sexta-feira, 10 de abril de 2026

Espantados e cheios de medo julgavam ver um espírito! (Lc 24,37)

Espantados e cheios de medo julgavam ver um espírito! (Lc 24,37)

Quantas vezes paira na nossa cabeça esta questão, esta dúvida: a ressurreição de Jesus, as suas aparições aos discípulos não são uma ilusão, uma alucinação colectiva, uma construção narrativa. Não estaremos de verdade diante de um fantasma?

A narração da aparição de Jesus aos discípulos após o encontro a caminho de Emaús vem responder a este medo, a esta dúvida. A fé em Jesus ressuscitado não é uma ideia, uma construção ou ilusão, até uma emoção passageira fruto da dor e da desilusão.

As aparições de Jesus aos discípulos são um facto, e um facto bem real, são um encontro com uma presença real que se pode ver e tocar, que se alimenta para que não haja qualquer dúvida, qualquer engano nos sentidos tão fáceis de iludir e enganar. A manifestação de Jesus mostra que não há qualquer ambiguidade, não é possível estarmos iludidos e enganados.

Resulta assim necessário perguntar-nos se a nossa fé em Jesus ressuscitado é uma emoção, um sentimento vago, ou verdadeiramente um facto, um encontro que aconteceu ou acontece na nossa vida.

As emoções evaporam-se, extinguem-se com as circunstâncias mais ou menos adversas com a passagem do tempo. Como diz o ditado popular “o tempo cura tudo”, o tempo desvanece as cores e corrói as formas, levanta o pó e arrasta-o para longe dispersando-o na imensidão do deserto ou na escuridão da noite.

O que é real, o facto em si, o encontro pessoal permanece no tempo da memória, nas cicatrizes da pele, deixa uma marca em nós porque o outro levou uma marca nossa. Quem parte leva uma parte de nós e quem fica guarda uma parte daquele que partiu. O encontro pessoal com Jesus deixa-nos algo de si e leva algo de nós.

A aparição de Jesus aos discípulos que pensam ver um fantasma é uma lição, uma expressão da aprendizagem que devem fazer da sua presença. Ele permanece, ele está vivo, ele está presente e acompanha-nos para que o encontremos em qualquer virar de esquina da vida, uma vez mais com as mãos marcadas pelos cravos e disposto a sentar-se à mesa connosco para construirmos memória.

 

Ilustração:

Elemento do Crucifixo do Museu de San Matteo, Pisa.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Eles pararam com um ar muito triste! (Lc 24,17)

Eles pararam com um ar muito triste! (Lc 24,17)

Os discípulos a caminho de Emaús são uma imagem de nós próprios, quando feridos nas nossas expectativas e esperanças experimentamos a desilusão, quando o nosso coração partido em mil pedaços se questiona sobre o que sobra, onde ficamos, ao que nos podemos agarrar para não nos afogarmos na dor e no desespero.

Caminhando não se sabe para onde, talvez para bem longe da fonte do sofrimento, levamos espelhada no rosto e nas palavras, no ritmo do andar, a tristeza que nos corrói.

E é a este caminhar dorido e doloroso que Jesus se aproxima, sem pressas, colocando-se ao lado, caminhando em escuta, acolhendo e recolhendo a dor e a mágoa, a frustração e a decepção, tentando juntar os pedaços partidos e dispersos com muita paciência e atenção.

E recolhidos os pedaços, acolhidas as dores e as mágoas, a sua palavra brota como luz, como um fogo, para fazer arder os corações, para iluminar os cantos escuros, as incompreensões, as perspectivas enviesadas.

Por esta razão a sua Palavra continua a ser tão importante, tão necessária na nossa vida, porque nela podemos ler os nossos acontecimentos e a nossa história, não como num documento de análise, mas como num encontro com uma pessoa, com aquele cuja presença é vida e nos dá vida. A sua palavra impulsiona o nosso coração e coloca-nos em movimento, alenta-nos para não nos deixarmos esmagar pela dor e pela desilusão.

A desilusão pode assim ser uma passagem, uma Páscoa, em que vivemos o encontro com o Senhor e Mestre Jesus, uma experiência de encontro com Aquele que desce ao nosso encontro e ao encontro do inferno das nossas decepções.

Esta passagem e encontro não nos livra do sofrimento, nem da dor, mas devolve ao nosso coração o ardor, o desejo da libertação, a força para lutar, o ímpeto para recomeçar, partir de novo para uma nova história como o fizeram os discípulos, sem medo e cheios de alegria, ao regressar a Jerusalém.

Ilustração:

Rembrandt – Os dois discípulos e Jesus Cristo a caminho de Emaús. Colecção de desenhos do Museu do Louvre.