sábado, 7 de janeiro de 2012

São Raimundo de Peñaforte – Iconografia

Celebramos hoje a memória de São Raimundo de Peñaforte e entres as suas representações iconográficas há uma que se distingue das outras, pois representa um dos milagres mais espectaculares deste santo dominicano. Uma vez mais fazemos uso do texto do “Agiológio Dominico” de frei Manuel de Lima, que nos conta esta história com o sabor do século dezoito.
Tinha El Rei naquele tempo trato ilícito com uma mulher. Repreendeu-o o Santo a primeira vez em particular; e porque ele se não emendou, antes mostrasse fazer gala do pecado, quando chegou a ser público no povo, o advertiu publicamente no púlpito: pedindo-lhe deixasse o mau estado, tão impróprio a um Príncipe Católico, pelo exemplo, e tão arriscado para a salvação.
Prometeu-lhe El Rei lançar fora a ocasião; mas como estava tão afeiçoado, não se resolvia a pôr em execução os saudáveis conselhos do Santo Confessor. Este vendo que lhe não obedecia, e que de outra sorte o não podia remediar, determinou deixá-lo, e tornar-se para o seu convento de Barcelona. Um dia o disse a El Rei, com o semblante tão severo, que admirando-se ele da resolução, e temendo ficar sem a sua companhia, mandou um decreto a todos os mestres dos barcos, e naus, que sob pena de morte nenhum desse passagem a Frei Raimundo.
Não sabia o Santo desta ordem. Uma noite depois de assistir a Matinas, tomada a bênção ao Prior, caminhou com o companheiro para o porto da cidade (estava na ilha de Maiorca com o rei); e achando nele uma nau, que estava de partida para Barcelona, se foi ter com o capitão, dizendo-lhe o recebesse. Ele lhe respondeu o não podia fazer: porque El Rei tinha mandado uma rigorosa ordem, para que o não levassem. Não replicou o humilde Religioso; sem dizer palavra foi às mais embarcações, que estavam para outras partes do reino; e como todos tinham a mesma ordem, em todos achou a própria repulsa.
Vendo a impossibilidade para a viagem, todo confiado em Deus, disse: “Imagina El Rei que há-de impedir a minha partida? Engana-se, que Deus me proverá de melhor embarcação”. Dito isto tirou a capa, e a estendeu sobre o mar; e pegando do bordão, se pôs sobre ela, fazendo o sinal da Cruz. Como se tivera entrado em uma fortíssima nau; chamou ao companheiro: este temendo o perigo, não quis acompanhá-lo. Disse-lhe então o Santo: “Voltai para o convento, e dizei ao prior que Deus me proveu de boa embarcação”.
Tomando uma parte da capa, e levantando-a sobre o bordão à maneira de vela, se sentou sobre a outra parte. Começou à vista de todos a soprar um ventozinho brando dentro da capa, e o levou pelo alto mar com tanta velocidade, que em menos de seis horas se achou à vista de Barcelona, sendo a viagem de cento e vinte milhas. Quando as vigias da torre descobriram ao mar a maravilhosa embarcação, pareceu-lhe que era uma nau: fizeram-lhe o sinal costumado para entrar; mas chegando-se pouco a pouco, viram era o Santo, que com tão estupendo milagre vinha na sua capa.
Concorreu multidão de povo, e não acabavam de crer o que viam. Cresceu a maravilha, vendo-se que chegando a terra a pé enxuto, levantava a capa da água, sem sinal dela; e pondo-a às costas caminhou para o convento seguido de inumerável gente, que ia como arrastada da admiração”. (1)

(1) LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo Primeiro. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1709, 41.

Ilustração: São Raimundo sobre as águas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quem tem o Filho tem a vida. (1Jo 5,12)

O Filho é o testemunho que Deus dá de si mesmo, diz-nos São João na sua Primeira Carta, e quem acredita neste testemunho tem a vida.
Neste sentido não podemos esquecer aquilo que Jesus já tinha dito de si mesmo no Evangelho, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Jesus apresenta-se como o caminho para o Pai, a verdade do Pai, a vida do Pai, em suma o testemunho do amor do Pai por todos os homens.
E se como nos diz São João, o testemunho de um homem é válido em tribunal, quanto mais não deve ser válido o testemunho do Filho, que não é apenas uma palavra, mas uma acção participativa no sentido da salvação daqueles sobre os quais recai a acusação.
O Filho testemunhou do amor do Pai quando se fez homem entre os homens, sujeitando-se a todas as limitações dos homens para os libertar dessa mesma sujeição, permitindo que retomassem dessa forma a relação de amizade que tinham perdido com o seu criador.
O Filho faz-se assim caminho para os homens, caminho de regresso ao Pai através da própria humanidade redimida. O corpo e a vida não são assim já condenação, prisão, mas vias de realização da natureza e condição filial e divina.
Por outro lado o Filho é também testemunho da verdade do Pai, do amor misericordioso de Deus por todos os homens. O Filho testemunha da necessidade dos homens para Deus, uma vez que eles vivos são a mesma glória de Deus vivo.
O Filho testemunha também da verdade da habitação de Deus, que não se encontra distante, num templo exótico, mas no templo construído pela sua própria mão e para sua glória que é o homem. Deus torna-se acessível e possível a todos os homens.
O Filho faz-se testemunho da vida do Pai quando entrega a todos os homens a vida de Deus, quando lhes permite a filiação divina através da sua encarnação fraterna. Vida esta que se apresenta como alimento, força, luz, e que permite ao homem a vitória sobre a morte. E por isso quem tem o Filho, quem acredita no Filho, tem a vida do Pai, uma vez que tem a possibilidade de se encontrar com essa vida que se entrega, que se faz alimento, para que todos a possam ter em si.
Procuremos pois conhecer o testemunho do Filho para que, como nos diz São Serafim de Sarov no “Diálogo como Motovilov”, possamos possuir o Espírito que nos dá a vida.

Ilustração: “Ícone da Divina Sabedoria”, igreja de São Jorge em Vologda, Rússia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

“De Nazaré pode vir alguma coisa boa”, perguntou Natanael. (Jo 1,46)


Tal como André foi contar a seu irmão Simão que tinha encontrado o Messias, também Filipe foi contar a Natanael. Há um passa palavra no chamamento dos primeiros discípulos de Jesus segundo o Evangelho de São João.
Natanael ao ouvir de Filipe que tinham encontrado aquele de quem estava escrito na Lei e nos Profetas coloca uma questão que podemos à primeira vista perceber como eivada de um preconceito. Afinal o que podia vir de Nazaré e quem era aquele Jesus senão o filho de José?
O preconceito de Natanael relativamente a Nazaré prende-se com o seu conhecimento da Lei e dos Profetas, à luz dos quais ele sabia que o Messias não proviria de Nazaré mas da cidade de David, de Belém. Havia ali portanto algo de errado na afirmação que Filipe tinha feito.
Por outro lado, aquele que Filipe apresentava como o Messias não era mais que o filho de José, o filho do carpinteiro de Nazaré, um homem sem qualquer poder, sem qualquer estatuto para poder ser o pai do libertador de Israel, do novo rei e messias prometido. Portanto, mais saía reforçada a sua desconfiança.
Contudo, e apesar desta resposta, Filipe não desiste e convida Natanael a ir ver com os seus próprios olhos, a encontrar-se com aquele que lhe originava tantas reticências. Ora, é esta atitude que muitas vezes nos falta a nós quando encontramos alguém que se coloca reticente face à pessoa de Jesus, que manifesta os seus preconceitos face a Jesus.
E esta atitude diligente de Filipe ganha ainda maior significado na medida em que descobrimos que no encontro de Natanael com Jesus há um ver prévio que transforma o encontro e a visão. Jesus já tinha visto Natanael debaixo da figueira, ou seja, já o conhecia nas suas aspirações e dúvidas e por isso pode proporcionar-lhe uma outra visão para além daquela que é a imediata.
Uma vez mais jogamos com o mistério da encarnação, da descida de Deus até aos homens, pois neste caso Deus vem ao encontro da nossa visão com a visão que tem de nós próprios e das nossas interrogações e buscas. Deus revela-se às nossas aspirações e desejos de o ver.
E por isso é que Jesus diz a Natanael que verá os anjos subindo e descendo sobre o filho do homem, verá afinal aquela que era a sua aspiração mais íntima, que era o cumprimento das promessas feitas na Lei e nos Profetas. A imagem do sonho de Jacob, do céu aberto aos homens, que era também o seu sonho, estava ali à mão de ver realizado.
Procuremos pois alimentar as nossas aspirações e desejos de ver Jesus, porque na medida dessas aspirações e desejos ele virá ao nosso encontro para se evelar.

Ilustração: “Cristo Jovem”, mosaico na Basílica de Santa Constança em Roma.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

“Vinde ver”, disse-lhes Jesus. (Jo 1,39)

Ao darmos início a mais um ano eis que se nos apresenta este convite de Jesus, “vinde ver”. São palavras e convite que se dirigem antes de mais aos dois discípulos de João Baptista, que seguem Jesus, depois daquele o ter identificado como o Cordeiro de Deus. Mas são também palavras e convite que se dirigem a cada um de nós, e que podemos assumir como programa de vida neste início de um novo ano.
Convite e programa que nos tocam, que nos sensibilizam, porque Jesus não se faz autoridade, não se reserva, mas oferece-se ao conhecimento, à experiência pessoal na sua intimidade. “Vinde ver”, é o convite que nos deixa.
Um convite que implica a nossa vontade e a nossa acção, uma vez que necessitamos colocar-nos em caminho e em busca, que necessitamos querer e procurar. Jesus está mesmo à nossa frente, tal como estava à frente dos dois discípulos de João que o seguiram, e por vezes volta o rosto no sentido de nos fazer a mesma pergunta, “que buscais”, “que quereis”?
E nós também queremos ver onde mora, onde se encontra, como é possível conhecê-lo, mas para tal temos que estar atentos para escutar a sua pergunta e saber dar uma resposta. Afinal que buscamos e que queremos quando procuramos seguir Jesus, quando nos dispomos a ir ver onde mora?
Os discípulos de João responderam com a consciência que Jesus era um Rabi, um Mestre e por isso queriam ir com ele. E nós como respondemos? Que consciência temos desse Jesus que queremos conhecer, queremos encontrar na intimidade? É um mestre espiritual, uma figura histórica incontornável, um revolucionário para novos tempos, o Messias, o nosso salvador e remédio para os nossos males, o Filho de Deus que nos dá identidade e nos convoca a uma missão?
Um facto que não podemos deixar de ter presente é que a partir da ideia que temos de Jesus, dessa consciência inicial, o caminho que seguimos para o conhecer toma essa mesma direcção. Assim a ideia de um Jesus histórico, figura incontornável, conduz-nos a uma dimensão histórica, talvez até materialista, enquanto que a ideia e consciência de um Jesus filho de Deus que nos filia na divindade nos leva a um compromisso mais vivencial, a uma identificação ontológica que tem inevitavelmente repercussões na nossa vida e na forma como a vivemos.
Para ir ver verdadeiramente onde e como mora Jesus temos assim que partir dessa realidade, e verdade à priori, de que ele é o Filho de Deus feito homem para nos fazer filhos de Deus. A partir daqui a nossa experiência, o nosso ver e viver da intimidade com Jesus, só nos poderá levar a um aprofundamento dessa mesma realidade e a uma maior comunhão nessa identidade que nos é prometida. E consequentemente a um outro estilo e forma de estar na vida e enfrentar os seus desafios.
Aprontemo-nos portanto a seguir Jesus para o conhecer na sua intimidade, munidos apenas com essa bagagem e consciência de que ele é o Filho de Deus, e que a nossa filiação se fortalece e aprofunda na medida da experiência dessa intimidade.

Ilustração: “Jesus a Luz do Mundo”, de William Holman Hunt, Keble College, Oxford.



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Quem permanece nele não peca (1Jo 3,6)

Quando João Baptista viu vir Jesus ao seu encontro exclamou “eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. João reconhecia naquele Jesus que vinha ao seu encontro, ao seu baptismo de água para o arrependimento, aquele que era capaz de realizar a libertação de todo o pecado do mundo, de proceder ao baptismo do Espírito como lhe tinha sido anunciado.
São João Evangelista, na sua Primeira Carta, retoma esta mesma ideia e exclamação de São João Baptista, mas alarga a sua amplitude, torna-a mais abrangente e assim podemos ler que não só Jesus tira o pecado do mundo, pelo seu sacrifício de amor, como também todo aquele que permanece em Jesus não peca.
Há assim uma permanência, uma sintonia e uma unidade que permitem que aquele que vive em Jesus, com Jesus e para Jesus não peque. Podemos falar de uma certa transfiguração, de uma mudança ontológica que nos configura com aquele que é o sem pecado e portanto nos comunica essa mesma condição.
Contudo, e aqui se coloca o desafio, para que tal aconteça não podemos deixar de ter sempre presente que somos filhos de Deus, nascemos daquele que é Justo e portanto a justiça e a sua prática, aliada à esperança da acção salvadora de Jesus, nos conduzem a essa pureza que identifica o Cordeiro de Deus e Verbo de Vida.
A condição de sem pecado constitui-se assim a partir da identificação e da fidelidade a essa mesma identificação, da configuração com o Filho de Deus e a sua acção redentora, do assumir que somos outros filhos convocados a uma obra redentora. Como nos diz São Paulo somos chamados a completar em nós o que falta à paixão de Cristo, e na medida em que o procuramos fazer permanecemos no amor de Deus e em Jesus sem pecado.
Peçamos por isso ao Senhor que aumente em nós a esperança e a confiança, para que procuremos em cada dia e em cada situação da nossa vida nos irmos configurando cada vez mais a Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus.

Ilustração: “São João Baptista”, atribuído a Caravaggio, Kunstmuseum Basel.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A confissão de João Baptista (Jo 1,19-28)

Diz-nos São João na sua Primeira Epistola “que quem confessa o Filho reconhece também o Pai”, uma resposta contundente àqueles que se recusavam a reconhecer Jesus como o enviado de Deus, como o Messias prometido.
Confissão que São João Baptista não teve qualquer problema em formular face às questões que lhe eram colocadas pelos enviados vindos de Jerusalém. Ele reconhecia o Messias já presente entre os homens, ainda que os outros o não conhecessem ou reconhecessem. E ao reconhecê-lo fazia também essa confissão do Pai que o enviava.
Contudo, a confissão de João revela-se de sobremaneira importante, única no seu género, na medida em que se formula sobre a negação de si próprio, sobre o aniquilamento da sua importância face ao Messias que vem e que já se encontra presente.
João não é o Messias, não é Elias, não é o profeta, não é sequer digno de desatar as correias da sandália do Messias que vem depois de si. E nesta negação é significativa porque ao afirmar-se como não sendo, “eu não sou”, João coloca-se nos antípodas da revelação divina, da teofania de Deus a Moisés, que desde a sarça-ardente se assume como “Aquele que Sou”.
João é assim o não divino, o que não é por si mesmo, afinal o puramente humano que se reconhece e afirma como pobre, sem qualquer poder, e que só ganha identidade face ao que vem e é enviado pelo Pai. Há um despojamento e um aniquilamento em João para que o enviado de Deus se possa revelar, e revelar também a si próprio que o espera.
Neste sentido é importante que também cada um de nós assuma este despojamento e esta aniquilação para que o Verbo de Deus se revele, antes de mais a nós e depois aos outros por intermédio de nós. Há uma necessidade de vazio, de concavidade para que o enviado de Deus possa ser acolhido, possa fazer habitação em nós.
Usando uma metáfora oriental é necessário que a nossa taça de chá esteja vazia para que se possa encher, porque se estiver cheia nada mais poderá levar.
Peçamos ao Senhor essa coragem de nos despojarmos de tudo o que nos enche de imagens, de seguranças, de roupagens, para podermos caminhar livres e receptivos ao encontro daquele que nos dá a verdadeira identidade porque “é Aquele que é” e a tudo dá ser e existência.

Ilustração: “Jesus e São João Baptista”, de Matteo Rosselli.

Homilia da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

É com imensa alegria que celebramos o Natal, o mistério de Deus que vem ao nosso encontro, que se fez homem como nós excepto no pecado. É motivo de júbilo e de grande confiança saber que não temos um Deus distante, que nos conhece nas nossas fragilidades e limitações, pois fez também a experiência da nossa condição humana.
Contudo, a festa que hoje celebramos de Santa Maria Mãe de Deus e a leitura da Carta de São Paulo aos Gálatas dão a esta alegria natalícia uma outra razão para nos alegrarmos e rejubilarmos, é como que a outra face da medalha, pois Deus não só se fez como um de nós como permitiu que nos tornássemos um como ele, filhos de Deus e herdeiros do céu.
E este mistério, esta grande transformação na nossa condição de vida, foi antes de mais vivida por Maria, a jovem virgem de Nazaré que na sua livre vontade acolheu o projecto de Deus possibilitando a encarnação do Verbo de Deus no seu seio. Após a anunciação do Anjo Gabriel da grande bênção que estava destinada ao povo de Israel e a todos os homens de boa vontade, e que começava a vigorar com a aceitação da convidada a nela participar como mãe, Maria transforma-se na portadora da bênção de Deus, na Arca da Nova Aliança destinada a todos os homens.
À semelhança de Maria e como filhos de Deus e herdeiros do Reino dos Céus também nós somos portadores da mesma bênção, usufruímos dela e somos convidados a levá-la a todos os homens. E daqui radica uma grande responsabilidade e um grande perigo pois podemos cair no mesmo erro e tentação que caiu o povo de Israel com a bênção da primeira Aliança dada no Sinai, pensar a Aliança como um privilégio que exclui os outros, quando afinal a Aliança tem como objectivo levar a conhecer o amor de Deus por todos e cada um os homens.
Somos assim herdeiros e filhos para exercer o serviço da bênção, para ser portadores da bênção de Deus para todos os homens e mulheres. Esta é a nossa grande missão e tarefa como cristãos e podemos fazê-lo onde estamos e das formas mais simples possíveis.
Sofremos por vezes essa ilusão de que num país de missão “ad gentes” seríamos mais fiéis a esta nossa condição, que realizaríamos um trabalho mais valioso e útil, pois levaríamos a Boa Nova de Jesus a povos que a desconhecem. Desta forma esquecemos, ou subtraímos a responsabilidade de dar testemunho e ser bênção de Deus nos locais onde estamos, naquilo que fazemos no dia a dia. Esse é o grande desafio e a grande responsabilidade.
Uma palavra amiga, um apoio moral, uma visita a um vizinho que está só, um trabalho feito com honestidade e responsabilidade, uma cooperação com os que necessitam de uma ajuda, até uma responsabilização dos mais novos nas tarefas de casa, podem ser ocasiões para manifestar a bênção de Deus e sermos bênção de Deus para aqueles que estão connosco.
Neste sentido, e para fortalecer a nossa confiança, é exemplar a atitude dos pastores que foram adorar o menino Jesus. Depois de lhes ser dito pelos anjos que lhes tinha nascido o Salvador encontraram-se cara a cara com uma pobre família, um pai e uma mãe, um menino recém-nascido deitado numa manjedoura e alojados entre os animais. Não viram mais que uma pobre cena de exclusão, que uma pobre família sem lugar onde habitar e um menino que nada tinha de extraordinário.
Apesar disso, dessa normalidade rotineira, perceberam que ali mesmo estava a bênção que tinha sido prometida ao povo e lhes tinha sido anunciada. A esperança e o amor revelaram a bênção e a presença de Deus e por isso partiram dali dando graças a Deus e louvando pelo bem que tinha feito ao seu povo. Não era a realidade que era diferente, mas a forma como eles se aproximaram dela é que a fez diferente, reveladora de uma presença divina.
Ora, também nós estamos chamados a aproximar-nos das diversas realidades com essa fé, essa confiança e essa esperança que as faz ser diferentes, que as transforma e nos transforma em bênção de Deus. É afinal esse o sentido do Natal, e por isso o comemoramos, porque acreditamos que Deus se fez presente entre nós, se faz presente e se revela na medida do nosso amor e da nossa esperança.
Todos sabemos aos iniciar este novo ano que as dificuldades que se perspectivam são muitas e diversificadas, mas como dizia o Papa Bento XVI na sua Mensagem para esta Jornada da Paz, se nos unirmos e acreditarmos que Deus está connosco, que nos acompanha na luta para vencer as dificuldades, se confiarmos e tivermos esperança de que poderemos fazer melhor e ultrapassar os escolhos, então seremos verdadeiramente capazes de vencer, e poderemos alegrar-nos porque Deus nos abençoou e nos fez bênção para alguém.
Peçamos para isso a intercessão da Virgem Maria Mãe de Deus, para que nos acompanhe e nos fortaleça com o seu exemplo de coragem e de esperança.

Ilustração: “Virgem Maria com o Menino e Três Querubins”, de Andrea Della Robbia, Museu do Louvre.