Temos a oportunidade
de celebrar neste domingo a Festa da Dedicação da Basílica de Latrão, aquela
que é considerada a primeira das basílicas de Roma e a sede do Bispo de Roma.
Esta festa e os textos
que a Liturgia da Palavra nos propõe dá-nos a oportunidade de olhar com um
pouco mais de atenção para a nossa realidade divina, para a dimensão da
habitabilidade de Deus em cada um de nós.
E não podemos deixar
de ter como ponto de partida as palavras do Evangelho de São João que escutámos,
nas quais o evangelista tem o cuidado de salientar que as palavras de Jesus
diziam respeito ao seu corpo.
É depois de ter
expulsado os vendedores do templo, manifestando desta forma um dos sinais
apresentados pelo profeta Zacarias para a identificação da presença do Messias
entre o povo, e questionado sobre a autoridade para tal gesto, que Jesus
desafia os judeus presentes com a destruição do templo e a sua capacidade de o
reconstruir em três dias.
Para uma melhor
compreensão do que está verdadeiramente em causa temos que ter presente as
palavras que Jesus utiliza, pois Jesus não utiliza o vocábulo “ieron”, que diz
respeito a todo o conjunto edificado do templo, mas o vocábulo “naos” que diz
respeito apenas ao santo dos santos, ao espaço mais secreto e sagrado do
templo, no qual era apresentado o sacrifício de expiação pelos pecados do povo.
O desafio de Jesus não
se coloca assim no âmbito do edificado, do material, mas no âmbito do
relacional, do lugar onde a presença e o diálogo com Deus é possível, e esse
lugar é o corpo do homem, é a pessoa na sua totalidade, tal como os apóstolos
reconhecem depois da ressurreição e da confirmação das palavras de Jesus sobre
a reconstrução do templo corpo em três dias.
Esta consciência é de
tal modo assumida que São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios vai dizer que
somos edifícios de Deus, templos de Deus nos quais habita o seu Espirito, dando
assim ao corpo uma dimensão e uma dignidade que ainda hoje nos custa a aceitar
e a viver, embora toda a nossa civilização e cultura assente no reconhecimento
dessa dignidade.
Os direitos do homem,
os cuidados paliativos que hoje encontramos nos hospitais, o próprio cuidado
com o cadáver dos defuntos, as reivindicações pela qualidade do trabalho e pelo
descanso, as convenções para os presos de guerra e tantas outras realidades,
são consequência dessa atenção e dignidade que o cristianismo sempre deu ao
corpo face a esta consciência da habitabilidade de Deus no homem.
Contudo, e apesar de
toda a atenção e direitos, convenções e acordos, há ainda muito a
consciencializar nesta questão, e sobretudo quando descemos ao dia a dia, ao
nosso quotidiano, e nos deparamos com falta de atenção e violência sobre o
outro nos nossos próprios ambientes, casas, escolas e trabalhos.
Quantas vezes uma resposta
agressiva, uma falta de educação, um gesto violento, não denuncia esta falta de
consciência de que diante de nós temos alguém no qual habita Deus, que é
presença divina. Neste sentido necessitamos descobrir ou redescobrir o valor do
outro, a sua dignidade natural, não só pelo facto de ser pessoa, mas pela
presença do Espirito de Deus na sua humanidade.
Por outro lado
necessitamos também redescobrir ou descobrir como Deus nos oferece e faculta
uma fonte de alimentação dessa divinidade, dessa dignidade divina que habita em
nós, a qual pode ser alimentada pela água que corre do santuário tal como nos
dizia o profeta Ezequiel.
Essa água que corre do
santuário é a água e o sangue que corre do santuário que é o próprio corpo de
Cristo, no qual foi aberta a nascente da vida pela lança do centurião romano no
momento da morte. Essa água e esse sangue, sinais do Baptismo e da Eucaristia, transformam-nos
e regeneram-nos nessa dignidade divina que nos habita, alimentam e fortalecem
essa mesma dignidade.
Deste modo, ao
alimentarmo-nos do corpo do Senhor, como fazemos nesta celebração, a
responsabilidade de dignificarmos o nosso corpo e o corpo do outro torna-se
mais urgente e necessária, pois em cada comunhão respondemos ao sacerdote que
nos apresenta o Corpo de Cristo com o nosso assentimento e consentimento em
sermos também nós corpo de Cristo e portanto templos vivos do Espirito de Deus.
Conscientes de que
somos templos de Deus, procuremos tal como nos convida São Paulo ver como construímos
o nosso templo, como somos fiéis ao alicerce sobre o qual fomos colocados, que
é o próprio Cristo, e ao qual cada vez mais nos temos que configurar e
assemelhar.
Ilustração:
1 – “Jesus expulsando
os vendedores do templo”, de El Greco, National Gallery, Londres.
2 – “A Fonte da Vida”,
de Colijn de Coter, Misericórdia do Porto.