quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Festa de Nossa Senhora do Rosário

A Igreja, e de modo particular a Ordem de São Domingos, celebra hoje a festa de Nossa Senhora do Rosário. Festa instituída em 1572 por uma Bula do Papa Pio V e inicialmente intitulada de Nossa Senhora da Vitória devido à derrota da armada dos turcos pela Liga Católica neste mesmo dia 7 de Outubro em Lepanto no ano de 1571.
É da forma rica e cheia de pormenores bélicos que em 1712 Frei Manuel de Lima, no “Agiológio Dominicano”, descreve o sucedido:
“É já tempo de contarmos o terceiro triunfo, que deu motivo à solenidade do presente dia, e foi a vitória naval no mar de Lepanto, conseguida com a Liga, que fez e afervorou o nosso Pio V.
Tinha o grande imperador Selim tomado tiranamente aos venezianos o reino de Chipre, que havia cem anos possuíam, e quebrado a paz jurada, mandando sitiar Nicósia, por terra e mar, com um terrível exército, roubando as ilhas vizinhas que a Republica tem no arquipélago, com a escravidão de mais de sete mil cristãos. Foi isto no ano de 1570, e no de 71 pôs a mais poderosa armada, que nunca viram os mares, porque, conforme alguns, constava de trezentas galés, que com cento e vinte mil soldados, foram sitiar Famagusta.
O nosso Santo Pontífice, como Pai afectuoso do cristianismo, tratou de pôr remédio a tantos danos e reprimir o orgulho do turco, ligando-se com os Príncipes cristãos contra este comum inimigo. Achou mais dispostos entre todos, o Católico rei Filipe II e a Republica de Veneza. Ajustaram que as galés seriam duzentas e cinquenta navios, com cinquenta mil infantes e quatro mil e quinhentos cavalos ligeiros, dos quais metade correria por conta do monarca das Espanhas e a outra metade se dividiria em três partes, duas por conta dos venezianos, e uma à custa do Papa; e que da presa que se fizesse haveria divisão entre todos da mesma forma.
Nomearam como General da Liga o valoroso D. João de Áustria, filho natural de Carlos V e irmão de Filipe II. General da Igreja, Marco António Colonna; e da Republica de Veneza Barbarigo.
Acharam-se prestes no porto de Messina, no primeiro de Setembro duzentas e oito galés, seis galeotas, vinte navios e mais de sessenta barcos. Saíram do porto a 16 do dito mês e foram dar fundo ao golfo, que chamavam de São João, a esperar notícias da armada inimiga. Constava ela de trezentas galés, e entre elas mais de quarenta reais; e com tudo isto tiveram ânimo os nossos para os investir.
Chamou o Príncipe D. João a conselho os seus capitães e depois de vários pareceres, ajustaram prosseguir a empresa. Saíram com vento contrário duzentas e quatro galés, seis galeotas e quarenta e cinco barcos, e entrando dentro do canal, no domingo de manhã, sete de Outubro, com duas horas de sol, começaram a descobrir a armada inimiga, que logo reconheceram por maior do que publicava a fama. Procuraram sair do estreito e pôr em ordem de peleja sem perder tempo.
Dividiram-se em esquadras e João André Dória tinha a da mão direita, composta de cinquenta e três galés, com galhardetes e bandeiras verdes. Governava o corpo da batalha o Sereníssimo D. João de Áustria e era a sua esquadra composta de sessenta e seus galés, com galhardetes e bandeira de cor de fogo. A esquadra da mão esquerda constava de cinquenta e cinco galés, com galhardetes e bandeiras cor de ouro, e era governada pelo General veneziano Barbarigo. O Marquês de Santa Cruz ia na retaguarda, com trinta galés, de bandeiras e galhardetes brancos, uma milha atrás do corpo da armada. D. João de Cardona com dez galés fazia o ofício de descobridor, com ordem de se incorporar depois à parte mais fraca.
Disposto tudo nesta forma, saiu o Príncipe em um barco animando os soldados, que já se tinham confessado e comungado; e lhes ordenou que rezassem em alta voz o Rosário implorando o patrocínio da Senhora. Repartiram os Agnus Dei bentos pelo Santo Pontífice Pio V para lançarem ao pescoço, e os Comissários publicaram a Indulgência Plenária concedida aos que pelejassem. (….)
Estando as armadas distantes um tiro de canhão, mandou o Príncipe arvorar o estandarte da Liga, bento pelo Santo Pontífice Pio V, no qual estava pintada uma devota imagem de Cristo crucificado. Levantaram as mais galés suas bandeiras, em que se viam imagens da Rainha dos Anjos, e ao aparecerem estas sagradas insígnias, todos os soldados e oficiais se prostraram de joelhos. O Sereníssimo General disse então em voz alta, respondendo os mais com os corações: Peço à Majestade de Deus, que tendo compaixão do seu povo, e não se lembrando das culpas, lhe dê por sua misericórdia vitória de seus inimigos. Dada a bênção pontifícia aos soldados e invocando todos os Santíssimos nomes de Jesus e Maria fizeram o sinal costumado para o conflito. (….)
Foi esta vitória milagrosa concedida ao cristianismo por intercessão da Imperatriz do Céu, e por meio do seu Santíssimo Rosário; pois sendo invocada na armada pelos soldados, e em todo o mundo pelos cristãos, que naquela hora em ponto faziam as costumadas procissões do primeiro domingo do mês, a ela e a esta devoção se atribuiu todo o bom sucesso, felicidade da Igreja e seus católicos.
Assim foi revelado ao Santo Pontífice Pio V, a quem o Senhor manifestou tudo em Roma, na mesma hora em que sucedeu no Mar de Lepanto, como fica dito na sua vida no 1 de Maio. Por esta causa ordenou se solenizasse para sempre este dia, com o título de Santa Maria da Vitória, que depois confirmou Gregório XIII, seu sucessor, atribuindo o triunfo ao Santíssimo Rosário. Gregório XIII decretou se solenizasse no primeiro domingo deste mês”.[1]
[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, TomoQuarto, Lisboa Oficina de António Pedrozo Galram, 1712, 54-55.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O silêncio a viver

A Igreja celebra hoje a memória de São Bruno o fundador dos Cartuxos, essa forma de vida religiosa tão austera e tão estranha às nossas formas de vida tão mundanas e ruidosas.
O filme de Philip Gröning “O Grande Silêncio” trouxe ao nosso mundo as imagens dessa vida estranha e silenciosa, saciando essa curiosidade que todos nós desenvolvemos por aquilo que nos escapa, que não faz parte do nosso mundo quotidiano.
Contudo, para nós religiosos, o silêncio, o da grande Cartuxa, o dos mosteiros ou conventos, não devia ser algo estranho, uma extravagância, mas uma realidade na qual nos movemos ou devíamos mover, uma realidade constante da nossa vida.
Todos os fundadores de Ordens religiosas prescreveram o silêncio como alma e guarda da observância regular, porque se o religioso observa bem o silêncio, se vive na sua cela, não a abandonando senão para o Oficio Divino ou para os seus trabalhos comunitários ou de apostolado, se no silêncio se ocupa na oração e no estudo, acaba por se tornar num homem de oração que recebe de Deus todo o tipo de graças e consolações espirituais.
A insistência que os fundadores e grandes mestres espirituais colocam no silêncio radica nessa expressão do Livro dos Provérbios “o homem que não pode guardar o silêncio é semelhante a uma cidade aberta, continuamente exposta às incursões dos seus inimigos”. A falta de silêncio permite todos os desmandos e desatinos, todos os desvarios.
Para os Frades Pregadores o silêncio é ainda uma realidade mais premente e exigente, pois o seu fundador São Domingos guardava perfeitamente o silêncio, não falando senão com Deus ou de Deus. E as Constituições desde o primeiro momento não deixam de apelar à guarda desse silêncio como ambiente natural às casas de pregação. Convém aqui recordar que as primitivas Constituições não prescreviam o recreio, ou convívio após as refeições, bem pelo contrário recomendavam que após cada refeição os irmãos se retirassem para o estudo ou para a oração. O silêncio devia imperar e marcar todas as acções pessoais e comunitárias.
Numa sociedade da comunicação e do ruído de fundo como é a nossa, ruído esse que ataca mesmo os conventos, aqueles que deviam ser espaços por excelência de silêncio, é cada vez mais difícil conservar o silêncio, fazermos silêncio. Quando vimos do mundo exterior e procuramos integrar-nos numa vida conventual esse desafio é ainda maior e a grande tentação é distrairmo-nos, é fugirmos a esse silêncio que inevitavelmente e quase por graça acaba por existir.
Nestes momentos, e como diz São Basílio, a observância mais rigorosa é o melhor caminho para não nos afastarmos, para aprendermos a guardar e a fazer silêncio. Não há receitas mágicas, há apenas tentativas e lutas, um combate individual que não pode deixar de se exercitar. Procuremos fazê-lo, eu e tu, porque necessitamos ambos dele.
A fotografia é do claustro da Cartuxa de Évora. Espero que nos ajude a partilhar nem que seja por momentos o silêncio prenhe de graça que ali se respira.

domingo, 4 de outubro de 2009

Homilia Domingo XXVII do Tempo Comum

O Evangelho de São Marcos deste domingo apresenta-nos uma vez mais um momento de conflito de Jesus com os fariseus, esse grupo ideológico religioso do qual Jesus até era bastante próximo.
Desta feita a questão colocada, ou a resposta pretendida, era algo que qualquer judeu podia dar, pois, e como eles próprios afirmam estava estabelecida na lei de Moisés toda a regulamentação jurídica para estas situações de adultério. Eles sabiam muito bem o que se devia fazer ou deixar de fazer.
A questão colocada pelos fariseus tem no entanto outro objectivo, é uma vez mais uma armadilha para apanhar Jesus na coerência das suas afirmações. Se Jesus defende o repúdio estipulado pela lei, os fariseus podiam dizer que ele não ensinava nada de novo e por isso não havia motivo para aquelas gentes andarem atrás de Jesus e terem por ele tanta admiração. Pelo contrário, se Jesus se manifesta contra o repúdio manifestar-se-ia contra a lei e contra Moisés e portanto devia ser condenado, não devia ser seguido por ninguém pois era alguém que se colocava fora da normalidade da lei.
Esta polémica compreende-se se nós assumirmos e presumirmos que Jesus no seu ensinamento, que nas palavras que dirigia à multidão, antes de ser interrompido bruscamente pelos fariseus, falava do matrimónio, da dignidade que lhe é inerente e da igualdade em que se situam o homem e a mulher nessa realidade humana. As palavras que se seguem e que são a resposta de Jesus podem confirmar-nos de certa forma que de facto era esse o tema em questão, o tema do seu ensinamento, e que estava a extrapolar os esquemas assumidos pela lei de Moisés.
Colocado com esta questão perante uma situação de necessidade de uma resposta verdadeira e coerente, Jesus enfrenta os fariseus remetendo a fundamentação da sua doutrina e do que ensinava para o momento da criação. Era ali que estava a verdade do que ensinava e da natural relação entre o homem e a mulher. Não era a lei de Moisés que vinculava o homem à mulher, mas era a própria obra da criação, era a acção criadora de Deus.
No relato da criação apresentado pelo livro do Génesis é interessante nós notarmos que num primeiro momento o homem, depois de ter denominado todos os animais, procura uma auxiliar semelhante a ele. Estamos, se assim o podemos dizer, num primeiro estágio evolutivo, em que o homem age e procura pela necessidade que tem de uma auxiliar. Neste contexto a mulher é ainda algo inferior, como um objecto que se quer e do qual se pode tomar posse.
Depois do sono profundo e da criação da mulher da sua própria carne, o homem já não reconhece a mulher como um objecto, como uma propriedade, mas verdadeiramente como parte de si próprio e portanto reconhecível e denominável como mulher. A mulher é igual a ele, mas é igual na diferença que os distingue e os torna complementares. Por esta razão o homem e a mulher deixarão os seus pais, os seus núcleos familiares e tribais, para se unirem um ao outro e formarem uma só carne, uma unidade que nasce da diferença.
Para nós e na nossa sociedade esta dinâmica tornou-se complexa e bastante difícil pois a união de um homem e uma mulher passou a conceber-se de uma forma puramente contratual, uma união fundada sobre o livre arbítrio de cada uma das partes e o voluntarismo, que só por si não é suficiente para garantir o sucesso da mesma. Para além do individualismo que marca a nossa cultura e sociedade e que tem inevitavelmente um peso condicionante na forma como as pessoas se unem.
Perante este panorama temos que ter presentes as verdades antropológica e teológica que marcam o relato bíblico da criação e as palavras de Jesus e resgatá-las para a nossa actualidade e vivência quotidiana das relações e muito particularmente da relação homem mulher.
Antes de mais temos que ter presente e não esquecer a dimensão sexual, ou de género como agora se quer dizer, que marca cada homem e mulher. É uma dimensão inalienável do nosso ser e forma de estar com os outros, é de facto um dom que inevitavelmente conduz à comunhão, e por isso não pode ser deixado de cultivar e cuidar. Se o não fizermos estaremos a encerrar-nos num casulo doentio de narcisismo que jamais nos possibilitará a comunicação verdadeira com o outro. Na união matrimonial esta dimensão viabiliza o dom e o conhecimento total, bem como nos celibatários pois também estes não deixam de ser sexuados e com necessidade de se comunicarem com o outro e de se entregarem para se realizarem.
Depois temos que ter presente o outro como criatura de Deus, como um dom à vida pessoal e por tal digno de todo o respeito e consideração, de toda a liberdade e verdade. Sem liberdade e sem verdade não há verdadeira relação, nem verdadeiro amor, pois como disse Bento XVI o amor desprovido de verdade é puro sentimentalismo. O outro e uma relação que se quer que exista não podem abdicar dessa verdade e liberdade. Verdade de cada um dos componentes, liberdade para estar, verdade e liberdade da própria dinâmica da relação.
Por fim não podemos deixar de referir, e tendo presente o acolhimento que Jesus faz das criancinhas e como as apresenta como modelo, que na relação é importante este reconhecimento da dependência e interdependência de cada um de nós, que é importante a dimensão da humildade no acolhimento do outro. Nenhum de nós está sozinho no mundo e portanto necessita tanto de ser acolhido como de acolher o outro. Jesus convida-nos a fazê-lo com a humildade e o sentido de dependência que é natural às crianças, porque desta forma estaremos também a manifestar e a construir o reino de Deus. O reino de Deus é um acolhimento humilde do Outro nos outros.
Peçamos assim ao Senhor que nos conceda a humildade de acolher os homens e as mulheres na liberdade e autonomia, nas suas diferenças, e que através das nossas mutuas diferenças saibamos construir a complementaridade que leva à união e à aliança que manifesta a própria natureza e presença de Deus entre nós.





quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Inquisição e frei Valentim da Assunção

O ano de 1619 ficará para a história portuguesa como o ano da visita do rei D. Filipe II a Portugal. Depois de muitas promessas e consecutivos adiamentos finalmente o rei vem ver o seu outro país.
Contudo, e para além deste facto e muitos outros de igual modo significativamente importantes, o ano de 1619 ficará marcado também para D. Filipe II por um facto muito menos importante, um incidente burocrático e financeiro no qual intervém um frade dominicano, e por essa razão bastante significativo para nós.
No ano de 1618 a Inquisição esteve muito activa na cidade do Porto. Da correspondência do rei D. Filipe II para o Inquisidor Geral D. Fernando Martins Mascarenhas, Bispo do Algarve, percebe-se que havia grandes interesses em jogo, interesses económicos, e foi nestes interesses que se intrometeu um frade dominicano, frei Valentim da Assunção.
No final de 1618 a Inquisição prende, entre outros, o licenciado Tomé Vaz e o doutor Lopo Dias, cristãos-novos com um bom poder económico e financeiro na cidade do Porto. Numa carta datada de 21 de Dezembro D. Filipe manda que se faça o inventário e arrematação dos bens dos detidos, com excepção das casas de Tomé Vaz e Lopo Dias que pelo seu valor, e por os presos terem com que se alimentar, só deveriam ser arrematadas depois da condenação.
No início de 1619 e numa outra carta ao Inquisidor Geral, datada de 29 de Janeiro, percebe-se que afinal as coisas não tinham corrido como planeado, que havia alguém que tinha interferido no processo de arrecadação de bens ordenado pelo rei no final de 1618.
Anexada à carta dirigida ao Inquisidor Geral vem a cópia de uma outra carta que o rei recebeu em Madrid e que tinha sido enviada pelo desembargador Cid de Almeida, corregedor do crime na Relação do Porto. Nela, Cid de Almeida queixa-se ao rei que não tinham encontrado dinheiro nenhum em Tomé Vaz aquando da sua prisão, ainda que constasse que era senhor de entre quinze a vinte mil cruzados. Soma avultada para desaparecer sem deixar rasto.
O que de facto não aconteceu, pois Cid de Almeida sabe que o licenciado Tomé Vaz entregou esse dinheiro ao padre frei Valentim da Assunção, frade professo da Religião de São Domingos, morador no convento do Porto, que imediatamente embarcou para a cidade de Lisboa, de onde passou ao Convento da Serra que se encontra junto da Vila de Alcáçovas. Tudo isto o desembargador sabe por alguém que tem conhecimento e viu o buraco que o frade tinha deixado na cela conventual depois de ter fugido com o dinheiro para Lisboa.
Perante tudo isto, e quantia tão avultada para um rei carenciado de dinheiro, D. Filipe II ordena ao Inquisidor Geral que dentro dos “estilos”, das competências, do Santo Oficio proceda contra frei Valentim da Assunção, de modo a ser reposto o dinheiro e a ser punido pela ousadia cometida.
Do livro 88 do Conselho Geral do Santo Ofício e da correspondência nele transcrita não se percebe qual foram os resultados destas ordenações reais e das diligências do Inquisidor Geral. Não sabemos neste momento, pode ser que venhamos a descobrir em breve, se frei Valentim da Assunção foi detido e se a Inquisição conseguiu recuperar o dinheiro do licenciado Tomé Vaz.
Ainda assim, este incidente e a demais correspondência transcrita nesse livro do Conselho Geral do Santo Oficio, tem o mérito de nos mostrar que os dominicanos não estiveram somente do lado daqueles que condenavam e que a Inquisição em muitas circunstâncias funcionou muitas vezes mais por interesses económicos e políticos que verdadeiramente por questões de ortodoxia religiosa.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Devoção das Quinze Terças-Feiras

5ª TERÇA-FEIRA – QUINTO GOZO – AGRADECIMENTO SANTO
Saudação
Deus vos salve honra da Igreja, Domingos piedosíssimo. Deus vos salve protector de todos os que a vós recorrem. Deus vos salve, celeste habitante, socorrei-me com vossos rogos.
Meditação
Considera como nosso Pai São Domingos recebendo da Divina piedade a coroa da sua bem-aventurança, se emprega cheio de gozo em louvar, agradecer, e adorar com humildes afectos a Divina misericórdia, que o coroa.
Bem sabe que as suas obras desta vida mortal, se bem foram santíssimas, não são condignas da glória altíssima, que ele possui; pelo que o espírito do agradecimento o transforma todo nos louvores da Divina piedade, para cantar, não os seus merecimentos, mas à misericórdia de Deus cânticos dulcíssimos de Sião.
Solilóquio
Ò Vida da minha vida, ò misericórdia da minha salvação, ò Jesus meu, dilatai o meu coração a imitar o agradecimento do nosso Pai São Domingos. Oh se eu pudesse convocar todos os corações humanos aos vossos louvores por quantas vezes me tendes livrado de mil desgostos, de mil perigos, de grandíssimas enfermidades, e da morte! Miserável de mim! Eu não cuidava em vós, e vós me guardáveis; eu não vos temia, e vós me amáveis. Tenho vivido de modo, que me podíeis ter precipitado nas chamas; mas ainda me sustentais sobre a terra. Seja bendita a vossa grande misericórdia, que tolerou minhas maldades por esperar-me a penitência.
Súplica
Dulcíssimo Jesus meu, não seja mais verdade, que o meu nome esteja escrito no livro dos ingratos. A ingratidão é um vento quente, que seca as fontes da vossa piedade, e um fogo infernal, que atormenta os anjos rebeldes, e as almas ingratas. Livrai-me deste vício tenebroso, e dai-me um coração agradecido, como foi o de nosso Patriarca, para que de dia, e de noite não cesse de render-vos graças; porque quando eu pequei a vossa misericórdia preveniu a justiça, que queria naquele acto reduzir-me a cinzas. Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti.

Pai-Nosso, Dez Avé Marias, Glória ao Pai, Salvé Rainha e o Responsório de São Domingos como na primeira Terça-feira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mártires Dominicanos do Japão

A Ordem de São Domingos celebra hoje a memória de 16 mártires dominicanos, religiosos e leigos que entre 1633 e 1637 morreram no Japão vitimas das perseguições aos cristãos. São eles:
Domingos Ibañez de Erquicia, natural de Régil em Espanha, onde professa na Ordem dominicana. Perfilhado à Província do Rosário parte para as missões no extremo oriente. Professor no Colégio de São Tomás de Manila é enviado em 1623 para o Japão para as missões. Sacerdote, trabalha clandestinamente junto da comunidades cristãs até que um apóstata o denúncia. É um dos líderes da missão dominicana no Japão. Morre em 1633 com apenas 44 anos. Hoje é possível conhecer algo da sua missão pela correspondência que enviou do Japão e que se conservou até aos nossos dias.
Tiago Kyushei Tomonaga de Santa Maria, natural do Japão, era também sacerdote e foi supliciado no mesmo ano de 1633. Filho de uma família nobre japonesa estudou com os jesuítas em Nagasaki, tendo sido por isso expulso do Japão em 1614, quando era ainda um simples catequista. Em Manila prossegue os estudos e é ordenado sacerdote. Em 1632 regressa à sua pátria para ajudar os irmãos cristãos que estavam a ser alvo de perseguições ferozes. É preso, torturado e morto por ser religioso e propagar a fé evangélica.
Lucas Alonso do Espírito Santo, natural de Carracedo em Espanha, professa na Província de Espanha. Mais tarde, em 1617 passa para a Província do Rosário e para as missões. Professor também no Colégio de São Tomás de Manila viaja para o Japão em 1623 onde vive clandestinamente durante dez anos. Preso em Osaka foi torturado e martirizado em Nagasaki em 1633.
Jacinto Jordão Ansalone, sacerdote dominicano italiano que ingressa também na Província do Rosário para ir para as missões. Depois de um intenso apostolado junto dos mais pobres e enfermos na Filipinas vai para o Japão onde é morto em 1634, com apenas 36 anos de idade.
Tomás Hioji Nishi de São Jacinto, era japonês e sacerdote. Filho de pais cristãos martirizados em Hirado. Foi discípulo dos jesuítas e teve que abandonar o país em 1614 devido às perseguições. Estuda no Colégio de São Tomás de Manila e depois é enviado à missão de Taiwan de onde passa para a sua pátria. É morto também em 1634.
António Gonzalez, sacerdote espanhol, natural de León. Passa a Manila em 1631 onde é professor e reitor do Colégio de São Tomás. Em 1636 conduz o grupo de missionários ao Japão, grupo que foi preso assim que pôs os pés em terra. Depois de um ano de privações e prisão morre em 1637.
Guilherme Courtet, natural de França e de origem nobre, ingressa na Província reformada de São Luís e daí passa à Província do Rosário, chegando em 1634 às Filipinas. É morto também em 1637, expressando nos momentos de tortura uma devoção filial à Virgem do Rosário.
Miguel de Aozaraza, natural de Espanha, mais precisamente do País Basco, passa da Província de Espanha para a Província do Rosário para poder ir às missões do Oriente. Sacerdote, morre no Japão em 1637.
Vicente Schiwozuka é natural do Japão e filho também de uma família cristã. Educado inicialmente pelos jesuítas é expulso do Japão em 1614. Ordenado sacerdote em Manila desenvolve o seu apostolado com os exilados japoneses antes de regressar à sua terra natal em 1636. Antes de embarcar tomar o hábito dominicano. Morre em 1637 depois de um ano de prisão e torturas.
Francisco Shoyemon, natural do Japão era irmão cooperador e companheiro de apostolado do Padre Domingos de Erquicia. Detido em 1633, toma o hábito dominicano já na prisão, onde acompanha o seu pai espiritual e companheiro, vindo a morrer juntamente com ele 1633.
Mateus Kohioye do Santíssimo Rosário, irmão cooperador natural do Japão, mais precisamente de Arima. Era catequista e cooperador do Padre Lucas Alonso, com quem inicia clandestinamente o noviciado. Preso em Osaka, recusa todas as ofertas de dinheiro para renegar a fé, permanecendo fiel a Cristo até à morte em 1633 com apenas 18 anos.
Madalena de Nagasaki, era natural do Japão e filha de pais cristãos já martirizados. Depois de ter acompanhado os missionários agostinhos entrega-se ao cuidado dos dominicanos, muito particularmente do Padre Ansalone. Leiga terceira dominicana é morta em 1634 depois de cruelmente torturada.
Marina de Omura era também leiga dominicana e natural do Japão. De grande auxílio para os missionários dominicanos foi morta na fogueira em 1634 depois de ter sido submetida a grandes humilhações.
Miguel Kurobioye, também natural do Japão é catequista e cooperador local com os missionários. Preso pelas autoridades japonesas denúncia o local de esconderijo do Padre Santa Maria, que por esta razão é preso. Arrependido do cometido confessa a fé católica e acompanha o mesmo padre Santa Maria no martírio.
Lázaro de Kyoto é morto também em 1637. Leigo catequista e cooperador local com os missionários, acompanha o Padre Gonzalez como guia e interprete. Leproso foi deportado para as Filipinas juntamente com outros leprosos ajudados pelos cristãos.
Lourenço Ruiz de Manila, leigo, natural de Manila nas Filipas e portanto o primeiro mártir da Igreja Filipina, acompanha a expedição missionária de 1636 para fugir à pena de um crime de sangue cometido. Pai de três filhos no Japão dá a vida pela confissão de Jesus Cristo como único Senhor e Salvador.

domingo, 27 de setembro de 2009

Homilia Domingo XXVI do Tempo Comum

Não podemos dissociar a leitura do Evangelho de São Marcos deste domingo dos Evangelhos dos domingos anteriores. Temos que os ter presentes para compreender cabalmente o que está em jogo.
Sabemos que Jesus enviou os seus discípulos a pregar a Boa Nova do Reino às povoações vizinhas. Sabemos que eles voltaram muito satisfeitos, porque tinham operado muitas curas e muita gente os tinha escutado. Contudo, tinha havido alguns demónios que não tinham sido capazes de expulsar.
Regressados desta primeira pregação, se assim se pode chamar, e face aos êxitos alcançados, os discípulos discutem o lugar de cada um no futuro governo sonhado de Jesus em Jerusalém. Com tais resultados como era possível não sonhar com tal governo, com tal futuro tão promissor? É neste contexto que Jesus lhes mostra através da criança escravo o sentido do verdadeiro serviço e poder no seu reino.
Hoje e tendo ainda presente este regresso da missão, João, o mais novo dos apóstolos e o mais impetuoso, por isso também chamado filho do trovão, queixa-se a Jesus relativamente a alguém que expulsava os demónios em seu nome, mas que não era do grupo dos discípulos.
Estamos perante, pelo acento colocado no facto de não ser dos nossos, uma cena de ciúmes, de uma certa inveja, se assim podemos dizer, semelhante à relatada na leitura do Livro dos “Números” em que Josué pede a Moisés que proíba Medad e Eldad de profetizar. É algo natural a um grupo que se considera privilegiado, único, que considera que qualquer outro que faça o semelhante ao que o grupo tem poder para fazer é considerado um perigo, uma ameaça, algo a abater ou eliminar.
Estamos numa e noutra situação perante o tema da exclusividade, do considerar-se único senhor e detentor de um poder ou de uma autoridade. Estamos também perante a concepção de uma realidade que apenas se restringe ao institucional, em que não há espaço nem hipótese para uma existência fora dos quadros instituídos.
Perante esta situação, e uma vez mais com muito carinho e cuidado, Jesus alerta os discípulos para a necessidade de abertura às realidades que estão fora do nosso quadro conceptual, assemelhando-se desta forma à posição tomada por Moisés face à súplica de Josué. Quem dera que todo o povo fosse profeta! Quem dera que todos vós fosseis capazes de expulsar demónios, diria Jesus aos seus discípulos.
Para Jesus e para o projecto de salvação de Deus não existe exclusividade, não existe unicidade, porque de facto na casa do Pai há muitas moradas, há muitas vias de acesso e de revelação. E perante isto os crentes, os discípulos de Jesus não se podem fechar ao outro, à novidade do outro, bem pelo contrário devem estar abertos, porque o outro não estando contra está a favor e qualquer acção de bem, de justiça, de verdade e amor é sempre uma acção querida por Deus, com o sinal de Deus. Por esta razão qualquer um que oferecer um copo de água aos discípulos de Jesus terá a sua recompensa. Qualquer acção em benefício dos discípulos de Jesus corresponderá a uma acção em favor do projecto salvador de Deus e portanto não deixará de ser recompensado. Isto é importante e não pode deixar de ser tido em conta por cada um de nós quando julga a acção do outro, a acção de muitos outros homens e mulheres que muitas vezes nem sequer partilham a nossa fé ou as nossas convicções. O projecto salvador de Deus e a sua Palavra encarnada, Jesus Cristo, é uma realidade dinâmica e englobante, não é sectarista nem marginalizadora.
Os ensinamentos de Jesus prosseguem neste momento e passagem do Evangelho através de uma radicalização das suas palavras, das acções a realizar para não sermos conduzidos à perdição eterna. São palavras radicais e que nos podem chocar pois conduzem à mutilação que não é algo propriamente agradável. Contudo, face a elas temos que ter presente que são uma forma metafórica de expressão natural à língua semítica e que de forma alguma podem ser levadas à letra. O importante destas propostas de Jesus está de facto no elemento que as precede, nesse princípio de não podermos escandalizar nenhum dos mais pequenos do Reino de Deus.
Jesus faz aqui referência, e traz novamente à presença dos discípulos, a criança escravo que tinha acolhido e colocado no meio deles como símbolo do poder e serviço a que eram chamados. Era de facto alguém sem poder nenhum, sem direito nenhum, e a esses é que não se pode escandalizar, por causa desses é que se deve cortar um pé, uma mão ou tirar um olho.
Metáforas para apresentar a necessidade que cada um de nós tem de se libertar de alguma coisa para de facto entrar no Reino de Deus, para ser sinal da sua presença, para realizar verdadeiramente o serviço a que Jesus chama os seus discípulos. Nestes elementos físicos estão englobados os nossos orgulhos, as nossas faltas de solidariedade, as nossas vaidades e desejos de poder, os nossos defeitos mais recônditos que necessitam verdadeiramente de ser podados como a videira para que possamos dar verdadeiro fruto e fruto em abundância.
Peçamos assim ao Senhor que nos conceda a graça de sabermos quais são as coisas de que nos devemos libertar, que estão a mais na nossa vida, e que de facto nos impedem de ser testemunho verdadeiro para os mais simples e de realizar totalmente a missão a que nos chama neste nosso mundo.