quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A novidade na tradição

 
O Papa Francisco apenas reitera o conteúdo do Evangelho tal como o Igreja vem fazendo desde há vinte séculos, aportando o seu próprio carisma nascido da excepcionalidade da sua origem e da sua experiência vital, ambas raízes fecundas na milenária história da Igreja.
Francisco Vázquez y Vázquez, VN 2.867,50.

Ilustração: Celebração da Peregrinação do Rosário a Lourdes.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Todos os que tinham doentes traziam-nos a Jesus. (Lc 4,40)

A visita à casa de Pedro é a oportunidade para mais uma manifestação do poder de Jesus. Num primeiro momento com a cura da sogra de Pedro, que se encontrava acamada com febre, e depois com a cura de todos aqueles que lhe eram apresentados.
Inevitavelmente chama-nos a atenção o poder de Jesus, a sua compaixão para com aquelas pessoas; mas não podemos deixar de ter presente também aqueles que pedem a Jesus, os que trazem os seus doentes a Jesus, para que ele os cure.
No seu anonimato desenvolvem e testemunham uma fé e uma compaixão que não pode deixar de nos tocar, de nos interpelar, porque também nós, cada um de nós, pode apresentar e pedir a Jesus por aqueles que estão doentes, por aqueles que sofrem ou são vítimas de alguma situação.   
Jesus cura, Jesus combate e expulsa o mal e tudo o que provoca o mal, Jesus liberta, não só porque ele é o Mestre da Vida, mas porque também nesses pequenos gestos e milagres se revela e desenvolve o acontecer do Reino dos Céus. A Boa Nova do Reino anuncia-se e traduz-se em actos concretos, em acontecimentos concretos.
E hoje, tal como naquele dia, nós podemos ser actores e participantes deste desenvolvimento, quando assumimos apresentar diante de Deus os nossos irmãos que sofrem e estão doentes. Jesus convida-nos a partilhar este cortejo, a assumir as dores dos outros como nossas, a ser misericordiosos, a manifestar a nossa própria fé em Jesus que cura e salva.
Felizes somos nós, quando diante de Jesus apresentamos na oferta da nossa oração aqueles que estão doentes, sofrem ou são vítimas de qualquer violência. Tal como nos promete o Senhor, serão eles que nos acolherão na eternidade com o amor que lhes tivermos tributado.

 
Ilustração:
“Jesus curando a sogra de Pedro”, de John Bridges.   

Nada é sem vós Senhor

 
Nenhuma santidade pode subsistir, meu Deus, se a vossa mão soberana a não sustenta; nenhuma sabedoria pode conduzir-nos, se a vossa luz a não orienta; nenhuma força pode suster-nos, se a vossa omnipotência não a conserva.
Do Livro da Imitação de Cristo, 3,14.

Ilustração: Rosa do jardim da casa dos meus pais.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Que tens que ver connosco? (Lc 4,34)

Jesus desceu a Cafarnaum e como habitualmente foi à sinagoga onde encontrou um homem possuído por um demónio impuro.
Encontro casual, ou não, vai servir para mais uma manifestação da identidade e da pessoa de Jesus. Ele, ou eles, sabem quem têm diante de si, sabem quem é Jesus de Nazaré, o Santo de Deus e que veio para os destruir.
Encontro que manifesta para além da pessoa de Jesus a realidade humana quando se encontra possuída, quando se encontra escrava do mal. Se num primeiro momento o demónio se dirige a Jesus no plural, como se fossem muitos, depois fala-lhe no singular, como se fosse um só. A identidade do homem possuído, habitado pelo mal é assim uma identidade confusa, fragmentada, em desunificada.
Jesus, ao contrário, é o homem plenamente unificado, uma vez que Ele e o Pai são um só, e oferece-nos essa unidade na nossa humanidade, para que também nós sejamos um com Ele e com o Pai. Jesus é a unidade porque uniu em si a divindade e a humanidade, e convida-nos a viver igualmente essa unidade, na qual o homem recobra a sua verdadeira identidade.
E neste sentido, podemos perguntar-nos se não é esta a nossa verdadeira e grande aspiração, a aspiração mais profunda de toda a humanidade, viver em unidade, uns com os outros e todos com Deus?
Para tal necessitamos libertar-nos de tudo o que nos divide e impede de viver a unidade interior, de tudo os que fragmenta, que nos confunde, que nos distrai do verdadeiramente fundamental. Quanto mais nos libertarmos desta confusão e divisão, dessa grande doença esquizofrénica de que todos sofremos em maior ou menor grau, mais espaço e tranquilidade terá Deus para entrar e permanecer, para fazer do nosso coração a sua habitação.
Podemos começar hoje esta libertação, podemos já ter começado, mas em qualquer circunstância não podemos deixar de perder de vista neste processo que ele é um trabalho lento, paciente, a longo prazo, de toda uma vida, e os resultados serão mais ou menos visíveis na medida do acolhimento do sopro do Espirito de Deus.
Necessitamos obedecer à ordem de Jesus, calar o que nos habita, para que sejamos libertados e o Senhor possa entrar.

 
Ilustração:
“O Vale de lágrimas”, de Gustave Doré, Peti Palais, Paris.

Emoção das veracidades

 
É por isso que me emociono, me alegro e choro, lendo ou contemplando as obras dos homens que unem a veracidade do mundo eterno à veracidade do seu próprio eu moral, consolidando esta unidade com o amor.
Vassili Grossman, Bem Hajam! Apontamentos de Viagem à Arménia, 118.

Ilustração: Vista sobre um campo junto à igreja de Vernier.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Faz na tua terra o que ouvimos dizer que fizestes em Cafarnaum! (Lc 4,23)

A primeira visita de Jesus à sua terra, depois de ter iniciado a sua missão pública, foi um momento verdadeiramente significativo, de tal modo que os três Evangelhos sinópticos nos dão notícia desse acontecimento.
Os três relatos apresentam-nos Jesus como um profeta, ainda que com uma nota distintiva que estabelece uma profunda diferença na sua situação conflituosa. Nos relatos de Marcos e Mateus, Jesus é visto como um profeta fracassado face a um povo que não acredita nele, enquanto o relato de Lucas nos apresenta Jesus como um profeta que é ignorado e até ostracizado pelo fundamentalismo do seu povo.
Contudo, o mais importante deste relato é a consciência de Jesus, o facto de se sentir e saber como o cumprimento da promessa do profeta Isaías. Uma consciência desvinculada da dimensão sacerdotal que enquadra a profecia de Isaías, que Jesus não assume, uma vez que lhe restringe a liberdade de acção.
Pelo contrário, Jesus acolhe a profecia de Isaías e vê a realização da mesma na sua dimensão mais universal, na sua dimensão libertadora, de que as histórias dos profetas Elias e Eliseu são os testemunhos chamados ao julgamento. Jesus vem para quebrar as cadeias de todos os homens e de todos os povos.
O pedido dos seus conterrâneos a fazer em Nazaré os milagres que tinha feito em Cafarnaum é assim a manifestação da particularidade, do desejo de ter alguém que vem apenas para o seu serviço próprio. É uma redução da missão, um exclusivismo que Jesus não pode permitir.
A consequência desta recusa de Jesus é a revolta do seu povo e conhecidos, o plano de morte, porque não estão dispostos a partilhar o dom que têm, assumindo desta forma o grande desastre do povo eleito, ou seja, convocado por Deus para levar a salvação a todos os povos tinha-se encerrado na sua própria eleição não cumprindo a missão atribuída.
Esta é muitas vezes a nossa grande tentação, conformarmo-nos com o bem que temos, não o partilharmos com os outros, não levar a boa nova da salvação aos outros. Fechamo-nos no nosso casulo de bem estar material e espiritual.
Jesus ao passar pelo meio deles e ao seguir o seu caminho mostra-nos que nada pode deter o projecto de Deus, que ele segue o seu rumo; e que nós não podemos deixar de estar na mesma sintonia, que não podemos encerrar-nos, mas devemos abrir as portas e os caminhos de todas as realidades à novidade libertadora de Jesus.

 
Ilustração:
“Elias e a viúva de Sarepta”, de Bartholomeus Breenbergh, Colecção Particular.

Fruto da contemplação

 
O homem contempla este mundo silencioso e claro, mundo de sossego e pureza cristalinos, e começa a compreender que não precisa da vaidade do vale da vida, que esta vaidade destrói a sua alma.

Vassili Grossman, Bem Hajam! Apontamentos de Viagem à Arménia, 106.
 
Ilustração: Manhã de nevão em Vernier.