sábado, 11 de abril de 2009

MEDITAÇÃO DOMINICANA DA PAIXÃO


MEDITAÇÃO DOMINICANA DA PAIXÃO

A representação mais popular e conhecida de São Domingos, pintada pelo Beato Angélico, é simultaneamente a mais desconhecida. Habitualmente chega às nossas mãos apenas o pequeno lado direito, a figura de São Domingos lendo o livro da Sagrada Escritura, ficando toda a demais representação na sombra da beleza da figura juvenil.
Esta selecção e focalização impede-nos de admirar e conhecer aquele que é um dos mais extraordinários frescos do Beato Angélico, aquele que é o mais moderno, quase de um princípio surrealista.
Estamos perante uma representação da Paixão, tema tão caro a São Domingos e certamente também aos irmãos que conviveram com o Beato Angélico, uma vez que encontramos nas diversas celas, que ele pintou a pedido dos irmãos no Convento de São Marcos de Florença, frescos com esta temática.
Podemos dizer que estamos perante uma meditação da Paixão, ainda que uma meditação um pouco desconcertante, até um pouco macabra, uma vez que o Cristo representado está sentado e de olhos vendados, e à sua volta gira como que numa dança um conjunto de mãos e uma cara ofensiva.
São os símbolos do ultraje, da ofensa, os gritos da multidão para que fosse crucificado, as cuspidelas dos soldados romanos, a brutalidade dos socos e do chicote, a coroa de espinhos e a venda para que nada visse do que lhe preparavam. Tudo gira para o magoar, para lhe fazer mal. Em cada ícone representado está um eco dos nossos pecados e daqueles que colocaram Jesus naquela situação. É a traição de Judas e a nossa, é a debandada dos discípulos e o nosso abandono, é a inveja dos poderes religiosos e a nossa própria inveja.
Mas a isto tudo Jesus resiste com uma serenidade tremenda, sentado no seu trono real, vestido com o seu traje branco nupcial. Numa mão o ceptro e na outra a bola do mundo. Ele está a ser julgado, mas ele é que é o juiz, ele está a ser desprezado e humilhado, mas ele é que é o Rei. Há uma tranquilidade tremenda neste Cristo escarnecido, a tranquilidade de quem se sabe entregue à misericórdia do Pai, ao Amor que salva. Nada, nem os instrumentos da Paixão, pode afectar ou extinguir esse Amor, essa misericórdia, e confiança depositada.
Aos pés deste Cristo, São Domingos estuda e lê a Palavra de Deus, fazendo companhia à figura da Mãe de Jesus que no lado oposto parece abandonada. Podíamos dizer que nesta representação temos uma duplicação da entrega da Mãe ao discípulo amado e deste à Mãe de Jesus, como acontece no Evangelho de São João no momento anterior à morte de Jesus.
Depois de celebrarmos a Paixão, a morte de Jesus, fica-nos para o silêncio da contemplação esse fresco e o que ele significa. Cada um está ali representado nas ofensas da sua infidelidade; na filiação e devoção que São Domingos tinha à Mãe de Jesus; na confiança que somos convidados a ter face à integridade e nobreza com que Jesus enfrentou todos os desafios humanos e divinos. Como São Domingos permaneçamos, unidos a Maria, contemplando na Palavra, a face gloriosa oculta de Cristo Salvador.


sexta-feira, 10 de abril de 2009

ORAÇÃO DE SANTA CATARINA À PAIXÃO


ORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA
À PAIXÃO DE JESUS

Oh doce e eterno Deus, infinitamente sublime! Como nós não podíamos elevar até à tua altura o nosso afecto, que era baixíssimo, nem tão pouco a luz do nosso entendimento, por causa das trevas do pecado, Tu grande Médico deste-nos o Verbo através da comida da humanidade.
Aprisionastes o homem e aprisionastes o demónio, não em virtude da humanidade, mas pela divindade. De esta forma, fazendo-te pequeno, fizestes grande o homem; saturado de opróbrios, encheste-o de bem-aventuranças; passando fome, saciaste-o com o afecto da tua caridade; despojando-te da vida, vestiste-o da graça; coberto de vergonha, devolveste-lhe a honra; sendo denegrido na tua humanidade, devolveste-lhe a luz; ao ser estendido na cruz, abraçaste-o e deste-lhe no teu peito refúgio contra os inimigos.
Neste refúgio pode conhecer a tua caridade, porque com ela demonstras que lhe quisestes dar mais do que podias com uma obra finita. Ali encontrou o banho no qual limpou a lepra do pecado da face da alma.
Oh Amor deleitoso, oh Fogo, oh Abismo de caridade! Oh altura incompreensível! Quanto mais contemplo a tua grandeza na paixão do Verbo, tanto mais se envergonha a minha alma miserável de não te ter conhecido, e isto porque estive viva para o afecto dos sentidos e morta na razão. Que deseje hoje a tua incomensurável caridade iluminar os olhos do meu entendimento e os daqueles que me destes como filhos e os de todas as criaturas racionais.
[1]
[1] Cf. OBRAS DE SANTA CATALINA DE SIENA, Edição preparada por José Salvador y Conde. Madrid, BAC, 2007, 482.

JESUS LAVA OS PÉS AOS DISCÍPULOS


JESUS LAVA OS PÉS AOS DISCÍPULOS

Enquanto celebravam a ceia, Jesus levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. (Jo 13, 4)

Nesta quinta-feira Santa apresentamos um pequeno trecho do comentário de São Tomás a este versículo do Evangelho de São João. É um comentário rico que nos pode ajudar a viver a dimensão do gesto do Senhor na celebração da Última Ceia.

“Relativamente a este primeiro gesto é necessário saber que Cristo, neste gesto de humildade, se mostra servidor, de acordo com a Palavra de São Mateus: O Filho do homem não veio para ser servido mas para servir.
Mas, para ser um bom servidor três coisas são necessárias. Antes de mais que ele esteja atento e veja tudo o que pode faltar no serviço, e ele estará impedido completamente de tal se estiver sentado ou estirado. É esta a razão pela qual é próprio dos servidores estarem de pé. O Evangelista diz assim: Ele se levantou da mesa; e quem é maior, aquele que está à mesa ou aquele que serve?
Em segundo lugar, o servidor deve estar disponível para realizar até ao fim, como convém, as coisas que são necessárias ao serviço. E neste caso, um grande número de vestimentas embaraçam imenso. É por esta razão que o Senhor depôs as suas vestes. Este mesmo facto é significado no livro do Génesis, no qual se diz que Abraão escolheu servidores disponíveis.
Em terceiro lugar, ele deve estar pronto a servir, de maneira que ele tem todas as coisas necessárias para o seu serviço. É dito de Marta, que ela estava absorvida pelas múltiplas necessidades do serviço. E daqui vem que o Senhor, tomando uma toalha se cingiu com ela, estando desta forma pronto não só para lavar os pés mas também para os secar. Por este gesto ele pisa aos pés todo o orgulho, uma vez que aquele que vai para Deus e que saiu de Deus lava os pés.
No sentido místico este gesto pode relacionar-se com dois aspectos, a saber, com a Incarnação de Cristo e com a sua Paixão. Naquilo que se relaciona com a Incarnação podemos receber de Cristo três coisas.
Antes de mais, e com toda a certeza, a sua vontade de socorrer o género humano, simbolizada no facto de se levantar da mesa. Pois Deus, durante todo o tempo que suporta que estejamos em prova, parece estar sentado, mas quando nos liberta da tribulação, vemos como que levantar-se. Levanta-te Senhor e vem em nosso auxílio.
Em seguida, o seu abaixamento; não que Ele deponha a majestade da sua dignidade, mas que a esconda assumindo a nossa pequenez. É por esta razão que é dito: Verdadeiramente tu és um Deus escondido. E isto é significado no facto que ele depôs os seus vestidos, ele abaixou-se por si próprio.
Por fim a assumpção da nossa natureza mortal no facto que tomando uma toalha a atou à cintura, ou seja, tomando a nossa condição de escravo. Mas se isto se relaciona com a Paixão de Cristo, no sentido literal, ele depôs a sua roupa quando os soldados o despojaram e jogaram às sortes a sua roupa, e ele foi envolvido de um lençol no sepulcro. E na sua Paixão ele depôs também a roupa da nossa mortalidade e tomou uma toalha, que significa a brancura da imortalidade, pois Cristo ressuscitando dos mortos não morrerá jamais”
[1].
[1] SÃO TOMÁS DE AQUINO, Comentário ao Evangelho de São João, Tomo II. Paris, Cerf, 2006, 110.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

HOMENAGEM À MADRE SÃO JOÃO DE BRITO



MADRE SÃO JOÃO DE BRITO

Há pessoas que nos marcam, por aquilo que nos dizem, por aquilo que nos fizeram, ou até por aquilo que deixaram de nos fazer. Há outras pessoas, homens e mulheres que nos marcam apenas pela sua existência, apenas pelo facto de se cruzarem connosco. A sua pessoa entra-nos pelos olhos e mesmo sem querer deixam-nos marcados.
Foi assim com esta mulher, com a Madre São João de Brito, quando a vi pela primeira vez. Entrava na sala com uma leveza, com o que hoje chamamos um “estilo”, que não pode deixar ninguém indiferente. Via-se imediatamente que era alguém diferente, uma mulher com peso, com uma vida cheia e certamente plena.
O hábito branco de Dominicana de Santa Catarina de Sena, o sapato preto e a meia branca. Interrogo-me se algum dia se terá apresentado publicamente sem ser desta forma. À volta do pescoço um cachecol branco, porque a grande casa do Ramalhão, o antigo palácio da rainha Carlota Joaquina, é um lugar frio ainda neste tempo de primavera; e as correntes de ar também abundam. Numa troca de palavras disse-me que o cachecol era o seu distintivo, aquilo que podemos chamar a sua imagem de marca.
Mas não, não podemos dizer que o cachecol é a sua imagem de marca; a sua verdadeira imagem de marca é essa linha de estátua clássica, esse olhar cálido no qual baila um brilho que busca uma resposta, um rosto, alguém com quem partilhar ainda algum sonho. A sua imagem de marca é esse ar de nobreza que lhe é tão natural, essa atenção para com o outro que se lhe apresenta diante, a solicitude mostrada na atenção e preocupação se já temos um café para tomar.
Foi Madre Geral da Congregação, durante doze anos, certamente doze anos difíceis. Hoje, nos seus oitenta e poucos anos não cuida já da Congregação, cuida e acalenta a irmã, irmã mais nova de sangue, com quem partilha os dias e lhe dá algum que fazer. Os problemas de saúde trazem-nos por vezes cruzes que apesar da nossa fortaleza nos custam a levar. A irmã, a Santa Rosa de Viterbo, é essa cruz, que é levada com carinho, com respeito de quem é mais velha e foi superior, mas há momentos em que as forças e a paciência já não dão mais. O peso dos anos e do cuidado vão vergando um pouco a coluna e retirando algum brilho que em outros tempos certamente lhe moldava o rosto.
Considera-se uma conservadora e por essa razão pede desculpa por chegar atrasada ao Oficio Coral. Não acredito que seja por vontade própria, é certamente a responsabilidade do cuidado dos outros. Contudo, este pedido de desculpas afirma uma centralidade, um núcleo essencial, um conjunto de valores que perdemos com a correria do tempo e a forma tão pouco briosa como fazemos as coisas, até as coisas de Deus. Quantas coisas perdemos no caminho, práticas rituais, símbolos, tradições e como é bom revivê-las e por momentos passar-nos pela cabeça a imagem do coro cheio de jovens noviças, de um futuro promissor, futuro que afinal já está no passado e hoje se mostra tão complexo e difícil.
É este mesmo núcleo, esta centralidade que a faz, não digo queixar-se, mas lamentar-se da falta de formação musical, de formação intelectual, da pobreza com que hoje quase todos nós somos formados na vida religiosa dominicana. Já nem sabemos cantar as antífonas ou hinos tão ancestrais como a devoção aos nossos fundadores. É difícil, e ela própria o reconhece, saber quem formar e em que formar. Enquanto foi alguém com poder teve que enfrentar esse dilema e as objecções, em relação a uma outra irmã, daquelas que a deviam aconselhar e apoiar no enriquecimento da congregação.
A formação é fundamental, a todos os níveis, e por isso se interessa ainda tanto por ler, por escutar, mesmo que de um irmão mais novo e a dar os primeiros passos num caminho já largamente trilhado por ela. As páginas do caderno de notas que virava, enquanto proferia as minhas palavras, denunciavam esta necessidade, este desejo. Um dominicano ou dominicana não serve a Ordem nem a Igreja sem formação, e ela quer ainda servir na pobreza da sua idade avançada. Ela que já serviu, como todos nós servimos ou queremos servir, com defeitos e qualidades, com decisões acertadas e outras completamente desastrosas, procura ainda servir com a sua história e a sua experiência.
E quanto temos nós que aprender destas mulheres e destes homens que fizeram a história, a mais remota e a mais recente, das nossas congregações e Ordens. Temos que aprender com os erros, para não os repetir, e temos que aprender com as decisões acertadas, com o que construíram e nos legam, para que as suas vidas não tenham sido em vão e as nossas também não sejam.
A Madre São João de Brito marcou-me neste breve contacto com ela, pela sua extrema dignidade e nobreza, temperadas com a humildade e a caridade. O Apóstolo São Paulo diz que somos embaixadores de Cristo, e como tal não devíamos prescindir na nossa vida desta dignidade e nobreza, moldadas pela humildade e caridade.
Agradeço a Deus esta mulher e a sua vida, o que me ensinou em tão pouco tempo e quase sem dizer palavra. Esta é a minha pequena homenagem a ela e às irmãs que com ela compõem o quadro que tive o privilégio de contemplar e partilhar nestes seis últimos dias. Obrigado meu Deus, obrigado minhas irmãs.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

RETIRO DA COMUNIDADE DO COLÉGIO DO RAMALHÃO



RETIRO ANUAL DA COMUNIDADE RELIGIOSA
DO COLÉGIO DE SÃO JOSÉ DO RAMALHÃO

Ordena o Código de Direito Canónico que os religiosos consagrem durante o ano um período de tempo, de acordo com as suas Constituições, para a realização dos exercícios espirituais, o retiro anual. Este mesmo Código não estipula o tempo necessário, fá-lo apenas para o retiro que os candidatos às Ordens Sacras devem realizar, que é de cinco dias.
As comunidades religiosas adoptaram mais ou menos este período de tempo para a realização dos seus exercícios espirituais, e assim nos últimos cinco dias, e mais um pouco, as irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena do Colégio de São José do Ramalhão, em Sintra, realizaram os seus exercícios anuais, que tive a graça de orientar. E digo graça, porque foi verdadeiramente um momento de graça, de acção de Deus nas nossas vidas.
Para alguém que está fora dos nossos ritmos, que desconhece a nossa vida quotidiana de consagrados, de religiosos e religiosas, pode parecer estranho um retiro anual. Afinal para que serve um retiro, o que é que se faz? Não estão já os consagrados “retirados”, não rezam já, não meditam já na Palavra de Deus, não confrontam já diariamente a sua vida e as suas actividades com a Palavra de Deus e o seu projecto para cada um deles e para a humanidade em geral?
É verdade que sim, ou pelo menos deveria ser assim, porque o que se verifica é que muito frequentemente, e mais do que é desejável, a vida do consagrado e religioso está a transbordar de actividades, de activismo, e sobra muito pouco tempo para aquilo que na essência distingue a vida consagrada dos demais modos de seguimento de Jesus Cristo, a experiência profunda e radical do mistério de Deus.
Neste sentido, e à luz das realidades humanas de cada um e de cada comunidade, é necessário este tempo de retiro, esta pausa na rotina do dia a dia para um encontro mais intenso com Aquele que nos chamou, nos chama cada dia, mas que exige essa relação profunda e intensa para que o dia a dia e o que se faz tenha sentido. Um retiro, este tempo de exercícios espirituais, é assim um tempo para deixar a graça de Deus actuar, em cada um de nós e no grupo ou comunidade a que pertencemos.
As irmãs Dominicanas do Ramalhão apostaram nesta vivência e assim, iluminadas por algumas palavras de reflexão e meditação, abriram os seus corações à graça do Senhor e foram capazes de experimentar e viver um verdadeiro momento revitalizante das suas vidas, do sentido das suas acções e da unidade fraterna que procuram construir.
Um retiro, pelo horário especial que comporta, é sempre um tempo de descentralização, de ruptura, de quebra de esquemas concebidos, que continuam a valer na medida em que são avaliados e avalisados. Depois de um tempo de exercícios espirituais de retiro a vida não pode voltar a ser a mesma, a nossa relação com Deus, com os irmãos e irmãs e com a própria missão a que nos votamos não pode ser a mesma. Algo tem que estar alterado, ter outro, outro lado, o Outro.
Juntamente com as irmãs do Colégio do Ramalhão estiveram outras irmãs, de outras comunidades Dominicanas espalhadas pelo país. Para recordar e manter viva a chama fica a fotografia do grupo, ou de quase todo o grupo, e do orientador.
Que o Senhor nos conceda a graça de nos mantermos fortes na fidelidade ao seu chamamento e à missão a que nos chama.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA


O DISCÍPULO QUE JESUS AMAVA
Um dos discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa reclinado no seu peito. Simão Pedro fez-lhe sinal para que perguntasse a quem se referia. Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, perguntou: Senhor, quem é? (Jo 13, 23-25)

O discípulo que Jesus amava é a personagem mais enigmática do Evangelho de São João, ainda que seja uma figura central e considerado como o autor do próprio Evangelho. Na primeira parte do Evangelho está completamente ausente e na segunda parta tanto aparece identificado como o “discípulo que Jesus amava” como o “outro discípulo”. No segundo versículo do capítulo vinte o autor une os dois títulos e portanto é possível perceber que um e outro são a mesma pessoa, o mesmo discípulo.
Ainda que nesta segunda parte do Evangelho o discípulo amado apareça em cinco passagens, situações diferentes, jamais o autor permite a sua identificação com precisão. Parece que o objectivo é exactamente o contrário, ou seja, como que fazer desaparecer o personagem, como que impossibilitar a sua identificação.
À luz destas situações, a primeira evidência e dado passível de identificação é a sua proximidade com Simão Pedro. Os dois discípulos mantêm uma relação única, na qual o discípulo amado funciona sempre como uma espécie de alavanca para Pedro. Este papel de intermediário em favor de Pedro é possível devido à proximidade com Jesus, às relações com o ambiente sacerdotal de Jerusalém e à sua juventude, agilidade e intuição mais viva.
Na narração da última ceia e anúncio da traição de Judas deparamos com esta função intermediária, pois Pedro pede a João que saiba do Senhor quem é aquele que o vai trair. Nesta narração constata-se a proximidade do discípulo amado em relação a Jesus, proximidade que não é apenas física, que não assenta exclusivamente no facto de estar ao seu lado e poder deitar a cabeça sobre o seu peito. A proximidade sublinhada neste momento, e pelo próprio pedido de Pedro, é espiritual e institucional.
Ainda que discípulo como João, e ainda que instituído de uma autoridade particular dada pelo próprio Jesus, Pedro escolhe passar por João para obter do Mestre a informação sobre quem é o traidor. Esta opção de Pedro está carregada de uma premissa que não nos pode passar despercebida. Ao pedir a João que saiba quem é o traidor, Pedro está a colocar João fora dessa possibilidade, desse grupo no qual ele próprio, Pedro, se poderia incluir. João jamais poderá ser o traidor. A proximidade dita enuncia assim uma realidade que está afecta ao próprio nome, o que é amado jamais poderá trair aquele que o ama.
Esta atitude de Pedro pode deixar adivinhar também a possibilidade de uma posição hierárquica de João na comunidade, posição que se prende inevitavelmente com as circunstâncias testamentárias de que se reveste a última ceia. No momento em que Jesus transmite à sua comunidade o que Ele tem de mais precioso, para que ela o recolha e faça vida, colocou junto a si aquele que Ele considera como o herdeiro.
Esta função de herdeiro é evidenciada de modo mais radical no momento da morte, quando junto à cruz estão o discípulo amado, a mãe de Jesus e Maria Madalena. A presença física do discípulo amado sublinha uma fidelidade a toda a prova, uma fidelidade que ninguém pode colocar em causa.
No anúncio feito por Jesus anteriormente, que no momento da sua hora todos os abandonariam e deixariam só, não se inclui o discípulo amado, não se pode incluir porque ele está presente. A proximidade com Jesus, evidenciada no momento da ceia e sobre o seu peito, é confirmada e de uma forma total no momento em que a revelação de Jesus atinge a sua expressão máxima, junto à cruz. Aí Jesus pode proclamar que tudo está cumprido. Mas tudo está cumprido quando Jesus, no momento de deixar abandonada a sua mãe, lhe entrega um outro filho na pessoa do discípulo amado. Este gesto marca também a intimidade existente entre o Mestre e o discípulo. Neste momento é a “família Dei”, uma nova realidade relacional, que nasce da palavra fundadora de Jesus. O núcleo desta nova família é o discípulo amado e a mãe de Jesus, aquela que desde as bodas de Caná da Galileia tinha assumido o papel de mediadora. A mãe de Jesus associada ao discípulo amado representa a comunidade nascente da Igreja naquilo que ela comporta de essencial e de permanente.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

UNÇÃO DE JESUS EM BETÂNIA


JESUS É UNGIDO POR MARIA DE BETÂNIA

Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos. Ofereceram-lhe lá um jantar. Marta servia e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus.
Então Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragrância do perfume
.
(Jo 12, 1-3)

Este episódio do Evangelho de São João passa-se na intimidade da casa de Lázaro e das suas irmãs, enquanto que fora a multidão e as autoridades procuram Jesus para o prender. É um episódio muito bem enraizado na tradição evangélica e por isso corresponde certamente a um acontecimento histórico. São Marcos e São Mateus contam o sucedido e como São João colocam o acontecimento na última semana de vida de Jesus. As referências temporais situam o acontecimento antes da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. São Lucas narra um episódio semelhante, mas sem precisar o tempo e num outro lugar. Em São Lucas a unção acontece na Galileia e tem como protagonista uma pecadora.
É neste ambiente de festa que Maria traz uma libra de perfume precioso e com ele unge os pés de Jesus. São João salienta a qualidade e quantidade do perfume e o seu preço extraordinário. Uma libra de perfume equivaleria hoje a 330 gramas e o preço dado pelo cálculo de Judas era de trezentos denários.
Se nos recordarmos que no milagre da multiplicação dos pães os apóstolos reclamam a Jesus a exorbitância de duzentos denários de pão para alimentar a multidão de cinco mil homens que se encontravam com eles, podemos imaginar o valor precioso do perfume com que Maria ungiu os pés de Jesus.
Nos Evangelhos de Marcos e Mateus e ao contrário do Evangelho de João a unção é feita na cabeça. Este gesto pode indiciar uma homenagem devida aos convidados de honra, como que uma consagração da amizade, que no caso de Jesus e na casa de Lázaro era de todo merecida face à restituição à vida deste mesmo. No âmbito do Novo Testamento esta unção assumiu um sentido de investidura messiânica.
Mas com Maria a situação é diferente, e sem qualquer paralelo na literatura judaica, facto que lhe dá um carácter extraordinário e portanto de bastante autenticidade histórica. A surpresa provocada em todos os convidados manifesta também essa mesma autenticidade.
O gesto de Maria pode ser um gesto de puro reconhecimento e agradecimento pelo sucedido a seu irmão, pela amizade demonstrada por Jesus relativamente a Lázaro, a ela própria e à sua irmã. Mas a verdade é que Jesus o interpreta no sentido do seu sepultamento e assim a unção de Maria surge como um contraponto ao banquete que se está a desenrolar. A unção opõe-se à festa, uma vez que o perfume alude à morte.
Esta leitura de Jesus e este contraste deixa subjacente que a vida nova, a vida da festa e do banquete do Reino tem como condição a passagem pela Páscoa de Jesus, pela morte. Contudo, a riqueza do perfume, a sua capacidade de encher toda a casa do seu odor manifesta que a vitória sobre a morte é possível. Será possível nele e com ele.
Acolhendo o gesto de Maria, Jesus mostra a sua liberalidade e liberdade generosas e ainda que não agradeça o gesto, nem fale da generosidade de Maria, como acontece no Evangelho de Marcos, Jesus defende o que aquela mulher acabou de fazer em seu beneficio e beneficio próprio.
Jesus defende Maria e elogia-a porque ela pressente a chegada da hora e nesse sentido antecipa a hora da morte de Jesus, antecipa a sua partida eminente. Com este gesto e com o seu amor Maria comungou intuitivamente e antecipadamente com a Páscoa de Jesus.