Uma vez mais Jesus vê-se confrontado com uma provocação, desta feita da parte do grupo dos saduceus, um grupo que como nos diz o Evangelho de São Lucas não acreditava na ressurreição. Era um grupo influente, pois era dele que saía a classe dirigente de Israel ao tempo de Jesus. Era um grupo que se opunha também aos fariseus que apesar de todas as suas falhas e incoerências acreditava na ressurreição, ainda que construída à imagem e semelhança da vida presente, e com os quais Jesus estava muito mais próximo socialmente do que com o grupo dos saduceus.
A provocação que os saduceus colocam a Jesus, partindo da sua descrença na ressurreição, fundamenta-se na lei da “halizah”, um preceito da Lei de Moisés que encontramos no Deuteronómio, segundo a qual o irmão do defunto era obrigado a casar com a viúva de modo a assegurar-lhe descendência e a continuidade do nome. É uma regulamentação de uma prática que encontramos em outras culturas, a do levirato, uma prática não só desrespeitadora da liberdade da mulher mas sobretudo da sua dignidade.
O exagero da história não fará duvidar Jesus nem por um momento sobre a resposta a dar, o nosso Deus é um Deus de vivos e não de mortos. Resposta que Jesus fundamenta na tradição anterior, numa lei muito mais ancestral que é a dos patriarcas e a forma como eles tratavam e falavam de Deus, Deus de meu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob.
Estamos assim perante uma afirmação completamente paradigmática da realidade de Deus e da nossa própria realidade, ou seja, não temos um Deus de mortos ou para a morte mas um Deus vivo no qual nos integramos enquanto vida. E se a morte faz inevitavelmente parte da nossa vida, da nossa realidade histórica, não é por vontade de Deus, mas pela própria circunstância do pecado e da ruptura de vida que ele provoca.
Enquanto cristãos e baptizados em Jesus Cristo, Senhor da vida e vencedor da morte, esta realidade de vida e seres vivos é ainda mais fundamental, ontológica, porque no baptismo somos mergulhados na sua morte, fazemos essa experiência, para renascermos para uma vida nova, a vida da graça, a vida ressuscitada de Jesus ressuscitado. Pelo baptismo somos inevitavelmente seres vivos para a eternidade e ainda que o pecado faça as suas rupturas mortíferas, Deus não poderá retirar-nos a vida entregue, não poderá deixar de manter viva essa vida recebida no seu Filho, com tudo o que ela encerra de dom e de necessidade de transfiguração pela nossa condição pecadora e rupturas provocadas.
E é nesta dupla dimensão de dom e necessidade que se joga a vida futura, a vida eterna, aquela vida de que fala Jesus que é a vida da ressurreição, na qual já não haverá realidades humanas, estruturas e relações, em que seremos como anjos, em que seremos definitiva e completamente filhos de Deus, Deus.
O dom da vida física e histórica e os demais dons recebidos por Deus não poderão ser desperdiçados, não poderão ser esbanjados, porque como nos foi dito por Jesus várias vezes teremos que prestar conta deles. Assim, ao orientarmos a nossa vida histórica e as nossas relações devemos ter presentes o quanto estamos a ser fiéis a esses dons, a construir alguma coisa com eles, o quanto estão a contribuir para que a nossa dimensão de eternidade se traduza no tempo presente.
Por outro lado não podemos deixar de cuidar e ter em atenção a necessidade de nos curarmos das feridas das nossas rupturas, da morte que vamos provocando em nós e nos outros com o pecado. A fé na ressurreição, na vida eterna e num Deus de vivos obriga-nos a uma transfiguração, a um assumir cada vez mais consciente e coerente da dimensão da nossa finitude histórica e do germe de vida eterna que transportamos em nós.
Olhando para a praxis desta dupla dimensão, temos que assumir que pela vida eterna nos devemos obras de eternidade, obras que tenham uma marca e um desejo de eternidade, que nos devemos o amor e a esperança que Deus coloca em nós. À luz da Eucaristia devemos ser pão e corpo que alimenta e ampara o outro na sua caminhada à luz da eternidade. Por outro lado devemos exercer uma vigilância e um cuidado sobre nós próprios e até sobre o nosso corpo físico de modo a que nos aproximemos cada vez mais puros, cada vez mais alvos, e vivos, da fonte da vida que nos anima. E ainda que tenhamos que martirizar o nosso corpo, entregá-lo como escória, fazemo-lo com essa confiança de que o receberemos pleno de glória, luminoso, corpo ressuscitado.
Procuremos então, e seguindo o conselho de São Paulo aos Tessalonicenses, viver na esperança e na firmeza da fidelidade de Deus, traduzindo com toda a espécie de boas obras e palavras, a vida eterna do amor que foi colocada nos nossos corações.





