A Liturgia da Palavra
apresenta-nos hoje, neste segundo domingo da Quaresma, na leitura do Livro do
Génesis e no Evangelho de São Marcos, dois acontecimentos marcantes, duas
histórias que estão profundamente marcadas e construídas sobre o alicerce da
fé. São histórias de fé, tanto o eminente sacrifício de Isaac como a
transfiguração de Jesus no monte Tabor.
É incontestável que a
história do sacrifício do filho amado de Abraão, que não chega a acontecer,
está marcada por uma forte crítica aos cultos que exigiam sacríficos humanos, e
neste sentido é um texto profundamente humanista, poderíamos dizer moderno.
Contudo, a história
vai para além da crítica religiosa, ela é preponderantemente uma história de
fé, da fé de um homem que não recusa sacrificar a Deus o que mais ama, a sua
garantia de futuro e de continuidade geracional, e que é o seu filho.
Neste sentido, e face
ao pedido feito por Deus, podemos interrogar-nos sobre a validade do pedido de
Deus, da sua razoabilidade. Questão esta que nos atormenta ainda hoje quando
somos confrontados com o incompreensível de determinadas situações de perda e
sofrimento.
E é esta incompreensão
e desumanidade que nos coloca diante do que verdadeiramente está em causa na
história do sacrifício do filho de Abraão, ou seja, o futuro não nos é
garantido por aquilo que temos ou somos, mas pelo que Deus nos oferece, de
certa maneira retribui quando temos a liberdade de lhe entregar e confiar o que
mais amamos, o que pensamos que é o nosso futuro e a nossa segurança.
Face à fé, e
consequente liberalidade e disponibilidade de Abraão para entregar o seu filho
amado, Deus não só não aceita esse sacrifício como confia a Abraão a missão de
ser pai de uma geração incontável, de todos os homens que não temem entregar a
Deus o que mais amam, multiplicando assim a sua paternidade confinada naquele
momento a um filho único.
A história do
sacrifício do filho de Abraão abre-nos assim para a verdadeira relação de Deus
com a humanidade, com cada um dos homens e mulheres que povoam a história e a
criação. Deus não está contra o homem, não quer a sua morte ou destruição, e
ainda que peça ao homem o que de mais precioso tem, o máximo possível, nada do
que pede é contra o homem ou para a aniquilação do homem, uma vez que Deus não
pode estar contra a sua mais perfeita e amada obra.
Como afirma Santo Ireneu
de Lyon, “a maior glória de Deus é o homem vivo”, o homem com todas as suas
condições e faculdades, com a sua liberdade de opção, e portanto Deus não pode
estar contra, nem coarctar, a liberdade e identidade do homem na sua singularidade.
A manifestação gloriosa
de Jesus diante dos discípulos no alto do monte Tabor, a sua transfiguração,
vem confirmar esta prisão em que o Pai do Céu se encontra devido ao seu amor, à
sua paixão pela humanidade.
Quando no momento da
transfiguração da nuvem se ouve que aquele “é o filho muito amado”, ecoa por
toda a humanidade e toda a história da humanidade o amor e a paixão de Deus
pelos homens e o seu gozo e alegria em habitar no meio deles, como podemos ler
no Livro da Sabedoria.
É evidente que após o escândalo
e desânimo provocados pelo anúncio da paixão, momento prévio ao acontecimento
da transfiguração, era necessário algo que motivasse a permanência dos discípulos,
a continuidade do seguimento nos passos de Jesus e por isso a transfiguração.
Contudo, esta experiência
da transfiguração é fundamentalmente uma experiência de fé, pois o texto na sua
simplicidade e verdade não deixa de nos transmitir a dificuldade de compreensão
e perplexidade dos discípulos face ao experimentado.
O que se seguiu, até à
experiência da presença do ressuscitado entre eles, foi um equilibro certamente
difícil entre o que que era possível ver, o medo face à tragédia, e a esperança
de algo que apenas tinham vislumbrado mas que não deixava de ser uma garantia,
uma experiência que cunhava tudo o resto com outro timbre.
Na declaração do Pai
sobre o Filho amado, que devia ser escutado, assentava toda a esperança e toda
a fé, pois de certo modo aquelas palavras também se dirigiam a cada um deles
que testemunhava o amor do Pai pelo Filho. É esse saber que o Filho é amado que
leva a permanecer e tentar perceber como viver também nesse amor.
A ordem de Jesus a
descer do monte, face à satisfação dos discípulos em permanecer ali, naquele
gozo tranquilo, mostra-nos uma vez mais que não é na nossa satisfação, nos
nossos projectos e poder que se realiza a missão a que estamos destinados, o
projecto de Deus para todos e cada um de nós. O amor do Pai pelo Filho amado e
pelos filhos adoptados em Jesus projecta-nos para fora de nós, para além do
nosso sossego e satisfação.
Deus desafia-nos a ir
sempre mais além, a deixar de fixar-nos nos nossos projectos e forças, para nos
abrirmos ao horizonte de futuro que nos reserva o seu amor. Lançar-nos com fé e
esperança nesse amor é garantia de fecundidade e vida.
Ilustração:
1 – “O Sacrifício de
Isaac”, de Jan Lievens, Herzog Anton Ulrich Museum.
2 – “Transfiguração”,
de Meister des Universitats-Altars, Gemaldegalerie Alte Meister, Kassel.