quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Senhor é a nossa fortaleza eterna! (Is 26,4)

Vivemos no meio da cidade, cercados de sistemas de vigilância, de alarmes que disparam ao menor sinal. As portas das nossas casas são blindadas e por precaução instalámos um sistema que nos avisa de qualquer intrusão.
Vivemos nas fortalezas que fomos construindo, muito diferentes das muralhas dos castelos e fortalezas medievais, mas ao mesmo tempo em tudo semelhantes, pois as vedações e blindagens que colocamos são fruto dos nossos medos, tal como acontecia com os antigos.
E é face a estes medos que o Senhor nos diz que é a nossa fortaleza eterna, que se nos oferece como lugar de repouso e segurança, que nos garante que Nele nada há a temer.
É o Senhor como fortaleza que nos avisa para termos cuidado com a segurança que colocamos nos homens e nas obras dos homens, que nos alerta para o refúgio que não nos garantem os poderosos apesar das suas promessas atractivas.
É o Senhor que nos abre as portas, que nos convida a entrar, que nos desafia a construir sobre a rocha que é Ele próprio, a colocar a nossa confiança em Si e não nas nossas parcas forças e meios de protecção.
Quanto mais nos protegemos, por nossa conta, mais frágeis nos tornamos, e a ciência e a medicina não deixam de corroborar esta afirmação.
Desta forma não posso deixar de me questionar sobre a confiança que deposito nos outros e em Deus, sobre quê ou quem vou construindo a minha vida, quais são as fontes da minha força e coragem, da minha perseverança em seguir o caminho que Jesus nos abriu.
O meu coração está firme Senhor, o meu coração confia em vós, porque só vós Senhor me concedeis a paz!

 
Ilustração:
“Burg Kerpen”, de Fritz von Wille, Alemanha.  

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Veio ter com Ele uma multidão! (Mt 15,30)

À beira do mar ou no meio do monte a multidão procura Jesus, corre atrás dele com os seus doentes e possessos na expectativa de uma cura, de um milagre. Trazem-lhe os coxos e os aleijados, os cegos e os mudos, e lançam-nos aos seus pés.
Também nós te buscamos Senhor Jesus nesta caminhada de Advento, umas vezes mais conscientemente outras vezes nem tanto, algumas vezes porque vais fazendo parte da nossa vida, outras vezes porque se tornou tradição procurar-te no Advento.
E nesta busca não podemos deixar de te confiar e entregar os nossos coxos e aleijados, os nossos cegos e mudos, aqueles que estão possuídos.
Fostes tu Senhor que nos dissestes que até aquilo que pensamos que temos nos será tirado se não o tivermos posto a render. E quantos dons recebemos e já não nos pertencem!
Neste dia de Advento, a teus pés Senhor, vimos lançar o que em nós está doente e perdido.
Cura-nos deste coxear entre a fé e a indiferença, desta disfunção entre o acreditar no interior da igreja e o testemunhar diante daqueles que acusam os cristãos e a Igreja.
Cura-nos da paralisia que nos impede de ir ao encontro do outro, de estender a mão e fazer as pazes, de ir para além de nós e das nossas próprias ideias.
Cura-nos da cegueira que nos impede de ver o outro como ele verdadeiramente é, da cegueira que resulta de olharmos o nosso próprio umbigo.
Cura-nos da mudez das palavras de carinho e conforto, do silêncio das expressões de amor, do perdão que podíamos e devíamos ter pedido e não pedimos, que devíamos ter acolhido e não acolhemos.
Cura-nos Senhor e alimenta-nos com a Tua Palavra e o Teu Corpo para não perdermos nada mais do que nos confiares, para não desfalecermos nesta busca constante em que nos colocastes com o teu amor!

 
Ilustração:
“Jesus cura os doentes”, de Gebhard Fugel, Dombergmuseum Freising.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Revelastes aos pequeninos (Lc 10,21)

Jesus exulta de alegria na sua oração, pois o Pai não se revelou aos sábios nem inteligentes mas aos pequeninos.
Ele próprio se fez pequenino, menino de colo, para que todos se pudessem encontrar com ele, para que todos pudessem fazer essa experiência do encontro com Deus na pequenez.
O nosso Deus não é assim um Deus que assusta ou intimida, não é um Deus que escraviza, não é um Deus que nos coloca à distância, mas um Deus que vem até nós, que se oferece frágil e indefeso.
Como nos custa aceitar esta fragilidade e pequenez, como gostamos do poder e da glória de Deus, como gostamos da nossa própria grandeza e pretensões de poder.
Como é mais fácil viver comos escravos do poder e da glória, nas nossas máscaras que aparentam uma realidade que não existe, uma pessoa que não somos; como é mais fácil viver sob o jugo de um Deus que nos manipula e controla.
E, contudo, o Deus que se nos revela é um Deus menino, o que nos pede é que sejamos pequeninos para vivermos unidos a Ele nas fragilidades que partilhamos.
O Advento é um convite a esta pequenez, ao acolhimento da nossa pobreza e fragilidade, é nela e apenas nela que Deus pode nascer e crescer, fazer-se novamente homem.
Pelo menos hoje vou procurar ser pequenino, vou viver as minhas limitações e fraquezas sem medo nem complexos, porque nelas Deus quer nascer e fazer-se luz transfiguradora.

 
Ilustração:
“Deixai vir a mim os pequeninos”, de Fritz von Uhde, Museu Estatal de Pomerania.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Eles seguiram-no! (Mt 4,22)

Passado o portal do primeiro domingo Advento eis que nos encontramos com um convite, “vinde e segui-me”.
Iniciamos uma caminhada, que afinal é uma resposta a um convite.
Não é iniciativa nossa, alguém nos precede e nos desafia no seu seguimento.
Como vou eu responder?
No mundo grego e no judaísmo do primeiro século seguir um mestre implicava um conjunto de serviços e prestações àquele pelo qual se tinha optado. Era o discípulo que escolhia o seu mestre e portanto devia mostrar-lhe por gestos a sua opção e preferência.
Com os discípulos de Jesus a realidade é diferente, pois é o mestre que escolhe e chama aqueles que o seguem. O seguimento não se traduz assim por uma manifestação ou demonstração de preferência, mas por um acolhimento de uma intimidade oferecida.
O convite ao seguimento de Jesus desafia-nos assim na obediência espontânea e imediata, uma vez que esta intimidade partilhada nos qualifica como testemunhas e colaboradores, nos envolve numa dinâmica de um “ser com” para um “ser para”, ser com Jesus para ser para os homens nossos irmãos.
Que hoje o meu seguimento de Jesus se traduza numa prontidão e num ardor renovado, numa intimidade profunda que me leva ao testemunho fiel.

 
Ilustração:
“O chamamento de São Pedro e André”, de Caravaggio, Palácio de Buckingham, Londres.

domingo, 29 de novembro de 2015

Homilia do Domingo I do Advento


Estamos a iniciar um novo Ano Litúrgico e com ele um novo tempo de Advento, quatro semanas de preparação para a celebração do Natal do Senhor. É um tempo de graça, uma nova oportunidade para fazer a experiência de Deus que vem ao nosso encontro, que vem habitar entre os homens.
É verdade que todos os anos vivemos este tempo de Advento, e que podemos sentir que já pouco nos diz, que já não nos motiva, e ainda mais quando na sociedade e cultura em que nos movemos toda a preparação parece já nos ter ultrapassado.
Mas por esta mesma razão, pelo comércio feito à volta desta festa e que nos deixa um sentimento de repulsa e insatisfação, temos que reassumir este tempo e esta oportunidade como um dom divino, como uma graça que nos é concedida.
Neste sentido, temos que assumir que o Advento não tem apenas por objectivo ajudar-nos a preparar a celebração do Natal, mas que antes de mais é um tempo para reavivar e reanimar a esperança.
A oração inicial da Colecta colocava-nos nesta sintonia quando nos convocava a despertar a vontade firme pela prática das boas obras para ir ao encontro de Cristo. É o encontro com Cristo que está em causa, é o encontro com Cristo Jesus que nos deve motivar e impelir em tudo o que fazemos.
Deus veio e vem ao nosso encontro em Jesus Cristo e portanto o que se espera de cada um de nós é essa disposição para o acolher, é a abertura do nosso coração à sua vinda e presença, que acontece constantemente, mas se torna efectiva e de verdade na medida da fé e da esperança com que acolhemos o dom que nos é feito.
Não podemos deixar que o nosso coração se torne pesado, ou inerte, que sejamos dominados pelas preocupações da vida ou pelas realidades que nos embriagam e distraem da verdade das nossas vidas e da vida de Deus em cada um de nós.
O Advento é assim um convite, cheio de esperança e confiança da parte do próprio Deus, a colaborar de uma forma renovada na presença do Senhor entre os homens, a uma actualização do mistério da encarnação, a fazer presente novamente entre os homens o dom do Filho de Deus.
Esta participação e realização acontecem, tal como nos diz São Paulo na Carta aos Tessalonicenses, através da caridade que vivemos e manifestamos uns pelos outros, da justiça que pomos em prática e da verdade a que nos configuramos e somos fiéis.
São o perdão, a fraternidade, a solidariedade, a atenção ao outro, a um outro que tantas vezes está ao nosso lado e nos passa despercebido, que nos fazem viver verdadeiramente a presença de Deus entre nós.
Este tempo de graça é contudo para muitos dos nossos irmãos um tempo de inoportunidade, como lhe chamou a religiosa espanhola Dolores Aleixandre, porque confrontados com a luz e a beleza, com o esplendor e a riqueza, com a paz anunciada pelos textos bíblicos, muitos dos nossos irmãos sentem mais amargamente e de uma forma mais acutilante a sua pobreza, a sua miséria, as consequências da guerra e da violência, o isolamento a que foram votados.
O Advento é assim o tempo e a oportunidade para cada um de nós, de nesta inoportunidade, marcar a diferença, fazer com que algo aconteça, e aconteça de tal modo que o Natal não seja um motivo de dor ou sofrimento, mas uma verdadeira festa, uma fraternidade renovada.
O Advento desafia-nos assim a abrir os olhos aos nossos irmãos, às realidades que provocam sofrimento e a ir ao seu encontro, a fazer encontro de modo a que algo nasça, a que um nascimento para outra vida aconteça.
Ao acender a primeira vela da coroa de Advento pedíamos ao Senhor que nos iluminasse para que pudéssemos distinguir o autêntico do falso, o justo do injusto, o que está bem do que está mal, para podermos levar a luz verdadeira do Natal a todos os homens e a todas as realidades que encontramos a cada passo do nosso dia a dia.
Seja este o nosso programa desta primeira semana do Advento e que a luz de Cristo brilhe em todos os nossos sentimentos, palavras e gestos.



Ilustração:

Fotografia da primeira vela da coroa de Advento de 2014 da igreja de Cristo Rei – Porto

Naqueles dias... (Jr 33,16)


Uma voz clama entre os destroços da guerra e as dores da violência.

É a voz de Deus: Naqueles dias…

Estes são os dias, este é o tempo. Chegou para sempre!

Cabe-nos viver as horas, os dias, o tempo,

Entre os alarmes de fogo e de guerra, os dias de hoje!

Despertos, vigilantes, erguidos, com a cabeça levantada.

Hoje não é ontem, nem será amanhã

Hoje é hoje e tudo começa, um fim, um princípio.

Hoje é a primeira vez, e assim será sempre,

E então, avanço, lanço-me, confio no futuro!

A voz que ecoa pelos séculos, “Naqueles dias…”

Atrai-me sedutora, num choro de criança recém-nascida!

domingo, 1 de novembro de 2015

Homilia da Solenidade de Todos os Santos

Celebramos a Solenidade de Todos os Santos, fazemos memória e prestamos honra a todos os santos, àqueles que são conhecidos e ocupam um lugar no calendário, àqueles que foram objecto de uma declaração formal da Igreja ou da devoção de um povo, e também àqueles que passaram pelo mundo sem reconhecimento, santos do anonimato, mas que não deixaram de viver o projecto de santidade de Deus.
Projecto que nos alcança a todos, no qual todos estamos integrados, e por essa razão podemos dizer que hoje nos festejamos a nós próprios, que esta é a nossa festa, pois tendo sido chamados à santidade vivemos na prossecução dessa realidade, vivemos o dom que Deus nos concede nas nossas limitações e fragilidades mas sempre com o horizonte da plenitude que se encontra no próprio Deus.
Na celebração do baptismo, depois da unção com o óleo do crisma, o sacerdote chama a atenção do neófito e da sua família para a veste branca que é símbolo da dignidade cristã e convida o baptizado a conservá-la imaculada até à eternidade com a ajuda da família. Desde o baptismo passamos assim a fazer parte dessa numerosa assembleia que o Apocalipse nos apresenta diante do Cordeiro, e a veste mais ou menos brancas, mais ou menos imaculada, é o resultado do acolhimento e da resposta a esta dignidade.
A leitura da Primeira Carta de São João que escutámos elucida-nos sobre esta dignidade, que não é um atributo externo, uma condecoração por bom comportamento, mas uma natureza, uma identidade, que resulta do amor admirável de Deus, amor esse que nos chama e quer como filhos. Somos filhos de Deus, poderíamos dizer que somos deuses, mas tal só se verifica e realiza na medida em que acolhemos a mesma divinidade que nos identifica.
A santidade é assim um dom que Deus faz a cada um de nós, uma oferta, uma oportunidade de nos irmos transformando naquele que se nos oferece, e por isso o mesmo São João nos diz no texto da Carta que lemos que necessitamos de nos ir purificando para ser puros como o verdadeiramente santo é puro. A transfiguração de Jesus no monte Tabor deixa-nos uma imagem do desenvolvimento do processo, pois também ali a divindade de Jesus é comunicada pela brancura das suas vestes.
A transformação, ou transfiguração, que a santidade exige de nós aparece expressa nas Bem-Aventuranças que Jesus apresenta aos discípulos e escutámos no Evangelho de São Mateus que foi lido. Necessitamos modificar a nossa vida, perceber como a felicidade e a verdadeira realização não se alcançam com muito ter ou muito poder, mas pelo contrário com um despojamento, um esvaziamento, um empobrecimento que possibilita a absorção do dom da santidade, se assim se pode falar.
E se ao olharmos as Bem-Aventuranças formos tentados a pensar que elas são difíceis, que estão dirigidas a apenas alguns eleitos, temos que assumir antes de mais que Jesus as viveu na sua própria carne antes de as apresentar e propor aos discípulos, portanto elas estão humanizadas, e que depois muitos homens e mulheres também as procuraram viver na simplicidade da sua condição, nas limitações da sua fragilidade humana.
A vida dos santos, alicerçada neste projecto das Bem-Aventuranças, não os torna pessoas irrepreensíveis, super-homens impecáveis, bem pelo contrário fá-los tomar consciência das suas limitações e fragilidades, das suas infidelidades, e a partir delas a perceber como o amor e a graça de Deus actua no sentido da verdade e felicidade eterna da pessoa.
Se o fariseu se aproximou do altar de Deus considerando-se o melhor, como tendo feito tudo de modo perfeito e de acordo com a lei, o publicano pelo contrário aproximou-se pecador e suplicante, como o mais miserável dos homens. Contudo, foi o publicano pecador que regressou justificado a casa, cheio do amor de Deus, ao contrário do fariseu que regressou cheio do seu orgulho e portanto vazio de Deus e da sua santidade.
Que ao celebrarmos os santos, ao glorificarmos estes filhos ilustres da Igreja e as suas vidas cheias da acção de Deus, compreendamos que a santidade que Deus nos pede não é uma santidade orgulhosa, consequência do nosso esforço musculado, mas uma abertura à manifestação cada vez mais luminosa e clara da nossa dignidade de filhos de Deus.
Quanto mais vivermos como filhos muito amados por Deus mais manifestaremos a santidade do Pai, e mais próximos estaremos de o ver, tal como ele é, na nossa própria carne.

 
Ilustração:
1 – “Juízo Final” de Fra Angélico. Pormenor. Gemaldegalerie, Berlim.
2 – “Juízo Final” de Fra Angélico. Pormenor. Gemaldegalerie, Berlim.