segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Com que coração Jesus nos amou


Procuro aproximar-me cada vez mais de Jesus Nosso Senhor, na casa de Nazaré, antes de mais, e sob a cruz. Cada vez mais entrevejo com que Coração ele nos amou, com que arrojo, com que paciência, com que humilde vontade, com que perfeita doçura.
Louis Massignon a Paul Claudel
Ilustração: Pormenor do quadro da Última Ceia que se encontra no refeitório do Convento do Bom Sucesso em Lisboa.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Homilia da Solenidade da Epifania do Senhor

Celebramos hoje a solenidade da Epifania do Senhor, a manifestação do Filho de Deus a todos os povos, reunidos e simbolizados nos três reis magos que procuram e encontram Jesus menino.
A leitura do Evangelho de São Mateus que escutamos nesta solenidade deixa-nos contudo com uma imagem bastante diferente de uma manifestação jubilosa, de um encontro alegre e gratificante, pois deparamos com um desencontro e com uma confusão que não pode deixar de nos questionar no seu sentido, uma vez que alguns dos intervenientes nesta história, se não todos, também se sentiram confusos e perturbados.
Conta-nos São Mateus que a chegada dos reis magos a Jerusalém, à procura de um menino rei recém-nascido, provocou bastante perturbação na cidade, para além do alvoroço que certamente uma embaixada e cortejo deste tipo provocariam em qualquer cidade onde chegasse.
Para a perturbação ser ainda maior não podemos esquecer que estes reis magos vinham do oriente, ou seja, de alguma forma vinham do mesmo ponto de origem do pai da fé, de Abraão, que tinha chegado à terra de Canaã vindo da região de Ur a oriente. Estes três reis, guiados por uma estrela, são assim um apelo às origens patriarcais e ao que elas simbolizam, são um desafio à fé em oposição ao poder monárquico, à força humana.
A resposta à busca do local de nascimento do pequeno rei por parte dos rei magos, encontrada nas escrituras pelos escribas e sacerdotes, vem agudizar ainda mais este desafio e este contraste, pois coloca em oposição a cidade de Belém, a pequena cidade onde David tinha sido escolhido para ser rei, à cidade de Jerusalém, que David conquista para si e para o povo mas que será o local do seu pecado.
A cidade de Belém, como local do nascimento do menino, é desta forma um regressar às origens, um regressar à humildade do pequeno pastor que Samuel unge face à surpresa de toda a família. E por isso a referência, por parte dos escribas e sacerdotes de Jerusalém à profecia que indica Belém como local do nascimento, omite declaradamente a referência real, e apresenta um chefe que será como um pastor para Israel.
Caiem assim por terra as aspirações de poder, de glória, de força, simbolizadas no rei Herodes, que secretamente manda chamar os reis para acordar com eles uma informação posterior sobre o menino, como se diante de tudo o que se tinha passado até ali, diante de toda a perturbação pudesse haver algum segredo.
A manifestação do nascimento do Messias, do menino rei, é assim, e antes de mais, um desencontro, um falhanço, pois aqueles que tomam conhecimento do nascimento são incapazes de acompanhar os reis vindos do oriente. Há um desinteresse muito grande, surpreendente face a tanta inquietação e perturbação anterior, e sobretudo face ao esclarecimento fornecido pela Palavra de Deus, que os devia alegrar como convidava o profeta Isaías que escutámos na primeira leitura.
Este episódio dos reis magos, com o desencontro inerente, coloca-nos assim face à nossa busca de Deus e ao perigo que também corremos de sermos cegos e surdos àquele que se nos apresenta de uma forma insuspeitada.
Os reis magos, vindos do oriente, tinham procurado a resposta para a sua busca no caminho das estrelas, mas a partir de determinado momento necessitaram de uma outra luz, de uma outra informação para poderem chegar ao menino, como de facto chegaram.
Ao contrário deles, os escribas e sacerdotes de Jerusalém, o rei Herodes, ainda que possuidores de uma informação qualificada, não foram capazes de a unir com a informação dos reis vindos do oriente, e obcecados com o seu conhecimento não foram capazes de partir à descoberta.
A manifestação de Deus, ou melhor, o nosso encontro com a manifestação de Deus é assim um processo longo e no qual é necessária a participação de várias entidades, de vários tipos de informação. Não nos podemos restringir apenas a um conjunto de dados para nos encontrarmos com Deus.
Neste sentido, as nossas buscas de Deus através das leituras, do estudo, da oração, da poesia ou da arte necessitam da informação dada pela doutrina da Igreja, da formulação da tradição, do Credo, para que nos possam verdadeiramente conduzir ao local em que Deus se nos manifesta, se nos revela.
Por outro lado, não podemos deixar de colher os dados e as interrogações que nos são fornecidas pela cultura, pela ciência, por aqueles mesmos que nos dizem que não acreditam, pois também esses dados e informações nos iluminam no nosso caminhar para o encontro com a manifestação de Deus; são como que estrelas que nos despertam e provocam
Quando dizemos que a Epifania do Senhor é manifestação de Deus a todos os homens, a todos os povos simbolizados nos reis magos, não podemos também deixar de dizer que é igualmente uma manifestação a todas as realidades da vida do homem, daquelas que estão mais próximas da vontade de Deus e das outras que se opõem a ela.
E tal como aconteceu com os reis magos, depois do encontro do menino, depois da manifestação de Deus, não podemos voltar pelo mesmo caminho, não podemos regressar à cidade do poder e da injustiça, à cidade do orgulho e do egoísmo onde Herodes nos espera para dar início ao processo de destruição de toda a esperança de um mundo novo simbolizado nos inocentes assassinados.
A Epifania do Senhor, a manifestação de Deus na história dos homens e na nossa história pessoal deve portanto levar-nos por outros caminhos, pois neste encontro e manifestação descobrimos que Deus é Emanuel, é Deus connosco.

 
Ilustração: “A Adoração dos Reis Magos”, de Gyula Benczúr, Colecção Privada. 

   

 

 

Cristo verdadeiro homem

 
Numa só palavra, Cristo foi feito “essencialmente” da maneira como o cristão é ainda hoje feito “em imagem”. O que não era mais que figura no homem ordinário tornou-se realidade em Cristo no qual são completadas todas as figuras. Não somente Cristo é um homem verdadeiro, mas mais verdadeiro que todos os outros.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Imagem do meu Menino Jesus.

Continuação da Visita Canónica do MO dos Pregadores Frei Bruno Cadoré a Portugal

Depois de dois dias passados no Convento de São Domingos de Lisboa, o Mestre da Ordem frei Bruno Cadoré e o Sócio para a Península Ibérica frei Bernadino Prella prosseguiram a visita canónica à Província Portuguesa encontrando-se com os irmãos que compõem a comunidade da Cúria Provincial e visitando a histórica Casa do Corpo Santo, antigo convento de Nossa Senhora do Rosário.
 
 
As fotografias tiradas pelo Superior da Comunidade, frei Miguel Patinha, testemunham-nos o ambiente fraterno da visita e do acolhimento.



Dali o Mestre da Ordem seguiu para o Convento de Cristo Rei no Porto, onde se encontrará com a comunidade amanhã e domingo e com a Família Dominicana na tarde de domingo.
 

 
Desejamos-lhe uma boa estadia e que os irmãos do Convento do Porto partilhem alguma fotografia para podermos continuar a divulgar esta visita tão importante para todos nós.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Encontrámos (Jo 1,45)


Podemos dizer que as vocações dos primeiros discípulos de Jesus são surpreendentes, há como que uma pedagogia profissional por parte de Jesus para se aqueles homens se encontrem profundamente com ele.
Como um bom professor, um bom pedagogo, Jesus não oferece a resposta, não dá o peixe, de acordo com o provérbio chinês, mas ensina a pescar, ensina os seus discípulos a compreender e encontrarem a resposta por si próprios.
Jesus oferece-se, coloca-se face aos discípulos que fazem perguntas, que querem ver, que seguem para experimentar, e por fim cada um deles pode afirmar como Filipe para Nataniel, “encontrámos aquele de quem está escrito”.
O conhecimento é afinal um processo pessoal, um processo de encontro, que vem em direcção do outro que procura e deseja igualmente o encontro. De alguma forma Jesus deixa na nossa mão a liberdade da descoberta, do encontro, ainda que ele se apresente e venha também ao nosso encontro.
É neste sentido que Jesus diz a Nataniel que o tinha visto debaixo da figueira, ou seja, ele já tinha ido ao seu encontro, já o tinha procurado, ainda que Nataniel não se tenha dado conta disso, não tenha estado atento à oferta que se lhe fazia.
Também hoje Jesus vem ao nosso encontro, continua a vir ao encontro de todos os homens, e tal como para os primeiros discípulos deixa-nos a liberdade de podermos gozar a alegria de o descobrirmos, de nos encontrarmos com ele.
Como dizem hoje os jovens, Jesus não é pesado, não é um “cola”, mas pelo contrário deixa-nos a liberdade de podermos realizar um encontro, uma descoberta e de podermos dizer com toda a alegria, “tu és o Filho de Deus”.
Neste tempo de Natal, a partir dos pastores, passando pelos Reis Magos e até aos primeiros discípulos, Jesus deixa-nos a experiência de que se deixa encontrar por quem quer que o procure, que se faz descobrir por quem arrisca a aventura da descoberta.
O desafio permanece aberto para todos nós, procuremos pois libertar-nos dos medos e preconceitos e arrisquemos uma experiência.

 
Ilustração: “Filipe e Natanael”, gravura de W. J. Morgon.

Humildade e justiça

 
A humildade sem a justiça não é boa e há em nós suficiente espaço para que não batamos à porta certa.
Paul Claudel a Louis Massignon
Ilustração: Torre da Catedral de São Pedro de Genebra.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Jesus perguntou-lhes (Jo 1,38)


O reconhecimento e indicação, por parte de João Baptista, do Messias, do Cordeiro de Deus, têm como consequência imediata a partida de André e João no encalce de Jesus. São aqueles que serão os primeiros discípulos.
 O encontro com Jesus está marcado pelo tempo, pela hora, pormenor tão querido e significativo para o autor do quarto Evangelho na construção da progressiva revelação da pessoa e missão de Jesus.
Se em Caná da Galileia Jesus responde a sua mãe que ainda não tinha chegado a sua hora, na oração do jardim das oliveiras a hora premente e presente é assumida com tudo o que acarreta de dor, de sofrimento e de morte.
O primeiro encontro de Jesus com André e João acontece por volta das quatro horas ou meia tarde, conforme as traduções do original grego. Esta especificidade da hora remete-nos para um outro momento em que a hora é a mesma, o momento em que tudo foi consumado, em que Jesus se encontra morto na cruz.
Assim, num e noutro momento, os discípulos e nós próprios somos confrontados com o desafio de seguir Jesus e permanecer com ele apesar da insignificância dos sinais, ou mesmo, da contradição dos sinais.
André e João ficaram com Jesus naquele dia, mas certamente pouco teriam visto de extraordinário para imediatamente irem anunciar aos irmãos que tinham encontrado o Messias.
Junto à cruz, após a morte, o corpo exposto de Jesus é o mesmo sinal de vazio, de impotência, de uma normalidade sem qualquer importância; e contudo é permanecendo ali que se encontra a palavra para anunciar aos outros, que se faz a experiência e descoberta do Messias Salvador.
Par tal não se pode abdicar do processo que o encontro de João e André com Jesus desenvolve, um processo de questionamento que não tem resposta mas apenas perguntas. Jesus pergunta aos dois discípulos o que procuram e eles respondem-lhe com uma outra questão, onde moras?  
A nossa fé face à morte na cruz e à simplicidade da vida de Jesus, ao desencontro de significatividade diante das expectativas, encontra resposta e fortalecimento nesse questionamento mútuo, pois Deus não deixa de nos perguntar o que procuramos e nós não podemos deixar de lhe perguntar onde mora.
Onde mora hoje, aqui e agora, onde é possível fazer a experiência do encontro, a experiência da transignificação das nossas mesmas realidades de modo a podermos também partir a anunciar aos nossos irmãos que encontrámos o Messias Salvador.
O encontro com Jesus, a busca de fidelidade a Deus, é assim um processo que continua em aberto, em constante questionamento, o que exige uma capacidade de escuta para saber também no que somos questionados.  
Que o Espirito Santo ilumine o nosso coração e a nossa inteligência para colocarmos as questões que Deus espera de nós, e nos conceda a paz e o silêncio interior para escutarmos as questões que também Deus nos coloca.

Ilustração: “São João Baptista aponta o Messias a André”, de Ottavio Vannini na Capela del Rosso, Igreja de San Gaetano, Florença.