Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo!
Estas palavras de Jesus, dirigidas aos discípulos, podem passar-nos ao
lado, podemos assumi-las como dirigidas aos outros, e desta forma descuidarmos
a parte que nos toca; porque, na verdade, o que nos é dito é concretamente que
tu, eu, nós, somos o sal da terra e a luz do mundo.
E como se esta individualização, esta personalização não bastasse, Jesus
não se dirige a nós em termos de futuro, de uma meta, ou um projecto, mas fala de
uma realidade bem presente, real, inerente à nossa condição. Somos sal e luz.
Assim, ser sal e luz no mundo não é uma ideia que cada um pode desenvolver,
uma opção que fazemos face a um desafio, mas é uma inerência da nossa condição,
da nossa identidade, de baptizados.
Face a isto, a grande questão, o desafio que se nos coloca, é como viver
esta inerência, esta condição, como a nossa vida manifesta o sal e a luz que
somos.
Muitas vezes somos tentados pelo número, pela quantidade, parece que
temos de fazer mais coisas, estar mais implicados em outras coisas; outras
vezes somos tentados pela superficialidade, passamos pelas realidades e pelas
pessoas como borboletas pelas flores, ainda que estas contribuam para um
processo que nós temos muita dificuldade de assumir, e contribuir, a fecundidade
do outro.
Somos sal da terra e luz do mundo para mudar as coisas, para as
enriquecer em qualidade e profundidade, para lhes dar gosto, sabor, para lhes
dar um sentido elevado, para guardar a esperança e desenvolver a caridade, para
iluminar as realidades do cansaço e do desespero, para dar uma vida nova,
tornar o outro mais rico e fecundo com os dons que lhe são próprios.
A leitura do Profeta Isaías mostrava-nos como o repartir o pão, o acolher
o pobre, o vestir o nu, conhecidas obras de misericórdia, são movimentos e
instrumentos de iluminação, são pitadas de sal na vida de homens e mulheres
nossos irmãos. A caridade, o olhar o outro com verdade na sua condição, abre
uma passagem à luz de Deus.
Santo Agostinho, numa das suas Cartas (Carta 155) escreve que onde está a
caridade aí está Deus, se queremos ver Deus temos de ver aquele que nos é
oferecido para amar. Deus revela-se naquele que nos é próximo, que fazemos próximo,
e oferece-nos a oportunidade de ser com eles sal e luz.
Contudo, as palavras de Jesus no Evangelho de São Mateus que escutámos
deixam-nos também um aviso, um alerta tremendo: se não procurarmos ser sal, nem
nos esforçarmos por ser luz, não servimos para nada, somos mero lixo que deve
ser deitado fora. Descuidar-se de ser sal e ser luz, de viver a condição de
baptizado é excluir-se, é condenar-se à esterilidade e à morte.
Há, no entanto, um cuidado e uma vigilância que não podemos deixar de ter,
nem de exercer, quando procuramos ser sal da terra e luz do mundo, quando
procuramos que a nossa vida não seja estéril. É o cuidado sobre a autorreferência,
o combate contra a vaidade e o orgulho, do gosto pela imagem que produzimos
diante dos outros.
Fazer alguma coisa boa para deslumbramento e glorificação diante dos
outros, é um falso bem, um bem sedutor, mas que é uma mera manifestação do
nosso egoísmo e orgulho. O bem verdadeiro que podemos fazer é aquele que aponta
para o outro, é indicativo de um Outro que é Deus e fonte de todo o bem e toda
a bondade, a verdadeira luz que ilumina, o verdadeiro sal que tempera e dá
gosto à vida.
Por esta razão, e pela profunda verdade que o guia, São Paulo dirige-se
aos cristãos de Corinto dizendo-lhes que se apresentou diante deles com temor e
tremor, a tremer deveras, porque não era dele que devia falar, não era com
linguagem sublime que se devia apresentar, mas apenas para falar de Jesus
Cristo e Jesus Cristo crucificado. E foi nesta fraqueza e simplicidade qua a palavra
funcionou, que foi fecunda, que o seu testemunho pôde ser acolhido e
verdadeiro, porque foi espelho da luz, porque o seu testemunho deu esperança e
gosto à vida daqueles que o escutaram.
É esta a missão que o Senhor nos confere, a cada um de nós, de
procurarmos na simplicidade e na humildade, na pobreza dos nossos recursos e
capacidades, levar a luz ao outro, mostrar-lhes a luz de Jesus, dar-lhes gosto
pela vida bem vivida com Deus e por Deus.
Que o Senhor Jesus nos conceda esta graça durante esta semana que agora
iniciamos.
Ilustração:
Iluminação numa zona de restauração em Trastevere, Roma. 19.11.2025.
