terça-feira, 21 de abril de 2009

A PERMUTA DO CORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA


A PERMUTA DOS CORAÇÕES

Ao entrarmos em alguma igreja e pararmos diante de um altar dedicado a Santa Catarina de Sena é frequente encontrarmos uma imagem ou representação da santa com o coração na mão, um coração vermelho vivo.
Na iconografia de Santa Catarina de Sena é uma representação que remete para um acontecimento ocorrido no verão de 1370, um acontecimento verdadeiramente significativo como é a troca do seu coração pelo coração de Jesus.
Os seus biógrafos contam-nos que no dia em que meditava as palavras do profeta “Cria em mim Senhor um coração puro”, e rogava a Deus que lhe retirasse o seu coração, no qual se enraizava toda a obstinação, teve uma visão na qual lhe apareceu o Noivo celestial, lhe abriu o peito, lhe retirou o coração e o levou consigo. A impressão e reacção física foram muito intensas, como se já não possuísse coração para viver.
Dois dias mais tarde, depois da Eucaristia em que tinha participado e da qual tinha comungado, estando a rezar na capela della Volte, apareceu-lhe novamente Jesus. Na sua mão trazia um coração humano, vermelho e brilhante de luz. Quando Catarina viu como ele brilhava baixou o rosto e então novamente o Senhor lhe abriu o peito e lhe introduziu o coração, ocupando o lugar deixado pelo outro que lhe tinha retirado dias antes. Disse-lhe então: “Minha querida filha, o outro dia retirei o teu coração; hoje dou-te o meu, para que possas gozar de vida eterna”.
Quando Catarina contou o sucedido a frei Tommaso della Fonte, seu confessor, ele riu-se dela, pois no conjunto dos seus conhecimentos não era possível alguém viver sem coração. Contudo Catarina não deixou de afirmar e reafirmar o sucedido, os seus próprios sentidos e a palavra de Deus não a deixavam duvidar. Os amigos mais íntimos asseguraram também a frei Tommaso que tinham visto com os seus próprios olhos, no lado esquerdo do peito, a cicatriz que testemunhava a permuta de corações, e ele acreditou no sucedido.
A partir desse dia Catarina nunca mais disse “Senhor ofereço-te o meu coração”, mas sempre “Senhor, ofereço-te o teu coração”. E quando comungava o coração batia-lhe com tal violência e alegria que os que estavam ao seu lado o ouviam e ficavam espantados.

SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO


SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO
NO CONVENTO DE SÃO PAULO DE ALMADA

Na igreja do antigo convento dominicano de São Paulo de Almada, hoje Seminário da Diocese de Setúbal, encontra-se um painel de azulejos que ilustra um dos episódios da vida de Santa Inês de Monte Pulciano.
Através do relato hagiográfico que nos faz frei José de Lima no Agiológio Dominico, podemos compreender o painel, e apercebermo-nos da origem de mais um dos elementos iconográficos desta santa dominicana, o fio com a pequena cruz. Eis o que nos diz o texto e que a fotografia anexa ilustra.

Numa noite da Assunção da Rainha do Céu, contemplava ela as festas e alegrias que neste triunfo fez a celestial Jerusalém, e como a Soberana Imperatriz foi coroada da Santíssima Trindade.
E foi tal o desejo que teve de se achar presente que pediu com eficácia à mesma Senhora que ou a conduzisse àquela glória ou, se não era ainda tempo, lhe mostrasse o Divino Infante, que basta para fazer Céu da mesma terra.
Quis a suprema bondade satisfazer os empenhos da sua serva, e permitiu fosse cercada de repentina luz, que excedendo a do sol servia de manto à Mãe de misericórdia, a qual aparecendo-lhe com o amado Filho nos braços encheu de tanta doçura a alma desta santa, que não podendo concentrá-la no peito caiu sem sentidos por terra.
Chegou a ela a benigníssima Rainha e tocando-lhe com a mão lhe infundiu celestial vigor e lhe mandou que se levantasse.
Obedeceu Inês e posta de joelhos diante da soberana Princesa recebeu nos braços o menino. Vendo-se com tão preciosa dádiva a pôs por jóia ao peito, apertou-o com tais extremos e recostou-o sobre o coração com tais afectos que parecia outro Simeão nas súplicas. Fazia contratos com ele que, ou livrando-a das mortais prisões lhe levasse a alma, ou se a queria viva ficasse em sua companhia.
Nestes colóquios amorosos se deteve um bom espaço, porém vendo que era forçoso entregá-lo à mãe, lhe disse: “Ora, Senhor, já que é de vosso agrado ausentar-vos e deixar-me, dai-me ao menos em sinal do vosso amor a prenda que mais vos custou nesta vida mortal, deixai-me a vossa cruz”.
Apenas proferiu estas palavras, quando por piedoso furto lhe roubou uma pequena cruz que o mesmo Menino tinha pendurada ao pescoço em um delicado fio, e depois de a retirar restituiu o fio à Mãe, que sorrindo do devoto roubo mostrou que não lhe desagradava.
Neste tempo desapareceu a celestial visita e Santa Inês caiu de novo com mortal acidente. Acharam-na as religiosas neste estado e com a cruzinha fechada na mão, a qual ainda hoje se mostra no Convento de Monte Puliciano
.”[1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 97.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

HOMILIA 2ª FEIRA DA SEMANA II DO TEMPO PASCAL


HOMILIA do DIA

Depois de terem rezado, tremeu o lugar onde estavam reunidos, todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a anunciar com firmeza a palavra de Deus. (Act 4,31)

É com estas palavras que termina a leitura dos Actos dos Apóstolos que escutámos, palavras que não podem deixar de nos interpelar e ecoar na nossa consciência.
Pelo que ouvimos, e sabemos, é um momento difícil para os Apóstolos, para o grupo daqueles que seguiam Jesus e anunciavam a sua ressurreição. Pedro e João tinham sido presos e interrogados, havia um clima de perseguição e violência com o objectivo muito claro de silenciar a boa nova que eles anunciavam e que colocava os poderes instituídos em causa. É um momento de perigo, certamente de poucas esperanças e de bastante desalento.
Ainda assim, é neste ambiente e com esta realidade presente que os Apóstolos realizam algo que humanamente tem muito pouco de efectivo, de produtivo. Reúnem-se para rezar, para louvar a Deus e pedir a confiança que lhes permita enfrentar os perigos que por todos os lados os espreitam.
Para nós hoje, enquanto Igreja, enquanto comunidade religiosa, enquanto crentes, não pode deixar de ser uma atitude que nos interpele, que nos faça pensar no que estamos a fazer e o que estamos a fazer com a nossa oração.
É verdade assente que a Igreja deve estar no mundo, que não pode nem deve alhear-se das realidades humanas e sociais que a rodeiam. Na oração pelos seus discípulos Jesus pediu ao Pai que protegesse os que eram seus, não queria que os retirasse do mundo, mas que os protegesse. Neste sentido não é possível a um cristão estar fora do mundo, qualquer espiritualidade que o defenda ou proponha é pura alienação.
Contudo, esta constatação não pode nem deve fazer esquecer que estando no mundo, estamos com uma missão, e uma missão que deve ser significativa, interpelante, que deve mostrar que outro mundo é possível. E é aqui que a oração assume um papel importante, como assumiu para os Apóstolos no momento em que a sua vida e missão estava em perigo.
A oração é capaz de dar essa ousadia, essa confiança e coragem que deu aos Apóstolos, é capaz de dar um extra de sentido ao que fazemos, à missão a que nos dedicamos. Num momento cultural e social em que os símbolos e o simbólico estão de regresso, em que os homens e mulheres sentem uma sede de divino, seja ele qual for, a oração pode ajudar-nos a dar essa significativade de que a nossa vida tantas vezes está carenciada e anda falha, pode ajudar-nos a dar uma resposta a estes homens e mulheres que buscam uma resposta para as sua vidas.
Não é uma resposta alienante ou alienada, bem pelo contrário, é uma resposta bastante humana e encarnada, na qual assumimos perante Deus as nossas dificuldades, os nossos problemas, as nossas falhas e fraquezas, bem como o que é dos outros.
Santa Catarina de Sena, como os Apóstolos é para nós um exemplo. Foi uma mulher que se viu envolvida nas grandes questões políticas do seu tempo. Nos últimos anos de vida e segundo o que nos contam escrevia desenfreadamente ao Papa e a reis, pedindo-lhes a paz e a unidade da Igreja. Contudo, e apesar desse ritmo alucinante, que a levou à morte com 33 anos, nunca deixou a sua oração e nela pedia por todos os que conhecia ou lhe pediam. E àqueles que eram os seus filhos espirituais recomendava, como ao Beato Raimundo de Cápua, que por onde andassem nunca abandonassem a sua cela interior. O tempo e o modo de estar presente com Deus.
Mas para tal, para essa cela interior estar aberta, era necessário um cuidado exterior, uma disciplina de oração comunitária e pessoal que não se podia abandonar. Só com ela e com a misericórdia de Deus a cela interior podia ser frequentada. Peçamos a Deus a sua misericórdia e nós apliquemo-nos a exercitar a oração, a não a abandonar.

MEMÓRIA DE SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO


SANTA INÊS DE MONTE PULCIANO

Se o mês de Abril, para os Dominicanos, pode ser dedicado a Santa Catarina de Sena, uma vez que começa e termina com festas desta santa, não podemos deixar passar nesta data a memória de uma outra santa dominicana e à qual Santa Catarina de Sena chamava de sua mãe gloriosa. É Santa Inês de Monte Pulciano.

Inês nasceu em Gracchiano, na Itália em 1268. Entrou para o mosteiro de Monte Pulciano com nove anos apenas e aos 15 era nomeada Prioresa do Mosteiro de Procena, para onde tinha sido levada por uma religiosa mais velha e sua directora espiritual. Esta nomeação tão precoce deve-se ao indulto do Papa Nicolau IV.
Poucos anos mais tarde regressa a Monte Pulciano, para levar a cabo uma reforma no mosteiro, colocando-o definitivamente sob a autoridade e direcção da Ordem Dominicana.
Inês morreu a 20 de Abril de 1317, no seu mosteiro de Monte Pulciano, depois de uma vida de austeridade e ascese. A sua fama de santidade levou a que em 1435 o seu corpo fosse trasladado para a igreja dominicana de Orvieto. Em 1726, o Papa Bento XIII, um outro dominicano canonizou-a como Santa da Igreja.
Entre os muitos acontecimentos e milagres da sua vida, conta-se um que tem influência na sua iconografia. Assumimos o relato do Agiológio Dominicano do século XVIII.
Tais eram as delícias e espirituais doçuras que neste santo exercício da oração recreavam a alma da Bem Aventurada prioresa (Santa Inês), que embelezado nelas o seu espírito as manifestava exteriormente em forma de doce maná, por lhe não caberem já no interior. Caía-lhe este, ou para melhor dizer, chovia-lhe sobre o manto em forma de puríssimo orvalho, quando orava, e cada gota formava uma estrela que se terminava em cruz.
Eram estas semelhanças misteriosas significações ou de quanto suaves lhe eram as cruzes ou de que as doçuras do céu não se acham nesta vida separadas da cruz.
Particular foi esta deliciosa chuva do maná no dia em que como esposa de Cristo havia de receber o sagrado véu, por mão do bispo, no mosteiro de Procena
”.[1]

[1] LIMA, Fr. Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 97.

domingo, 19 de abril de 2009

HOMILIA II DOMINGO DA PÁSCOA


Meus Irmãos

Antes da reforma litúrgica levada a cabo com o Segundo Concilio do Vaticano o domingo que hoje denominamos como domingo da misericórdia era conhecido e denominado por “domingo in albis”.
Era o domingo a seguir à Pascoa no qual os baptizados na Vigília Pascal retiravam a veste branca que tinha recebido no baptismo. Com este gesto o baptizado ficava a fazer parte de uma forma plena da comunidade dos crentes e baptizados.
Comunidades que vimos apresentada e definida na leitura dos Actos dos Apóstolos, uma comunidade que mais que uma realidade é um projecto, um modelo a edificar e concretizar.
Sabemos pela história, por outros relatos dos próprios Actos dos Apóstolos e pelas cartas de São Paulo que as primeiras comunidades cristãs não eram tão perfeitas como nos é apresentado nesta passagem do livro dos Actos dos Apóstolos. Havia problemas e problemas gravíssimos, o que nos pode fazer interrogar o sentido e a realidade desta comunidade modelo.
Para a compreender temos que ter presente que a comunidade cristã, a comunidade dos discípulos de Jesus Cristo começou muito antes, no momento em que Jesus chamou os doze para o acompanhar. Temos que ter presente que depois das bodas de Caná houve uma transformação, ou reformulação dessa comunidade e que junto à cruz essa comunidade adquire uma nova dimensão existencial.
Depois das bodas de Caná São João diz-nos que Maria e os discípulos passaram a Cafarnaum e aí viviam em comunidade, uma comunidade que já não assentava nos laços de sangue mas numa relação de fraternidade e discipulado. A comunidade era já algo mais que um grupo de seguidores, ou um grupo de familiares.
Um elemento paradoxal desta comunidade é o próprio Judas, que para além de ter traído o Senhor era também aquele que cuidava da bolsa comum. Por este dado percebemos que havia uma economia comum, para a qual todos contribuíam, inclusive as mulheres que acompanhavam Jesus.
Junto à cruz, com a mãe e o discípulo amado, a comunidade adquire uma dimensão existencial cujo centro é o próprio Jesus, eu deixa de estar presente fisicamente mas continua e passa a estar presente através do cumprimento do mandamento do amor.
Esta é a grande questão da segunda leitura, da leitura da Carta de São João, porque a vida de Jesus, a sua morte e ressurreição, é uma manifestação desse amor de Deus por toda a humanidade e por cada um dos homens. Neste sentido somos todos convidados como discípulos a viver esse mandamento, a fazer Jesus presente, a fazer comunidade como membros desse corpo glorioso que está presente ao mesmo tempo que está ausente.
Esse é o grande sinal que nos é dado pelo Evangelho no qual Tomé duvida da ressurreição do Senhor Jesus. Tomé não estava presente aquando da manifestação de Jesus ressuscitado, um Jesus que se mantinha presente com as marcas da sua paixão, mas que ao mesmo tempo se afastava e tornava presente pela memória do seu amor. A sua dúvida obriga à manifestação e à revelação da nova realidade que Tomé assume de uma forma cabal: “Meu Senhor e meu Deus”.
Com esta afirmação de fé, com este credo, o apóstolo Tomé manifesta a sua confiança, a sua crença num Jesus que viveu e morreu, mas manifesta sobretudo a fé em Jesus que está presente na sua ausência, numa outra dimensão que só é perceptível através dos olhos da alma. É uma presença que extrapola tudo o desejado, tudo o que eles, apóstolos, tinham sonhado e aspirado. Jesus não é o rei, não é o revolucionário, não é o novo governante, é o Senhor e o Deus de cada um que acredita nele e no seu mandamento de amor.
Este facto é para cada um de nós um desafio, na medida em somos colocados perante uma realidade que vemos e desafiados a acreditar em outra realidade que não vemos mas que está presente e existe. Já não é o corpo de Jesus, o corpo que Tomé é convidado a tocar, a comprovar, é o corpo glorioso, o próprio corpo da Igreja, que tantas vezes nos parece como inexistente, como algo inatingível. Perante isto somos convidados a fazer a mesma profissão de fé que fez Tomé, meu Senhor e meu Deus, a acreditar que o corpo de que cada um é membro, está vivo, está presente, e está actuante, ainda que da nossa parte tantas vezes sejamos pouco operacionais e manifestadores dessa existência e dessa acção.
Que o Espírito Santo, que levou Pedro a fazer a sua confissão de fé, e Tomé a fazer a dele, nos ilumine o coração para sermos fiéis e verdadeiramente membros vivos deste corpo que não vemos mas pressentimos.

domingo, 12 de abril de 2009

HINO PASCAL

SEQUÊNCIA PASCAL


À Vítima pascal


ofereçam os cristãos


sacrifícios de louvor.


O Cordeiro resgatou as ovelhas:


Cristo, o Inocente


reconciliou com o Pai os pecadores.


A morte e a vida


travaram um admirável combate:


Depois de morto,


vive e reina o Autor da vida.


Diz-nos Maria: Que vistes no caminho?


Vi o sepulcro de Cristo vivo


e a glória do Ressuscitado.


Vi as testemunhas dos anjos,


vi o sudário e a mortalha.


Ressuscitou Cristo, minha esperança.

sábado, 11 de abril de 2009

Meditação do Silêncio de Sábado Santo


O DIA DO SILÊNCIO

Depois dos gritos dos chefes pedindo a morte, da multidão exaltada e violenta, do choro das mulheres que compreendem a perda de uma vida inocente, dos ferros das armas e dos cascos dos cavalos romanos, do som do martelo sobre o ferro dos cravos, do grito alucinante da expiração, o silêncio, o grande silêncio. Tudo está consumado, tudo foi feito, cumpriu-se tudo o que tinha sido prometido e anunciado.
Aos poucos cada um vai-se retirando, voltando à rotina do comum, à preparação da grande festa que se seguia. Vivemos todos entre a tragédia do sofrimento e da morte e a alegria da festa e do prazer. Uns quantos, encarregues das últimas tarefas, retiram os corpos dos troncos do suplício, os corpos não podiam ficar ali expostos no dia da grande festa.
A família e alguns amigos, uns amigos até então pouco conhecidos, amigos secretos por medo, vieram e recolheram o corpo de Jesus e deram-lhe a sepultura, colocaram-no no lugar do grande silêncio, para o grande silêncio. Depois disso cada um deles voltou ao seu silêncio. Nada havia ainda a dizer, apenas a sua consciência podia falar alguma coisa, podia falar do amor e da traição, da fidelidade e da infidelidade.
Nicodemos recolheu-se a sua casa e durante a noite interrogou-se sobre o nascimento, esse novo nascimento de que Jesus lhe tinha falado uma noite, quando o tinha visitado secretamente. Seria possível nascer de novo? Como se poderá nascer de novo? No fundo o grande desejo de nascer novamente, de nascer para a verdade da vida e da fé naquele homem que agora jaz no silêncio do sepulcro. Em cada momento, e perante a verdade, podemos sempre nascer de novo, aceitando-a e assumindo-a, não vacilando nem fugindo.
João, o jovem João, que tinha assistido a tudo, que se tinha mantido fiel recolheu-se também a casa. O que se tinha passado? Quem era ele agora? Um filho, o substituto do filho. Estava incumbido de uma missão, ser o filho, mas o que significava isso? E como podia ele viver agora, naquele grupo de homens mais velhos, com essa missão e sem a protecção e o amor daquele que os tinha chamado e escolhido para partilharem da sua missão e do seu amor. A memória do amor será a salvação, será a âncora da fidelidade.
Pedro, que chora, que chora dolorosa e desesperadamente, está com ele, partilha o mesmo tecto. Como tinha sido infiel, como tinha traído o Senhor, ele que tanto tinha feito galanteria de o seguir para onde quer que fosse. Quando tudo está bem é tão fácil seguir o Mestre, querer dar a vida por ele, mas quando o perigo aperta como se faz tudo tão mais difícil e a nossa vida muito mais significativa e imprescindível.
E agora, como poderei viver? Porque afinal há em mim um amor por aquele homem, pelo seu projecto que não me deixa tranquilo. Não é o poder pelo qual todos nós sonhámos, no qual acreditámos que viria a ser nosso, não, é essa certeza de ter confessado a sua natureza divina, não por minha capacidade, mas pela força do Espírito. Tu és o Messias! E logo a seguir deixei de ser quem era para passar a ser Pedro, e sobre mim caiu a responsabilidade de animar a confissão dos outros. Como é possível agora, depois de tanta traição, depois de o ter negado não na divindade mas na inocência da sua humanidade?
Maria, ajudada pelas outras mulheres que a tinham acompanhado recolheu também a chorar a dor da perda do filho. Tinha sido demasiado, demasiado ódio, demasiada violência, demasiada humilhação, e o seu filho não merecia isso. Que mal tinha feito ele? Querer o bem dos homens? Que partilhassem a sua liberdade de Filho de Deus? Que mal há nisso para se ser condenado à morte? A dor trespassa o seu coração como uma espada.
Maria Madalena está ali. Depois de terem fechado a pedra do sepulcro continuou ali. Está atónita, sem saber o que fazer, o que pensar, para onde ir. Aquele que a tinha liberto dos seus demónios, que a tinha salvo da sua vida de perdição está também ali, encerado num túmulo escavado na pedra. As palavras que a dignificaram estão agora apenas na memória e no silêncio do desespero da perda. Maria Madalena perdeu o seu Mestre e amigo e nada pode fazer, mas também não pode ausentar-se dali, seria perder o corpo daquele que a amou, que afinal é o pouco que lhe resta.
Maria Madalena permanece no silêncio junto ao túmulo, não à espera da ressurreição pois não sabe ainda o que isso é, virá a saber dentro de pouco, mas permanece para viver a perda, o seu luto. Não pode deixar de o viver.
Do outro lado do silêncio a grande revolução, a batalha final do combate em que a vida vence a morte. È necessário descer até ao mais profundo, ao mais recôndito e escondido, para que a morte seja total, para que nada fique fora da nova vida e criação que se gera.