domingo, 5 de outubro de 2014

Homilia do XXVII Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Mateus que acabámos de escutar apresenta-nos hoje a parábola dos vinhateiros homicidas, uma parábola carregada de violência, não só na atitude dos vinhateiros mas também no juízo que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo proferem face ao sucedido. Para compreendermos esta violência não podemos deixar de ter presente o contexto em que a parábola é proferida e os incidentes que a precedem, bem como a linhagem histórica em que se insere.
Assim, temos que ter presente que esta é a segunda parábola, de um conjunto de três, que Jesus dirige aos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo depois da sua entrada gloriosa em Jerusalém, do incidente da expulsão dos vendedores do templo e da ousadia de Jesus começar a ensinar no templo sem ter para isso poder.
Acontecimentos que se sucedem em cadeia e provocam inevitavelmente as autoridades religiosas instituídas, pois estamos diante de uma perversão de tudo o que estava instituído e era observado religiosa e socialmente. Tudo estava enquadrado e ordenado num sistema jurídico e ritual que Jesus nas suas palavras e atitudes punha em causa e questionava.
No entanto, esta contestação de Jesus insere-se numa longa tradição, numa história antiga de que a referência ao texto do profeta Isaías é apenas mais um elo na cadeia sucessória. Tal como Jesus, também nós sabemos que a construção do templo não foi bem acolhida por parte de Deus no tempo do rei David, que após a construção pelo rei Salomão foi um dos motivos para a separação do reino do norte e portanto para o fracasso do projecto dum povo único e que os profetas foram bastante críticos face à instituição do templo.
A parábola dos vinhateiros homicidas encerra assim uma forte condenação dos interlocutores de Jesus, dos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo, daqueles que podemos chamar os agentes da religião, mas encerra igualmente uma condenação da própria instituição religiosa tal como estava constituída, e de que os príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo se apercebem e não podem permitir. Sabemos já o que se seguiu.
Contudo, se os Evangelhos guardaram na memória esta parábola não foi apenas para nos apresentar mais um dos motivos porque Jesus foi condenado e morto, mas porque ela diz respeito a todos, porque todos podemos cair no mesmo erro e ser vítimas da mesma condenação. A parábola é uma chamada de atenção para todos nós, tal como se percebe na falta de traje que ocorre na terceira parábola, e chama-nos a atenção em dois polos diferentes, ainda que ligados pela mesma liberalidade e cuidado que lhes está subjacente.
O primeiro desses polos está associado inevitavelmente ao senhor da vida, que tal como nos diz o profeta Isaías não deixa de a cuidar, não deixar de estar vigilante, que faz tudo para que a vinha produza o que é devido. Tanto o texto de Isaías como a parábola de Jesus apresentam-nos um senhor verdadeiramente interessado pelos bons frutos da vinha e fazendo tudo para que eles surjam.
Esta atitude atenta do Senhor da vinha deveria ser para nós fonte de uma grande confiança e esperança, pois mostra-nos que Deus não desiste de nós, nem se descuida no seu cuidado para que realizemos o que nos é devido realizar. Quantas vezes agimos sem essa esperança, como se tudo só dependesse de nós e estivéssemos sozinhos no combate, esquecendo-nos que Deus vai à nossa frente, abrindo ou limpando o caminho.
Quantas vezes agimos esquecendo-nos que ainda hoje o Senhor da vinha nos envia cada dia o seu Filho e que na Eucaristia o podemos acolher como aquele que nos traz o pagamento do nosso trabalho, o alimento para continuarmos na nossa tarefa no meio da vinha.
A este cuidado atento do Senhor da vinha deveria corresponder a liberalidade e a justiça dos vinhateiros, daqueles aos quais foi entregue o cuidado da vinha. Os bons vinhateiros reconhecem que a vinha não é sua e portanto entregam os frutos no devido tempo.
O motivo básico para a condenação dos vinhateiros da parábola prende-se com essa incapacidade de verem o que não lhes pertence, com a apropriação daquilo que não lhes era devido. E aqui podemos e devemos interrogar-nos sobre a forma como estamos a usar os dons que Deus nos concedeu, as oportunidades que nos vai concedendo, pois podem perfeita mas muito erradamente estarem a ser usadas apenas para nossa satisfação e engrandecimento.
A condenação explanada na parábola, precedida da expulsão dos vendedores do templo, prende-se com essa tentação de idolatria do que nos é concedido, de adoração duma realidade que nos é concedida como um meio, como um instrumento para a realização da missão, e que nós colocamos como um fim.
Diante desta tentação é bom que não deixemos de ter presente as palavras de São Paulo aos Filipenses, que tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor deve estar no nosso pensamento. A abertura de espirito, a liberalidade do nosso coração, o acolhimento da riqueza da diversidade, ajuda-nos a não nos fecharmos e a não idolatrar aquilo que temos ou somos.
Se Deus continua a cuidar amorosamente a sua vinha não podemos deixar de corresponder com o cuidado da entrega generosa dos frutos que lhe pertencem, uma vez que só dessa forma participamos dos mesmos frutos.

 
Ilustração:
1 – Jesus expulsando os vendedores do templo, de Luca Giordano, Museu do Hermitage.
2 – Iluminura da parábola dos vinhateiros homicidas, Speculum Humanae Salvationis.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Em memória da Madre Isabel Gutierrez Rodellar, OP

Levada pelo seu anjo da guarda, partiu hoje para a casa do Pai a Irmã Isabel.
Muitas pessoas, nomeadamente em Castelo Branco a conheceram como Madre Isabel, outras conheceram-na como Sister Isabel enquanto viveu no Bom Sucesso, e num período muito recente em Vitória foi conhecida como Soror Isabel.
Para mim foi e continuará a ser a Irmã Isabel, a minha “santinha” como o frei José Maria a baptizou, depois de tantos telefonemas para o Convento de São Domingos de Lisboa, sempre em busca de um sacerdote que lhe assegurasse a Eucaristia.   
Na sua ânsia de silêncio e recolhimento, de responder à primeira vocação para a clausura, não realizada por razões familiares, e que nestes últimos tempos acompanhei como irmão e confessor, sei que não aprovaria esta exposição, ainda que pelas diversas circunstâncias da vida e cargos que desempenhou tivesse sempre estado muito exposta.
Contudo não posso deixar de partilhar neste momento de dor e tristeza o muito que se lhe deve da minha vocação dominicana. Não posso deixar de recordar a minha primeira visita a Caleruega, completamente organizada por ela, os livros que me facultou, os rosários que me ofereceu para o hábito, as horas de partilha fraterna.
Não posso deixar de recordar as suas palavras experientes, o seu carinho e preocupação, os incentivos a não desistir quando me diziam que esta vida não era para mim. Pouco antes do noviciado comentava-me o grande desafio da vida religiosa: não são os votos, pobreza, castidade e obediência, os mais difíceis, esses vão-se vivendo, o maior desafio da vida consagrada e dominicana é a vida comum, a nossa vida comunitária. Como diz o nosso antigo Mestre da Ordem Timotyh Radcliffe, é de facto surpreendente como tantos gatos bravos conseguem viver metidos no mesmo saco.  
Não posso deixar também de recordar o seu gosto pela Eucaristia bem celebrada, pela beleza e cuidado da celebração. Vivia profundamente essas realidades, ordenadas, equilibradas, sem direito a invenções ou devaneios. O mistério era para ela demasiado grande para se brincar com ele. Quanta dor o Senhor lhe conhece por não ter tido acesso nos últimos tempos à celebração da Eucaristia.
Dor sentida também pela impossibilidade de usar o hábito e de não ver as pessoas que a assistiam no seu leito de sofrimento vestidas com o hábito. E quantas voltas na vida lhe deu essa fidelidade ao hábito. Amava profundamente o nosso hábito branco e negro, e nele a Ordem de São Domingos em que tinha professado.
As fotografias que ilustram esta breve memória foram tiradas em Maio de dois mil e treze, em Vitória, Espanha, quando se retirava para a vida de clausura e silêncio a que aspirava.
A luz que entra pela porta do Santuário da Virgem de Estibaliz é imagem dessa luz que sempre procurou na sua vida religiosa, que o Mosteiro de Santa Cruz em Vitória parecia oferecer-lhe e agora contempla já na sua fonte original.
Surpreendida, enquanto tomávamos um chá num bar, ouço-a ainda dizer-me “seu maroto”, como tantas vezes me disse, sempre que brincava com ela. Mas não é verdade que só brincamos com aqueles que sentimos verdadeiramente nossos irmãos?
Junto de Deus não deixes minha “santinha” de pedir pela minha fidelidade tal como pedistes aqui na terra.

 

domingo, 28 de setembro de 2014

A maravilha da vida

 
A admiração face à vida é necessariamente anterior à angústia diante da morte. De facto, se a vida não nos aparece como uma maravilha, como poderá a morte que a aguarda nos angustiar? Esta não seria mais que banalizada como alívio.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 154.

Ilustração: Rio Douro perto da estação da Ermida.

Homilia do XXVI Domingo do Tempo Comum

Todos sabemos pelos Evangelhos como Jesus viveu em tensão e conflito com os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, como muitas vezes os seus encontros e discussões foram verdadeiras provocações, tal como acontece no trecho do Evangelho de São Mateus que acabámos de ler.
A provocação que hoje nos é apresentada por São Mateus é fortíssima na medida em que Jesus está em Jerusalém, no centro político e religioso, e desafia as autoridades a uma conversão, a uma outra atitude face a Deus, a uma outra relação de fé, tomando como termo de comparação as mulheres de má vida e os publicanos. Esta liberdade e ousadia de Jesus, esta fidelidade à verdade, foram tidas em conta poucos dias depois num processo de condenação e morte. 
Esta provocação de Jesus não deixa de nos alcançar ainda hoje a cada um de nós individual e comunitariamente, na medida em que põe em evidência uma falha ou um vício em que muitas vezes caímos, o da discrepância entre o que se diz e o que se faz, o desastre da falsidade de vida.
Contudo, e é esse o desafio pedagógico de Jesus, não podemos ficar apenas nessa evidência, mas a partir dela, das constatações alcançadas, partir para uma outra atitude, para uma outra forma de vida. A verdade das nossas limitações e falhas é no âmbito da pedagogia de Jesus para que optemos e iniciemos um processo de conversão de vida.
Neste sentido, é bom que olhemos a parábola que Jesus apresenta a partir da perspectiva do pai, daquele homem que tem dois filhos e que tem um papel muito discreto, pois apenas lhes pede que saiam a trabalhar na sua vinha.
Esta discrição do pai passa por não nos ser apresentada qualquer reacção face à recusa do filho em ir trabalhar para a vinha. No seu silêncio o pai não responde à violência do filho com outra violência, não sobe o tom de voz nem contrapõe qualquer represália. À ruptura do filho, exposta na recusa, o pai não responde com a sua ruptura. Tal como o pai do filho pródigo, também este deixa ir o filho, livremente, sem censuras ou condenações.
Este silêncio do pai é contudo o grande instrumento de conversão, de alteração de atitude, pois nesse silêncio o filho descobre o amor do pai, o respeito pela sua atitude, a liberdade que o pai concede ao filho. É na desobediência que o filho descobre o pai, que descobre que aquele homem que lhe pede um serviço é alguém que o ama e respeita, mesmo na sua recusa e revolta.
Ao reconsiderar e ir trabalhar para a vinha, tal como pedido, o filho manifesta a sua filiação, reconhece que aquele homem que lhe tinha pedido um serviço é afinal seu pai. A sua atitude não é fruto de interesse ou conveniência, mas apenas de plena concordância e total acolhimento do amor do pai. A filiação pressupõe uma experiência de obediência, uma obediência vivida em consequência do amor que se experimenta, e este filho faz essa experiência.
Ao contrário do outro filho que, ainda que obediente no primeiro momento, se revela incapaz de fazer a experiência da filiação, da relação amorosa com o pai. Encerrado na sua fachada de obediência correcta mas falsa, da resposta certa para o momento certo, numa atitude calculista, abusa da confiança e respeito do pai, pois sabe de antemão que o pai o ama e nada lhe cobrará.
É esta atitude hipócrita que lhe impede de perguntar porque são os filhos enviados em lugar dos trabalhadores, o que há de importante para terem que ser os filhos a tratar; é esta atitude que o impede de dizer não, mas o obriga a tratar o pai por senhor, manifestando assim a impossibilidade de conhecer verdadeiramente aquele que é o pai.
A parábola que Jesus conta aos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo revela-nos assim que podemos cair na hipocrisia de dizer uma coisa e fazer outra, revela-nos a duplicidade e falsidade que a nossa vida pode desenvolver, mas revela-nos algo muito mais importante e significativo para a nossa relação com Deus.
O apelo a trabalhar na vinha é um convite muito especial, um convite a uma missão que não pode ser entregue aos trabalhadores, porque os servos não conhecem o seu senhor, mas que apenas é entregue aos filhos porque só eles a podem realizar, a missão da manifestação do amor do pai que radica da intimidade vivida.
Missão e manifestação que não pode deixar de ter presente as nossas faltas, as nossas limitações e fragilidades, porque como dizem os Padres do Deserto “aquele que reconhece as suas faltas é mais forte que aquele que ressuscita um morto”. É o reconhecimento da nossa mediocridade, da nossa marginalidade, que nos abre a porta da conversão, da experiência amorosa de Deus Pai.
A nossa obediência filial anda longe da perfeição, todos o reconhecemos, mas tal não nos deve impedir de ver a beleza e a alegria da missão que nos é confiada ao nos ser pedido que trabalhemos na vinha do Pai. Confortados com a compreensão do Pai procuremos realizar não os nosso interesses mas os interesses dos outros, viver com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que nos deixou o testemunho do amor do Pai na experiência da obediência.

 
Ilustração:
1 – “As vindimas”, de Max Slevogt, Museu Nacional de Varsóvia.
2 – “Os vindimadores”, de Pierre-Auguste Renoir, National Gallery of Art.

sábado, 27 de setembro de 2014

Ser luminoso

 
Esta receptividade, para ser profunda, reclama um certo espirito de pobreza. Quero dizer que para ser luminoso é necessário renunciar a ser brilhante. É neste ponto que se situa a experiência dos anjos: Satan preferiu brilhar a deixar passar em si uma luz mais alta.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 199.

Ilustração: Nascer do sol sobre o lago Leman, perto de Neuchatel.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A fé é para sempre

 
A fé é um apelo para sempre, com tudo o que o somos e o que temos.
Ginés Garcia Beltrán, Bispo de Guadix-Baza

Ilustração: A criação do homem nos frescos das abóbadas da Catedral de Lamego.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A idolatria do fazer

 
Já foram muitos os momentos e circunstâncias em que nos perguntámos, que temos que fazer, que podemos fazer. Um dos sentimentos que mais nos podem atormentar é pensar que não fizemos nada, que todo o tempo investido e todas as ilusões não deram os frutos esperados. O fazer é bom mas também se pode converter num ídolo. O melhor modo de fazer é estar.
Ginés Garcia Beltrán, Bispo de Guadix-Baza

Ilustração: Floreira junto ao cemitério de Vernier.