domingo, 7 de novembro de 2010

Homilia do XXXII Domingo do Tempo Comum

Uma vez mais Jesus vê-se confrontado com uma provocação, desta feita da parte do grupo dos saduceus, um grupo que como nos diz o Evangelho de São Lucas não acreditava na ressurreição. Era um grupo influente, pois era dele que saía a classe dirigente de Israel ao tempo de Jesus. Era um grupo que se opunha também aos fariseus que apesar de todas as suas falhas e incoerências acreditava na ressurreição, ainda que construída à imagem e semelhança da vida presente, e com os quais Jesus estava muito mais próximo socialmente do que com o grupo dos saduceus.
A provocação que os saduceus colocam a Jesus, partindo da sua descrença na ressurreição, fundamenta-se na lei da “halizah”, um preceito da Lei de Moisés que encontramos no Deuteronómio, segundo a qual o irmão do defunto era obrigado a casar com a viúva de modo a assegurar-lhe descendência e a continuidade do nome. É uma regulamentação de uma prática que encontramos em outras culturas, a do levirato, uma prática não só desrespeitadora da liberdade da mulher mas sobretudo da sua dignidade.
O exagero da história não fará duvidar Jesus nem por um momento sobre a resposta a dar, o nosso Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Resposta que Jesus fundamenta na tradição anterior, numa lei muito mais ancestral que é a dos patriarcas e a forma como eles tratavam e falavam de Deus, Deus de meu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob.
Estamos assim perante uma afirmação completamente paradigmática da realidade de Deus e da nossa própria realidade, ou seja, não temos um Deus de mortos ou para a morte mas um Deus vivo no qual nos integramos enquanto vida. E se a morte faz inevitavelmente parte da nossa vida, da nossa realidade histórica, não é por vontade de Deus, mas pela própria circunstância do pecado e da ruptura de vida que ele provoca.
Enquanto cristãos e baptizados em Jesus Cristo, Senhor da vida e vencedor da morte, esta realidade de vida e seres vivos é ainda mais fundamental, ontológica, porque no baptismo somos mergulhados na sua morte, fazemos essa experiência, para renascermos para uma vida nova, a vida da graça, a vida ressuscitada de Jesus ressuscitado. Pelo baptismo somos inevitavelmente seres vivos para a eternidade e ainda que o pecado faça as suas rupturas mortíferas, Deus não poderá retirar-nos a vida entregue, não poderá deixar de manter viva essa vida recebida no seu Filho, com tudo o que ela encerra de dom e de necessidade de transfiguração pela nossa condição pecadora e rupturas provocadas.
E é nesta dupla dimensão de dom e necessidade que se joga a vida futura, a vida eterna, aquela vida de que fala Jesus que é a vida da ressurreição, na qual já não haverá realidades humanas, estruturas e relações, em que seremos como anjos, em que seremos definitiva e completamente filhos de Deus, Deus.
O dom da vida física e histórica e os demais dons recebidos por Deus não poderão ser desperdiçados, não poderão ser esbanjados, porque como nos foi dito por Jesus várias vezes teremos que prestar conta deles. Assim, ao orientarmos a nossa vida histórica e as nossas relações devemos ter presentes o quanto estamos a ser fiéis a esses dons, a construir alguma coisa com eles, o quanto estão a contribuir para que a nossa dimensão de eternidade se traduza no tempo presente.
Por outro lado não podemos deixar de cuidar e ter em atenção a necessidade de nos curarmos das feridas das nossas rupturas, da morte que vamos provocando em nós e nos outros com o pecado. A fé na ressurreição, na vida eterna e num Deus de vivos obriga-nos a uma transfiguração, a um assumir cada vez mais consciente e coerente da dimensão da nossa finitude histórica e do germe de vida eterna que transportamos em nós.
Olhando para a praxis desta dupla dimensão, temos que assumir que pela vida eterna nos devemos obras de eternidade, obras que tenham uma marca e um desejo de eternidade, que nos devemos o amor e a esperança que Deus coloca em nós. À luz da Eucaristia devemos ser pão e corpo que alimenta e ampara o outro na sua caminhada à luz da eternidade. Por outro lado devemos exercer uma vigilância e um cuidado sobre nós próprios e até sobre o nosso corpo físico de modo a que nos aproximemos cada vez mais puros, cada vez mais alvos, e vivos, da fonte da vida que nos anima. E ainda que tenhamos que martirizar o nosso corpo, entregá-lo como escória, fazemo-lo com essa confiança de que o receberemos pleno de glória, luminoso, corpo ressuscitado.
Procuremos então, e seguindo o conselho de São Paulo aos Tessalonicenses, viver na esperança e na firmeza da fidelidade de Deus, traduzindo com toda a espécie de boas obras e palavras, a vida eterna do amor que foi colocada nos nossos corações.

sábado, 6 de novembro de 2010

Frei Bernardo de Noronha

Continuamos a apresentação de religiosos dominicanos que professaram no Convento de São Domingos de Lisboa no século XVIII.
Hoje trazemos os assentos da tomada de hábito de pupilo e da profissão religiosa de frei Bernardo de Noronha, filho do 4º Conde dos Arcos, D. Marcos de Noronha, descendente por varonia da Casa Real de Castela, Gentil-homem da Câmara do Infante D. Francisco, e de D. Maria Josefa de Távora, primeira filha do Marquês de Távora.
Do matrimónio celebrado aos 17 de Junho de 1671 nasceram para além de frei Bernardo de Noronha que foi o sexto filho, D. Tomás de Noronha, que herdou o título e foi o quinto Conde dos Arcos; D. Luís de Noronha que foi Cónego da Patriarcal de Lisboa; D. Afonso de Noronha que destinado à vida eclesiástica a abandonou para se casar com Maria Joana Vicência da Silveira, sua sobrinha; D. Rodrigo de Noronha que igualmente destinado à vida eclesiástica também a abandonou para se casar com Rita Josefa da Costa Freire, descendente da Casa de Pancas; D. Lourenço de Noronha que passou a servir à Índia e onde se casou com Joana de Melo de Mendonça, filha do governador Cristóvão de Melo; frei Francisco de Noronha e frei José de Noronha que foram religiosos Eremitas de Santo Agostinho; frei Leão de Noronha e frei António de Noronha que foram Cónegos Regrantes de Santo Agostinho; D. Inácia de Noronha, Condessa de Sarzedas; D. Madalena de Noronha que casou com o seu tio Tomé de Sousa, Conde de Redondo; D. Isabel de Noronha, Condessa de São Vicente; D. Luísa de Noronha, Condessa do Prado; e Arcângela Noronha que faleceu ainda menina.
Pelo Assento de Profissão podemos ver que a mesma foi feita nas mãos do Provincial o Padre Mestre frei Manuel da Encarnação e no priorado de frei Veríssimo de Lima, que mais tarde virá a ser também Provincial.
Em Janeiro de 1778 é entregue pelo síndico do Convento de São Domingos de Lisboa para as obras da reconstrução da igreja, destruída no terramoto de 1755, o valor da venda de uns Breviários pertencentes ao espólio de frei Bernardo de Noronha, o que significa que provavelmente faleceu no ano de 1777.

1705.Março.7
Tomada de hábito como pupilo
Em sete de Março dia de São Tomás na era de 1705 tomou o hábito de pupilo o irmão frei Bernardo de Noronha, filho legitimo do Senhor Conde de Arcos, em fé do que me assinei aqui dia, mês, ano ut supra.
Frei Alberto de São Tomás, Mestre de Noviços

1711.Abril.12
Profissão de frei Bernardo de Noronha
Aos doze de Abril de mil e setecentos e onze anos às quatro horas da tarde professou neste convento e por filho dele o irmão frei Bernardo de Noronha, filho legítimo do Senhor Conde de Arcos, sendo Provincial desta Província o Muito Reverendo Padre Mestre frei Manuel da Encarnação, e Prior deste Convento o Muito Reverendo Padre Presentado frei Veríssimo de Lima e sendo-lhe feitos os protestos costumados por todos ratificou, assinando-se aqui – dia, mês, e ano ut supra: e declaro que professou nas mãos do Muito Reverendo Padre Mestre Provincial frei Manuel da Encarnação.
Fr. Emanuel ab Incarnatione, Prior Provincial
Frei Bernardo de Noronha

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Senhor elogiou o administrador desonesto (Lc 16,8)

Cada vez que nos encontramos com esta parábola não deixamos de ficar perplexos perante a sua conclusão e sobretudo perante o elogio que Jesus faz da acção desonesta do administrador. Como é possível que Jesus tenha elogiado tal gestão, tais comportamentos?
Ficamos escandalizados com o elogio de Jesus, como se Jesus elogiasse a desonestidade, esquecendo-nos que afinal o que está em causa e o que Jesus elogia é a sagacidade e a habilidade do administrador desonesto, a sua capacidade de face a uma situação de perigo, face a um futuro imprevisível e inevitável se assegurar de o viver com alguma tranquilidade, com alguma segurança.
Este elogio que Jesus faz do administrador desonesto vem de alguma forma sublinhar e colocar em evidência a incoerência da nossa vida quotidiana, o desequilíbrio que vivemos entre a fé que confessamos e a vida que levamos. Dizemos acreditar na vida eterna, uma sondagem recente à população portuguesa confirma que uma grande maioria de nós acredita na vida eterna; dizemos que acreditamos no amor de Deus, que acreditamos na validade do mandamento do amor, mas continuamos a viver no nosso quotidiano como se tais realidades não existissem, como se a nossa vida não tivesse outro fim que o nada após a morte, ou apenas uma leve memória naqueles que connosco viveram mais intimamente.
A nossa fé na vida eterna não nos deveria fazer avaliar a nossa vida de uma forma diferente, não nos deveria reorientar de modo a que o dia a dia traduzisse essa fé, essa esperança e essa confiança? Quais são as nossas orientações de fundo e imediatas, quais são as nossas prioridades? Ou pelo menos como se encaixam nelas, como as marcam essa fé que temos um futuro a cuidar? Poderíamos e deveríamos perguntar-nos sobre o que anda a ser dito de nós ao grande Senhor, que contamos prestaríamos hoje sobre o que desbaratamos na nossa vida, sobre a administração da nossa vida e dos dons que nos foram entregues.
Jesus elogia a administrador desonesto porque ele olha mais longe do que nós, olha para além do imediato, olha e tem em conta a vida futura. E esse elogio é ainda mais sublime porque olha o futuro e prepara-o num momento de desespero, num momento crítico, perante uma dificuldade que é a de ser chamado a prestar contas da sua má administração.
Nós, a maior parte de nós e na maior parte das situações, deixamo-nos levar pelos nossos remorsos, ficamos remoendo as nossas faltas, deixamo-nos afinal levar pelo nosso orgulho ferido, não somos capazes de dar esse salto de olhar para o futuro e com sagacidade e agilidade de o tomarmos nas mãos. Jesus elogia afinal esta atitude, este salto, esta esperteza que marca os filhos deste mundo e que nos devia marcar ainda mais a nós como filhos da luz e herdeiros de um mundo futuro.
Que o Senhor Jesus nos abra os olhos e nos liberte dos nossos remorsos e orgulhos para vermos e vivermos a vida futura que nos está prometida.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Alegrai-vos comigo (Lc 15,6)

Os convívios de Jesus com os pecadores e os publicanos não deixam de causar escândalo e murmúrio naqueles que se consideravam a boa sociedade, as pessoas de bem. De alguma forma eram uma afronta à sua consideração, uma provocação ao seu prestígio, mas Jesus não se importa com isso, não se importa com os choques que pode provocar nos outros, com essa sua fidelidade à missão, com a coerência das suas atitudes face à palavra que anunciava. É num desses momentos que Jesus apresenta e justifica a razão das suas atitudes extravagantes, contando as parábolas da ovelha perdida e da dracma perdida.
São parábolas em que não há passado, não há história, não se fica a conhecer nem a forma como a ovelha se perdeu ou a dracma caiu à pobre mulher. Sabe-se apenas dos esforços que foram feitos para o encontro do perdido. Há apenas um presente, uma actualidade que é a do encontro e a da alegria.
Neste sentido, e vendo-nos cada um de nós nessa ovelha perdida e nessa dracma perdida não interessam a Jesus as nossas formas de perdição, a forma como nos desgarrámos numa manhã de nevoeiro, como nos perdemos no caminho do seu seguimento e da fidelidade devida.
A Jesus interessa a acção daquele que busca, dele próprio que veio ao nosso encontro enquanto perdidos, de nós próprios enquanto vamos ao encontro do outro que anda perdido, ou perdemos nalgum trajecto da nossa vida. A Jesus interessa a alegria que se produz naquele que encontra o objecto perdido, a ovelha ou a dracma, a pessoa que buscamos.
Por essa razão Jesus come e bebe com os pecadores e publicanos, por essa razão Jesus não se importa de escandalizar, porque vem ao encontro daqueles que estavam perdidos, porque quer encontrá-los e levá-los para a casa do Pai com toda a dignidade. Se os outros se consideram justos, ainda bem, não necessitam de quem os procure, mas aqueles que se consideram perdidos e abandonados necessitam de alguém que os busque.
Jesus ainda hoje vem ao nosso encontro, enquanto perdidos, enquanto abandonados, vem na sua misericórdia buscar-nos para nos levar para a intimidade do amor do Pai. Sabemos nós estar abertos a essa busca? E sabemos nós buscar nos outros a imagem do próprio Jesus que vem ao nosso encontro? Nesses outros que tantas vezes nos escandalizam, nos chocam pela sua diferença? Como reagiríamos se também hoje víssemos Jesus sentado à mesa daqueles que olhamos de soslaio, desconfiados do seu bom procedimento e das suas boas intenções?
E no entanto Jesus veio ao encontro deles, vem ao encontro deles e convida-nos a entrar na mesma dinâmica para podermos gozar da alegria do encontro. Que o nosso coração se abra e generosamente sejamos capazes de partilhar a busca em que todos nos encontramos e a alegria de nos vermos encontrados.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

São Martinho de Lima, Dominicano

Eram outros tempos, eram outras as leis, eram outras as formas como tudo se arquitectava social e religiosamente. Martinho de Porres e Velásquez, São Martinho de Lima, foi um fruto desses tempos e dessas circunstâncias que lhe couberam viver.
Martinho nasceu em Lima, cidade do peru, em 1579, era o primeiro filho da relação de Dom Juan de Porres, Cavaleiro da Ordem Militar de Alcântara, com Ana Velásquez, uma jovem negra, livre e baptizada, que dá à luz apenas com vinte anos. Passados três anos será a vez de Joana vir a este mundo, a única irmã de Martinho, fruto também da relação que D. Juan vivia com Ana.
Apesar das viagens entre as várias cidades do império, o pai fez sempre questão de ter o filho por perto e quando já mais tarde o deixa junto de sua mãe exige que tenha uma educação cristã, que aprenda a ler e se inicie numa profissão. Martinho aprendeu a ser barbeiro, uma profissão que andava associada também à da enfermagem e dos cuidados de saúde.
Com quinze anos, a idade permitida pelas Constituições dos dominicanos, Martinho entra para o Convento de Nossa Senhora do Rosário de Lima. Fica como “donato” um leigo servidor da comunidade, pois a sua cor de pele não lhe permite outras aspirações, nem mesmo qualquer tipo de profissão dentro de Ordem dos mendicantes. Podemos falar de elitismo, de racismo, mas eram os medos que governavam as relações como ainda hoje governam as nossas exclusões e marginalizações.
Com o regresso de seu pai à cidade de Lima em 1596, dois anos depois de Martinho ter ingressado no convento, a situação vai sofrer uma pequena alteração. Pelo seu estatuto social, pela pressão exercida junto dos frades, D. Juan de Porres vai conseguir que o seu filho, legítimo e reconhecido, faça em 1603 a profissão como irmão converso. É o máximo que as leis dominicanas e o prestígio do pai lhe concedem, mas como os planos e as leis dos homens não são sempre os planos e as leis de Deus, há uma glória reservada para Martinho, há um prestigio que nenhuma lei humana nem nenhuma diferença de cor da pele lhe podem tirar.
Desde bem cedo, e exercendo as funções de barbeiros, enfermeiro, porteiro, Martinho foi-se deixando moldar pela caridade, pelo desejo de ajudar todos aqueles que lhe batiam à porta e o procuravam aflitos. A contemplação e a oração, a vida de pobreza e trabalho, a própria consciência da sua condição de pobre excluído levaram-no a ser um apóstolo da caridade, a exercê-la de tal modo que por toda a cidade era conhecido como o “Martinho da caridade”.
Poderia Martinho aspirar a maior título, a maior prestígio? Deus tinha-o recompensado, não por qualquer falha humana ou legislativa, não em compensação da marginalização e exclusão de que tinha sido objecto, mas porque nessas mesmas realidades tinha sabido viver o mandamento do amor, a caridade fraterna, apesar de tudo e de todos.
Martinho de Porres, foi canonizado a 6 de Maio de 1962 pelo Papa João XXIII, e se hoje fazemos memória da sua vida, se festejamos, é porque se nos apresenta como um modelo de caridade fraterna, de serviço aos outros, mas também de capacidade de discernimento nas circunstâncias da vida das diversas possibilidades de realização do mandamento do amor de Deus. Martinho mostra-nos que não precisamos ser muito importantes, ter uma actividade significativa, importa sim viver de forma atenta e significativamente a caridade que devemos uns aos outros.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Comemoração dos Fiéis Defuntos

Ontem celebrávamos com alegria a glória daqueles que já partiram deste mundo, hoje continuamos a celebrar aqueles que já partiram deste mundo e da nossa companhia física, mas fazemo-lo com uma dimensão de tristeza, de sofrimento, com a dor de quem sabe que há um processo de amor que ainda não está terminado e é necessário completá-lo para viver plenamente a glória. E nesse processo a nossa oração pode ter algum significado.
Não é habitual hoje em dia falar-se do Purgatório, parece que é uma realidade que nos constrange e desacredita na confiança e no amor de Deus, na sua misericórdia. Contudo, é um mistério que faz parte da nossa confissão de fé e por muito que nos constranja ou interrogue ele apresenta-se desafiante na centralidade da nossa fé.
Não temos nenhuma revelação directa sobre o que é o purgatório, esta realidade é um mistério, pelo que não podemos concebê-lo como um tempo de espera ou um espaço tipo antecâmara do céu. É demasiado limitativo para a sua dimensão processual e dinâmica, porque o purgatório é um processo, um confronto dinâmico entre o nosso amor e o amor de Deus.
Nesse processo purgativo encontramo-nos com o amor eterno de Deus, o amor que sempre nutriu por cada um de nós, que nos foi oferecido, sugerido vezes sem conta, mas para o qual não tivemos muito tempo nem demos muita atenção. Afinal estávamos e estamos mais inclinados aos amores efémeros, aos amores deste mundo e da nossa condição física, que nos satisfazem momentaneamente. Habita em nós a sede do amor infinito de Deus mas vamos satisfazendo essa sede com pequenos amores finitos e precários.
No purgatório confrontamo-nos com este desperdício e por isso sofremos, pela perda, pelo equívoco e pela necessidade de nos despojarmos das cargas amorosas que levamos para nos podermos encher do amor de Deus que nos colma em plenitude. E não podemos dizer que é um castigo, que é uma diminuição do amor e da misericórdia de Deus, bem pelo contrário, é mais uma prova da sua misericórdia e do seu amor, permitindo desta forma que nos vejamos pobres e miseráveis e nos disponhamos a recebê-lo já sem limites nem condições.
Inevitavelmente é um processo doloroso, como são todos os processos de maternidade, de construção, e por isso é que a Igreja desde os tempos mais remotos acreditou que pela sua oração, pela sua intercessão podia ajudar e aliviar esse sofrimento. Os reformadores protestantes do século XVI viram nesta oração uma fantasia, uma criação dos homens, mas a tradição ancestral fundamentou-a na acção de Judas Macabeu que após uma batalha mandou oferecer um sacrifico no templo por aqueles que tinham tombado mortos e tinham sido encontrados com amuletos e objectos idolátricos (2Mac 12,46). Judas Macabeu acreditava que a sua oferta podia aliviar as penas daqueles que tinham morrido de uma forma tão ignominiosa, que as suas almas podiam ser purificadas depois desta vida. Também a Igreja acredita e por isso, para intensificar esta oração e esta comunhão também de amor, é que no século X, o quinto abade de Cluny, Santo Odilon, instituiu em forma litúrgica a comemoração que hoje fazemos.
Podemos e devemos assim rezar pelos defuntos, e de modo especial por aqueles pelos quais ninguém reza, mas ao fazê-lo devemos ter presente que estamos a rezar por eles e por nós e ainda que inconscientemente a confrontar-nos com a dimensão da nossa finitude, com a nossa breve passagem por este mundo e pelo amor que nos é oferecido por Deus e tantas vezes nos esquecemos de receber e de ofertar aos outros com quem vivemos.
Peçamos assim ao Senhor que nos liberte a todos, vivos e defuntos, das amarras dos nossos amores e nos encha do seu amor glorioso em plenitude.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Homilia da Solenidade de Todos os Santos

Celebramos hoje a solenidade de Todos os Santos, mas a exemplo de São Bernardo, no seu sermão número dois, podemos interrogar-nos sobre o que adianta aos santos esta nossa celebração, em que os glorifica, uma vez que já participam da glória de Deus e portanto não necessitam das nossas honras e nada se lhes pode acrescentar com as nossas devoções. Porquê então esta celebração?
A resposta é dada por São Bernardo no mesmo sermão, porque se nada interessa aos santos esta festa, interessa-nos muito a nós, na medida em que esta memória e recordação nos pode inflamar no desejo de os imitarmos, nos permite ver explicitada em formas concretas, situadas historicamente as Bem-Aventuranças que Jesus apresentou aos seus discípulos e que escutámos no Evangelho de São Mateus que lemos neste dia.
As Bem-Aventuranças são um enunciado que para os discípulos de Jesus se apresenta como uma Magna Carta, como a sua constituição fundamental, um conjunto de leis novas que regulam e dinamizam a nova Aliança estabelecida em Jesus Cristo. Não são leis de subjugação, de opressão, mas pelo contrário um conjunto de preceitos ordenados de modo a favorecer a liberdade, a responsabilidade e a identidade pessoal enquanto crentes e discípulos de Jesus.
As Bem-Aventuranças conduzem-nos assim na fidelidade enquanto discípulos de Jesus, mas também nos assemelham ao próprio Jesus que as enunciou, porque de facto elas são uma outra face da revelação de Jesus, do Filho de Deus, um outro prisma, em que se nos apresenta a dimensão filial, redentora, misericordiosa, que Jesus viveu histórica e pessoalmente e aqui se apresentam explicitadas através destes enunciados. São um horizonte que se nos abre mas ao mesmo tempo a certeza de um caminho possível porque já trilhado e vivido por aquele mesmo que as propõe.
Os santos que hoje celebramos mostram-nos através das suas vidas as multiformes possibilidades de este horizonte, a dinâmica de estas Bem-Aventuranças enquanto concretizações na história e no tempo e não apenas na sua origem e fonte que foi Jesus. É possível hoje e aqui viver as Bem-Aventuranças de Jesus.
E a primeira a viver é a da pobreza em espírito, porque dos pobres em espírito é o Reino de Deus. É uma Bem-Aventurança que frequentemente orientamos para a pobreza material, enquanto despojamento de bens e capacidade de desprendimento. É verdade que também por essa dimensão ela se realiza, mas a sua realidade é mais profunda, ontológica, marcante do nosso ser e assim seremos bem-aventurados quando antes de mais nos reconhecermos como necessitados, como carentes, como em falha que necessita ser colmatada.
A pobreza bem-aventurada é aquela que alegremente reconhece que nada pode por si mesma e portanto entrega-se nas mãos de Deus esperando o seu enriquecimento, o suprimento das suas carências. Vive na confiança de receber o apoio e a assistência de Deus em cada instante e em cada necessidade. Desta forma aproxima-se da pessoa de Jesus e da configuração à sua palavra, ele que na sua encarnação não deixou de confiar no Pai e em cada momento erguia os olhos para o céu esperando a sua ajuda e a sua força. A pobreza bem-aventurada vive de uma forma paradoxal a filiação, na qual a dependência e a obediência são expressões do amor mútuo.
A pobreza vivida desta forma é o pórtico de entrada para a realização da Bem-Aventurança da humildade, porque os humildes possuirão a terra. Conscientes da nossa pobreza estrutural, ontológica, podemos fazer caminho para os outros também pobres como nós. Poderemos ir ao encontro dos outros humildemente porque nos sabemos iguais, necessitados e portanto capazes de partilhar a mesma vida e o mesmo caminho. Desta forma abrimos a porta à construção de uma nova terra, de um novo paraíso, onde o dom de Deus de que fomos objecto se transfere para o outro como dom também gratuito. A paciência, a disponibilidade, a generosidade, o carinho e tantos outros gestos de dom concretizam esta humildade que nos aproxima da vida de Jesus enquanto filho, enquanto homem de Nazaré, enquanto membro de uma família e de uma cultura e sociedade específica.
São bem-aventurados também aqueles que choram, porque serão consolados, os que choram pelas suas dores e pelas dores dos outros. Deus não é insensível às lágrimas de ninguém e vem sempre ao encontro delas. Contudo, esta Bem-Aventurança leva-nos a umas outras lágrimas, lágrimas experimentadas por Jesus quando chorou por Jerusalém, quando chorou pelos pecados dos homens. A consolação da Bem-Aventurança é fruto destas lágrimas porque todo aquele que chorar os seus pecados será consolado pela graça de Deus e pelo seu perdão. Se Deus não fecha os olhos às lágrimas da dor física, da perda de um amigo, como na morte de Lázaro, não pode ainda mais ficar insensível quando as lágrimas são do arrependimento do mal cometido.
São bem-aventurados e serão saciados aqueles que tem fome e sede de justiça, e serão saciados com a Bem-Aventurança da misericórdia, porque a justiça e a misericórdia andam unidas na mão de Deus. Os homens e mulheres que buscam na terra e na sua vida a justiça, a existência dessa justiça que vem de Deus, inevitavelmente têm que viver a misericórdia e portanto serão beneficiados com a misericórdia de Deus.
Estas dimensões, a pobreza, a humildade, a dor do mal, a justiça e a misericórdia conduzirão à pureza de coração que permite ver a Deus. É um desejo inato em nós, mas é também uma meta que se nos propõe, uma Bem-Aventurança que se pode alcançar na medida em vivemos as outras diversas bem-aventuranças. Pela pobreza de coração, pela humildade, pelas lágrimas, pela justiça e pela misericórdia fazemos essa ascese purificadora do coração que nos permite ver a face de Deus, face presente na obra da criação, nas vidas dos nossos irmãos, nos desafios e oportunidades que a vida nos coloca para a realização do bem.
E como diz São João na sua carta, se vivemos com essa esperança de ver Deus tal como Ele é não podemos deixar de ir lutando por esta purificação, ou seja não podemos deixar de ir tentando a realização das Bem-Aventuranças na nossa vida, em cada uma das possibilidades que se nos apresenta de concretização.
E desta forma, através desta busca constante, consequentemente seremos bem-aventurados construtores da paz, poderemos ser chamados filhos de Deus, porque em tudo o que fazemos não nos deixamos guiar pelas nossas forças nem ambições, pelos nossos desejos de violência e superioridade, mas pela bondade e pelo perdão, pela generosidade e o reconhecimento da acção de Deus na história através de sinais tão ténues como um abraço de um filho ou uma saudação de um vizinho mais novo. Utópico, certamente, mas poderemos experimentar viver nesta terra e nesta história um pouco como se não fossemos deste mundo, como estando no mundo mas não sendo deste mundo.
E é neste mundo que se cumpre, ou nos está destinado viver a última Bem-Aventurança, aquela que Jesus coloca com uma realidade futura mas inevitável, na medida em que somos ou queremos ser discípulos, filhos de Deus e herdeiros do reino dos céus. Sereis bem-aventurados quando vos perseguirem por causa do Reino e por causa de mim. Ao apontar-nos esta realidade violenta e até trágica Jesus insere-nos na esteira e na longa tradição dos profetas de Israel, insere-nos na sua própria experiência de vida, porque afinal ninguém pode ser maior que o mestre, ninguém pode querer passar pela salvação sem passar pela cruz, ninguém pode querer viver a fidelidade sem experimentar o combate.
Esta Bem-Aventurança é uma interpelação radical ao seguimento, a uma consciência dessa realidade violenta inerente ao seguimento de Jesus mas sem a qual não é possível a construção do Reino de Deus, porque como nos disse em outro momento a opção por ele, por Jesus, implica a violência e a divisão, o colocarem-se dois contra três, pais contra filhos, amigos contra amigos. O seguimento de Jesus não se compagina com outros seguimentos, a fidelidade à sua pessoa não se compadece com outras fidelidades.
Uma vez mais podemos interrogar-nos sobre a vivência destas palavras de Jesus, desta Carta Magna, da sua dimensão utópica e da nossa fragilidade e incoerência face a ela. Contudo, os santos que hoje celebramos mostram-nos que em diversas circunstâncias, nas mais diversas realidades, familiar, missionária, contemplativa, política, universitária, laboral, é possível viver as Bem-Aventuranças, necessitamos apenas estar atentos aos sinais dos tempos e dispor-nos à aceitar a vontade de Deus em nós, a ser pobres para com Deus e humildes para com os irmãos.