domingo, 28 de setembro de 2014

A maravilha da vida

 
A admiração face à vida é necessariamente anterior à angústia diante da morte. De facto, se a vida não nos aparece como uma maravilha, como poderá a morte que a aguarda nos angustiar? Esta não seria mais que banalizada como alívio.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 154.

Ilustração: Rio Douro perto da estação da Ermida.

Homilia do XXVI Domingo do Tempo Comum

Todos sabemos pelos Evangelhos como Jesus viveu em tensão e conflito com os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, como muitas vezes os seus encontros e discussões foram verdadeiras provocações, tal como acontece no trecho do Evangelho de São Mateus que acabámos de ler.
A provocação que hoje nos é apresentada por São Mateus é fortíssima na medida em que Jesus está em Jerusalém, no centro político e religioso, e desafia as autoridades a uma conversão, a uma outra atitude face a Deus, a uma outra relação de fé, tomando como termo de comparação as mulheres de má vida e os publicanos. Esta liberdade e ousadia de Jesus, esta fidelidade à verdade, foram tidas em conta poucos dias depois num processo de condenação e morte. 
Esta provocação de Jesus não deixa de nos alcançar ainda hoje a cada um de nós individual e comunitariamente, na medida em que põe em evidência uma falha ou um vício em que muitas vezes caímos, o da discrepância entre o que se diz e o que se faz, o desastre da falsidade de vida.
Contudo, e é esse o desafio pedagógico de Jesus, não podemos ficar apenas nessa evidência, mas a partir dela, das constatações alcançadas, partir para uma outra atitude, para uma outra forma de vida. A verdade das nossas limitações e falhas é no âmbito da pedagogia de Jesus para que optemos e iniciemos um processo de conversão de vida.
Neste sentido, é bom que olhemos a parábola que Jesus apresenta a partir da perspectiva do pai, daquele homem que tem dois filhos e que tem um papel muito discreto, pois apenas lhes pede que saiam a trabalhar na sua vinha.
Esta discrição do pai passa por não nos ser apresentada qualquer reacção face à recusa do filho em ir trabalhar para a vinha. No seu silêncio o pai não responde à violência do filho com outra violência, não sobe o tom de voz nem contrapõe qualquer represália. À ruptura do filho, exposta na recusa, o pai não responde com a sua ruptura. Tal como o pai do filho pródigo, também este deixa ir o filho, livremente, sem censuras ou condenações.
Este silêncio do pai é contudo o grande instrumento de conversão, de alteração de atitude, pois nesse silêncio o filho descobre o amor do pai, o respeito pela sua atitude, a liberdade que o pai concede ao filho. É na desobediência que o filho descobre o pai, que descobre que aquele homem que lhe pede um serviço é alguém que o ama e respeita, mesmo na sua recusa e revolta.
Ao reconsiderar e ir trabalhar para a vinha, tal como pedido, o filho manifesta a sua filiação, reconhece que aquele homem que lhe tinha pedido um serviço é afinal seu pai. A sua atitude não é fruto de interesse ou conveniência, mas apenas de plena concordância e total acolhimento do amor do pai. A filiação pressupõe uma experiência de obediência, uma obediência vivida em consequência do amor que se experimenta, e este filho faz essa experiência.
Ao contrário do outro filho que, ainda que obediente no primeiro momento, se revela incapaz de fazer a experiência da filiação, da relação amorosa com o pai. Encerrado na sua fachada de obediência correcta mas falsa, da resposta certa para o momento certo, numa atitude calculista, abusa da confiança e respeito do pai, pois sabe de antemão que o pai o ama e nada lhe cobrará.
É esta atitude hipócrita que lhe impede de perguntar porque são os filhos enviados em lugar dos trabalhadores, o que há de importante para terem que ser os filhos a tratar; é esta atitude que o impede de dizer não, mas o obriga a tratar o pai por senhor, manifestando assim a impossibilidade de conhecer verdadeiramente aquele que é o pai.
A parábola que Jesus conta aos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo revela-nos assim que podemos cair na hipocrisia de dizer uma coisa e fazer outra, revela-nos a duplicidade e falsidade que a nossa vida pode desenvolver, mas revela-nos algo muito mais importante e significativo para a nossa relação com Deus.
O apelo a trabalhar na vinha é um convite muito especial, um convite a uma missão que não pode ser entregue aos trabalhadores, porque os servos não conhecem o seu senhor, mas que apenas é entregue aos filhos porque só eles a podem realizar, a missão da manifestação do amor do pai que radica da intimidade vivida.
Missão e manifestação que não pode deixar de ter presente as nossas faltas, as nossas limitações e fragilidades, porque como dizem os Padres do Deserto “aquele que reconhece as suas faltas é mais forte que aquele que ressuscita um morto”. É o reconhecimento da nossa mediocridade, da nossa marginalidade, que nos abre a porta da conversão, da experiência amorosa de Deus Pai.
A nossa obediência filial anda longe da perfeição, todos o reconhecemos, mas tal não nos deve impedir de ver a beleza e a alegria da missão que nos é confiada ao nos ser pedido que trabalhemos na vinha do Pai. Confortados com a compreensão do Pai procuremos realizar não os nosso interesses mas os interesses dos outros, viver com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que nos deixou o testemunho do amor do Pai na experiência da obediência.

 
Ilustração:
1 – “As vindimas”, de Max Slevogt, Museu Nacional de Varsóvia.
2 – “Os vindimadores”, de Pierre-Auguste Renoir, National Gallery of Art.

sábado, 27 de setembro de 2014

Ser luminoso

 
Esta receptividade, para ser profunda, reclama um certo espirito de pobreza. Quero dizer que para ser luminoso é necessário renunciar a ser brilhante. É neste ponto que se situa a experiência dos anjos: Satan preferiu brilhar a deixar passar em si uma luz mais alta.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 199.

Ilustração: Nascer do sol sobre o lago Leman, perto de Neuchatel.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A fé é para sempre

 
A fé é um apelo para sempre, com tudo o que o somos e o que temos.
Ginés Garcia Beltrán, Bispo de Guadix-Baza

Ilustração: A criação do homem nos frescos das abóbadas da Catedral de Lamego.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A idolatria do fazer

 
Já foram muitos os momentos e circunstâncias em que nos perguntámos, que temos que fazer, que podemos fazer. Um dos sentimentos que mais nos podem atormentar é pensar que não fizemos nada, que todo o tempo investido e todas as ilusões não deram os frutos esperados. O fazer é bom mas também se pode converter num ídolo. O melhor modo de fazer é estar.
Ginés Garcia Beltrán, Bispo de Guadix-Baza

Ilustração: Floreira junto ao cemitério de Vernier.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A fé na catequese

 
Para alguém se iniciar na vida da fé, há que despertar um acto de fé. Não se pode fazer catequese se não há fé, porque a catequese é um processo de maturação na fé. Muitas vezes, a catequese é estéril porque falta a fé.
Luís Guillermo Eichhorn, Bispo de Morón, Argentina

Ilustração: Alameda do jardim de Serralves.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A Iniciação Cristã

 
A Iniciação Cristã não significa aprender coisas, mas aprender a viver um estilo de vida.

Luís Guillermo Eichhorn, Bispo de Morón, Argentina

Ilustração: Vaso com amores perfeitos no Seminário de Resende.