sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os pecados perdoados

 
Os pecados perdoados não devem ser para nós uma ocasião de tristeza, mas ao contrário de alegria e de acção de graças, pois é por eles que regressámos à verdade. “Quem é aquele que o Mestre ama mais? Aquele a quem perdoou uma pequena divida ou aquele a quem perdoou uma maior?”
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Tons de Outono no Jardim Botânico de Genebra.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Visita Canónica a Portugal do Mestre da Ordem Frei Bruno Cadoré

Iniciou-se esta tarde a visita canónica do Mestre da Ordem Frei Bruno Cadoré à Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores.
Depois de uma reunião com alguns membros do Conselho Provincial, o Mestre da Ordem iniciou as conversas individuais com os irmãos deste Convento de São Domingos de Lisboa, pois para além de um conhecimento das obras e actividades que cada Província e convento desenvolvem esta visita tem também o objectivo de conhecer e ouvir cada irmão sobre as várias realidades do nosso ser dominicano.
Após a celebração da Eucaristia e do jantar com a comunidade, frei Buno Cadoré reuniu-se com todos os membros do Convento de São Domingos, num momento de descontraída conversa e partilha sobre o que fazemos e se espera que façamos face aos desafios da Igreja e do mundo em que nos situamos.
Uma vez mais a grande questão da nossa situação e identidade na Igreja, realidades que exigem uma readequação das nossas actividades pastorais e missões, para que possamos continuar a servir a Igreja mas sem deixarmos de ser quem somos, preservando a nossa especificidade de consagrados com tudo o que isso acarreta em termos de vida comunitária, oração e liturgia, conselhos evangélicos e missão de pregadores.
As fotografias que ilustram esta publicação testemunham este momento de encontro e conversa no Convento de São Domingos de Lisboa.

Para o presente que Deus me preparou

 
A humilde necessidade presente é preferível a todos os nossos sonhos de glória, de amor e de santidade. Que doce satisfação poder dizer: fiz verdadeiramente o bem a alguém. Não sou um São Francisco de Sales nem um Cura de Ars, mas fiz uma coisa para a qual Deus me preparou e me enviou.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Estátua de Mahatma Gandhi no jardim do Museu Ariana em Genebra.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Eu não sou o Messias (Jo 1,20)

Desde há muito que os judeus esperavam a vinda do Messias e por isso quando João começa a baptizar e a pregar a conversão junto ao rio Jordão muitos se dirigiram a ele procurando encontrar o Messias esperado.
Hoje, tal como naquele tempo, também muitos homens procuram o seu messias, o seu salvador, o libertador de todos os males políticos, sociais e económicos, e por vezes encontram alguém que se lhes oferece como resposta e solução para essa busca.
Esta resposta e a resposta de João àqueles que desde Jerusalém o tinham vindo interrogar colocam-nos face ao desafio de não nos enganarmos no messias, de não nos deixarmos enganar por aqueles que exploram e se aproveitam dessa busca profunda do homem.
Neste sentido, não podemos perder de vista que contrariamente a tantos messias salvadores que se nos apresentam e oferecem, João Baptista responde e reafirma convictamente que ele não é o Messias, que ele não é aquele pelo qual buscam e anseiam.
João Baptista coloca dessa forma o centro em outra pessoa, descentraliza a atenção de si mesmo, mostra que não é o Verbo mas apenas a voz que clama pelo Verbo. João concebe-se e apresenta-se como um instrumento, e um instrumento pouco digno para a missão que lhe corresponde.
No início deste novo ano somos igualmente convidados a descentrar-nos de nós próprios, a não escutar essa voz que nos vai iludindo com a capacidade de resposta total perante todos os desafios. Nós não somos os nossos próprios salvadores, ninguém se salva a si mesmo, mas pode salvar outros ou deixar-se salvar por outro.
Grandeza enorme a de João, pois não houve filho maior nascido de mulher, grandeza também nossa na medida em que aceitamos a acolhemos Aquele que nos pode plenamente salvar, porque o mais pequeno no Reino do Céus é maior que João, e no Reino dos Céus o mais pequeno é aquele que se deixa salvar, que aceita a sua pequenez resgatada por Deus.
 
Ilustração: “São João Baptista”, de Tiziano, Academia de Veneza.   

A solicitação presente de Deus

 
Qualquer que seja a sorte a que Deus te destina, desde já, desde este mesmo segundo, há coisas para as quais és solicitado.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Estátua de David com a cabeça de Golias no jardim Promenade des Bastions em Genebra.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Homilia Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus

Neste primeiro dia do ano e na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus o Evangelho de São Lucas apresenta-nos o encontro dos pastores com aquele menino que lhes tinha sido anunciado que se encontrava deitado numa manjedoura na companhia dos seus pais.
É um encontro surpreendente e que nos deixa perceber a opinião geral existente à época sobre os pastores, pois aqueles que escutavam o que eles contavam ficavam admirados, admiração causada não só pelo extraordinário dos acontecimentos mas pela fama pouco abonatória relativamente aos pastores.
Não podemos esquecer que os pastores não eram um grupo social com muito boa reputação, com muito boa fama, pois eram considerados ladrões, malfeitores, dispostos a ludibriar não só os compradores mas igualmente os proprietários dos rebanhos. A sua palavra era por isso suspeita de credibilidade.
Contudo, são estes homens, estes marginais, frequentadores da noite e dos espaços desertos que são os primeiros contemplados com o anúncio da Boa Nova do nascimento do Salvador e consequentemente os primeiros anunciadores no âmbito dos humanos.
Esta circunstância põe em evidência a dimensão redentora do mistério da incarnação do Filho de Deus. Uma vez mais verificamos que Deus vem ao encontro do homem naquilo que ele tem e é de menos positivo, de menos dignificante.
Deus vem ao nosso encontro nas nossas fragilidades e infidelidades, vem ao nosso encontro na nossa condição pecadora para que nos alegremos com a sua redenção, com a oferta devida que nos proporciona apesar das nossas infidelidades.
Esta consciência e fé é extremamente importante quando no nosso dia-a-dia nos confrontamos com a nossa condição pecadora, com os nossos desejos de bem que terminam por não se realizar nem concretizar. Como diz São Paulo acabamos por fazer o mal que não queremos e não fazemos o bem que desejamos.
É também esta consciência que nos faz descobrir como apesar de tudo Deus não desiste de nós, não deixa de nos recordar nas mais diversas realidades que somos seus filhos muito amados, herdeiros do seu Reino e portanto convocados a uma outra dignidade de vida, a uma vida que deve traduzir em bênçãos diárias a bênção amorosa de que somos objecto. E no nosso viver quotidiano vamos descobrindo como estamos bastantes vezes longe deste projecto e realidade.
Recordo que na casa do meu avô materno a forma de saudação da nossa parte de netos era, sempre que o visitávamos, “a sua bênção meu avô”, ao que ele respondia “Deus te abençoe”. Para além dele nunca pedi a bênção a mais ninguém, nem sequer aos meus pais, pois os tempos eram outros e o tipo de relação também.
Contudo, não posso deixar de pensar como era profundamente bíblica esta saudação, este trato social e familiar, e como neste pequeno ritual nos colocávamos na órbita de Deus e da felicidade que Deus promete a Moisés e ao povo de Israel como constatamos no Livro dos Números que escutámos na primeira leitura.
Hoje cruzamo-nos com dezenas ou centenas de pessoas e raramente trocamos qualquer palavra de saudação, passamos pelos outros não só como desconhecidos mas sobretudo como se não tivessem nada a partilhar connosco ou nós a partilhar com eles. E no entanto, à luz da nossa fé, são nossos irmãos, são filhos de Deus tal como nós e portanto merecedores da nossa atenção, da nossa bênção.
Neste primeiro dia de 2013 este poderia ser um propósito a assumir para este novo ano, comprometermo-nos a saudar os nossos irmãos e, ainda que em silêncio, a abençoá-los em nome de Deus, para que a paz habite nos seus e nossos corações.
Hoje celebramos a Jornada Mundial pela Paz, jornada que nos convida a todos a construir a paz, que antes de mais começa no nosso coração, mas que passa indubitavelmente pela construção da justiça e de uma fraternidade cada vez mais verdadeira entre os homens.
Se assumirmos a atitude da Virgem Maria face às histórias dos pastores, ou seja, se as ouvirmos, guardarmos e meditarmos no nosso coração, certamente nos encontraremos com a bênção de Deus nas nossas vidas, com a sua acção redentora nas nossas fragilidades e infidelidades, com a dignidade dos nossos irmãos enquanto filhos de Deus e com a urgência de conjuntamente construirmos através da justiça um mundo onde reine a paz, onde todos descubramos a bênção activa de Deus.
Que a Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, Rainha da Paz, conduza os nossos passos no caminho da fidelidade e interceda por nós que clamamos ao Pai pela paz entre todos os seus filhos.
 
Ilustração: Imagem da Virgem Maria Mãe de Deus da casa dos meus pais.

Viver na eternidade

 
Viver no presente, e viver com paixão, como um músico que a cada batida do coração decifra com atenção a partitura, entregando-se tudo o que pode, é desde já começar a viver na eternidade.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Imagem da Virgem Maria da Igreja da Santíssima Trindade em Genebra.