Tomé, o seu grande erro não foi querer ver Jesus, não foi querer colocar os dedos no lugar dos cravos e a mão na ferida do lado. O grande erro de Tomé foi não perceber a presença de Jesus mesmo não o vendo, mesmo não tendo estado presente no momento em que se tinha manifestado aos outros discípulos.
A interpelação de Jesus, quando se apresenta novamente diante dos discípulos, é dessa realidade denunciante, pois manifesta a Tomé que tinha escutado a conversa, que sabia das suas questões e propósitos, e portanto tinha estado presente nesse momento.
Jesus está presente em todos os momentos e a possibilidade da visão é o resultado do caminhar ao seu lado confiante da sua presença, sem perguntas nem pedidos de manifestação. Tal como na barca em que Jesus se encontrava a dormir Jesus está igualmente connosco no nosso caminhar da manhã da ressurreição.
O pedido de Tomé de querer ver Jesus para acreditar é assim uma manifestação de impaciência, é uma manifestação extemporânea de um desejo que só se vai tornando realidade e viável na medida em que se caminha sem medo do risco e da invisibilidade. É no caminho que a visão nos é oferecida.
Neste sentido, se na nossa caminhada de fé nos assalta a dúvida e a incerteza, mas apesar disso mantivermos o nosso seguimento, a nossa fé, a visão terminará por acontecer. A fé abrir-nos-á os olhos até encontrarmos a plena Luz da presença de Deus.
 
Ilustração: “A incredulidade de São Tomé”, Tríptico de Peter Paul Rubens, Museu Real de Belas Artes de Antuérpia.   

É o ambiente para o encontro

 
Coloquei lá muito da minha fé e dos meus desejos; não tenho a certeza que isso seja bom, mas é o ambiente no qual quero que os meus paroquianos encontrem o Senhor.
Carta de Jean Berger para Paul Claudel

Ilustração: Torre sineira da Igreja Reformada em Vernier, Genebra

terça-feira, 2 de julho de 2013

Sétimo aniversário de Ordenação Sacerdotal

 
Ramo de rosas oferecido pela leitora assídua destas linhas Maria José Silva no dia do sétimo aniversário da minha Ordenação Sacerdotal.


Que Deus nos ajude

Que o Bom Deus nos ajude a atravessar as águas da amargura e a continuar como guias para a Terra Prometida. E que Ele vos recompense por todo o bem que nos proporciona.
Carta de Jean Berger para Paul Claudel

Ilustração: Bassin d’Apollon no Jardins do Palácio de Versailles.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Segue-me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos. (Mt 8,22)

A leitura do Evangelho de São Mateus do dia de hoje apresenta-nos o paralelo do texto do Evangelho de São Lucas que lemos ontem, décimo terceiro domingo do tempo comum. São as propostas de seguimento de Jesus, propostas que face às contrapropostas do Mestre podemos interrogar-nos se tiveram alguma continuidade.
Esta feliz coincidência de leituras permite-nos voltar às respostas de Jesus e de modo particular à resposta sobre deixar os mortos enterrar os seus mortos, uma vez que, de certa forma, é aquela que mais nos choca no conjunto das respostas de Jesus.
Neste sentido, não podemos deixar de ter presente que o preceito moral, religioso, de sepultar os mortos, e de modo particular a família, era um preceito legal que superava todos os outros, e portanto o pedido daquele que se propõe seguir Jesus e pede para sepultar o seu pai é perfeitamente válido e justo.
A resposta de Jesus não é assim uma falta de consideração ou respeito pela família, ou apenas uma abertura à dimensão da nova fraternidade e família que se abre com o seguimento. Há de facto algo muito mais fundamental e que sustenta toda a afirmação a partir da própria pessoa de Jesus.
Seguir Jesus é optar pela vida, é aceitar a vida e os seus desafios e portanto superar o luto e a dor da perda e da morte. Seguir Jesus é entrar no dinamismo da vida, do qual faz parte a morte, mas no qual essa realidade não tem a última palavra. É como o grão de trigo que morre para poder frutificar.
Por outro lado, a opção pela vida torna evidentes as opções pela morte, a divisão que inevitavelmente Jesus vai operar entre a vida e morte, entre a luz e as trevas. Se seguir Jesus é optar pela vida, não o seguir é optar pela morte.
Seguir Jesus deixando os mortos sepultar os seus mortos é assim deixar para trás aquelas realidades que nos aprisionam, que nos atemorizam, que nos privam ou impedem de viver em plenitude, é fazer uma opção pela vitória alcançada já para cada um de nós em Jesus Cristo e por Jesus Cristo.
Ao optar por seguir Jesus, deixando para trás os mortos, o discípulo manifesta já essa vitória, manifesta as palavras do Evangelho de São João de que quem acredita em Jesus Cristo não morrerá jamais, e portanto a grande urgência e missão é anunciar aos outros homens essa vitória, essa vida nova.
 
Ilustração: “Funeral dos pobres”, de Vasily Perov, Galeria Tretiakov, Moscovo.

A alegria de fazer o bem

 
A verdadeira felicidade da vida é fazer o bem, e que bela vida não fazer outra coisa senão o bem, não somente bem aos homens, mas bem à Igreja, bem a Deus e à Santa Virgem que têm verdadeiramente necessidade de nós.
Carta de Paul Claudel para Jean Berger

Ilustração: Fonte coberta de neve no jardim da Abadia de Saint Gallen.