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domingo, 12 de agosto de 2012

Os Dominicanos e os Jogos Olímpicos

No dia em que terminam os Jogos Olímpicos de Londres de 2012 acabo de ficar conhecedor de mais uma história surpreendente em que os dominicanos estiveram envolvidos, a história dos próprios Jogos Olímpicos.
Já tinha escutado outras, faz parte da iniciação na mística e no “glamour” da Ordem de São Domingos, mas tenho que confessar que desconhecia completamente esta, e me dá imenso gozo, nomeadamente pelo prazer que desfrutei em alguns dos últimos dias vendo as transmissões de diversas provas olímpicas.
E como tudo começa num princípio, tudo começou em 1832, perto de Grenoble, no Seminário Menor de Rondeau. Ali, nesse também ano bissexto, foram recriados os jogos olímpicos antigos, através de provas desportivas que procuravam colocar em valor a cultura clássica grega.
Organizados pelos alunos do Seminário, os jogos possuíam já um Código Olímpico, uma cerimónia de abertura e outra de encerramento, provas individuais e entrega de medalhas aos melhores classificados. E de quatro em quatro anos voltavam a realizar-se.
Em 1855 um jovem aluno destaca-se pelo seu espirito olímpico e pelo conjunto de vitórias e medalhas alcançadas. Chamava-se Henri Didon, tinha quinze anos, e no ano seguinte de 1856 receberia o hábito na Ordem dos Pregadores.
Ordenado padre torna-se um pregador conhecido e reconhecido, amigo de Flaubert, Maupassant e Pasteur, figuras de proa da cultura francesa do século XIX. Algumas ideias do seu pensamento e da sua pregação não são aceites pela hierarquia da Igreja francesa, o que lhe provoca o exílio durante um ano na ilha de Córsega.   
Em 1890, ano da publicação do seu best-seller internacional “A Vida de Jesus”, foi nomeado Director da Escola Dominicana de Arcueil, perto de Paris e ali instaura os jogos que tinha conhecida na sua juventude no Seminário de Rondeau.
No ano seguinte, 1891, encontra-se com Pierre de Coubertin que lhe pede a colaboração na organização de um torneio desportivo entres escolas católicas e laicas.
O Padre Didon lança-se então na aventura das competições e nesse mesmo ano e para o primeiro torneio cria a divisa que ainda hoje marcam os Jogos Olímpicos, “citius, altius, fortius”, “mais rápido, mais alto, mais forte”.
É uma divisa que se aplica bem ao desporto e aos atletas, à vida intelectual e aos investigadores, mas sobretudo aplica-se perfeitamente àquele que acredita e deve buscar sempre e mais a plenitude da sua fé.
A divisa criada pelo Padre Didon foi a divisa do primeiro Congresso Olímpico celebrado em 1894. Em 1896, no Congresso Olímpico de Atenas, na celebração da Eucaristia, o seu génio oratório inspirou-o a proferir a famosa expressão, “o importante não é ganhar, mas é participar”.
Até à data da sua morte em 1900 foi um incansável viajante e um apóstolo dos seus princípios pedagógicos. Aos pais dos alunos dizia: “ se preferis um sistema de educação passiva, não esqueçais as suas insuficiências, e recordai-vos que há mais glória em formar um homem livre e de forte iniciativa que cem homens dóceis e incapazes de se conduzirem por si mesmos”. Aos jovens atletas dizia: “na vida não são as pernas que vos poderão trair mas a falta de ambição”.
Pierre de Coubertin guardará da colaboração com o Padre Didon, frade dominicano, educador vigoroso e pouco convencional, um projecto audacioso de formação humana que passa pelo desporto e a competição, mas ao qual não pode faltar nem a liberdade, nem a criatividade, e nem o encontro para lá de todas as fronteiras.
Ao visionar a cerimónia do encerramento dos Jogos Olímpicos, com tanta cor e alegria, tantos atletas e bandeiras das mais diversas representações, como não ficar emocionado sabendo que num determinado momento da história estivemos ali marcando a diferença e colaborando na construção de um mundo melhor.
Ao contemplar os cinco anéis coloridos, que desde os Jogos de Anvers de 1920 simbolizam o ideal olímpico, como não orgulhar-se por também ali estar presente o espirito de São Domingos.
Afinal os Jogos Olímpicos também são Dominicanos!  

Ilustração:
1 – Fotografia do Padre Frére Henri Didon.
2 –Fotografia da tatuagem de atleta dos Jogos Olimpicos de Londres de 2012 com a divisa “citius, altius, fortius”.

domingo, 12 de junho de 2011

Entre o Coro e o decoro

Um dos frades mais velhos da minha comunidade de Lisboa, que viveu durante alguns anos da sua formação em Espanha, costuma dizer que os espanhóis não têm grandes cânticos litúrgicos, que neste aspecto da liturgia deixam muito a desejar.
Como não tenho formação musical, e alguns dos meus irmãos de comunidade dizem que desafino, nunca anui ao seu comentário nem tão pouco o contrariei, pois nas muitas vezes que tenho passado e estado por Espanha, e por diversos lugares de Espanha, tenho encontrado o que habitualmente também encontro em Portugal, gente que canta, umas vezes melhor outras vezes pior.
No entanto hoje, e depois da experiência das Vésperas em gregoriano da Abadia de Silos do dia de ontem, vivi uma dessas experiências que nos fazem pensar que algumas vezes o silêncio é muito mais rico e animador que aquilo que estamos a ouvir ao coro que quer animar a celebração da Eucaristia.
Era uma celebração de Pentecostes, carregada de significado pela solenidade, mas mais ainda porque reunia um conjunto de aldeias numa romaria que tradicionalmente fazem nesta altura. Pelo que me contaram, desde o século dezassete que devido a uma epidemia de peste e a uma praga de gafanhotos que dizimavam a população e as culturas, que os povos das aldeias vizinhas peregrinam aqui, trazendo os seus pendões e estandartes para implorarem a protecção de São Domingos.
Este ano a celebração, presidida pelo pároco de uma das aldeias vizinhas, era animada pelo coro dessa paróquia, um conjunto de simpáticas senhoras, que acredito se empenharam em dar o seu melhor, mas que infelizmente deixaram muito a desejar. Em vez de animar a celebração eram como que uma perturbação, pois os cânticos condiziam mais com uma celebração infantil, de um grupo de catequese do primeiro ano, do que com a celebração de um povo em peregrinação, um povo que luta pela sua terra e pelas suas tradições, orgulhoso das suas tradições e dos seus pendões.
Não posso deixar de assumir que estou habituado na minha comunidade e nas celebrações comunitárias do convento a um tipo especial de música, onde prevalece o ritmo de Taizé e os belos cânticos litúrgicos do dominicano francês André Gouzes. Mas para além deles, gosto de ouvir os cânticos que o pequeno coro da minha paróquia natal canta, cânticos tradicionais ou já suficientemente conhecidos para que toda a assembleia participe cantando. Num espaço e noutro sentimo-nos envolvidos, participantes, ainda que não saibamos cantar ou não percebamos nada de latim
Hoje, contudo, não aconteceu nada disso, porque a assembleia não participou e o coro tão pouco creio que estivesse a sentir e a viver aquilo que estava a cantar. A música não era delas, não era das suas vidas, com tudo o que ela comporta de lágrimas de dor e alegria, e ainda que lhe tenham dedicado bastantes horas de ensaio. Pelo que nos resta um desafio comunitário, a cada comunidade que celebra e em cada celebração, relativamente à animação musical e ao cântico.
São Tomás diz que para uma obra ser bela, ser verdadeiramente arte, necessita possuir várias características como a harmonia, o equilíbrio, a proporção, e outras mais que neste momento e onde estou não consigo ter presentes. Também no canto litúrgico elas devem imperar, mas conjuntamente com elas não podemos deixar de ter presente o decoro, essa sensibilidade para perceber a partir de onde o belo se transforma em horror, a partir de onde o especial se torna inacessível e indiferente.
O cântico e a música litúrgica não são um espectáculo, mas um meio artístico para nos animar e congregar a todos no louvor mais perfeito e mais belo de Deus.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Santíssimo Nome de Jesus

Celebramos hoje a memória do Santíssimo Nome de Jesus, uma devoção que se desenvolveu lentamente ao longo da história da Igreja até ao século XII, atingindo o seu auge no século XV, e que se funda nas próprias palavras de Jesus, no mandamento de pedirmos ao Pai do céu o que necessitamos por intermédio do seu nome.
A leitura da Primeira Carta de São João, da liturgia da Palavra de hoje, dá-nos um exemplo da importância do nome de Jesus e assim podemos ler: “é este o seu mandamento, acreditar no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e amarmo-nos uns aos outros”.
Nos Actos dos Apóstolos encontramos várias situações em que os discípulos actuam fazendo fé no nome de Jesus, fundando a sua acção nesse nome, no mandamento que o Senhor lhes tinha dado de fazerem uso do seu nome. Assim quando Pedro e João são apresentados perante o sinédrio por terem curado um paralítico Pedro defende-se dizendo que o fez em nome de Jesus, nome ao qual se dobram todos os joelhos no céu e na terra.
Esta fé e confiança no nome de Jesus expandiu-se com a própria Igreja e assim vamos encontrá-lo na liturgia primitiva, na celebração dos sacramentos, nos exorcismos e nas recomendações espirituais para o combate contra o maligno e as tentações. É de São João Climâco, século sétimo, este conselho: “quando fores para lugares que temes e te amedrontam não saias mais que armado com a oração; quando chegares ao local, estende as mãos e esmaga os inimigos com o nome de Jesus, pois não há nem na terra nem no céu arma mais forte”.
No século onze Santo Anselmo dá uma nova entoação ao apelo pelo nome de Jesus envolvendo-o numa dimensão amorosa que São Bernardo no século doze vai desenvolver comentando-o no Sermão 15 sobre o Cântico dos Cânticos, entre outros, desta forma.
O nome de Jesus não é somente luz, é também alimento. Não te sentes reconfortado sempre que o recordas? Há alguma coisa que sacie mais o espírito daquele que nele medita? Ou que possa reparar tanto as forças perdidas, fortalecer as virtudes, incrementar os hábitos bons e honestos, fomentar os afectos castos? Todo o alimento é desabrido se não se condimenta com este azeite, insípido se não se tempera com este sal. O que escrevas me saberá a nada se não encontro o nome de Jesus. Se nas tuas controvérsias e dissertações não ressoa o nome de Jesus nada me dizem. Jesus é mel na boca, melodia no ouvido, júbilo no coração.”
No século treze serão as ordens mendicantes, franciscanos e dominicanos a difundirem esta devoção do nome de Jesus, transpondo-a para fora dos muros dos claustros. Depois da celebração do Concilio de Lyon, em 1274, o Papa Gregório X, pedirá numa carta ao Mestre da Ordem frei João de Vercelis, datada de 20 de Setembro desse mesmo ano, ainda antes da publicação do decreto sobre a veneração do nome de Jesus, que os dominicanos dêem execução particular a esse decreto através da veneração do Santíssimo Nome de Jesus em todos os conventos da Ordem.
É desta forma que surgem os altares e capelas dedicadas ao nome de Jesus, as confrarias e irmandades e até algumas práticas rituais, alguns gestos de veneração como a inclinação ao nome de Jesus e a procissão pelo claustro no segundo domingo de cada mês. É também neste espírito e devoção que o beato Henrique Suzo fará gravar sobre o seu coração as letras IHS como sinal de pertença e intima fusão com Aquele cujo nome transporta, fazendo suas as palavras do Cântico dos Cânticos “grava-me como um selo em teu coração”.
Perante estes exemplos e num momento em que a devoção ao nome de Jesus, a fé no seu poder parece insignificante, cabe-nos recuperá-la e usá-la para fazer face aos desafios que cada dia se nos colocam no combate da fé e na fidelidade ao seguimento de Jesus.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cristãos do Contra

No editorial deste mês de Setembro da revista “Le Monde des Religions”, Frédéric Lenoir comenta um ensaio recentemente publicado em França, e da autoria de Jean-Pierre Denis, intitulado “Porque o cristianismo provoca escândalo”. Creio que é suficientemente interessante, e até provocador, para tomar algumas notas, enquanto esperamos que o livro nos chegue às mãos e possamos confirmar o que se ensaiou.
Assim, não podemos deixar de assumir que a contra cultura “libertinária” que nasceu do Maio de 68 é hoje a cultura que nos domina a todos, é a cultura dominante, enquanto que o cristianismo se transformou em algo verdadeiramente periférico, não sei se verdadeiramente uma contra cultura periférica, ou apenas algo periférico.
A contra cultura, que se desenhou no Maio de 68 de uma forma embrionária, evoluiu das margens e da periferia para o centro, tornou-se norma, ganhando aos poucos as consciências, as mentalidades e os consensos sociais, atingindo mesmo e ainda que imperceptivelmente um nível elevado de controlo social. Não temos, por acaso, algum pudor, para não dizer medo, em assumir algumas ideias e posições menos politicamente correctas?
Simetricamente a esta evolução e ocupação cultural o cristianismo foi sendo relegado para a esfera do privado, colocado à margem, gerando aquilo que todos nós sabemos e que habitualmente apelidamos de descristianização. A forma mais visível, todos temos isso claro, é o despovoamento das nossas assembleias dominicais e das nossas igrejas. Mas essa é apenas a ponta do iceberg, porque a questão é mais profunda e não só cultural mas creio que também ontológica.
E neste ponto temos que ter presente e também assumir, que de facto e apesar de dois mil anos de história e de uma época a que chamamos “cristandade”, o nosso mundo e a nossa história deixam muito a desejar em termos de cristianismo. É verdade que temos as catedrais e os mosteiros, a arte e a filosofia, os símbolos e as organizações, o respeito e os direitos do homem, um património cultural e social inquestionável; mas temos também a intolerância, as organizações rígidas e obsoletas, as perseguições e as guerras, uma moral bastantes vezes estreita e constrangedora, uma história e um presente nos quais se mesclam a beleza e o horror, a humanidade e a desumanidade.
Será que não abandonámos a liberdade e a bondade subversiva que marca a mensagem de Jesus, no que diz respeito à moral, à religião e ao poder? Será que a partir do século IV com a associação ao poder e ao governo imperial não se gerou uma confusão enorme entre o que é ser seguidor de Jesus Cristo, cristão na mais radical acepção da palavra, e cristão enquanto membro de um igreja, de uma confissão religiosa, de um grupo social cultural dominante?
Neste sentido, a descristianização em que todos nos inserimos e da qual todos temos consciência pode de facto ser uma bênção de Deus, pode ser uma nova oportunidade para um seguimento mais fiel e verdadeiro de Jesus Cristo, um renascimento da fé à luz dos Evangelhos, na qual o amor do próximo e o amor de Deus serão colunas angulares, na qual uma resistência ao consumismo materialista conduzirá a um novo humanismo e a uma conservação ecológica da casa natural em que vivemos. Necessitamos abandonar os esquemas estereotipados, os espartilhos que nos colocamos em nome e em defesa de uma fé, que a bem da verdade é mais uma consciência ou concepção colectiva, corporativista, que verdadeiramente a consequência de uma experiência pessoal e profunda do mistério amoroso de Deus vivida no seio da comunidade dos irmãos.
Para a prossecução deste renascimento, desta reconstrução cristã, para aproveitar a oportunidade, Jean-Pierre Denis propõe cinco pontos de desenvolvimento: reanimar a cultura, objectar de consciência, ligar o tempo, ultrapassar o visível, refundar o sentido. Projecta-se desta forma um cristão contra cultural, chamado do contra, que não se envergonha dos seus valores e princípios, nem reivindica qualquer poder ou autoridade, mas que se define essencialmente pelo seu poder de objecção face aos desafios e propostas do seu tempo.
O Cristianismo crítico é um cristianismo de objecção, objecção de consciência, objecção pelo testemunho, objecção pela experiência e objecção pela esperança.”
Aproximamo-nos assim de São Paulo e do escândalo que os primeiros cristãos provocavam aos seus contemporâneos, aproximamo-nos da fidelidade de que os mártires dos primeiros séculos são o exemplo mais puro.
Como disse ao início, estas são apenas notas, apontamentos que exigem uma leitura mais aprofundada do ensaio de Jean-Pierre Denis e uma reflexão mais madura das várias propostas aí apontadas. Contudo, e face ao interesse e desejo de todos nós por uma maior fidelidade à liberdade subversiva de Jesus, deixo estas notas para alimentar a partilha e a reflexão.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Carta de São Domingos às Monjas de Madrid

Frei Domingos, Mestre dos Pregadores, à amada priora e a toda a comunidade de monjas de Madrid, saúde e perfeição de dia em dia.
Alegramo-nos muito e damos graças a Deus pelo fervor da vossa santa vida e porque Deus vos libertou do vício deste mundo. Combatei com veemência, filhas, contra o vosso antigo adversário com jejuns, pois não é coroado senão aquele que combate legitimamente (2Tim2,5).
Se até agora não tínheis um lugar no qual pudésseis observar a vossa religião, já não podeis desculpar-vos de não ter, pela graça de Deus, edifícios suficientemente idóneos para guardar a religião. Pelo qual, quero que de hoje em diante se observe silêncio nos lugares proibidos, isto é, no refeitório, no dormitório e na capela. Em todos os demais lugares que se guarde a vossa regra. Nenhuma trespasse a porta e ninguém entre, a não ser o bispo ou algum prelado por causa de pregar ou fazer a visita. Não vos abstenhais de disciplinas e de fazer vigílias. Sede obedientes à vossa priora. Não faleis umas com as outras e não percais o tempo em conversas inúteis.
E porque não podemos socorrer-vos nas coisas temporais não queremos impor-vos a carga de que algum frade tenha o poder de receber ou introduzir algumas mulheres; somente a priora, com o seu conselho, tem esta faculdade.
Mandamos, ainda assim, ao nosso caríssimo irmão frei Manés, que tanto trabalhou e que vos reuniu neste santíssimo estado, que disponha e ordene quanto creia conveniente em tudo isto, para que vos guieis muito religiosa e santamente. Concedemos-lhe autorização para que possa visitar-vos, e corrigir, e se for necessário depor a priora com o consentimento da maior parte das monjas, e facultamos-lhe ainda, no caso de se julgar conveniente, que vos possa dispensar em algumas destas coisas.
Saúdo-vos em Cristo.

A carta de São Domingos e os poderes que entrega a seu irmão Manés mostram o seu interesse pelas monjas e pela fidelidade à vida que tinham abraçado, dando-lhes por isso alguém que as acompanhe nesse processo. Não podemos esquecer que estamos ainda num início de fundação e que os perigos de desvios eram muitos. Para além de, à semelhança do que tinha acontecido em Prouille, podermos estar diante de um grupo de mulheres cuja vida não teria sido fácil. Contudo, e tal como tinha acontecido na fundação de Prouille e depois com as monjas de São Sixto em Roma, é às mulheres reunidas na santa casa da pregação que compete o seu governo directo. São Domingos tem o cuidado de salvaguardar o poder das mulheres, deixando mesmo na primitiva constituição dos frades a proibição de se imiscuírem nos assuntos das monjas.
Neste sentido, e face aos documentos e notícias que nos chegaram, São Domingos foi um profundo respeitador da dignidade e igualdade da mulher.

sábado, 19 de junho de 2010

Tomar a cruz de Jesus

Quanto ganha aquele que conseguiu o conhecimento da sua fraqueza.
Podemos ler e aprender de David no Salmo sexto, onde é dito: “Tem piedade de mim Senhor porque sou fraco”, ou no Salmo vinte e dois: “Eu porém sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe”.
Santo Isaac diz também: “Bem-aventurado o homem que conhece a sua própria fraqueza e miséria. Este conhecimento é em si o fundamento, a raiz, o princípio de toda a bondade. Quando a conhecemos de facto, quando sentimos em verdade a própria miséria, então é possível fechar a alma longe da vaidade que cega o conhecimento, então é possível recolher o tesouro da vigilância".
Não podemos deixar de olhar para nós, conhecer as nossas fraquezas e as virtudes que a graça de Deus vai semeando em nós, para tomarmos a cruz que Jesus nos convida a levar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A oração permanente

Aproveitar todos os momentos para rezar, para elevar o nosso pensamento e o nosso coração até Deus. Um desafio que nos é deixado nas circunstâncias da nossa vida atarefada. Contudo, e com toda a importância que têm, não podemos deixar de considerar que são momentos, que são expressões e manifestações, um aqui e agora.
O desafio radical é o estado permanente de oração, a oração constante e tão constante como a nossa própria respiração.
Diz São Gregório de Nanzianzo: “É necessário recordar-nos de Deus como respiramos. Pensa em Deus mais frequentemente do que respiras.” (Discursos XXVII,4)
E devemos lançar-nos a este desafio radical, ainda que difícil e vivido apenas por alguns poucos, porque “ a oração é a obra que é comum aos anjos e aos homens, porque não há na oração qualquer distância entre a natureza de uns e de outros, é a oração que nos separa das bestas e é ela que nos une aos anjos. Assim, aquele que se esforça por consagrar a sua vida à oração e à adoração de Deus será transportado rapidamente até ao lugar onde os anjos vivem, às suas moradas eternas, à sua honra, nobreza, sabedoria e compreensão” (São João Crisóstomo, Tratado da Oração)
O desafio apresenta-se com toda a radicalidade mas também com todo o gozo e alegria que dele podemos usufruir. Cabe-nos aceitá-lo e tentar vivê-lo nas nossas circunstâncias e limitações físicas, temporais e até espirituais.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A oração de Jesus

Os evangelhos contam-nos que Jesus se retirava para rezar, umas vezes só e outras vezes acompanhado pelos discípulos. Em algum momento estes mesmos lhe pediram que os ensinasse a rezar, a rezar como ele rezava na intimidade ao Pai. E é assim que Jesus ensina aos discípulos o Pai-Nosso, a oração de todo o cristão, de todo aquele que se sabe e sente filho de Deus e por isso o pode chamar Pai e nosso porque é de todos.
Quando ensina os discípulos Jesus tem o cuidado de dizer “quando orardes”, ou seja, tem consciência das nossas dificuldades na oração, de como nos custa, de como tantas vezes a preterimos em favor de outras coisas, de como tantas vezes é mais uma tempestade de palavras que oração.
São Paulo na Primeira Carta aos Tessalonicenses (5,17) recomenda aos cristãos que rezem sem cessar, que em tudo dêem graças porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo. Na Carta aos Efésios (6,18) e na Primeira a Timóteo (2,8) recomenda também que se reze sempre em união com o Espírito. Parece que Paulo vai um pouco mais longe, que radicaliza a recomendação de Jesus, deixando de lado a ocasião, o momentâneo, para nos colocar e recomendar num estado constante de oração.
A verdade é que um e outro estado, o agora e o sempre, estão profundamente interligados e não existem um sem o outro, alimentam-se e desenvolvem-se mutuamente.
Por isso é que é extremamente importante a outra recomendação que Jesus faz aos seus discípulos de se retirarem para o quarto e na solidão rezarem ao Pai que vê e conhece na intimidade. É a oração programada, agendada, mas sem a qual não poderemos nem conseguiremos desenvolver a oração constante, o estado constante de oração. Necessitamos de momentos de oração, de momentos de intimidade e privacidade com o nosso Deus, com o Pai do céu e com Jesus. Neste sentido é bom que tenhamos o nosso horário para rezar, o nosso lugar privado, as nossas formas e invocações e que não os abandonemos. O Espírito geme em nós mesmo quando tantas vezes as nossas palavras são distracção.
Escrevem Calisto e Inácio Xantopouloi na “Centúria Espiritual” nº 23:
“Os Padres divinos, os Mestres, aqueles que tinham a experiência desta obra bem-aventurada, ensinavam e prescreviam àquele que se aplica com toda a inteligência a ser sóbrio e vigilante no seu coração, e de modo particular ao noviço, que se sentasse sempre tranquilamente, sobretudo no tempo fixado para a oração, e num lugar sem luz.”
O modo da oração, o tempo, o lugar, o ambiente, são assim pormenores que não podemos descurar quando nos queremos iniciar na oração ou desenvolvê-la um pouco mais.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Luta Espiritual


 Aqueles que participam nos Jogos Olímpicos não recebem a coroa por terem vencido um, dois ou três adversários, mas quando venceram todos aqueles com que se confrontaram. O mesmo acontece a todo o homem que deseja ser coroado por Deus. A sua alma deve exercitar-se na sabedoria, não só das coisas do corpo, mas em tudo o que diz respeito às vitórias e às perdas, aos zelos, aos alimentos, à vã glória, às injurias, à morte e aos afectos análogos.

De Santo António Abade, Exortações sobre o comportamento dos homens e a vida virtuosa, in Philocalia dos Padres Népticos. Exortação 73.

terça-feira, 9 de março de 2010

O Postulantado Dominicano Português

O postulantado, ou pré-noviciado como também é conhecido, é o tempo que os candidatos à Ordem experimentam e vivem antes de entrarem para o noviciado. É assim a primeira etapa do aspirante no caminho até à profissão solene, momento da decisão e compromisso definitivo com a Ordem.
Durante muitos anos este tempo de aprendizagem e aproximação não teve um carácter institucional e ficava ao critério dos irmãos e das comunidades, que conheciam o aspirante, o tempo e o modo que tinha que viver para entrar para o noviciado. O próprio Livro das Constituições da Ordem, no seu número 167, ainda hoje deixa às Províncias a liberdade da organização deste tempo de aproximação e conhecimento mútuo, porque se para o candidato é um tempo de conhecimento da Ordem, da sua vida e história, para a Ordem e a Província é também um período para o conhecimento das capacidades do aspirante a essa mesma vida.
Depois do Concílio Vaticano II e mais recentemente devido às circunstâncias dos próprios candidatos, que chegam cada vez mais com uma cultura religiosa muito deficitária, optou-se em geral e nomeadamente a nível das Províncias Ibéricas por determinar um período de um ano para este tempo do postulantado. É um ano para conhecimento, adaptação e crescimento, um ano de transição gradual da vida laical para a vida religiosa consagrada.
Desde Julho de dois mil e nove, e face a uma necessidade de reorganização de estruturas e rentabilização de recursos, numa reunião de todos os Definitórios Ibéricos, decidiu-se pela constituição de um único Postulantado para todas as Províncias Ibéricas, optando-se pela comunidade e convento de São Paulo de Valladolid para sede dessa realidade.
A Província de Portugal, pela sua particularidade histórica e linguística, e ainda que integrando o projecto comum, ficou com alguma autonomia e é nesse sentido e por essa razão que mantém o seu postulante numa comunidade portuguesa. De futuro a opção poderá ser outra, mas caberá sempre à Província e aos que a governam a decisão.
Coube também à Província, já há alguns anos atrás, a decisão de integrar ou não os candidatos que surgem no Vicariato de Angola, estrutura dependente ainda da Província portuguesa por número insuficiente de irmãos para constituir uma Provincia. Face às suas realidades culturais e aos problemas que experiências anteriores suscitaram a nível de integração e reintegração, optou-se a nível Provincial por deixar que os candidatos do Vicariato fizessem a sua formação no continente africano. Desta forma podem experimentar de uma forma mais concreta o que é a vida dominicana no continente africano, as várias realidades africanas, como também permitir uma avaliação mais real e concreta, porque feita no local, das capacidades para a vida religiosa e dominicana de cada um.
Neste sentido e quando nos perguntam por comunidades de língua portuguesa e experiências mais transatlânticas temos que ter em conta estas realidades e circunstâncias bem como a filiação de cada irmão a uma Província. Assim um frade do Brasil é e deve ser filho da Província do Brasil, enquanto que um português é deve ser filho da Província de Portugal, embora como em tudo haja excepções e um brasileiro possa entrar na Província de Portugal e um português entrar na Província do Brasil. Tendo comunidades locais, com história e missão local, devemos procurar que os candidatos integrem essas comunidades, as Províncias de cada país ou região, para que também a sua vocação tenha uma realidade que permita um aferir da verdade e sentido vocacional. De contrário poderemos estar a permitir uma certa ilusão ou até alienação vocacional pois o chamamento de Deus é sempre para uma realidade histórica e actual que é a nossa, a da nossa circunstância, com tudo o que ela comporta.