segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quando é que te vimos irmão pequenino, Senhor? (Mt 25,37)

Nesta manhã de inverno um tom de cinza cobre o firmamento; dos ramos despidos dos velhos plátanos da avenida as gotas de chuva tombam grossas sobre o vidro do carro. No passeio alguns transeuntes, homens e mulheres que acorrem aos seus postos de trabalho, mas antes têm que deixar os filhos no colégio.
Que azáfama logo de manhã, e com este tempo tão pouco convidativo a qualquer movimento. Uma irritação aflora nos movimentos, pois o filho parece não perceber que a chuva mansinha o molha e o coloca novamente em perigo face à gripe. O guarda-chuva parece que encravou e um pensamento negativo fulmina a mente.
Vamos passando, uns e outros, transeuntes de passeio, fechados nos nossos abrigos e escondidos sob os nossos guarda-chuvas, e a pobre mãe aflita porque o tempo urge e o filho ainda quer o brinquedo que está no assento de trás do carro.
Quando o fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos a mim o fizestes, diz o Senhor! E contudo não vemos o irmão mais pequenino, nem na criança, nem na mãe, nem na idosa que carrega o seu saco pesado de compras, e muito menos na pessoa que temos diante de nós no balcão do nosso serviço de atendimento.   
Hoje, e ainda que seja apenas hoje, vou elevar o guarda-chuva, vou soltar o botão da gabardina, vou abrir o coração e estender a mão ao irmão mais pequenino que Deus coloca diante de mim, no meu caminho.
O Irmão Pequenino é essa criança que nos atrapalha o passo, essa mãe aflita sem tempo, o pai esgotado de um dia de trabalho, a avó que já não sabe onde deixou a sua carteira, o colega de trabalho que está sem paciência, o idoso que entrou no autocarro e não tem lugar, o desconhecido que se cruza connosco na rua e merece um sorriso, um voto de bom dia.
Hoje, vou encontrar o meu irmão pequenino e ter um gesto que marque a diferença, hoje vou encontrar-me com o Senhor no rosto de um daqueles que se cruzar comigo.

 
Ilustração:
“Deixai vir a mim as criancinhas”, de Fritz von Uhde.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Homilia do I Domingo da Quaresma

A sobriedade da igreja sem flores e decoração, a cor roxa dos paramentos, recordam-nos que estamos num outro tempo litúrgico, numa outra sintonia, se assim podemos falar. É a Quaresma, que iniciámos na quarta-feira passada com o rito da imposição das cinzas, mas que para maior parte de nós apenas começa hoje, apenas hoje se torna evidente nesta materialidade distinta dos despojamentos decorativos e da cor.
Quaresma que nos prepara para a celebração da Páscoa, do grande mistério da vitória de Jesus Cristo sobre a morte; Quaresma que representa e nos desafia para um combate, para uma viagem através do deserto.
A leitura do Evangelho de São Marcos que escutámos mostra-nos de uma forma sóbria e sucinta como Jesus fez também a sua experiência de deserto, como viveu o seu combate pela fidelidade ao amor que o Pai lhe tinha manifestado após o baptismo no rio Jordão.
Contrariamente aos Evangelhos de São Lucas e Mateus, que nos relatam a experiência da tentação em modo tripartido, o Evangelho de Marcos apenas nos relata que Jesus era tentado por Satanás nos quarenta dias que permaneceu no deserto.
Esta simplicidade tem como objectivo colocar-nos diante de uma outra realidade que está para além das tentações na sua particularidade, dos desafios particulares que representam, e que São Lucas e São Mateus descrevem em termos de idolatria, auto-suficiência e poder.
No Evangelho de São Marcos o que verdadeiramente importa é a participação de Jesus Cristo nessa experiência profundamente humana da tentação, e por isso a referência do deserto é compaginada com referências ao jardim do paraíso.
Tal como o primeiro homem que vivia em paz com os animais e era servido pelos anjos, também Jesus vive a mesma realidade, unindo-se dessa forma e de modo total à situação do homem na sua condição de criatura livre para optar e decidir sobre quem servir.
Jesus e Adão assemelham-se e distanciam-se nessa semelhança face à liberdade de optar pelo amor que lhes é manifestado pelo Pai e de acolher o projecto que lhes é proposto no sentido da construção de um mundo diferente
O mistério da Encarnação do Filho de Deus alcança assim a totalidade da condição humana, quer na experiência da tentação quer na experiência da morte. Jesus não foi uma realidade virtual, nem um privilegiado que esteve isento das nossas experiências mais radicais e potenciadoras de sofrimento; bem pelo contrário, assumindo a nossa condição humana sofreu os desafios da sua liberdade e fez a experiência da nossa finitude.
Face a esta realidade, e que o texto do Evangelho nos apresenta, somos convidados a viver a Quaresma como esse tempo oportuno e propício para a experiência da nossa liberdade, poderíamos dizer, para a requalificação das nossas respostas e opções face à liberdade que temos e nos é concedida por Deus.
Esta requalificação das respostas não pode inevitavelmente deixar de ter presente a grande mensagem de confiança que nos é dada pela leitura do Livro do Génesis. Deus estabeleceu uma aliança com a humanidade, uma aliança que erradicou a destruição, a condenação total, mas que exige de todos nós uma fraternidade e um compromisso de boa consciência para com Deus, como nos recorda a Carta de São Pedro.
Procuremos pois aproveitar este tempo propício que o Senhor nos concede e através de uma oração mais intensa, de uma esmola mais diligente, e do jejum das realidades de injustiça e mentira, se abra a porta do nosso coração e da nossa vida ao Verbo que elevou a nossa condição humana à dignidade divina.

 
Ilustração:
“A Tentação de Cristo”, de Ilya Repin, Bukowski Leilões, Estocolmo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Homilia do IV Domingo do Tempo Comum

Os Evangelhos dos domingos anteriores apresentaram-nos a convocação dos primeiros discípulos de Jesus, o convite e a busca daqueles homens que foram capazes de ver em Jesus um mestre, alguém que podiam seguir e no qual podiam fazer confiança.
O Evangelho de hoje insere-se nessa mesma perspectiva, nesse mesmo contexto, mas sofre uma inflexão, faz como que uma curva de cento e oitenta graus para nos mostrar e mostrar aos discípulos que havia algo mais em jogo.
O milagre que o Evangelho hoje nos relata e a autoridade que Jesus manifesta e todos são capazes de reconhecer, é o pretexto para nos colocar a todos diante de uma realidade fundamental, e que é esta: não podemos procurar, seguir Jesus, reconhecer a sua autoridade pelos meros gestos exteriores.
Neste sentido, e num exemplo do que vai permanecer de uma forma constante ao longo dos Evangelhos e portanto da própria vida de Jesus, confrontamo-nos com a discrepância entre o que vemos e nos atrai e a verdadeira realidade e natureza de Jesus.
No caso do acontecimento que o Evangelho nos relata hoje, vemos como o espirito impuro reconhece a divindade de Jesus, a proclama publicamente, e como todos os outros presentes na sinagoga não se apercebem disso e apenas reconhecem e comparam as palavras de Jesus e a sua autoridade com os escribas.
Todos os presentes deveriam ter ficado mais chocados com as palavras do espirito, que atribui a Jesus uma natureza exclusivamente divina, reservada pela lei e pela fé a Deus, que surpreendidos pelos gestos de Jesus, gestos ao alcance de qualquer mestre curandeiro.
Este desfasamento, esta discrepância é contudo desejada por Jesus e por isso o vemos neste caso a mandar calar o espirito impuro, tal como o veremos mais tarde a recomendar aos discípulos que não revelem nada do sucedido no alto do monte no momento da transfiguração. É necessário um silêncio, porque há necessidade de uma outra abordagem.
Este silêncio, esta discrição que Jesus exige face a todos os que cura ou vivem com ele algum momento excepcional deve-se à necessidade de nos encontrarmos verdadeiramente com aquele que temos diante. É a presença de Deus, o Santo de Deus, que necessitamos encontrar e ao qual necessitamos aderir.
Este processo de descoberta e adesão tem inevitavelmente consequências na nossa vida, na nossa relação pessoal com Deus e com Jesus Cristo, a quem podemos recorrer como a um mestre de magia, a uma solução instantânea para todos os nossos problemas, ou pelo contrário, com quem estabelecemos uma relação que necessita de tempo, que se compõe de altos e baixos, que se vai construindo amorosamente e atingirá um dia a plenitude.
Se ficarmos pelo externo e pelo imediato, pelo excepcional, perderemos a possibilidade de nos encontrarmos com aquele que verdadeiramente é o milagre que transforma a nossa vida, com a oferta da santidade que Deus nos faz na pessoa de Jesus Cristo, porque como nos recorda São Paulo nós fomos feitos para a santidade.
É este encontro pessoal, esta caminhada ombro a ombro, feita tantas vezes na escuridão ou na penumbra de uma luz ténue, que nos permite alcançar aquela autoridade, dimensão profética e excelência de vida que compõem a santidade e de que nos falam também as leituras de hoje.
Foi este processo que os discípulos viveram, algumas vezes em completa desordem entre as suas expectativas, o que viam fazer a Jesus e o que intuíam desses gestos. Contudo, foi esta mesma experiência desordenada que lhes permitiu após a paixão e a morte reconhecer o Mestre presente nas margens do lago aguardando-os no regresso da pesca com a refeição pronta.
O extraordinário tinha-se de tal modo transfigurado, adquirido a sua verdadeira dimensão, que era já possível reconhecer a presença do Santo de Deus na mais simples das realidades e a partir dela encetar uma outra vida mais excelente, com uma autoridade fundamentada e uma dimensão profética insuspeitável.
Também hoje somos convidados a encontrar-nos intimamente com Jesus, para que as nossas palavras e os nossos gestos não sejam apenas um proforma, uma mera encenação teatral, mas fruto de uma santidade que nos advém do encontro com o Santo de Deus.
Procuremos pois, tal como nos recomenda São Paulo, encontrar e viver as realidades que mais nos convêm e nos unem mais perfeitamente e sem desvios ao Senhor que nos santifica.

 
Ilustração:
“Jesus em Cafarnaum”, de Rodolpho Amoêdo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Homilia do III Domingo do Tempo COmum

A sequência das leituras que a Liturgia da Palavra nos oferece hoje segue uma lógica que nos conduz à mensagem de Jesus, a esse convite à conversão, porque o Reino está já no meio de nós, e portanto exige uma outra atitude, uma transformação da nossa vida, um seguimento em ordem à descoberta do nosso fim último.
Neste sentido o Evangelho mostra-nos como Jesus permanece na sintonia de João depois de este ter sido preso, uma vez que continua a pregação e o convite à conversão. Jesus prossegue a missão profética, já exercitada por Jonas de apelar à conversão, de apelar a uma mudança de vida.
Contudo, a prisão de João coloca em evidência esse culimar do tempo de espera, um fim de época, a eminência do novo tempo, em que algo mais é necessário que uma atitude de conversão. Não basta já apenas mudar de vida, é necessário acreditar e acreditar que aquele Jesus é a proximidade mais concreta e real do Reino de Deus.
Talvez por esta razão, imediatamente ao anúncio da mensagem de Jesus, o Evangelista São Marcos narra-nos a vocação dos quatro primeiros discípulos, os quais seguem Jesus depois de este os ter chamado.
Relato de um situação paradoxal, pois nada nos diz que houvesse qualquer conhecimento prévio, qualquer intimidade ou familiaridade, que possibilitasse a resposta imediata e inquestionável daqueles quatro homens. Ao apelo de Jesus deixam tudo e seguem o Mestre sem qualquer reserva ou questionamento, o que não deixa de nos surpreender.
Esta liberdade e prontidão no seguimento de Jesus são-nos no entanto explicadas e justificadas nas pessoas de Tiago e João que deixam o pai com os assalariados a concertar as redes da pesca.
De certa forma os dois filhos encontravam-se na mesma situação dos assalariados, dos trabalhadores que não deixavam de ser estranhos. Ao deixarem o pai com as redes junto ao barco e ao seguirem Jesus entram numa lógica relacional completamente diferente, pois deixam uma relação remunerada e recompensada, ainda que paternal, para desenvolverem uma relação filial livre e sem contrapartidas.
É a partida para uma experiência nova, completamente livre, inusitada, que se expressa para Pedro e André numa pesca de homens, numa pesca completamente desconhecida e extraordinariamente fora de qualquer comparação. Seguir aquele Jesus que se apresenta ali é uma atitude verdadeiramente radical, uma atitude de fé, mas uma atitude de fé que se explicita em gestos concretos.
Face a esta atitude paradoxal, os quatro primeiros discípulos adequam-se ao que São Paulo recomenda aos Coríntios, ou seja, que a transitoriedade e a precaridade deste mundo exigem um desprendimento de todas as realidades ao mesmo tempo que exigem uma ancoração fundamental na pessoa e verdade de Jesus Cristo.
As palavras de São Paulo aos Coríntios, bem como o desprendimento dos discípulos face às realidades que conheciam e dominavam são para nós um convite a um exame de consciência sobre a forma como reagimos aos acontecimentos do mundo, à forma como absolutizamos ou não as realidades que compõem a nossa vida. Estamos demasiado presos ao que nos é conhecido, aprisionados na nossa zona de conforto?
A história de Jonas, que escutávamos na Primeira Leitura, vem ajudar-nos a sair dessa zona de conforto e a ter uma atitude mais liberal, mais desprendida, pois ajuda-nos a perceber que na medida em que saímos dessa prisão, que na medida em que nos colocamos em atitude de conversão e mudança de vida, o próprio Deus vem ao nosso encontro, vem em nosso favor.
Para os habitantes de Nínive à sua mudança de vida correspondeu o perdão de Deus, mas para nós a uma mudança de vida, a qualquer conversão, corresponde a entrada numa órbita de filiação, de uma outra relação de amor mais profunda e intensa.
Relação profunda e intensa que se vai desenvolvendo, que se vai construindo, que não é dada à partida, mas que se vislumbra apenas no inusitado da proposta e na graça atractiva daquele que nos chama a seguir e a arriscar. Realizá-la em plenitude é portanto o programa de toda uma vida.      
Procuremos pois dispor-nos a acolher o convite e apesar do desconhecido a responder-lhe de oração aberto, seguindo aquele que nos chama e atrai com tanto amor.

 
Ilustração:
“O Chamamento de Pedro e André”, de Duccio di Buoninsegna, National Gallery of Art, Washington.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Homilia do II Domingo do Tempo Comun

As leituras que escutámos na Liturgia da Palavra são extremamente ricas e poderiam levar-nos muito longe em propostas de reflexão e de acção. Por essa razão, vamos centrar a nossa atenção na leitura do Evangelho de São João, nesta narração das primeiras vocações dos discípulos de Jesus, uma narração ricamente detalhada, e na qual nos encontramos todos presentes nesse companheiro de André que igualmente segue Jesus mas não é identificado pelo autor do Evangelho.
Neste sentido, é bom que tenhamos presente, antes de mais, que as primeiras palavras proferidas por Jesus no Evangelho de São João são essa questão colocada aos dois discípulos do baptista que o seguiam: “Que procurais?”
É uma que pergunta que desconcerta, que interpela e obriga a ter uma resposta, ou a procurar uma resposta, mas é igualmente uma pergunta que revela a nossa própria realidade, de certa forma a nossa natureza, somos homens e mulheres em busca, à procura.
Por outro lado, e colocada no início do Evangelho, no início da narração da vida pública de Jesus, é uma questão que nos induz a encontrar uma resposta em tudo o que vamos descobrir e ler na narração do Evangelho. No final do Evangelho deveríamos saber o que procuramos, ou pelo menos ter alguma luz no sentido da busca que nos habita.
Em resposta à questão colocada por Jesus, confrontados com a sua busca iniciada já na companhia de João Baptista nas margens do Jordão, os discípulos respondem querer saber onde mora aquele que lhes tinha sido indicado como o Cordeiro de Deus.
Não podemos acreditar que se tratasse da sua morada terrestre, do seu domicílio fiscal como hoje se diz, possivelmente já saberiam onde Jesus vivia e por isso o autor do Evangelho não se demora em pormenores sobre a habitação conjunta nesse dia, mas tratava-se de saber da habitação que lhe permitia ser o Cordeiro de Deus, ter a identidade que João tinha apontado nas margens do Jordão.
Neste sentido a demanda e a busca dos discípulos prende-se com uma realidade que o Evangelho vai desenvolver e revelar, mas que está já presente no prólogo que o autor escreve ao Evangelho. O Verbo habita no seio do Pai, essa é a sua verdadeira morada e é nela que os discípulos estão interessados e cada um de nós deve estar interessado. A busca e a questão dos discípulos é assim uma questão de conhecimento do caminho da vida, de conhecimento do caminho que permite essa habitabilidade no seio do Pai.
Mas se a morada do Verbo é no seio do Pai, também não é menos verdade que esse mesmo Verbo se fez carne da nossa carne, veio habitar na nossa natureza humana, reconfigurando-a na sua capacidade de ser habitação de Deus. Assim sendo, se fundamentalmente devemos buscar a habitação que nos é natural, o seio do Pai, não podemos passar ao lado da habitação precária que Deus estabelece em nós quando pela presença do Espirito Santo nos transforma em templos seus.
Por esta razão São Paulo chama a atenção dos Coríntios para a imoralidade em que viviam, uma imoralidade que afectava o corpo enquanto templo da presença de Deus, mas que afectava também o mistério da incarnação pois “o Senhor era para o corpo”, e portanto todos os que estavam ligados pela fé ao Senhor partilhavam a mesma dignidade e santidade do corpo do Senhor.
Esta dignidade e santidade não deixam de nos desafiar na forma como nos relacionamos com o nosso corpo e com o corpo do outro, que não são instrumentos de prazer, nem produtos de consumo, mas verdadeiramente matéria divina, como diz São Paulo, membros vivos do Corpo de Cristo.
Conscientes desta realidade e dimensão divina da nossa corporeidade, da nossa matéria que um dia será reduzida ao pó da terra, somos chamados a escutar o que o Senhor nos quer dizer cada dia neste mesmo corpo e nos corpos dos nossos irmãos.
Nesta habitação precária de Deus somos convidados a fazer a experiência do seio divino, do seio materno, a tornar vivo e verdadeiramente encarnado o amor de Deus no amor dos irmãos.
Que à Palavra e chamamento do Senhor nosso Deus saibamos todos responder como Heli disse a Samuel para responder: “Falai Senhor que o vosso servo escuta!”

 
Ilustração:
“Vocação de Santo André e São João”, de James Tissot, Brooklyn Museum.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Homilia da Solenidade da Epifânia do Senhor

Neste primeiro domingo do ano novo o calendário litúrgico convida-nos a continuar a celebrar o grande acontecimento do Natal através desta Solenidade da Epifânia do Senhor. É uma celebração cheia de alegria e de esperança, de uma redobrada alegria e esperança, pois como nos recordava a Carta de São Paulo aos Efésios, o mistério de Cristo foi revelado e oferecido tanto ao povo eleito dos judeus como aos gentios de todas as nações.
Os Magos, de que nos falava o Evangelho de São Mateus, são as personagens evangélicas que prefiguram estes gentios de todas as nações de que fala São Paulo, mas são também as personagens que nos representam na busca do absoluto, uma busca que nos pode levar muito longe, mas que tal como acontece com os Magos não pode deixar de nos reconduzir à nossa própria casa.
Neste sentido é significativo termos presente como os magos se deslocam do oriente para seguir uma estrela que nascera a oriente, manifestando-nos assim que para além do oriente, daquilo que se considera o princípio, a terra dos sonhos, há um outro princípio e um outro sonho que nos pode conduzir para além do insuspeitável.
Poderíamos dizer que a estrela nascida a oriente é assim uma manifestação do próprio princípio criador, da fonte de toda a luz, que conduz os Magos como conduz os homens ao encontro da verdadeira sabedoria, plasmada no Deus que se faz homem.
Os Magos representam-nos também nas dificuldades desta caminhada, desta peregrinação em busca da luz, dificuldades tantas vezes experimentadas em desencontros, como o que eles viveram quando se abeiraram de Jerusalém e se confrontaram com uma elite centrada em si própria, nos conhecimentos que possuía e que a impossibilitava de se abrir à novidade.
Contudo, se esta peregrinação acontece, e nela os desencontros são inevitáveis, tal como nos conta São Mateus no Evangelho, é para nos colocar diante da verdadeira missão que está destinada a estes homens vindos do Oriente e a todos nós que temos sede de absoluto.
Diante da novidade da sua presença em Jerusalém e face ao questionamento da sua vinda, não podemos deixar de olhar com atenção a sua resposta, pois os Magos vieram em busca do menino rei para o adorar. Esta é a sua grande missão.
Os Magos não vinham em busca de um conhecimento extraordinário, de uma novidade do “prime-time” de qualquer telejornal, não pretendiam mais uma experiência fantástica no seu curriculum, mas vinham para adorar o menino. Todo o seu esforço, toda a sua caminhada, o saírem do seu conforto, os perigos que tinham corrido, visava apenas poder adorar o menino que tinha acabado de nascer.
Este é afinal o desafio que se coloca a todos nós, a todos aqueles que buscam o absoluto e a fonte de toda a luz. Desafio tanto mais radical, quanto mais somos confrontados com um menino deitado numa manjedoura, uma criança indefesa e sem qualquer poder, na qual descobrimos uma força e um poder que não são deste mundo.
Realidade inimaginável para os homens, uma vez que patenteia uma revolução na forma como Deus se apresenta, pois Deus deixa de estar nos céus estrelados e faz-se carne da carne dos homens, deixa de vencer as batalhas pelas armas da força, mesmo as da natureza, e vence-as pela força do amor e da fidelidade.
A manifestação divina, a Epifânia que acontece assim na viagem e encontro dos Magos com o menino deitado numa manjedoura, é assim a manifestação do poder e da presença divina na nossa humanidade, na nossa natureza humana. Manifestação que obrigatoriamente conduz os Magos de regresso por outro caminho, ou seja, pela certeza que não é necessário ir muito longe para encontrar a presença de Deus, porque afinal ela está em toda a natureza humana, encontra-se na nossa casa mais natural.
A adoração prestada ao menino através do ouro, do incenso e da mirra, é assim a adoração cuidadosa que é devida a todo o homem e mulher, templos que são da presença de Deus, uma adoração que não devemos descuidar nem connosco nem com aqueles que partilham a nossa mesma condição. O mistério da Epifânia do Senhor a todos os povos coloca-nos assim a todos na mesma órbita de humanidade e divinidade.
Procuremos pois na fragilidade da nossa natureza humana cuidar a presença e a manifestação da presença divina.

 
Ilustração:
“A Adoração dos Reis Magos”, de Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição

Celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição, uma festa litúrgica que surge na consequência da proclamação do dogma da Imaculada Conceição em 1854, mas cujo sentido é já bastante antigo, é património da fé da Igreja desde que esta assume Maria como Mãe de Deus. O dogma e a fé na imaculada concepção de Maria está intimamente associada ao dogma e à fé de que Maria é Mãe de Deus.
Tal formulação não significa a constituição de um panteão divino, de uma geografia divina à semelhança do que acontecia com os mundos e religiões romana e gregas. Não se trata da confecção de uma deusa para uma família divina completamente dominada por figuras masculinas.
A Virgem Maria na sua maternidade divina e na sua imaculada concepção é a perfeita participação num mistério que se desenvolve num abaixamento, no aniquilamento, que conduz posteriormente à elevação e à glória. Deus desce até aos homens, incarna no seio de uma mulher, para que os homens possam ser elevados à sua dignidade divina.
Ao participar neste mistério, neste processo revolucionário, Maria assume a sua pequenez, a sua condição de colaboradora, para que o mistério se desenvolva, mas ao fazê-lo adquire a sua notoriedade, eleva-se pela acção de que é participante.
Há em nós uma tendência inata para opor estes dois movimentos, pois o que desce, o que se abaixa, não pode estar a elevar-se. Contudo, no mistério da revelação e da nossa redenção, na economia da salvação, um movimento não acontece sem o outro, eles estão intrinsecamente ligados, produzindo o abaixamento a elevação.
O Verbo ao fazer-se homem desce até à condição humana, aniquila-se na sua condição divina, mas é esta descida e aniquilamento que permitem o reconhecimento da sua natureza divina. É o Filho que se faz homem e perante tal movimento o Pai não pode deixar de exaltar o Filho.
A Virgem Maria participa deste movimento e deste aniquilamento, é a matéria mãe em que se gera a incarnação do Verbo, e portanto é também ela exaltada na exaltação do Filho, participa da sua glória, e de certa forma por antecipação na imaculada conceição, na preparação que Deus opera para que possa realizar a missão a que é convidada.
Com tal acção Deus não nos afasta Maria da nossa relação, nem da nossa condição humana, não a eleva a um patamar divino acima dos outros homens, mas bem pelo contrário, coloca-a bem próxima, o mais próximo possível de todos, porque ao estar preservada do pecado, que é a grande barreira que separa os homens, Maria está próxima de todos.  
Neste sentido a nossa fé e a nossa devoção a Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, não pode deixar de passar por um seguimento na sua atitude de humildade, nesse acolhimento da oferta de Deus, que não nos escraviza nem empequenece, mas pelo contrário nos eleva a uma proximidade insuspeita de Deus e dos irmãos.
Não é fácil acolher este movimento de humilde abaixamento, uma vez que frequentemente estamos centrados na nossa satisfação, nos nossos planos e na glória que esperamos das nossas acções. Vivemos centrados em nós e tal centralidade impede-nos de acolher a novidade descentralizante de Deus que nos exalta e glorifica.
A celebração da Solenidade da Imaculada Conceição oferece-nos a oportunidade de pelo menos uma vez por ano nos apercebermos como ser pequeno e humilde é a via para a exaltação, para a glória, de tomarmos consciência de como cada gesto de acolhimento da vontade de Deus revela a graça que habita em nós.
Diante da tua presença e do teu dom, Senhor, que humildemente se faça em nós a tua vontade.

 
Ilustração:
“Imaculada”, atribuída a Diego Velásquez, Sevilha, Centro de Investigações Diego Velásquez: