O Evangelho de São Lucas
que acabámos de escutar apresenta-nos uma das mais surpreendentes parábolas de
Jesus, a parábola do bom samaritano.
Contudo, e pela
riqueza que lhe é intrínseca, não podemos ficar nesta parábola pela leitura no
sentido do próximo, da descoberta do outro que nos solicita compaixão. Há elementos
prévios e posteriores que não nos podem deixar de chamar a atenção.
Assim, e antes de mais,
temos que ter presente a busca do doutor da lei, a pergunta a Jesus sobre o que
fazer para receber a herança eterna. Pergunta que não podemos negar que é comum
a todos nós, porque se os homens e mulheres de fé buscam a felicidade da
herança eterna, aqueles que se dizem sem fé buscam a felicidade da herança neste
momento e neste mundo. Ainda que as respostas sejam diferentes a questão e o
princípio é o mesmo, o homem busca inevitavelmente e incessantemente a sua
felicidade, a sua realização plena.
A resposta de Jesus à
pergunta do doutor da lei é de todos os modos surpreendente pela radicalidade e
pela liberdade que acarreta. Jesus remete o doutor da lei para a lei que
conhece, para o código da Aliança, mas igualmente implica o doutor da lei e a
sua liberdade na leitura dessa mesma lei.
A resposta de Jesus
tem presente os princípios legais, tem presente essa lei de que falava o Livro
do Deuteronómio que não estava nos céus nem para além do mar, mas estava no coração
e perto da boca. Deste modo, e pela proximidade do homem, essa lei era passível
de leitura, de uma leitura pessoal que Jesus convida o doutor da lei a fazer.
Neste sentido, e tendo
presente o convite de Jesus e a apresentação da Lei feita pelo Livro do
Deuteronómio, nenhum homem se pode considerar excluído do cumprimento da lei,
impossibilitado de a viver, porque cada um é convidado a interpretá-la no seu
coração e a colocá-la em prática pela sua inteligência e pela sua confiança no
poder da acção de Deus na mesma lei.
É esta implicação
pessoal que leva o doutor da lei a tentar descomprometer-se quando pergunta a
Jesus quem é o seu próximo. Há no doutor da lei, como há em todos nós, essa
tentativa de encontrar uma justificação para o incumprimento do mandamento do
amor, de encontrar uma desculpa para não nos deixarmos tocar pelo nosso próximo.
Em resposta a tal
pergunta Jesus conta a parábola do sacerdote, do levita e do samaritano,
parábola em que as duas figuras ligadas ao templo são preteridas em favor de um
estrangeiro e de um herege. É aquele que é excluído e marginalizado, o que não
é válido aos olhos dos outros dois, e do doutor da lei a quem Jesus responde,
que assume a atitude mais consentânea com a leitura do mandamento do amor que
anteriormente tinha sido feita pelo doutor da lei.
A parábola remete assim
conscientemente para o mandamento do amor, para a compaixão que somos
convidados a viver face àqueles que sofrem, que são vítimas de violência ou
injustiça. Mas deixa transparecer também a possibilidade do impossível, remete
para o inesperado e o insuspeito que pode acontecer, que se pode tornar
realidade, se nos descentrarmos um pouco de nós próprios, como o fez o
samaritano.
A parábola do bom
samaritano pode ser de certa forma a explicitação prática daquelas palavras que
encontramos na boca de Jesus neste mesmo Evangelho de São Lucas, o que é impossível
aos homens é possível a Deus. Ainda que estas palavras sejam no seu contexto
aplicadas à salvação, podemos também assumi-las aqui e aplicá-las à compaixão e
à misericórdia que tantas vezes nos escapa da mão mas que não escapa da mão de
Deus.
E quando nos assaltam
as desculpas, quando justificamos a nossa distância face ao próximo, temos que
olhar para o final da parábola e perceber que num golpe de génio, numa inversão
cénica de papéis, passámos rapidamente da possibilidade de samaritanos para a
condição de estalajadeiros aos quais foi confiada a guarda do próximo.
Nesta alteração cada
um de nós é o estalajadeiro e o bom samaritano é já o próprio Deus que passa
mais tarde para acertar as contas, para pagar aquilo que tivermos gasto a mais.
E uma vez mais nos deparamos com a lógica do que nos é impossível mas é possível
a Deus, ou seja, o que tivermos ultrapassado ser-nos-á retribuído por Deus,
seremos recompensados cem por um, tal como na promessa àqueles que deixam casas
e família para seguir Jesus.
A parábola do bom
samaritano coloca-nos face ao desafio da compaixão, da descoberta do nosso
próximo e de como eu o faço meu próximo, mas coloca-nos também face ao desafio
do excesso, do impossível aos nossos olhos, mas possível aos olhos de Deus e às
nossas mãos na medida do nosso amor e da nossa confiança total no outro e em
Deus.
Que a confiança no Senhor
que vem para liquidar tudo o que tivermos gasto a mais nos faça ultrapassar os
nossos medos e indiferenças e nos aproxime diligentemente daqueles que são os próximos
que necessitam de nós.
Ilustração: “Bom Samaritano”,
de Johann Carl Loth, Kunstsammlungen Graf von Schonborn, Pommersfelden