domingo, 25 de janeiro de 2015

Homilia do III Domingo do Tempo COmum

A sequência das leituras que a Liturgia da Palavra nos oferece hoje segue uma lógica que nos conduz à mensagem de Jesus, a esse convite à conversão, porque o Reino está já no meio de nós, e portanto exige uma outra atitude, uma transformação da nossa vida, um seguimento em ordem à descoberta do nosso fim último.
Neste sentido o Evangelho mostra-nos como Jesus permanece na sintonia de João depois de este ter sido preso, uma vez que continua a pregação e o convite à conversão. Jesus prossegue a missão profética, já exercitada por Jonas de apelar à conversão, de apelar a uma mudança de vida.
Contudo, a prisão de João coloca em evidência esse culimar do tempo de espera, um fim de época, a eminência do novo tempo, em que algo mais é necessário que uma atitude de conversão. Não basta já apenas mudar de vida, é necessário acreditar e acreditar que aquele Jesus é a proximidade mais concreta e real do Reino de Deus.
Talvez por esta razão, imediatamente ao anúncio da mensagem de Jesus, o Evangelista São Marcos narra-nos a vocação dos quatro primeiros discípulos, os quais seguem Jesus depois de este os ter chamado.
Relato de um situação paradoxal, pois nada nos diz que houvesse qualquer conhecimento prévio, qualquer intimidade ou familiaridade, que possibilitasse a resposta imediata e inquestionável daqueles quatro homens. Ao apelo de Jesus deixam tudo e seguem o Mestre sem qualquer reserva ou questionamento, o que não deixa de nos surpreender.
Esta liberdade e prontidão no seguimento de Jesus são-nos no entanto explicadas e justificadas nas pessoas de Tiago e João que deixam o pai com os assalariados a concertar as redes da pesca.
De certa forma os dois filhos encontravam-se na mesma situação dos assalariados, dos trabalhadores que não deixavam de ser estranhos. Ao deixarem o pai com as redes junto ao barco e ao seguirem Jesus entram numa lógica relacional completamente diferente, pois deixam uma relação remunerada e recompensada, ainda que paternal, para desenvolverem uma relação filial livre e sem contrapartidas.
É a partida para uma experiência nova, completamente livre, inusitada, que se expressa para Pedro e André numa pesca de homens, numa pesca completamente desconhecida e extraordinariamente fora de qualquer comparação. Seguir aquele Jesus que se apresenta ali é uma atitude verdadeiramente radical, uma atitude de fé, mas uma atitude de fé que se explicita em gestos concretos.
Face a esta atitude paradoxal, os quatro primeiros discípulos adequam-se ao que São Paulo recomenda aos Coríntios, ou seja, que a transitoriedade e a precaridade deste mundo exigem um desprendimento de todas as realidades ao mesmo tempo que exigem uma ancoração fundamental na pessoa e verdade de Jesus Cristo.
As palavras de São Paulo aos Coríntios, bem como o desprendimento dos discípulos face às realidades que conheciam e dominavam são para nós um convite a um exame de consciência sobre a forma como reagimos aos acontecimentos do mundo, à forma como absolutizamos ou não as realidades que compõem a nossa vida. Estamos demasiado presos ao que nos é conhecido, aprisionados na nossa zona de conforto?
A história de Jonas, que escutávamos na Primeira Leitura, vem ajudar-nos a sair dessa zona de conforto e a ter uma atitude mais liberal, mais desprendida, pois ajuda-nos a perceber que na medida em que saímos dessa prisão, que na medida em que nos colocamos em atitude de conversão e mudança de vida, o próprio Deus vem ao nosso encontro, vem em nosso favor.
Para os habitantes de Nínive à sua mudança de vida correspondeu o perdão de Deus, mas para nós a uma mudança de vida, a qualquer conversão, corresponde a entrada numa órbita de filiação, de uma outra relação de amor mais profunda e intensa.
Relação profunda e intensa que se vai desenvolvendo, que se vai construindo, que não é dada à partida, mas que se vislumbra apenas no inusitado da proposta e na graça atractiva daquele que nos chama a seguir e a arriscar. Realizá-la em plenitude é portanto o programa de toda uma vida.      
Procuremos pois dispor-nos a acolher o convite e apesar do desconhecido a responder-lhe de oração aberto, seguindo aquele que nos chama e atrai com tanto amor.

 
Ilustração:
“O Chamamento de Pedro e André”, de Duccio di Buoninsegna, National Gallery of Art, Washington.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Homilia do II Domingo do Tempo Comun

As leituras que escutámos na Liturgia da Palavra são extremamente ricas e poderiam levar-nos muito longe em propostas de reflexão e de acção. Por essa razão, vamos centrar a nossa atenção na leitura do Evangelho de São João, nesta narração das primeiras vocações dos discípulos de Jesus, uma narração ricamente detalhada, e na qual nos encontramos todos presentes nesse companheiro de André que igualmente segue Jesus mas não é identificado pelo autor do Evangelho.
Neste sentido, é bom que tenhamos presente, antes de mais, que as primeiras palavras proferidas por Jesus no Evangelho de São João são essa questão colocada aos dois discípulos do baptista que o seguiam: “Que procurais?”
É uma que pergunta que desconcerta, que interpela e obriga a ter uma resposta, ou a procurar uma resposta, mas é igualmente uma pergunta que revela a nossa própria realidade, de certa forma a nossa natureza, somos homens e mulheres em busca, à procura.
Por outro lado, e colocada no início do Evangelho, no início da narração da vida pública de Jesus, é uma questão que nos induz a encontrar uma resposta em tudo o que vamos descobrir e ler na narração do Evangelho. No final do Evangelho deveríamos saber o que procuramos, ou pelo menos ter alguma luz no sentido da busca que nos habita.
Em resposta à questão colocada por Jesus, confrontados com a sua busca iniciada já na companhia de João Baptista nas margens do Jordão, os discípulos respondem querer saber onde mora aquele que lhes tinha sido indicado como o Cordeiro de Deus.
Não podemos acreditar que se tratasse da sua morada terrestre, do seu domicílio fiscal como hoje se diz, possivelmente já saberiam onde Jesus vivia e por isso o autor do Evangelho não se demora em pormenores sobre a habitação conjunta nesse dia, mas tratava-se de saber da habitação que lhe permitia ser o Cordeiro de Deus, ter a identidade que João tinha apontado nas margens do Jordão.
Neste sentido a demanda e a busca dos discípulos prende-se com uma realidade que o Evangelho vai desenvolver e revelar, mas que está já presente no prólogo que o autor escreve ao Evangelho. O Verbo habita no seio do Pai, essa é a sua verdadeira morada e é nela que os discípulos estão interessados e cada um de nós deve estar interessado. A busca e a questão dos discípulos é assim uma questão de conhecimento do caminho da vida, de conhecimento do caminho que permite essa habitabilidade no seio do Pai.
Mas se a morada do Verbo é no seio do Pai, também não é menos verdade que esse mesmo Verbo se fez carne da nossa carne, veio habitar na nossa natureza humana, reconfigurando-a na sua capacidade de ser habitação de Deus. Assim sendo, se fundamentalmente devemos buscar a habitação que nos é natural, o seio do Pai, não podemos passar ao lado da habitação precária que Deus estabelece em nós quando pela presença do Espirito Santo nos transforma em templos seus.
Por esta razão São Paulo chama a atenção dos Coríntios para a imoralidade em que viviam, uma imoralidade que afectava o corpo enquanto templo da presença de Deus, mas que afectava também o mistério da incarnação pois “o Senhor era para o corpo”, e portanto todos os que estavam ligados pela fé ao Senhor partilhavam a mesma dignidade e santidade do corpo do Senhor.
Esta dignidade e santidade não deixam de nos desafiar na forma como nos relacionamos com o nosso corpo e com o corpo do outro, que não são instrumentos de prazer, nem produtos de consumo, mas verdadeiramente matéria divina, como diz São Paulo, membros vivos do Corpo de Cristo.
Conscientes desta realidade e dimensão divina da nossa corporeidade, da nossa matéria que um dia será reduzida ao pó da terra, somos chamados a escutar o que o Senhor nos quer dizer cada dia neste mesmo corpo e nos corpos dos nossos irmãos.
Nesta habitação precária de Deus somos convidados a fazer a experiência do seio divino, do seio materno, a tornar vivo e verdadeiramente encarnado o amor de Deus no amor dos irmãos.
Que à Palavra e chamamento do Senhor nosso Deus saibamos todos responder como Heli disse a Samuel para responder: “Falai Senhor que o vosso servo escuta!”

 
Ilustração:
“Vocação de Santo André e São João”, de James Tissot, Brooklyn Museum.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Homilia da Solenidade da Epifânia do Senhor

Neste primeiro domingo do ano novo o calendário litúrgico convida-nos a continuar a celebrar o grande acontecimento do Natal através desta Solenidade da Epifânia do Senhor. É uma celebração cheia de alegria e de esperança, de uma redobrada alegria e esperança, pois como nos recordava a Carta de São Paulo aos Efésios, o mistério de Cristo foi revelado e oferecido tanto ao povo eleito dos judeus como aos gentios de todas as nações.
Os Magos, de que nos falava o Evangelho de São Mateus, são as personagens evangélicas que prefiguram estes gentios de todas as nações de que fala São Paulo, mas são também as personagens que nos representam na busca do absoluto, uma busca que nos pode levar muito longe, mas que tal como acontece com os Magos não pode deixar de nos reconduzir à nossa própria casa.
Neste sentido é significativo termos presente como os magos se deslocam do oriente para seguir uma estrela que nascera a oriente, manifestando-nos assim que para além do oriente, daquilo que se considera o princípio, a terra dos sonhos, há um outro princípio e um outro sonho que nos pode conduzir para além do insuspeitável.
Poderíamos dizer que a estrela nascida a oriente é assim uma manifestação do próprio princípio criador, da fonte de toda a luz, que conduz os Magos como conduz os homens ao encontro da verdadeira sabedoria, plasmada no Deus que se faz homem.
Os Magos representam-nos também nas dificuldades desta caminhada, desta peregrinação em busca da luz, dificuldades tantas vezes experimentadas em desencontros, como o que eles viveram quando se abeiraram de Jerusalém e se confrontaram com uma elite centrada em si própria, nos conhecimentos que possuía e que a impossibilitava de se abrir à novidade.
Contudo, se esta peregrinação acontece, e nela os desencontros são inevitáveis, tal como nos conta São Mateus no Evangelho, é para nos colocar diante da verdadeira missão que está destinada a estes homens vindos do Oriente e a todos nós que temos sede de absoluto.
Diante da novidade da sua presença em Jerusalém e face ao questionamento da sua vinda, não podemos deixar de olhar com atenção a sua resposta, pois os Magos vieram em busca do menino rei para o adorar. Esta é a sua grande missão.
Os Magos não vinham em busca de um conhecimento extraordinário, de uma novidade do “prime-time” de qualquer telejornal, não pretendiam mais uma experiência fantástica no seu curriculum, mas vinham para adorar o menino. Todo o seu esforço, toda a sua caminhada, o saírem do seu conforto, os perigos que tinham corrido, visava apenas poder adorar o menino que tinha acabado de nascer.
Este é afinal o desafio que se coloca a todos nós, a todos aqueles que buscam o absoluto e a fonte de toda a luz. Desafio tanto mais radical, quanto mais somos confrontados com um menino deitado numa manjedoura, uma criança indefesa e sem qualquer poder, na qual descobrimos uma força e um poder que não são deste mundo.
Realidade inimaginável para os homens, uma vez que patenteia uma revolução na forma como Deus se apresenta, pois Deus deixa de estar nos céus estrelados e faz-se carne da carne dos homens, deixa de vencer as batalhas pelas armas da força, mesmo as da natureza, e vence-as pela força do amor e da fidelidade.
A manifestação divina, a Epifânia que acontece assim na viagem e encontro dos Magos com o menino deitado numa manjedoura, é assim a manifestação do poder e da presença divina na nossa humanidade, na nossa natureza humana. Manifestação que obrigatoriamente conduz os Magos de regresso por outro caminho, ou seja, pela certeza que não é necessário ir muito longe para encontrar a presença de Deus, porque afinal ela está em toda a natureza humana, encontra-se na nossa casa mais natural.
A adoração prestada ao menino através do ouro, do incenso e da mirra, é assim a adoração cuidadosa que é devida a todo o homem e mulher, templos que são da presença de Deus, uma adoração que não devemos descuidar nem connosco nem com aqueles que partilham a nossa mesma condição. O mistério da Epifânia do Senhor a todos os povos coloca-nos assim a todos na mesma órbita de humanidade e divinidade.
Procuremos pois na fragilidade da nossa natureza humana cuidar a presença e a manifestação da presença divina.

 
Ilustração:
“A Adoração dos Reis Magos”, de Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição

Celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição, uma festa litúrgica que surge na consequência da proclamação do dogma da Imaculada Conceição em 1854, mas cujo sentido é já bastante antigo, é património da fé da Igreja desde que esta assume Maria como Mãe de Deus. O dogma e a fé na imaculada concepção de Maria está intimamente associada ao dogma e à fé de que Maria é Mãe de Deus.
Tal formulação não significa a constituição de um panteão divino, de uma geografia divina à semelhança do que acontecia com os mundos e religiões romana e gregas. Não se trata da confecção de uma deusa para uma família divina completamente dominada por figuras masculinas.
A Virgem Maria na sua maternidade divina e na sua imaculada concepção é a perfeita participação num mistério que se desenvolve num abaixamento, no aniquilamento, que conduz posteriormente à elevação e à glória. Deus desce até aos homens, incarna no seio de uma mulher, para que os homens possam ser elevados à sua dignidade divina.
Ao participar neste mistério, neste processo revolucionário, Maria assume a sua pequenez, a sua condição de colaboradora, para que o mistério se desenvolva, mas ao fazê-lo adquire a sua notoriedade, eleva-se pela acção de que é participante.
Há em nós uma tendência inata para opor estes dois movimentos, pois o que desce, o que se abaixa, não pode estar a elevar-se. Contudo, no mistério da revelação e da nossa redenção, na economia da salvação, um movimento não acontece sem o outro, eles estão intrinsecamente ligados, produzindo o abaixamento a elevação.
O Verbo ao fazer-se homem desce até à condição humana, aniquila-se na sua condição divina, mas é esta descida e aniquilamento que permitem o reconhecimento da sua natureza divina. É o Filho que se faz homem e perante tal movimento o Pai não pode deixar de exaltar o Filho.
A Virgem Maria participa deste movimento e deste aniquilamento, é a matéria mãe em que se gera a incarnação do Verbo, e portanto é também ela exaltada na exaltação do Filho, participa da sua glória, e de certa forma por antecipação na imaculada conceição, na preparação que Deus opera para que possa realizar a missão a que é convidada.
Com tal acção Deus não nos afasta Maria da nossa relação, nem da nossa condição humana, não a eleva a um patamar divino acima dos outros homens, mas bem pelo contrário, coloca-a bem próxima, o mais próximo possível de todos, porque ao estar preservada do pecado, que é a grande barreira que separa os homens, Maria está próxima de todos.  
Neste sentido a nossa fé e a nossa devoção a Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, não pode deixar de passar por um seguimento na sua atitude de humildade, nesse acolhimento da oferta de Deus, que não nos escraviza nem empequenece, mas pelo contrário nos eleva a uma proximidade insuspeita de Deus e dos irmãos.
Não é fácil acolher este movimento de humilde abaixamento, uma vez que frequentemente estamos centrados na nossa satisfação, nos nossos planos e na glória que esperamos das nossas acções. Vivemos centrados em nós e tal centralidade impede-nos de acolher a novidade descentralizante de Deus que nos exalta e glorifica.
A celebração da Solenidade da Imaculada Conceição oferece-nos a oportunidade de pelo menos uma vez por ano nos apercebermos como ser pequeno e humilde é a via para a exaltação, para a glória, de tomarmos consciência de como cada gesto de acolhimento da vontade de Deus revela a graça que habita em nós.
Diante da tua presença e do teu dom, Senhor, que humildemente se faça em nós a tua vontade.

 
Ilustração:
“Imaculada”, atribuída a Diego Velásquez, Sevilha, Centro de Investigações Diego Velásquez:

domingo, 23 de novembro de 2014

Homilia da Solenidade de Cristo Rei

Celebramos a Solenidade de Cristo Rei, último domingo do ano litúrgico, mas ao fazê-lo somos convidados a olhar o início, o acontecimento que dentro de uma semana começaremos a preparar com o Advento.
No final do ciclo litúrgico contemplamos o Rei da Glória, um Rei que nos foi apresentado no início do ciclo litúrgico deitado numa manjedoura, pobre e indefeso, exposto e oferecido a todos os homens capazes de baixar o olhar até ele.
Contudo, já nessa pobreza e simplicidade o anjo Gabriel nos anunciava a grandeza e realeza desse menino, a glória que hoje celebramos, pois no anúncio da concepção divina, é dito a Maria que este menino será grande e que o seu reinado não terá fim.
Ao longo do ano, nas diversas leituras e festas, esta realeza foi sendo iluminada, apresentada aos nossos olhos, ainda que não do modo grandioso como aspiramos na nossa condição humana, mas bem pelo contrário de uma forma completamente subversiva e revolucionária, pois se os senhores do mundo se servem e exploram os outros, no reino de Jesus tal não deve acontecer, entre os seus discípulos e filhos não deve ser assim.
Neste sentido, e como não podia deixar de ser após um ano de preparação, as leituras desta Solenidade colocam-nos face à extraordinária realeza que Jesus vive e que nos oferece a cada um de nós, pois pelo baptismo somos profetas, sacerdotes e reis com ele e nele.
A imagem do rei que é pastor, que nos apresentava o profeta Ezequiel, é assim desde logo uma imagem bastante sugestiva, uma vez que nos mostra a solicitude e a ternura deste rei. É uma imagem que se opõe à concepção e imagens que nos são dadas por aqueles que vivem nos centros de poder e nos palácios de governação.
O rei que é pastor é alguém que é próximo, que não só está no meio do povo, do seu rebanho, mas que se compromete com ele, que tem uma acção directa no sentido da sua protecção e desenvolvimento. É um rei que não foge quando o rebanho é atacado, que não é cobarde, mas que está presente e defende, e é capaz de dar a sua própria vida pela salvação e bem-estar do seu rebanho.  
Este rei pastor manifesta a sua realeza suprema nessa capacidade de dom, de entrega, de dar a sua vida pelo rebanho e pelo povo, manifesta a sua realeza suprema no amor que tem pelos seus, pois sabe que o amor não pode morrer, que nada vencerá o amor, tal como é cantado pela amada no Cântico dos Cânticos.
E Jesus encarnou este amor e manifestou a sua realeza gloriosa não só quando veio habitar entre os homens, quando se fez homem como os homens excepto no pecado, mas sobretudo quando se ofereceu ao Pai em sacrifício por todos os homens seus irmãos, para os poder resgatar do poder da morte. Por esta razão a Igreja desde sempre canta a cruz como o grande trono de glória de Jesus Cristo, como o lugar por excelência da manifestação da realeza de Jesus.
Mas se esta glória é manifestada, se Jesus assume algum poder executivo, usando linguagem do mundo, não é para exaltação pessoal, mas bem pelo contrário, e como nos diz a leitura da Carta de São Paulo aos Coríntios, para que depois de aniquilada toda a soberania, autoridade e poder, tudo seja entregue ao Pai.
O Filho que é Jesus está assim em missão e é na realização dessa missão que manifesta a sua realeza, pela fidelidade e pela entrega da sua vontade à plena realização do plano e da vontade do Pai. É no serviço ao Pai que Jesus se manifesta como rei e manifesta o seu poder real.
Neste sentido a nossa participação na sua realeza, a manifestação da nossa condição real e divina, passa pelo serviço, e tal como nos apresenta o Evangelho, por um serviço que não nos ultrapassa e do qual não nos podemos escusar nem desculpar, pois compõe-se de tarefas tão simples como dar um copo de água, ou visitar outra pessoa que necessita.
Pela leitura do Evangelho, e diante do julgamento a que todos seremos sujeitos no fim dos tempos como o Evangelho nos apresenta, percebemos que o critério utilizado para a participação na glória do Reino não é a proclamação da fé, o dizer “Senhor, Senhor”, mas o exercício dessa fé em obras de caridade, em obras que manifestam a habitação do divino em nós e entre nós.
E uma vez mais somos obrigados a olhar para o menino da manjedoura, imagem dos sem poder e sem voz, dos indefesos e necessitados, dos pequeninos de que nos fala o Evangelho e nos quais o Senhor se nos apresenta e desafia no acolhimento e no amor, no desenvolvimento da nossa realeza.
Ao terminarmos um ano litúrgico, ao contemplarmos como a realeza e a glória de Jesus acontece no serviço, na entrega aos mais frágeis, aos homens que somos pecadores, procuremos desenvolver gestos e palavras que nos coloquem verdadeiramente na senda do nosso Salvador, procuremos fazer-nos pequenos para acolher o dom que o Senhor nos faz e na alegria do dom recebido partilhá-lo com os nossos outros irmãos.

 
Ilustração:
1 – “O Filho de Deus”, de Viktor Vasnetsov, Catedral de São Vladimir, Kiev.
2 – “Jesus com uma família de camponeses”, de Fritz von Uhde.

domingo, 16 de novembro de 2014

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum

Estamos no penúltimo domingo do ano litúrgico, no próximo domingo celebraremos a Festa de Cristo Rei, e as leituras que a Liturgia da Palavra nos oferece estão marcadas por essa nota de final dos tempos, pela nota da vinda do Senhor, dada de modo particular pela leitura da Carta de São Paulo aos Tessalonicenses.
É uma carta na qual São Paulo tem que afrontar este tema porque a comunidade cristã de Tessalónica vivia na apreensão dessa vinda, desse tempo indefinido. Há uma preocupação que limita os comportamentos e a fidelidade e São Paulo vê-se obrigado a clarificar a situação.
Neste sentido São Paulo chama a atenção para a verdadeira questão que se coloca, pois o problema não é o quando, o momento exacto da vinda, poderíamos dizer a problemática temporal, mas o estado em que tal vinda nos encontrará, a problemática ontológica, o nosso estado de ser cristão.
E a parábola dos talentos que Jesus conta aos seus discípulos, e que escutámos no Evangelho, ajuda-nos a compreender como de facto o problema não se coloca no tempo mas no estado em que nos encontramos, pois o Senhor vem inevitavelmente para ajustar contas e necessitamos ter alguma coisa para lhe devolver.
E ter alguma coisa para devolver significa que se acolheu o dom, que se acolheu os talentos recebidos, fossem eles muitos ou poucos, e que se acolheram para nos fazer participantes da casa do senhor, herdeiros com ele.
Compromisso que o terceiro servo da parábola não percebeu e por isso nos aparece como o exemplo pela negativa, como aquele que não deve ser seguido, pois ao enterrar o talento estava a recusar o dom do seu senhor, estava a negar-se à participação na casa e património do senhor.
Para que não ficasse qualquer dúvida, e para que percebêssemos como podemos incorrer no mesmo erro, a parábola faz-nos um percurso pelos sentimentos do servo que recebeu apenas um talento, apresenta-nos uma fotografia psicológica, denunciando dessa forma a imagem e o conceito que o servo tinha do seu senhor.
É o medo, o juízo preconceituoso sobre a acção do seu senhor, que recolhe onde não semeia, que leva o servo ao desastre, que inviabiliza o acolhimento do dom que lhe é feito, contrariamente aos outros dois servos que não têm qualquer preocupação, dedicando-se por isso apenas a trabalhar para que o recebido frutifique.
Desta forma, e com este espirito de liberdade, quando o senhor chega para ajustar contas, nada é reclamado, nem o recebido nem o frutificado, mas tudo é deixado àquele que se apresenta para prestar contas, razão pela qual pode participar e partilhar da alegria do seu senhor. O senhor não recupera os seus talentos nem o rendimento alcançado, mas tudo é deixado àquele a quem foi confiado para que possa participar da alegria do senhor e usufruir do património, ser herdeiro com o seu senhor.
A vinda do senhor não é assim para julgar, para condenar, mas para constatar da fecundidade de cada um dos seus servos, fecundidade que é já por si participação na alegria e património do senhor. O que está em causa não é assim a eficácia mas a fidelidade, o acolhimento dos dons e talentos de forma responsável.
A parábola dos talentos abre-nos desta forma um horizonte de esperança, uma vez que cada talento e a sua rentabilização é um compromisso com o projecto de salvação, é ter a certeza que Deus salva, mas que nessa salvação não prescinde da nossa participação, do nosso compromisso com esse desejo.
E este compromisso é vivido, ou pode ser vivido, segundo a forma como a mulher do Livros dos Provérbios vive a sua condição de mulher virtuosa, ou seja através da confiança que gera nos outros, do trabalho alegre, da caridade para com os necessitados e do temor de Deus.
São pequenas realidades do nosso dia-a-dia que nos desafiam na fidelidade e na fecundidade, sobretudo a caridade que é o mais rentável de todos os dons e talentos, pois tal como diz São Gregório Magno, quem possui a caridade possui todos os outros dons, e àquele que a tem ainda mais lhe será dado.
Procuremos pois acolher os dons que o Senhor nos oferece, mas sobretudo o dom que é ele próprio e que nos fará apresentar um fruto e um rendimento que permanece para sempre.    

 
Ilustração:
1 – “A parábola dos talentos”, de Andrey Mironov.
2 – Gravura da Parábola dos Talentos, da Historiae Celebriores Veteris Testamenti Iconibus.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Fizemos o que devíamos fazer! (Lc 17,10)

É inquestionável que há dever e dever. Existe aquele dever a que estamos obrigados, que nos é imposto por outrem, muitas vezes até mesmo contra a nossa vontade, mas existe também o dever que é consequência do nosso amor, do sentimento de felicidade a que nos conduz.
Jesus, a quem os discípulos chamavam mestre, define-se frequentemente como o servo, como aquele que veio para servir, não por uma norma ou força exterior a si próprio, mas por amor, pela sua livre vontade de servir e entregar a vida pelos homens.
As palavras de Jesus relativamente ao servo que, mesmo depois de um dia de trabalho, é chamado a servir o seu senhor, mostra-nos que servir é dar, é cumprir as obrigações, mas é também dar-se, fazer-se dom e vida para os outros.
Frequentemente desejamos escolher a forma de servir os outros, os deveres que nos são impostos ou que nos impomos, desejamos fazer a nossa obediência, procuramos um serviço que nos prestigie ou nos dê alguma notoriedade.
E desta forma esquecemos que, à força de querer fazer as obras de Deus, de querer fazer o que achamos bem, de querer servir de acordo com os nossos critérios ou interesses, deixamos de fazer a obra de Deus, o que Deus verdadeiramente nos pede que façamos lá ou cá, onde nos encontramos.
Com a nossa vontade e os nossos critérios corremos igualmente o risco de servir a Deus com o que não somos e não temos, quando a verdadeira grandeza do serviço é servir com o que temos e somos, onde estamos.
Com humildade e amor aceitemos o serviço que o Senhor nos destinou, confiantes que é aí que somos chamados a fazer o que devemos fazer.

 
Ilustração:
“O servo de Isaac colocando a pulseira no braço de Rebeca”, de Benjamin West, Colecção Particular.