Estamos a celebrar o
quarto domingo da Quaresma e encontramo-nos a meio da nossa caminhada de preparação
para a celebração da Páscoa da Ressurreição do Senhor.
Temos consciência que
tem sido uma caminhada difícil, dura, muitas vezes aquém dos propósitos que
estabelecemos na quarta-feira de Cinzas, no início desta Quaresma.
Pela rotina ou pelo
cansaço sentimos as forças a fraquejarem, uma espécie de desânimo que se
apoderou de nós e quase nos obriga a cruzar os braços, a atirar a toalha ao
chão, e a dizer que não vale a pena mais qualquer esforço.
As leituras que
escutámos na Liturgia da Palavra deste domingo atestam-nos no entanto que não
podemos ficar nessa situação, que não podemos perder a esperança, mas bem pelo
contrário, face à grande tentação do desânimo devemos aferrar-nos ainda mais à
esperança que iluminou a nossa caminhada e que nos pôs em marcha.
Neste sentido, a
leitura do Livro das Crónicas que escutámos mostra-nos como Deus nunca desistiu
do povo hebreu apesar das suas infidelidades e dos desvios cometidos e como se
serviu de uma realidade inusitada, neste caso o pagão rei da Pérsia, para
reconduzir o povo eleito à terra prometida.
Igualmente Deus não
desiste de nós, nem nos abandona, e se por vezes permite que façamos a experiência
do exílio, do sentimento de perda e solidão, é para que nos encontremos com a
realidade da sua presença amorosa de uma forma mais intensa, renovada e
rejuvenescida.
E por estranho que nos
possa parecer, Deus serve-se muitas vezes de pessoas ou realidades inusitadas,
estranhas ao nosso ambiente e ao nosso quotidiano para nos despertar para a sua
presença. Há como que uma necessidade de algo que contraste, uma espécie de reagente,
para se perceber a sua presença.
Mas, se esta fidelidade
experimentada pelo povo não fosse ainda suficiente para animar a esperança do
nosso caminhar quaresmal, o diálogo de Jesus com Nicodemos que escutámos no
Evangelho, revela-nos que a fidelidade de Deus deriva do seu amor infinito pela
obra da criação e portanto não há qualquer razão para o desespero ou para a
tristeza, para o medo de Deus não estar connosco.
Face aos medos e
incertezas, e às questões que Nicodemos coloca, Jesus revela-lhe, como nos
revela a cada um de nós, que Deus ama o mundo profundamente, de um tal modo exageradamente
apaixonado que é capaz de entregar o seu próprio Filho para que esse mundo
descubra a sua fidelidade e o seu amor.
Este dom de Deus é assim
a nossa garantia, é a nossa segurança, é a fonte da nossa esperança e dos
nossos esforços neste peregrinar tantas vezes inconstante e oscilante. Deus ama-nos
e oferece-nos a salvação, tal como diz São Paulo aos Efésios, como uma graça
que devemos acolher.
Este acolhimento é uma
condição fundamental para que os resultados da acção da graça se façam sentir e
se tornem presentes, e Jesus deixa-o bem claro no diálogo com Nicodemos, pois a
luz veio ao mundo, e aqueles que acolhem a luz são capazes de obras da luz, de
palavras e acções que iluminam o mundo.
A história de
Nicodemos é neste sentido paradigmática, pois com os seus medos e fraquezas
dirige-se ao encontro de Jesus apenas de noite para não ser identificado nem
denunciado. Contudo, após o encontro, e a experiência radical do amor de Deus
que Jesus lhe manifestou, Nicodemos é já capaz de ir de dia ajudar a sepultar o
corpo de Jesus.
A experiência do amor
total do Pai leva-nos assim a ultrapassar os nossos medos, as nossas preguiças
e desânimos, e por isso é obrigatório que façamos essa experiência, que nos
disponhamos sincera e objectivamente a acolher o dom que Deus nos oferece.
A salvação, a experiência
do amor, não é obra das nossas mãos, uma conquista dos nossos esforços para que
nos possamos gloriar, mas é um puro dom de Deus que nós acolhemos. A nós
compete-nos acolher o dom que Deus nos faz.
Procuremos pois abrir
o nosso coração ao dom de Deus, de modo a que os nossos desânimos e cansaços
sejam convertidos e a nossa esperança permaneça firme e alentadora da caminhada
para a glória da Páscoa.
“Cristo e Nicodemos”, de Fritz von Uhde.



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