O Evangelho que
escutámos neste domingo apresenta-nos a grande alegoria da videira e dos ramos,
uma alegoria que Jesus utiliza para apresentar aos seus discípulos e a cada um
de nós a necessidade de permanecermos unidos, de nos sabermos membros de um corpo,
pedras vivas de uma construção, ramos que se mantém vivos e produzem os seus
frutos na medida em que estão unidos à verdadeira vide, à grande cepa da qual
deriva a seiva da vida.
Alegoria que nos
apresenta igualmente uma realidade que nos custa a aceitar e a viver, a
realidade da poda, dos cortes que são necessários realizar para que a produção
chegue ao seu verdadeiro valor e plenitude.
Criados para a
plenitude, para a vida em toda a sua exuberância, custa-nos aceitar que haja
alguma coisa em nós que necessite ser cortada, eliminada, para que essa plenitude
e exuberância aconteçam verdadeiramente.
Jesus, contudo, não
quer deixar-nos na ignorância desta necessidade e por isso apresenta esta necessidade
juntamente com a necessidade de permanecermos unidos à verdadeira cepa, à
verdadeira vide.
Tais realidades e
necessidades mostram-nos que nos encontramos em processo, em desenvolvimento
daquilo que estamos chamados a ser e portanto não nos podemos considerar nem
terminados nem plenos. Estamos em processo.
E o acolhimento desta
circunstância, a sua aceitação, só pode ajudar-nos, porque nos coloca na órbita
da confiança e da esperança que radicam da fé em Deus que nos conhece e não nos
acusa dos nossos pecados. Como nos dizia a Carta de São João da Segunda
Leitura, Deus é maior que o nosso coração e que as nossas faltas e imperfeições
e toda a sua acção, o seu amor, são para que verdadeiramente permaneçamos nele,
vivamos alimentados e fortalecidos pela seiva da sua graça.
Mas se este processo
choca com as nossas convicções, a leitura que escutámos do Livro dos Actos dos
Apóstolos, mostra-nos como temos ainda uma maior dificuldade em aceitar este
processo e a acção de Deus nos nossos irmãos.
Paulo ao regressar a
Jerusalém vê-se rejeitado pela comunidade dos discípulos e apóstolos, que
desconfiam dele, pois o conhecimento que possuíam era o de um Paulo perseguidor,
inimigo dos amigos e discípulos de Jesus. Ainda que experimentados no perdão e
na misericórdia não eram capazes de acolher Paulo e reconhecer a acção de Deus
também naquele que antes os tinha perseguido.
Será a acção de Barnabé
que possibilitará a aceitação de Paulo, que destruirá os preconceitos e
temores, e o acolhimento no seio da comunidade dos discípulos. É um outro que
acredita, que se abre à novidade, e à acção de Deus, que possibilita o
acolhimento e integração de Paulo.
Neste sentido, e nesta
história, não podemos perder de vista algo que anteriormente Barnabé tinha
realizado e que podemos assumir como a condição prévia para todo e qualquer
acolhimento, até mesmo da acção purificadora de Deus nas nossas vidas e nas
vidas dos nossos irmãos.
Segundo o que nos diz
os Actos dos Apóstolos, Barnabé foi um dos primeiros a vender as suas
propriedades e a colocar o seu rendimento aos pés dos apóstolos para que
pudesse servir à comunidade. É este despojamento, esta pobreza e liberdade, que
permitem acolher o outro, reconhecê-lo como transformado pela acção de Deus,
pelos cortes de purificação que o Senhor vai operando.
Assim, a celebração
deste quinto domingo do Tempo Pascal e a Palavra de Deus que escutámos
convida-nos a despojarmo-nos da nossa auto-suficiência, a abrir-nos à acção de
Deus tanto em nós como nos nossos irmãos, a reconhecer que afinal há ainda em
nós muito que necessita ser cortado, eliminado, para vivermos em verdade e tranquilamente
diante de Deus.
Com confiança e amor
deixemos Deus actuar em nós, eliminar e cortar tudo o que nos possa afastar da
sua vida santificante, tudo o que nos possa impedir de permanecer Nele.
“A Vinha II”, de Elin Danielson-Gambogi, Colecção Particular.
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