quinta-feira, 14 de julho de 2011

Meditação do Mistério de Jesus a caminho do Calvário por frei José da Câmara

Apresentamos a meditação proposta por frei José da Câmara para o quarto Mistério Doloroso do Rosário, no seu livro “Arte da Perfeição Cristã”.

"Meditação
Considera, alma minha, ao teu Redentor pelas ruas de Jerusalém afrontado tão ignominiosamente diante de tanto povo. Qual seria a sua aflição com uma Cruz às costas entre dois ladrões, sendo ele a mesma inocência? Mas ainda que estas ignominias lhe feriam tanto o sensitivo, com que ternura abraçaria aquela Cruz, em que havia de dar a vida pelos homens, e remir o género humano? Que palavras ternas lhe diria, pois tão voluntariamente a abraçava! Com que afectos ofereceria ao Eterno Pai aquele sacrifício tão custoso em satisfação dos teus pecados? Assim caminha com aquele Sagrada Lenho aos ombros, e com uma corda ao pescoço! Porque àquela Santíssima humanidade faltavam já as forças naturais, foram inumeráveis as quedas, que naquela jornada padeceu. Pondera bem de vagar este Mistério. Considera ao Rei da Glória todo banhado de sangue, com uma coroa de espinhos na cabeça, que lha não tiraram aqueles algozes, para que fosse mais dilatado o seu tormento.
Era aquela Cruz muito pesada pela matéria, de que era composta; mas ainda que por este princípio o não fosse, bastava levar nela o teu Redentor os pecados de todo o Mundo, para ser inexplicável o seu peso. Com tão grande peso aos ombros um Homem, sobre quem tinham chovido, havia tão poucas horas, tantas tristezas, tantos açoites, tantas bofetadas, e tantas crueldades, como estaria desfalecido? Como havia de poder dar um passo, sem que logo a ele se seguisse uma queda? Caminha, alma minha, em seguimento do teu Redentor; e se os teus pecados fizeram com que dele te apartasses, busca-o pelos sinais daquele sangue, que nas ruas de Jerusalém caiu, e logo o acharás. Aqueles são os vestígios, que ficaram impressos no caminho da salvação: não busques outra estrada, que esta é a estrada corrente, pois nela se divisam tantas correntes de sangue. Considera o estado, em que vai o teu Redentor, sendo as tuas culpas a causa dele chegar a tal estado! Fazes tenção de continuar nos teus pecados, para lhe aumentar mais os tormentos? Queres, que seja mais pesada aquela Cruz pondo-lhe aos ombros mais culpas? Não seja assim, alma minha, à vista do teu Redentor, tão inumanamente ferido: acabem-se já os teus insultos, pois estes são os que lhe ocasionaram tantos danos.
Pondera, que espectáculo seria para aquela Mãe Santíssima, encontrar na rua da amargura a seu Filho neste estado! Que dor trespassaria o coração da Mãe vendo ao Filho tão ferido, e a alma do Filho vendo a Mãe tão magoada! Caminha acompanhando com a consideração ao teu Jesus, e sua Santíssima Mãe, ponderando o muito, que padeceriam até chegarem ao Monte Calvário.
Considera quem é o que padece, que padece, por quem, e para quê. Pede à Virgem Santíssima queira alcançar de seu Filho, que naquela Cruz se crucifiquem os teus pecados, dando-te um verdadeiro arrependimento deles."

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Meditação do Mistério da Coroação de Espinhos por frei José da Câmara

Prosseguindo a apresentação das meditações de frei José da Câmara para o seu livro “Arte da Perfeição Cristã” deixamos a meditação sobre o Mistério da Coroação de Espinhos.

“Meditação
Considera, alma minha, aquela Sacrossanta cabeça do teu Redentor cercada de tão penetrantes espinhos, que lhe chegaram aos ossos, como disse São Bernardo, manando dela tanto sangue, que lhe cegava os olhos, e não se divisava em seu Divino semblante mais que sangue. Que dores padeceria o teu Jesus neste passo? Na cabeça residem os sentidos, como em parte mais nobre, e qualquer moléstia nesta parte penaliza o corpo todo; e atormentando aquela coroa tanto a cabeça do nosso Redentor, se lhe renovaram as dores em todas as mais partes do corpo. Pondera bem estas finezas: pois o coroar-se Deus homem de espinhos, é para te dar a entender, que o padecer por ti lhe tece a mais gostosa coroa. Oferece-lhe também os teus trabalhos, desejando ter ocasiões de padecer muito por ele, que se assim o fizeres, em lugar de coroa de espinhos lhe tecerás uma coroa de flores. Mas se continuas em o ofender, mais espinhos acrescentarás àquela coroa, porque os teus pecados, e os do Mundo todo foram os que deram os espinhos para aquela coroa se tecer, e para aquela Divina cabeça tanto se atormentar.
Com a coroa de espinhos lhe puseram uma cana verde por Ceptro, e vestiram uma Púrpura rota, zombando, e escarnecendo dele, como de Rei fingido, sendo o Rei da Glória. Se qualquer desatenção à tua pessoa, te chega a ferir no coração, como estaria o do teu Redentor, vendo-se diante de todo aquele concurso tão afrontado na honra? Que ignominias, que injurias, e que opróbrios lhe diriam? E nem uma só palavra respondeu o teu Jesus, para te ensinar a sofrer opróbrios, e a padecer afrontas. Oh que pouco o imitas, pois qualquer palavrinha menos atenta, com que no Mundo te tratam, é para ti intolerável, originando tantas malquerenças, tantos ódios, e tantas vinganças!
O intento de Pilatos neste passo era abrandar aquele povo obstinado, oferecendo-lhe aos olhos o teu Redentor tão ferido; mas nem com verem tanto sangue se comoveram à compaixão os corações daquelas feras, antes começaram a clamar: Que morresse crucificado: Que se perdoasse a morte a um ladrão: E que se tirasse a vida ao Autor dela. Pode haver maior temeridade? Pode imaginar-se maior desatino? Há-de ser preferida a vida de um ladrão, tão grande malfeitor na Republica, à vida de um homem Deus, Redentor daquele povo, e de todo o Mundo? Já vejo que me dizes, alma minha, que não pode haver maior barbaridade. Pois que é o que tu obras, quando chegas a ofender mortalmente ao teu Deus? Não estimas mais a criatura, do que o Criador? É certo, que sim: pois sendo Deus o último fim, a que tudo se deve ordenar, tu tiras a Deus a razão de último fim, para na criatura o empregares, estimando mais a criatura do que a Deus. Ora confunde-te das tuas loucuras, conhece os teus desatinos para chorares as tuas culpas, e nunca mais ofenderes a quem por amor de ti padeceu tanto.
Dilata-te em ponderar as finezas, que neste passo obrou Jesus por teu amor. Considera quem é o que padece, que padece, por quem, e para quê. Pede à Virgem Santíssima te assista para poderes meditar tantas finezas, correspondendo a elas com afectos, e não com ingratidões, como até aqui tens obrado.”

terça-feira, 12 de julho de 2011

Meditação da Flagelação de Jesus por frei José da Câmara

Continuamos a apresentação das meditações para o Rosário do livro “Arte da Perfeição Cristã” de frei José da Câmara. Meditamos hoje o Mistério da Flagelação de Jesus.

“Meditação
Considera, alma minha, como despiram dos seus vestidos ao teu Redentor diante de todo aquele concurso, e o ataram a uma coluna. Bem tens aqui que meditar ponderando o que padeceu neste passo a modéstia do teu Jesus. Como estaria injuriada aquela modesta humanidade, vendo-se tão descomposta! Se Adão se envergonhou de se ver despido no Paraíso, como ficaria o teu Jesus oprimido do pejo, estando despido naquele pátio! Escarnecia aquela vil canalha; mas de quem? Daquela humanidade Santíssima. Blasfemava aquele povo ingrato; mas de quem? Daquela Santidade suprema.
Aqui lhe deram cinco mil e tantos açoites com tão inexplicável crueldade, que chegaram a despedaçar aquela humanidade inefável, estando já tão dolorida, e magoada com as violências da prisão desde o Horto até às casas de Annás, e Caifás, e daí com desprezos, e bofetadas levada a casa de Pilatos, e de Pilatos à de Herodes, e de Herodes outra vez a Pilatos. Nesta humanidade tão delicada, e perfeita, mas também tão quebrantada, e dolorida, se empregaram os golpes de açoites com os mesmos instrumentos, com que se castigavam os escravos. Oh Senhor do Céu, quem vos pudera perguntar, qual foi o maior sentimento, que vossa Alma padeceu, se o veres-vos despido, se o seres tão cruelmente açoitado! Mas pondero, que mais vos afligiria ultrajarem a vossa modéstia, despindo-vos, que açoitando-vos, porque ao tempo, que padecíeis os açoites, considero que com o Eterno Pai teríeis estes colóquios: Satisfaça-se, Pai meu, vossa justiça, ainda que em mim se multipliquem os tormentos. Muitos, e muito cruéis são os açoites, que padeço; mas maior é o amor, com que vos amo, e o desejo, que tenho de padecer pelos homens. Veja-vos eu em paz com eles, ainda que sobre mim se torne todo o peso da guerra. Oh amor Soberano! Oh meu Jesus, que mal tenho correspondido a tanto amor!
Com as almas remidas com aquele sangue fala também neste Mistério, oh alma minha, o teu Jesus: Oh almas, quanto me custastes? Considerai bem o estado, em que as vossas culpas me puseram! Ponderai, o como estou nesta coluna! Vós é que sois as escravas, e eu sou o que levo os açoites para satisfazer pelas vossas culpas. Vedes-me tão lastimoso, tão ferido, e tão despedaçado? Pois muito mais me lastimais, feris, e atormentais, quando me chegais mortalmente a ofender. Compadecei-vos, almas, de mim; não me trateis tão mal; não me multipliqueis os tormentos; sejamos amigos, que se assim se aliviarão as minhas penas, e me não custarão tanto estes açoites. Dá atenção, alma minha, a estas vozes, penetrem-te o coração estes ecos.
Pondera quem é o que padece, que padece, por quem padece, e para que padece. Pede à Virgem Santíssima te assista para o saberes meditar, sentindo seus açoites, e mais afrontas, que neste passo sofreu o teu Jesus, sendo tudo grande motivo para chorares teus pecados, e nunca mais o tornares a ofender.”

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Meditação da Agonia no Horto por frei José da Câmara

Prosseguimos a apresentação das meditações para o Rosário preparadas por frei José da Câmara para o se livrinho “Arte da Perfeição Cristã”. Desta feita a meditação do Primeiro Mistério Doloroso, a Agonia de Jesus no jardim das oliveiras.

"Meditação.
Considera, alma minha, ao teu Redentor e Senhor do Universo posto de joelhos no Horto de Getsémani com as mãos levantadas, com os olhos fixos no Céu, e arrasados em lágrimas; com o coração oprimido da maior tristeza, que se pode imaginar, orando ao seu Eterno Pai pelos homens, e representando-se lhe nesta Oração todas as dores, aflições, opróbrios, afrontas e morte que havia de padecer. Oh como seriam veementes as angústias, que oprimiam aquele coração Sagrado, pois caindo o teu Redentor por terra, começou sua humanidade Santíssima a suar gotas de sangue em tanta abundância, que chegaram a correr pela terra! Gotas de sangue, alma minha! Aonde se viu no Mundo tal suor? Se o suor frio denota grande aflição em um corpo humano, que aflição seria a de um corpo, do qual dimanaram suores frios de sangue?
Considera, como tão profunda foi a tristeza, que o nosso Redentor padeceu, que com natural afecto de verdadeiro homem chegou a pedir ao Eterno Pai, que passasse dele aquele Cálice da morte! Mas contudo com vontade muito deliberada, e conforme para dar a vida pelos homens. Pondera, se correspondes assim às finezas do teu Jesus, quando te achas acometida de alguma tribulação ou trabalho. Tudo são em ti impaciências, sem te saberes conformar com a vontade de Deus. Ora aprende a sofrer tribulações daquele exemplar Divino, e quando te vires em trabalhos considera muito de vagar as aflições do teu Jesus no Horto de Getsémani. Podes ter neste Mundo aflição, que seja ao menos leve sombra das que ele padeceu naquele Horto? É certo, que não, porque foram tão veementes, que a suores de sangue o obrigaram: pois se o teu Redentor entre tantas tribulações, como as em que seu coração se via, estava com a vontade do Eterno Pai tão conforme; porque razão nos teus trabalhos te não hás-de conformar com a vontade de Deus?
Considera, que naquela Oração se lhe representaram também os pecados de todos os homens, e os teus, com que o havias de ofender, não te querendo aproveitar do valor daquele sangue. Isto lhe causou novas aflições àquele coração já tão aflito; e estas tuas ingratidões o puseram na última agonia. Retrata, alma minha, os teus erros, vale-te daquele sangue, para conseguires de Deus o perdão das tuas culpas, tendo o mais vivo pesar de o haveres ofendido, e prometendo de nunca mais o tornares a ofender. As angústias de sua Santíssima Mãe, que lhe haviam de causar os tormentos do teu Jesus, foram também grande motivo para as suas aflições; sendo necessário, que para que estas lhe não acabassem logo a vida, descesse do Céu um Anjo a confortá-lo.
Dilata-te, alma minha, em ponderar estas angústias: medita, quem é o que padece, que padece, por amor de quem padece, e para que padece. Pede à Virgem Santíssima que te assista, para com todo o fervor o meditares."

domingo, 10 de julho de 2011

Homilia do XV Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Mateus deste décimo quinto domingo do Tempo Comum quase que dispensa uma homilia, pois o Senhor Jesus na intimidade do grupo explica aos seus discípulos o sentido da parábola do semeador que pouco antes tinha proferido e apresentado à multidão junto às margens do lago.
Ainda assim, e tendo presente essa mesma explicação, não podemos deixar de chamar a atenção para alguns pormenores que se prendem com a semente enquanto Palavra e o terreno enquanto coração e vida. No conjunto do texto e face à explicação da parábola feita por Jesus podem passar-nos despercebidos.
Assim, e antes de mais não podemos perder de vista a generosidade de Deus, a forma abundante como semeia a Palavra, sem qualquer preocupação face ao terreno que acolhe a semente. Deus semeador sai a semear a Palavra, a sua Palavra de Vida, que tanto pode cair no caminho, num terreno pedregoso, no meio das silvas ou até num terreno verdadeiramente bom e capaz de produzir o que a semente em si transporta de potencialidade.
Neste sentido e face a tantas situações da nossa vida, às suas fragilidades e limitações, às nossas infidelidades e incoerências, não podemos esquecer que Deus vem ao nosso encontro, que vem semear no campo da nossa vida e do nosso coração, um bocado indiferente ao nosso acolhimento da sua Palavra. Deus é generoso e paciente e por isso não só semeia com abundância mas também semeia ao longo do tempo, esperando e confiando que um dia a sua Palavra e a semente sejam acolhidas, colham raiz, cresçam e frutifiquem.
Ainda, e relativamente à semente, não podemos esquecer também o que nos diz o profeta Isaías, ou seja, que a Palavra não regressa à boca do Pai sem ter produzido os seus frutos, sem ter cumprido a sua missão. A Palavra é sempre fértil, alteradora, provocadora, e geradora de uma nova situação.
Deus pede-nos assim, ou confronta-nos assim com uma disponibilidade e uma atitude que nos pode parecer impossível, pouco compatível com os nossos desejos de realização e resultados, por vezes imediatos. Deus, à sua semelhança, e no nosso trabalho pastoral, catequético, testemunhal, pede-nos essa liberdade de semear sem querer ver os frutos e colhê-los. A nossa missão é semear a Palavra de Deus porque os frutos um dia aparecerão e alguém os colherá.
A falta de prática religiosa das novas gerações e algumas situações familiares que nos são muito próximas são neste sentido provocantes, questionadoras, porque nos interrogam sobre o que falhou ou onde falhámos na tarefa do anúncio da Palavra, para que essas pessoas não estejam hoje a ser fiéis, não sejam cristãos convictos e empenhados, não respondam aos nossos desejos e critérios de pertença comunitária eclesial, depois de tudo o que lhes tentámos ensinar e transmitir.
São realidades muitas vezes angustiantes e desanimadoras, mas face às quais não podemos deixar de ter esperança e confiança na capacidade geradora da Palavra, e ter presente o tempo e cuidados que exige uma semente para que possa criar raízes, deitar rebentos e produzir frutos, ou seja, a responsabilidade do trabalho que nos está entregue e ainda não realizámos cabalmente.
E neste trabalho aparece-nos um grande desafio e uma grande tarefa que é a da preparação do terreno para que a semente possa ser acolhida e frutificar, esse cuidado humano que é necessário para que a Palavra se possa desenvolver. Necessitamos cuidar o substrato humano, com as suas virtudes, para que a partir dele a semente divina possa crescer e viver. Para que haja um bom cristão não se pode abdicar de um homem virtuoso, de um bom cidadão.
Tarefa que não se apresenta fácil, na medida em que nos custa abrir o coração à conversão, disponibilizarmo-nos para mudar a nossa vida no sentido de uma maior fidelidade, coerência, acolhimento da Palavra de Deus com tudo o que ela representa de alterante. E na medida também em que a nossa sociedade e cultura cultiva cada vez mais um conjunto de valores que se nivelam pelo mínimo, pelo mínimo esforço, pelo mínimo sacrifico, pela mínima entrega, pela mínima beleza e bondade.
Contudo, é necessário esse esforço, esse trabalho, que para além de todo o sofrimento do presente será sempre relativo e ínfimo face aos frutos alcançados. Como nos diz São Paulo na Carta aos Romanos, gememos as dores da maternidade, mas tal suportamos na perspectiva da libertação, de que vivemos já as primícias na semente da Palavra acolhida.

sábado, 9 de julho de 2011

Licença e Censuras da Ordem à publicação do livro “Arte da Perfeição Cristã”

A publicação de um livro religioso no século XVIII acarretava as devidas licenças por parte do Santo Oficio, do Paço Real e do Bispo diocesano ou legitimo Prelado Superior. Apresentamos a licença que foi emitida por parte do Prior Provincial da Ordem dos Pregadores para a impressão do livro "Arte da Perfeição Cristã" de frei José da Câmara e as censuras que a fundamentaram e aprovavam.

Censura do M.R.P. Fr. José da Purificação, Mestre na Sagrada Teologia, Académico da Academia Real da História Portuguesa, Ex-Definidor de Capítulo Geral da Ordem dos Pregadores, e Regente que foi dos Estudos do Convento de São Domingos de Lisboa.
M.R.P. Provincial
Manda-me Vossa Paternidade Muito Reverenda que lendo eu o livrinho das Meditações do Santíssimo Rosário, que o Padre Frei José da Câmara deseja por meio da estampa imprimir nos corações, mais que nos bronzes, o informe com o meu parecer. E considerando eu, que o Santíssimo Rosário é o património da nossa Sagrada Religião, como ainda entre os estranhos o reconhece o Doutíssimo Navarro, seu devotíssimo: Rosarium est patrimonium Ordinis Dominicani; e que Nosso Pai São Domingos nos o deixou por herança, não só para lhe colhermos os seus frutos, como temos colhido abundantíssimos de virtudes, de letras, e de honras; mas também para os comunicarmos, e repartirmos pelos Fiéis Católicos: como também vendo eu o Rosal do Santíssimo Rosário, que plantou Nosso Pai São Domingos, tão multiplicado no mundo, que todo ele está cheio de Rosários, como já há tempo bem advertiu o Sapientíssimo João Labbé: Dominicus Rosas inseruit, et Rosariis Orbem implevit; digo com a devida obediência ao preceito de Vossa Paternidade Muito Reverenda que não obstante o terem saído à luz, e actualmente estarem a sair tantos livrinhos de Meditações do Rosário, bem pode sair à luz este livrinho; para que multiplicado na estampa, como se multiplicam Rosários nas Oficinas, fique cheio o mundo deles, e de outros livrinhos, como hoje está cheio de Rosários. Este é o meu parecer: Vossa Paternidade Muito Reverenda mandará o que for servido. São Domingos de Lisboa aos 3 de Outubro de 1738.
Frei José da Purificação.

Censura do M.R.P. Fr. Crispim de Oliveira, Mestre na Sagrada Teologia, Qualificador do Santo Oficio, Pregador da Capela Real do Sereníssimo Senhor Infante D. Francisco, Examinador Sinodal do Arcebispado de Lisboa Oriental, e Prior que foi do Convento de São Domingos de Évora.
M.R.P.M. Provincial
Por ordem de Vossa Paternidade Muito Reverenda vi o livrinho, que o Padre frei José da Câmara quer dar ao prelo, intitulado Arte da Perfeição Cristã, e certamente devo louvar o grande acerto do seu espírito; porque sendo muitas as artes, com que o demónio nos vence, e com que muitos homens se perdem; bem é haverem também muitas, com que o demónio se vença, e com que os homens se salvem: para estes dois fins não há melhores armas, nem caminho tão seguro, como tudo o que aqui se escreve nesta Arte, ou neste livrinho. As armas lá foram forjadas no fogo daquele grande amor, que Maria Santíssima tem aos homens; e umas tais armas, como estas, que inimigos pode haver a quem não vençam? O caminho, também Maria Santíssima o ensinou ao nosso grande Patriarca São Domingos, quando o constituiu venturoso Apostolo do seu Santíssimo Rosário; e caminho ensinado por uma tal Senhora, a quem não há-de meter na Bem-Aventurança? Bastava conter-se neste pequeno livrinho aquele grande brasão, com que a Mãe de Deus quis autorizar a sempre venturosa Família Dominicana, para ser merecedor de uma, e muitas estampas. Isto é o que me parece. Vossa Paternidade Muito Reverenda fará o que for servido. São Domingos de Lisboa, em 14 de Outubro de 1738.
Frei Crispim de Oliveira.

Frei José de França, Mestre em a Sagrada Teologia, Deputado do Santo Oficio, Prior Provincial da Ordem dos Pregadores nestes Reinos de Portugal, &c. Em virtude das presentes, e autoridade de nosso oficio, damos licença ao Padre frei José da Câmara, para dar à estampa um livrinho de Meditações dos Mistérios do Santíssimo Rosário com as suas Indulgências, por nos constar pela aprovação dos Padres Mestres, que o reviram, que será de muita utilidade aos que o lerem. Dada neste Convento de Santa Cruz de Viana, aos 30 de Outubro de 1738.
Frei José de França, Prior Provincial.
Reg. a fol.17.
Frei Simão de Távora, Presentado, Secretário, e Companheiro.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Meditação da Perda e Encontro de Jesus no Templo no livro “Arte da Perfeição Cristã”

Terminamos os Mistérios Gozosos do Rosário do livro “Arte da Perfeição Cristã”, com a meditação da Perda e Encontro de Jesus no Templo de Jerusalém, composta por frei José da Câmara.

“Meditação
Considera, alma minha, a pontualidade da Virgem Santíssima em ir celebrar a solenidade da Páscoa com seu Esposo São José, e com o Menino Jesus, e por esta ocasião o perdeu a Senhora no Templo, sem culpa sua, e sendo seu querido Filho a sua alma, a sua vida, e toda a sua consolação, como ficaria o coração desta Senhora quando se achou sem seu Filho? Lembravam-lhe os cruéis e poderosos tiranos, que tantas diligências tinham feito buscando-o para lhe tirar a vida desde que nasceu; e com o receio de que estes o tivessem achado, tais foram os seus temores, horrores, e amarguras por espaço de três dias, que com seu Esposo o andou buscando, que o não acabar às mãos da dor, foi porque milagrosamente lhe conservou a vida o mesmo Menino Deus. Oh alma minha: quantas vezes terás perdido a Deus, estando fora da sua Graça? E que dor te causou esta perda? Comias, e dormias com todo o sossego! Considera bem a tua loucura! Ainda hoje não sabes se estás fora da sua Graça, e assim descansas? Maria Santíssima estando tanto na sua graça, só porque de vista o perdeu, foi tão grande a sua mágoa e tão excessivo o desvelo de o buscar; e há-de ser possível, que tu, alma minha, tão pouco cuides em buscar a graça de Deus, que não sabes se a perdeste? Ora busca ao teu Deus com o maior desvelo, procura-o com um vivo pesar de o teres ofendido, que só assim o hás-de achar no mesmo instante, em que o buscares.
No Templo achou Maria Santíssima a seu Filho no meio dos Doutores, ouvindo o que diziam, e respondendo ao que lhe perguntavam. Ouvia com paciência, e respondia com discrição; por isso se admiravam todos das suas perguntas, e das suas respostas. Para estar com os homens deixou o Menino Deus a sua Santíssima Mãe! Oh como extremosamente os ama! Mas oh como os homens correspondem mal a este amor! O Menino Deus perdido por não deixar os homens, e os homens perdidos por deixarem a Deus! Não é justo, nem razão, alma minha, que assim seja; não deixes ao teu Deus, nem por quanto há no mundo.
Pondera que alegria seria a da Santíssima Virgem quando no Templo descobriu aquele Tesouro riquíssimo, aquela preciosa Pérola, e aquela soberana Jóia de infinito valor! Quem poderá explicar o prazer que recebeu quando viu aquela desejada Luz, que era a luz dos seus olhos? Nestes ficaram as lágrimas, mas mudou-se a causa delas, porque d’antes nasciam de dor e sentimento; agora nascem de uma consolação Celestial, de uma alegria suma, e de um alívio soberano.
Pede à Virgem Santíssima te alcance de seu Filho graça, para que nunca percas a sua amizade: mas se a desgraça for tanta, que assim suceda, que com uma verdadeira contrição o busques, e com ela logo o aches.”