domingo, 9 de maio de 2021

Homilia Domingo VI da Páscoa - Ano B

Caros Irmãos

Estamos a celebrar o sexto domingo da Páscoa, um domingo que podemos denominar do Amor, pois a leitura da Primeira Carta de São João diz-nos que Deus é amor e depois o Evangelho, igualmente de São João, convida-nos a viver nesse amor.

São textos extremamente ricos, cada versículo permite-nos uma meditação longa, uma reflexão profunda sobre a nossa vida e a forma como estamos a viver o amor e no amor, e por isso, porque nos podemos dispersar, convém que nos centremos em algumas notas, em apenas alguns elementos para iluminar e orientar a nossa vida destes dias.

Assim, e antes de mais, olhamos para o texto dos Actos dos Apóstolos e para essa grande e maravilhosa constatação que Pedro faz sobre a acção do Espírito Santo, uma acção que precede os gestos formais e rituais que acreditavam necessários para a sua recepção. Na casa de Cornélio o apóstolo Pedro verifica que o Espírito Santo tinha já actuado naquele pagão, sem qualquer intervenção da sua parte. O Espírito Santo precede-os, tal como Jesus lhes tinha anunciado que os precederia na Galileia depois da ressurreição.

O Evangelho de São João ao dizer-nos que não fomos nós que escolhemos Jesus, mas que foi o Pai que nos escolheu para amigos dele, somos confrontados com a mesma ideia e precedência, o amor de Deus, o Espírito Santo, precede-nos na nossa missão, na nossa vida, nos nossos gestos e palavras.

E desta realidade e afirmação resultam consequências inevitáveis para a nossa vida, e sobretudo quando vivemos momentos de sofrimento, de instabilidade, de insegurança ou incerteza; Deus vai à nossa frente, precede-nos e de todas as maneiras espera que o encontremos, que no meio da tempestade façamos a experiência do seu amor presente e actuante. Como temos que abrir bem os olhos e o coração para nos encontrarmos com o seu amor.

Um amor que é o maior mistério da nossa condição de cristãos, um amor que revoluciona todas as nossas concepções e imagens de Deus. Quem poderia imaginar que Deus é amor? Só alguém que pôde fazer a experiência desse amor, que o pôde sentir quando encostou a sua cabeça sobre o peito do mestre na última ceia, só ele nos poderia fazer esta afirmação e revelação.

Mas o discípulo amado, que conhece o coração de Jesus, que o sentiu bater, conhece também o coração dos homens e o que eles são capazes de fazer com o amor, de como são capazes de rebaixar ao seu nível mais medíocre as realidades mais elevadas e sublimes. A experiência da condenação de Jesus e da sua morte, a morte de um inocente, é a prova cabal para o discípulo amado do que se pode fazer com aqueles que amam e vivem na verdade.

O amor pela sua sublimidade e fragilidade é aquela realidade que mais facilmente pode ser transformada à nossa proporção e dimensão, que mais facilmente pode ser adulterada, que pode resultar numa contrafacção. E quer queiramos ou não, mais ou menos todos vivemos alguma espécie de contrafacção do amor; quer seja pelo sentimentalismo passivo, que não nos leva a empenhar em transformar a realidade; quer seja pelo activismo sem alma, em que realizamos o trabalho sem paixão, sem sentido de cooperação na obra de Deus; quer seja pela vagabundagem afectiva, procurando ternura e afecto em qualquer outro sem qualquer compromisso comum; quer seja pelo sensualismo desenfreado, explorando o prazer que no dá o nosso corpo sem qualquer dignidade; quer seja pela possessividade narcisista, em que buscamos o outro como uma propriedade e para nossa única satisfação.

Todas estas experiências de amor, contrafacções do amor levam à destruição do verdadeiro amor, tanto naquele que está chamado a dá-lo como naquele que é convidado a recebê-lo. São as experiências do amor na nossa dimensão finita, mortal, e que Jesus no convida a ultrapassar, a procurar que se assemelhem cada vez mais ao amor de Deus, que se entrega sem qualquer exigência, sem esperar nada em troca, apenas para o bem do outro, para o crescimento e plenitude do outro, para que o outro seja amigo e não servo, para que a alegria habite em nossos corações de uma forma completa como habitava no coração de Jesus.

Este convite de Jesus a permanecer no seu amor, a que nos amemos uns aos outros como ele nos amou, é um convite à transformação, porque ou nos deixamos transformar pelo amor, pelo amor de Deus, e com ele nos dignificamos e alcançamos a alegria plena, ou rapidamente transformamos o amor, adulterando-o, e dessa forma conduzimo-lo às dimensões mais vis e aviltantes da nossa condição de homens e mulheres.

E se o mandamento do amor que Jesus nos apresenta é exigente, é porque menos que tudo é intolerável tanto para nós como para Deus; no amor não nos contentamos com pouco e Deus também não, afinal fomos feitos à sua imagem e semelhança e as nossas exigências amorosas não são mais que espelho das amorosas exigências de Deus.

O cardeal suíço Charles Journet escreveu que se Deus nos dá mais um dia de vida é porque tem necessidade ainda de um acto de amor nosso. Procuremos, pois, nestes próximos dias aproveitar cada ocasião para viver e realizar esse acto de amor, imbuindo o nosso trabalho, as nossas amizades, a nossa ternura, os outros que partilham a vida connosco, com o amor de Jesus, o amor que nos alegra desde o mais fundo do coração.

 

Ilustração:

1 – A Última Ceia, Anónimo, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

domingo, 18 de abril de 2021

Homilia Domingo III da Páscoa - Ano B

Queridos irmãos

As leituras que escutámos na Liturgia da Palavra são hoje trespassadas pela mesma ideia do testemunho, como nos dizia o Evangelho de São Lucas no seu términus, “vós sois testemunhas de todas estas coisas”. Mas testemunhas de quê?

Podemos pensar numa dimensão histórica e perceber que os discípulos de Jesus foram e são testemunhas da sua vida pública, que sabemos foi bastante curta, à volta de três anos. Nesta vida pública eles foram também testemunhas, como dizia São Pedro, nos Actos dos Apóstolos, da sua condenação, do facto de ser trocado por um assassino e condenado inocentemente, foram testemunhas do seu suplicio e da sua morte.

No entanto, quando passamos aos momentos seguintes, à experiência da ressurreição, o testemunho é difícil de discernir, afinal o que os discípulos puderam ver foi apenas o túmulo vazio, o desaparecimento do corpo daquele que tinha sido crucificado. Temos também as palavras e as experiências das mulheres que dizem ter visto Jesus, mas sabemos igualmente como esse testemunho foi tido em pouca conta, assim como o dos discípulos que o percebem ao partir do pão.

Há assim a necessidade de um outro tipo de experiência, para passar da mera recordação, das memórias vividas com saudade, para ultrapassar a frustração de um vazio onde parece que flutua um espírito, um fantasma. E é assim que Jesus se faz presente no meio do cenáculo, na reunião dos discípulos medrosos e incrédulos, para proporcionar essa experiência.

E tal como acontece com Tomé, o Evangelho de São Lucas que escutámos hoje, mostra-nos um Jesus que convida ao toque, um Jesus que não só se dá a ver, mas que se oferece igualmente ao tocar, convidando-nos deste modo a ultrapassar a concepção de uma ideia, de uma memória ou recordação que se pode ter dele. Jesus faz-se presente de modo a poder ser tocado.

E paradoxalmente o convite de Jesus ao toque passa pelas feridas, como se o seu corpo necessitasse ser novamente entregue aos homens, tal como foi entregue na cruz, ali à violência e ao ódio, aqui à carícia da ternura e do amor. A proximidade física que Jesus oferece abre essas duas possibilidades, a da agressão ou a da carícia. Como os discípulos têm dificuldade em acreditar no que ouvem e veem, de facto esses sentidos podem enganar, a oferta do tocar abre à dimensão da verdade da realidade, dá a possibilidade de uma relação, uma nova relação, um outro testemunho.

Tal como aconteceu com Tomé, que não sabemos se tocou ou não as feridas de Jesus, também São Lucas não nos diz se os discípulos ousaram tocar o corpo do mestre, apesar da alegria, e por isso a necessidade e o pedido de Jesus de lhe darem de comer, expressão de um aprofundamento da compreensão, da relação, para o verdadeiro testemunho poder acontecer.

É a esta compreensão que conduzem as palavras de Jesus, que certamente não tocaram no corpo ressuscitado do Mestre, mas que foram capazes de ler o que estava escrito no corpo de Jesus. Ao explicar-lhes que tudo o que tinha acontecido estava escrito nos livros de Moisés, dos Profetas e dos Salmos, Jesus oferece aos discípulos o pergaminho do seu corpo para que eles possam pessoal e comunitariamente fazer a leitura dos acontecimentos e dar testemunho disso.

Ao oferecer aos discípulos as marcas que os carrascos imprimiram no seu corpo, as letras do ódio e da violência, daquilo que os homens podem fazer uns aos outros, letras escritas com sangue, Jesus oferece também as marcas do amor e da misericórdia, as letras impressas a ouro por Deus Pai sobre esse sangue inocente derramado para a salvação de todos. O Verbo feito carne da nossa carne, como nos diz São João, é agora carne que se faz palavra, testemunho de amor. O corpo de Jesus ressuscitado é assim um livro a ler, um livro de vida.

Estamos assim face a face à inevitabilidade da necessidade de entrar na intimidade de Deus pelas suas feridas, pelo lado aberto, do qual como nos diz também São João brotou sangue e água, como estamos face a face à necessidade de Deixar Deus entrar em nós pelas nossas feridas. Jesus não se apresenta aos discípulos como um herói cheio de cicatrizes das suas lutas, mas apresenta-se como um ferido, com as suas chagas abertas, para nos dizer que não espera outra coisa de nós. Deus nãos nos espera como super-heróis, mas como feridos do caminho, aos quais como bom samaritano coloca aos ombros para introduzir na casa de repouso do Pai.

Com isto, a oferta de Jesus não é a da exaltação da vulnerabilidade, nem uma ideologia da menoridade ou fragilidade, mas um convite à aceitação, ao acolhimento das nossas feridas, dos nossos falhanços, que podem ser perfeitamente, e muitas vezes assim acontece, encontros com Deus através das brechas do nosso orgulho e da nossa soberba. Deus deixa-se encontrar nas nossas feridas, faz-se presente e oferece-se, tal como aconteceu no cenáculo com os discípulos.

Quando contemplamos as rugas que marcam as faces dos nossos avós, dos nossos mais velhos, percebemos o passar dos anos, a degradação do corpo humano, mas somos incapazes de perceber o quanto encerram de amor, o quanto são marcas da obra da vida com tudo o que ela acarreta e comporta, alegrias e tristezas, dores e paixões. Impressiona como muitas vezes no momento da última despedida mascaramos os que nos são queridos, escondendo as suas rugas, as marcas que a vida deixou inscritas no pergaminho da pele, o seu testemunho, como se não tivessem vivido.

O Livro do Apocalipse recorda-nos que no fim dos tempos o livro da vida será aberto, o livro onde cada um terá inscrito o seu nome único e apenas conhecido do próprio de acordo com a sua vida; uma vida com uma dimensão dramática inevitável, mas também com uma grande dimensão de festa e alegria se soubermos e deixarmos Deus entrar nas nossas feridas, nos nossos desaires, se nos deixarmos tocar por Jesus ressuscitado como ele se nos oferece a ser tocado. E é de tudo isto que Jesus nos convida a ser testemunhas, das suas feridas e das nossas feridas, do seu amor e do nosso amor.

 

Ilustração:

1 – As dúvidas de Tomé, de Bela Iványi-Grunwald, Galeria Nacional da Hungria.  

domingo, 11 de abril de 2021

Homilia Domingo II da Páscoa

Queridos irmãos

Há uns tempos atrás, antes desta pandemia e da impossibilidade de circularmos livremente, um amigo, presente aqui entre nós, fez uma visita ao Mosteiro de São Miguel de Refojos em Cabeceiras de Basto. Durante a visita guiada, de que estava a usufruir, enviou-me algumas fotografias, (uma delas a que ilustra esta publicação) para me perguntar sobre a identificação correcta da figura dominicana representada no quadro ali existente do episódio que hoje escutámos no Evangelho; pois, não só na ficha de identificação do quadro, como nas palavras da guia, na representação pictórica estava representado São Domingos, quando de facto quem está lá representado é São Tomás de Aquino.

Podem imaginar como fiquei surpreendido, curioso sobre o primitivo e original espaço de proveniência daquela belíssima pintura, e diante da questão do meu amigo sobre o porquê da presença de São Tomás de Aquino naquela representação, a minha primeira associação foi a da semelhança de nomes em latim.

Contudo, hoje, e depois de ler um bocadinho do comentário de São Tomás sobre o Evangelho de São João e mais concretamente sobre este trecho que escutámos há associações que justificam a sua representação e que inevitavelmente quero partilhar convosco, para que ao visitardes São Miguel de Refojos e ao parardes diante daquela bela pintura possais ler o que ela desde o primeiro momento nos quis dizer.

No entanto, antes de entrarmos nesta leitura, observemos um pouco o que nos diz o Evangelho sobre a situação da comunidade dos discípulos, porque as palavras de Jesus na primeira aparição vão ser-nos importantes na leitura da representação do quadro.

Encontramos um conjunto de discípulos fechados em casa, com medo, uma comunidade bastante diferente da que nos é apresentada pelos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura. Aqui ainda não temos um só coração e uma só alma, ainda não era tudo comum, ou se alguma coisa havia em comum era a suspeita, a dúvida, a divisão e a incredulidade.

Afinal quem tinha acreditado na palavra das mulheres que diziam ter encontrado Jesus? Alguns discípulos tinham até já feito uma debandada, como aqueles que vão reconhecer Jesus em Emaús. E a dúvida e o pedido de Tomé são o sinal mais evidente deste clima de suspeição, de necessidade de ver e tocar, do mal-estar que se vivia no conjunto do grupo e na comunidade.

É por causa deste mal-estar, desta divisão e suspeita, que a saudação de Jesus em cada uma das aparições é a saudação da paz, um convite a que a sua paz esteja no coração de cada um, porque só esta paz pode pôr fim à divisão e à suspeita, à falta de confiança uns nos outros. É uma saudação que nos é dirigida em cada domingo, cada dia que celebramos a Eucaristia, em cada momento como um convite a superar as nossas dúvidas e divisões, porque Deus sabe que o medo e a suspeita são instrumentos do mal.

E com o coração pacificado podemos receber o Espírito Santo, o espírito que o Senhor ressuscitado soprou sobre cada um deles, e desta forma, em paz e com o poder do Espírito podemos recuperar e garantir a unidade da comunidade, podemos construir a comunidade nova, a comunidade de um só coração e uma só alma, onde tudo é comum e que parte para a evangelização sem temor e com ousadia como aconteceu depois com os discípulos.

Uma ousadia que está patente em Tomé, não só quando questiona e duvida do testemunho dos seus companheiros, mas que já antes habitava o seu coração, pois não podemos esquecer que quando Jesus anuncia que vai ser morto em Jerusalém, Tomé é aquele que desafia os companheiros a ir com o mestre para também serem mortos. Tomé é um radical.

Contudo, o Evangelho diz-nos que Tomé é o Dídimo, ou seja, o gémeo, ainda que em lugar algum se diga qual é o seu gémeo, talvez porque somos todos nós, nos representa a todos nós, nas nossas dúvidas e petições, no nosso desejo de tocar Jesus.

E neste sentido, e retomando novamente o quadro de São Miguel de Refojos, podemos dizer que o gémeo de Tomé é São Tomás de Aquino, um dos muitos que Tomé pode ter, e por isso ali está representado naquele quadro. O grande teólogo medieval considera com grande admiração Tomé como um bom teólogo, o bom teólogo, à semelhança de São João Evangelista considerado também o teólogo, porque não se limitam ao que lhes é dado experimentar pelos sentidos, querem mais, vão mais longe na sua experiência de Deus.

O que é permitido tocar a Tomé são as feridas de um homem morto, mas que aparece vivo no meio dos seus amigos. Já por si é uma experiência extraordinária, excepcional, é a experiência pessoal do ressuscitado. Mas Tomé vai mais longe, mergulha numa profissão de fé ao dizer “meu Senhor e meu Deus”, que para São Tomás de Aquino são uma profissão de fé e uma confissão na verdade da humanidade de Cristo e ao mesmo tempo uma profissão de fé e uma confissão de fé na divindade de Jesus. O superficial leva ao profundo, os sentidos ao espírito.

E é interessante observarmos que no quadro de São Miguel de Refojos é a própria mão de Cristo que conduz a mão de Tomé a tocar a chaga do lado. No quadro certamente mais conhecido desta representação, o de Caravaggio, vemos o discípulo introduzir os dedos na ferida de Jesus. Tais pormenores levam-nos novamente a São Tomás de Aquino que considera o teólogo como aquele que não se satisfaz com o superficial, com a observação desde o exterior, mas quer aprofundar e conhecer o mistério desde o interior.

A mão que conduz à ferida de Jesus, os dedos que Caravaggio pinta no interior da chaga, são representações do Espírito Santo, conhecido também como o dedo de Deus, é ele que permite passar dos sentidos à fé, da experiência do ressuscitado à proclamação da fé “meu Senhor e meu Deus”. Só o Espírito Santo nos permite aprofundar nos mistérios de Deus, experiência que não exclui nem invalida a necessidade de sinais. Os discípulos necessitaram ver para acreditar.

E se São Tomás de Aquino aparece representado ao lado de Tomé é porque também ele ao cantar o mistério da Eucaristia não deixou de ter em conta esta necessidade de sinais, é por meio deles que nos podemos aproximar do mistério, necessitamos todos de sinais, para perceber e viver a Eucaristia, para perceber e viver a Igreja como corpo místico de Cristo.

E paradoxalmente fazemos esta experiência na nossa realidade humana quando depois de uma cirurgia mostramos as cicatrizes que nos ficaram na pele; como se o outro se não tiver oportunidade de ver lhe fique vedado o conhecimento real, de certa maneira a participação no nosso mistério de passar por uma experiência de morte.

Por isso ao celebrarmos a Divina Misericórdia neste domingo, esta porta que Deus nos abre de o conhecermos no seu amor infinito por cada um de nós, somos desafiados na nossa fé e caridade. Antes de mais nos juízos que tantas vezes fazemos sobre os outros. O que conhecemos das suas feridas, até onde as tocámos, para podermos dizer alguma coisa? Por outro lado, na unidade das nossas comunidades. Quantos medos e suspeitas nos impedem a unidade e limitam a missão? E por fim, na nossa própria formação. Quantas dúvidas e questões não deixámos que nos afastassem em vez de nos aproximarem do mistério de Deus?

Somos todos gémeos de Tomé, nas dúvidas e questões, na necessidade de ver e tocar, mas com a luz e a força do Espírito Santo possamos ser do grupo dos bem-aventurados que o Senhor chama porque acreditaram sem terem visto, porque à semelhança de Santa Catarina de Sena quanto mais aprofundavam mais desejavam aprofundar.

 

Ilustração:

1 – A Incredulidade de São Tomé, São Miguel de Refojos, Cabeceiras de Basto.

2 – A Incredulidade de São Tomé, Caravaggio, Sansscouci Picture Gallery, Potsdam.

   

domingo, 21 de março de 2021

Homilia Domingo V da Quaresma - Ano B

Queridos Amigos

A leitura que escutámos da Epístola aos Hebreus diz-nos que Jesus durante a sua vida mortal dirigiu preces e súplicas àquele que o podia livrar da morte. O momento que mais profundamente recordamos esta vivência e petição de Jesus é certamente o do momento da agonia de Jesus no jardim das oliveiras: Pai se for possível que se afaste de mim este cálice. Mas houve outros e o Evangelho de São João que hoje escutámos apresenta-nos outro.

Uma leitura e um momento que nos colocam perante um facto inevitável, uma realidade profundamente e intrinsecamente humana que todos nós vivemos e que Jesus não pôde também deixar de viver como verdadeiro homem.

Vivemos um processo de desenraizamento, usando uma imagem muito bíblica, vivemos em constante trabalho de parto. Desde que nascemos, ou melhor, desde que fomos concebidos vivemos num constante nascimento, num constante processo de partida, como se o lugar, o tempo e o modo em que nos encontramos fosse uma terra de exílio, um Egipto que temos que deixar para trás.

E paradoxalmente, vivemos este processo de forma descontinuada, como momentos de pausa para respirar fundo, e outros momentos para fazer força, muita força para que a vida nova veja a luz. As mães que estão aqui presentes sabem muito bem do que estou a falar. E há a dor, a angústia, o sofrimento, mas depois a alegria, a vida nova que se pode tomar nos braços. E nós homens, muitas vezes estamos lá ao lado para cair para o lado.

Jesus sabe como tudo isto funciona, como funcionamos, como somos capazes de fazer força, outras vezes como necessitamos de parar para respirar, de como estamos feitos para a vida e uma vida nova nos espera; mas para além disso, para além desse saber, ele sabe também que nenhuma dor lhe será poupada, que vai sofrer também as dores do parto de uma nova vida, que vai dar à luz, não um homem ou uma mulher, mas uma humanidade.

E por isso as suas palavras de que tem a alma em sofrimento, perturbada, em angústia; é uma manifestação da solidariedade para com as nossas dores, as nossas angústias e sofrimentos, mas é igualmente a manifestação da nossa profunda humanidade animal, que como bichos acossados, encerrados numa armadilha, procuram uma forma de escapar, um meio de sobrevivência. Face ao horror da morte como podemos escapar dela?

E paradoxalmente, inexplicavelmente, nós acreditamos num Deus que se deixou pregar numa cruz, que se deixou matar, que suportou o sofrimento. Como é que podemos acreditar? Jesus não nos livra da morte, da experiência da morte, coloca-a bem diante dos nossos olhos. Não é mais fácil escolher outro Deus, um ídolo que é um bezerro de ouro, dizermo-nos ateus?

E contudo, no meio desta trama da nossa vida, em resposta ao pedido para que o Pai glorifique o seu nome, uma voz que se faz ouvir do céu: já o glorifiquei e tornarei a glorificar. Na tua dor, na tua angústia, nesta terra de exílio e escravidão, és o meu filho muito amado, tens a garantia do meu amor de forma imutável, eterna, inquestionável.

Não são já os sacríficos antigos, os holocaustos, uma lei exterior que te governa e coloca em relação comigo, é a lei que inscrevi no teu coração, que gravei no mais íntimo do teu ser. Eu sou o teu Deus e tu és o meu povo, o meu filho, sois meus filhos. Eu amo-vos e espero apenas o vosso amor.

A assim, a vida perdida em amor, convertida em desapego e desenraizamento, em constante processo de nascimento, é uma vida válida, é uma vida para a vida eterna, como dizia o frei Bernardo uma vida vivida com dignidade garante-nos a dignidade eterna.

Jesus não nos propõe uma escapatória à morte, ele experimentou-a por cada um de nós e para cada um de nós, para nos propor uma caminhada de vida, para converter o nosso desenraizamento, para que a nossa partida deste exílio seja vivida sem amargura e azedume.

Não se trata de odiar a vida, mas amá-la com tudo o que ela encerra, vivê-la como única, irrepetível, inseri-la na longuíssima e eterna vida de Deus.

Como rezávamos no Salmo, Senhor, cria em mim um coração puro, um espírito firme, sustenta-me com um espirito generoso, para viver na tua presença, para viver o teu espirito de santidade, para ser luz nos caminhos dos homens nossos irmãos.   


Ilustração:

1 – Jesus ensinando a multidão, gravura de Heinrich Hofmann.

domingo, 14 de março de 2021

Homilia Domingo IV da Quaresma - Ano B

Queridos Irmãos

Continuamos a nossa caminhada quaresmal, a nossa preparação para a celebração da Páscoa, que em cada domingo da Quaresma se desenha no horizonte, tal como acontece hoje na leitura do Evangelho de São João e nesta cor festiva que quebra o roxo penitencial e nos convida a uma renovada alegria, a um espírito renovado da conversão. É a alegria, é a festa que nos espera ao fim desta caminhada.

A história de Nicodemos que escutámos na leitura do Evangelho de São João é a história de todos e cada um de nós, uma história de homens e mulheres que se encontram na noite, ainda que povoada de conhecimento e de sabedoria, mas obscura, sem a verdadeira sabedoria que dá a luz para o sentido da vida Nicodemos vem de noite, mas tal como lhe diz Jesus, ele é um mestre, é alguém que transporta um conhecimento que lhe deveria permitir dar um passo mais. Mas falta-lhe algo para que isso possa acontecer.

Nesta noite e neste encontro, que no seu términus parece não ter alterado muito a pessoa de Nicodemos, algo acontece, algo extraordinário, que leva à passagem da noite à luz, do encontro escondido à manifestação pessoal e convicta, ao testemunho presencial.

No Evangelho de São João, Nicodemos aparece por três vezes, neste primeiro encontro nocturno, às escondidas, no momento em que se decide a morte de Jesus e no qual Nicodemos sai em defesa de Jesus invocando a lei e o direito à defesa, portanto numa manifestação pessoal convicta que leva à acusação e suspeita de que possa ser dos influenciados por Jesus, e por fim no momento da sepultura do corpo de Jesus, em que aparece com as de mirra e aloés, uma quantidade de perfume e essências próprias para a sepultura de um rei.

Neste encontro de Nicodemos com Jesus que o Evangelho nos apresentou, a resposta de Jesus é feita de um conjunto de conceitos, expressões de vida, como o amor, o julgamento, a verdade e a luz, que estão de tal modo imbricados, torcidos, que tal como numa corda não poderão ser separados, pois tornar-se-iam demasiados frágeis e insustentáveis. E esta unidade, este entrançado, aparece num único nome que nos é proposto e poderemos assumir impronunciável, e que é o nome de Deus. É no nome de Deus que se unem o amor e o juízo, a verdade e a luz.

E é perante esta realidade, este nome que cada um de nós deve procurar a melhor atitude, a melhor resposta, que numa relação com a luz não poderemos deixar de apresentar como a lucidez. É esta atitude, esta virtude que em cada um de nós pode de certa maneira corresponder ao que Deus nos manifesta na nossa capacidade de acolhimento.

A lucidez é um trabalho, um processo de consciência que tende a colocar à luz, a iluminar, o que em nós não é fácil de iluminar, de se revelar. E Jesus, muito antes de Freud, revela esta dificuldade humana do nosso psiquismo que exerce o seu poder de esquecimento e de ocultamento daquilo que de uma maneira ou outra foi para nós doloroso, temeroso, humilhante, no conjunto das pretensões da nossa personalidade.

E por isso, como diz Jesus, nós preferimos as trevas à luz, pois ao mantermos na escuridão no profundo do nosso ser e do nosso medo as falhas e feridas, as frustrações das nossas ilusões, nós esperamos evitar a lâmina cortante da verdade e do julgamento

Contudo, como podemos encontrar sem a lucidez face a estas realidades fracturantes que conduz à verdade, ao julgamento e à luz e finalmente ao amor. Ao amor de nós próprios e ao amor dos outros. Como podemos verdadeiramente amar sem nos conhecermos, e conhecer nos ombros dos outros as nossas próprias sombras, falhas e faltas, nos seus julgamentos sobre cada um de nós as nossas próprias intransigências para connosco próprios?

Deus não enviou o seu Filho ao mundo para o julgar, mas para que o mundo seja salvo. A salvação vem de Deus como nos diz a leitura da Carta aos Efésios. O filho Jesus Cristo, é, portanto, essa luz que desde o prólogo do Evangelho de São João nos é apresentada como para a nossa salvação, para a nossa iluminação, que nos é oferecida para o nosso acolhimento.

Deus renuncia ao julgamento da condenação, porque o seu juízo é uma iluminação, é um colocar à luz do que é o seu amor, o seu desejo de realização, e as nossas potencialidades.

E no seguimento de Nicodemos, o que Jesus nos pede é de aceitar sem medo esta luz, esta iluminação, este deixar sair à luz os nossos medos e fracassos, porque a luz que nos é oferecida é amor, é o amor de Deus.

Como já dissemos, a experiência desta luz que Jesus nos traz, vai remodelar a vida de Nicodemos, não é num momento mágico que tudo se resolve, e a remodelação é de tal modo que o leva a não ter medo de se opor à forma como o pretendem condenar e depois, já elevado na cruz, de receber o seu corpo como um tesouro, como o corpo de um rei, poderíamos dizer como o corpo da eucaristia que cuida e recebe com a maior das devoções e consideração.

Que a luz de Jesus ilumine os nossos recantos escuros, os nossos medos, de modo a que o possamos acolher como vida, como luz, como verdade, que nos encoraja e seguir em frente, a lutar pelo bem que Deus coloca no nosso coração e espera de nós nas nossas obras.   

Ilustração.

1 – Nicodemos e Jesus, de Henry Ossawa Tanner. USA.

domingo, 7 de março de 2021

Homilia Domingo III da Quaresma - Ano B

Caríssimos Irmãos

A leitura do Evangelho que escutámos, coloca à nossa consideração, neste domingo da Quaresma, o acontecimento designado como expulsão dos vendilhões do templo, um acontecimento que podemos dizer escandaloso pela marca de violência que encerra nos gestos de Jesus.

Sabemos que é um dos gestos radicais de Jesus, ou pelo menos o que é recordado com traços de violência, que vai precipitar a sua prisão e condenação, e por isso os Evangelhos Sinópticos, Mateus, Marcos e Lucas, colocam este episódio na semana imediatamente anterior à prisão de Jesus.

Contudo, o Evangelho de São João, que escutámos hoje, coloca este acontecimento no início da sua narração; e, não fosse a insistência da mãe a Virgem Maria nas bodas de Caná, este era verdadeiramente o primeiro facto da vida pública de Jesus do Evangelho de São João, um facto que marca e faz a diferença.

Assim, não podemos ler este acontecimento e gesto intempestivo de Jesus como um acto de rebelião ou condenação do sistema religioso, uma condenação do templo, ou dos rituais; e isto, não só porque Jesus frequentou o templo em outras circunstâncias, como nos é relatado pelos Evangelhos, como até se serviu dos gestos rituais para nos ilustrar a mudança necessária na nossa relação com Deus, como no caso do publicano e do fariseu que se contrapõem na sua justificação e na sua penitência, ou da oferta da viúva pobre e do rico ofertante.

Jesus não pode condenar aquilo que é antropologicamente, humanamente, necessário ao homem, o rito, o culto, os templos, que são meios que o homem necessita para a sua vida, para ser verdadeiramente homem, para se encontrar com os outros homens, para iluminar a sua caminhada comum, para dar um horizonte comum, como ainda agora pudemos testemunhar nesta viagem do Papa ao Iraque, e como podemos constatar também na primeira leitura do Livro do Êxodo, onde encontramos um conjunto de preceitos que são comuns a quase todos os povos e culturas, antropologicamente fundamentais, e por isso assumidos como sagrados, de origem divina na história bíblica.

O gesto violento de Jesus, e que São João coloca logo no início do seu Evangelho quer dizer-nos que a nossa relação com Deus, ainda que mediada por gestos ou ritos, por construções ou ofertas, não pode reduzir-se a isso, não pode ficar limitada a essa exterioridade, uma vez que se torna uma idolatria na disfuncionalidade que pode provocar.

O verdadeiro culto é o que é prestado desde o coração, desde a nossa totalidade de homens e mulheres, com as nossas fragilidades e dons, como nos é dito pelo salmista no Salmo 40: “Tu não desejas sacrifícios nem oferendas, mas abriste-me os ouvidos, tu não pedes nem holocaustos nem sacrifícios pelos pecados, e eu digo eis-me aqui para fazer a tua vontade, para cumprir a lei que colocaste no fundo do meu coração”.

A apresentação que São João nos faz deste acontecimento no início do Evangelho vai conduzir-nos a essa realidade que Jesus assume de forma perentória e paradoxal, o verdadeiro templo de Deus é o seu corpo, podemos dizer como ele, é o nosso corpo, este conjunto de matéria perecível no tempo, mas habitada por uma vida, um desejo de felicidade e plenitude que a relação com Deus ilumina e realiza. E por isso o apelo de Deus a viver bem, à realização plena através da colaboração na obra da criação. Os preceitos e mandamentos são instrumentos para essa realização.

A narração de São João e a sua lógica estrutural conduz-nos também a essa novidade de que em Jesus pelo amor da sua vida e da sua entrega se realiza o verdadeiro e pleno sacrifício e os homens não necessitam de realizar mais holocaustos, mas apenas necessitam assumir a sua oferta, querer participar dela, ser beneficiários dela.

A leitura deste domingo do Evangelho termina com a afirmação de que Jesus bem sabia o que há no homem, de bom e de menos bom, e por causa do zelo e ciúme de que nos falava o livro do Êxodo Deus não deixa de vir ao nosso encontro, de nos procurar no pouco que podemos fazer para nos incentivar e desafiar a mais. Podemos dizer que é a fraqueza de Deus, o seu amor louco por nós, obra das suas mãos.

Procuremos, pois, beneficiar dessa loucura, deixando que com a sua graça o Senhor faça crescer em nós o bem que fazemos, o bem que podemos realizar.

Ilustração:

1 – A Purificação do Templo, de El Greco, The Frick Collection, Nova York.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Homilia Domingo II da Quaresma - Ano B

Caríssimos Irmãos

No domingo passado a leitura do Evangelho conduzia-nos ao deserto e às tentações de Jesus, hoje eleva-nos ao monte Tabor, conduz-nos à transfiguração de Jesus. Um monte e um acontecimento que não podem deixar de ser colocados no horizonte de outro monte, de outro acontecimento, o monte do Gólgota e a crucifixão de Jesus.

E se alguma dúvida pudesse existir sobre este alinhamento, esta permuta de montes e acontecimentos, a Liturgia da Palavra, na leitura do Livro do Génesis com o sacrifício do filho de Abraão, bem como a leitura da Carta aos Romanos, com a referência à entrega do filho por parte de Deus Pai, desfazem-nos essas dúvidas.

Ao dar os primeiros passos na nossa caminhada para a Páscoa é-nos oferecida uma linha de orientação, um horizonte; o que podemos sofrer, o sacrifício que podemos viver, as mortes que podemos experimentar, estão precedidas pela luz da glória, pela transfiguração. Tal como acontece no relato do sacrifício de Isaac sabemos que Deus providenciará, é dessa forma que responde Abraão ao filho quando este lhe pergunta pelo cordeiro para o sacrifício. Deus providenciará o que nos falta.

A proximidade do monte Tabor e da transfiguração com o monte Gólgota e a crucifixão de Jesus conjuga-se, no entanto, em opostos, em contrários, pois se no monte Tabor Jesus é transfigurado pelo grande amor do Pai, no monte Gólgota ele é desfigurado pelos nossos pecados. E num e noutro momento os nossos olhos ficam cegos perante os acontecimentos e o mistério que os envolve. E por causa desta cegueira, as nossas atitudes e os nossos gestos sofrem igualmente uma inversão, padecem de contradição, e acontece-nos o que os Evangelhos nos relatam das testemunhas presentes aos acontecimentos.

Assim, no momento da transfiguração, quando se manifesta a glória de Jesus, os três discípulos presentes ficam cheios de medo, apavoram-se perante o que presenciam, esquecendo-se de adorar o Senhor, como seria normal num momento como aquele. Neste contexto, não nos podemos esquecer que Pedro, que está presente, uns dias antes tinha afirmado a sua fé respondendo que Jesus era o Messias, o Filho de Deus. Este acontecimento comprova-lhe a afirmação realizada anteriormente. A atitude não deveria ser de medo. Por outro lado, no momento da elevação da cruz no alto do Gólgota, no momento total da desfiguração, quando todos fogem, são aqueles que são considerados os mais fracos, as mulheres e o discípulo amado, que permanecem e adoram, sem medo. Quando já nada há a esperar permanece o amor.

As atitudes de uns e outros perante os acontecimentos e a sua dimensão extraordinária mostram-nos a fatalidade da nossa condição de discípulos, de crentes, de homens e mulheres que vivem em contradição, pois temos a consciência de que não vivemos fielmente como Deus nos convida e espera de nós, e tão pouco vivemos como é habitual viver no mundo.

Esta situação paradoxal conduz-nos à tentação de Pedro, de querer aprisionar os momentos, os momentos de felicidade, pelo prazer e pela alegria que nos trazem, mas também os momentos de dor, quando nos recusamos a assumir essa dor e a fechar a ferida, quando não acreditamos que temos força para superar a dor. Afinal como é bom estarmos aqui, nesta experiência feliz, mas também na dor, porque mudar e sair da dor exige força, uma transfiguração de nós.

Esta tentação da materialidade do momento, se assim se pode dizer, está à nossa porta, tal como a sabedoria, e se temos de combater a tentação, temos também de nos agarrar à sabedoria, deixar-nos guiar por ela, pois como noz diz no livro de Eclesiastes há um tempo para tudo debaixo do sol, um tempo para colher pedras e um tempo para as arremessar, um tempo para chorar e um tempo para rir.

E Deus sabe das nossas fraquezas e da nossa necessidade de pararmos, de colhermos forças, para continuar a caminhada, a luta da vida. Deus aprova e acolhe os nossos momentos de descanso, sabe como nos são necessários, mas não podemos ficar aí, nem podemos desanimar, há um futuro para viver.

Por isso no início da Quaresma o mistério da transfiguração, por isso em cada semana o domingo, para nos darmos tempo, para nos fortalecermos, animarmos. Deus não procura o sacrifício do que amamos, mas oferece-nos o seu Filho amado, para que o escutemos, para que experimentemos o seu amor, para que nos deixemos conduzir pela sua palavra e por meio dela transfigurar-nos e transfigurar a realidade à nossa volta.

Ilustração:

1 – Transfiguração, de Francesco Zuccarelli, Kunsthaus Lempertz.