Neste primeiro dia do
ano e na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus o Evangelho de São Lucas
apresenta-nos o encontro dos pastores com aquele menino que lhes tinha sido
anunciado que se encontrava deitado numa manjedoura na companhia dos seus pais.
É um encontro
surpreendente e que nos deixa perceber a opinião geral existente à época sobre
os pastores, pois aqueles que escutavam o que eles contavam ficavam admirados,
admiração causada não só pelo extraordinário dos acontecimentos mas pela fama
pouco abonatória relativamente aos pastores.
Não podemos esquecer
que os pastores não eram um grupo social com muito boa reputação, com muito boa
fama, pois eram considerados ladrões, malfeitores, dispostos a ludibriar não só
os compradores mas igualmente os proprietários dos rebanhos. A sua palavra era
por isso suspeita de credibilidade.
Contudo, são estes
homens, estes marginais, frequentadores da noite e dos espaços desertos que são
os primeiros contemplados com o anúncio da Boa Nova do nascimento do Salvador e
consequentemente os primeiros anunciadores no âmbito dos humanos.
Esta circunstância põe
em evidência a dimensão redentora do mistério da incarnação do Filho de Deus. Uma
vez mais verificamos que Deus vem ao encontro do homem naquilo que ele tem e é
de menos positivo, de menos dignificante.
Deus vem ao nosso
encontro nas nossas fragilidades e infidelidades, vem ao nosso encontro na
nossa condição pecadora para que nos alegremos com a sua redenção, com a oferta
devida que nos proporciona apesar das nossas infidelidades.
Esta consciência e fé
é extremamente importante quando no nosso dia-a-dia nos confrontamos com a
nossa condição pecadora, com os nossos desejos de bem que terminam por não se
realizar nem concretizar. Como diz São Paulo acabamos por fazer o mal que não
queremos e não fazemos o bem que desejamos.
É também esta
consciência que nos faz descobrir como apesar de tudo Deus não desiste de nós,
não deixa de nos recordar nas mais diversas realidades que somos seus filhos
muito amados, herdeiros do seu Reino e portanto convocados a uma outra dignidade
de vida, a uma vida que deve traduzir em bênçãos diárias a bênção amorosa de
que somos objecto. E no nosso viver quotidiano vamos descobrindo como estamos
bastantes vezes longe deste projecto e realidade.
Recordo que na casa do
meu avô materno a forma de saudação da nossa parte de netos era, sempre que o visitávamos,
“a sua bênção meu avô”, ao que ele respondia “Deus te abençoe”. Para além dele
nunca pedi a bênção a mais ninguém, nem sequer aos meus pais, pois os tempos
eram outros e o tipo de relação também.
Contudo, não posso
deixar de pensar como era profundamente bíblica esta saudação, este trato
social e familiar, e como neste pequeno ritual nos colocávamos na órbita de
Deus e da felicidade que Deus promete a Moisés e ao povo de Israel como constatamos
no Livro dos Números que escutámos na primeira leitura.
Hoje cruzamo-nos com
dezenas ou centenas de pessoas e raramente trocamos qualquer palavra de
saudação, passamos pelos outros não só como desconhecidos mas sobretudo como se
não tivessem nada a partilhar connosco ou nós a partilhar com eles. E no
entanto, à luz da nossa fé, são nossos irmãos, são filhos de Deus tal como nós
e portanto merecedores da nossa atenção, da nossa bênção.
Neste primeiro dia de
2013 este poderia ser um propósito a assumir para este novo ano, comprometermo-nos
a saudar os nossos irmãos e, ainda que em silêncio, a abençoá-los em nome de Deus,
para que a paz habite nos seus e nossos corações.
Hoje celebramos a
Jornada Mundial pela Paz, jornada que nos convida a todos a construir a paz,
que antes de mais começa no nosso coração, mas que passa indubitavelmente pela
construção da justiça e de uma fraternidade cada vez mais verdadeira entre os
homens.
Se assumirmos a
atitude da Virgem Maria face às histórias dos pastores, ou seja, se as
ouvirmos, guardarmos e meditarmos no nosso coração, certamente nos
encontraremos com a bênção de Deus nas nossas vidas, com a sua acção redentora
nas nossas fragilidades e infidelidades, com a dignidade dos nossos irmãos
enquanto filhos de Deus e com a urgência de conjuntamente construirmos através
da justiça um mundo onde reine a paz, onde todos descubramos a bênção activa de
Deus.
Que a Virgem Maria,
Mãe de Deus e Mãe da Igreja, Rainha da Paz, conduza os nossos passos no caminho
da fidelidade e interceda por nós que clamamos ao Pai pela paz entre todos os
seus filhos.
Ilustração: Imagem da
Virgem Maria Mãe de Deus da casa dos meus pais.