segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Perdoa-lhe! (Lc 17,4)

Se o teu irmão vier ter contigo, perdoa-lhe; perdoa-lhe todas as vezes que vier ter contigo arrependido.
Palavras difíceis as que nos deixa hoje o Senhor, palavras que provocam e nos desconcertam. Palavras de alguém que sabe e vive verdadeiramente o amor e por isso nos deixa este convite, para que possamos fazer a mesma experiência na nossa pobreza e finitude.
Conscientes da dificuldade e das nossas fragilidades, face à radicalidade do convite de Jesus, os discípulos pediram ao Senhor, “aumenta a nossa fé”.
Aumenta Senhor a nossa fé, para que possamos ver para além da ofensa ou do erro do outro, daquele que vem até nós, arrependido.
Aumenta Senhor a nossa fé, porque é a fé que nos faz capazes de perdão, que nos transforma em seres de perdão.
Aumenta Senhor a nossa fé, porque é ela que nos permitirá a capacidade de ser livres face ao mal.
Aumenta Senhor a nossa fé, porque só na fé te poderemos seguir no exemplo do perdão, poderemos dizer entre os tormentos da cruz, “perdoa-lhes Pai”.

 
Ilustração:
Reconciliação de Jacob e Esaú, de Peter Paul Rubens, Galeria Nacional da Escócia.

domingo, 9 de novembro de 2014

Homilia da Festa da Dedicação da Basílica de Latrão

Temos a oportunidade de celebrar neste domingo a Festa da Dedicação da Basílica de Latrão, aquela que é considerada a primeira das basílicas de Roma e a sede do Bispo de Roma.
Esta festa e os textos que a Liturgia da Palavra nos propõe dá-nos a oportunidade de olhar com um pouco mais de atenção para a nossa realidade divina, para a dimensão da habitabilidade de Deus em cada um de nós.
E não podemos deixar de ter como ponto de partida as palavras do Evangelho de São João que escutámos, nas quais o evangelista tem o cuidado de salientar que as palavras de Jesus diziam respeito ao seu corpo.
É depois de ter expulsado os vendedores do templo, manifestando desta forma um dos sinais apresentados pelo profeta Zacarias para a identificação da presença do Messias entre o povo, e questionado sobre a autoridade para tal gesto, que Jesus desafia os judeus presentes com a destruição do templo e a sua capacidade de o reconstruir em três dias.
Para uma melhor compreensão do que está verdadeiramente em causa temos que ter presente as palavras que Jesus utiliza, pois Jesus não utiliza o vocábulo “ieron”, que diz respeito a todo o conjunto edificado do templo, mas o vocábulo “naos” que diz respeito apenas ao santo dos santos, ao espaço mais secreto e sagrado do templo, no qual era apresentado o sacrifício de expiação pelos pecados do povo.
O desafio de Jesus não se coloca assim no âmbito do edificado, do material, mas no âmbito do relacional, do lugar onde a presença e o diálogo com Deus é possível, e esse lugar é o corpo do homem, é a pessoa na sua totalidade, tal como os apóstolos reconhecem depois da ressurreição e da confirmação das palavras de Jesus sobre a reconstrução do templo corpo em três dias.
Esta consciência é de tal modo assumida que São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios vai dizer que somos edifícios de Deus, templos de Deus nos quais habita o seu Espirito, dando assim ao corpo uma dimensão e uma dignidade que ainda hoje nos custa a aceitar e a viver, embora toda a nossa civilização e cultura assente no reconhecimento dessa dignidade.
Os direitos do homem, os cuidados paliativos que hoje encontramos nos hospitais, o próprio cuidado com o cadáver dos defuntos, as reivindicações pela qualidade do trabalho e pelo descanso, as convenções para os presos de guerra e tantas outras realidades, são consequência dessa atenção e dignidade que o cristianismo sempre deu ao corpo face a esta consciência da habitabilidade de Deus no homem.
Contudo, e apesar de toda a atenção e direitos, convenções e acordos, há ainda muito a consciencializar nesta questão, e sobretudo quando descemos ao dia a dia, ao nosso quotidiano, e nos deparamos com falta de atenção e violência sobre o outro nos nossos próprios ambientes, casas, escolas e trabalhos.
Quantas vezes uma resposta agressiva, uma falta de educação, um gesto violento, não denuncia esta falta de consciência de que diante de nós temos alguém no qual habita Deus, que é presença divina. Neste sentido necessitamos descobrir ou redescobrir o valor do outro, a sua dignidade natural, não só pelo facto de ser pessoa, mas pela presença do Espirito de Deus na sua humanidade.  
Por outro lado necessitamos também redescobrir ou descobrir como Deus nos oferece e faculta uma fonte de alimentação dessa divinidade, dessa dignidade divina que habita em nós, a qual pode ser alimentada pela água que corre do santuário tal como nos dizia o profeta Ezequiel.
Essa água que corre do santuário é a água e o sangue que corre do santuário que é o próprio corpo de Cristo, no qual foi aberta a nascente da vida pela lança do centurião romano no momento da morte. Essa água e esse sangue, sinais do Baptismo e da Eucaristia, transformam-nos e regeneram-nos nessa dignidade divina que nos habita, alimentam e fortalecem essa mesma dignidade.
Deste modo, ao alimentarmo-nos do corpo do Senhor, como fazemos nesta celebração, a responsabilidade de dignificarmos o nosso corpo e o corpo do outro torna-se mais urgente e necessária, pois em cada comunhão respondemos ao sacerdote que nos apresenta o Corpo de Cristo com o nosso assentimento e consentimento em sermos também nós corpo de Cristo e portanto templos vivos do Espirito de Deus.
Conscientes de que somos templos de Deus, procuremos tal como nos convida São Paulo ver como construímos o nosso templo, como somos fiéis ao alicerce sobre o qual fomos colocados, que é o próprio Cristo, e ao qual cada vez mais nos temos que configurar e assemelhar.

 
Ilustração:
1 – “Jesus expulsando os vendedores do templo”, de El Greco, National Gallery, Londres.
2 – “A Fonte da Vida”, de Colijn de Coter, Misericórdia do Porto.

sábado, 1 de novembro de 2014

Homilia da Solenidade de Todos os Santos

A Igreja celebra hoje Todos os Santos, uma solenidade para fazer memória de todos aqueles que viveram uma vida santa, mas não fazem parte do nosso calendário nem ocupam nenhum lugar nos nossos altares. É essa multidão inumerável de que nos falava a leitura do Livro do Apocalipse, a multidão que lavou as suas túnicas no sangue do cordeiro.
É uma celebração que nos convida à alegria e à esperança, uma vez que nos aponta e recorda homens e mulheres como nós, homens e mulheres que alcançaram a santidade na simplicidade do seu quotidiano, homens e mulheres que se deixaram transformar pelo amor redentor e por isso contemplam e exultam diante da face de Deus.
Neste sentido é uma celebração que nos convida a olhar para nós e a ter presente a nossa condição e o fim a que estamos destinados. Esta é a festa que nos atesta que a vida não é destruída pela morte, mas que na morte se transforma, permitindo o desenvolvimento daquilo que não é muito claro nem visível, porque é um mistério, que é a ressurreição.
E a primeira realidade que somos chamados a ter presente é a da nossa condição de filhos, tal como nos diz a Primeira Carta de São João. Somos filhos no Filho e pelo dom do Espirito Santo recebido no baptismo.
Se pelo nascimento biológico, pela lei da natureza, podemos chamar a Deus criador, fonte de vida, motor eterno, pelo baptismo temos a possibilidade de o chamar Pai, temos a possibilidade de fazer a experiência da filiação e do amor. Não somos apenas mais umas criaturas, uns seres vivos na longa cadeia da evolução que podem passar despercebidos, mas alguém querido e amado, uma pessoa criada à imagem e semelhança, desejada e amada na sua unicidade.
Por este dom da filiação no Filho amado somos também desde logo constituídos na santidade do Pai pelo dom do Espirito Santo. O baptismo faz de nós, de cada um de nós, um reflexo da santidade divina, faz-nos santos para a participação plena na santidade de Deus.
E também por esta razão a solenidade que hoje celebramos nos diz respeito a todos, uma vez que nela estamos já todos presentes na medida da fidelidade ao dom recebido, na medida da nossa santidade de vida. Hoje celebramos já a santidade que habita em nós e entre nós.
Contudo, e como todos os dons recebidos de Deus Pai, também a santidade exige um crescimento, um desenvolvimento para a plenitude. Se o baptismo é um novo nascimento, tal nascimento acontece para que a vida se vá transformando, para que a vida seja uma novidade, algo de diferente. O convite de Jesus a ser santos como o Pai é santo é assim uma invectiva a desenvolver o dom recebido, e a desenvolvê-lo de forma consciente e responsável.
Desenvolvimento que o Evangelho, através das Bem-Aventuranças, nos recorda que não se processa em experiências extraordinárias, em manifestações arrebatadas e ultraterrestres, em aspirações tresloucadas e paradisíacas.
Bem pelo contrário, e por isso hoje celebramos todos os santos, a santidade é uma realidade que se desenvolve e cresce na simplicidade do quotidiano, no coração da vida e dos seus elementos mais normais. É na humildade e na justiça, é na dor e no sofrimento, é na alegria e na paz, é na misericórdia e no perdão, é na amizade e na compreensão que a santidade se desenvolve e plenifica.
Celebrar todos os Santos é assim uma forma de a Igreja nos alertar e convidar para a nossa santidade e para a forma como ela está a crescer em nós, ou pelo contrário está a ficar atrofiada devido à nossa falta de abertura e acolhimento do dom recebido.
Ser santo é um dom de Deus, é uma oferta que nos é proporcionada, e por isso do nosso acolhimento e disposição para o fazer crescer depende a sua plena realização. Procuremos pois na vivência quotidiana das Bem-Aventuranças, na caridade para com os nossos irmãos, incarnar a santidade, fazê-la vida, confiantes e conscientes que aquele que se eleva na santidade eleva consigo todo o mundo à sua volta.

 
Ilustração: Detalhe com os Santos do “Juízo Final”, de Fra Angélico, Museu de São Marcos, Florença.

Deus é silêncio

 
Quando somos jovens não sabemos ainda que Deus escuta à porta do coração, que Ele não é nada mais que um silêncio, mas que silêncio!

Christian Bobin,
Ilustração: Espaço do Jardim de Serralves em fim de tarde de outono.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

É lícito ou não curar ao sábado? (Lc 14,3)

Ainda que convidado para a casa de um dos principais dos fariseus, Jesus não se intimida com aqueles que o rodeiam, com o estatuto social daqueles que são os seus anfitriões.
Acima de tudo está a verdade e o bem do homem, e por isso quando se depara com um hidrópico no meio dos presentes não se coíbe de colocar uma questão pertinente, antes de realizar a cura que nascera já no seu coração.
Não é que necessitasse de autorização, nunca a pedira, mas era para que o bem que ia realizar pudesse refulgir em todo o seu esplendor, pudesse chegar ao coração daqueles homens que o tinham convidado, mas que davam mais importância ao formalismo e ao rito que ao bem e ao outro.
A questão é directa, clara e sem qualquer subterfúgio, “é lícito ou não curar ao sábado”, como se o sábado pudesse ser um obstáculo à cura, à realização do bem, na medida em que interditava toda a actividade. Podia ser o sábado maior que o bem e o amor?
O silêncio dos convivas evidencia a hipocrisia, a mentira da subjugação à Lei apenas naquilo que era conveniente, porque no caso do salvamento de um filho ou de um boi já não se respeitava o preceito da inactividade. Os bens e propriedades ultrapassavam a prescrição da lei.
A cura do homem que estava doente revela assim uma vez mais o valor absoluto do homem, e o valor instrumental da Lei que está ao serviço do homem para o libertar e não para o escravizar. A lei era um instrumento de dignificação e tinha-se tornado num instrumento de tortura e sofrimento.
Tal como nos diz o Evangelho em outro momento, Jesus não veio abolir a Lei, não veio proclamar a anarquia, mas veio completar a lei, dar-lhe o sentido verdadeiro e profundo que tinha perdido no emaranhado dos preceitos e do tempo.
A Lei está feita para o homem, é um meio, um instrumento, para ajudar o homem a viver a sua condição e a sua dignidade. A lei no conjunto dos mandamentos e preceitos é uma manifestação da fundamental lei do amor e um meio para o desenvolvimento desse amor.
Deus é amor, e por isso amar antes de mais e agir segundo o amor é o princípio que deve presidir a toda a regulamentação e a toda a actividade.

 
Ilustração: “A crua do hidrópico”, fresco na Catedral de Tsalenjikha, Geórgia.      

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Jesus escolheu doze entre eles. (Lc 6,13)

Após uma noite passada em oração, Jesus chamou os discípulos e escolheu doze de entre eles. Missão difícil, uma vez que toda e qualquer escolha representa sempre um risco, uma aposta num desconhecido.
Jesus não sabe de antemão qual o futuro da sua escolha, os resultados da eleição que realiza entre os seus discípulos e seguidores. Cada um é um mundo, e um mundo no qual a liberdade pode alterar toda a expectativa e esperança.
Tal como nós, Jesus sabe que os discípulos esperam e desejam um Messias vencedor, alguém que provoque a alteração necessária à mudança de vida. Estas aspirações vão estar presentes no seguimento e vão marcar a relação mesmo depois da morte na cruz.
Contudo, o caminho e o processo de seguimento dos discípulos é igual ao nosso, uma vez que todos os caminhos devem passar pela cruz e pela aceitação do aniquilamento do Mestre, pois só dessa forma se poder aceder a uma outra compreensão da missão de Jesus, da nossa própria missão.
A escolha de Jesus passa pela cruz e portanto essa escolha é também o sinal de marca que determina todos aqueles que o seguem. Seguir com a cruz é o apelo e o convite deixado por Jesus a todos os que escolhe.
Demasiada loucura, ou extraordinário amor, porque tomar a cruz, qualquer cruz, e seguir em frente é colocar-se nas mãos de um outro, significa entregar-se à fragilidade e limitações próprias e confiar, confiar sempre que não se está só.
A experiência e a cruz de Jesus mostram-nos que nesta fraqueza e debilidade, quando caímos sob o peso da cruz, o Senhor da cruz nos levanta, pois estamos nas suas mãos, estamos guardados pelo seu amor e nesse amor Ele não abandona nenhum daqueles que chamou e em quem confiou.
Eleitos de Deus, objectos de um amor incondicional, procuremos levar a cruz, confiantes que ela é já carregada por alguém que nos precede, que a leva connosco e por nós quando nos faltam as forças.

 
Ilustração: “O Apóstolo Simão”, de Anthony van Dyck, J. Paul Getty Museum.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Mulher estás livre! (Lc 13,12)

 
Jesus encontra-se na sinagoga a ensinar e sem que nada o tenha previsto aparece por lá uma mulher curvada, uma mulher enferma havia já dezoito anos. É uma mera coincidência, a mulher vem apenas pela sua rotina, no cumprimento dos seus preceitos religiosos.
Colocando nela os olhos Jesus toma a iniciativa de a chamar e de a livrar da enfermidade, sem lhe perguntar da sua disposição ou vontade. É Jesus que toma a iniciativa, pois no seu amor não pode suportar o sofrimento do outro, não pode ver humilhada aquela mulher curvada sobre si mesma.
O milagre e a cura provocam a indignação do chefe da sinagoga, perturbado pela quebra do protocolo instituído, mas provocam na multidão uma grande alegria pela maravilha realizada. A multidão no seu anonimato e pobreza percebe a novidade, percebe a libertação e a nova vida que é possibilitada àquela mulher.
Sem que o saiba, a multidão partilha da alegria celeste, da alegria que brota do processo de libertação que ocorre com toda a humanidade e de que aquele milagre é apenas mais um testemunho, mais um sinal.
Naquela mulher Jesus manifesta a libertação da humanidade, manifesta a elevação de todos os homens e mulheres, que a partir do mistério da redenção pode já olhar Deus de olhos nos olhos, de frente, pois foi-lhe restituída a dignidade da semelhança.
A alegria da multidão deve ser assim a nossa alegria, pois sabemo-nos libertados; e sabemos também que nenhuma lei, nenhum preceito ou obrigação ainda que religiosa se pode interpor ou impedir a manifestação do amor de Deus por todos nós.

 
Ilustração: “Cura da mulher ao sábado”, iluminura de Matthias Gerung na Bíblia Ottheinrich.