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sábado, 12 de maio de 2012

A Profissão Religiosa de Santa Joana Princesa

Ao celebramos a memória de Santa Joana Princesa, apresentamos mais um excerto da biografia elaborada por frei Manuel de Lima para o “Agiológio Dominico”, publicado em 1710. Desta feita o capítulo no qual é relatada a sua entrada no Mosteiro de Jesus de Aveiro e a profissão religiosa.

Resoluta com a licença a recolher-se em Aveiro, escreveu El Rei à Fundadora, que era juntamente Prelada, aparelhasse o melhor que pudesse, um quarto, para a Princesa sua filha, que intentava viver em sua companhia. Chegou à sobredita Vila a 30 de Julho do mesmo ano [1472], e não quis entrar logo no Mosteiro, reservando-o para os 4 de Agosto, em que celebramos a festa de Nosso Pai São Domingos. Depois de ouvir Missa, e beijar a mão do pai, despedindo-se dele, e do Príncipe com ânimo varonil, entrou no Mosteiro: onde foi recebida com o gosto, e contentamento, que se deve supor.
Mostrou o Senhor com especial milagre o quanto lhe agradava a vinda desta sua Esposa, e o muito que havia de ilustrar o Convento com a sua virtude: porque alguns meses antes aparecia sobre o Mosteiro um grande cometa, que de alguma sorte designava o lugar, em que se havia de fazer a cela para a princesa, sem que o nublado, e tenebroso das noites pudesse ocultar a sua claridade.
Trazia esta novidade confusas as santas Religiosas: porque não sabiam ainda a boa fortuna, que se lhes prognosticava. Porem no mesmo dia, em que entrou Dona Joana, vieram em conhecimento do prodígio: porque como o astro tinha satisfeito à sua obrigação, e completa a sua embaixada, na mesma noite desapareceu, e não foi mais visto.
Deu-lhe El Rei para seus sustento a Vila de Aveiro, e grande parte das terras à roda, com uma boa renda para as suas necessidades, e do Mosteiro; e depois de tratar com ela alguns negócios importantíssimos ao Reino, voltou para Lisboa.
Não recebeu logo o hábito tanto que entrou na Clausura, por estar impedida pelos Grandes do Reino: esperou ocasião, para poder declarar-se com mais segurança. No entanto não faltava nos exercícios da Comunidade, acudindo a todos com grande prontidão; especialmente a todas as horas do Coro, e Matinas à meia-noite. Para este fim mandou fabricar a sua Cela junto a este lugar, comprando uma vinha; cuja maior parte é hoje a horta do Convento.
Passados três anos, enfadando-se já de ser ver em trajes de secular, entre as Esposas de Cristo, sem mais licença, nem conselho, buscou um dia a Prioresa, e lhe disse, que estava resoluta a vestir o hábito, e entrar no Noviciado. Recebeu esta nova Sor Brites Leitoa, com grande contentamento, vendo a honra, que adquiria, não só o Mosteiro, mas a Religião. Mandou concertar o Capítulo com a maior riqueza, que pôde, para fazer esta nobre função.
Dia da Conversão de São Paulo, depois de Matinas, apareceu neste lugar a Princesa com um vestido pouco custoso, e muito chão, acompanhada da Mestra de Noviças, e prostrou-se por terra com todo o corpo aos pés da Prioresa. Perguntou-lhe esta, que pedia? E respondeu, conforme o costume da Ordem: A misericórdia de Deus, e a vossa. Fez-lhe a prelada uma devota prática, representando-lhe a grande misericórdia, que o Senhor lhe fazia, tirando-a do turbulento mar do século (onde são tanto maiores perigos, quanto superiores os lugares) para o seguro porto da Religião; declarando-a por Esposa, não do Rei de um Reino limitado, mas sua, que é Rei Supremo.
Principiaram as Religiosas a cantar com mais lágrimas, que com vozes, o Hino: “Veni creator Spiritus”, e a Prioresa cortando os formosos, e dourados cabelos da Princesa, e tendo-a ajoelhada a seus pés, lhe vestiu o sagrado hábito.
Quais fossem neste acto os afectos, ternura, e devoção na Santa infante, não pode cabalmente explicar humana escritura. Bastará dizer que vendo-se vestida com a cândida gala de seu venerado Patriarca São Domingos, foi tal a sua alegria, e contentamento, que prostrada diante do Altar maior, como fora de si mesma, porque estava já toda entregue a Deus, perseverou em larga oração até a hora de Prima, oferecendo-se em holocausto ao Divino Esposo. [1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1710, 320-321.

Ilustração: "Santa Joana Princesa de Portugal", de Palomino e "Lembrança da Peregrinação da cidade de Aveiro ao Glorioso Sepulcro da Santa Joana Princesa no dia 15 de Janeiro de 1939". 

domingo, 15 de maio de 2011

A morte de Santa Joana Princesa

Ao celebrarmos a Festa de Santa Joana Princesa, contemplamos os últimos momentos da sua vida segundo o relato do século XVIII do dominicano frei Manuel de Lima.
“Entrou o mês de Maio de 1490 e nele foi assaltada de um acidente tão forte que ficou sem sentidos, e ao parecer de todos, sem vida. Com vários remédios tornou em si, e vendo-se cercada das Religiosas, que com mares de lágrimas testificavam a sua perda, se alegrou intimamente, e agradecendo o cuidado lhes pediu continuassem com as orações e assistências, porque era chegado o tempo em que eram mais necessárias.
No dia da Tina de São João, de quem também era devotíssima, fez a última confissão geral. Levantou-se na cela um altar, ornado de várias imagens de santos, que pediu deixassem estar até à sua morte. Aqui se disse Missa, e comungou com fervoroso espírito e lágrimas, e quis logo o Sacramento da Unção. Antes de o receber pediu com grande humildade perdão à Comunidade, particularmente das inquietações e moléstias que por seu respeito tinham experimentado. Quando recebeu este último Sacramento, a cada uma das formas repetia com grande dor e contrição: Pequei Senhor, perdoai-me, tende misericórdia de mim.
Tinha o corpo tão mirrado e seco que já se não achava nele humor que lançar pelos olhos, e afligindo-se a serva de Deus de lhe faltarem as lágrimas, disse à prioresa com sentimento: Que será de isto, Madre, que não posso chorar as minhas culpas? Receba o Senhor minha vontade porque o meu corpo já não pode mais.
Viveu ainda seis dias, em que o Divino Esposo acabou de purificá-la por meio de cruelíssimas dores, que sofreu alegremente, entendendo que era os últimos correios dos desejados desposórios.
Não temais Senhora, lhe disse uma freira, porque estando crucificada entre tantos tormentos, não podeis ser separada do sumo bem que por nós morreu em uma cruz.
Não temo, respondeu ela, perder já o Senhor em quem creio, porque a sua misericórdia é tanta, que espero me perdoará, como quem deu por mim a vida, sendo a maior de todos os pecadores; mas não se admire, Madre, que eu mostre tanto sentimento nesta hora, porque não vou para casa de nenhum príncipe terreno, aparecer sim em presença de um Rei celestial, e dar-lhe conta de todo o mal que obrei em minha vida e de todo o bem que podia fazer e não fiz.
Choravam todas as religiosas a sua falta e ela consolando-as dizia: Não choreis Irmãs, antes vos alegrai, se é que me amais, pois vedes que vou de uma vida cheia de misérias e de perigos para casa de um bom Senhor, em cuja piedade tenhas firmes esperanças.
Um dia antes do feliz trânsito entraram os médicos a visitá-la e ela os despediu, dizendo que todas aquelas diligências eram tempo perdido. Mandou chamar o seu capelão e encomendou-lhe que dissesse a Missa das Chagas, que era a verdadeira medicina da alma, e o mesmo ordenou que fizessem todos os religiosos e clérigos da vila. Pediu depois à Prioresa que a mandasse sepultar no coro de baixo, às mais religiosas se lembrassem dela e fossem descansar porque na noite seguinte lhe haviam de assistir.
Ficou falando com algumas freiras que não quiseram recolher-se e foi a prática da Glória que no céu gozam os Bem-Aventurados com tanta clareza e gosto como se já estivera de posse dela. Achava-se a este tempo sem forças, porém com todos os sentidos e perfeito juízo. Perguntava a miúdo que horas eram, e quando soube que tinham dado duas, depois da meia-noite, disse que lhe chamassem o confessor. Tanto que este chegou, fez a Confissão em voz alta e clara e pediu-lhe a absolvição e a aplicação de todas as indulgências que os Sumos Pontífices lhe tinham concedido.
Acabada esta diligência pediu uma imagem de Cristo, e apertando-o entre os braços, com os olhos postos nele, disse: Apartai Senhor, a vossa divina face dos meus pecados. E encomendou às religiosas que lhe rezassem algumas orações. Estava a serva do Senhor suando com a agonia da morte. Vendo-a a Prioresa tão desfalecida, lhe perguntou se queria tomar alguma coisa de substância. Não é tempo Madre, respondeu ela, boa substância será ler-me a Paixão do meu Salvador.
Fizeram-no logo as que estavam junto à cama, ouvindo ela com toda a atenção. E quando chegaram ao passo da bofetada que deram a Cristo em casa de Anás, levantou o braço e com toda a força que tinha e pôde, deu em si uma bofetada, dizendo: Oh Senhor, que tanto quisestes padecer pelos pecadores, perdoai-me, e salvai-me, para que seja do número do que vos hão-de amar e louvar por toda a eternidade.
Quando no fim da Paixão se leu como Cristo expirara, disse com um grande suspiro: Eu sempre esperei em vós Senhor, e por isso a vós encomendo a minha alma, que criastes e remistes com o vosso preciosíssimo sangue.
Depois se recomendou à Mãe da Piedade rezando o Hino “Ave Maris Stela”, repetindo com grande afecto e ternura aquela parte: Maria Mãe de Graça, Mãe de Misericórdia, defendei-nos do inimigo e recebei-nos na hora da morte.
Disse o Credo e pedindo a vela benta do Rosário fez sinal à comunidade que começassem o Oficio da Encomendação da alma. Esteve neste tempo com os olhos fechados e quando chegaram às palavras: “Omnes Sancti Innocentes, orate por ea”, ela os abriu com tanto resplendor que causou admiração; e pondo-os no céu, como quem mostrava o caminho ao espírito, o entregou nas mãos de seu Senhor e Esposo, aos 12 de Maio de 1490, tendo de idade 38 anos. Tanto que expirou tornou o corpo a adquirir a antiga beleza.[1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1710, 326-327.



terça-feira, 12 de maio de 2009

Festa de Santa Joana Princesa de Portugal

SANTA JOANA PRINCESA

A Ordem de São Domingos celebra hoje a festa de Santa Joana Princesa, filha natural do rei D. Afonso V e filha religiosa do Mosteiro de Jesus de Aveiro.
Nasceu em 1452 e pelo facto de ser herdeira jurada do trono, pela morte do irmão mais velho, durante a ausência do pai e do irmão mais novo foi regente do Reino. Esta condição de jurada pelas Cortes trouxe-lhe alguns trabalhos e sofrimento aquando da entrada para o mosteiro, pois não era senhora de si nem da sua vontade. Já no mosteiro e mesmo depois de professa teve ainda que suportar as diligências do irmão, que por várias vezes a tentou demover da decisão tomada e retirar da clausura.
A Princesa Santa Joana viveu dezoito anos no mosteiro de Aveiro, vindo a falecer a 12 de Maio de 1490.
Na sua representação iconográfica aparecem como elementos identificadores três coroas reais, o hábito, a coroa de espinhos e o crucifixo.
As três coroas representam os três pretendentes a casamento que recusou. Foram eles Maximiliano, filho do imperador Frederico e rei dos Romanos, Ricardo III de Inglaterra e Luís XI de França. O hábito é o de monja dominicana e a coroa de espinhos o nome religioso que tomou aquando da profissão, pois passou a chamar-se Soror Joana da Coroa de Espinhos. O crucifixo representa a grande devoção que sempre mostrou pela paixão e morte de Jesus e por este símbolo da nossa salvação.
Assim a descrevem na sua vida de clausura religiosa:
“Não houve hábito de virtude que ela não vestisse com o da religião. Foi sumamente humilde, ocupando-se nos ministérios mais ínfimos e trabalhosos do mosteiro, como carregar sobre os delicados e reais ombros pedras e tijolos para a fábrica da sua cela e mais obras da casa. Amaçava o pão, lavava a roupa, varria as casas e em todo o trabalho não só igualava mas excedia a todas.
Na pobreza foi tão fina que se despojou de tudo, até de um relicário e uma cruz de relíquias que lhe tinha dado a rainha sua mãe quando estava a morrer para que se lembrasse dela. Como eram peças de ouro julgou que não convinham ao seu estado.
Foi tão exacta na observância regular que não passou um ponto do que mandam as nossas Constituições, não querendo que dela fizessem diferença de uma religiosa conversa das mais humildes. Já mais quis ouvir o título de Alteza ou Princesa, trocando todos pelo de Soror Joana da Coroa de Espinhos. Se a Prioresa, designando as freiras para os Ofícios ou ocupações da semana a mandava nomear por Infanta Soror Joana, servia-lhe isto de grande mortificação e o sentia com vivas lágrimas. A familiaridade com que tratava a todas era como se fossem iguais em tudo.
No tempo das recreações as suas práticas eram de coisas espirituais. Era tão diligente em conservar a pureza da consciência, que além de ser nas suas acções e palavras vigilantíssima, fazia todos os dias rigoroso exame apontando o mínimo escrúpulo ou sombra de defeito num livrinho de memória que trazia consigo.
Desde o dia em que vestiu o hábito não desceu mais à grade senão para tratar matérias espirituais com pessoas graves e de singular espírito. Na caridade foi ardentíssima e deixando em silêncio as esmolas que fazia, é inexplicável o afecto e ternura com que servia às enfermas, consolando-as e abatendo-se a exercitar os ofícios mais vis. Se sabia que alguma freira estava aflita buscava-a logo para aliviá-la e fazia diligência por saber a causa para dar lhe o remédio. Estava tão satisfeita da nova vida que se lhe enxergava no rosto o contentamento da alma, e costumava dizer que se no mundo havia estado que invejar era o da religião.
Sendo o voto da obediência o grilhão mais pesado, a Soror Joana parecia facilíssimo, dizendo que de boa vontade mercara com a mesma vida o ser Religiosa, quando não fosse por outra coisa mais que por estar sujeita a outrem e renunciar à própria vontade de que se seguiam tantos danos.
Com o exemplo da Santa Princesa se aumentava nas mais a observância, o retiro e o exercício de todas as virtudes, envergonhando-se e confundindo-se de se mostrarem mimosas e delicadas à vista de uma senhora humilde e rigorosa consigo”.[1]
Quando olhamos para os nossos mimos, privilégios e regalias, para o que hoje exigimos na vida religiosa, como nos devíamos sentir envergonhados e confundidos e interrogar sobre quais deveriam ser as nossas verdadeiras prioridades e preocupações para sermos um testemunho no mundo.
[1] LIMA, Fr. Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 321.